CAPÍTULO 44 - MALIGNO





Mais uma vez, optamos pela escadaria. O único elevador do prédio onde Leo e sua mãe moram está quebrado.


Antoine e eu saltamos os degraus de dois em dois enquanto Vincenzo ajuda Celeste a subir mais devagar. Ela reclama das dores nas pernas.


Herança dos tempos na Legião.


Assim que alcançamos o andar, Antoine corre em direção à porta do apartamento de Leo. Um único chute meu quase arranca a madeira da fechadura.


A porta se abre.


O cheiro pútrido me atinge primeiro.


Depois, o caos.


— Leo! — Antoine avança.


Seguro seu braço antes que ela consiga tocá-lo.


— Não consegue ver quem está atrás dele, filha?


— Não me importo! Não tenho medo de demônios!


— Não se trata de medo. Se trata de entender o que ele quer.


— Mãe, me solta! O Leo tá sofrendo!


— Aquele não é o seu Leo, filha. Não é o nosso Leo. Presta atenção. Olha com os olhos da tua alma.


Mantendo-a segura, observo seu olhar mudar lentamente.


Leo destrói a televisão com as próprias luvas de boxe enquanto a mãe permanece jogada num canto da sala, completamente apática.


Há marcas profundas em seus braços.


Arranhões.


Sangue seco.


Como se tivesse tentado arrancar alguma coisa de dentro da própria pele.


Lembro de tudo o que estudei sobre Astaroth desde a primeira vez em que Leo mencionou aquele nome.


Não.


Leo não é filho legítimo daquele demônio.


Homens inventam histórias demais sobre criaturas infernais.


Qualquer entidade pode assumir nomes antigos, prometer vingança a uma mortal desesperada e brincar de divindade diante da dor humana.


A própria criatura confirma isso através da voz distorcida de Leo.


— Nada tenho a ver com essa mortal idiota! Ela me invocou através daquela tábua arcaica pedindo vingança contra a amante do pai desse menino! Revelei verdades que ela não suportou ouvir! O homem simplesmente encontrou outra mulher e nunca mais voltou!


O corpo de Leo é arremessado contra a parede.


Antoine grita.


— Depois, ela pediu dinheiro! Eu mostrei caminhos! Ela desperdiçou tudo com inutilidades humanas! Ainda assim continuou chamando por mim! Isso me encheu de ira!


Leo é lançado de um lado ao outro da sala enquanto móveis quebram ao redor.


Meu estômago revira.


Antoine tenta avançar.


Celeste a impede apenas com um olhar.


Então, para nossa surpresa, ela se ajoelha diante da criatura.


— Deixe o menino livre, mestre.


Astaroth silencia.


— Ele nada tem a ver com os pecados da mãe.


A voz de Celeste muda.


Humilde.


Respeitosa.


Perigosa.


— Ela não o conhecia como eu conheço, Duque.


O apartamento inteiro parece prender a respiração.


— Conte-me novamente sobre a Criação. Sobre os tempos em que caminhava entre os mais amados do Criador.


Percebo imediatamente o que ela está fazendo.


Orgulho.


Ela está alimentando o orgulho dele.


Enquanto Astaroth hesita, Vincenzo arrasta Leo desacordado para o corredor junto de Antoine.


A mãe do garoto continua imóvel.


Catatônica.


Quase grito para ela sair dali.


Mas os olhos amarelados da criatura recaem sobre mim.


Ele se aproxima devagar.


Grande demais.


Alto demais.


O cheiro podre faz meu corpo inteiro querer fugir.


Astaroth me fareja como um animal.


— Você cheira a pecado.


Engulo em seco.


— Gosto disso.


Celeste segura minha mão com força.


Um aviso silencioso.


Não corra.


Não provoque.


Não morra.


— Você já esteve em uma de nossas legiões? — pergunta ele.


— Nunca tive o prazer.


Mentira.


A maior da minha vida.


— Mas conheço sua história.


Os olhos reptilianos se estreitam.


— E o que lhe contaram?


— Que foi expulso injustamente do paraíso. Que possui o dom de revelar o passado e o futuro dos humanos. Que muitos o invocam sem compreender sua ira.


Aponto discretamente para a mãe de Leo.


— Foi o caso dela.


A expressão dele muda instantaneamente.


Raiva.


— Ela fez um pacto comigo. Vingança e dinheiro em troca da alma.


— E o menino?


— Não me interessa mais.


Alívio atravessa meu peito tão rápido que quase me faz chorar.


— Então ele está livre?


Astaroth se aproxima tanto que sinto sua respiração quente em meu rosto.


— Eu não sou justo, criatura.


O apartamento inteiro treme.


As paredes racham.


Objetos voam.


— Sou um demônio cheio de ira! Nojo! Ódio pelos humanos! Se pudesse destruiria essa raça miserável agora mesmo!


Encolho os ombros de puro pavor.


— Entendi.


— NÃO! VOCÊ NÃO ENTENDE!


Ele atravessa a sala destruindo o que ainda restava dos móveis.


— Quem se mete comigo recebe exatamente aquilo que merece!


— Mas a amante do marido dela não tinha nada a ver com isso...


O rugido dele faz as janelas vibrarem.


— EU NÃO FAÇO JUSTIÇA! EU COBRO PELO QUE FAÇO!


Silêncio.


Pesado.


Terrível.


Tento respirar devagar.


— Ouvi dizer que ainda deseja voltar para o paraíso.


Astaroth congela.


— Quem lhe disse isso?


Minha mente grita para que eu cale a boca.


Ignoro.


Como sempre.


— Lúcifer.


Celeste aperta minha mão com tanta força que quase quebra meus dedos.


Boa sorte explicando isso depois, Dess.


Os olhos da criatura se arregalam.


— LÚCIFER?


Dou de ombros lentamente.


— Ele comentou que ainda discutem sobre sua expulsão.


Astaroth cresce.


Literalmente.


Os chifres rasgam parte do teto.


— EU SOU O CONSELHEIRO DE LÚCIFER!


O prédio inteiro estremece.


— POR QUE ELE NUNCA ME DISSE NADA!?


E é exatamente nesse momento que percebo duas coisas:


A primeira é que talvez eu tenha acabado de iniciar uma guerra diplomática no inferno.


A segunda...


é que Astaroth claramente tem problemas sérios de rejeição.


— Talvez ele o queira no inferno e não aceite te perder...


A unha imensa e imunda de Astaroth desliza pelo meu rosto.


Preciso lutar contra o impulso de vomitar.


— O que você é de Lúcifer? — rosna ele. — Por que o Portador da Luz conversaria com uma humana medíocre?


Abro a boca.


Nenhuma ideia sai dela.


Então, como toda pessoa emocionalmente instável colocada diante de um demônio ancestral, improviso.


— Porque ele é um traidor.


Celeste me encara, horrorizada.


O urro de Astaroth explode pelo apartamento.


As luzes estouram.


As paredes racham.


Nós duas tapamos os ouvidos enquanto o chão vibra sob nossos pés.


Quando consigo abrir os olhos novamente, meu sangue congela.


A mãe de Leo está presa em uma das mãos da criatura.


Ela desperta finalmente.


Tarde demais.


Debatendo-se em puro desespero, ela grita enquanto as garras infernais apertam lentamente seu corpo.


— NÃO! POR FAVOR! NÃO!


Meu coração dispara.


— Deixe que ela fique! — imploro. — Mostre ao Criador que você mudou! Que merece uma segunda chance!


Os olhos flamejantes recaem sobre mim.


— Dívida é dívida.


A mulher se debate ainda mais.


— Ela me invocou para o Mal. Em nome do Mal, eu a levo como pagamento.


— E o Leo!? — grito de volta. — Ele está livre de você!? Da sua ira!?


Astaroth sequer hesita.


— Não o conheço. Que siga sua vidinha miserável nesta Terra imunda.


Celeste dá um passo à frente.


Ainda ajoelhada.


Ainda humilde.


Ainda absurdamente corajosa.


— Dê uma nova chance à mãe do menino, mestre! Ela agiu por ignorância!


A expressão dele muda imediatamente.


Desconfiança.


Perigo.


— Por que me chama de mestre? — pergunta num tom baixo demais. — Ainda pertence a uma de minhas legiões?


Celeste paralisa.


Consigo sentir o medo atravessando o corpo dela.


Ótimo.


Agora éramos duas.


Antes que ela responda qualquer idiotice suicida, abaixo a cabeça dramaticamente e me adianto:


— Sim.


Meu cérebro claramente já havia desistido de funcionar naquele momento.


— Ela lidera a rebelião contra a Legião dos Rebelados.


Silêncio.


Meu Deus.


“Legião dos Rebelados”?


Foi isso mesmo que saiu da minha boca?


Nem eu entendi o que inventei.


Mas Astaroth continua me encarando.


Então continuo.


Porque aparentemente morrer esmagada por um demônio não era humilhação suficiente pra uma noite só.


— Daqueles que se recusam a aceitar suas ordens, grande Astaroth.


Longos segundos se arrastam.


Celeste treme ao meu lado.


A criatura a observa atentamente.


Então...


ele sorri.


Não deveria existir algo tão horrível usando uma expressão humana.


— Acabe com todos.


Celeste abaixa ainda mais a cabeça.


— Mestre...


— Só pode existir uma rebelião.


As sombras ao redor dele começam a crescer pelas paredes.


— A nossa.


O apartamento inteiro mergulha numa escuridão pulsante.


— A primeira e única. Liderada pelo Portador da Luz.


— Deixe a mãe de Leo! — grita Celeste.


Mas Astaroth já nos dá as costas.


A mulher debate-se em seus braços enquanto um rasgo colossal se abre no chão da sala.


O cheiro de enxofre invade tudo.


Então ouvimos os gritos.


Gritos tão desesperados que fazem meu corpo inteiro congelar.


E, num único instante grotesco...


ela desaparece.


O buraco se fecha.


Silêncio.


Pesado.


Morto.


Abraço Celeste imediatamente.


Ela está gelada.


Nós duas corremos para o corredor.


Vincenzo nos espera ajoelhado ao lado de Leo, ainda desacordado parcialmente.


Antoine acaricia os cabelos dele enquanto tenta conter o próprio choro.


Quando Leo finalmente abre os olhos, a primeira pergunta destrói o pouco que restava dentro daquela noite.


— Minha mãe...?


Ninguém responde.


Escondo meu rosto no pescoço de Vincenzo.


— Minha mãe! — insiste ele, desesperado. — Pra onde ela foi!?


Celeste se ajoelha diante dele.


Os olhos inundados.


A voz quebrada.


E mente da forma mais bonita e cruel possível.


— Ela morreu antes do fim. Astaroth não conseguiu levar sua alma.


Leo a encara como uma criança perdida.


— Antes de partir... ela disse que te amava mais do que tudo.


Antoine começa a chorar ainda mais.


— Ela foi forte até o fim.


Leo aperta os olhos com dor.


— Como sabe que ele não levou a alma dela!? Onde está o corpo da minha mãe!?


Ninguém responde.


Porque não existe resposta boa para uma cena dessas.


— Preciso ver minha mãe!


— Calma, Leo... — implora Antoine.


Então percebo.


Ele jamais conseguiria continuar vivendo carregando aquela lembrança.


O desaparecimento.


Os gritos.


O inferno abrindo diante dos próprios olhos.


Abraço Leo com força.


— Eu vi tudo.


Mais uma mentira.


Mais uma misericórdia.


— Sua avó veio buscá-la.


Ele me encara em silêncio absoluto.


— Ela chamou por sua mãe antes de partir.


Sinto o corpo dele desabar emocionalmente em meus braços.


Então me volto para Vincenzo.


Pela primeira vez desde que tudo começou...


eu imploro.


— Apaga as memórias dele desse dia.


Minha voz falha.


— Por favor.


Vincenzo permanece imóvel por alguns segundos.


Confuso.


Exausto.


Talvez assustado com o próprio poder.


Então ajuda Leo a caminhar lentamente pelo corredor.


— Vou tentar.


E, pela expressão no rosto do meu marido...


percebo que talvez apagar memórias seja muito mais cruel do que conviver com elas.




Com o auxílio de Enrico, Vincenzo leva Leo, ainda desorientado, até a sala de treinos e fecha a porta, deixando-me do lado de fora.


Observo a maçaneta por alguns segundos.


Pensativa.


Seria ele capaz de apagar minhas memórias algum dia?


Se isso me protegesse?

Se me salvasse?

Ou pior...

se o beneficiasse de alguma forma?


O riso de Matteo atravessa meus pensamentos como um raio de sol rompendo uma tempestade.


Volto à realidade imediatamente.


Vincenzo jamais faria algo para me machucar.


Espero.





Sean dorme em nosso quarto, acomodado no antigo berço de Matteo.


Após alguns curativos, pontos improvisados e um dos meus “comprimidinhos mágicos”, Leo conversa com Antoine na sala de cinema.


Aéreo.


Quase tranquilo.


Segundo ele, sua mãe morreu há um mês.


Infarto fulminante durante o trabalho.


Ele descreve o enterro, as flores, o velório, o cheiro da igreja, a roupa que usava naquele dia.


Tudo com tantos detalhes...


que começo a duvidar de mim mesma.


Talvez eu esteja enlouquecendo.


Talvez nada daquela noite tenha acontecido.


Talvez eu tenha imaginado o inferno se abrindo no chão de um apartamento apertado enquanto um demônio arrastava uma mulher aos gritos.


Celeste descansa na varanda ao lado de Enrico, exausta demais até para ironizar alguém.


Decido procurar Cassie.


Assim que entro no quarto de hóspedes, encontro roupas espalhadas pelo chão.


Muitas roupas.


Vestidos.


Blusas.


Perfumes abertos sobre a cama.


Ela demorou escolhendo.


Pego algumas peças do chão antes de levá-las ao cesto.


O perfume floral dela ainda permanece no tecido.


Então...


a visão me atinge.


Cassie sorrindo enquanto desliga o celular.


Abrindo discretamente o portão de nossa casa.


A voz suave.


Sedutora.


Perigosa.


— Me espera, coelhinho. Já estou indo.


Meu sangue ferve.


— Porra... eu não acredito.


— Em quê, Dess?


Vincenzo surge atrás de mim carregando Matteo no colo.


— Cassie foi atrás daquele maldito! Tudo o que fizemos não valeu de nada! Ela ainda o quer!


— Calma, amor...


Ele beija minha testa com ternura.


Uma calma irritantemente bonita.


— Não dá pra controlar tudo. Ela vai enxergar quem ele é.


— E o Sean!? — desespero-me. — Não quero aquele menino fora desta casa!


Desabo contra seu peito.


Matteo imediatamente começa a acariciar meus cabelos.


— Mamãe dodói...


Meu coração se parte inteiro.


Beijo sua bochecha gordinha enquanto Vincenzo nos envolve num abraço silencioso.


Longo.


Seguro.


Por alguns segundos, o inferno parece muito distante daquela casa.


Então ele murmura perto do meu ouvido:


— Que tal pensarmos em nós dois... só hoje?


Ergo os olhos para encará-lo.


Matteo, animado, beija a bochecha do pai.


Traidorzinho.


— Há quanto tempo não usamos aquela banheira com hidromassagem?


Reviro os olhos.


— Nossa... nem lembro mais. Tanta desgraça aconteceu nessa casa ultimamente.


O sorriso lento de Vincenzo faz meu corpo inteiro reagir.


Maldito homem.


— Tem algum compromisso importante daqui a vinte minutos, esposa?


Sorrio imediatamente.


— Não, marido. Mas acho que nosso filho não pretende dormir tão cedo.


— E pra que servem as irmãs mais velhas?


Ele me beija devagar.


Daqueles beijos perigosos.


Os que fazem a gente esquecer até o próprio nome.


— Me espera no banheiro em dez minutos. Sem roupa.


— Ok.


Respondo rindo.


Pela primeira vez naquela noite... rindo de verdade.


Corro até nosso quarto.


Fecho a porta do banheiro atrás de mim.


Retiro o vestido e o arremesso dentro do cesto de roupas enquanto abro as torneiras da banheira.


A água quente começa a subir lentamente.


Derramo sais de lavanda e alecrim.


O perfume invade o ambiente.


Brinco distraidamente com as espumas enquanto relembro a primeira noite em que usamos aquela banheira.


Parece outra vida.


Prendo os cabelos num coque desalinhado.


Penso em pedir uma música à Alexa.


Mas, antes que eu consiga falar qualquer coisa, uma mão segura minha cintura.


Meu corpo inteiro arrepia.


Vincenzo me puxa contra ele.


Eu o abraço imediatamente, distribuindo beijos pelo rosto.


Seu nariz.


Seu maxilar.


As pequenas cicatrizes.


O sorriso torto surge em seus lábios.


— Meu rosto não é perfeito.


A voz rouca vibra perto da minha boca.


— Já levei porrada demais nessa vida, Dess. Tá tudo torto.


Seguro seu rosto entre minhas mãos.


Observo cada marca.


Cada imperfeição.


Cada pedaço do homem que sobreviveu ao próprio inferno ao meu lado.


E talvez seja exatamente isso...


que o torne tão bonito.


— Perfeito? — sorrio, deslizando os dedos pela linha torta de seu maxilar. — Depois de tudo o que já viveu, seria estranho se fosse.


— Então ainda gosta do que vê? — provoca ele, rouco.


— Muito. Principalmente da parte da cueca claramente pedindo liberdade.


O riso grave vibra contra minha boca antes do beijo urgente nos fazer tropeçar pelas roupas espalhadas no chão. Um dos vidros de sais de banho cai e rola pelo piso enquanto Vincenzo me prende contra a parede fria do banheiro.


O contraste me arranca um arrepio.


Seus lábios descem lentamente pelo meu pescoço, demorando-se ali como se tentasse apagar semanas inteiras de medo, tensão e noites mal dormidas. Fecho os olhos ao sentir seus dentes roçarem minha pele.


— Vincenzo…


— Me diz pra parar. — murmura ele, sem parar.


— Nem pensar.


Seu sorriso nasce torto, perigoso, exatamente do jeito que amo.


As mãos dele seguram meus pulsos acima da cabeça enquanto sua testa encosta na minha. Há fome em seus olhos. Saudade também. Como se estivéssemos tentando nos reencontrar depois de uma guerra.


E talvez estivéssemos.


Ele me conduz até a banheira coberta por espuma e entra primeiro, afundando na água morna enquanto me observa em silêncio. O vapor dança ao redor de seu corpo e, por alguns segundos, consigo esquecer demônios, legiões e tragédias.


Só existe nós dois.


Ergo lentamente uma das pernas e mergulho na água.


Então os gritos começam do lado de fora.


Vincenzo fecha os olhos por um instante, derrotado.


— Não é possível… — resmungo.


— Com a nossa família? É totalmente possível.


Ele se levanta da banheira já irritado, puxando a toalha para a cintura.


— Mais um problema.


Antes que eu responda, ele me envolve no roupão e segura minha mão. Descemos pelo corredor às pressas até encontrarmos Cassie completamente transtornada, os cabelos desgrenhados e os olhos tomados por desespero.


— Onde está o meu filho!? — grita ela ao me ver. — O que você fez com ele!?


Vincenzo imediatamente se coloca entre nós.


— Olha como fala com a minha esposa.


— Ela quer tirar meu filho de mim! — acusa Cassie, chorando. — E você não percebe!


Meu estômago afunda.


— Quem colocou isso na sua cabeça? — pergunto, tentando manter a calma. — Aquele desgraçado que quase matou vocês dois?


Ela recua como um animal acuado.


— Não fala dele!


— Cassie, acorda! Sean quase morreu! Você lembra da incubadora? Das agulhas? Do estado em que aquele bebê ficou!?


— Isso nunca aconteceu! — ela grita, embora a própria voz vacile. — Ele me avisou que você mentiria! Ele disse que vocês tentariam me afastar dele!


Os olhos dela se movem rápido demais. Os braços tremem.


Algo está muito errado.


Dou um passo em sua direção, mas Vincenzo segura meu braço.


Tarde demais.


O som da cabeça de Cassie batendo contra o chão ecoa pelo corredor.


Por um segundo horrível, ninguém se move.


Então o corpo dela começa a convulsionar.




Antoine se desespera ao ver a melhor amiga se debatendo no chão do corredor. Leo, ainda atordoado, tenta segurá-la, repetindo que tudo ficaria bem.


Vincenzo alcança um dos travesseiros do sofá e o acomoda sob a cabeça de Cassie. Os olhos dela, revirados e absurdamente brancos, fazem meu estômago afundar.


— O que eu faço!?


— Nada. Se afasta. — ordena Vincenzo, ajoelhando-se ao lado dela enquanto impede que Antoine a segure. — Não prendam os braços dela.


Matteo e Sean começam a chorar ao mesmo tempo.


O caos se espalha pela casa como fumaça.


Celeste acolhe Sean nos braços enquanto Enrico tenta acalmar Matteo. Tremendo, obedeço Vincenzo quando o corpo de Cassie finalmente desacelera.


— Vira ela de lado. Isso. Assim evita engasgos. — Ele mantém os olhos atentos nela antes de perguntar: — Levou mais de cinco minutos?


— Eu... eu não sei. Acho que não.


— Ela precisa acordar logo ou vamos levá-la ao hospital.


Passo as mãos pelo rosto.


— Meu Deus... parece que a gente nunca sai de hospitais e cemitérios.


— Minha mãe foi enterrada no mês passado, tia. — murmura Leo, perdido dentro da própria dor.


Meu peito aperta.


— Eu sei, querido.


Os dedos de Cassie se movem primeiro.


Depois, um gemido fraco.


— O que... aconteceu...?


— Você teve uma convulsão. — Aproximo-me instintivamente. — Devagar.


Ela ergue o tronco com dificuldade.


Ofereço minha mão.


Cassie me encara como se não me reconhecesse direito.


Ou pior:

como se reconhecesse outra coisa em mim.


Ela ignora minha ajuda.


Vincenzo a ergue do chão com facilidade e a leva nos braços até o quarto. Cassie apoia a cabeça contra o peito dele enquanto seus dedos se fecham lentamente na camisa molhada de água e suor.


Não gosto daquilo.


Não gosto nem um pouco.


Sentada na cama, ela leva a mão à cabeça.


— Está doendo...


Vincenzo se acomoda na beira do colchão.


Calmo. Paciente. Quase paternal.


— Você bateu a cabeça quando caiu. Consegue lembrar de alguma coisa?


— Não muito... Eu cheguei da rua... procurei o Sean... depois...


A voz dela falha.


— Eu não lembro.


— Você teve uma convulsão, Cassie. Consegue entender isso?


Enrico e Celeste permanecem próximos à porta. Antoine observa tudo em silêncio, analítica demais para alguém tão jovem.


Leo, afundado na poltrona, solta uma risada sem sentido.


Assustadora.


Vincenzo repete a pergunta com firmeza serena.


— Cassie. Consegue entender o que aconteceu?


Ela pisca devagar.


— Convulsão...? Eu nunca tive isso...


— Foi depois da overdose. — Antoine cruza os braços. — Você lembra quem tentou te matar?


— Antoine. — repreende Enrico imediatamente.


— Foi mal.


Mas ela não parece arrependida.


Parece observando.


Esperando.


Cassie volta seus olhos para Vincenzo.


Então sorri.


Devagar demais.


— Você me salvou...


E antes que eu perceba, ela segura a mão dele.


Os dedos deslizam lentamente até o dorso.


Um beijo demorado.


Errado.


Tudo naquela cena parece errado.


Vincenzo não percebe.


Claro que não percebe.


Ele enxerga uma menina ferida.


Eu vejo outra coisa.


Há algo faminto por trás daqueles olhos lânguidos.


Algo atento.


Calculista.


Como se alguma criatura respirasse dentro dela e estivesse apenas começando a aprender como usar aquele corpo.


Uma onda de calor atravessa meu peito.


Raiva.


Nojo.


Medo.


Não sei.


Só sei que preciso sair dali antes que enlouqueça.


Dou as costas sem dizer nada e caminho rápido até a cozinha.


Assim que atravesso a porta, o grito escapa da minha garganta.


Baixo.


Sufocado.


Animal.


“Ela é como uma filha.”


Repito isso mentalmente enquanto abro a garrafa de vinho com mãos trêmulas.


“Ela é como uma filha.”


Mas alguma coisa dentro de mim sussurra o contrário.


Encho a taça até a borda.


E a esvazio de uma vez só. Abro outra garrafa de vinho com mãos trêmulas.


A primeira taça desaparece rápido demais.


Enrico a afasta de mim antes que eu alcance a segunda.


— Não é hora de perder o equilíbrio, filha. O mal costuma entrar quando estamos distraídos.


Fecho os olhos.


— Enrico, pelo amor de Deus... você fala como um personagem de filme amaldiçoado.


Ele ri baixo.


— E você fala demais quando está nervosa.


Matteo se joga em meu colo e o abraço com força absurda, como se pudesse impedir o mundo de levar embora mais alguém.




— Fugiu por quê? — pergunta Vincenzo ao entrar na cozinha. — Ciúmes?


Dou outro gole diretamente da garrafa.


— Não faz isso.


— Isso o quê?


— Fingir que não percebe.


Ele se aproxima devagar.


Cansado. Confuso. Lindo demais para o meu estado emocional deplorável.


Odeio isso.


— Cassie está doente, Dess.


— E você continua correndo para salvá-la.


— Porque ela precisa de ajuda.


— E eu?


Silêncio.


Pronto.


A pergunta verdadeira finalmente saiu.


Os olhos dele mudam imediatamente.


— Você acha que eu não vejo você?


Rio sem humor.


— Acho que você vê todo mundo primeiro.


Vincenzo segura meu rosto com cuidado.


E isso quase me destrói mais do que uma briga destruiria.


— Me conta o que está acontecendo dentro dessa cabeça.


Desvio o olhar.


— Nem eu sei mais.


Antes que eu desse o terceiro ou quarto gole de vinho, recuo e esbarro na banqueta atrás de mim. Vincenzo me segura pela cintura antes da queda.


Os olhos dele me observam em silêncio.


Tristes.

Confusos.


— Você ainda defende ela, bandido.


— Dess... você tá me escondendo alguma coisa. Fala pra mim. Me deixa te ajudar.


Empurro seu peito com força suficiente apenas para me afastar.


— Vai ajudar a puta que te pariu.


Ele suspira.


Sem discutir, me toma nos braços.


Passamos pela sala em silêncio.


Pelas paredes, nossa vida inteira nos observa.




Nosso casamento.


Minha barriga enorme aos nove meses.


Antoine vestida de borboleta.


Matteo exibindo os primeiros dentinhos.


Vincenzo e eu dançando na chuva.


A velha Kombi florida estacionada diante da praia.


Cassie abraçada a mim no dia do casamento.


Outra vida.


Outra gente.


Com a voz arrastada pelo álcool e pela mágoa, murmuro contra seu ombro:


— A gente era mais feliz sem dinheiro, filho da puta.


Ele ri pelo nariz.


— Me põe no chão, vigarista. Vai cuidar da sua nova paciente.


— Cala a boca, Dess.


— Que merda é essa agora?


— Água. — responde enquanto entra no banheiro. — Água pra lavar essa boca suja e esse corpo lindo. Relaxa. Hoje eu vou cuidar de você, barraqueira.


— Não se atreva a tirar minha roupa.


— Você já tá pelada, pateta.


Acabo rindo.


O som escapa antes que eu consiga sustentar a raiva.


Ele prende meus cabelos e começa a lavá-los devagar.


Sentada entre suas pernas dentro da banheira, observo as espumas deslizando sobre minha pele enquanto ele massageia meu couro cabeludo.


O silêncio entre nós deixa de ser hostil aos poucos.


Então, quase num sussurro, ele confessa:


— Tenho medo de te perder, Dess.


Meu peito aperta.


— Me conta o que tá me escondendo.


Desvio os olhos.


— Não sei do que você tá falando.


Antes que ele insista, aponto para o teto.


— Alexa... tocar...


Nada.


Então a voz mecânica responde:


— Desculpe. Não entendi.


Reviro os olhos imediatamente.


— Tá vendo? Precisão. É disso que eu preciso quando peço uma música pra uma inteligência artificial inútil.


Vincenzo ri contra meu pescoço.


E por alguns segundos, só alguns, quase consigo esquecer que existe alguma coisa apodrecendo dentro daquela casa.


— Esquece isso, Dess. Você tá bêbada... — murmura ele contra meu ouvido.


Fecho os olhos, concentrada pela segunda vez.


— Alexa, tocar “Loving You Was Losing Me”, de Sons of Ashes.


Segundos de silêncio.


Então a música começa.




Dou um gritinho de vitória e bato palmas, eufórica.


— Ela entendeu!


— Ela não é tão confusa quanto você.


— Cala a boca.


Ele ri atrás de mim enquanto continua enxaguando meus cabelos.


— Desde quando você escuta música atual?


— Eu não sou tão velha assim.


— Não foi isso que eu disse.


— Mas pensou.


— Talvez.


Sorrio sozinha.


A água morna desliza pela minha pele enquanto a voz melancólica do cantor preenche o banheiro.


— Quem tá perdendo quem aqui, hein? — pergunto, fitando a espuma entre meus dedos.


Ele demora a responder.


— Ninguém.


— Mentira. — Fecho os olhos. — Você tá me perdendo, imbecil.


O silêncio dele me machuca mais do que deveria.


Então seus braços me envolvem pela cintura.


— Por quê?


Engulo seco.


Porque meu coração está falhando.

Porque tenho medo de morrer.

Porque não sei quanto tempo ainda tenho ao seu lado.


Mas não digo nada disso.


Só apoio a cabeça em seu ombro molhado.


— Porque eu sou complicada.


O beijo em minha nuca me arrepia inteira.


— Eu te amo, Dess.


A música continua tocando baixo.


Triste.

Bonita.

Cruel.


— Jura que não vai me deixar? Mesmo quando eu me tornar um problema?


Ele segura meu rosto com cuidado, obrigando-me a encará-lo.


— Você é a minha vida.


Meu peito dói.


Literalmente.


— Jura?


— Juro.


Deito contra ele e permito que seus braços me abracem com força.


Como se pudesse me manter viva apenas assim.


Mais tarde, deitados em nossa cama, nos amamos como duas pessoas tentando voltar para casa depois de uma guerra.


Sem pressa.


Sem violência.


Só saudade.


A música da banheira ainda ecoava baixo pelo quarto enquanto Vincenzo acariciava meu rosto como se temesse que eu desaparecesse ao fechar os olhos.


E talvez eu já estivesse desaparecendo.


Seu coração disparava contra o meu.


Ou talvez fosse apenas o meu coração falhando outra vez.


Quando o beijo dele encontrou minha boca após o amor, senti vontade de chorar.





Porque havia ternura demais naquele homem.


Confiança demais.


Ele adormeceu abraçado a mim, respirando tranquilo contra minha nuca, sem imaginar o segredo esmagando meu peito por dentro.


Observo a mão dele repousada sobre minha cintura.


Quente.

Segura.

Minha.


Tudo o que Vincenzo precisa saber é que eu o amo.


O resto...


Que se foda essa maldita cardiomiopatia.




Algo maligno tomou Cassie.


Ao menos, é nisso que escolho acreditar.


Porque me recuso a aceitar que, de repente, ela tenha começado a desejar Vincenzo.


Não a minha Cassie.


Antoine parece pensar o mesmo. Tem permanecido ao meu lado em silêncio, fiel ao meu sofrimento enquanto observa Cassie conversar com Vincenzo durante o jantar como se nada tivesse acontecido.


Juro que, se não fosse por Sean, eu já a teria expulsado desta casa.


Principalmente depois de vê-la beijar o rosto de Vincenzo e sussurrar algo em seu ouvido enquanto o encarava daquele jeito.


Não ouvi o que ela disse.


Mas ouvi meu instinto gritar.


Vincenzo, obviamente, se recusa a alimentar minha “neurose”.


“Ela só comentou que você está pálida, Dess. Disse que talvez esteja doente e escondendo alguma coisa de mim.”


Entre o ciúme e o medo do meu diagnóstico, comecei a evitá-lo.


Passei a existir dentro da própria casa como um fantasma.


Cuido de Matteo.


Cuido de Antoine, que tem se dedicado inteiramente a Leo.


A hipnose de Vincenzo e Enrico transformou o horror em uma lembrança distante dentro da mente dele. Leo mal se recorda da mãe amarga, vingativa e desesperada que perdeu para Astaroth.


Agora, acredita que ela morreu lutando para lhe deixar um futuro digno.


Uma pequena herança.


Um último gesto de amor.


Melhor assim.


Leo não merece carregar a verdade.


Ele e Antoine merecem viver algum tipo de felicidade, mesmo que dure pouco.


Quanto a mim...


talvez eu mereça apenas tempo suficiente para ver meu filho crescer longe da herança maldita que corre dentro de mim.




Antoine não voltou ao colégio.


Convenceu-nos a deixá-la estudar em casa, online. É autodidata. Especial demais para fingir normalidade entre adolescentes comuns.


Nas horas vagas, treina kickboxing na academia onde continuo dando aulas de dança.


Fui eu quem a incentivou a abandonar o boxe.


No futuro, talvez ela precise mais das pernas do que dos punhos.


E esse futuro estava mais próximo do que eu imaginava.


— Você não pode continuar me evitando, Dess.


— Estou ocupada. Não percebeu?


— Você invade meu galpão quando quer. Então eu posso aparecer no seu trabalho.


Seguro a bolsa contra o peito.


— Vai embora.


— Não.


Ele segura meu braço antes que eu alcance a porta da sala.


— Você é minha esposa. Não pretendo mudar isso.


— Então muda sua atitude com a Cassie ou...


O olhar dele vacila.


Pela primeira vez, vejo medo real em seus olhos.


— Ou o quê? — pergunta baixo. — Agora é você quem vai fugir? Igual eu fazia?


Aninha acompanha a discussão atrás do balcão da recepção da Just Dance com a expressão de quem está assistindo à própria novela favorita.


— Eu vou dar aula, Vincenzo.


— E eu vim buscar minha filha.


— Nossa filha vai comigo.


Um sorriso lento surge no canto da boca dele.


Canalha.


Bonito demais para o próprio bem.


— Então deixemos que ela escolha.


Cruzo os braços.


— Ela vai demorar. É melhor esperar sentado.


— Não me importo.


O maldito ainda ri.


E o pior...


o som da risada dele ainda bagunça meu coração inteiro.


— Já sei o que fazer enquanto espero. — Ele se joga no sofá da recepção. — Vou assistir à aula da bailarina mais bonita da cidade.


Ergo o dedo do meio sem sequer olhar para trás.


Aninha quase engasga tentando conter o riso.


Antes de entrar na sala, ainda escuto a voz alta de Vincenzo:


— Ela me maltrata, mas me ama!


Fecho os olhos por um segundo.


Infeliz.


Porque ele estava certo.


Durante toda a aula, sinto os olhos de Vincenzo sobre mim.


A parede de vidro que separa a sala de dança do restante da academia me permite observá-lo através do reflexo dos espelhos.


Sentado de maneira desleixada no sofá do corredor, sob a luz dourada do fim da tarde, ele conversa com todos que passam por ali.


Do dono da academia à faxineira.


Todos sorriem para ele.


Todos param para ouvi-lo.


Ouço minhas alunas cochichando enquanto tento manter a concentração na coreografia.


Sobre como ele é bonito.

Charmoso.

Magnético.


E odeio perceber que estão certas.


Vincenzo atrai pessoas sem esforço.


Sua presença aquece ambientes.


Seu sorriso desarma qualquer um.


Às vezes me pergunto se estou presa a ele por amor...


ou por algum tipo de magia cruel.


Por que alguém como ele teria escolhido justamente a mim?


O que eu tinha naquela época além de traumas, raiva e um coração quebrado?


E se eu estiver errada?


E se Cassie não estiver sendo manipulada?


E se ele realmente...


— Professora! Acorda!


Piscando rapidamente, retorno à sala.


— Oi?


— Vamos repetir a coreografia? — pergunta a aluna mais disciplinada.


Outra, mais atrevida, ri ao comentar:


— Ela tá olhando pro gostoso lá fora faz meia hora.


— Não estou. — minto sem convicção.


Meu corpo parece mais pesado a cada dia.


Mais cansado.


Mais fraco.


— Vamos repetir tudo mais uma vez e encerrar o ensaio. Certo?


— Certo! — concorda uma menina mais nova. — Mas depois você vai ter que explicar por que aquela coisa linda não para de te olhar.


Solto um riso curto.


— Ele é meu marido.


O coro imediato de “uau” me faz revirar os olhos.


— Professora, ele é lindo! — diz uma delas. — Você não sente ciúmes? Porque eu jamais levaria um homem daquele pro meu trabalho.


— Eu não trouxe ninguém. — rebato. — Ele veio buscar nossa filha.


— Antoine?


— Sim. Você conhece ela?


A menina arregala os olhos.


— Professora... quem não conhece Antoine nessa academia? Todo mundo gosta dela. Ela chega e parece que o ambiente muda.


Meu peito aperta.


Porque eu sei exatamente do que ela está falando.


— Como você sabe disso tudo? — pergunto à aluna mais quieta da turma.


Ela raramente interage com as outras.


Sempre me pareceu deslocada.


Ultimamente, tenho me identificado com isso mais do que gostaria.


— Eu só observo. — responde ela. — Algumas pessoas brilham diferente.


Seu olhar atravessa o vidro da sala.


Direto em Vincenzo.


— Como ele.


Sinto um arrepio percorrer meus braços.


— Diferente como?


Ela demora a responder.


Como se estivesse ouvindo alguma coisa distante.


— Especial. — murmura. — Mas cansado. Muito cansado.


O sorriso desaparece lentamente do meu rosto.


— E você? — pergunta ela de repente, encarando-me de um jeito estranho. — Por que parece tão triste quando olha pra ele?


Abro a boca, mas nenhuma resposta sai.


Então ela completa, quase num sussurro:


— Ele gosta de você de verdade. Mas os caminhos de vocês são tortuosos demais.


Meu estômago afunda.


— O quê?


Ela pisca algumas vezes, confusa.


Como se tivesse despertado.


— Na próxima aula a gente vai fazer aquele salto que você proibiu?


Seguro seu braço antes que ela se afaste.


— O que você quis dizer com “caminhos tortuosos”?


— Eu falei isso?


O olhar dela agora é genuinamente perdido.


Assustado até.


Solto seu braço devagar.


— Nada. Esquece.


Ela recolhe a mochila depressa.


— Até amanhã, professora.


— Até amanhã.


Sozinha na sala vazia após o ensaio, tento afastar a sensação ruim que ficou no ar.


Guardo minhas sapatilhas enquanto assovio distraidamente a música da coreografia.


Preciso me cuidar.


Se continuar assim, logo não terei forças nem para subir as escadas da academia.


Alongo o corpo na barra de apoio e fecho os olhos por alguns segundos.


Então uma voz surge atrás de mim:


— Se não se cuidar, vai acabar perdendo o bonitão.


Meu corpo inteiro endurece.


Conheço aquela voz.


Lentamente, viro o rosto.


— E convenhamos... — continua ela com um sorriso enviesado. — Sua querida Cassie não pretende parar até conseguir o que quer.


Meu coração dispara.


— O problema é que esse desejo nem pertence mais a ela.


A voz se aproxima devagar.


Elegante.

Sombria.

Divertida demais para alguém falando sobre destruição.


— Pertence ao novo líder da Legião. — Seus olhos brilham. — E ele anda desesperado pra provar que consegue ser melhor do que nós.


— Some daqui... — rosno para o reflexo atrás de mim. — Me deixa em paz.


O sorriso de Lúcifer surge primeiro no espelho antes mesmo de seu corpo se materializar na penumbra da sala.





— Já não posso, darling. Estamos ligados desde o instante em que usou aquele punhal. — Ele inclina a cabeça, observando-me com curiosidade cruel. — Ainda pensa na mulher que quase matou, não é? Ainda acorda imaginando se teria sido capaz de atravessar aquela lâmina mais fundo.


Fecho os olhos com força.


— Vai embora. Eu não estou bem. Não quero te enfrentar. Não aqui.


— Nem eu gostaria de vê-la tão frágil. — Sua voz suaviza, o que a torna ainda pior. — É importante estar com o coração forte para o que está por vir. E, desta vez, não hesite. Mire no peito. Diversas vezes, se necessário.


Minhas mãos apertam a barra de alongamento até meus dedos doerem.


— SOME, MALDITO!


— Dess?


A voz de Vincenzo corta o ambiente como uma lâmina.


Abro os olhos num sobressalto.


O reflexo de Lúcifer desapareceu.


Minhas pernas cedem e acabo escorando as costas no espelho frio.


— Vincenzo...


Em segundos, ele já está ajoelhado diante de mim. Suas mãos seguram meu rosto com urgência genuína. O toque quente contrasta com o gelo que percorre meu corpo.


— Suas mãos estão congelando. — Seus olhos percorrem meu rosto, assustados. — O que está acontecendo com você?


Tento responder, mas meu peito pesa.


Pesado demais.


— O que você tem no coração, Dess? — insiste ele, aflito. — Me conta agora ou eu te levo para um hospital e arranco a verdade de algum médico. Escolhe.


A palavra “coração” quase me faz rir.


Quase.


— Eu vou contar. — sussurro, sem forças. — Mas não aqui. Preciso desocupar a sala primeiro. Me ajuda?


Ainda desconfiado, ele se levanta e me oferece o braço. Seguro sua mão enquanto minhas pernas tentam reaprender a sustentar meu corpo.


As luzes da academia começam a se apagar uma a uma.


A sala mergulha numa penumbra azulada e silenciosa.


Então eu pergunto aquilo que vem me destruindo há semanas.


— Por que me escolheu?


Ele franze a testa.


— O quê?


— Entre tantas mulheres, por que Anahita? Por que eu?


Por um instante, Vincenzo parece desarmado.


Sem máscaras.


Sem ironias.


Sem sedução.


Apenas cansado.


— Eu não sei explicar. — Sua voz sai baixa. — Quando te vi, alguma coisa me puxou pra você. E nunca mais me soltou.


Engulo em seco.


— Você mentiria pra mim?


Ele desvia os olhos para o corredor vazio antes de apagar a última luz da sala.


A escuridão nos engole quase por completo.


— Nunca sobre o meu amor por você.


Meu coração falha.


Literalmente.


Seguro suas mãos com força, tentando permanecer consciente.


Então a visão vem.


Rápida.


Violenta.


Liam.


Seu sorriso torto.


Sua mão apertando a de alguém escondido na escuridão.


Uma aliança dourada reluz entre os dedos daquela figura sem rosto.


Minha respiração falha.


— Dess? — A voz de Vincenzo se torna distante. — Sua pressão caiu.


As paredes parecem se inclinar ao meu redor.


— Eu vou...


Tudo escurece.




— Por que não me contou antes, Dess!? Essa doença é grave!


— Nem tanto. — resmungo, distraída ao observar Matteo correr ao redor da bancada da cozinha com o aviãozinho preso na mão direita. Ele faz o som do motor com a boca, concentrado em seu próprio universo. Está maior. Mais forte. Tão absurdamente vivo...


— DESS! ME ESCUTA!


— Não grita comigo! Quer me matar antes da hora!?


— Ninguém vai morrer aqui. — Antoine surge na cozinha usando sua camisola branca, longa demais para o próprio corpo. Seus músculos estão mais definidos. Os cabelos, maiores. Os olhos... maduros demais para a idade que possui. Às vezes, sinto falta da minha menina. Em outros momentos, percebo que fui presenteada com algo ainda mais raro: uma filha leal. — Se a senhora tomar os remédios corretamente, mãe, não vai piorar.


Vincenzo passa as mãos pelos cabelos, inquieto.


— Ela não pode continuar se extenuando, filha! A cardiomiopatia causa espessamento do músculo cardíaco! O coração dela está trabalhando sob esforço constante!


— Pai, respira. — Antoine mantém a calma irritante de quem parece sempre enxergar tudo antes dos outros. — Nervoso desse jeito, o senhor vai acabar infartando primeiro.


— Talvez seja esse o plano. — sugiro, encarando Vincenzo. — Talvez eu esteja sobrando nessa casa.


O silêncio que segue minha frase me arrepende imediatamente.


Os olhos de Vincenzo escurecem.


— Nunca mais fala isso. — Ele se inclina sobre a bancada até ficar próximo demais. Suas mãos seguram meu rosto com firmeza. — Isso me ofende profundamente, Dess. Eu não atravessei séculos nessa Terra miserável pra te perder agora. Nunca mais duvida do meu amor por você. Nunca.


Minha garganta aperta.


— Eu sei...


— Não. Você não sabe. — Sua voz falha pela primeira vez. — Eu morreria por você.


Aquilo me destrói um pouco.


— Você precisa parar de dar aulas. — continua ele, tentando recuperar o controle. — Eu vi você hoje. Seu esforço. Seu cansaço. Você mal conseguia respirar.


— Eu não vou abandonar tudo pelo que lutei a vida inteira.


O soco dele contra o mármore faz Matteo se assustar.


Meu filho corre imediatamente para meu colo.


Instinto.


Proteção.


Medo.


— Dess... — Vincenzo fecha os olhos, arrependido. — Me desculpa.


Sentando-se ao meu lado, ele segura minha mão.


— Eu só... não quero te perder.


— Não vai perder. — Antoine responde antes de mim, séria demais. — Eu não vou deixar.


— Antoine Rossi! — repreendo-a imediatamente, sentindo o sangue gelar. — Não começa.


— E o que exatamente a pirralha pretende fazer?


A voz de Cassie atravessa a cozinha.


Ela surge usando uma das minhas camisolas.


A curta.


A vermelha.


A que Vincenzo gosta.


O modo como ela caminha ao redor da ilha me causa náusea instantânea.


Não é natural.


Não é ela.


Os olhos de Cassie encontram os meus antes de ela tocar o ombro de Vincenzo lentamente... e beijar seu rosto.


Triunfante.


Provocadora.


Doente.


Vejo o choque atravessar a expressão dele antes da raiva surgir.


Vincenzo se afasta dela imediatamente.


— Nunca mais faça isso. — Sua voz sai baixa e perigosamente controlada. — Entendeu?


Cassie recua como uma criança repreendida.


— Mas... tio...


— Eu não sou seu tio! — explode ele. — Nunca fui!


O silêncio pesa sobre a cozinha.


Até Matteo para de brincar.


— E ela... — Ele aponta para mim com os olhos marejados de indignação. — Essa mulher acolheu você quando perdeu tudo! Ela te criou! Te protegeu! Mas ela não é obrigada a suportar isso!


Permaneço imóvel.


Absurdamente imóvel.


Porque, pela primeira vez em semanas, Vincenzo está vendo.


De verdade.


— Você passou dos limites, Cassie. — continua ele. — Se quiser permanecer nessa casa, vai respeitar minha esposa. E vai me respeitar também. Entendeu?


Os olhos dela mudam.


Literalmente.


Algo atravessa seu rosto.


Uma sombra.


Uma deformação rápida demais para ser humana.


Seu corpo inteiro treme antes da voz surgir mais grave.


Mais baixa.


Mais cruel.


— Entendi, Vincenzo. — Ela sorri sem humor. — Mas não foi isso que você me disse ontem.


Meu coração falha uma batida.


Cassie se vira.


Celeste a encara horrorizada enquanto segura Sean nos braços.


E Cassie...


Nem sequer olha para o próprio filho.


Ela simplesmente atravessa a sala, abre a porta e desaparece.


— Eu não fiz nada. — Vincenzo vem imediatamente até mim. Desesperado. — Dess, olha pra mim. Eu juro por tudo que existe: eu nunca toquei nela.


Levo a mão ao peito.


A dor volta.


Fina.


Ardida.


Errada.


— Não precisa se defender. — puxo o ar com dificuldade. — Aquela não era a Cassie.


— Ela nem olhou pro filho... — murmura Celeste, pálida. — Eu conheço aquele cheiro.


Antoine ergue os olhos.


— Que cheiro, vó?


Celeste fecha os olhos por um instante antes de responder:


— Inferno.


O silêncio se espalha pela cozinha.


Pesado.


Quase vivo.


— Aquela não era ela. — repito, sentindo o enjoo aumentar. — Eu vi.


— Suas visões estão acabando com você. — Vincenzo segura meus braços. — Você precisa parar de se meter nisso.


— Como? — retruco, cansada. — Isso não é algo que eu controlo.


— Então evita confusão. — Sua voz endurece. — Nem pense em tentar salvá-la. Dess, olha pra mim. Está me ouvindo?


Encaro os olhos assustados do homem que amo.


E odeio a pergunta que sai da minha boca porque já sei a resposta.


— Então quem vai arrancar a Cassie daquele súcubo?





Cassie desapareceu após aquela noite.


Sem bilhete.


Sem explicações.


Sem sequer olhar para trás.


Sean chora dia e noite desde então, como se pressentisse o abandono antes mesmo de compreendê-lo. O pequeno se recusa a aceitar o leite de fórmula. Cospe a mamadeira. Grita até perder o fôlego. Cassie fazia questão de amamentá-lo até os seis meses, no mínimo. Ainda consigo vê-la sentada no sofá da varanda, embalando-o nos braços com aquele sorriso doce que parecia sobreviver a qualquer tragédia.


Por que tudo muda tão rápido?


— Por que você não para de chorar, bebê? — pergunto a Sean, exausta, caminhando lentamente pelo quarto. — Tá com saudade da sua mãe? Eu também estou. Ela vai voltar. Eu prometo.


Minha voz falha na última frase.


Abraçando-o contra meu peito, choro pela “minha Cassie”.


A verdadeira.


A que jamais deixaria o filho passar fome.





A canção triste que vem da sala atravessa o corredor escuro e aperta ainda mais meu coração. Reconheço o refrão imediatamente.


— Yes... only love can break your heart... — sussurro junto à música enquanto me sento na cadeira de balanço.


Sean continua chorando.


Desesperado.


Faminto.


Inconsolável.


Então, algo estranho acontece.


Sua pequena mão escapa do cobertor e toca meu colo até alcançar meu seio por cima da camisola.


Instinto.


Puro instinto.


Uma ideia absurda atravessa minha mente cansada.


Tenta.


Fecho os olhos.


Sozinha no quarto de Matteo, afasto lentamente a alça da camisola. Sean imediatamente procura meu mamilo com a boca pequena e quente, sugando sem hesitação.


Meu coração dispara.


Faz meses que parei de amamentar.


Não deveria existir leite algum.


Mas existe.


— Deus... — sussurro, em choque, ao sentir o primeiro fluxo surgir.


Pouco.


Ralo.


Quase inexistente.


Mas suficiente.


Sean bebe como se sua vida dependesse disso.


Talvez dependa.


De olhos fechados, consigo sentir a presença dos seres de Luz espalhados pelo quarto silencioso. Não os vejo completamente. Apenas sombras claras. Calor. Paz.


Vou alternando entre um seio e outro enquanto Sean finalmente desacelera o choro.


Até cessar por completo.


Seus dedinhos relaxam.


Seu corpo amolece contra mim.


E então ele dorme.


Meu Deus...


Ele dorme.


Beijo sua testa repetidas vezes, chorando em silêncio.


Da porta do quarto, Vincenzo nos observa.


Imóvel.


Completamente desarmado.


— Não deixa o Matteo entrar agora. — peço baixinho, sem conseguir parar de chorar. — Não quero que ele fique com ciúmes.


Vincenzo se aproxima devagar, como se temesse quebrar aquele momento.


Ele beija minha boca demoradamente antes de secar as próprias lágrimas com o dorso da mão.


— Deixa comigo. — murmura. — Vou levar nosso filho até a pracinha.


Assinto em silêncio.


— Obrigada...


Antes de sair, ele me encara como se estivesse vendo algo impossível.


— Eu te amo ainda mais agora, Dess.


E isso quase acaba comigo.


Continuo amamentando Sean até ele se fartar completamente.


Até dormir em paz.


Quando o coloco no berço do quarto de hóspedes, minhas pernas tremem de exaustão.


Sinto que doei mais do que leite àquele menino.


Doei amor.


Proteção.


Vida.


Talvez até um pouco daquilo que corre em meu próprio sangue.


Não.


Não vou pensar nisso agora.


No corredor, meus dedos tocam o retrato antigo onde Cassie e eu sorrimos abraçadas na areia da praia, muito antes de Liam surgir em nossas vidas como uma doença.


Observo sua felicidade congelada dentro da moldura enquanto a música continua ecoando pela casa.


— Only love can break your heart... — repito baixinho.


Então fecho os olhos.


— Foi isso que aconteceu com você, não foi, Cassie? O amor te destruiu.


Minha garganta aperta.


— Uma vez, eu trouxe você de volta à vida. E vou fazer isso outra vez. Nem que isso me custe o resto da minha saúde.


Olho para o quarto onde Sean dorme tranquilamente pela primeira vez em dias.


— Seu filho ainda espera por você.




Antoine e Leo dançam juntos na pista improvisada. Matteo os acompanha do seu jeito desengonçado e adorável. Animado com sua primeira festa de aniversário, nosso filho arranca risadas dos poucos convidados.


Não alugamos salão de festas. Depois de tudo o que aconteceu, preferimos algo menor. Mais íntimo. Mais seguro.


O galpão de boxe de Vincenzo foi transformado num verdadeiro playground, com piscina de bolinhas, brinquedos infláveis, cama elástica e tudo o que Antoine pôde imaginar para tornar inesquecível o aniversário de um ano e meio do irmão.


Como sempre, reclamei do exagero.


Matteo sequer tem amigos ainda. As únicas crianças presentes mal conseguiam brincar com ele. A filha de João ainda não anda. Sean nem consegue se sentar sozinho sem tombar para o lado.


As netas de Doc e Adele observam Antoine com admiração enquanto ela pula na cama elástica ao lado de Leo, gargalhando como uma criança comum.


Por alguns segundos, ela parece apenas isso.


Uma menina feliz.


Leo a abraça depois de perder uma competição ridícula sobre quem consegue pular mais alto. Antoine cora imediatamente quando percebe meu celular apontado para os dois.


Mais cedo, ela me confessou, baixinho, que Leo lhe dera um selinho antes da festa.


Eu a adverti na mesma hora.


— Melhor parar por aí, filha. O menino ainda tá cheio de traumas.


Naturalmente, Vincenzo fez questão de discordar.


— Finalmente ele acordou! — comemora, erguendo a tulipa de cerveja entre os alunos e amigos.


Sorrio sem vontade.


Mesmo cercada de gente, me sinto sozinha.


Parte de mim ainda espera que Cassie atravesse aquela porta sorrindo e dizendo:


“Tia! Que cara é essa? Vamos nos divertir!”


Mas ela não vem.


Não desde a noite em que fugiu da nossa casa carregando dentro de si algo maligno.


Liam a tomou de mim.


— Eu vi.


— O quê, Dess? O que foi que você viu? — pergunta Vincenzo, rindo, já alterado pela cerveja.


Seguro seu braço e o puxo até a recepção da academia, longe da música e dos convidados.


— Vi você apertando a mão de Liam.


Seu sorriso desaparece.


— Isso não faz muito tempo. Por que fez aquilo? O que você tem com ele? Você é um deles?


Ele esvazia o restante da cerveja de uma vez só.


— Nem vou te responder hoje. Não hoje. É o aniversário do nosso filho, porra.


Dando as costas, ele arremessa a tulipa contra a parede chapiscada. Os cacos brilham sob os letreiros neon.


Ainda assim, eu insisto.


— Mas eu vi! O que vocês têm em comum!? Por que se encontraram!?


Ele se vira abruptamente.


Furioso.


Destruído.





— Fizemos um trato! — explode. — Ele não toca na minha família e eu não me meto na vida dele! Era isso ou guerra! Era isso ou eles levarem você!


Meu sangue gela.


— Que preço você pagou...? — sussurro.


— Quer mesmo saber!? — rosna ele, avançando um passo. — Quer saber como eu me vendi pra impedir que destruíssem você!? Quer saber o que aquele desgraçado queria fazer com o nosso filho!?


Encolho os ombros instintivamente.


Nunca o vi assim.


Nunca.


— Sabe aquela criança ali dentro!? — continua, apontando para a festa. — Aquele menino que tá rindo, brincando, vivo!? Sua filha, meus pais e eu fizemos essa festa porque ainda tentamos viver como uma família normal enquanto você afunda cada vez mais nessa paranoia!


— Eu só queria manter todos seguros...


— PRA VOCÊ NADA É SEGURO! — berra. — Tudo precisa ter demônio, profecia, inferno e conspiração! Você não percebe que tá adoecendo!? Você não vive mais, Dess! Só sobrevive esperando a próxima tragédia!


As lágrimas escorrem antes mesmo que eu perceba.


Ele passa a mão no rosto, transtornado.


— VIVE COMIGO! — implora. — Vive por mim! Pelos nossos filhos! Para de esperar o pior o tempo inteiro!


Agachada num canto da recepção, abraço os joelhos enquanto tento parar de tremer.


Pacto.


Ele realmente fez um pacto.


Com Liam.


Com a Legião.


O horror não estava na minha cabeça.


— Filha...


Reconheço a voz de Enrico antes mesmo de erguer os olhos.


Ele me oferece o braço.


— Vem. Vamos respirar um pouco.


— Tô com medo, Enrico... — admito num fio de voz. — Alguma coisa ainda vai acontecer. Eu sinto. E eu já não sou forte como antes.


— O Criador continua cuidando de tudo. Mesmo quando não entendemos como.


Celeste se aproxima com Sean nos braços.


— Vai ficar tudo bem, querida.


Um arrepio violento percorre minha espinha.


Viro o rosto a tempo de ver Matteo tentando deslizar sozinho pelo escorregador inflável.


Corro até ele.


Antes mesmo de alcançá-lo, puxo seu corpo para meus braços.


No segundo seguinte, o brinquedo explode.


O estrondo faz as crianças gritarem.


O silêncio que vem depois é pior.


Antoine imediatamente se posiciona à minha frente.


Leo fica atrás de mim como se soubesse que algo muito pior ainda está por vir.


Cantamos “Parabéns pra Você” mesmo assim.


Com Matteo no colo, sopro a vela faiscante enquanto ele bate palminhas, encantado.


Assim que a chama se apaga, ele aponta para o bolo e pede, feliz:


— De movo! De movo!


E meu coração quebra um pouco mais porque, naquele instante, tudo o que eu queria era que o mundo parasse ali.


Antes da próxima tragédia encontrar a nossa família.


Vincenzo captura sua alegria com sua câmera profissional. Ainda magoada com ele, eu o encaro. De longe, ele me lança um olhar arrependido. Antoine e Leo o empurram até mim. Ao meu lado, diante do bolo, ele me pede perdão.


— Eu me descontrolei, Dess. Tenho medo de te perder.


— Eu também. — Sussurro, contendo o choro.


Antoine, agitada, berra:


— Dá para olhar para a câmera ou está difícil!?


Rimos juntos enquanto Vincenzo me puxa para si, envolvendo minha cintura com a mão. Matteo beija minha bochecha. Vincenzo o pega no colo e se afasta de mim, dando espaço para Celeste distribuir fatias do bolo aos convidados e se encantar com a vela faiscante acesa por Leo a pedido de Matteo.


Enrico, inquieto, lança um olhar suspeito ao redor enquanto embala Sean em seu carrinho.


A festa termina em paz.


Todos os convidados já se foram.


Extenuados, Antoine e Leo se jogam sobre o tatame. Retiro minhas botas de salto e descanso as pernas sobre a cadeira de madeira. Vincenzo ainda encontra forças para correr atrás de Matteo que, aos risos, ergue os bracinhos antes de se atirar sobre mim.


— “Bate papai, mamãe”! — pede ele, suado e feliz.


Sentando-se ao meu lado, Vincenzo, igualmente suado e exalando seu perfume de maçã verde, comenta:


— Eu mereço. Pode bater. Você me perdoa por ter te tratado tão mal?


— Esquece.


Seu beijo em minha bochecha me faz sorrir.


— Talvez você tenha razão. Tenho visto coisas ruins em tudo e acabo perdendo o melhor da vida.


— Fica comigo, Dess. Não deixe nada nos separar. Por favor.


Beijo sua boca antes de prometer:


— Nada vai nos separar.


— “Nada mamãe papai” — balbucia Matteo em meu colo.


Vincenzo e eu beijamos suas bochechas rosadas enquanto ele gargalha.


Então, um grito de pavor atravessa o galpão.


Ergo-me de súbito, deixando Matteo nos braços de Vincenzo. Meu coração dispara ao ver Celeste parada, em choque, segurando o carrinho de Sean.


Vazio.





Impulsiva e descalça, corro até a calçada sob os protestos de Vincenzo, que vem logo atrás de mim.


Alcanço Cassie e a puxo pelos cabelos, obrigando-a a parar.


Dentro do carro estacionado próximo à calçada, Liam abre um sorriso sinistro.


— Deixa o Sean comigo!


— Não posso, tia.


Recuo, horrorizada.


Minha Cassie está cadavérica.


Os cabelos rarefeitos. Os lábios ressecados. O pescoço e os braços cobertos por hematomas.


Seguindo meu instinto, eu a abraço com força, envolvendo Sean em seu colo.


E, chorando por seu sofrimento, sinto exatamente o que ela sente.


Pavor.


Solidão.


Desespero.


Vergonha.


— Ele vai matar o Sean se eu não entrar no carro, tia.


— Cassie…


Constrangida diante de Vincenzo, ela baixa os olhos.


— Tio… me perdoa por ter te tratado daquele jeito. Eu não sei o que aconteceu comigo.


— Esquece isso, Cassie. Eu conheço você. Você é uma boa menina. Não se deixe destruir por ele.


— É tarde demais, tio… — lamenta ela, recuando em direção ao carro. — Eu amo vocês.


— Vincenzo, não deixa o Liam levar os dois! — imploro enquanto Cassie abre a porta do carro e me lança um olhar devastado pela tristeza. — Faz alguma coisa!


— Ele não pode, Adessa. — debocha Liam. — Temos um trato. Ele te contou, não contou?


Ignorando-o, suplico:


— Não entra, Cassie! Fica!


O carro começa a se mover.


Descalça, tento impedir que ele avance, segurando a janela aberta como se minhas mãos fossem capazes de parar toneladas de ferro e pecado.


Dentro do carro, Liam gargalha enquanto Sean chora como se me pedisse socorro.


Agora ele faz parte de mim.


É o meu leite que o alimenta.


— Cassie! Acorda! Eu amo você! Eu amo o Sean! Fica com a gente!


Vincenzo surge atrás de mim e segura meu braço com força.


— Para, Dess! Isso vai te fazer mal!


Antes que Liam acelere, Cassie segura minha mão por um instante.


Então beija o dorso dela.


E se despede.


Debaixo da chuva pesada, continuo correndo atrás do carro até minhas pernas falharem. Vincenzo me segura antes que eu caia e grita, transtornado:


— Chega! Eles se foram! Não podemos mais fazer nada! Ela escolheu isso!


— NÃO! ELA NÃO QUIS! EU SENTI, VINCENZO! ELA ME PEDIU AJUDA!


— VOCÊ ESTÁ DOENTE! NÃO PODE SE CANSAR! DESS, FICA COMIGO!


— NÃO! NÃO AGORA! QUEM FEZ O PACTO FOI VOCÊ! NÃO EU!


Ainda consigo enxergar o carro de Liam quando volto a correr. Um cansaço brutal toma conta do meu corpo. Cambaleando, grito por Sean. Sem ar, caio de joelhos no asfalto. Desesperançada, choro sob as gotas de chuva que vergastam minhas costas.


É então que os vejo passar por mim, velozes e ferozes como guepardos.


— Filha... — sussurro, esticando o braço numa tentativa inútil de tocá-la. — Cuidado... com...


Ergo-me com dificuldade e volto a correr, aos poucos. Vincenzo me alcança e, sem sequer me olhar, me ultrapassa.


Da distância em que estou, vejo Antoine surgir pelo lado esquerdo do carro e estilhaçar o para-brisa com golpes precisos de um taco de baseball. Do outro lado, Leo, enlouquecido, golpeia a porta de Liam com um martelo, amassando a lataria junto à maçaneta e impedindo sua abertura.


Com a ajuda de Antoine, Vincenzo arranca a porta do carona e resgata Cassie e Sean. Leo, parecendo maior do que jamais o vi, desfere um chute brutal contra a porta do motorista, prendendo Liam lá dentro. Em seguida, destrói o mecanismo de abertura com o martelo reluzente.


Preso no interior do carro, Liam urra como uma fera acuada.


Mesmo trêmula, consigo sorrir ao ver Cassie proteger o corpinho de Sean junto ao peito enquanto caminha em minha direção. Antoine e Leo avançam lado a lado sob a chuva, imponentes como soldados regressando da guerra.


Vincenzo me encara com raiva e alívio ao mesmo tempo. Sem dizer nada, segura minhas pernas e me joga sobre o ombro esquerdo como um saco de batatas.


Ainda lúcida, volto no tempo.


A casa de praia.


O cheiro do mar.


As gargalhadas.


Ele me carregando daquele mesmo jeito para dentro de casa enquanto eu fingia protestar.


Éramos jovens, saudáveis e cheios de planos para um futuro que parecia infinito.


Num esforço quase desumano, ergo o tronco e sorrio ao chamá-la.


— Cassie... Minha Cassie...


— Tia! O que você tem!? Sua voz está fraca!


— E o Liam...? — pergunto num fio de voz.


Orgulhoso, Leo apoia o martelo no ombro e abre um sorriso sombrio.


— Aquele desgraçado não vai andar por um bom tempo. Martelei os dois joelhos.


— Wooohoo! — vibra Antoine.


Ao perceber meu olhar assustado, ela se aproxima e cochicha ao meu ouvido:


— Descansa, mãe. Vai dar tudo certo. Tá bem?


Pela primeira vez naquela noite, sinto paz.


E então, apago.





Cassie e Sean estão de volta ao nosso lar.


Infelizmente, nada mudou.


Enquanto Liam continuar vivo, eles jamais estarão seguros.


— A lei funciona para todos os anjos que “caíram”?


— Que lei, Dess?


Deitada em nosso quarto, encaro o teto enquanto Vincenzo troca a compressa úmida sobre minha testa. O gosto metálico do desmaio ainda amarga minha boca. Matteo dorme atravessado entre nossos travesseiros, abraçado ao aviãozinho azul. Do quarto ao lado, escuto o choro baixo de Sean sendo acalmado por Celeste. Cassie permanece trancada no banheiro há quase quarenta minutos.


Silêncio demais.


Isso nunca é bom naquela casa. Nessas histórias também não. Quando o silêncio chega, alguém sangra.


— A lei que impede vocês de matarem uns aos outros. — murmuro. — Porque Liam continua vivo depois de tudo o que fez?


Vincenzo demora a responder. Sentado na beira da cama, ele abaixa os olhos para as próprias mãos machucadas pelos cacos do vidro do carro.


— Nem todos obedecem às regras, Dess.


— Mas vocês obedecem.


— Somos obrigados.


— Por quem? Pelo Criador?


Seu maxilar trava.


— Pela consequência.


Viro lentamente o rosto em sua direção. Mesmo exausta, percebo o instante exato em que ele se arrepende do que acabou de dizer.


— Consequência?


— Existem leis antigas. Algumas não podem ser quebradas sem punição.


— E qual seria a punição para quem mata um membro da Legião?


— Depende de quem executa a sentença.


— Você sabe disso porque já viu acontecer?


Ele não responde.


Claro que não responde. Homens traumatizados, imortais e emocionalmente comprometidos adoram transformar diálogo em sessão de tortura psicológica. Economizam palavras como se cada frase custasse um órgão vital.


— Vincenzo.


— Não insiste.


— Olha pra mim.


Relutante, ele ergue os olhos.


E eu o odeio por continuar tão bonito mesmo destruído.


— Você já matou alguém da Legião? — pergunto num sussurro.


Seu silêncio responde antes dele.


— Meu Deus...


— Dess...


— Quantos?


Ele fecha os olhos por um segundo.


— O suficiente.


Um arrepio percorre minha espinha.


Não pela violência.


Pela tristeza.


Porque, naquele instante, eu percebo que o homem sentado diante de mim não nasceu na Terra. Ele aprendeu a amar nela. Existe diferença. Uma brutal diferença.


— E o que aconteceu com você depois?


— Eu continuei existindo.


— Só isso?


— Não existe “só isso” para seres como eu.


Meu coração aperta.


A chuva continua batendo contra as janelas do quarto. Lá fora, relâmpagos iluminam o jardim. Por um instante, vejo o reflexo de Vincenzo no vidro.


Não o reflexo humano.


As asas enormes.


Escuras.


Feridas.


Piscando lentamente, volto a enxergar apenas meu marido sentado ao meu lado.


Estou cansada demais para lidar com visões.


— Liam vai voltar. — sussurro.


— Eu sei.


— E, da próxima vez, ele não vai querer apenas a Cassie.


— Eu sei.


— E se ele tentar levar Sean de novo?


Vincenzo se inclina até mim. Seus dedos afastam meus cabelos molhados da testa.


— Então eu mato ele.


O quarto inteiro parece gelar.


Até Matteo se remexe dormindo.


— Você acabou de dizer que existem consequências.


— Existem.


— E mesmo assim...


— Mesmo assim. — interrompe ele, firme. — Eu não vou deixar aquele desgraçado tocar na minha família outra vez.


Minha garganta aperta.


Porque acredito nele.


E esse é justamente o problema.


A porta do banheiro se abre no corredor.


Cassie surge usando uma camisola branca emprestada. Está pálida. Os olhos inchados. Sean chora ao reconhecê-la no colo de Celeste.


Ela paralisa.


Como se não acreditasse que o filho ainda a reconhece.


Celeste se aproxima devagar e entrega o bebê em seus braços.


Sean imediatamente agarra a gola de sua camisola.


Cassie desaba.


Não dramaticamente.


Não como nos filmes.


Ela simplesmente desmonta.


Os joelhos cedem. O corpo dobra. O choro sai sem som no começo. Só depois vem o desespero verdadeiro.


— Me perdoa... — soluça ela contra os cabelinhos do filho. — Meu Deus... Sean... me perdoa...


Do meu lado, Vincenzo se ergue para ajudá-la.


Instintivamente, seguro seu braço.


Ele me encara.


E eu balanço a cabeça devagar.


Não.


Dessa vez, ela precisa levantar sozinha.


Cassie aperta Sean contra o peito enquanto chora ajoelhada no corredor iluminado pela luz fraca do abajur.


E, pela primeira vez em semanas, eu consigo enxergar um pedaço da minha Cassie de volta.


Só um pedaço.


Mas ainda ali.





— Não fala assim comigo... — peço, ainda em recuperação.


Depois do esforço absurdo sob a chuva, contraí pneumonia. De novo. A terceira? Quarta? Já perdi a conta.


— O que você fez, Dess. — corrige Vincenzo, sentado na poltrona ao lado da cama da qual não consigo me libertar. — Não aprende porque é teimosa. Precisa se meter em tudo. Quer salvar todo mundo. Quer ser a heroína da história.


— Não fala assim... — peço, fraca.


— Liam teria matado os dois? Talvez. Mas eu já tinha acionado a polícia!


— Duvido. Eles estão infiltrados, amor. Existem membros da ‘Legião’ em todos os lugares.


— Falou a especialista em legiões demoníacas...


— Não fale assim com ela, filho. — Celeste acaricia meus cabelos na beira da cama. — Adessa foi uma heroína, sim. Nem quero imaginar o que teria acontecido ao pobre Sean se ela não tivesse agido.


— Não fui eu, Celeste... Foram as crianças... — arfando, continuo: — Foi incrível. Você precisava ter visto Antoine. E o Leo também.


Sorrindo com ternura, ela comenta:


— Os dois formam um belo casal.


— Menos, Celeste. Bem menos... — brinco antes de tossir.


Vincenzo se levanta da poltrona e, com a expressão fechada, me faz tomar o xarope numa colher.


— Vai continuar me evitando? — pergunto baixinho. — Olha pra mim, amor.


Ele desvia os olhos.


— Não dá.


— Por quê?


— Porque você acha que eu não me importo. Que não amo você nem nossos filhos.


— E ama?


Ele fecha os olhos por um instante antes de responder:


— Se me amasse menos, talvez deixasse você se destruir em paz.


O silêncio pesa entre nós.


— Quando eu fiquei doente, você cuidou de mim. — Sua voz falha levemente. — E eu obedeci. Parei tudo porque você pediu. A única coisa que eu te imploro agora é que pare de tentar salvar o mundo, Dess. Você não é uma personagem da Marvel.


Sem forças para discutir, viro de lado e escondo o rosto sob o edredom. Choro baixo, humilhada pela própria fragilidade.


Celeste beija minha cabeça, murmura uma bênção e nos deixa sozinhos.


Minutos depois, sinto o colchão afundar.


Vincenzo se deita atrás de mim e encaixa o corpo ao meu.


— Pensando bem... — murmura junto ao meu ouvido. — Você poderia ser a Feiticeira Escarlate.


Um sorriso involuntário escapa apesar do choro.


— Poderes você tem.


— Sou uma merda. Isso sim.


— Não. Você é o ser humano mais humano que já conheci.


Ele beija meu pescoço demoradamente antes de continuar:


— Dess... se cuida. Não me deixa sozinho com nossos filhos. A gente precisa de você.


— Não fica perto de mim. Essa pneumonia pode ser contagiosa.


— Foda-se.


Seus braços me apertam com mais força.


— Eu daria minha vida por você.


O arrepio percorre minha espinha antes mesmo da pergunta escapar:


— Foi esse o preço do pacto com Liam?


Atrás de mim, o silêncio endurece o quarto.


— Vincenzo?


— Descansa, Dess.


Sinto-o se afastar da cama.


— Volta aqui! — ordeno, erguendo o tronco enquanto puxo o ar pela boca aberta. — Olha pra mim e não mente. Foi esse o preço? A lei da imortalidade vale para todos os anjos caídos que têm filhos com humanos?


— Sim. — responde ele, por fim. — Onde quer chegar?


— Ao pacto. Por quem Liam abriria mão de Cassie e Sean?


Vincenzo me encara longamente.


Há medo em seus olhos. Medo de verdade.


— Eu nunca disse que o trato envolvia eles, idiota.


Ele me toma nos braços antes que eu consiga recuar.


— O acordo era manter Liam longe dos meus. Longe de você. De Antoine. De Matteo. Você ainda não entendeu o que vocês representam para a ‘Legião’. Três criaturas com níveis diferentes de poder. Por vocês, eles destruiriam cidades inteiras.


— Está me assustando...


— Porque é assustador.


Sua voz sai cansada. Resignada.


— Foi por isso que eu fiz o que fiz.


— E o que você fez, amor?


Nossos olhos se encontram.


Azuis.


Tristes.


Condenados.


— Eu aceitei me juntar à ‘Legião’ e combater Lúcifer em troca da vida de vocês.


Meu coração simplesmente para por um segundo.


— Chega de sofrimento, Dess. Você merece paz.


O tapa em seu rosto ecoa pelo quarto.


Logo em seguida, uma crise de tosse me dobra para frente.


— NÃO! — protesto entre tosses. — Eu não aceito essa merda! Esquece esse pacto!


— Para de falar! — rosna ele, tentando me segurar. — Descansa!


Luto para me libertar de seus braços enquanto a falta de ar piora.


— Dess!!! 



— Ninguém! Nenhum ser maligno toca na minha família enquanto eu existir! — grito para as sombras que tentam atravessar a janela aberta do quarto.


Minha garganta arde. O crucifixo de madeira que Vincenzo me deu treme entre meus dedos enquanto uso o pouco de força que ainda me resta.


— Mesmo após a minha morte, eu vou protegê-los! Está feito! Está feito! Está feito!


— Dess!


— Merda... — resmungo, tonta. — De novo não...


Quando desperto, me sinto estranhamente mais forte.


Vincenzo não está no quarto.


A casa inteira parece silenciosa demais.


Apoiando-me nas paredes, caminho devagar pelo corredor até a sala. Enrico assiste a um velho filme de faroeste. Tão concentrado que sequer percebe minha presença.


Recuo.


Sigo até o quarto de hóspedes.


Meus seios doem, pesados pelo leite. Ainda não faço ideia de como explicar a Cassie a questão da amamentação, mas espero que ela compreenda. Foi pelo Sean. Tudo foi pelo Sean.


Abro a porta.


— Ninguém...?


O quarto está vazio.


Frio.


Sem vida.


Olho ao redor procurando qualquer sinal dela. Qualquer roupa. Qualquer bolsa jogada pelos cantos.


Nada.


Abro o guarda-roupa.


Vazio.


Uma pontada atravessa meu peito.


Não.


Não.


Apoio-me na cama para não cair.


Respira.


Respira.


Ao tocar o colchão, meus dedos encontram um envelope.


Meu coração afunda.


As mãos trêmulas rasgam o papel enquanto as lágrimas já borram as letras antes mesmo que eu consiga terminar de ler.


“Tia,


Eu te amo.


Obrigada por tudo o que fez por mim e pelo meu filho durante todos esses anos. Foram os melhores anos da minha vida.


Às vezes, queria voltar no tempo e nunca aceitar aquele emprego no mercadinho da praia. Outras vezes, queria ter morrido junto com meus pais.


Mas, então, eu não teria o Sean.


É por ele e por vocês que estou indo embora.


Não suporto mais ver você e o tio Vincenzo brigando por minha causa. Lutando por mim. Arriscando tudo por nós dois.


Chegou a hora de crescer.


Roubei dinheiro daquele monstro. Dinheiro suficiente para fugir deste país e manter Sean longe dele por algum tempo.


Eu vi o que eles fazem, tia.


Depois daquilo... eu nunca mais consegui dormir em paz.


Preciso salvar o meu filho.


Por favor, tenta me entender.


Você me ensinou a ser mãe.


Ore por mim. Ore pelo Sean. Nós vamos precisar.


Quando eu encontrar um lugar seguro, mando notícias.


Diz para Antoine que eu a amo muito.


E pede perdão ao tio Vincenzo por tudo.


Te amo.


Isso não é um adeus.


Com amor,


Cassie.”


O papel escapa dos meus dedos.


Por um segundo, não consigo respirar.


Então corro.


— Enrico! — grito ao entrar na sala. — Eles fugiram! Eles fugiram!


Assustado, ele finalmente se ergue da poltrona.


— Quem fugiu?


— Cassie e Sean! — Minha voz falha enquanto ergo a carta amassada. — Liam vai encontrá-la! Eu sei que vai! Eu sinto!


— Meu anjo...


Pela primeira vez, há tristeza real em seus olhos.


Não compaixão.


Tristeza.


Ele se aproxima lentamente e segura meu rosto entre as mãos.


— Pense no Criador, Adessa. Cassie e Sean estão em Suas mãos agora.


— Não... — soluço. — Não deixa ela partir assim...


Sua mão toca minha cabeça.


Tudo começa a escurecer.


— Descanse e se cure, querida. O destino deles já foi selado.




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