CAPÍTULO 49 - PERTO DO FIM

 



De mãos dadas a Antoine, volto no Tempo. Um tempo longínquo, obscuro, irracional, onde sou lançada de volta ao seu corpo. Através de seus olhos astutos, revejo aqueles que vieram antes de mim e procuro compreender o meu presente.


— E se eu me perder?


— Não vai. Estarei sempre ao seu lado. Quando se sentir em perigo, grite por meu nome.


Agora, mergulhe...



Ravena - A.C.


Diante do fogo, aqueço as mãos enquanto observo, lá embaixo, mais uma noite de bestialidade.


Os gritos sobem da aldeia junto ao cheiro de sangue, cerveja e fumaça. Homens celebram vitórias que jamais existiram. Mulheres fingem não ouvir. Crianças aprendem cedo demais a permanecer em silêncio.


Ninguém dormirá antes do amanhecer.


Entre minhas irmãs, posso revelar a parte mais sombria de mim. Elas não me julgam. São como eu. Obstinadas. Indomáveis. Farão qualquer coisa para obter poder suficiente para não serem escravizadas.


Elas se unem aos homens.


Eu me uno aos anjos e demônios que atravessam minha existência.


Demônios que conjuro.


Anjos que caem do céu em guerra.


Não temo os deuses dos homens. Nunca os temi.


Minhas irmãs e eu cultuamos os antigos deuses enquanto observamos os rituais macabros daqueles que se julgam superiores ao nosso clã. Homens que se ajoelham diante de ídolos de ouro. Homens que oferecem vidas humanas em noites de lua cheia para agradar divindades tão cruéis quanto eles próprios.


Não me recordo de meus pais.


Não me recordo de irmãos.


Pelo que sei, sempre estive sozinha.


Cresci entre as bruxas. Com elas, fui banida para estas terras afastadas. Não tão afastadas a ponto de impedir que homens ávidos por prazer, poder e vingança encontrem o caminho até nós.


Aprendi cedo a sobreviver.


Aprendi a reconhecer o predador antes que ele me encontrasse.


Aprendi a temer homens brutais e mulheres ardilosas na mesma medida.


Aqui, quem espera para ser atacado morre.


Por isso, quando sinto o perigo se aproximar, ataco primeiro.


Lido com todos os seres místicos entre o Céu e a Terra.


Uno-me a eles de corpo e alma e, deles, absorvo aquilo que os homens chamam de essência. Por esse motivo, sou vista como uma mulher estranha, alguém de quem se deve manter distância.


Seria magnífico viver sozinha.


Mas os mesmos que me caluniam me procuram.


Compram-me com suas moedas de ouro. Com promessas tentadoras. Com pedidos sussurrados na escuridão.


Não possuo escrúpulos.


Quando bem paga, realizo os desejos daqueles que me contratam sem me preocupar com as possíveis vítimas de sua ambição. Não reflito sobre as consequências. Não questiono intenções.


Eu simplesmente faço.


Manipulo as forças da Natureza com extrema facilidade.


Após incontáveis luas de estudo e prática, hoje sou capaz de mover os ventos que conduzem a chuva apenas com um pensamento. Quando contrariada, posso atear fogo às matas com um simples erguer de mãos.


De onde vem meu poder?


Jamais soube explicar.




Nossa terra é fecunda e abundante.


As árvores são tão altas que, por vezes, acredito que tocam o próprio céu. A névoa desliza sobre os campos ao amanhecer, irrigando plantações e ocultando segredos antigos.


A violência entre os homens, porém, é incessante.


Inesgotável.


Eles me temem porque caminho entre seres que ultrapassam sua limitada compreensão. Esse temor me protege mais do que qualquer muralha.


O amor não existe entre eles.


Existe a luxúria.


A ira.


A cobiça.


A fome.


A miséria.


E a eterna necessidade de dominar aquilo que não compreendem.


Nos dias em que vivo, tudo é permitido.


Chego a duvidar da existência de um Poder Supremo. Se Ele existisse, não permitiria a violação de crianças e mulheres indefesas pelas mãos de porcos humanos e imundos.


Diante de tanta maldade, endureci meu coração.


Tornei-me uma mulher fria.


Cruel.


Vingativa.


Rancorosa.


Houve um tempo em que fui meiga, feliz e crédula.


O tempo em que o conheci.


O tempo em que ele se apaixonou por mim.


O tempo em que eu o destruí.


A cada união com anjos e com os filhos das trevas, mais forte me torno. Mais bela. Mais temida.


Jamais senti qualquer tipo de afeição por esse povo.


Muito menos por anjos ou demônios.


Jamais amei alguém.


Sempre considerei o amor uma doença capaz de enfraquecer até mesmo os mais poderosos.


E, sinceramente, não há espaço para fraqueza entre os selvagens.


Curo crianças doentes com a mesma facilidade com que mato seus pais quando os considero uma ameaça à minha existência.


Não há lugar para arrependimento onde vivo.


Apenas força.


Ódio.


Prazer.


Dor.


Dor.


Aprendi a suportá-la nas mãos de um anjo belíssimo e maligno.


Minhas irmãs partiram.


Outras foram caçadas e executadas por serem consideradas perigosas para os habitantes das aldeias vizinhas.


Recusaram-se a servir.


Por isso foram condenadas.


Abandonadas quando mais precisavam de ajuda.


Ainda ouço seus gritos.


Ainda sinto o cheiro da carne queimando enquanto eram consumidas vivas pelas chamas.


Houve quem recolhesse seus restos e os transformasse em alimento.


Uma cena terrível.


Impossível de esquecer.


Animais escondidos sob peles humanas.


Abrutalhados cobertos por roupas imundas e fétidas.


Odeio essa gente.


Odeio aqueles que se alimentam da dor alheia.




Dor.


Usei a mesma dor contra homens que talvez não a merecessem.


Minto.


Todos merecem.


Sempre os odiei.


A cada parto.


A cada grito de uma mulher em sofrimento.


A cada criança arrancada de um ventre ensanguentado.


A cada mistura de sangue, fezes e lágrimas.


Lembro-me do motivo.


Lembro-me de por que odeio os homens.


Há tanto sofrimento no nascimento de uma única vida que, muitas vezes, sinto vontade de desistir.


Se pudesse, impediria muitos deles de vir ao mundo.


Odeio ser a única parteira deste lugar miserável.


Mesmo distante, elas continuam me procurando.


Famintas.


Sujas.


Violadas.


Sozinhas.


Por que não fogem daqui?


Por que eu não fujo daqui?


Por ele.


Jamais tive coragem de abandonar o pobre homem que diz me amar.


A cada palavra dita com carinho, eu o odeio um pouco mais.


O que ele viu em mim?


Por que continua ao meu lado se não lhe retribuo o afeto?


Ele me entregou tudo o que possuía.


Abandonou sua tribo por minha causa.


Um selvagem gentil.


Uma raridade.


Eu o convenci a se ligar a um demônio para satisfazer meus desejos mundanos. Meus caprichos.


Eu o aprisionei a mim.


Um jovem belo, de sorriso tímido, que quase conseguiu me cativar.


Quase.


Não o amo.


Ao menos é o que repito para mim mesma sempre que o vejo partir.


Porém, também não o liberto.


Mantenho-o preso à minha magia.


À minha sombra.


A mim.


Ga'al.


Um belo nome para um belo homem.


Um homem de coração puro em um mundo apodrecido.


Talvez o único que jamais tenha desejado me possuir.


Talvez o único que realmente tenha me enxergado.


Ga'al.




O homem de quem eu jamais deveria ter me afastado.


Era bom demais para sobreviver à maldade que habitava entre nós.


Jamais o esquecerei.


Morreu por mim.


Em minha defesa, enfrentou o homem mais temido, desleal e asqueroso da aldeia da qual eu escapara anos antes.


Em seu leito de morte, jurou me amar pela eternidade.


Enquanto ele se despedia deste mundo, fui eu quem o condenou.


Desesperada e egoísta, amaldiçoei-o por me deixar sozinha.


"Muitas vidas viveremos juntos até que eu decida te libertar. Enquanto isso, não deixarás de me amar. Como homem ou demônio, tu me procurarás."


Antes de morrer, ele sorriu.


Minhas lágrimas molham a terra enquanto cubro seu corpo.


Com as mãos sujas de barro escuro e úmido, amaldiçoo os céus.


Ainda não compreendo o que nos unia, mas sua ausência rasga algo dentro de mim.


Durante muito tempo, acreditei que aquela seria a maior dor de minha existência.


Estava errada.


Meses depois, dezenas de anjos desceram sobre a aldeia.


Daqui, eu os vi.


Daqui, contemplei suas quedas.


Daqui, fui vista por um deles.


O mais belo entre todos.


Seus olhos carregavam cobiça e curiosidade.


Sua altivez me irritava.


Sua presença me atraía.


Hoje sei que deveria ter fugido.


Se tivesse conhecido sua crueldade, teria desaparecido na floresta antes mesmo que ele pronunciasse meu nome.


Mas havia algo nele.


Algo que me fascinava.


Em nosso único encontro, transformou prazer em sofrimento.


Experimentou cada limite do meu corpo.


Deliciou-se com minha dor.


O que ele jamais imaginou era que, enquanto me consumia, eu também o consumia.


Extraí dele um poder ainda maior.


Quando partiu, deixou sua semente dentro de mim.


A criança que crescia em meu ventre me dilacerava por dentro.


Decidida a destruir aquele legado maldito, preparei uma de minhas poções.


A mais letal.


Horas depois, caída à margem do rio, meu sangue tingia a correnteza.


A dor foi insuportável.


Gritei.


E, com minhas próprias mãos, retirei a criança de minhas entranhas.


Então aconteceu.


Algo que eu jamais previra.


Ao segurar aquele pequeno corpo ensanguentado, senti o mundo vacilar.


Seu rosto enrugado.


As mãos minúsculas.


O primeiro choro.


A primeira respiração.


A primeira súplica por vida.


Olhei para ele.


E pela primeira vez em muitos anos, hesitei.


— Por Baal... por que não consigo te matar?



— Por que sempre vem me visitar? Sabe que odeio os homens e, principalmente, anjos? Não tem medo de mim?


— Não. Quero que me ensine algo.


— E o que seria? Magia?


— Não. — Um sorriso discreto curva seus lábios. — Magia eu já conheço.


O brilho travesso em seus olhos claros me irrita.


— Então o que veio buscar?


— Você.


Reviro os olhos.


— Que resposta ridícula.


— Não para mim.


Cruzo os braços junto ao peito.


— Estou falando sério.


— Eu também.


Seu olhar desliza até a criança adormecida em meus braços.


Por um instante, ele parece genuinamente fascinado.


— Soube que costumava realizar desejos de homens, anjos e até demônios.


— Já não faço mais isso.


— Por causa dele?


Baixo os olhos para meu filho.


— Por causa dele.


O silêncio se instala entre nós.


A fogueira crepita.


O vento dança entre as pedras da gruta.


Ele continua me observando como se tentasse decifrar um enigma.


— Por que me olha desse jeito?


— Porque não entendo você.


— Não há nada para entender.


— Há tudo para entender.


Seu sorriso desaparece.


— Você fala sobre morte como quem fala da chuva. Manipula forças que fariam reis se ajoelharem diante de você. Arranca vidas sem remorso.


Sua voz suaviza.


— Mas basta essa criança respirar para que seu coração mude de ritmo.


Meu corpo inteiro se enrijece.


— Cuidado, anjo.


— Está vendo?


— Vendo o quê?


— Isso.


Ele aponta para meu peito.


— Sempre que alguém se aproxima dele, você se transforma.


Aperto meu filho contra mim.


Instintivamente.


Ferozmente.


Como uma loba protegendo seu filhote.


Cassiel sorri.


Não com malícia.


Com admiração.


— É isso que quero aprender.


— O quê?


— Amar alguém mais do que a si mesmo.


O mundo parece parar.


Por um breve instante.


Então rio.


Uma gargalhada amarga.


Cruel.


Descrente.


— Anjos não amam, Cassiel.


— Talvez esse seja o problema.


Eu satisfazia sua obsessão pela violência durante o coito. Em troca, ele oferecia proteção ao meu filho.


Havia algo de perturbador em sua devoção. Ao despertar em mim um lado que parecia apreciar a dor, ele alimentava a própria necessidade de ouvi-la ecoar em meus gemidos.


Durante muitas luas, visitou-me com frequência. Procurava prazer ao me dominar, ao testar meus limites, ao explorar aquilo que nem eu mesma compreendia sobre minha própria escuridão.


Por meu filho, eu o recebia.


Por meu filho, eu o suportava.


Enquanto ele observava meu corpo ser usado por outros anjos tão devassos quanto ele, eu odiava seu Deus por criar seres tão corrompidos quanto os homens.


— Por que gostas de me ver sofrer? Isso é estranho. Principalmente para um anjo.


Em seus raros momentos de lucidez, ele parecia arrependido. Cuidava de minhas feridas. Cuidava do meu menino, por quem desenvolvera um afeto sincero.


Seus sentimentos eram puros.


Sua obsessão, legítima.


Não havia crueldade em seu olhar.


Havia impulso.


Uma fome estranha que ele próprio não compreendia.


Por trás dela, existia mais bondade do que maldade.


— És um demônio?


— Não. Eu tinha curiosidade. Algo dentro de mim me impele a te machucar. Não gosto do que sinto. Mas sinto.


Seu olhar pousou sobre minha nuca.


— O que significa esse desenho?




— Sou uma bruxa. Uma bruxa perdida de seu clã. Meu filho carrega um sinal semelhante nas costas. Ele o protege do Mal.


Cassiel sorriu.


— Se ele gosta de mim, então talvez eu não seja tão mau assim.


— Quem sabe?


— Por que continuas vendendo teu corpo?


— Porque existem compradores. Tu és um deles.


Durante algum tempo, permaneci indiferente aos seus sentimentos. Não o amava. Não me importava em ser usada por ele ou por seus companheiros desde que me garantisse proteção, alimento e parte do poder que carregava.


Então, certa noite, depois de tantas luas de excessos, ele surgiu diferente.


Mais silencioso.


Mais humano.


— Eu me curei.


Observei suas mãos limpas de sangue.


— Agora? Só agora descobres isso?


— Me perdoa.


Uma gargalhada amarga escapou de meus lábios.


— Nunca.


Aproximei-me dele.


— Estou destruída por dentro. Minhas entranhas sangram. Meu corpo dói. Tudo por causa dessa tua estranha necessidade de me ver sofrer.


A vergonha atravessou seu rosto.


Pela primeira vez, ele não encontrou palavras.


— Eu vou te proteger dos outros.


— Dos outros?


— Daqueles que vieram comigo.


Seu olhar permaneceu firme.


— Nenhum deles voltará a te tocar. Eu prometo.


— Não confio em ti. Jamais serei mãe novamente por tua culpa.


Tomado pelo remorso, ele me pede perdão. Antes de partir, porém, faz uma promessa.


— Nunca mais te venderás a ninguém. Estarei sempre contigo. Nada faltará a ti nem ao teu filho.


— Prometes?


— Prometo.


Eu acreditei.


Quando meu amado filho completou cento e trinta luas cheias, seu pai retornou à Terra.


Escondidos do mundo e felizes em nossa solidão, caçávamos juntos quando o ser repugnante surgiu diante de nós.


Seus olhos incandescentes pousaram sobre a criança.


— O macaco parece contigo.


Avançando, ele segurou o braço de meu filho.


O menino gritou.


A dor em seu rosto incendiou minha alma.


Enfurecida, arremessei minha lança.


A ponta atravessou seu peito.


Curvando-se para a frente, ele observou a madeira cravada em seu corpo. Então, lentamente, retirou a lança ensanguentada.


Parecia incapaz de sentir dor.


— Tenho direitos sobre ele.


— Nunca!


Corri em sua direção.


Lutamos.


Uma luta desigual.


Seus poderes superavam os meus. Ágil como o vento, desviava de meus ataques enquanto me feria sem esforço.


Recostada ao tronco da árvore mais alta da floresta, vi-o aproximar-se de meu filho.


Com uma única unha afiada, rasgou a pele fina de seu antebraço.


O sangue escorreu.


Desesperada, saltei sobre suas costas e cravei meu punhal em seu pescoço.


Ele gargalhou.


— Sou imortal, idiota.


Tomando o punhal de minha mão, enterrou-o em meu coração.


Caí sobre a relva úmida.


Meu sangue misturou-se à terra.


Foi então que vi meu filho ajoelhar-se.


Com as pequenas mãos espalmadas sobre o solo escuro, ele invocou nossos deuses.


Seu sangue puro pingou sobre a terra.


A floresta inteira tremeu.


O próprio ar pareceu recuar.


Pela primeira vez, o anjo maligno demonstrou medo.


— Tens medo...


Sorri, mesmo agonizando.


— Tens medo do meu filho.


Ele recuou.


— Ainda o encontrarei. Sei esperar.


— Quando isso acontecer, ele te vencerá, abutre.


Cuspi sangue.


— Teu lugar é na Escuridão.


— Tu vens comigo.


Preparava-se para desferir o golpe final quando outro anjo surgiu.


Agarrando-o pelas enormes asas, arremessou-o para longe.


Os dois desapareceram entre sombras e luz.


Por fim, apenas um permaneceu.


O anjo arrependido.


Ajoelhado diante de meu filho, que chorava abraçado ao meu corpo quase sem vida.


— Cuida dele por mim.


Minha voz saiu fraca.


Quase um sussurro.


— Cuidarei.


Seus olhos azuis estavam marejados.


Com o polegar coberto de terra, traçou duas linhas em minha testa.


Uma bênção.


Uma despedida.


— O que desenhaste?


— Um caminho.


Sua voz falhou.


— Uma cruz. Para que possas encontrá-la outra vez.


— Não creio em teu Deus.


— Mas eu sim. Não fale mais. Estás muito fraca.


— Não deixe meu menino sofrer...


— Descansa, Ravena. Apesar do sangue que corre em suas veias, ele é bom.


Vendo-o acolher meu filho em um abraço, sinto o líquido de gosto metálico borbulhar em minha boca.


— Leva-o para longe daqui. Seja seu protetor, vida após vida. Confio em ti, Cassiel.


Emocionado, ele sussurra:


— Eu vou te encontrar, vida após vida, Ravena. Farei disso minha missão. Tu mudaste o meu jeito de ser.


— Tenho medo. — confesso.


Seus lábios tocam os meus.


Pela primeira e última vez, ele se declara.


— Eu te amo.


Do céu escuro caem grossas gotas de chuva.


O rio transborda rapidamente.


A água invade a relva, alcança os troncos das árvores e engole a floresta.


Vejo Cassiel alçar voo com meu filho protegido em seus braços enquanto luto para não me afogar.


Empoleirado em um dos troncos mais altos, protegendo a criança com suas asas douradas, ele me avisa:


— Todos serão punidos pelo dilúvio, Ravena. Esse mundo não tem salvação. Não resista. Não vai doer.


Vejo o rosto de meu filho pela última vez.


Pequeno.


Assustado.


Vivo.


Debaixo d'água, ainda me pergunto se Cassiel será capaz de cumprir sua promessa.


Engulo água do rio misturada à chuva.


Galhos arrancados pela correnteza rasgam minha pele enquanto meu corpo é levado para o grande mar que surge diante de mim.


Quero voltar.


Quero abraçá-lo.


Alcanço a superfície.


Puxo o ar pela boca.


Centenas de corpos são arrastados pela mesma onda que destrói aldeias inteiras.


Mãos desesperadas me agarram.


Volto a afundar.


Não quero morrer.


Quero meu filho.


Quero meu filho de volta.


Tarde demais.


Dor.


Medo.


Pânico.


Bolhas.


Escuridão.


O peso do oceano esmagando meus pulmões.


O desespero de uma mãe incapaz de alcançar o próprio filho.


O que devo fazer?


O que devo fazer!?


Por um breve instante de lucidez, grito por ajuda.


— Antoine!


Uma mão firme me arranca das profundezas.


O ar invade meus pulmões.


A água desaparece.


A escuridão recua.


Abro os olhos, ofegante.


Estou de volta.


Deitada no chão do quarto.


Viva.


— Onde está a criança!? — pergunto, resfolegante, procurando ao meu redor. — Era você!?


Antoine empalidece.


Lança um rápido olhar para o irmão adormecido na cama antes de voltar a me encarar.


— Não.


Sua hesitação me inquieta.


— Não faz ideia de quem seja?




Bebo quase dois litros d'água de uma só vez.


Com os olhos fixos nas árvores do jardim, apoio-me na pia da cozinha, diante da janela.


Ainda carrego as sensações deixadas pelo maldito que, ao engravidar Ravena, deu início a uma geração de humanos marcados por seus genes e poderes.


Ainda possuo o mesmo poder que ela?


Matteo ainda guarda algo da criança arrancada dos braços da mãe?


Não.


Recuso-me a acreditar.


Meu filho é normal.


Meu filho é bom.


Salvou o amiguinho na piscina.


Antoine me mostrou o início do transtorno de Vincenzo, mas isso não revela os segredos que ele tenta esconder de mim.


O que o atormenta tanto a ponto de não conseguir dividir comigo?


Eu poderia perdoar aquele passado.


Ele, provavelmente, perdoou o meu.


Meu instinto, porém, insiste em avisar que um segredo ainda maior e mais aterrador está prestes a ser revelado.


E eu não quero ouvir nada.


Nada mesmo.


Na verdade, a conclusão a que cheguei é simples:


Vincenzo continua sendo o mesmo monstro que foi há milênios.


Mas, ainda assim, eu poderia perdoá-lo.


Poderia tentar viver em paz ao seu lado.


Meu amor por ele é maior do que o pânico provocado pelo segredo que ainda desconheço.


— Meu Deus!


Corro para o quarto ao ouvir o choro de Matteo.


Sentado na cama da irmã, ele ergue os bracinhos na minha direção e reclama, magoado:


— Neném dodói...


Sento-me ao seu lado e o tomo nos braços.


Então observo seu antebraço.


Atordoada, reconheço o arranhão.


— O que é isso, filha?


— São vestígios do passado. Vai desaparecer, mãe. Fica tranquila.


Beijo o rostinho de Matteo e, em seguida, o arranhão em seu braço.


A revolta me atravessa como um raio.


— Por que eu voltei ao passado? Isso pode afetar o presente!


— Pode esclarecer o presente, mãe. Esclarecer.


— Você está me escondendo alguma coisa?


Pergunto enquanto a sigo até a cozinha.


Com Matteo nos braços, exijo:


— Antoine. Me conta tudo.


— Não posso, mãe. Só o meu pai pode fazer isso.


— Neném dodói...


Matteo lamenta, mostrando os bracinhos.


Observo a pele.


A marca das unhas de Lúcifer desapareceu.


Como se jamais tivesse existido.




— Porque ela não suportaria.


Do corredor, reconheço a voz de Antoine.


Paro imediatamente.


— Minha mãe é humana, pai. Carregar tantas vidas dentro da própria memória só vai deixá-la ainda mais doente.


— Então por que mostrar tudo isso a ela?


A voz de Vincenzo soa rouca.


Exausta.


Derrotada.


— Ela não precisava saber.


Permaneço imóvel, recostada à parede.


Cada palavra me fere mais do que deveria.


— Ela precisava começar a entender.


— Entender o quê?


Silêncio.


Um silêncio longo demais.


— Ela se afastou de mim.


A confissão de Vincenzo me desmonta.


— Não sei mais o que fazer.


— Não faça nada, pai. Deixe que ela o procure. — aconselha Antoine, num tom firme demais para alguém tão jovem. — E, enquanto isso, tente não cometer os mesmos erros.


Uma pausa.


— Já perdemos muitos.


O silêncio entre os dois me sufoca.


— Eu não vim aqui para ver você se perder outra vez.


— Me ajuda...


O pedido de Vincenzo me paralisa.


Há medo em sua voz.


Medo verdadeiro.


Mas de quê?


— Eu não quero errar de novo.


— Temos pouco tempo, pai.


A resposta de Antoine soa como uma sentença.


— Não me decepcione.


A maçaneta gira de repente.


Disparo pelo corredor sem pensar.


Entro no quarto de Matteo.


Tranco a porta.


Com o coração disparado, apoio as costas na madeira e observo meu filho dormindo tranquilamente em sua cama.


Seguro.


Protegido.


Pelo menos por enquanto.


Fecho os olhos.


Pergunto-me se devo continuar confiando na minha própria família.


Ou se tudo não passou de um gigantesco engano.


Até mesmo de Antoine eu desconfio.


Talvez principalmente dele.


Sinto falta de Enrico.


Enrico me diria a verdade.


Sempre dizia.


Mesmo quando a verdade machucava.


Subitamente, tenho a impressão de ouvir sua voz distante atravessar o silêncio do quarto.


Uma voz cansada.


Mas firme.


— Ainda não terminei minha missão.




Antoine e eu ensaiamos os passos para a coreografia de sua festa de quinze anos.


Uma festa que não posso organizar sozinha.


Também não pretendo voltar a procurar o homem que insiste em esconder seus segredos de mim, embora sinta falta de nossas discussões, de nossas brincadeiras idiotas, dos risos inesperados, dos beijos roubados e dos abraços apertados.


Quero de volta o pai dos meus filhos.


Estamos cada vez mais sozinhos e vulneráveis e, ainda assim, ele continua incapaz de me encarar e dizer a verdade.


Covarde.


— Essa música é impactante, filha. Por que a escolheu?


— Porque é um flashback, mãe. E você adora flashbacks.


— Mas a festa é sua. Não deveria escolher algo mais moderno?


Antoine revira os olhos.


— Mãe, as opções andam escassas. Pode acreditar.


— Acredito. — Rio baixinho. — Você não faz ideia da quantidade de porcaria que minhas alunas ouviam durante os intervalos das aulas.


— E lá vem o discurso...


— Sua geração perdeu o contato com a boa música.


— Toda geração fala isso da seguinte.


— Porque toda geração seguinte insiste em provar que a anterior estava certa.


Antoine gargalha e, por um instante, o peso dentro do meu peito diminui.


Só por um instante.


— Minha geração, mãe?


— Antoine! Você entendeu o que eu quis dizer! Não me deixa nervosa!


— Ok. — Ela sorri. — Não vou começar a falar das coisas que você não gosta de ouvir.


— Gosto do ritmo da música. É meio... intimidador.


— Essa é a intenção.


— Intimidar quem?


— Todo mundo.


— Antoine...


— Intimidar. Amedrontar. Avisar que estamos prontos.


Um arrepio percorre minha espinha.


— Prontos para quê?


— Quer mesmo saber?


— Não! — Puxo o capuz sobre a cabeça e balanço as mãos diante do rosto. — Nunca mais fala dessa tal "Grande Batalha". Isso não existe.


— Ok, mãe. Ok.


Permaneço em silêncio por alguns segundos.


Quando volto a encará-la, ela continua me observando.


— Por que está olhando desse jeito?


A expressão divertida desaparece.


Por um instante, vejo apenas minha filha.


— Tenho orgulho de você, mãe.


— Orgulho de mim?


— Apesar de toda a dor que sentiu, você continuou. Cuidou de mim. Cuidou do Matteo. Aceitou o meu pai do jeito que ele é.


Desvio os olhos para nosso reflexo no espelho.


— Eu não posso aceitar alguém que desconheço, filha.


Minha voz sai mais amarga do que pretendia.


— Que jeito de seu pai?


— Já se esqueceu?


— Do quê?


Ela se aproxima, beija minha testa e sorri.


— Melhor assim.


Meu coração afunda.


— Antoine...


— Quando podemos ensaiar com o Leo?


— Antoine! Não desconversa!


Ela ri.


— Mãe...


— Eu esqueci do quê?


— Das suas suspeitas. — Dá de ombros. — É por isso que vocês não estão se falando. Ainda.


Semicerrando os olhos, eu a encaro.


Ela sustenta meu olhar sem vacilar.


Por mais que minha intuição grite para continuar pressionando, decido não transformar minha filha em alvo das minhas desconfianças.


— Quando? — ela insiste.


— O quê?


— O ensaio com o Leo, mãe!


— Aaah, tá. Quando quiserem. — Comento, desanimada. — Filha, sua festa não tem convidados. Vou fazer o possível para que seja um pouco do muito que você merece, ok?


— Mãe. — Outro beijo em minha bochecha e ela sorri. — Minha festa vai ser simplesmente esplêndida. Cheia de surpresas. Você vai ver.


Odeio surpresas.



— Não sei como te ajudar, Aninha.


— Tenta qualquer coisa. Eu confio em você.


— Nem eu confio mais em mim mesma, querida. — Solto uma risada sem humor. — Não faço ideia do que fazer com a minha vida.


— Problemas com o Vincenzo?


Encarando o menino carrancudo sentado ao seu lado, minto.


— Não. Estamos bem.


Bem distantes.


— O que você tem sentido?


— Dores nas costas. — Responde, acomodando-se no pequeno sofá da sala. — E, à noite, já não consigo dormir. Sinto a presença de alguma coisa. De alguém com muita raiva. Ouço passos. Às vezes, uma respiração pesada bem perto do meu ouvido.


Ela abaixa os olhos.


— Tenho medo. Muito medo.


O silêncio pesa entre nós.


— Você acredita em fantasmas?


A pergunta me faz rir.


Não por achar graça.


Mas porque já não sei onde termina a loucura e começa a verdade.


— Eu acredito em tudo, Aninha.


Levo a taça aos lábios.


— Fantasmas. Gnomos. Duendes. Querubins. Bruxas. Demônios. Espíritos. Mortos.


Minha voz vacila.


— Anjos.


Uma pausa.


— Principalmente os anjos.


— Do que você está falando?


Olho através da janela.


Por um segundo, volto a ser aquela mulher cansada de lutar contra coisas que não consegue explicar.


— Quantas vezes você abortou?


Ela empalidece.


— O quê?


— Não precisa mentir pra mim. — Apoio a taça sobre a mesa. — Eu não vou te julgar.


— Três. — Responde ela, curvada sob o peso do menino em suas costas. — Eu não teria condições de criar uma criança sozinha.


— Entendo...


Minto.


Não entendo coisa alguma.


Algo dentro de mim se revolta.


— Sua namorada sabe que você gosta de homens?


— Não. — Confessa ela. — Nem pode saber. Eu a amo. Não quero vê-la sofrer.


— Já pensou em parar com esses encontros secretos? — Pergunto, tentando controlar o tom de voz. — Temos acesso à informação. Métodos contraceptivos. Sexo seguro. Você não é uma adolescente.


— Você disse que não me julgaria.


A mágoa em seus olhos me atinge.


— Pra você, eu sou uma assassina.


— Não disse isso.


Bebo mais um gole de vinho.


— Pra mim, você foi irresponsável. É diferente.


Ela abaixa a cabeça.


O silêncio se instala entre nós.


— Mas isso já passou. — Suspiro. — Não é sobre você.


— Então é sobre quem?


Ergo os olhos acima de sua cabeça.


O menino continua ali.


Pequeno.


Furioso.


Faminto.


Esperando.


— Sobre alguém que não consegue seguir em frente.


Aninha acompanha meu olhar.


— Quem?


— Seu filho.


Ela empalidece.


— O quê?


— Ele não entende o que aconteceu.


— Onde ele está?


Seu olhar percorre a sala freneticamente.


— Onde!?


A criatura aperta os braços ao redor de seu pescoço.


Como se quisesse afundar ainda mais as unhas em sua pele.


— Em suas costas.


— Me ajuda!


O grito dela ecoa pela sala antes que algo a arranque de dentro de si.


Aninha cai de costas.


Convulsiona.


Seus braços se dobram em ângulos impossíveis.


Seu corpo inteiro se contorce como um boneco de mola quebrado.


Imobilizada pelo próprio sofrimento, ela tenta pedir socorro.


Mas as palavras não passam de gemidos abafados.


Então sua coluna vertebral se curva para trás.


Mais.


Mais.


Até que sua cabeça quase toca os próprios pés.


O estalar dos ossos preenche a sala.


Um som úmido.


Errado.


Humano demais.


Minha raiva aumenta.


Muito.


Tomada por um sentimento bem distante da compaixão, encaro o menino.


— Saia da vida dela ou vou te tirar daqui de um jeito ou de outro.


"Não."


A voz atravessa minha mente.


"Ela precisa sofrer."


Em outras ocasiões, eu teria recorrido a Miguel.


Ao Arcanjo.


À luz.


À misericórdia.


Agora...


Agora estou irritada demais para pedir ajuda aos Céus.


Ajoelho-me ao lado do corpo contorcido de Aninha.


Com o giz que trouxe de casa, traço um círculo no chão da sala.


Símbolos antigos.


Sinais cabalísticos.


Marcas que jamais deveria conhecer.


Muito menos usar.


O odor pútrido chega antes deles.


Os pelos da minha nuca se arrepiam.


Eles ouviram meu chamado.


Vieram.


Sombras.


Presenças.


Coisas que não pertencem a este mundo.


Sem qualquer delicadeza, arrancam o menino das costas daquela que o rejeitou três vezes.


Ele rosna.


Debate-se.


"Me solta!"


"Ela precisa pagar!"


— E vai. — Respondo entre os dentes. — Mas não será você quem vai cobrar essa dívida.


Ele me encara.


Furioso.


Faminto.


Desesperado.


— Vá embora.


"Não."


— Vá.


"Não!"


Meu sangue ferve.


Ergo o braço.


Não sinto pena.


Não sinto culpa.


Não sinto nada.


— Volte para o inferno de onde saiu, verme.


Um grito agudo rasga a sala.


Os seres o arrastam para a escuridão.


E, finalmente...


Silêncio.


Aninha desaba.


Exausta.


Livre.


Ou quase.


Permaneço ajoelhada dentro do círculo.


Observando o vazio.


Observando minhas próprias mãos.


O que eu acabei de fazer?


Eu não era assim.




Acordo tarde.


Incomodada.


Vazia.


Como se tivesse esquecido algo importante em algum lugar distante e não conseguisse me lembrar o quê.


Visto-me apressadamente.


Antes de entrar no quarto de Matteo, esbarro em Vincenzo no corredor.


O choque é leve.


Mas suficiente para me fazer sentir sua presença.


Seu perfume.


Seu calor.


Sua voz.


Coisas das quais senti falta mais do que gostaria de admitir.


— Desculpa.


Mordo o lábio inferior.


De costas para ele, arquejo.


Cheia de saudade.


Cheia de raiva por sentir saudade.


Sem responder, sigo em direção ao quarto de Matteo.


Pela primeira vez em dias, ele volta a falar comigo.


— Dess...


— Sai da frente. Preciso vestir meu filho. Ele vai comigo pro trabalho.


— Posso ficar com ele.


Continuo procurando as roupas de Matteo.


— Não vou trabalhar hoje.


— E daí?


— Ele fica comigo.


Sua voz sai baixa.


Cuidadosa.


— Você trabalha tranquila.


Dou uma risada amarga.


Daquelas que machucam mais quem ouve do que quem as produz.


— Tranquilidade é uma coisa que eu não sinto há muito tempo, Vincenzo.


Matteo transforma a troca de roupa numa batalha.


Retorce-se.


Ri.


Corre pela cama.


Foge do macacão.


Como se vestir-se fosse a maior injustiça já cometida contra uma criança.


Por um segundo, quase sorrio.


Quase.


Vincenzo se aproxima para ajudar.


Instintivamente, ergo a mão.


Um movimento brusco.


Irritado.


Impensado.


O corpo dele é arremessado para trás.


Vincenzo cai no chão.


O impacto ecoa pelo quarto.


Meu coração para.


O dele também parece parar.


Por alguns segundos, nenhum dos dois fala.


— Como você fez isso, Dess?


— Fiz o quê?


Minha voz falha.


Ele se levanta lentamente.


Assustado.


De verdade.


— Dess...


Agora sou eu quem sente medo.


— Me deixa passar. Estou atrasada.


Ele se coloca entre mim e a porta.


— Não posso.


— Vincenzo...


— Não antes da gente conversar.


— Eu não tenho nada pra conversar com você.


Matteo começa a chorar.


Confuso.


Assustado.


Vincenzo o pega no colo.


O menino imediatamente se agarra ao pai.


Uma facada atravessa meu peito.


Ciúme.


Culpa.


Vergonha.


Tudo ao mesmo tempo.


Arranco Matteo dos braços dele.


Matteo chora ainda mais.


Mais alto.


Mais desesperado.


Então me vejo fazendo aquilo que jurava nunca fazer.


Entrego-o de volta.


— Quer ficar com seu pai?


Minha voz treme.


— Então fique.


Viro as costas.


— Fui.


Saio antes que alguém perceba que estou prestes a desmoronar.


Dentro do carro, choro compulsivamente.


As mãos tremem sobre o volante.


A respiração falha.


Sinto que estou perdendo tudo aquilo pelo qual lutei.


Minha casa.


Meu marido.


Minha família.


Meu lugar no mundo.


No rádio, uma canção triste toca ao fundo.


Tão triste quanto eu.


Talvez mais.




— Dess. Não fica assim. Fica em casa hoje. Fica com seus filhos. Fica comigo. — Um arquejo escapa de seus lábios antes da confissão. — Não suporto mais ficar longe de você, amor. Me dá uma chance. Só uma. Por favor.


Com a testa apoiada no volante, continuo a chorar de saudade do que tínhamos. Era tudo tão simples. Ele me amava. Eu o amava. Nós amávamos nossos filhos e planejávamos um futuro para eles.


O que mudou?


Por que mudou?


— Dess. Olha pra mim. — Com Matteo em seu colo, ele se senta no banco do carona e insiste. — Olha pra mim, amor. Eu te machuquei. Eu fui o culpado por toda a confusão em sua cabeça. Me deixa consertar tudo.


— Mamãe dodói? — pergunta Matteo ao pai.


Beijando sua testa, Vincenzo assente e responde com a voz baixa e triste:


— Sim, meu filho. Mamãe dodói. Papai dodói. Papai muito dodói sem mamãe.


— Para. — Choramingo, levando as mãos ao rosto. — Deixa ele fora dessa sujeira toda.


— Que sujeira, amor? Do que está falando?


— Não sei. — Insegura, permito que ele toque meu rosto com o dorso da mão.


Percebo que, sem seu toque, a vida fica mais triste.


Abrindo a porta do carro, caminho até a varanda, de onde aviso:


— Não se aproxima de mim. Você me faz mal, Vincenzo. Não sei como. Não me lembro como. Mas eu sei que você me faz mal.


Dando-lhe as costas, caminho até nosso quarto, sento-me na beirada da cama e volto a chorar. Um vazio imenso ameaça ocupar meu corpo inteiro, meu peito, meu coração dolorido.


Puxando o ar pela boca, imploro:


— Me ajuda, Jesus.


— Você O aceitou. — suspira Vincenzo, sentando-se ao meu lado.


Matteo me sorri com seus quase vinte dentinhos de leite. Um sorriso inocente, cheio de luz.


Desmancho-me.


— Ele te ama, Dess.


— Quem? Jesus ou nosso filho?


— Ambos. O Filho de Deus vai te amar para sempre, independentemente do que você fizer. Assim como nosso filho. Você é a mãe perfeita, Dess.


— Não me olha assim, idiota. Sou cheia de defeitos. Defeitos de fábrica.


— Eu amo todos eles, Dess.


— É impressão minha ou a música do carro está tocando na sala?


Um riso inocente ilumina seu rosto.


— Acho que sim. O Universo quer que você me perdoe. Quer nos ver juntos novamente.


— Pra você me machucar de novo?


— Nunca mais, meu amor. Nunca mais vou tocar em você para te machucar. Mesmo que me peça. Você não faz ideia do quanto me arrependi.


Seus lindos olhos azuis estão úmidos quando afirmo, confusa:


— Sei, sim. Não me pergunte como, mas eu sei. Você me disse. Em algum momento, você me disse isso. E eu acreditei.


— Acredite. É verdade. No passado e agora, eu me arrependo de todo o mal que te fiz, Dess. Você sempre foi e sempre será o motivo de eu estar aqui. Ainda que coisas terríveis venham à tona, nunca se esqueça de que eu sempre te amei. Do meu jeito, eu sempre te amei. E somente a você.


Mergulhando em seus olhos, indago:


— Coisas terríveis?


— Dess... volta pra mim. Vamos viver o que nos resta.


— Tenho medo.


— De quê?


— De te perder.


— Não vai.


— Eu prometo.


— Você nunca cumpre suas promessas, Vincenzo.


— Prometo ficar ao seu lado até o fim.


— Não fala assim...


Apavorada, volto a chorar. Recostando minha cabeça em seu peito, imploro:


— Não fala assim. Isso me dá medo. Não quero ficar sem você.


— Não vai, meu grande amor. — sussurra ele, acariciando meus cabelos.


Matteo, espremido entre nós dois, toca o espaço entre meus seios com a mãozinha espalmada e ordena, franzindo as sobrancelhas:


— Mamãe dodói passou! Papai e mamãe dodói não!


Compartilhamos um riso tímido.


Nossos olhos se encontram.


Há esperança no semblante de Vincenzo quando Antoine surge repentinamente e, sem dizer uma palavra, toma Matteo de seus braços e nos dá as costas.


— Mamãe dodói passou, nininha. — diz ele enquanto é levado para longe.


Aos risos, do corredor, Antoine confirma:


— Eles vão ficar bem, maninho. Pode crer. Vão ficar bem.


Ao lado de Vincenzo, como uma adolescente tímida diante de seu primeiro amor, eu me encolho.


A música se repete em algum lugar da sala, chegando até nosso quarto.


Vincenzo toca minha mão e, receoso, pergunta:


— Dança comigo, Dess?


— Tantos problemas em nossa cabeça... em nossas vidas... e você me pede pra dançar. Só você, Vincenzo.


Desdenho, mas sorrio.


— Só você...


— "Sem música, a vida seria um erro", já dizia Nietzsche.


Encantada por seu sorriso sedutor, reviro os olhos e aceito seu convite.


Em seus braços, sorrindo contra a própria vontade, resmungo:


— Te odeio, Vincenzo.




Ele me tocou com tanto amor, tanta paixão e tanto cuidado que me senti uma jovem em sua primeira noite ao lado do homem que sempre amou.


Como a estudante que cresceu ao lado do melhor amigo, compartilhou com ele o primeiro beijo e, anos depois, descobriu que nunca havia desejado ninguém além dele.


Havia algo mágico ao nosso redor.


Havia dor, ressentimentos e uma imensa vontade de recomeçar.


Pela primeira vez em muito tempo, esqueci os horários, as responsabilidades, os problemas. Esqueci de alimentar Matteo, de levar Antoine ao treino e até mesmo de trabalhar.


Envergonhados, rimos quando percebemos o horário.


Corremos até a cozinha e voltamos para o quarto com frutas, vinho e uma fome antiga de tudo aquilo que havíamos perdido.


Enquanto explorávamos memórias, cicatrizes e promessas, a música continuava preenchendo o quarto de maneira inexplicável.


— Ainda ouve?


— Sim. Estranho, né?


— O que existe de normal em nossas vidas, Dess?


— Nada.


Rindo, tomo outro gole de vinho direto do gargalo e, vestindo apenas minha lingerie, estendo a mão para ele.


— Dança comigo?


Absolutamente rendido ao momento, ele me abraça pela cintura e deposita um beijo demorado em meu pescoço.


Eu o conduzo ao som da canção e faço um pedido que guardo há muito tempo.


— Não minta pra mim, amor. Agora que estamos juntos novamente, não deixe que as brechas nos separem. Estou disposta a perdoar tudo. Sei que me perdoou por tudo. Eu também vou te perdoar. Só não minta pra mim.


Hesitante, ele murmura junto ao meu ouvido:


— Não vou, Dess.


Continuamos a dançar pela casa como dois adolescentes apaixonados.


Rimos.


Choramos.


Nos abraçamos.


E, pela primeira vez em muito tempo, sentimos esperança.


Adormecemos abraçados, jurando que nada seria capaz de nos separar.


E assim foi.


Por um tempo.


Juntos, Vincenzo e eu organizamos uma festa surpresa para Antoine, que continua ensaiando os passos da coreografia com Leo sem sequer perceber nossos esforços para alugar um grande salão, contratar DJ, decoração e buffet para pouquíssimos convidados.

Excetuando João e sua família, não sobrou mais nenhum amigo vivo.

Não quero pensar nisso.

Muito menos chorar.

Não no dia de escolher seu vestido.

A roupa de pajem para Matteo está perfeita. Uma camisa social branca de mangas compridas e uma calça de linho.

Ele ficou tão fofinho.

Talvez nada disso valha a pena.

Talvez eu esteja apenas tentando adiar o inevitável.

Ainda assim, preciso acreditar que teremos um dia feliz. Um dia normal. Um dia igual ao de tantos outros pais acompanhando a filha em sua festa de quinze anos.

Vincenzo escolhe um terno simples que, em seu corpo, parece ter sido feito sob medida.

— Super sexy. — sussurra ele ao me ver usando um vestido preto, longo e decotado.

Apesar de tudo ao nosso redor parecer prestes a ruir, gosto daquela sensação de fingirmos que ainda temos o controle das nossas vidas.

— Qual dos dois?

— Melhor que ela escolha. Não acha?

— Sim.

Abraço os dois vestidos de princesa contra o peito. Um lilás e outro azul.

Ambos longos.

Ambos parecidos com vestidos de fada.

— Por que me olha desse jeito?

— Porque você é linda.

— Deixa de ser idiota.

Resmungo enquanto ajeito sua gravata diante do espelho do provador da loja especializada em debutantes, noivas e afins.

— E generosa.

Reviro os olhos.

— Não me faça chorar antes do grande dia. Eu odeio esses seus rompantes emotivos.

Por um instante, seu sorriso desaparece.

— Eu te amo, Dess. Não se esqueça disso.

Meu estômago se contrai.

— Está me assustando.

— Dess...

— Não. Para com esse assunto e vamos embora daqui.

Aponto para Matteo, que corre entre os cabides como uma pequena força da natureza.

— Nosso filho está surtando.

Vincenzo acompanha o menino com os olhos e ri.

Matteo puxa vestidos, balança araras e quase derruba uma pilha inteira de caixas.

— Daqui a pouco a dona da loja expulsa a gente.

— E com razão.

Por alguns segundos, apenas observamos nosso filho bagunçando tudo ao redor.

E, pela primeira vez em muito tempo, parecemos uma família comum.




— Leo e eu já decoramos todos os passos da coreografia, mãe. Está simplesmente esplêndida. Você precisa ver.

— Prefiro ver no dia do seu aniversário, filha.

— Sério? Vai ser aqui mesmo... — comenta ela, desapontada. — Podemos mostrar agora ou...

— No dia do seu aniversário de quinze anos. — Insisto, animada com a surpresa que eu e Vincenzo estamos preparando. — Até lá, ensaie mais. Bailarinas normalmente chegam à exaustão. Continue ensaiando.

Lanço uma piscadela para Vincenzo.

Ele sorri de volta.

Do outro lado da mesa, Leo devora o almoço como se estivesse tentando compensar todos os anos de adolescência em uma única refeição.

— Antoine tem um dom para dançar, tia.

— Eu sei. Puxou a mim.

— Ela dança como se estivesse vivendo tudo o que a música diz. Tipo... sentindo na real. Saca?

— Saco. — sorrio.

— Quem nunca sentiu raiva, Leo? — pergunta Antoine, roubando uma batata do prato dele.

Ela mastiga devagar.

Pensativa.

Observadora.

— A raiva é um sentimento inerente ao ser humano.

— Mas a música não fala exatamente sobre raiva, filha. — retruco. — É mais um grito de liberdade. Um chamado para reagir.

— Exatamente. — concorda ela. — Reagir contra o sistema. Contra o mal. Contra tudo o que precisa ser destruído.

— Raiva... — repito, desconfortável.

Há algo em seu olhar que me deixa inquieta.

— Você está bem, filha?

— Nunca estive melhor, mãe.

Seu olhar desliza até Vincenzo.

— E você, pai? Já fez o que deveria ter feito ou vou precisar fazer por você aquilo que já deveria ter sido feito?

— Oiii???

— Calma, mãe. É um assunto nosso.

— Não existem assuntos entre vocês dois dos quais eu não possa participar! — protesto. — Ainda sou sua mãe!

— Aquela que me encontrou na praça. — responde Antoine, num suspiro. — Eu sei.

— Então não me interrompa.

— Conheço essa história de cor, mãe. Graças a você, estou aqui.

Sua expressão muda.

A voz também.

— E daqui eu não saio enquanto ainda existir algo quebrado.

O silêncio que se segue é pesado.

Incômodo.

Antigo.

— Antoine... — adverte Vincenzo.

— O quê? Estou mentindo?

— Dess, deixa isso pra lá.

— Não! — rebato imediatamente. — Ela está claramente provocando você!

— Não foi provocação, mãe. Foi uma pergunta.

Sem desviar os olhos de Vincenzo, ela continua:

— E quem precisa responder é ele.

Meu coração dispara.

— Não gosto desse tom.

— Eu sei.

— Então pare.

— Não posso.

— Antoine...

— Já contou tudo a ela, pai?

O ar parece desaparecer da sala.

Leo engole seco.

Vincenzo baixa a cabeça.

Eu sinto minhas mãos começarem a tremer.

— Pega leve, Antoine.

— Não tenho tempo para pegar leve, Leo.

Ela continua olhando para o pai.

Implacável.

— O tempo não para.

— ANTOINE!

— Está assustando sua mãe, filha. — murmura Vincenzo.

Ela inclina a cabeça.

Devagar.

Como alguém que já conhece a resposta.

— Você ou eu?

O silêncio seguinte é pior do que qualquer grito.

— Quem vai contar a verdade?

— Parem... — imploro, sentindo o chão vacilar sob meus pés. — Meu remédio, Vincenzo...

A cadeira se arrasta violentamente.

— Já volto!

Ele desaparece pelo corredor.

— Aguenta firme, Dess!

— Antoine... — sussurro, lutando contra a tontura. — Para com isso. Ele é seu pai.

Algo parecido com tristeza atravessa seu rosto.

Só por um instante.

— Eu sei, mãe.

Sua voz sai baixa.

Dolorida.

— É justamente por isso que ele ainda está entre nós.

Arquejo.

O mundo gira.

— Eu amo meu pai.

Fecho os olhos.

— Sempre amei.

Quando volto a abri-los, sua expressão já endureceu novamente.

— E estou sendo cobrada por esse amor.

A sala escurece.

As vozes ficam distantes.

Muito distantes.

— Dess?

Alguém me segura.

— Amor?

Outro chamado.

— Dess!

Um tapa leve.

— Não faz isso comigo.

Outro.

— Acorda!

E então tudo desaparece.



Surpreendida por sua beleza ainda mais diáfana dentro do vestido de debutante, esqueço por alguns instantes as insinuações perturbadoras de Antoine e o silêncio suspeito de Vincenzo.

Apenas a observo.

Brilhando no centro do salão ao lado de Leo, impecável em seu smoking preto.

Há algo de imponente naquele menino.

Algo de desafiador.

Definitivamente, existe uma aura de mistério pairando sobre todos nós.

— Uau... — arqueja Vincenzo, com Matteo nos braços.

No centro da pista, Antoine assume sua posição e, num gesto rápido e decidido, remove a longa saia do vestido. Sob o tecido, revela um macaquinho coberto por lantejoulas douradas que cintilam sob os refletores.

— Minhas botas de cano alto!? — exclamo, entre indignada e surpresa. — Pra quê? Ela nem me pediu!

— Fica quieta, Dess. — murmura Vincenzo. — Ela sabe o que faz.

Olho ao redor.

Além dos poucos convidados que ainda restaram em nossas vidas, reconheço Doc, Adele, Jujuba, Mimi e Sweet acomodados numa área mergulhada na penumbra.

Eles me acenam.

Emocionada, retribuo o gesto.

Por que Cassie não está aqui?

E Enrico?

Uma pontada atravessa meu peito.

Recuso-me a pensar no pior.

As lágrimas ameaçam surgir quando meus olhos encontram Aiden parado junto à entrada do salão.

Atrás dele, dezenas de jovens vestidos de preto entram em silêncio.

Coturnos.

Olhares firmes.

Posturas rígidas.

Assustado, Vincenzo resmunga:

— Que diabos é isso?

Um sorriso escapa dos meus lábios.

— Fica quieto, Vincenzo. Ela sabe o que faz.

Soltando os cabelos presos pelos adornos da cerimônia, Antoine aponta para o DJ.

Então me encara.

Eufórica.

Determinada.

— Estamos prontos, mãe!

— Pra quê? — sussurro.


O primeiro impacto dos pés contra o piso ecoa pelo salão.

Uma batida.

Depois outra.

Palmas.

Ritmo.

Precisão.

Exatamente como ensinei.

— Quem são eles?

Vincenzo me abraça com força.

Matteo, no chão, arranca risadas dos convidados, vivos e mortos, dançando à sua própria maneira.

Mas o que vejo diante de mim não parece uma simples coreografia.

Parece um exército.

Um grupo de soldados prestes a marchar para uma guerra.

— A Grande Batalha... — sussurra Vincenzo.

Seu tom é quase uma oração.

Quase um lamento.

Vejo lágrimas surgirem em seus olhos.

Sinto seu coração acelerar contra meu braço.

As batidas dos pés se tornam mais fortes.

Mais agressivas.

Mais próximas.

E então o coro explode.

"We will, we will rock you!"

— Não estou gostando disso, Vincenzo.

— Dess... é um flashback.

Ele sorri.

Um sorriso triste.

— É uma homenagem pra você.

— Não é não...

Levanto da cadeira.

Procuro Aiden entre os convidados.

Ele está atento.

Tenso.

Observando cada movimento.

Meu estômago afunda.

— Merda.

— O quê?

— Vai acontecer alguma coisa.

— Dess, fica!

— Me solta!

Avanço pela multidão e alcanço Antoine.

Seguro seu braço.

— O que está acontecendo aqui, filha? Estou com medo.

Ela me abraça.

Forte.

Demorado.

E sussurra junto ao meu ouvido:

— Você precisa ser forte.

Meu sangue gela.

— Por quê?

— Porque a batalha começou.

Os jovens recuam.

Leo abaixa a cabeça.

Antoine volta os olhos para Vincenzo.

Ao meu lado, ele aperta Matteo contra o peito.

Sua voz falha.

— Preciso te contar a verdade.

— Puta que pariu! — recuo. — Que merda está acontecendo aqui? Era pra ser uma festa!

— Dess, se acalma. Os convidados vão ouvir.

Ele segura meu braço e me conduz até a entrada do salão.

Atrás de nós, o DJ tenta desesperadamente devolver alguma normalidade ao ambiente.

Alguns casais dançam.

Outros observam.

Matteo continua correndo pela pista iluminada, arrancando risos de quem ainda consegue sorrir.

— Ele não pode ficar sozinho, Vincenzo!

— Dess! Tá tudo sob controle! João está com ele!

— Se está tudo sob controle, por que você está nervoso!?

Ele fecha os olhos por um instante.

Respira fundo.

Então responde:

— Porque preciso te contar uma coisa.

— Esse não é o momento pra revelações, Vincenzo!

— Por que você nunca para pra me ouvir!?

As luzes coloridas atravessam seu rosto.

Por um instante, sinto como se estivéssemos novamente no California.

No palco.

Sob os holofotes.

À beira de um desastre.

Cubra meu rosto com as mãos.

— Aiden está aqui.

— Aiden!? — explode Vincenzo. — O que aquele desgraçado veio fazer na festa da nossa filha!?

Sem tirar os olhos do antigo guardião, respondo:

— O que um guardião faz, Vincenzo?

— Guardião porra nenhuma!

Ele se afasta.

Furioso.

— Aquele demônio não vai estragar a festa da nossa filha!

— Volta aqui!

Corro atrás dele.

Ou tento.

— Não consigo correr com a porra desses sapatos!

Vincenzo continua avançando entre convidados e garçons.

Arranco os saltos dos pés.

E os arremesso.

Um deles acerta suas costas.

Ele se vira.

Indignado.

— Eu odeio quando você faz isso!

— Eu odeio quando você me ignora!

— Onde aquele verme está, Dess!?

Procuro Aiden.

Não o encontro.

— Não sei! Sumiu! Agora me diz o que queria me contar!

Antes que ele responda, outra voz surge.

— Dança comigo, pai? Afinal, eu sou a debutante.

Vincenzo pisca.

Confuso.

— Por que você colocou o vestido de novo, Antoine?

— Mãe, não surta. Eu não gosto de ficar com as pernas de fora.

— E aquela história de que a batalha começou!?

— Dess... — interrompe Vincenzo. — Ela quer dançar comigo.

— Não me empurra, ordinário.

Ele sorri.

Aquele sorriso cafajeste que conheço tão bem.

E me dá as costas.

No centro do salão, pai e filha começam a dançar.

Uma música antiga invade o ambiente.

Triste.

Bonita.

Dolorosa.

De onde Antoine conhece essa canção?

Por que escolheu justamente essa?

E por que, ao vê-los dançando juntos, tenho a estranha sensação de estar assistindo a uma despedida?


Vincenzo ergue os olhos marejados.

Antoine, de olhos fechados, repousa a cabeça sobre o ombro do pai, permitindo-se, por um instante, apenas ser filha.

Matteo, alheio à gravidade que paira sobre todos nós, corre ao redor do casal com os bracinhos erguidos, encantado pelas luzes coloridas refletidas no piso.

Ao me ver, ele para abruptamente.

Franze a testa.

Assustado, pergunta em voz alta:

— Mamãe 'dodói'?

Rindo entre lágrimas, movo a cabeça em negativa.

— Não, meu amor.

Satisfeito com a resposta, ele volta a correr pela pista de dança, perseguindo reflexos de luz como se o mundo ainda fosse simples.

Como se ainda fosse seguro.

Vincenzo inclina a cabeça e sussurra algo ao ouvido de Antoine.

Ela sorri.

Um sorriso pequeno.

Orgulhoso.

Doloroso.

Então volta a encará-lo daquele jeito estranho que me causa arrepios.

Sento-me na cadeira da mesa mais próxima.

Absolutamente perdida.

Absolutamente exausta.

Permito-me chorar.

Procuro Doc entre os convidados.

Preciso de um abraço.

Daqueles apertados, silenciosos e cheios de compaixão que somente ele sabia oferecer.

Alguém se senta ao meu lado.

Fecho os olhos.

Antes mesmo de olhar, reconheço sua presença.

O toque suave de sua mão repousa sobre a minha.

Sua voz rouca confessa:

— Eu daria tudo para dançar com você, baby.

Abro os olhos lentamente.

— O que faz aqui, Aiden?

Seu semblante está diferente.

Não há ironia.

Não há provocação.

Apenas urgência.

— Saiam daqui. Antes que seja tarde demais.

Enxugo as lágrimas com o guardanapo de tecido e o encaro, confusa.

— Por quê? A festa ainda nem terminou.

Aiden se levanta tão rápido que a cadeira arrasta pelo chão.

Seus olhos percorrem o salão.

As portas.

As janelas.

Os convidados.

Como se procurasse uma ameaça invisível.

Ou como se já a tivesse encontrado.

— Vão embora. Agora, baby.

Meu coração acelera.

— Espera!



Mas ele já está olhando para algum ponto atrás de mim.

Alguma coisa que eu ainda não consigo ver.

— Com quem estava falando, Dess?

— Com Doc. — Minto. — Eles estavam aqui. Doc, Sweet, Mimi, Jujuba e Adele.

Evito o olhar incisivo de Vincenzo quando Antoine anuncia:

— Papai tem algo muito importante para te dizer, mãe.

— Em casa, filha. Em casa.

— Mas, mãe... não temos tempo.

Um temor inexplicável se espalha pelo meu peito.

Ergo-me da cadeira tão depressa que ela quase cai para trás.

— Cadê o Matteo?

— Ele estava...

Subitamente, Vincenzo fixa os olhos em algum ponto além do salão.

Toda a cor desaparece de seu rosto.

Sem dizer uma palavra, ele corre.

Descalça, eu o sigo.

Ao alcançá-lo, estaco.

O mundo parece parar.

— Larga ele. — Rosno.

Contendo a fúria de Vincenzo com o próprio corpo, posiciono-me diante dele.

Matteo sorri.

Inocente.

Completamente alheio ao perigo.

— Ele é 'bobô' meu?

— Nunca! — rosna Vincenzo.

Empurrando-me para o lado, ele avança quando o maldito ameaça a garganta de nosso filho com a unha afiada e imunda.

Então, pela primeira vez, vejo medo verdadeiro em seus olhos.

Vincenzo recua.

Ergue as mãos.

Implora.

— Não faça isso. O que você quer de mim? Peça. Eu faço.

— Não!

Não sei como fui parar ao lado de Lúcifer.

Não sei quando a adaga surgiu em minha mão.

Só sei que a raiva me guia.

A lâmina rasga a pele de seu braço.

No instante seguinte, sinto um corte em meu próprio antebraço.

Meu sangue escorre.

Uno-o ao dele.

— Deixa meu filho em paz, maldito.

Demonstrando nojo e uma estranha fraqueza, ele devolve Matteo a Vincenzo.

Depois limpa o sangue da própria pele como quem remove sujeira.

— Tome. Argh. Como sua esposa é desagradável.

Seu sorriso se alarga.

— Eu só queria matar a saudade do meu neto.

Cravo a adaga em seu peito.

Aperto o cabo até sentir os dedos doerem.

— Conheço teu ponto fraco.

Seu sorriso permanece.

— E não é aqui.

Livrando-se da lâmina como se fosse um espinho, ele me encara.

— Lembra da espada forjada no interior do vulcão?

Meu estômago se revira.

— Lembra do anjo que tentou ultrapassar a barreira invisível e não conseguiu?

Minha respiração falha.

— Da cicatriz que Anahita deixou?

O sorriso dele torna-se cruel.

— Isso não te faz lembrar de nada?

Silêncio.

— De uma outra lança?

Meu coração para.

— De um filho perdido?

Não.

— De um amante brutal e animalesco?

Não.

— De um anjo pervertido?

— Cala a boca!

O grito de Vincenzo ecoa pelo jardim.

Suas asas colossais se abrem enquanto ele salta sobre Lúcifer.

Os dois colidem com violência.

Punhos.

Asas.

Fúria.

Ódio acumulado por séculos.

Lúcifer apenas gargalha.

Quando Vincenzo finalmente recua, exausto, o maldito continua sorrindo.

Do gramado ao lado do caminho de pedras, ele volta a me provocar:

— O bonitão já confessou os pecados dele?

— Não... por favor...

O pedido desesperado de Vincenzo me atravessa como uma faca.

Acuado, ele protege Matteo contra o peito.

Confusa, observo Antoine erguer os braços.

Chamas azuladas explodem de suas mãos.

Lúcifer é atingido em cheio.

Pela primeira vez, parece incomodado.

Irritado.

Quase preocupado.

— Seu tempo está acabando, menininha.

Seus olhos encontram os meus.

— E, infelizmente, o covarde do seu escolhido não soube dar o valor que você merece.

Um sorriso de desprezo.

— Posso dizer que você é simplesmente patética.

O coturno de Antoine encontra seu queixo.

Com violência.

Lúcifer desaparece.

Como fumaça.

Como uma sombra.

Como se nunca tivesse estado ali.

Permaneço imóvel.

Atordoada.

— Onde ele foi?

— Dess! Seu braço está sangrando!

— Fica longe de mim, Vincenzo.

— Dess...

— Eu quero meu filho.

Rosno.

Arranco Matteo de seus braços.

Sem olhar para trás, caminho em direção à saída do jardim iluminado.

Mas Antoine surge diante de mim.

Seus olhos brilham de um jeito que me apavora.

— Mãe.

Minha voz falha.

— O quê?

— É a minha festa.

Ela sorri.

Triste.

Bonita.

Terrivelmente triste.

— Ainda não terminou.

— Antoine...

— Fica comigo.

Seu olhar vacila por um segundo.

Apenas um.

— Talvez seja a última.

Eu deveria ter ouvido Aiden.

Deveria ter seguido minha intuição.

Deveria ter fugido daquele salão.

Mas fiquei.

E foi o maior erro da minha vida.


Vincenzo e João, bêbados, comemoram a brilhante festa.

Com a voz enrolada, ouço João estranhar:

— Ela cresceu muito rápido, irmão.

— É... — concorda Vincenzo, abobalhado. — Querubins são assim.

— 'Queru' o quê?

Ambos se encaram por um segundo.

Então gargalham juntos.

Leo e Antoine dançam uma canção de amor.

Ela beija seu rosto.

Ele finalmente vence a timidez e a beija nos lábios como se fosse a última oportunidade de sua vida.

Choro enquanto danço com Matteo em meu colo.

Ele enxuga minhas lágrimas com suas mãozinhas e aponta para o chão iluminado.

— Ele 'bria', mamãe! Ele 'bria'!

Beijo sua testa suada.

— O chão brilha, meu filho. Ele brilha.

Então ouço palmas.

Lentas.

Compassadas.

Debaixo da música.

De olhos fechados, reconheço aquela presença antes mesmo de me virar.

Meu sangue gela.

— Não...

Abro os olhos.

— Ele não.

Antoine e Leo imediatamente abandonam a pista.

Posicionam-se diante de mim.

Protegendo-me.

— Fique com seu irmão, filha. Eu cuido disso.

— Mãe!

— Me obedeça.

Vejo-o mancar em direção à cabine do DJ.

Acima de nossas cabeças, as sombras se acumulam.

São muitas.

Silenciosas.

Famintas.

Patibulares.

Olho ao redor.

Excetuando a família de João, não existe mais ninguém no salão.

E, ainda assim...

De que adiantaria o salão cheio?

Corro até a cabine.

— Verme. O que faz aqui? Não foi convidado. Saia agora.

Liam sorri.

— Seu marido bêbado ainda não contou o segredo dele?

Meu estômago afunda.

Que segredo é esse que todos conhecem, menos eu?

— Acorda, Adessa.

Antes que eu consiga reagir, ele toma o microfone das mãos do DJ.

Mancando, atravessa o salão até o centro da pista.

Sob as luzes giratórias.

Sob os olhares atentos das sombras.

Sob o olhar triunfante de quem esperou séculos por aquele momento.

Vincenzo finalmente o reconhece.

Toda a embriaguez desaparece de seu rosto.

— Liam?

Sua voz falha.

— O que faz aqui?

Só isso?

Só isso?

A raiva explode dentro de mim.

Pego um copo de vidro.

Encho-o na fonte próxima aos banheiros.

Corro até Vincenzo.

Sem pensar.

Sem medir consequências.

Jogo a água em seu rosto.

— ACORDA!

O salão inteiro silencia.

— NOSSOS FILHOS ESTÃO CORRENDO PERIGO!

— Não.

A voz de Liam ecoa pelos alto-falantes.

— Não correm.

Ele sorri para todos.

Ou para ninguém.

— Nem eu nem meus amigos viemos machucar alguém.

Seu olhar desliza pelas sombras.

— Pelo que vejo, meu irmão não cumpriu sua promessa.

Uma pausa.

Cruel.

Calculada.

— Nossa querida Antoine não conseguiu redimir o anjo bondoso que se perdeu por gostar de violar mulheres.

O ar desaparece dos meus pulmões.

— Dess, vamos embora.

Vincenzo segura meu braço.

Sua voz treme.

— Vem.

— Não.

Liam ergue o microfone.

— Não agora que a melhor parte vai começar.

— Não sou seu irmão.

A voz de Vincenzo ganha firmeza.

— Nunca fui. Nunca serei.

— Não mesmo.

Liam ri.

— Eu jamais me escondi sob pele de cordeiro, Vincenzo.

Ele abre os braços.

— Sempre fui um lobo.

Um lobo silencioso.

Mas um lobo.

— ASSASSINO!

— Grite o quanto quiser, puta.

O sorriso dele me dá náusea.

— Antes de eu partir daqui, vou vê-la chorar de vergonha por ter escolhido o homem errado.

Vincenzo avança.

Mais sóbrio.

Mais assustado.

Mais perigoso.

— Pare de falar.

— Ou o quê?

— Ou eu te mato.

Pela primeira vez, penso em João.

Em sua esposa.

Em seus filhos.

No que devem estar pensando daquela cena grotesca.

Viro-me.

E meu coração para.

Todos estão dormindo.

João.

A esposa.

As crianças.

Todos.

De bruços sobre as mesas.

Imóveis.

Profundamente imóveis.

Como se jamais fossem acordar.

Um arrepio percorre minha espinha.

Matteo abraça minha perna.

Sua vozinha treme:

— Tio mau.


Eu o pego nos braços.

E, naquele instante, compreendo uma única coisa.

Liam não veio para estragar a festa.

Liam veio para terminar algo que começou muito antes de Antoine nascer.

Com Matteo em meus braços, ainda ouço a insinuação venenosa de Liam antes de vê-lo receber um soco de Vincenzo.

— Quer saber como seu grande amor te encontrou na noite do estupro coletivo, Adessa?

O mundo para.

Cambaleio para trás.

Leo me ampara antes que eu atinja o chão.

Antoine toma Matteo dos meus braços.

Seu rosto perde toda a cor.

— Mantenha-se forte, mãe.

Do chão, Liam continua:

— Já se perguntou como ele ouviu seus gritos naquela noite, idiota?

Minha garganta seca.

— Ele ouviu meus pensamentos...

Minha voz mal existe.

Encaro Vincenzo.

— Fala pra ele. Fala.

— Pai! É agora ou nunca!

— Eu vou embora...

As palavras escapam dos meus lábios antes mesmo que eu perceba.

A saída.

Preciso alcançar a saída.

Preciso fugir.

Preciso acordar.

Então a voz de Vincenzo me destrói.

— Fui eu, Dess.

Silêncio.

Absoluto.

Mortal.

— Eu organizei aquilo.

Caio de joelhos.

Um som estranho escapa da minha garganta.

Não é um grito.

Não é um choro.

É dor.

Dor pura.

De costas para ele, apoio as mãos no chão.

E me lembro.

De tudo.

Do vestido preto.

Das garrafas de ice.

Do quarto apertado.

Da música tocando do lado de fora.

Dos risos.

Dos meus gritos.

Do cheiro de suor.

De cerveja.

De esperma.

Da falta de ar.

Da dor.

Da vergonha.

Dos braços de Vincenzo me envolvendo depois.

— Eu era um monstro, Dess.

Sua voz parece distante.

— Eu sempre tive essa compulsão. Eu não te conhecia. Eu te procurava há séculos porque te amava, mas a doença continuava dentro de mim.

Fecho os olhos.

Quero vomitar.

— Você me curou.

Outro soluço.

— Você me curou, Dess.

O homem diante de mim parece desmoronar.

Mas eu não consigo sentir pena.

Não naquele momento.

Não agora.

Arrasto-me até uma pilastra de mármore.

Meu peito dói.

Meu coração dói.

Minha alma dói.

Leo me observa horrorizado.

Antoine permanece ao lado do pai.

Matteo escapa dos braços dela.

Corre até mim.

Encolhe-se contra meu corpo.

— Papai mau.

Meu filho me abraça.

— Papai mau faz mamãe dodói.

Ajoelhado diante de mim, Vincenzo continua:

— Eu sempre quis te contar.

Seu rosto está molhado de lágrimas.

— Nunca tive coragem.

Eu o encaro.

Sem reconhecer aquele homem.

— Como eu diria à mãe dos meus filhos que paguei monstros iguais a mim para destruírem seu corpo e sua alma?

Cada palavra me atravessa.

— Eu assistia aos seus filmes e julgava você tão doente quanto eu.

Minha respiração falha.

— Eu não te conhecia.

Sua voz quebra.

— Eu te perseguia porque te amava. Mas ainda existia dentro de mim a vontade de te ver sofrer.

Fecho os olhos.

Não.

Não.

Não.

— Eu errei, amor.

Ele desaba.

— Vou passar o resto das minhas vidas sem o seu amor.

— Por que não contou antes?

Minha voz sai vazia.

— Eu implorei.

As lágrimas escorrem sem controle.

— Implorei para que não escondesse nada.

— Eu tive medo.

Ele ergue os olhos.

— Já enfrentei reis, ditadores, bispos, demônios.

Sua voz treme.

— Nada me assustou tanto quanto perder você.

As sombras acima de nós começam a crescer.

Como uma tempestade viva.

No relógio digital próximo à cozinha:

02:50.

Dez minutos para as três.

Algo está errado.

Muito errado.

— Sweet sabia?

— Não.

— Vocês foram amantes?

O silêncio responde antes dele.

— Sim.

O tapa estala pelo salão.

— Eu sabia.

Outro tapa.

— Sempre soube.

Mais lágrimas.

Mais ódio.

— Eu te odeio, Vincenzo.

Ele tenta me ajudar a levantar.

Eu o empurro.

— Nunca mais toca em mim!

— PAPAI MAU!

Matteo grita.

Seu rostinho está vermelho.

Molhado de lágrimas.

— Mamãe dodói!

— Dess...

— Eu preciso do meu filho.

Então Liam bate palmas.

Devagar.

Satisfeito.

— Perfeito.

Seu sorriso me dá náusea.

— Um final feliz para uma festa feliz.

Ele abre os braços.

— Espero que a debutante aproveite o espetáculo.

Erguendo os braços como um maestro enlouquecido, Liam convoca sua legião.

As sombras tornam-se sólidas.

Visíveis.

Reais.

Monstruosas.

Elas nos cercam.

Formando um círculo.

Aprisionando-nos.

Vincenzo é o primeiro a atacar.

Um vulto disforme o atinge.

Ele é lançado contra a parede como um boneco.

— PAI!

Antoine arranca a saia do vestido.

O tecido despenca.

Revelando roupas preparadas para guerra.

Ao lado de Leo, ela avança.

Os dois desaparecem em meio aos monstros.

Bestas de troncos curtos.

Braços enormes.

Mandíbulas deformadas.

Criaturas que parecem ter sido arrancadas de pesadelos antigos.

Atordoada, corro até Vincenzo.

— Levanta!

Ele se ergue.

Volta para a luta.

Minha família forma um pequeno círculo.

Pronta para morrer.

Ou matar.

Então Leo assovia.

Alto.

Forte.

Estridente.

O batalhão surge.

Dos corredores.

Dos jardins.

Das sombras.

Os jovens da coreografia.

Os convidados desconhecidos.

Todos armados.

Porretes.

Facas.

Machados.

Soco-inglês.

Nenhum deles estava ali para dançar.

Estavam esperando.

Preparando-se.

Treinando.

Para isso.

Corro até João e sua família.

Todos dormem.

Imóveis.

Inconscientes.

Um por um, arrasto seus corpos para longe da batalha.

Matteo me segue.

Como se entendesse.

Como se soubesse.

Estou enlouquecendo?

Ou isso é real?

— Você me entende, filho?

Ele aponta para o teto.

— Monstro mau.

Uma aranha gigantesca despenca sobre nós.

Pernas peludas.

Olhos negros.

Mandíbulas pulsantes.

Abraço Matteo.

Fecho os olhos.

E imagino uma cápsula.

Uma barreira.

Algo indestrutível.

Algo que ninguém possa atravessar.

Quando volto a abrir os olhos...

A criatura golpeia o vazio.

Algo invisível nos envolve.

Protege.

Resiste.

A aranha rosna.

Recuando.

Meu coração dispara.

Meu sangue ferve.

Minha respiração falha.

Então compreendo.

Eu não imaginei.

Eu criei.

Desistindo de nos atacar, a aranha gigantesca recua.

As patas peludas arranham o piso brilhante antes de desaparecer entre as sombras.

Agacho-me ao lado das mesas.

Matteo permanece colado em mim.

Faço um gesto levando o indicador aos lábios.

Ele entende.

Mais uma vez.

Obedece.

Esquisito...

— Não saia daí, filho. Entendeu?

Outro sorriso.

Outro aceno afirmativo.

Então volto minha atenção para a batalha.

E me arrependo.

Vincenzo acaba de ser atingido.

Algo cortante abriu seu abdômen.

O sangue escorre por entre seus dedos.

Antoine e Leo, exaustos, recuam de mãos dadas até a cabine do DJ.

Os jovens que vieram com eles tombam um após o outro.

Alguns são esmagados.

Outros despedaçados.

Monstros com três vezes o tamanho de um homem avançam sobre eles sem piedade.

Seria essa a Grande Batalha?

Não.

Não.

Isso não parece uma batalha.

Parece um massacre.

Então percebo a intenção de Liam.

Ele ergue o taco.

Mira Vincenzo.

E sorri.

Não penso.

Corro.

Salto sobre suas costas.

Sua perna manca falha.

Caímos juntos.

Sangue e purpurina misturam-se no chão.

Rolo para longe.

Paro ao lado de Vincenzo.

Um gemido escapa dos meus lábios.

O sangue continua vazando.

Nossos olhos se encontram.

Por um instante...

Por um único instante...

Eu volto a amar o pai dos meus filhos.

Por um único instante.

— Dess! Não!

Agarro o taco de beisebol.

Ergo-o.

Liam se levanta lentamente.

— Se eu te matar, sua legião desaparece?

Ele cospe sangue.

— Não, vagabunda.

Sorri.

— Não é assim que funciona.

— Então para que serve você?

— Eu não sou o pai deles.

Uma gargalhada histérica escapa da minha garganta.

Balanço o taco de um lado para o outro.

— Você não é pai de ninguém, Liam.

Aproximo-me.

— Nem do Sean.

Outro passo.

— Nunca será.

Mais um.

— Sean tem tudo que você sempre quis.

Os olhos dele escurecem.

— Poder.

Minha voz falha.

— E se eu não impedir... ele vai dominar parte do mundo.

O sorriso desaparece.

— Depois da sua morte...

Aproximo-me ainda mais.

— Adivinha quem vai cuidar dele como mãe?

— Vadia.

— Não é fantástico?

Ergo o taco.

— O grande sugador de sangue vai morrer na festa de quinze anos de uma adolescente.

— Ainda estou vivo.

— Ainda.

O taco acerta sua cabeça.

Ele cambaleia.

— Afasta seus monstros da minha família.

Minha voz treme.

— Agora.

— Você não consegue me matar.

— Consigo.

— Não consegue.

— Consigo.

Olhando para mim, ele percebe.

Percebe que não estou blefando.

Pela primeira vez.

Ele tem medo.

Um movimento discreto de sua mão.

A legião recua.

Não muito.

Só o suficiente.

O suficiente para me enlouquecer ainda mais.

Sangue escorre por sua testa.

— Você não pode me matar.

— Posso.

— MÃE! NÃO!

Antoine grita.

Recostada contra uma parede.

— PENSA!

— Vou matar esse desgraçado!

— Por Cassie?

A pergunta me paralisa.

Meu braço vacila.

Meu peito explode.

— Sim.

Minha voz quebra.

— Por Cassie.

Fecho os olhos.

— Ela amava você.

Outro passo.

— Ela acreditava em você.

Mais lágrimas.

— Ela não conhecia o monstro que você era.

Liam sorri.

Como sempre.

— A Pitonisa deveria ter sentido minhas intenções.

Outro golpe.

Desta vez em sua perna.

— MALDITO!

— A verdade dói, Adessa.

— Dói!

Algo enorme me atinge.

Não vejo.

Só sinto.

Sou arrancada do chão.

Arremessada contra uma pilastra.

O impacto rouba meu ar.

Minhas costas queimam.

Cuspo sangue.

O gosto metálico invade minha boca.

Tudo gira.

Vincenzo tenta chegar até mim.

Cambaleando.

Sangrando.

Morrendo.

Ao fundo vejo a fotografia de Antoine.

O painel iluminado.

O sorriso dela.

Aquele sorriso.

Ela estava feliz naquele dia.

Leo estava feliz.

Matteo estava feliz.

Nós estávamos felizes.

Então ouço um som.

Um som que não deveria existir.

Um som que me destrói.

Leo gritando.

Desesperado.

Corro os olhos pelo salão.

E a vejo.

Antoine.

Imóvel.

Nos braços dele.

Liam surge diante de mim.

Mancando.

Sorrindo.

A adaga em sua mão.

Coberta pelo sangue da minha filha.

— Foi mais fácil do que pensei.

Meu coração para.

— Mas fique tranquila.

Ele ergue a lâmina.

— Ela ainda não morreu.

Sorri.

— Ainda.

O mundo escurece.

Não ouço mais a música.

Não ouço mais os monstros.

Não ouço mais ninguém.

Vejo apenas Vincenzo.

De joelhos.

Segurando nossa filha.

Como segurou o meu corpo naquela noite.

Como segurou Matteo ao nascer.

Como segurou nossa família durante anos.

Meus olhos escurecem.

Meu sangue ferve.

Minhas mãos tocam o chão.

A raiva atravessa cada parte do meu corpo.

Já não existe medo.

Já não existe culpa.

Já não existe perdão.

Fecho os olhos.

E o chamo.

Que o Arcanjo Miguel me perdoe.

Mas, naquele instante...

Eu sou apenas Escuridão.

Matteo, ao meu lado, observa tudo em silêncio.

Encarando Liam, esqueço os gritos de Vincenzo implorando para que eu não fosse impulsiva e me entrego à escuridão que sempre existiu dentro de mim.

— Se estiver me ouvindo... me ajuda. Me vinga.

— Tola. — A voz de Lúcifer surge ao meu lado. — É preciso mais ódio. Observa.

Ele espalma as mãos junto às minhas.

Os dedos longos.

As unhas escuras.

O horror estampado nos olhos de Liam.

O chão treme.

Vincenzo e Leo protegem o corpo de Antoine.

Ela vive.

Eu sinto.

— Concentre-se, mulher! Deixe o ódio escorrer por suas mãos!

Eu obedeço.

Uma eletricidade feroz percorre meus braços.

Assustada.

Excitada.

Hipnotizada.

Vejo o piso do salão se partir ao meio.

A pista de dança racha como uma ferida aberta.

— Viu? — Lúcifer sorri. — Não és tão inútil quanto pensei. Agora acabe com ele.

Da imensa fenda, labaredas se erguem como serpentes famintas.

A cratera engole monstros.

Engole heróis.

Engole meninos que só queriam proteger alguém.

Liam cambaleia.

Agarra-se a uma pilastra.

Seus olhos finalmente conhecem o medo.

Os poucos aliados da Legião que ainda sobrevoam o salão tentam alcançá-lo.

Ergo uma das mãos.

O vento explode ao meu redor.

As criaturas são arremessadas para longe.

Com uma frieza que não reconheço como minha, caminho até Liam.

Passo após passo.

Lentamente.

Como uma sentença.

— Este é o seu inferno, Lúcifer?

— Não, meu bem. É apenas a porta da porta da porta de entrada.

Ele sorri.

— Empurre-o.

— Por que sinto que não devo fazer isso?

— Porque ainda pensa.

— O que ganha com a morte dele?

— Outra alma idiota. Agora faça.

Mas Liam fala antes.

E sua voz não carrega sarcasmo.

Nem ódio.

Nem loucura.

Carrega cansaço.

— Eu a amava.

O mundo inteiro parece silenciar.

— Liam...

— Ela foi a luz dos meus dias aqui na Terra.

— Por que nunca me disse isso?

Ele ri.

Uma risada amarga.

Derrotada.

— Porque você nunca quis ouvir nada além daquilo que já acreditava saber.

Meu coração vacila.

— Cassie me disse...

— Cassie disse o que você precisava ouvir para continuar vivendo.

As chamas refletem em seus olhos.

— Ela estava grávida quando pulou.

O mundo desaparece.

— Não...

— Estava.

— Não...

— Viva com essa culpa, Adessa.

Minha respiração falha.

— Você mente.

— Pode me matar. — Seus olhos brilham de tristeza. — Eu vou me encontrar com minha Little Princess.

— DESS! NÃO!

A voz de Vincenzo ecoa atrás de mim.

Distante.

Muito distante.

Como se viesse de outra vida.

Olho para ele.

Ensanguentado.

Quebrado.

Arrastando-se pelo chão.

Tentando me alcançar.

— Acabou, amor. — Minha voz já não parece minha. — Acabou.

Espalmo as mãos contra o peito de Liam.

Por um instante.

Apenas um instante.

Eu hesito.

Porque vejo Cassie.

Vejo Sean.

Vejo Antoine.

Vejo Matteo.

Vejo todas as vidas destruídas que passaram por nós.

Então eu o empurro.

Liam cai.

As chamas o engolem.

Mas antes de desaparecer no abismo...

Ele sorri.

Não é um sorriso de triunfo.

Nem de loucura.

Nem de derrota.

É um sorriso de alguém que finalmente encontrou aquilo que procurava.


E essa é a pior parte.

Porque, naquele momento, eu já não sabia quem havia vencido.

A grande fenda se fecha com um estrondo ensurdecedor.

O salão inteiro treme.

As luzes piscam.

As mesas tombam.

Eu caio de costas sem compreender o que acabo de fazer.

Por alguns segundos, não ouço nada além de um zumbido agudo dentro da minha cabeça.

Nem gritos.

Nem choro.

Nem música.

Apenas silêncio.

Um silêncio pesado.

Do tipo que surge depois de uma tragédia.

Ao meu lado, Matteo aponta o indicador para Vincenzo e choraminga:

— Papai 'dodói'. Nininha 'dodói'. Homem mau, mamãe.

O toque de sua mãozinha em meu rosto me desperta.

Abraçando-o contra o peito, afasto-me do lugar onde Liam desapareceu e corro até Antoine e Vincenzo.

Ajoelho-me.

Minhas mãos tremem.

Toco no ferimento de Vincenzo e imagino a carne se fechando.

Imagino o sangue estancando.

Imagino a dor desaparecendo.

Milagrosamente, acontece.

O sangramento cessa.

A ferida começa a se recompor diante dos meus olhos.

Mas algo escapa de mim.

Como água drenando por uma rachadura invisível.

Como se a vida abandonasse meu corpo para habitar o dele.

Cambaleio.

Exausta.

Ainda assim, volto meu olhar para Antoine.

Penso em fazer o mesmo.

Penso em salvá-la.

Antes que eu tente, porém, Vincenzo, recostado à parede, lamenta com a voz fraca:

— Não vai adiantar, Dess. Ela não é como eu. Nem como você.

— Creio que alguém aqui vai perder mais do que imaginou.

A voz me faz gelar.

Meu coração despenca.

Lúcifer.

— O que faz aqui, maldito?

Ele sorri.

Como se estivesse assistindo a uma peça de teatro particularmente divertida.

— Ora... você me invocou.

— Você me enganou!

Minha voz se quebra.

— Você me obrigou a matar Liam!

— Não, não, não...

Ele balança o indicador.

Divertido.

Pacientemente divertido.

— Você seguiu seus impulsos, meu bem.

Meu estômago revira.

— Parabéns.

Seu sorriso aumenta.

— Você acaba de condenar seu marido ao sofrimento eterno.

— NÃO!

Salto sobre ele.

Minhas mãos atravessam apenas ar.

Perco o equilíbrio.

Caio contra o chão.

Lúcifer desapareceu.

E, com ele, o último vestígio da certeza que ainda restava dentro de mim.

Permaneço ajoelhada.

Observando minhas mãos.

Sujas de sangue.

De culpa.

De escolhas que não posso desfazer.

Minha voz sai em um sussurro quebrado:

— O que eu fiz?

Encarando Vincenzo, faço a única promessa que ainda sou capaz de cumprir.

— Eu não vou deixar que te levem.

Ele sorri.

Um sorriso pequeno.

Triste.

Resignado.

Seu rosto está coberto de sangue, suor e derrota.

— Agora é tarde, Dess.

Seus olhos encontram os meus.

— Não se culpe. Você fez o que acreditava ser certo.

Dor.

Não uma dor física.

Não uma dor passageira.

Mas uma dor antiga.

Profunda.

Daquelas que criam raízes.

E eu compreendi, naquele instante, que ela me acompanharia até o fim.












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