CAPÍTULO 48 - FECHE OS OLHOS
Não houve sepultamentos.
Não sem corpos.
Celeste virou fuligem. Enrico desapareceu como se jamais tivesse existido. Ainda sinto o cheiro de rosas preso aos lençóis de sua cama. Eu mesma faço questão de lavar suas roupas, seu pijama, tentando encontrar algum vestígio dele entre o tecido úmido e minhas mãos trêmulas.
“Ainda não terminei minha missão.”
Talvez eu tenha realmente ouvido sua voz.
Ou talvez fosse apenas o eco daquela noite atravessando minha mente durante a festa que Antoine organizou para celebrar meu retorno.
Meu retorno ao inferno.
Porque é isso que esta casa se tornou. Um inferno do qual não posso fugir. Não sem meus filhos.
Antoine dorme há dois dias.
Sua temperatura oscila entre trinta e sete e quarenta graus enquanto Leo a vigia como um soldado exausto protegendo o último pedaço de mundo que lhe restou. Ele quase não sai do quarto. Só o faz quando eu insisto.
Vincenzo lhe deu licença da academia assim que percebeu o estado em que ele se encontrava.
Ainda não consigo olhar para meu homem.
Existe um abismo entre nós agora. Largo. Frio. Intransponível.
E Vincenzo não faz o menor esforço para atravessá-lo.
Sai cedo. Volta tarde. Evita minhas mãos durante as refeições, evita meus olhos, evita minha voz. Quando retorna para casa, assume Matteo em silêncio para que eu possa substituir Leo na vigília ao lado de Antoine.
Leo dorme pouco.
E quando dorme, acorda gritando.
Ainda não sei se ele se lembra do que fez naquela noite ou se alguma força sobrenatural tomou seu corpo enquanto tudo desmoronava diante de nós.
— Tia... vai descansar. Eu cuido dela.
— Depois que você comer, eu vou. Tem sanduíches na geladeira. Esquenta um no micro-ondas e volta. — forço um sorriso cansado. — “Saco vazio não para em pé.” Minha mãe dizia isso o tempo todo.
— A minha também... — Leo abaixa os olhos. — Quando Antoine acordar, vou contar essa do saco vazio. Ela vai rir da minha cara.
— Tenho certeza que vai.
Engulo em seco enquanto o observo sair do quarto sem abandonar a esperança de reencontrar Antoine exatamente como antes.
Eu não consigo.
Talvez porque, no fundo, eu saiba que nada voltará a ser como era.
O médico não encontrou nada preocupante. Chamou Antoine de “A Bela Adormecida” antes de pedir que observássemos qualquer mudança brusca em sua temperatura ou comportamento.
Mas existe algo errado.
Eu sinto.
Caminho até a cozinha tentando ignorar o silêncio pesado da casa. Tudo mudou rápido demais. Violento demais.
Abro a geladeira.
Duas lágrimas escorrem pelo meu rosto ao encontrar meu bolo de desaniversário pela metade.
— Quem teria coragem de comer meu bolo numa hora dessas?
A resposta vem imediatamente.
— Desde quando é preciso clima pra comer bolo?
Meu corpo inteiro enrijece.
Permaneço imóvel diante da geladeira aberta enquanto o ar frio toca meu rosto. Meu coração desacelera. Depois dispara.
Não.
Não pode ser.
Meus pensamentos se embaralham. Minha garganta seca.
Então, de olhos fechados, eu o ouço completar:
— Eu comi. Tem algum problema nisso?
— Nenhum. — bato a porta da geladeira com força. — O bolo estava ali pra ser comido.
Dou a volta na ilha de mármore e abro a torneira da pia sem sequer me lembrar do que vim fazer ali.
— Comer?
— Não fala comigo.
— Já não estamos calados há tempo demais, Dess? Você não fala comigo há mais de dois dias.
De costas para ele, rebato imediatamente:
— Engraçado. Eu ia dizer exatamente a mesma coisa.
— Então estamos oficialmente sem nos falar há dois dias.
— Foi o que eu acabei de dizer, idiota.
— Não. Fui eu quem disse primeiro.
Fecho os olhos por um instante.
— Não tenta bancar o engraçadinho agora, Vincenzo. Hora errada.
O silêncio atrás de mim pesa antes que ele responda, mais baixo:
— Não sinto graça em mais nada.
Meu peito aperta.
— Meu pai morreu. Minha filha está longe. Matteo sente falta do avô... e minha esposa me odeia.
— Eu não te odeio. — minha voz falha antes que eu consiga conter o veneno seguinte. — Você esqueceu de mencionar que sua amante morreu queimada por uma espada em chamas.
O silêncio muda de forma.
Quando Vincenzo volta a falar, sua voz soa cansada. Quase ofendida.
— Eu preciso te contar a verdade sobre Celeste.
Finalmente me viro para encará-lo.
— Ela não foi minha amante, Dess. Isso é tão falso quanto nojento.
— NÃO! — arranco o pano de prato da bancada e o atiro contra seu rosto. — NÃO QUERO OUVIR ISSO AGORA! Por favor... deixa minha filha voltar seja lá de onde ela estiver!
Passo por ele rápido demais.
Mas Vincenzo segura minha mão no instante em que tento fugir.
Eu suspiro.
O toque dele ainda desperta alguma coisa dentro de mim.
Ódio.
Mágoa.
Medo.
Amor.
Já não sei diferenciar.
— Outra hora, Vincenzo.
— Você não comeu nada.
Ignoro.
Quase corro até o quarto de Matteo, me escondendo dele, da conversa... e de mim mesma.
Matteo, completamente sujo de chocolate, mastiga um bombom com a concentração de quem acabou de descobrir o sentido da vida.
O rostinho borrado de marrom me faz sorrir pela primeira vez em dias.
Suas mãozinhas grudentas seguram meu rosto enquanto ele pergunta, preocupado:
— Mamãe dodói?
Meu coração falha.
— Não, filho. — rio baixinho, tentando não chorar de novo. — Por que você sempre acha que eu tô dodói?
— Dodói? — lambendo os dedos cobertos de chocolate, ele me observa atentamente. — Neném qué “meguio”. Neném qué “meguio”.
— Eu sei, filho. Eu preciso te dar atenção. É que aconteceu tanta coisa...
— Bobô dodói?
Seguro o choro.
— Vovô tá no céu, filho. No céu.
— Chéu? — pergunta ele, apontando o dedinho melado para o teto. — Papai do Chéu?
— Isso. Seu avô tá com o Papai do Céu.
Um nó se forma na minha garganta.
Desanimada, me deito sobre o tapete colorido do quarto.
— Por que ele não volta?
— Mamãe tiste?
— Sim. Mamãe tá triste. Muito triste.
Com cuidado, Matteo acaricia meus cabelos já grudados de chocolate.
Depois se deita ao meu lado como se aquela fosse sua única missão no mundo.
— Num chola. Bobô voa pa casa di neném.
Fecho os olhos.
— Quem me dera, filho.
Beijo seu rosto melado.
— Amanhã eu vou te levar na natação, tá bom?
— Meguio?!
Os olhos dele brilham imediatamente.
Equilibrando-se sobre minha barriga, Matteo abre os braços e começa a fingir que nada.
— Neném sabe nadá! Neném meguio!
O peso pequeno do seu corpo sobre o meu ventre.
O hálito doce.
A felicidade absurda e instantânea.
E, pela primeira vez em dias, eu gargalho de verdade.
Matteo ri junto, orgulhoso de si mesmo.
— Mamãe dodói sumiu!
Meu peito aperta.
Observando sua alegria espontânea enquanto ele apoia as costas nas minhas pernas dobradas, sussurro:
— Eu te amo tanto, filho. Se você não existisse... eu não sei o que seria da minha vida agora.
Matteo olha em direção à porta e abre um sorriso enorme.
— Papai!
Vincenzo congela no batente.
— Eu... eu não tava... espionando...
— Fala logo. — corto, sem olhar para ele.
Sento devagar no tapete, ainda de costas.
— O que você quer?
— Você não comeu nada. Eu te atrapalhei lá na cozinha.
A voz dele sai baixa. Culpada.
— Vim trazer isso pra você.
Timidamente, Vincenzo se ajoelha ao meu lado e coloca um prato sobre o tapete.
Meu x-burger favorito.
Cheddar extra.
A especialidade dele.
Ele sempre fazia aquele lanche quando eu voltava da Just Dance tarde da noite. Quando nossa vida ainda parecia normal. Quando eu ainda sabia respirar perto dele sem sentir medo.
Encaro o sanduíche em silêncio.
Sinto Vincenzo ali.
Quieto.
Esperando.
— Vai ficar aí?
— Não.
Ele se levanta rápido demais, tropeça e cai sentado no chão.
— Merda.
— Meda! — Matteo gargalha. — Papai caiu!
— Papai é bobão! — Vincenzo ri junto.
Matteo corre até ele e o abraça com força.
Então Vincenzo desaba.
De verdade.
— Papai te ama tanto, filho... Não me deixa...
Seu choro me paralisa.
Ajoelho diante dele sem dizer uma palavra.
Matteo segura seu rosto com as duas mãozinhas e o consola como eu faço quando ele se machuca:
— Vai pachá. Shhh. Vai pachá.
Vincenzo limpa as lágrimas com o dorso da mão.
A voz sai fanha:
— Come antes de esfriar.
Faminta, eu obedeço.
Recostada à parede, observo Matteo correr pelo quarto, devorando pedaços do pão entre gargalhadas.
— Mamãe meguio! Neném meguio!
Como seguir em frente sem Enrico?
Sem Antoine?
E como voltar a confiar em Vincenzo?
Levo um tempo até desacelerar Matteo, que cismava em demonstrar suas habilidades na banheira cheia de espuma, e colocá-lo em seu berço, onde repetiu, por diversas vezes, a palavra “meguio” até pegar no sono. As estrelas brilham sobre sua cabecinha quando deixo a porta entreaberta e o abençoo em silêncio.
Vou até o quarto de Antoine. Como uma princesa, ela sorri enquanto continua a dormir. Deve estar sonhando com Leo que, exausto, cochila ao seu lado. Afasto-me de mansinho e, caminhando até a varanda, sinto um cheiro peculiar e bastante familiar.
Piso no chão de madeira com os pés descalços. De braços cruzados, observo a chuva fina molhar as árvores e os arbustos do nosso quintal. Lembro-me de Enrico dançando com a pedra que ganhei do homem estranho na cafeteria. Segundo Enrico, os anjos estariam ao nosso redor.
Por que deixaram que o levassem?
Um arcanjo não pode morrer assim.
A vaca diabólica da Celeste não deveria ter o poder de sugar as energias de um ser superior a ela.
— E não tem.
— Cacete! Sempre me assustando! — Sentado na poltrona, desleixadamente, ele comenta de olhos fechados.
— Eu já estava aqui. Você deveria ter olhado para os lados antes de começar a pensar.
— Você deveria parar de ler meus pensamentos e cuidar da sua vida.
— Tô tentando… — diz ele, baforando a fumaça do meu cigarro. — Não é seu. É meu.
— Desde quando você fuma!?
— Desde que comecei a me sentir um merda. — Tossindo, ele conclui: — Desde que meu pai morreu e eu deixei de ser alguém nessa casa.
— Isso é maconha!?
— Sim. — Revirando os olhos avermelhados, arrastando a voz, ele pergunta: — Qual o problema? Você sempre fumou.
— E você sempre fez escândalo por isso!
— Me deixa em paz… tá tudo certo.
— Me dá isso! — Sentando-me ao seu lado, tento tomar dele a guimba ainda acesa. Ele afasta o braço, abrindo um sorriso infantil. — Você não sabe fumar! Tá deixando a porra da fumaça chegar aos pulmões! Isso faz mal! Sabia!?
Sorrindo, ele zomba:
— Não me diga? Eu tô de boas. Se eu morrer, não vou fazer falta a ninguém.
— Me dá! — Estico o braço até sua mão. Em um novo recuo, seu queixo roça minha bochecha.
Estamos próximos demais.
Afastando-me dele, resmungo:
— Precisa fazer a barba. Tá parecendo um mendigo.
— Não tem importância. Ninguém liga.
Um tapa em sua mão e a guimba cai na grama úmida. Prendo o riso enquanto ele reclama, chapado:
— Porra. Nada a ver. Eu tô tentando relaxar…
— Não relaxe! Eu não estou relaxada! Logo, você não tem o direito de relaxar!
— Dess, eu tentei falar com você. Você não quis. Eu tô tentando ficar longe de você. Você vem aqui e corta o meu barato. O que você quer afinal?
— “Corta o meu barato”!? Isso é jurássico!
— Aprendi com meu pai… — Levando as mãos ao rosto, ele volta a chorar. — Sinto tanto a falta dele. Não sei o que fazer.
Desejando abraçá-lo, afasto-me ainda mais, escorregando no assento macio da poltrona larga.
— Eu fui o culpado. Eu o matei.
— Não. Não diz isso. Eu tenho mais culpa do que você. Eu não deveria ter ido à casa de Cassie e enfurecido Liam.
— Você tentou salvar sua amiga, Dess.
— Ela era mais do que isso. Cassie era uma segunda filha pra mim. Ainda ouço os risos dela antes de dormir.
Olhando-me com ternura, ele pergunta:
— Você tem medo de saber se ela está no inferno?
— Tenho. Lúcifer disse que a alma dela pertencia a ele. Não tenho como saber onde ela está. Não tenho como ajudá-la, e isso tá acabando comigo.
— Tenho como saber.
— O quê!?
Nossos olhos se encontram. Enxergo medo em seu semblante ao responder, em um tom sombrio:
— Onde Cassie está. Não é isso que te aflige?
— Não!
— Ué!?
— Sim! Mas eu não quero!
— Não quer o quê!?
— Saber! Eu não quero saber onde ela tá! Não agora!
— Você é louca!?
— Sou! Você me deixa louca, Vincenzo! Nenhuma mulher normal suportaria o que eu tenho suportado sem enlouquecer!
— Ok! Pode me culpar! Eu acabei com a sua vida quando te reencontrei!
— Eu te culpo mesmo! Você me ferrou, Vincenzo!
— Eu sei… — lamenta ele, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as pernas. — Eu só fiz merda.
— Mas… também me salvou de uma vida desregrada, sem esperanças. Você me deu um filho…
— Você me deu dois. — Um riso curto escapa antes da provocação: — Venceu.
— Não seja idiota.
— Eu sou.
— Olha pra mim.
— Não quero.
— Vai continuar escondendo seu passado?
Seu pescoço estala quando ele finalmente me encara. O olhar triste repousa sobre mim antes da resposta:
— Não. Quer saber de tudo agora?
— Sim. — Voltando-me completamente em sua direção, cruzo as pernas e sustento seu olhar. Meu coração acelera ao pedir: — Conta tudo. Por favor.
Com as mãos cruzadas atrás da nuca, ele parece procurar as palavras certas.
— Não tô escolhendo merda nenhuma. Só tô com dificuldade de raciocinar. Esse cigarrinho não te faz bem. Melhor parar de fumar.
— Não fumo há séculos. Fala.
— Qual parte?
— Desde o início, Vincenzo!
— Não grita.
— Não tô gritando. Ainda.
— Celeste mentiu. Nunca fomos amantes.
— Não acredito.
— Problema seu. Se quiser que eu continue, finja que acredita e não me interrompa, porra. Isso é extremamente difícil pra mim.
— Por quê?
— Porque é uma história suja. Cheia de erros. Meus erros.
— Continua.
— Meu pai amava Celeste. Como eu poderia traí-lo de uma forma tão sórdida? Além disso, ela não fazia o meu tipo.
— Que tipo!?
— Você. Você sempre foi o meu tipo. Desde o início. Por você, eu melhorei.
— Você já foi pior?
— Sim. — Movendo a cabeça, como se tentasse afastar pensamentos intrusivos, ele prossegue: — Não tô espantando merda nenhuma. Para de pensar. Isso me atrapalha.
— Aonde vai?
Erguendo-me da cadeira, aviso:
— Não saia daí. Já volto.
Caminho até a sala. Arranco a tomada da Alexa da parede e, decidida a ouvir tudo o que ele tem a revelar, retorno à varanda.
— Sério!? Tu quer ouvir música agora!?
— Se for a única forma de você parar de ouvir meus pensamentos, sim. Alexa, tocar Bach. “Jesus, Alegria dos Homens”.
A voz eletrônica obedece. Vincenzo comenta:
— Boa escolha. Espero que Ele me perdoe… e proteja vocês…
— De quê? De quem? — pergunto, sentando-me diante dele na poltrona, as pernas cruzadas. Toco suas mãos trêmulas. — Conta, marido. Por pior que seja, eu ainda tô aqui, do seu lado.
— Dess… — Um beijo em minha testa antes de esconder o rosto entre as mãos. — Só um minuto.
— É tão grave assim? — pergunto, assustada. — Você matou alguém? Feriu? Por que Lúcifer me disse que o nosso amor está fadado à tragédia?
— Porque ele é um ser miserável. Nunca foi amado. Sempre desprezado e temido. Não ouça o que ele te diz, Dess. Ele quer nos separar.
— Não vai conseguir. Me fala tudo. Não havia um anjo bom, como você me revelou há alguns anos?
— Não. Eu nunca fui tão bom.
— Você era mau?
— Não. Eu fui burro e…
— E!?
— Ok. Me ouça e, depois, faça suas perguntas.
Com medo do que ele está prestes a revelar, concordo em silêncio.
— Quando eu ainda era um anjo, visitei a Terra à procura de novas sensações. Lúcifer ainda era meu amigo. Ele me incitou a errar… a pecar. Antes de te encontrar, fiz uma mulher sofrer. Daí vem meu transtorno. Eu a obriguei a me satisfazer…
— Você a violentou?
Comprimindo os olhos, ele assente lentamente. Tento não perder o equilíbrio.
— Ela morreu?
— Não. — responde ele, baixando a cabeça. — Ela viveu. Eu pedi perdão a ela e, confuso, vaguei pela Terra até te encontrar naquela noite.
— Não me lembro. — minto. — Como foi?
— Um alívio. Um sopro de Deus. Você me ensinou a ser bom novamente. Fizemos amor. Eu não te forcei a nada. Eu quis retornar ao Céu e pedir aos arcanjos que me deixassem “cair” por você. Eles não me atenderam. Estavam ocupados. Havia uma grande guerra no Céu, orquestrada por Lúcifer e seus amigos revoltados. Acabei “caindo” por engano, como já te contei. Me confundiram com um dos rebelados e, até hoje, não responderam ao meu pedido.
— Não precisa. Você já está na Terra.
— Não com o consentimento do “Meu Pai”.
— É óbvio que “Seu Pai” já sabe, Vincenzo!
— “Nosso Pai”, Dess. Nosso Pai.
— O “Meu Criador” não se limita a conceder permissões. Ele nos deixa viver de acordo com o que achamos correto. Cada um que arque com as consequências dos próprios atos.
— Exato. O “Seu Criador” é parecidíssimo com o “Meu Pai”. Ele me deixou aqui, na Terra, e eu te encontrei por diversas vezes até, enfim, construirmos uma família.
— Disso eu já sei, Vincenzo. Por que aquela vaca me chamava de “macaca”?
— Era assim que os rebelados se referiam aos humanos. No início, vocês se assemelhavam aos primatas. Depois veio a evolução da espécie de vocês, o que aumentou a ira e a inveja de Lúcifer. Ele ainda não admite ser menos amado do que os humanos.
— Vincenzo. Olha pra mim e me diz a verdade.
— Tô olhando, Dess. — Seu olhar repousa sobre mim com uma pureza dolorosa. — Pergunta.
— Por que você me queria longe de Liam?
— Depois de tudo, eu preciso responder!? Ele levou Cassie ao suicídio e tentou te matar, Dess!
— Antes disso, Vincenzo! Você já dava sinais de que eu deveria evitá-los! Por quê? Por que aquele papo de não querer nos perder? Por que o medo!?
— Porque ele quer que eu me junte à Legião e lute contra Lúcifer. — Um riso amargo lhe escapa. — Como se eles fossem adversários à altura do Rei do Inferno.
— E você é?
— Dess… eu não quero falar deles.
— Por que o medo? Eu ainda não entendi. Estamos juntos. O pior já passou. Seu pai partiu. Cassie partiu…
— Sean ainda está com eles.
— Não fala. Isso tem tirado meu sono. O que eles podem fazer com o pequeno Sean, Vincenzo?
— Dess… — Suas mãos pressionam minhas têmporas enquanto ele revela: — Seu “pequeno Sean” não é tão indefeso quanto você pensa.
— O que quer dizer com isso? — assusto-me. — Cassie, segundos antes de pular pela janela, disse que metade dele é Luz.
— Exato. Uma metade é Luz. E a outra?
Um arrepio percorre meu corpo. Levo a mão ao peito.
— Não. Sean é uma criança pura. Como nosso filho.
— Tem certeza? Então por que ainda não o mataram?
Arquejo, horrorizada.
— Você acha que Sean é…?
— É uma criança, Dess. Uma criança que, se não for orientada por alguém com um bom coração, pode acabar se transformando em um brinquedo mortal nas mãos de gente ruim. Ele é filho de um demônio. O que você espera disso?
— O mesmo que se pode esperar do nosso filho. — respondo, angustiada. — Não esqueça que sua Anahita descende da ligação entre uma humana e aquele ser maligno. Se o pequeno Sean tem um futuro marcado pelo Mal, nosso Matteo…
Abraçando-me com força, ele me interrompe:
— Nunca! Nosso filho não tem o sangue dele! Gerações se passaram! O sangue foi modificado! Purificado! Quase nada de Lúcifer resta em Matteo, Dess!
— Calma. Isso não me atormenta. Eu conheço Matteo. Ele é bom. — Ainda envolvida em seus braços, sussurro: — Você ainda não me disse o que te liga a Liam. Por que me pediu pra não tocar mais nele? Quando eu disse que quase o matei… você sentiu medo. Eu vi. Eu senti, Vincenzo. No hospital.
— “Eu vi. Eu senti.” — repete ele, sorrindo de um jeito melancólico. — Vou sentir falta disso, Dess…
— Fala! Por que vai sentir falta!? Vai nos deixar aqui!?
— Não, se você se mantiver longe dele, Dess.
— Por quê!?
— Porque, se ele morrer…
Ávida por suas palavras, não percebo o grito vindo do quarto de Antoine. É Vincenzo quem desperta minha atenção ao se levantar, apressado.
— Nossa filha, Dess!
— Antoine!?
— Vem!
Corremos juntos até o quarto. Empurramos a porta entreaberta e arquejamos ao vê-la de volta. De volta ao próprio corpo.
— Ela acordou, tia! — comemora Leo, emocionado.
Antoine nos encara com expressão confusa, os cabelos bagunçados espalhados pelo travesseiro.
— Ainda sobrou um pouco do seu bolo de ontem, mãe? — pergunta ela, rouca. — Tô varada de fome.
— Você tá diferente, filha.
— Em quê? Eu tô com fome. Só isso.
— Foram quase quatro dias, tia. — explica Leo. — O sono alimenta, mas, agora que acordou, ela tende a recuperar o tempo perdido.
— Tempo perdido… — repito, erguendo os olhos para o teto da cozinha ao me lembrar da última noite de Enrico. — Vocês dançaram essa música.
— Dançamos, não. — corrige Antoine, abocanhando o segundo x-burger preparado por Vincenzo. — A gente pulou. Disso eu lembro. Música sinistra.
— Existem outras ainda mais sinistras. — comenta Leo, iluminado pela luz amarelada do lustre sobre nossas cabeças. Sentados à bancada, Vincenzo e eu os observamos atentamente. — Vou te mostrar tudo agora que você acordou.
— Tô ligada!
— Você cresceu, filha. Seus músculos… o cabelo…
— Dess, isso é normal.
— Não. Não é. Se eu dormir agora, vou acordar exatamente igual daqui a quatro dias, Vincenzo.
— Faz sentido, pai. — Antoine dá de ombros antes de morder mais um pedaço do sanduíche.
— Antoine! Come devagar! O mundo não vai acabar hoje!
— Tem certeza? — Ela me lança um olhar impossível de decifrar antes de sorrir. — Relaxa, mãe. Foi brincadeira.
Solto o ar lentamente.
— Não tem graça, filha. Onde você esteve enquanto dormia?
— Meu maninho tá com fome.
— Não desconversa. — Matteo, sentado em meu colo, espalha ketchup sobre a bancada de mármore enquanto insisto: — Por que não quer responder? Precisamos saber o que aconteceu. Você desapareceu por quatro dias e passou esse tempo inteiro com febre.
— Mãe, relaxa. Eu voltei. Fala pra ela, pai.
— Eu!? — Vincenzo arregala os olhos. — Eu não faço ideia de onde você esteve!
— Por que o nervosismo, Vincenzo?
— Não tô nervoso, Dess. Eu também quero saber onde ela esteve. Talvez ela não lembre.
— Talvez eu lembre… — De boca cheia, Antoine completa: — E não queira… ou não possa contar.
— Talvez eu surte agora e te obrigue a falar!
— Dess! Calma!
— Pro inferno com a calma! Nossa filha tá escondendo alguma coisa! Você não sente isso!? Ou vocês dois estão se comunicando enquanto Leo e eu bancamos os idiotas!?
— Mamãe dodói? — pergunta Matteo, automaticamente alarmado pelo meu tom de voz.
Reviro os olhos.
— Não, filho. Eu não tô dodói. Tô com raiva. É diferente.
— Mamãe dodói. — Afirma ele antes de beijar minha bochecha melada de suco.
Antoine ri do irmão, abre os braços e o recebe no colo.
— Não, maninho. Ela só tá nervosa. Come.
Ao redor da bancada, todos se calam. Todos, menos eu.
— Filha... fala alguma coisa.
— Eu estive com meu avô.
Vincenzo arqueja. Emocionado.
— Onde!?
— Onde ele está agora.
— Como ele está, filha? — pergunta ele, tocando o dorso da mão dela.
— Bem, pai. Muito bem.
— Ele vai voltar?
— Não exatamente.
— “Não exatamente” não é resposta!
— Dess, você poderia simplesmente aceitar o que ela fala sem pressionar mais?
— NÃO!
— MAMÃE DODÓI! — grita Matteo, furioso para Vincenzo.
Juro que quase rio. O menino bate a mãozinha na bancada e ameaça o pai:
— Ai ai ai! Papai feio!
Rindo, Vincenzo o pega no colo. Matteo lhe dá um tapa no rosto.
— Isso é feio, filho! — repreendo. — Peça desculpas!
Os lábios dele tremem antes do choro vir.
Antoine salta da banqueta, beija minha bochecha e pega Leo pela mão.
— Filha, aonde vai!? Ainda não terminamos!
Ela para à porta. Seus olhos parecem mais antigos do que deveriam.
— Um terá de partir para o outro vir.
— EI, MOCINHA!
Tento ir atrás dela, mas Vincenzo me segura.
— Depois, Dess. Dá um tempo pra ela.
— Tempo? Tempo é justamente o que nós não temos. Ela tá crescendo e se afastando. Você não percebe?
— Sim. — Abraçando-me por trás, ainda com Matteo no colo, ele sussurra: — Vamos tentar viver com o que temos agora?
Um aperto estranho invade meu peito.
— Eu te amo. Não me deixa.
— Nunca.
Matteo toca meu rosto molhado.
— Mamãe dodói passou?
Sorrio, mentindo:
— Passou.
Antes de regressar ao “Just Dance”, levo Matteo à natação.
Animadíssimo, ele corre até a borda da piscina assim que retiro seu roupão estampado com os “Minions”. Confiante, mergulha na água morna antes mesmo do início da aula.
Sem as boias nos braços.
Ele permanece submerso.
Por segundos eternos, fico paralisada, observando a apatia do professor que apenas me encara, sem expressão alguma no rosto.
Num salto desesperado, alcanço o fundo da piscina.
Prendo a respiração.
Procuro meu filho ouvindo apenas o som do silêncio.
Movendo braços e pernas, evito emergir sem ele.
Com dificuldade, nado até uma das extremidades. As roupas pesam. Os cabelos flutuam ao meu redor. O cloro arde em meus olhos enquanto meu coração martela dentro do peito.
Não posso desistir agora.
Não enquanto não encontrar meu filho.
De súbito, Matteo passa por mim.
Emerge agarrado a alguma coisa.
Sinto sua mãozinha tocar meu ombro e, lentamente, movo a cabeça. Seu sorriso me faz arfar, aliviada. Inconscientemente, inspiro água pelo nariz. Uma dor aguda invade minhas narinas, subindo até o topo da cabeça.
Antes de fechar os olhos, vejo bolhas por todos os lados.
Ágil como um peixe, Matteo me puxa para cima.
Desnorteada, toco na mão estendida em minha direção. O movimento da água distorce sua imagem, embora eu a reconheça.
Puxando-me até a borda da piscina, ele me ajuda a deitar.
Sinto frio. Medo. Vertigem.
Cuspo água pela boca e tusso violentamente.
— Nosso filho... — sussurro com dificuldade.
Surpresa, vejo Matteo agachado ao lado do pai, perfeito e sorridente.
Sob uma saraivada de aplausos, Vincenzo se inclina até meu ouvido.
— Nosso filho acabou de salvar a vida de um amiguinho, Dess. Ele é bom. Puxou você.
— Sério?
No banco traseiro do carro, ainda com as roupas úmidas, o cabelo desgrenhado e tremendo de frio, agarro-me ao meu filho coberto pelo roupão.
Através do retrovisor interno, aviso Vincenzo:
— Havia alguma coisa no fundo da piscina. Eu vi.
Seu olhar encontra o meu pelo espelho.
— Tinha olhos vermelhos. E não tinha boas intenções.
O silêncio dentro do carro se torna sufocante.
Abraçando Matteo com mais força, concluo num sussurro:
— Aquilo queria o nosso filho.
— Eu acredito, Dess. Eu acredito. — Vincenzo fixa os olhos assustados em meu reflexo através do retrovisor. — A perseguição já começou. — Sua voz falha. — Estamos perto do início do fim.
— O professor viu tudo e não fez nada! Ele me olhou... e não fez nada!
— Não volte àquele lugar, Dess.
— Não vou voltar. — Aperto Matteo contra meu peito. — Estou com medo, marido.
— Eu também. — Seus dedos se fecham com força ao redor do volante. — Mas não vou desistir se você continuar comigo.
— Vou continuar...
Beijo a cabeça de meu pequeno herói enquanto ele repete sua frase favorita.
— “Mamãe dodói” passou?
Sentindo-me impotente, minto outra vez.
— Passou.
Abraçada ao meu filho, sentada no chão de seu quarto, escuto a narrativa peculiar de Matteo sobre o que acontecera durante o dia.
Antoine penteia meus cabelos ainda úmidos enquanto ri do vocabulário restrito do irmão, da dramaticidade exagerada em seus gestos, das caretas e dos olhos arregalados.
— Meu maninho tem um poder ainda maior do que o meu, mãe. — Ela passa os dedos entre meus fios embaraçados. — Não permita que ele se desvie.
— Não entendi, filha.
Esfregando meu couro cabeludo delicadamente com a toalha, ela desconversa:
— Por que todas as meninas ganham uma festa quando completam quinze anos?
— Oi??? De onde veio essa pergunta???
— Leo me disse que é comum. — Um suspiro triste escapa de seus lábios. — Eu queria tanto ser comum... Acho que vou sentir saudades daqui.
— Antoine... — Cubro o rosto com as mãos e imploro. — Para. Por favor. Eu odeio quando você começa com esse assunto.
— Ok. Não precisa chorar, madame. — Ela sorri suavemente enquanto finaliza a trança. — Seu cabelo ficou simplesmente esplêndido.
Observando meu reflexo no espelho oval à nossa frente, murmuro:
— Eu amo tranças.
— Eu também. — Seus olhos brilham. — Se um dia eu pudesse ter uma festa de quinze anos, usaria uma trança enorme.
— Você sabe quantos anos tem? — pergunto, entre curiosa e desconfiada. — Pelo seu tamanho, eu diria uns quinze... talvez dezesseis.
Ela me encara através do espelho.
— Devo ter quinze...
— “Deve”? Não existe alguém, lá em cima, que te oriente?
— Existe.
— Filha... fala comigo. — Seguro sua mão. — Sou sua melhor amiga. Pelo menos aqui na Terra.
Seu semblante se enternece.
— Você é minha melhor amiga em todo o universo, mãe.
De súbito, começo a chorar.
Em silêncio, ela me abraça enquanto Matteo corre pelo quarto cantarolando seu clássico:
— “Nininha dodói... nininha dodói...”
Incomodada com sua obsessão por doenças, abro a porta do quarto.
— Vincenzo! Cuida dele!
Recostada à porta fechada, volto a encará-la.
— Seu irmão tem razão? Você está doente?
— Não, mãe... — Revirando os olhos, ela ri baixinho. — Ele é especial, mas ainda é uma criança. Não estou doente.
Uma pausa.
— Só estou no fim.
Minhas pernas enfraquecem instantaneamente.
Escorrego até o chão, puxando o ar pela boca.
— Filha... não faz isso comigo. Eu não sei viver sem você.
— Não vou te deixar. — Ela se ajoelha diante de mim. — Estou brincando.
Mentira.
Assim como o pai, Antoine não sabe mentir.
— Levanta. — Ela estende a mão. — Hoje tem treino de kickboxing. Preciso estar perfeita para o grande dia.
— Eu me recuso a perguntar que dia é esse.
— Melhor assim, mãe. — Um sorriso leve. — Você me leva até a academia ou peço ao meu pai?
Reunindo forças que nem sabia possuir, concordo:
— Eu te levo. Afinal, aquele lugar ainda é meu trabalho.
— Se eu te mostrar uma música, você monta uma coreografia pra mim?
— Claro. — Abraço-a demoradamente, tentando não desabar em seu ombro. Meu Deus... ela já está da minha altura. — O que você quiser.
— Ótimo! Vou avisar ao Leo que teremos o nosso próprio baile!
— Que baile, Antoine?
— O dos meus quinze anos! Vai ser simplesmente esplêndido!
— Sem convidados? Sem salão? Sem bolo?
Ela dá de ombros.
— São só detalhes, mãe. Se vocês estiverem comigo, eu já vou ser feliz.
Correndo até o quarto, ela liga o notebook e chama Leo numa videochamada.
— Vamos poder dançar aquela música! Minha mãe vai montar uma coreografia! Vai ser como uma festa de verdade... só que de mentirinha!
Recostada à parede do corredor, fecho os olhos.
Volto ao dia em que ela decretou o fim de sua existência na Terra.
Aos quinze anos.
Não.
Isso não vai passar em branco.
Se minha filha sonha com uma festa de quinze anos... então ela vai ter uma.
A melhor de todas.
Ela merece.
Pode parecer covardia. Talvez seja.
Evito me reencontrar com Aninha e rever o “menino carrancudo”.
Durante o intervalo entre uma aula e outra, ouço elogios sobre Antoine vindos de meu colega, professor de kickboxing.
— Nunca vi uma aluna tão disciplinada quanto ela. — Ele sorri, impressionado. — Tão focada em um objetivo.
— E qual seria esse objetivo? — pergunto imediatamente. — Ela comentou alguma coisa com você?
— Sim. — Ele confirma, animado. — Disse estar se preparando para algum tipo de batalha. Não lembro o nome...
Um aperto percorre meu peito.
— A “Grande Batalha”?
— Isso! — Ele ri. — É algum campeonato? Jogos entre jovens? Alguma competição dessas?
Desvio os olhos.
— Não. É bobagem. Antoine gosta de dramatizar.
— Adessa. Tá fugindo de mim?
Viro-me lentamente.
— Aninha...
— Faz tanto tempo que você sumiu. Desde que...
— É... — Hesito, desconfortável. — Passei por alguns problemas. Mas acho que, agora, voltei de vez.
— Por que você não consegue olhar pra mim?
Porque o “menino carrancudo” ainda está ao seu lado.
— Adessa, eu preciso da sua amizade. É a amizade mais sincera que já tive.
— Você ainda tem minha amizade, querida. É que...
— Você sente alguma coisa?
Lanço um olhar rápido ao menino ainda mais sujo, agressivo e silencioso.
— Não. — Minto. — Só ando ocupada demais. Você melhorou?
— Sim. Parei de sangrar, mas...
— Mas?
Ela me puxa discretamente para um dos cantos da academia.
— Sinto dores horríveis nas costas. — Sua voz falha. — E não consigo dormir direito. Sempre acordo de madrugada com a sensação de que não estou sozinha no quarto.
Seus olhos se enchem de lágrimas.
— Estou enlouquecendo ou realmente existe alguma coisa perto de mim?
— Não sei. — Minto outra vez.
Odeio mentir.
Como explicar que não aceitei aquele aborto? Como dizer que talvez ela devesse rever certas escolhas antes que fosse tarde demais?
— Não é tão simples assim, Aninha. Essas coisas exigem concentração. Calma.
— Você falou sobre um menino naquele dia. — Ela segura meu pulso com força. — Enquanto eu sangrava. Você conversou com ele.
Seu medo cresce.
— Você viu alguma coisa, Adessa? Por favor... me fala a verdade.
— Não aqui. Não agora. — Lanço um olhar de reprovação ao menino montado em suas costas. — Depois conversamos.
— Promete?
Apiedando-me de seu estado deplorável, cedo:
— Prometo.
Toco suavemente suas costas curvadas e oro em silêncio para que o Criador conceda descanso àquela criança.
De súbito, Aninha volta a se manter ereta.
— Parou de doer! — Ela arregala os olhos, eufórica. — Como você fez isso?
— Não fui eu. Foi o Criador. — Seguro suas mãos. — Você ainda acredita n’Ele?
— Sim... mas tenho andado distante.
— Nunca é tarde pra voltar. Ninguém melhor do que eu pra te dizer isso.
— Posso te esperar lá em casa pra conversarmos?
Olho rapidamente o relógio acima de sua cabeça.
— Pode. Mas agora estou atrasada pra próxima aula. Depois marcamos direito, ok?
Beijo sua testa e sigo em direção à sala.
Então ele me faz parar.
“Não vou me afastar dela. Você sabe disso.”
Sua voz ecoa dentro da minha mente.
Sem me virar, respondo em pensamento:
“Por mim, tudo bem. Tente explicar isso aos que estão acima de você. Tudo tem começo e fim. Até mesmo sua busca por justiça.”
Uma pausa.
“Eu não decido nada.”
Entro na sala sem olhar para trás.
Mas, antes que a porta se feche completamente, ainda o vejo montar novamente sobre as costas de Aninha.
Instantaneamente, ela se curva.
O peso retorna.
— Isso não pode continuar assim... — murmuro para mim mesma. — Não é justo.
— Discordo. As Leis são imutáveis. Ela matou a criança três vezes. Deve pagar por seu crime aqui... e após a morte.
— Agora não, verme. — Rosno diante do espelho retangular enquanto as alunas se alongam atrás de mim. — Tenho que trabalhar. Volte pro inferno.
Uma risada baixa, monstruosa.
Lúcifer sorri através do reflexo.
— Voltarei. Vim apenas transmitir uma mensagem da sua Cassie.
Meu estômago afunda.
— Ela sofre como jamais imaginou... — Seus olhos brilham de prazer perverso. — E isso me faz tão bem.
— Maldito. — Aperto a bancada até os dedos doerem. — Eu vou atrás dela.
— Te espero.
— Você disse que sabe como encontrar Cassie. Eu preciso saber onde ela está. E como está.
— Não, Dess. Agora não. Você ainda não consegue lidar com isso.
— Se você não me ajudar, vou procurar outra pessoa.
— Não vai adiantar. — Vincenzo desvia os olhos. — Nada vai mudar.
— Ela está no inferno?
— Dess... não se mete nisso.
— Ela tá no inferno!?
— Não. — Ele segura meu rosto com firmeza. — Se acalma. Cassie não está no inferno.
Minha respiração vacila.
— Deus é misericordioso. — Sua voz suaviza. — Ele julga as intenções que levaram alguém a cometer um pecado tão grave contra Suas Leis.
— Então onde ela está!?
— Se continuar se alterando desse jeito, eu vou te levar pra um hospital. Estou falando sério.
— Me solta!
Ele segura meu pulso e me arrasta até um dos cantos vazios do ringue.
A música da academia continua ao fundo.
Pesos batem.
Alguém ri.
O mundo segue normalmente enquanto o meu desmorona.
— Chega, Dess. — Ele cochicha, severo. — Já passou da hora de você controlar essa impulsividade.
Seus olhos escurecem.
— Ela pode nos separar pra sempre.
Paro.
Respiro fundo.
Pela primeira vez em minutos, penso antes de responder.
— Devemos viver escondidos dos perigos? — pergunto mais baixo. — Como você tem feito?
Vincenzo solta meu braço lentamente.
A mágoa em seu rosto me desmonta.
— Eu não me escondo. — Sua voz falha levemente. — Eu protejo vocês de algo muito pior do que você consegue enxergar.
Silêncio.
Então ele completa:
— Mas tudo bem. Faz o que quiser. Continue ignorando tudo. Continue pensando só em você. Como sempre.
— Não fala assim... — Minha garganta aperta. — Isso me machuca.
Ele sorri sem humor algum.
— Existem coisas que vão te machucar muito mais do que minhas palavras, Dess. Pode acreditar.
Meu peito gela.
— Você tá me assustando.
— É exatamente assim que eu tenho vivido desde que Liam e a Legião surgiram nas nossas vidas.
Ele aproxima o rosto do meu.
Exausto. Furioso. Apaixonado.
— Mas isso nunca importa pra você. Você vai me ignorar, fazer alguma merda de novo... e eu, como sempre, vou catar os seus cacos depois.
— Que mágoa é essa, marido? Eu não entendo.
— Se você pudesse compreender o que tento te dizer...
— Não tenta! Fala!
— Não fala mais com o Liam! Fica longe dele! Eu tô te implorando!
— João?
— Perdão, Adessa. Mais uma vez, interrompo vocês.
— Você tá certo, irmão. — diz Vincenzo, desorientado. — Aqui não é lugar pra discutir. É o nosso trabalho.
— Vincenzo! Ainda não terminamos!
— Eu já. — rebate ele, dando-me as costas enquanto caminha ao lado de João. Subindo no ringue, avisa: — Em casa, a gente conversa, Dess. Até lá, tenta não se meter em confusão.
— Isso não é justo... — lamento, num fio de voz.
De volta ao carro, penso em suas palavras.
É sério que ele sugeriu que sou egoísta? Egocêntrica?
Tudo o que faço é por nossa família.
Estamos nos afastando e eu não sei como impedir isso.
O que Antoine quis dizer com: “Um terá de partir para o outro vir”?
Quem eu poderia convidar para sua festa?
Todos partiram.
Cassie. Doc. Adele. Mimi. Jujuba. Sweet. Enrico...
— Nossos amigos se foram. Estamos sozinhos nas mãos do Mal. Isso não é justo.
Distraída, observo o vermelho intenso do semáforo até perceber sombras circulando ao redor do carro.
Um arrepio percorre minha espinha.
Pelo retrovisor externo, eu o vejo mancar em minha direção.
Acelero no instante em que o vidro da janela trinca sob o golpe violento do taco de baseball.
Ensandecido, Liam o ergue no meio do asfalto enquanto grita meu nome.
Os pneus cantam.
Meu coração também.
— Vou tirar TODOS de você, Adessa Love! TODOS!
Tremendo ao volante, tomada pelo medo e pelo ódio, engato a marcha à ré.
Foco sua imagem distorcida no retrovisor interno.
Então acelero.
Dessa vez, é ele quem arregala os olhos.
As lanternas vermelhas iluminam seu rosto segundos antes de eu frear violentamente, a centímetros de esmagá-lo.
O taco escapa de suas mãos.
Salto do carro deixando a porta aberta.
Determinada, caminho até a arma caída no chão e a ergo sob a luz fria da lua.
— Vagabunda.
— Desde quando você manca, Liam? — debochei, girando lentamente o taco entre os dedos. — Não me lembro dessa característica em você.
— Pode rir agora. Sou paciente.
Avanço em sua direção.
Ele recua.
Mesmo mancando, continua assustador.
As sombras ao redor dele parecem vivas.
— Onde está o Sean!? — grito. — Ele não pode ficar com você e aquele bando de viciados!
— Cassie nunca teve poder algum sobre nosso filho.
— O filho ERA DELA! Nunca seu! — berro enquanto os vultos se aproximam pelas laterais do beco. — Me entrega o Sean, Liam! Era o desejo dela!
Sob a luz trêmula do poste, seu sorriso parece inumano.
— Ele é filho de um demônio que tomou meu corpo, Adessa.
— Não. — aperto o taco com mais força. — Eu vi. Eu vi o que aconteceu naquela noite.
— Então você já sabe.
— Não...
— Vi! A “grande pitonisa”, como você gosta de me chamar, viu tudo! Idiota! Agora, você não passa de um corpo sem utilidade! Um corpo que manca!
— Vadia!
Golpeando o ar, afasto as sombras. Sem intenção, acerto sua cabeça. Tonto, Liam tomba contra o chão molhado de onde me amaldiçoa:
— Vai ficar sozinha na Terra. Perambulando entre os “macacos”, sem encontrar a paz que eu vou tomar de você. De um jeito ou de outro.
— Você não pode fazer nada contra a minha família!
— Não? — Rindo, ele se ergue com dificuldade e, num tom irônico, pergunta: — Tem certeza? Já perguntou ao seu marido o que acontece se eu morrer?
— O que acontece se você morrer? — indago, insegura. — Fala.
— Pergunte a ele. Isso, se ele tiver coragem de te contar. Tem tanta coisa que ele esconde de você... — Um sorriso sarcástico nasce em seu rosto ferido enquanto ele se delicia com meu desconforto. — Adoraria contar, mas vai ser muito mais saboroso saber que você ouviu a verdade da boca de Vincenzo. O falso “anjo bom”.
— Como sabe disso? — murmuro, recuando, movendo o taco de um lado ao outro. — Ninguém sabia dessa história.
— Ninguém além de centenas de anjos que “caíram” com ele, imbecil. Ele ainda insiste em te dizer que “caiu” por engano?
— Babaca... — arquejo, hesitante.
Um sorriso lento surge no canto de sua boca.
— Não vou falar mais nada. Estou adorando ver o medo no seu rostinho de puta.
— Não tenho medo de você, seu monte de bosta.
Recuo até meu carro enquanto ele permanece imóvel, cercado pelos vultos. Algo os afasta de mim e não são os meus poderes de bruxa fracassada.
Apontando o taco de baseball em sua direção, eu o provoco:
— Você é a porra de um anjo falido que tentou ser mais importante do que o próprio filho que, aliás, nem é seu filho!
Rindo histericamente, continuo:
— Não é assim que funciona, Liam! O poder que você deseja é herdado! Genético! Sean tem algum poder! Meu filho tem poder! Antoine tem poder e, talvez, até eu tenha poder! Não é incrível como a puta aqui tem mais poder do que o líder falido de uma legião de anjos invejosos!?
O rosto dele endurece.
Finalmente.
Acertei,
— Você ainda vai sofrer muito... — rosna ele. — E eu vou rir enquanto sofre.
— Você tá blefando, verme. Já perdeu tudo. Até mesmo o Sean. Sei que não pode tocar nele. O verdadeiro pai dele não deixa.
Outra risada histérica escapa de mim antes que eu prossiga:
— Você é um covarde. Pra que ficar com ele? Ele não vai te dar poder. Deixe que ele fique comigo. Eu cuidarei bem de Sean e você fica livre pra se misturar aos porcos que comanda.
— Sem chances. Não tenta me enganar, puta. Isso não lhe cai bem.
Dando-lhe as costas, desistindo de lutar, abro a porta do meu carro. Decidida a sair dali, ele me diz algo que me desequilibra:
— Volta pra sua casa e aproveite o pouco tempo de paz com sua família que, em breve, vai diminuir.
— O que disse?
Fecho a porta do carro com força. Erguendo o taco com as duas mãos pela base, inflo as narinas ao ordenar:
— Repete.
— Você ouviu. Não é surda. “Carpe Diem”, Adessa. O tempo está passando. Está perdendo tempo aqui enquanto poderia estar entre eles...
Dou dois passos adiante e, tomada pela raiva, acerto o taco em sua perna manca.
Liam cambaleia.
Eu gargalho.
— Ops! Foi sem querer! Como se sente apanhando de uma “macaca”, Liam!?
Outro golpe em suas costelas o faz cair contra o chão úmido do beco.
As sombras avançam sobre mim.
Recuo, fazendo o taco girar ao meu redor. Um arrepio sobe pela minha nuca e, estranhamente, os vultos tornam a recuar.
Prestes a esmagar a cabeça de Liam, ouço a voz atrás de mim:
— Não, baby. Não seja impulsiva.
— Você!?
Sua mão sobre as minhas impede meus braços de descerem. Olhando em meus olhos, Aiden toma o taco de minhas mãos e o joga contra Liam, inerte no canto do beco sujo.
— Não o mate. Pelo bem dos seus filhos, afaste-se dele.
— De onde veio, Aiden?
Puxando-me pela mão, ele responde:
— Não importa. — Abrindo a porta do meu carro, ele me faz sentar no banco. Um sorriso tímido surge em seu rosto antes de concluir: — Eu vim te ajudar a não cometer outra loucura. Mais uma, e você perde tudo, baby.
— Os vultos! — alerto, assustada. — Estão voltando!
— Eu sei. Eu cuido disso.
Fechando a porta do carro, ele ordena num tom mais alto e severo:
— Agora vai!
— Não posso te deixar sozinho! São muitos!
Roubando-me um beijo rápido, ele afirma, confiante:
— Eu dou conta. Tenho trabalhado pra isso. Vai. Por favor.
— Mas...
— Agora, baby!!!
Piso no acelerador segundos antes de ver a turba de demônios cercar Aiden que some dentro da escuridão. Apesar de não esperar para ver o desfecho, sinto que ele não se deixará vencer por eles. Havia luz em sua aura. Uma luz que jamais existiu enquanto estivemos juntos aqui na Terra.
‘Meu Guardião’, penso alto.
Sorrio.
Estaciono o carro na garagem e subo os degraus da varanda ainda atormentada pelas palavras de Liam sobre o falso “anjo bom” e sua queda.
‘Todos conhecem a história de Vincenzo, exceto eu?’
— Nem todos. Muito do que dizem é boato.
Sentado no último degrau da varanda, ele me encara enquanto o confronto.
A luz amarelada acima da porta ilumina parcialmente seu rosto cansado. Vincenzo parece exausto. Como alguém que já sabe que a noite ainda está longe de acabar.
— Tá pronto pra me dizer o que acontece se Liam morrer, Vincenzo?
— Onde esteve? — pergunta ele, desconfiado.
— Tentando voltar pra casa. Por quê?
— Não tem nada pra me dizer?
— Tenho. Mas, antes, é você quem vai me contar tudo.
Erguendo-se do degrau, ele me puxa pela mão e me faz sentar na poltrona da varanda. Seus olhos tristes me encaram. Em silêncio, Vincenzo se senta ao meu lado.
Incomodada com sua quietude, penso nas árvores frondosas, no céu estrelado... em tudo, exceto no que não devo pensar.
— Aiden?
— Quem!?
— Aiden. Ele esteve com você?
— Não desconversa, Vincenzo. Por que você depende da vida de Liam?
— Ele te salvou novamente?
— Como sabe disso se eu não te contei!? Eu sequer pensei nisso!
— Vc pensou. Antes de estacionar.
— E daí!? Isso não vem ao caso!
— Ele te beijou?
— Vincenzo! Vc me seguiu!?
— Tenho meus informantes.
— Que tipo de informante fica em becos escuros vigiando sua esposa!? Gente boa não é!
— E não são. — Um olhar estranho cruza seu rosto antes da confissão: — Conheço todo tipo de gente, Dess. Inclusive, os maus.
— Os da “Legião”!? Você tem contato com eles!? Foram eles que te contaram sobre Aiden!? Além de maus, são fofoqueiros!?
— Não tenho contato com eles, Dess. Aliás, é tudo o que desejo evitar. Mas você não deixa.
— Então por que não conta logo a verdade!?
— Você beijou o Aiden?
— Não vem ao caso!
— Beijou!?
— Foi o Liam! — afirmo, enojada. — Babaca invejoso! Homicida!
— Ele te beijou, Dess!?
— Liam deveria ter contado que Aiden surgiu do nada e me salvou daquele psicopata! E sim! Ele me roubou um beijo que eu não correspondi! Satisfeito!?
— Ele se acha um “guardião”. — desdenha Vincenzo.
— Ele É um guardião, Vincenzo!
— Se você me amasse, não se ofenderia com um ato infantil de alguém que salvou sua esposa de algo muito pior! Mas seu amor por mim diminui a cada dia! É visível!
— Idiota... — resmunga ele, apoiando os cotovelos nos joelhos, as pernas abertas. — Você me julga tão mal. Eu só quero ficar perto de você e da minha família.
— De novo não! A verdade! Agora!
Ajoelhando-me entre suas pernas, seguro seu queixo com firmeza.
— Liam e você estão juntos nisso!? Já entendi que você não é tão bom quanto me contou há anos! Me diz! Você faz parte da merda da “Legião”!? O que acontece se Liam morrer, Vincenzo!?
Seus olhos injetados encontram os meus.
Então ele explode.
— Eu assumo a porra da liderança da “Legião” e terei todas as minhas lembranças dessa vida deletadas! Satisfeita agora, Dess!? Vocês vão desaparecer da minha memória! Da minha vida!
Arquejo.
Ele continua, transtornado:
— Eu fiz um trato com Liam! Ele fica longe de vocês! Em troca, eu assumo a “Legião” se alguma coisa acontecer com ele! Eu posso não ser a porra de um anjo bom, mas eu não sou mau! Eu juro!
Sua voz falha.
— Já cometi muitos erros antes de chegar até você! Deus sabe! Mas eu não sou mau! Eu me deixei guiar por instintos que desconhecia, mas eu não sou mau! Eu não quero liderar aqueles filhos da puta! Eu só quero viver em paz entre vocês! Você e nossos filhos são a minha família! Meu porto seguro! Foi pra isso que te procurei durante séculos, Dess! Séculos e séculos!
Erguendo-se de súbito, ele me empurra sem perceber a força usada.
Caio contra o piso de madeira da varanda.
Em silêncio, observo seu corpo inteiro tremer enquanto ele anda de um lado para o outro.
As mãos cruzadas na nuca.
A respiração falhando.
O ódio voltado apenas para si mesmo.
— Eu me odeio por ter chegado a esse ponto...
— O que te prende a ele, amor? Você não é obrigado a nada. Ou é?
— Sou.
— Por Liam? — zombo. — Ele não vale nada! Não tem poder algum!
— Chega, Dess. Eu já te contei a verdade.
Do chão, refuto:
— Parte dela. Você me esconde mais segredos. Quais são? Por piores que sejam, eu vou compreender. Não me afasta de você. Eu te amo. Eu preciso do teu amor, do teu toque, dos teus beijos...
Avançando em minha direção, ele me assusta ao me erguer do chão e me abraçar com força, chorando em meu ombro.
— Marido... me conta. Você fez mal a alguém? É esse o segredo que te prende a Liam?
— Eu... eu...
Beijando sua nuca, eu o encorajo:
— Fale. Não vou deixar de te amar.
— Tudo o que fiz foi antes de te conhecer de verdade... — confessa ele entre soluços. — Eu não te conhecia, Dess...
— Fala!
— Eles não querem dizimar a Humanidade, Dess. Eles querem se multiplicar. Querem se infiltrar. Criar seres híbridos com poderes capazes de dominar os humanos.
— Você está mudando de assunto.
Protesto enquanto ele me pressiona contra seu corpo. Alucinado, ele prossegue:
— Não posso deixar isso acontecer. Se eu me tornar um deles, juro que vou dar um jeito de proteger vocês.
Recuando, fixo meus olhos incrédulos nos dele.
— Vincenzo... você já considera a possibilidade de se juntar a eles!?
— Não. — Enxugando as lágrimas com o dorso da mão, ele lamenta: — Não quero. Mas sinto que pode acontecer.
— Isso não explica o que te prende a Liam. Você não “caiu” por acaso. Você fez parte da rebelião?
— Nunca! — rosna ele. — Eu jamais me juntaria a Lúcifer. Ele se rebelou por inveja. Eu não. Nunca me compare a ele, Dess.
— Não vai me contar?
— Já disse tudo.
Um riso triste escapa de mim.
— Tudo bem. Pode continuar mentindo. De um jeito ou de outro, a verdade sempre aparece.
— Aonde vai?
— Tomar banho. Estou exausta. Minha cabeça dói. Meu corpo dói. Minha alma dói.
— Posso ir com você?
— Não. Fica longe de mim.
— Tenho saudades, Dess.
— Eu também. — confesso, recostando minha testa em seu peito. — Mas tenho medo de você. Estou tão confusa...
— Deixa eu te levar, amor.
Em seu colo, pergunto:
— E Matteo? Onde ele está?
— Assistindo aos filmes com Antoine.
Ainda tomado pela dor, ele beija minha bochecha e sussurra:
— Ainda temos tempo. Quer uma massagem?
De olhos fechados, assinto.
— Deixa eu te fazer feliz, Dess. Você me ensinou a ser um homem melhor.
— Não me machuca, amor.
Dentro da banheira, sentada entre suas pernas abertas, relaxo sob o toque de suas mãos habilidosas.
Meu corpo finalmente descansa enquanto ele massageia meus ombros e os beija.
Abraçando minhas pernas flexionadas, deixo que me ensaboe lentamente.
Sua voz rouca afirma:
— Você ainda não acredita em mim.
— Acredito. Mas ainda aguardo pela pior parte da sua confissão.
— Liam me viu pecar. Conhece parte dos meus erros. Erros que não vou revelar a você. Não quero te perder, Dess.
— Não vai.
— Vou.
Evitando que eu o encare, ele imobiliza meu pescoço entre suas mãos fortes.
— Esquece isso, Dess.
De olhos arregalados, sinto meus músculos enrijecerem ao me recusar.
Sua voz em meu ouvido ronrona:
— Não me obrigue a ser mau novamente.
— Sou sua companheira... — alego, acuada, aterrorizada. — Não devemos ter segredos entre nós.
— Discordo. — Num tom sombrio, ele refuta: — Existem segredos inconfessáveis.
— Você está me assustando, marido. Solta meu pescoço.
— Perdão...
Subitamente, ele afasta as mãos do meu pescoço e começa a enxaguar meus cabelos, desviando minha atenção ao revelar:
— Sei onde Cassie está, Dess.
A água transborda da banheira quando me movimento abruptamente.
Ajoelho-me diante dele.
— Onde ela está!? Vincenzo! Não me faz de idiota! Lúcifer possui a alma dela!?
— Não. Ele não pode. Não tem permissão. — Um sorriso nasce no canto de sua boca enquanto ele ironiza: — O “Rei dos Infernos” tem perdido muitas almas ultimamente. Cassie está entre dois mundos. No Limbo.
— Deus do céu...
Jogando-me contra seu peitoral molhado, recosto a cabeça em seu ombro e lamento:
— Ela não merece isso. Posso chegar até ela?
— Não sei. Mas posso tentar... se você colaborar.
— Que voz é essa, Vincenzo?
— Dess. Olha pra mim.
Seus olhos insanos me apavoram.
Seu toque entre minhas sobrancelhas faz meu corpo inteiro querer sair daquela banheira.
Então, suavemente, ele ordena:
— Me satisfaça hoje, Dess. Eu tenho fome.
Dor.
É o que sinto ao voltar ao meu corpo pela manhã.
Levanto-me da cama.
Uma pontada em meu útero me faz gemer. Cólicas semelhantes às menstruais curvam meu tronco para frente.
Alcanço o banheiro.
Observo meu reflexo no grande espelho retangular acima da pia.
Nada em meu rosto.
Nenhum sinal aparente de violência.
Os hematomas estão escondidos em meu pescoço, seios e costas. Marcas de mordidas. Chupões. Há manchas de sangue no lençol da cama onde me deitei após o banho.
A cama onde experimentei o pior lado do homem com quem me casei.
Não havia amor.
Nem ciúmes.
Apenas uma necessidade brutal de me punir.
Por quê?
Penso em Sweet.
Em Isabella.
E percebo que ambas foram vítimas de Vincenzo.
Eu as odiei.
Eu as afastei dele julgando-as culpadas.
Agora, talvez eu precise sofrer até conhecer toda a verdade.
— Mãe? Você está bem?
— Sim. — minto, tentando sorrir.
— Matteo dormiu no meu quarto.
— Sim. Vocês sumiram...
— Perdão, filha. Seu pai saiu?
— Já foi trabalhar.
— Por que está me olhando assim?
— Ele te machucou.
— Não. Eu caí.
Outra mentira.
Sentando-me na beira da cama de Antoine, observo Matteo ainda dormindo profundamente.
As cólicas retornam.
Um novo gemido escapa de meus lábios.
Antoine se senta ao meu lado.
Então decide:
— A partir de hoje, você dorme comigo, mãe. Até meu pai voltar a ser ele mesmo.
— Como assim? Seu pai continua sendo seu pai.
— Não, mãe. Ele está voltando a ser quem era antes de “cair”.
Amedrontada, pergunto:
— E o que ele era antes de “cair”?
Tapando meus olhos com uma das mãos, ela sussurra:
— Melhor ver do que ouvir.
— Filha... eu estou com medo.
— Concentre-se, mãe. Eu preciso te mostrar o início de tudo.














Comentários
Postar um comentário