CAPÍTULO 50 - CARPE DIEM

 




Eu mesma, incapaz de conter o choro, mergulhei Antoine na banheira de água morna.


Cuidei dela como nos dias em que ainda era uma criança pequena, curiosa e cheia de vida.


— Acorda, por favor. Só acorda. — Supliquei enquanto secava, com mãos trêmulas, seu corpo de adolescente.


Recusei a ajuda de Vincenzo.


Recusei qualquer toque.


Recusei qualquer palavra.


Sozinha, carreguei minha menina até o quarto.


Vesti-a com seu pijama preferido.


Penteei seus cabelos.


Acomodei-a na cama.


Ela parecia apenas dormir.


No local onde Liam havia cravado a adaga, nada restava além de uma pequena cicatriz esbranquiçada.


Pela primeira vez, aceitei o óbvio.


Antoine não era humana.


Talvez nunca tivesse sido.


Ainda assim, era minha filha.


E continuaria sendo, independentemente daquilo que habitasse seu sangue.


Sem conseguir compreender a estranha serenidade de Leo e a apatia de Vincenzo, agradeci, em silêncio, ao Criador por tê-la poupado.


Mesmo sem o dom da telepatia, quase podia ouvir a voz de Vincenzo ecoando dentro da minha cabeça.


"Somente agora você recorre ao Criador?"


Talvez.


Talvez eu sempre O procurasse apenas quando tudo desmoronava.


Talvez aquela fosse mais uma das minhas falhas.


Leo permanecia sentado sobre o colchão, com as pernas esticadas e a cabeça de Antoine repousando em seu colo.


De tempos em tempos, afastava uma mecha úmida de seus cabelos.


Sussurrava algo que eu não conseguia ouvir.


Então sorria.


Um sorriso triste e esperançoso ao mesmo tempo.


Como alguém que conhecia um segredo capaz de atravessar a morte.


Vincenzo permanecia recostado à parede em frente à cama.


Os braços apoiados sobre os joelhos.


A cabeça baixa.


Imóvel.


Parecia tão ferido quanto a própria filha.


Talvez mais.


Por Matteo, fui obrigada a continuar me movendo.


Fui obrigada a respirar.


Fui obrigada a permanecer de pé.


A parte de mim que desejava deitar ao lado de Antoine e jamais sair daquele quarto precisava esperar.


Eu tinha outro filho.


Um menino pequeno.


Inocente.


Faminto.


Assustado.


Matteo não tinha culpa das escolhas de seus pais.


Nem dos pecados de seu pai.


Nem da fúria de sua mãe.


Nem da guerra que quase destruiu nossa família.


Matteo apenas precisava de mim.


E, por ele, eu ainda precisava continuar.


Na banheira, ele e eu nos limpamos em silêncio.


Enquanto enxáguo seus cabelos finos e sem corte, procuro arrancar um sorriso daquele rostinho que sempre iluminava meus dias.


Não consigo.


Vestindo um pijama igual ao de Antoine, procuro alguma roupa confortável que o mantenha aquecido durante a madrugada.


Não tenho lágrimas.


Não tenho palavras.


Não consigo olhar para Vincenzo.


Parte de mim o odeia.


A outra parte me odeia ainda mais.


Na cozinha, misturo o caldo do purê de batatas ao feijão ainda morno. O cheiro me embrulha o estômago.


Sentado em sua cadeirinha de alimentação, Matteo me observa em silêncio.


Nenhuma reclamação.


Nenhuma brincadeira.


Nenhum sorriso.


Apenas aqueles olhos atentos demais para uma criança tão pequena.


— Come, filho. Por favor.


Ele abre a boquinha e aceita a primeira colherada.


Depois a segunda.


Depois a terceira.


Sem resistência.


Sem alegria.


Como se também estivesse cansado.


Como se também soubesse.


Incapaz de suportar aquela obediência triste, beijo sua testa e confesso num sussurro:


— Eu não queria ter feito o que fiz.


Minha voz falha.


— Você acredita em mim?


Fazendo um pequeno biquinho, ele balança a cabeça afirmativamente.


E isso me destrói.


Puxo sua cadeirinha para perto e o abraço com força.


Forte demais.


Como se pudesse protegê-lo de tudo.


Como se pudesse voltar no tempo.


Como se ainda existisse alguma coisa que eu pudesse consertar.


— Não vou deixar sua maninha partir.


Minha garganta fecha.


— Eu juro.


Matteo segura meu rosto entre suas mãozinhas quentes.


Seus olhos claros procuram os meus.


Então, com toda a simplicidade do mundo, ele declara:


— Ti amo, mamãe.


Não existe feitiço.


Não existe milagre.


Não existe batalha.


Não existe inferno.


Não existe dor maior.


Desabo.


Eu o aperto com tanta força enquanto choro compulsivamente que o ouço reclamar.


— Páia, mamãe... Páia. Faz dodói neném.


Ainda chorando, vejo mãos fortes o retirarem de meus braços.


Vincenzo.


Ainda coberto de sangue, sujeira e hematomas, ele acolhe Matteo contra o peito e começa a cantar uma antiga canção de ninar.


A mesma de sempre.


A mesma que costumava arrancar risadas de Antoine quando ela era pequena.


A mesma que eu ouvia do outro lado da casa nas raras noites em que conseguia dormir.


— Papai tiste. Tadinho.


A constatação simples de Matteo atravessa as últimas defesas de Vincenzo.


Seus olhos se enchem de lágrimas.


Sua voz falha.


Mas ele continua cantando.


Continua embalando nosso filho.


Continua sendo pai.


Sob a luz branca e impiedosa da cozinha, observo os cortes espalhados por seu rosto, braços e abdômen.


As marcas dos monstros.


As marcas da batalha.


As marcas dos pecados.


Como fui capaz de estancar o sangue que escapava de seu corpo?


Como fui capaz de abrir o Inferno sob os meus pés?


Como fui capaz de matar Liam?


Fecho os olhos.


Vejo Cassie.


Vejo Sean.


Vejo a janela.


Vejo Liam sorrindo enquanto desaparecia entre as chamas.


Vejo minhas próprias mãos empurrando-o.


Meu estômago se revira.


Minha alma também.


Minha Cassie estava grávida.


Minha Cassie amava aquele homem.


Minha Cassie escolheu aquele homem.


E eu...


Eu a julguei.


Eu a condenei.


Eu a perdi.


Um gemido escapa da minha garganta.


Não sei mais quem sou.


Não sei mais onde termina Adessa e onde começa a escuridão que habita dentro de mim.


Eu só queria salvar todos.


Só queria proteger minha família.


Só queria impedir que mais alguém morresse.


E, no final, continuo cercada por cadáveres.


Por fantasmas.


Por culpa.


Por escolhas erradas.


Por Lúcifer.


Por mim mesma.


— Para de pensar, Dess.


A voz de Vincenzo me alcança como algo vindo de muito longe.


— Você precisa comer alguma coisa. Tá fraca.


Ergo os olhos.


Ele continua embalando Matteo.


Continua sangrando.


Continua aqui.


Por quê?


Por que ele ainda está aqui?


Por que não foi levado?


Por que o Inferno ainda não veio buscá-lo?


— Você precisa tomar um banho. Eu vou limpar suas feridas.


Ele solta uma risada sem humor.


Exausto.


Derrotado.


— Não precisa.


— Precisa sim.


Minha voz sai mais dura do que pretendia.


— Vão infeccionar. As unhas daqueles...


Minha garganta fecha.


A imagem das criaturas retorna.


O cheiro delas retorna.


O som dos ossos se partindo retorna.


Curvo-me sobre a bancada.


Outro choro.


Outra derrota.


— Você precisa se limpar.


Engulo o nó na garganta.


— O Leo também.


Olho para Matteo, acomodado em seu colo.


— Solta o meu filho.


Minha voz quase desaparece ao final da frase.


— Ele já tomou banho.


— Nosso. — refuta ele, sem qualquer brilho nos olhos. — Nunca se esqueça de que ele é meu também.


Dando-me as costas, caminha até a sala.


De lá, responde à pergunta que eu jamais deveria ter feito.


— Ainda estou aqui porque não quero que outro homem me substitua. Ainda me agarro à esperança.


Impactada por suas palavras, deixo-me cair sobre o sofá.


Mais uma vez, me arrependo de ter sido impulsiva.


Ligo a televisão.


Ao meu lado, Matteo assiste ao seu filme preferido até o sono vencê-lo.


Depois de deitá-lo em seu berço, beijo sua testa e deixo a porta de seu quarto entreaberta.


Então corro até o quarto de Antoine.




Leo adormeceu ao lado dela.


Ainda de mãos dadas à minha filha, duas lágrimas escapam de seus olhos fechados.


Com um receio estranho, quase supersticioso, toco a pele de Antoine.


Suspiro aliviada.


Ela não está fria.


Ajoelho-me ao pé de sua cama.


Com as mãos unidas em prece, fixo os olhos devastados pelo choro no rosto do Crucificado pintado por Antoine e pendurado na parede.


Sinto-me pequena.


Pequena demais.


— Sei que errei. Não sou merecedora de Vosso Amor. Não ouvi os avisos. Invoquei forças contrárias ao Senhor. O desejo de vingança tomou conta de mim quando eu deveria ter parado. Minha filha me alertou e eu não quis parar. Meu marido me implorou e eu não quis raciocinar. Juro que, naquele momento, eu não me lembrava de nada. Eu só queria matar aquele homem.


Minha voz embarga.


Ainda assim, continuo.


— Cometi vários pecados e, por isso, devo ser punida. Peço pelo amor de Vossa Mãe, e não pelo ser humano repugnante que sou. Por favor... salva minha filha. Permita que ela permaneça entre nós por mais tempo. Eu imploro. Não deixe que o pacto se cumpra. Tu tens o poder de mudar tudo. Deixa Vincenzo com a gente. Nossos filhos e eu precisamos dele.


Curvando o corpo para frente, sento-me sobre os tornozelos.


Recosto a testa na madeira da cama.


E volto a chorar.


— Eu preciso muito dele. Por nosso filho... não deixe que o Mal o leve.


Permaneço assim por um longo tempo.


Até perceber sua presença.


— Eu estava...


— Rezando. Eu ouvi, Dess.


— Seu cabelo tá molhado.


Ajoelhado ao meu lado, ele sorri.


Um sorriso cansado.


Pequeno demais para alcançar os olhos.


Secando minhas lágrimas com sua mão fria, comenta:


— Você não comeu nada ainda. Nem tomou seus remédios.


Erguendo-se, estende o braço em minha direção.


— Vem. Vou te preparar um sanduíche.


— Eu estava rezando, Vincenzo.


— Ele já ouviu, Dess. Jesus já te ouviu.


— Como sabe?


— Como você diria... eu sei. Eu sinto.


Caminho ao seu lado até a cozinha tentando descobrir o que ele sente por mim naquele momento.


Raiva.


Mágoa.


Pena.


Amor.


Não encontro nada.


Ou talvez encontre tudo ao mesmo tempo.


Sem largar minha mão, ele me faz sentar na banqueta.


Diante do fogão, prepara sua especialidade.


Um X-Burger duplo com cheddar.


Em qualquer outra noite eu teria reclamado do excesso de queijo.


Em qualquer outra noite Antoine estaria roubando as batatas do meu prato.


Em qualquer outra noite Matteo estaria espalhando molho pela cozinha.


Mas não existe "qualquer outra noite".


Existe apenas esta.


Sentando-se à minha frente, ele empurra um dos pratos em minha direção e mantém o outro diante de si.


Abocanha o sanduíche.


Mastiga devagar.


Como se cada movimento exigisse esforço.


Então levanta os olhos.


E algo em seu olhar me destrói.


Por que ele está prendendo o choro?


— Antoine e Leo deveriam estar aqui rindo dos seus questionamentos impertinentes.


— Eles estarão aqui em breve, marido. Não desanima.


Seu olhar escurece.


Engulo em seco.


— Estarão sim. Para de me olhar desse jeito. Tenho medo.


— Coma, Dess. Depois tome seus remédios.


— Você me odeia?


Pergunto enquanto enfileiro os comprimidos ao lado do prato.


São quatro ao todo.


Tempo suficiente para que ele responda.


Tempo suficiente para que eu não tenha coragem de encará-lo.


— Você me odeia?


— Como posso te odiar, Dess?


A resposta deveria me aliviar.


Não alivia.


— Por ter feito tudo o que não deveria ter feito. Por ter ferrado com nossas vidas. Por ter sido impulsiva quando você cansou de me avisar.


Toco sua mão sobre a mesa.


Ela está gelada.


— Eu não me lembrava do pacto entre você e Liam. Acredite. Eu agi daquela forma porque o odiava. Por Cassie. Por Sean.


Minha voz falha.


— Não quero que você vá embora...


Seus olhos se fecham por um breve instante.


Apenas um instante.


Mas é suficiente para que eu perceba o tamanho de sua dor.


Quando volta a abri-los, ele já ergueu a muralha outra vez.


— Come, Dess.


Sua voz sai baixa.


Quase um sussurro.


— Vai esfriar.


— Foda-se! Eu não tenho fome! Nossa filha está prestes a morrer! Não faço ideia do que passa pela sua cabeça e tudo o que você pensa é em me fazer comer esse sanduíche!?


Segurando meu rosto entre as mãos, ele sustenta meu olhar.


— Não vou sair daqui.


— E o pacto!?


— Não há pacto, Dess.


Sua voz sai firme.


Calma demais.


— Toma teus remédios e come o X-Burguer. Você precisa ficar forte.


— Eu preciso de você! Você me odeia!? Fala logo!


Por um instante, algo vacila dentro dele.


Algo que parece prestes a quebrar.


— Como eu poderia odiar a mulher que me perdoou mesmo depois de ter sido machucada por mim?


Sua garganta trava.


— A mãe dos meus filhos?


Os olhos úmidos se desviam dos meus.


— Você sabia de tudo e jamais me expulsou da sua vida.


A culpa me atravessa como uma lâmina.


Mas existe uma pergunta que me corrói há muito mais tempo.


Uma pergunta que sempre esteve escondida entre todas as outras.


— Por que não me salvou do segundo estupro? Na mansão dos amigos de Aiden?


O silêncio se instala entre nós.


Pesado.


Sufocante.


— Você disse que estava lá.


Minha voz falha.


— E não fez nada.


O encaro.


— Você era um deles?


A dor em seus olhos é imediata.


Quase física.


— Não, Dess.


Amargurado, ele passa a mão pelos cabelos ainda molhados.


Num impulso, levanto da cadeira.


Abro uma das gavetas.


Pego um pano de prato limpo.


Ignoro meu orgulho.


Ignoro minha raiva.


Ignoro tudo.


Começo a secar seus cabelos.


Ele solta uma risada pequena.


Inocente.


Tão inesperada que meu coração aperta.


Após secar seus fios desalinhados, acaricio seu couro cabeludo.


Fecho os olhos.


Inspiro o cheiro de maçã verde que exala de sua pele.


Tenho medo.


Um medo absurdo.


Tenho medo de nunca mais sentir esse cheiro.


Nunca mais tocar esses cabelos.


Nunca mais vê-lo sentado diante de mim.


— Eu não era um deles. — responde por fim.


Sua voz está distante.


Perdida em outra época.


— Fui impedido de entrar na mansão por seres mais poderosos do que eu.


Paro de mover o pano.


Ele continua:


— Fiquei do lado de fora.


Sozinho.


— Diante daquele jardim.


Seus olhos se enchem de lágrimas.


— Imaginando o que estavam fazendo com você.


Meu estômago revira.


— E aquele foi o meu castigo.


Sua respiração falha.


— Eu já te amava, Dess.


As palavras quase não saem.


— Já tinha me curado por você.


Uma lágrima escapa.


Depois outra.


— Eu já entendia tudo o que tinha feito.


— Já entendia o tamanho dos meus pecados.


A voz quebra.


— E ficar ali...


Ele fecha os olhos.


— Sem conseguir entrar.


— Sem conseguir te salvar.


— Ouvindo seus gritos.


Meu coração para.


— Foi a pior tortura que já vivi.


Então ele me encara.


Derrotado.


— Eu sobrevivi à guerras, fome, perseguições, torturas, Dess.


Sua voz se reduz a um sussurro.


— Mas nunca me perdoei por aquela noite.


— Primeira explosão? Eu não me lembro do que aconteceu. — Declaro, surpresa. — Não foi Aiden quem me tirou dali?


— Não. Aiden chegou a sair do casarão, mas retornou imediatamente. Foi consumido pelo fogo junto com os outros convidados. Antes da explosão final, eu consegui entrar e te resgatar com vida.


— Então... — Assustada, pergunto. — Aiden morreu e voltou?


— Sim e não. Ele sempre esteve morto. Quero dizer... sempre habitou aquele corpo sem vida. Você já sabe disso. Assim que o recuperou, ele te procurou decidido a se redimir, assim como eu. Éramos dois párias esperando pelo teu perdão. Mas ele sempre foi o mais honesto. O mais corajoso.


— Ele não tinha o que perder. Meu amor sempre foi seu.


Os olhos de Vincenzo encontram os meus.


— Foi?


— Foi. E sempre será.


Por um instante, ele parece envelhecer anos.


Mesmo assim, não se afasta.


Sentando-me em seu colo, envolvo seu pescoço com os braços e beijo sua boca.


— Perdão, Dess.


— Sou eu quem precisa te pedir perdão, amor. Mesmo que venham te buscar, não vá embora. Você pode se rebelar. Não pode?


— Não, Dess. Isso significaria o fim daqueles que mais amo. Prefiro me afastar de vocês do que vê-los sofrer.


— Nós vamos sofrer de um jeito ou de outro, Vincenzo! Você não pode nos deixar!


— Eles vão te matar.


— Quem são “eles”?


— Sei lá. Legião. Arcanjos. Demônios...


Afasto-me apenas o suficiente para encará-lo.


— Arcanjos?


Seu olhar vacila.


— Esquece, Dess.


— Não dá.


— Dá sim.


— Não dá!


— De alguma forma, o destino vai nos separar.


— Não vai!


— Calma. — Ele toca meu rosto. — Muita coisa ainda pode acontecer.


— Milagres?


Um sorriso cansado atravessa seus lábios feridos.


— Eu acredito. E você?


Desesperada, volto a abraçá-lo.


Como se pudesse impedir o tempo de continuar correndo.


Como se pudesse mantê-lo ali para sempre.


Choramos juntos em silêncio.


Até que a porta da cozinha se abre violentamente.


Leo surge ofegante.


Os olhos arregalados.


O rosto tomado por lágrimas.


E anuncia:


— Ela voltou.


Juntos, corremos até seu quarto.


Empaco na porta assim que a vejo sentada sobre a cama.


Algo nela me assusta.


Seus olhos continuam sendo os mesmos, mas carregam uma tristeza antiga, impossível para alguém de sua idade. Seu sorriso mudou. Seu corpo parece irradiar uma luz suave, quase imperceptível. Até sua voz soa diferente quando me chama.


— Mãe.


Caio de joelhos aos seus pés.


Beijo suas mãos.


Aperto seus dedos entre os meus.


— Me perdoa.


Ela acaricia meus cabelos como se os papéis tivessem se invertido.


— Levanta, mãe. Não há o que perdoar. Você lutou por mim.


— Você me avisou. Eu ouvi e não parei.


— Agora é passado, mãe. Estamos no presente. E o presente é uma dádiva divina. Estamos juntos. Estamos vivos.


— Filha... — Sussurro, abraçando-a com força. — Não me deixa nunca.


O silêncio que se segue me atravessa como uma lâmina.


Seguro seu rosto entre minhas mãos.


— Não morre, filha. Se você partir, eu vou junto.


Os olhos de Antoine brilham.


Não de lágrimas.


De compreensão.


— Não vai, mãe. Meu maninho ainda vai precisar muito da sua força.


Tocando a cicatriz onde Liam a atingiu, pergunto:


— Dói?


— Não.


Ela sorri.


— Não fique abalada com aquilo que ainda não conhece. Meu Pai me curou.


— Vincenzo?


O sorriso pálido se amplia.


— Não. O Pai que está nos Céus, mãe.


Meu coração afunda.


— Ainda não compreendeu quem eu sou?


— Não, filha! — Protesto imediatamente. — Não quero ouvir!


— O tempo chegou, mãe. Preciso contar a minha história antes...


— NÃO DIGA "ANTES DE PARTIR"!


— Dess, se acalma. — Pede Vincenzo, afastando-me delicadamente.


Antoine solta uma gargalhada leve.


Uma gargalhada que me faz lembrar da menina que ela ainda é.


— Eu ia dizer antes de comer.


Ela inspira profundamente.


— Estou sentindo daqui um cheirinho muito peculiar...


Animado pela primeira vez desde a batalha, Vincenzo aponta para a porta.


— Vou preparar um X-Burger reforçado para nossa heroína!


— E pra mim?


Antes que eu responda, Vincenzo envolve Leo em um abraço apertado.


Os olhos dos dois se enchem de lágrimas.


— Você me surpreendeu, filho. Sem a sua coragem, sem a sua força, nenhum de nós estaria aqui.


Leo abaixa a cabeça, constrangido.


— Fiz o que precisava ser feito.


— Quem eram aqueles meninos, Leo? — Pergunto. — Seus amigos do colégio?


Ele ergue os olhos para o teto.


Demora alguns segundos para responder.


— Sim.


Uma pausa.


— Pode ser.


— Havia algo diferente neles.


Leo sorri de canto.


Um sorriso cheio de segredos.


— E eles são diferentes, tia.


Seu olhar encontra o de Antoine.


Ambos parecem compartilhar uma informação que nenhum de nós possui.


— Tá ligada?




— Será que podemos conversar enquanto comemos? Tô varada de fome.


Sem forças para se manter de pé, Antoine é carregada por Leo até a cozinha. Vincenzo e eu os seguimos de mãos dadas.


Pela primeira vez desde a batalha, permito-me respirar.


Talvez...


Talvez minhas preces tenham sido ouvidas.




Beliscando algumas batatas fritas do prato de Vincenzo, observo a estranha euforia de Antoine enquanto ela descreve, pela centésima vez, a atuação heroica de Leo durante o que insiste em chamar de "O Início do Fim".


— Não gosto desse título, filha.


— É do fim deles, mãe. Relaxa.


Devorando seu segundo sanduíche como se não comesse há dias, ela aponta para Leo.


— Se não fosse por ele, estaríamos ferrados.


Leo abaixa a cabeça, constrangido.


— Nem tanto.


— Para de ser modesto. — Ela rebate entre uma mordida e outra. — Você foi incrível.


Vincenzo e eu apenas a observamos.


Em silêncio.


A alegria dela me emociona.


A normalidade daquela cena parece um milagre.


Leo, alheio à conversa, continua apreciando seu X-Burguer aos poucos, como se estivesse degustando uma obra de arte.


Ele arregala os olhos quando, sem ter certeza de que realmente desejo ouvir a resposta, faço a pergunta que me acompanha há anos.


— Por que veio à Terra, filha?


O ambiente muda.


Sutilmente.


— Eu já me convenci de que você não era uma garotinha normal quando te vi naquela praça. Não depois de ver aquele ferimento absurdo em sua barriga cicatrizar no mesmo dia.


Antoine lambe discretamente os dedos, limpa as mãos no guardanapo e me encara.


— Você tá preparada pra saber de tudo, mãe?


— Não.


Minha resposta sai mais rápido do que deveria.


— Mas tudo bem.


— Dess... — Murmura Vincenzo.


Encosto minha cabeça em seu ombro.


— Eu preciso conhecer a verdade. Mesmo que doa.


Antoine endireita a postura sobre a banqueta.


Respira fundo.


Uma vez.


Duas.


Como alguém prestes a abrir uma porta que não poderá ser fechada novamente.


— Pode falar, filha. Não vou surtar.


Ela sorri.


— Essa história começa antes de o Messias pisar na Terra.


O sorriso desaparece.


— Onde meu Pai e eu habitávamos, existiam milhares de outros como nós.


Meu coração acelera.


— Você não é como eu, filha. Me explica o que você é.


— Pai... — Resmunga ela, visivelmente envergonhada.


É Vincenzo quem responde.


Com a voz baixa.


Quase reverente.


— Ela é um querubim, Dess.


O mundo parece parar por um segundo.


— Está acima dos anjos.


Acima dos arcanjos.


Tem ligação direta com o Nosso Deus.


O silêncio que se segue é tão profundo que consigo ouvir o tique-taque distante do relógio na sala.


E, pela primeira vez desde que a resgatei naquela noite, percebo que talvez eu nunca tenha conhecido verdadeiramente minha própria filha.


— Uau... — Suspira Leo, apoiando os cotovelos sobre a mesa.


Em silêncio, eu a observo continuar.


— Vivíamos em paz até que a ideia de rebelião contra Nosso Criador começou a circular entre os anjos.


Sua voz muda.


Torna-se mais distante.


Como se estivesse revivendo memórias muito antigas.


— Nessa época, os humanos já habitavam a Terra. Uma espécie rude, impulsiva e, quase sempre, descrente do amor de Nosso Pai. Sabíamos que alguns anjos escapavam do Céu em busca de aventuras entre eles. Alguns apenas observavam. Outros se misturavam aos humanos. E alguns...


Ela abaixa os olhos.


— Alguns se excediam.


— Lúcifer? — Pergunto.


— Não, mãe.


Antoine move a cabeça em negativa.


— Lúcifer raramente descia à Terra. Ele desprezava os humanos.


— Então por que os odiava tanto?


— Porque os invejava.


O silêncio toma conta da cozinha.


Até Leo para de comer.


— Ele preferia permanecer entre nós, espalhando dúvidas e alimentando pensamentos contrários ao amor que Deus nos ensinava.


Ela faz uma pausa.


Longa demais.


— Meu pai...


Seu olhar se perde em algum lugar distante.


— Meu pai era um anjo bom. Respeitado. Admirado. Acima de muitos que hoje são considerados grandes nomes do Céu.


Vejo Vincenzo baixar os olhos.


— Curioso, ele decidiu visitar a Terra.


O sorriso de Antoine desaparece.


— E foi lá que tudo começou.


— O que aconteceu?


— Ele se perdeu.


A frase sai quase como um lamento.


— Machucou mulheres dos vilarejos que visitava. Corrompeu-se pouco a pouco.


Ela aperta os dedos uns contra os outros.


— Apesar disso, eu o amava.


Sua voz falha.


— À distância... mas o amava.


— Antoine...


— Ele era encantador, mãe.


Ela sorri com tristeza.


— Antes de cair, costumava falar de Nosso Pai para todos que encontrava. Tinha tudo para se tornar um querubim... talvez até um serafim.


Seus olhos encontram os meus.


— Até conhecer a mulher que roubou seu coração e atormentou sua alma.


— Ah, claro! — Explodo imediatamente. — Então a culpa foi da mulher!


A cozinha inteira silencia.


— Ele faz merda e a culpada é a infeliz da mulher!?


— Mãe...


— Vai. Continua. Quero ouvir essa.


— Não estou culpando ninguém.


Ela suspira.


— Estou contando o que aconteceu.


Cruzo os braços.


— Conta então.


— Lúcifer, consumido pela inveja, aproveitou a fraqueza dele.


A luz da cozinha parece mais fria.


— Incentivou-o a se rebelar contra Aquele que o criou.


— E ele ouviu.


— Sim.


— Idiota.


— Muito.


Apesar da resposta, Antoine sorri.


Um sorriso dolorido.


— Mas não foi o único erro de Lúcifer.


Ela volta a ficar séria.


— Antes disso, ele já havia feito uma humana sofrer.


Meu coração acelera.


— Dessa violência nasceu um menino.


— Um menino?


— Sim.


— Com poderes sobrenaturais.


O mundo parece parar.


— Onde ele está?


— Isso não importa, mãe.


— Claro que importa!


Levanto da cadeira.


— É seu irmão? Sean? É dele que estamos falando?


— Posso continuar ou vai insistir?


— Antoine...


— Não posso revelar mais nada sobre esse assunto.


— Então por que falou nele, diabos!?


— Dess. — Adverte Vincenzo.


Passo as mãos pelo rosto.


Exausta.


Irritada.


Confusa.


— Inferno... — Resmungo. — Continua.


— Meu pai não aceitou se unir aos rebelados, mas continuou errando entre os humanos.


Antoine apoia os cotovelos sobre a mesa.


Seu olhar parece atravessar séculos.


— Entre as humanas, mais especificamente.


Leo sorri discretamente.


Ele já conhece aquela história.


Eu não.


— Por uma delas, ele se apaixonou.


A cozinha inteira silencia.


— Implorou ao arcanjo Miguel que intercedesse por ele junto ao Criador.


Vincenzo fecha os olhos.


Como se cada palavra arrancasse algo dele.


— Miguel o aconselhou a se afastar da humana grávida de seu filho para que pudesse se curar daquela estranha compulsão.


Meu coração aperta.


Eu já sei quem é essa mulher.


Mas continuo ouvindo.


— Meu pai concordou em esperar.


Esperar pela autorização de Miguel.


Esperar pela cura.


Esperar pelo perdão.


Esperar por Deus.


Antoine abaixa a cabeça.


— Enquanto isso, a pobre mulher continuava esperando por ele na aldeia.


Sua voz se torna mais suave.


— Ela o amava.


— E ele a amava.


Um nó se forma em minha garganta.


— Lúcifer os detestava.


A temperatura da cozinha parece cair.


— Ele continuava tentando atrair meu pai para seu exército secreto. Um exército que já crescia nas sombras.


Ela ergue os olhos.


— Mas nada escapa aos olhos de Deus.


Levanto imediatamente a mão.


— Dá pra parar um segundo?


Antoine suspira.


— Mãe...


— Não. Sério.


Aponto para ela.


— Dá pra chamar Deus de Deus ou Criador?


Leo começa a rir.


— Essa história de "meu pai" tá me deixando completamente perdida!


Vincenzo abaixa a cabeça para esconder o sorriso.


— Eu já não sei quem é o pai dessa história!


Aponto para o teto.


— Deus?


Aponto para Vincenzo.


— Esse cidadão?


Aponto para Antoine.


— Ou algum outro que ainda vai aparecer?


Leo gargalha.


Até Vincenzo deixa escapar uma risada.


Antoine revira os olhos.


— Tá bom.


— Obrigada.


— Vou chamar Deus de Deus ou Criador.


— Muito melhor.


— Posso continuar?


— Deve.


Ela respira fundo.


— Revoltado... e consumido pela saudade da mulher que amava, meu pai...


Ela aponta para Vincenzo.


— Seu marido.


— Obrigada pela legenda.


— ...tentou cair.


— Claro que tentou. — Resmungo.


— Soube por outros anjos que ela ainda o esperava na Terra.


O sorriso desaparece do rosto de Antoine.


— Rafael descobriu.


Meu corpo inteiro fica alerta.


— Rafael?


— Sim.


— O arcanjo da Cura.


Cruzo os braços.


Já não gosto dele.


— Temendo que a humana morresse esperando por um anjo incapaz de se controlar, Rafael tomou uma decisão extrema.


Ela faz uma pausa dramática.


— Ele trancou meu pai em uma cela dourada.


— O QUÊ!?


— Até que desistisse de cair por ela.


Dou um tapa na mesa.


— Para tudo!


— De novo, mãe?


— De novo!


Aponto indignada para Antoine.


— O que esse tal de Rafael tem a ver com a nossa história?


— Dess...


— Não me venha com "Dess", Vincenzo!


Leo engasga tentando não rir.


— Esse Rafael já não gostava de mim antes de Cristo!?


— Mãe...


— Porque essa implicância tá ficando pessoal!


Aponto para o vazio.


— O homem prende meu marido numa prisão celestial!


— Ele estava tentando ajudar.


— AJUDAR QUEM!?


— A todos.


— Que fofo. — Resmungo. — Já odiei.


Leo agora gargalha sem qualquer pudor.


Antoine esconde o rosto entre as mãos.


— Mãe...


— Não. Quero respostas.


Volto-me para Vincenzo.


— Por que ele se meteu entre nós?


Ele permanece em silêncio por alguns segundos.


Quando responde, sua voz sai baixa.


Melancólica.


— Uma rusga muito antiga, Dess.


Seu olhar encontra o meu.


— Mas foi ele quem me curou.


Minha raiva vacila.


— Lembra do hospital?


E, contra minha vontade...


Eu lembro.


— Por Antoine, ele te curou!


— O Criador pediu que ele interferisse, mãe. — Explica Antoine. — A mulher corria risco de morte por ter sido fecundada por um anjo.


— E daí!?


A indignação explode antes que eu consiga me controlar.


— Ele não socorreu a mulher!


Bato a mão na bancada.


— Ele impediu que ela fosse feliz com o anjo que amava!


Aponto para o vazio como se Rafael estivesse escondido em algum canto da cozinha.


— Eu odeio esse Rafael!


— Mãe!!!


— Não faz sentido!


— Dess...


— Não!


Volto-me para Vincenzo.


— Que rusga é essa, afinal?


— Bobagem.


— Bobagem!?


Minha voz sobe uma oitava.


— Um arcanjo te prende numa cela dourada, te afasta da mulher que ama, deixa ela grávida cercada de gente ruim e você chama isso de bobagem!?


Leo começa a rir.


Antoine fecha os olhos.


Vincenzo passa a mão pelo rosto.


— Dess...


— Meu ranço por esse Rafael aumentou.


— Mãe! — Protesta Antoine. — Ele não seria um arcanjo se fosse mau!


Cruzo os braços.


— Como Shakespeare diria: há algo de podre no Reino da Dinamarca.


Leo quase engasga com o refrigerante.


— Odeio esse Rafael. Pronto. Falei. Continua.


Bufando, Antoine obedece.


— Libertado por Miguel, o anjo pede perdão ao Criador.


Seu olhar encontra o de Vincenzo.


— E imediatamente desobedece.


— Parece alguém que conheço. — Murmuro.


Vincenzo ignora.


— Ele cai exatamente no momento em que a rebelião de Lúcifer acontece.


— Péssimo timing. — Comenta Leo.


— Confundido com um dos rebelados, ele não consegue retornar.


— Como assim "não consegue"? — Pergunto.


— Os guardiões dos portões não o reconhecem.


— O quê?


— Sem ser reconhecido, desiste de explicar sua versão ao Criador e passa a vagar pela Terra à procura da mulher amada.


Sua voz se torna mais baixa.


— E do filho perdido.


O silêncio pesa.


— Filho?


— Morto.


— Ainda no ventre da mãe.


Meu coração aperta.


Mas algo continua errado.


Muito errado.


— Não faz sentido.


Leo larga o canudinho imediatamente.


— Finalmente alguém falou.


Aponto para ele.


— Obrigada.


— Tá tudo confuso. — Continua Leo.


Ele se inclina sobre a mesa.


— Tipo assim...


Ergue um dedo.


— Eu faço parte da elite de um reino.


Outro dedo.


— Sou preso injustamente.


Mais um.


— Um arcanjo brother me liberta.


Outro.


— No mesmo dia da rebelião do cara que me odeia, eu resolvo me misturar justamente no meio da confusão.


Leo balança a cabeça.


— Aí perco tudo.


— Exatamente! — Concordo.


— Depois tento voltar.


— Sim!


— Os guardiões que me conhecem há milênios não me reconhecem.


— Isso!


— E eu simplesmente desisto?


Ele abre os braços.


— Tá confuso.


Muito confuso.


Antoine abaixa os olhos.


— É tudo o que conheço, Leo.


Imediatamente ele se arrepende.


Inclina-se e beija sua bochecha.


— Foi mal, bebê.


Ela sorri.


— Eu confio em você.


— Eu também confio em você.


Meu olhar desliza até Vincenzo.


Ele observa Leo de um jeito estranho.


Muito estranho.


Como se o garoto tivesse acabado de tocar numa ferida antiga.


— Onde você entra nessa história, filha? — Pergunto.


— Tem certeza de que conhece todos os fatos?


— Ela é um querubim, Dess. — Rosna Vincenzo. — Querubins não mentem.


— Eu não disse que ela mente.


Cruzo os braços novamente.


— Talvez ela não tenha a visão completa.


— Deixa ela falar.


— Vincenzo...


— Deixa ela falar.


A tensão entre nós cresce.


Antoine bate a mão na mesa.


— Se vocês dois não pararem de discutir, eu vou embora.


— NÃO!


Respondemos juntos.


Ela revira os olhos.


— Parecem duas crianças.


Inspirando profundamente, eu me rendo.


— Continua, filha.


Por um instante, ela encara Vincenzo.


Um olhar estranho.


Antigo.


Quase cúmplice.


— Eu sentia algo especial pelo anjo apaixonado.


Sua voz se suaviza.


— Uma curiosidade.


— Uma compaixão.


— Talvez amor.


Olho para Vincenzo.


Ele não desvia.


— Pedi diretamente ao Criador que me permitisse permanecer ao lado daquele anjo que havia caído por descuido.


Meu coração acelera.


— E Ele permitiu.


— Sim.


— Então você desceu.


— Sim.


— E o acompanhei desde então.


O silêncio se instala novamente.


Desta vez, é diferente.


Porque já sei a resposta antes mesmo de perguntar.


Mesmo assim, pergunto.


— Foi quando eu te encontrei naquela praça?


— Um pouco antes, mãe. Já nos encontramos em outras vidas.


— Quando!?


— Não posso falar. — Rindo, ela me ouve protestar.


— NÃO MENCIONE FATOS SOBRE OS QUAIS NÃO PODE FALAR! OK!?


— DESS!


— CALA A BOCA, VINCENZO! — Lanço um olhar ao teto e, resfolegante, ordeno. — CONTINUA!


— Eu precisei criar aquela situação na praça para chamar sua atenção. Acho que deu certo.


— Então você não viveu sob o domínio daquele brutamontes? Nunca passou fome?


— Não, mãe. Eu fazia questão de estar entre eles exatamente para proteger meus amigos. Crianças sem seus pais. Quando te reconheci, meu coração transbordou de júbilo.


— Para tudo... — Choramingo, escondendo o rosto entre as mãos trêmulas. Soluçando, pergunto: — Por quê? Tanta gente boa que poderia ter te acolhido. Você deve saber quem eu fui. Sabe com o que trabalhei. Nada existe de honesto em destruir casamentos alheios ou viciar jovens em pornografia. Você poderia ter me ajudado de longe.


Cuidadosamente, ela afasta minhas mãos do rosto.


— Eu sempre te amei, mãe. Desde que te vi sozinha em sua aldeia, à espera de meu pai, há milênios. Desde que chorou de saudades e orou ao Criador por seu retorno. Você jamais desistiu. Mesmo diante das inúmeras dificuldades, aceitou a vida em seu ventre. Você suportou tudo até o fim. Lutou contra Lúcifer sem medo. Tudo por meu pai.


Sua voz vacila.


— Eu sabia que você abandonaria aquele trabalho triste nesta vida. Era apenas uma questão de tempo. Eu me apaixonei por você, mãe. Queria entender esse amor que te faz tão forte. Eu...


— Não chora, filha.


Num abraço apertado, choramos juntas até que as lágrimas sequem. E, quando já não há lágrimas, começamos a rir de nós mesmas.


— Duas bobas. É isso o que somos, filha. Eu te amo tanto...


— Eu te amo mais.


— Tem espaço para mais um dentro de tanto amor?


O olhar triste de Vincenzo me parte o coração.


Antoine se levanta, o abraça e sussurra algo em seu ouvido.


Não me atrevo a perguntar o quê.


Não mesmo.


Os olhos de Vincenzo ficam ainda mais tristes.


Minha alma continua inquieta.


— Acho que Leo também merece um abraço.


— Concordo.


Ao lado dele, Antoine beija sua bochecha e se aconchega em seu abraço.


— Meu herói. Meu grande amigo. Vou sentir sua falta.


Meu coração despenca.


— Merda...


A voz embarga.


Ergo-me abruptamente da banqueta e fujo da cozinha.


Dentro do banheiro, trancado por dentro, volto a chorar diante de meu reflexo.


— Não deixem que ela parta. Por favor. Deixem minha família comigo. Levem a mim. Deixem que eles fiquem. Por favor...


Sentada no piso frio, recostada à parede, com os dedos enterrados nos cabelos, fixo os olhos inchados de tanto chorar no teto.


O silêncio parece infinito.


Então, ouço sua voz.


Doce.


Triste.


Distante.


Familiar.


Impossível.


"Três dias.


Foi tudo o que pude conseguir, filha.


Três dias juntos.


Carpe Diem.


Aproveitem os dias."


Enrico.


Só podia ser ele.





Três dias.


Três longos e decisivos dias em que nos unimos ainda mais.


Não contei a Vincenzo ou a Antoine o que ouvira de Enrico.


Não.


Guardei sua voz doce e seu aviso comigo.


Sozinha.


Silenciosamente.


Estou tentando viver cada instante como se fosse o último.


Novamente.


Novamente, não falamos sobre Legião.


Não falamos sobre Lúcifer.


Não falamos sobre o medo que se instalou em meu peito desde aquela noite.


Tampouco sobre a estranha desconfiança que cresce dentro de mim.


Decidimos existir.


Apenas existir.


Viajamos até a casa de praia de Vincenzo.


O lugar onde tudo começou.


Onde ele me machucou por ter medo de me amar.


Onde eu me entreguei a ele de corpo, alma e coração.


Onde aprendi que o amor e a dor costumam caminhar de mãos dadas.


— Eu já te amava, Dess. — Confessa ele, observando o mar. — Não consigo me perdoar pelo tempo que perdemos enquanto eu tentava ser algo que nunca fui.


— Shhh... — Calo sua boca com um beijo demorado. — Não fala do passado.


Tocando seu rosto, insisto:


— O presente é tudo o que temos. Só isso.


Ele fecha os olhos.


Eu também.


Porque nós dois sabemos que estou mentindo.


O presente não é tudo o que temos.


É tudo o que nos resta.


— Vamos fingir. — Peço. — Fingir que nos conhecemos no jardim de infância. Que nos apaixonamos no ensino médio. Que nos casamos logo depois da faculdade e que nunca nos separamos.


Seu sorriso surge pequeno.


Triste.


Lindo.




— Eu era o astro do time de futebol?


— Sim! — Exulto, apontando para ele. — Capitão. Arrogante. Convencido. O sonho de todas as garotas.


— E você?


— Eu era a idiota da equipe de líderes de torcida que se lesionou tentando te impressionar com saltos ridículos.


— Não precisava de tudo isso, esposa. — Ri ele. — Eu teria te amado mesmo se fosse a garota tímida, de óculos e rosto cheio de espinhas.


— Duvido.


— É verdade.


— Mentira.


— É verdade.


— Você era o bonitão da escola. O desejado por todas as vacas daquele colégio. Nunca teria olhado para mim se eu não tivesse, literalmente, despencado daquela pirâmide humana em cima de você.


Vincenzo gargalha.


Uma gargalhada rara.


Daquelas que fazem seus olhos se fecharem.


Daquelas que me fazem esquecer.


Por alguns segundos.


Apenas alguns.


— Ops... — Comenta ele. — Tem gente levando nossa brincadeira muito a sério.


Rindo, concordo.


Afasto-me dele.


A areia morna afunda sob meus pés.


O vento bagunça meus cabelos.


Pela primeira vez em dias, sinto algo parecido com felicidade.


Então aponto para uma enorme pedra próxima às ondas e grito:


— O último a chegar naquela pedra é mulher do padre!


Matteo grita, eufórico, ao correr pela areia, dando o melhor de si.


Deixamos que ele vença.


Sempre deixamos.


Voltamos a admirar seu sorriso iluminado pelo sol da manhã enquanto ele ergue os braços em triunfo, convencido de que derrotara os próprios pais.


Mergulhamos no mar.


Ensinamos nosso pequeno campeão a boiar de barriga para cima.


Orgulhoso de si mesmo, ele nos mostra tudo o que aprendera nas aulas de natação.


Cada braçada.


Cada chute.


Cada conquista.


Tento esconder o pânico que, vez ou outra, me assalta sem aviso.


Nada será como antes.


Nada de escolinha de natação.


Nada de aulas de kickboxing.


Nada de corridas pela praia.


Talvez eu jamais volte a pôr os pés na Just Dance.


Talvez eu jamais consiga voltar a ser quem fui.


— Dess. — Repreende-me Vincenzo. — Você pretende morrer?


— Não. — Minto. — Por quê?


Ao embalo das marolas chocando-se contra nossos corpos, ele me encara com severidade.


Aquela severidade que só existe quando está preocupado.


— Para de pensar bobagens.


— Não estou pensando em nada.


— Está sim.


— Não estou.


— Está.


Reviro os olhos.


Ele suspira.


— Antoine voltou. Liam morreu. Estamos juntos. Estamos em paz.


Aperto os lábios.


— Até quando?


Seu olhar escurece.


A pergunta permanece entre nós.


Pesada.


Incômoda.


Sem resposta.


— O que ela cochichou no seu ouvido ontem à noite?


Como sempre, ele desconversa.


Ergue Matteo nos braços.


Nosso filho gargalha.


O mundo inteiro parece caber dentro daquela risada.


Vincenzo o afunda cuidadosamente sob a água.


Ao emergir, cuspindo água e felicidade, Matteo grita, histérico:


— De movo!!!


A gargalhada de Vincenzo ecoa pela praia.


E, por alguns segundos...


Só por alguns segundos...


Consigo fingir que ainda temos todo o tempo do mundo.


Debaixo da barraca, Leo e Antoine brincam de brigar.


Ela o empurra.


Ele finge cair.


Ela gargalha.


Ele se vinga roubando seu chapéu.


Algo me diz que Leo sabe mais do que aparenta.


Muito mais.


Talvez até mais do que Antoine.


Olho ao redor.


A praia está vazia.


Estranhamente vazia.


Não há crianças correndo.


Não há casais caminhando pela areia.


Não há vendedores ambulantes.


Somente nós.


Minha família.


Como se o mundo inteiro tivesse recuado para nos observar à distância.


— Está frio, Dess. Relaxa. — Vincenzo comenta ao meu lado. — A praia costuma ficar cheia só no verão.


— Você não sente?


Matteo acaba de se jogar na areia.


Rola de um lado.


Rola do outro.


Rola novamente.


Como um bife empanado em farinha de rosca.


A gargalhada dele ecoa pela praia.


Vincenzo ameaça correr atrás dele.


Ignorando minha pergunta.


Ignorando meu medo.


Ignorando tudo.


Ele dispara atrás de Matteo.


Nosso filho foge, histérico.


Os dois parecem ter a mesma idade.


Os dois parecem pertencer ao mesmo mundo.


Um mundo ao qual já não pertenço.


Por que não consigo me desligar?


Por que não consigo aproveitar mais um dia com minha família?


Um vento morno toca minhas costas.


Eu me arrepio.


Olho para trás.


Nada.


Nenhuma pessoa.


Nenhum animal.


Nenhuma sombra.


Mas eu sinto.


A presença continua ali.


Observando.


Esperando.


— Deixem-nos em paz! — Grito contra o vento. — Ninguém vai separar a minha família!


O silêncio dura apenas alguns segundos.


Então a voz retorna.


Sem rosto.


Sem corpo.


Sem misericórdia.


— O que ela sussurrou ao ouvido do anjo bom?


O arrepio atravessa meu corpo inteiro.


Mais forte.


Mais frio.


Mais real.


Corro.


Corro daquela voz.


Corro daquela pergunta.


Corro da resposta.


Corro até a barraca.


Não para me esconder do que me persegue.


Mas para me esconder da verdade.





Mais tarde, entre jovens, participamos de um luau próximo à nossa casa.


A música toca ao longe.


As ondas quebram preguiçosamente na areia.


Antoine e Leo dançam ao redor da fogueira.


Felizes.


Leves.


Livres.


Um aperto doloroso invade meu peito.


Vincenzo percebe.


Sempre percebe.


Abraçando-me por trás, ele murmura em meu ouvido:


— São jovens. Deixe que se divirtam.


Continuo observando as chamas.


Hipnotizada.


Incomodada.


Assustada.


— Não gosto de fogueiras.


— Por quê?


— Não sei.


Talvez eu soubesse.


Talvez meu corpo se lembrasse de algo que minha mente ainda não consegue alcançar.


Talvez o fogo sempre tenha sido um presságio.


Talvez eu simplesmente esteja ficando louca.


— Porque você já está bêbada e tem medo de cair dentro de uma? — Provoca ele.


Rio.


Finalmente rio.


— Não estou bêbada.


— Não?


— Ainda.


Então roubo um selinho rápido de seus lábios.


E, por alguns segundos, finjo não ouvir o crepitar da madeira queimando.


Porque algo dentro de mim insiste em dizer que aquela fogueira não está aquecendo ninguém.


Está contando o tempo.




Matteo, desinibido, dança, ao seu modo, a canção que um dos jovens toca ao violão próximo à fogueira.


Os acordes simples me transportam para um tempo distante.


Um tempo em que nossos maiores problemas pareciam pequenos.


Um tempo em que ainda acreditávamos que o futuro seria gentil conosco.


Um tempo em que tudo o que existia era a esperança de ver nossos filhos crescerem felizes.


Vincenzo me arranca daquele devaneio ao segurar minha mão e me obrigar a dançar com ele.


Sob a luz prateada da lua, enlaço seu pescoço com meus braços.


Por alguns segundos, me sinto jovem novamente.


Jovem o suficiente para acreditar que o amor pode vencer qualquer coisa.


Jovem o suficiente para acreditar que o tempo pode ser enganado.


Jovem o suficiente para acreditar que ninguém será arrancado de mim.


Recosto meu ouvido contra seu peito.


Fecho os olhos.


Escuto.


O coração de Vincenzo bate tão acelerado quanto o meu.


Forte.


Descompassado.


Humano.


Contenho a vontade de chorar.


Sorrindo, pergunto:


— Isso tudo é timidez, marido?


Um sorriso lindo ilumina seu rosto.


Mas seus olhos...


Seus olhos continuam tristes.


Tristes demais.


Como se estivessem vendo algo que eu não consigo enxergar.


— Isso é amor, Dess.


Inspiro seu perfume cítrico.


O cheiro que aprendi a associar à segurança.


Ao lar.


À paz.


Então ele se inclina até meu ouvido.


E sussurra:


— Em algum lugar, além do arco-íris, eu vou te encontrar.


Meu corpo inteiro estremece.


Não gosto daquela frase.


Não gosto do jeito como ela soa.


Não gosto da forma como ele a disse.


Como uma promessa.


Ou uma despedida.


Antes que eu consiga responder, seus braços me envolvem com mais força.


Permaneço ali.


Protegida.


Escondida.


Amada.


Em silêncio.


Até que Matteo surge entre nós.


Abraça nossas pernas.


Olha para cima.


E nos faz rir com sua pergunta de sempre:


— Mamãe dodói?




Da praia, fomos ao parque de diversões.


Tomado por uma súbita necessidade de aproveitar cada segundo da noite, Vincenzo colocou Matteo sobre um dos cavalos do carrossel enquanto Antoine me arrastava de brinquedo em brinquedo.


Sempre de mãos dadas, como irmãs.


Corríamos de um lado para o outro porque não queríamos perder nem um minuto daquela noite simplesmente esplêndida, como Antoine insistia em chamá-la.


— Tô com fome. — confesso, arfando, ao saltar do trenzinho da montanha-russa.


Matteo aponta para meus cabelos e explode em gargalhadas.


Devo estar um espantalho.


Sem conseguir desembaraçar os fios, transformados numa versão capilar de fones de ouvido esquecidos no bolso, improviso um coque torto enquanto Leo e Vincenzo aguardam na fila da barraquinha de cachorro-quente.


— Quero um enorme! — anuncia Antoine aos gritos.


Elétrica.


Viva.


Linda.


Ela ergue Matteo nos braços definidos pelos músculos recém-adquiridos.


Então o encara com uma seriedade que me faz gelar.


— Não te percas no Caminho, maninho. Sempre que sentir medo ou solidão, pensa em mim. Eu vou estar contigo.


Arranco Matteo de seus braços.


— O que foi isso?


— O quê?


— Antoine...


— Mãe!


Ela ri.


Mas seus olhos não.


— Ele tá crescendo. Eu passei dias longe dele. Tô com saudades. Só isso.


— Antoine...


Ela simplesmente passa por mim.


Como se tivesse escapado de uma pergunta perigosa.


Vai até Leo.


Rouba-lhe um beijo.


Leo, completamente desprevenido, deixa o cachorro-quente cair no chão.


— Não liga, bobinho. Come do meu. É enorme. Dá pros dois.


Vincenzo suspira.


Aquele suspiro.


Aquele maldito suspiro.


Mordo meu sanduíche enquanto ele me observa.


Seus olhos continuam tristes.


Tristes demais.


— Você pensa demais, Dess.


— Madrugada. — corrijo ao verificar as horas no celular. — Matteo já devia estar dormindo.


— E você acha que aquela criança correndo atrás das bolhas de sabão do palhaço pensa em dormir?


Olho para Matteo.


Ele corre pela praça iluminada.


Rindo.


Tentando capturar bolhas que desaparecem antes de tocar suas mãos.


Meu coração se aquece.


— Não mesmo.


— Ele cresceu.


— Muito.


— Não tanto quanto nossa filha.


Sento-me ao lado de Vincenzo.


O catchup escapa do pão.


Minha roupa sofre.


Minha dignidade também.


— Ela pulou dos sete para os quinze anos e, por incrível que pareça, eu já me acostumei.


Procuro Antoine.


— Onde eles estão?


— Lá em cima.


Vincenzo aponta para a roda-gigante.


No alto.


Leo e Antoine compartilham um dos vagões.


Pequenos contra o céu escuro.


— Eles se amam, Dess.


— Eu sei.


Mais um motivo para eu me preocupar.


Jovens.


Apaixonados.


Perigosamente felizes.


Percebo que ele continua me olhando.


— Para com isso.


— Com o quê?


— Esse olhar.


Engulo em seco.


— Você disse que deveríamos agir como uma família normal com um futuro normal. É o que estou tentando fazer.


O sorriso dele vacila.


Só por um instante.


— Nós somos uma família normal.


Uma pausa.


Longa demais.


— O mundo ao nosso redor é que está ruindo.


O silêncio se instala.


Então ele franze a testa.


— O palhaço sumiu.


Olho para a praça.


As bolhas desapareceram.


O palhaço desapareceu.


E Matteo...


Meu sangue congela.


— Matteo?


Nenhuma resposta.


Levanto tão rápido que deixo o resto do cachorro-quente cair na terra.


— Matteo!?


Meu coração dispara.


— Ele estava aqui!


Corro sem direção.


Empurrando pessoas.


Procurando entre as luzes.


Entre os brinquedos.


Entre os rostos.


— Matteo!


— Dess! Calma! — grita Vincenzo atrás de mim. — Eu vou encontrar ele!


Viro-me.


Desesperada.


Apavorada.


Furiosa.


— NUNCA!


Vincenzo e eu nos separamos em meio ao parque.


Ele segue na direção oposta à minha.


Desesperada, empurro quem cruza meu caminho enquanto grito o nome de nosso filho.


De onde estou, consigo ver o mar escuro que cerca parte do parque.


Um aperto violento me atravessa o peito.


— Pra lá não...


Não sei por que digo aquilo.


Mas sei.


Sei.


Corro em direção ao píer.


O vento bate contra meu rosto.


Lá do alto da roda-gigante, a voz de Antoine corta a madrugada.


— Corre, mãe! Ele vai cair!


Meu coração para.


Então dispara.


Triplico a velocidade.


E o vejo.


Matteo.


Ajoelhado na extremidade do píer.


Pequeno demais.


Perto demais da água.


Curvando-se para frente.


Esticando a mãozinha em direção ao mar.


— Filho!


Estaco.


Horrorizada.


Obrigo minha voz a se manter calma.


— Olha pra mamãe.


Mais um passo.


— Matteo... vem com a mamãe.


Ele se vira.


Sorri.


Como se nada estivesse errado.


Como se não estivesse a centímetros da morte.


— Monstro, mamãe.


Meu sangue congela.


— O quê?


— Monstro mau quer fazer dodói em neném.


Então eu vejo.


O mar se move.


Não pelas ondas.


Por algo dentro dele.


Braços.


Braços cobertos por lodo.


Longos.


Magros.


Antinaturais.


Emergindo da escuridão.


Avançando na direção do meu filho.


— MATTEO!


Corro.


Me jogo contra o piso de madeira.


Escorrego.


Arrasto o corpo.


Estendo a mão.


Consigo tocar a ponta de seu dedo.


Só a ponta.


Só por um segundo.


Porque algo o puxa.


Os braços lamacentos se fecham ao redor dele.


O grito que sai de mim não parece humano.


Estou pronta para me lançar ao mar.


Pronta para morrer.


Pronta para afundar com ele.


Qualquer coisa.


Qualquer coisa menos perdê-lo.


Mas mãos fortes agarram meus braços.


Seguram-me.


Impedem meu salto.


Viro o rosto.


Puxando o ar pela boca.


Sem entender.


Sem conseguir respirar.


— Titio salvou neném.


A voz alegre de Matteo me atinge antes que eu compreenda a cena.


Ele está seguro.


Está sorrindo.


Está vivo.


No colo de Aiden.


Sem agradecer.


Sem pensar.


Sem sequer raciocinar.


Arranco Matteo de seus braços e o aperto contra meu peito.


Tão forte que ele reclama.


Só então consigo perguntar:


— O que foi aquilo?


Aiden encara o mar.


Como se reconhecesse algo antigo.


Algo familiar.


Algo que ainda está lá.


Esperando.


— Seres do mar.


Sua voz sai baixa.


Sombria.


— Um mar profundo e sombrio, baby.


Desabo.


Sentada na madeira do píer.


Abraçada ao meu filho.


Chorando sem qualquer dignidade.


Chorando como uma mãe que acabou de perder o filho e recuperá-lo no mesmo segundo.


Vincenzo é o primeiro a chegar.


Ofegante.


Desorientado.


Ele se agacha imediatamente diante de Matteo.


Procura ferimentos.


Arranhões.


Sinais de afogamento.


Qualquer coisa.


— Matteo!


— Titio salvou neném, papai.


A simplicidade da frase destrói alguma coisa dentro dele.


Lentamente, Vincenzo se ergue.


Olha para Aiden.


Os dois permanecem em silêncio por alguns segundos.


Então Vincenzo estende a mão.


Os olhos brilhando.


A voz embargada.


— Não sei como te pagar por isso.


Uma pausa.


— Obrigado por salvar nosso filho.


Aiden aperta sua mão.


Visivelmente emocionado.


E responde algo que me faz estremecer ainda mais.


Porque não soa como gratidão.


Não soa como gentileza.


Soa como uma promessa antiga.


Um juramento.


Uma dívida.


— É o meu dever, Vincenzo.


Seu olhar desliza para mim.


Depois para Matteo.


— Defender sua família é o meu dever.




Antoine e Leo chegam afobados.


Lançando-me um de seus sorrisos tímidos, Aiden recua um passo.


— Aiden!


Antes que ele desapareça, Antoine o alcança. Segurando seu rosto entre as mãos, ela deposita um beijo suave em sua bochecha e repete uma frase dos tempos em que ainda era a minha garotinha de nove anos e se recusava a entrar em seu quarto e dormir sozinha.


— A Fera, no final, conquista a Bela.


Por um instante, vejo os olhos de Aiden vacilarem.


Como se aquela frase não tivesse sido dita para ele.


Como se tivesse sido dita para alguém muito distante.


Ou muito perto.


Contendo a emoção, ele apenas assente e desaparece.


De súbito, Vincenzo toma Matteo nos braços e se afasta.


Deixa-nos para trás.


Alcançando-o, indignada, pergunto:


— Por que isso!? Me espera!


Ele não se vira imediatamente.


Apenas aperta Matteo contra o peito.


Como se quisesse gravar cada segundo.


Cada respiração.


Cada batida daquele pequeno coração.


Quando finalmente me encara, seus olhos estão marejados.


— Me deixa, Dess. Por favor... me deixa ficar com meu filho até o último instante.


Meu coração para.


Porque algo dentro de mim compreende o significado daquelas palavras antes que minha mente consiga alcançá-lo.


Sem forças para responder, observo meu marido caminhar pela estrada de pedras, levando consigo nosso filho...


...e o que restou do meu coração.


— O que eu fiz?


Dando-me sua mão, Antoine suspira.


— Eu errei.


Engolindo em seco, ela aperta meus dedos.


— Eu vou consertar tudo, mãe.


Olho para ela.


Para Leo.


Para o sol que começa a nascer sobre o horizonte.


E, pela primeira vez, sinto medo da promessa escondida em sua voz.


— Vem. Vamos pra casa.


Entre Leo e Antoine, caminho lentamente pela estrada iluminada pelo amanhecer.


O mundo desperta ao nosso redor.


Mas eu continuo presa às palavras que se recusam a deixar minha mente.


À frase que ainda ecoa dentro de mim como uma despedida.


Como uma promessa.


Como uma sentença.


"A Fera, no final, conquista a Bela."




— Não faz sentido ter ciúmes de um morto, Vincenzo!


— Não tenho ciúmes de ninguém.


Seguindo-o até a sala, tento alcançar sua mão.


— Aquele lance de "Bela" e "Fera" é antigo, amor. Antoine disse essa bobagem quando tinha uns nove anos. Aiden tinha ido lá em casa, levado pizza... Ela não queria dormir. Estava esperando por você e...


— Não precisa me explicar nada, Dess.


Sua voz sai baixa.


Cansada.


Derrotada.


— Só me deixa.


— Não posso.


— Larga meu braço.


— Para! Fala comigo!


— Me deixa, Dess. Eu quero ficar sozinho.


— Não vou te deixar!


A resposta explode antes que eu consiga pensar.


— Nosso tempo é precioso demais para você ficar sozinho! Se quiser se isolar, se isole entre nós!


Pela primeira vez naquela noite, ele ri.


Um riso breve.


Triste.


Doloroso.


— Isso não existe, idiota.


Seus olhos encontram os meus.


— Como eu vou me isolar de vocês... junto de vocês?


— NÃO VAI! PRONTO! DECIDIDO!


Abro os braços diante da porta da frente como uma sentinela ridícula.


Uma esposa desesperada.


Uma mulher tentando impedir a maré de avançar apenas porque ama demais.


— Sai.


— Não.


— Eu não quero te machucar.


— Machucar? De novo?


— Não me refiro a isso.


Ele fecha os olhos.


Passa a mão pelo rosto.


— Não quero te machucar te empurrando, Dess. É só isso.


Uma pausa.


— Sai da minha frente.


Eu deveria.


Mas não consigo.


Então sorrio.


Ou tento.


Inclino o corpo contra o batente da porta.


A blusa decotada.


O olhar insinuante.


Qualquer coisa.


Qualquer arma.


Qualquer desculpa para fazê-lo ficar.


— Dá para olhar o mar daqui, marido.


Minha voz falha.


— Fica com a gente.


Ele inspira profundamente.


Como alguém tentando sobreviver a si mesmo.


— Me deixa sair.


— Por favor.


— Agora.


O terceiro pedido destrói o resto da minha resistência.


Dou um passo para trás.


Apenas um.


Vincenzo passa por mim.


Mas para antes de alcançar a areia.


— Mortais têm asas... ou isso é privilégio seu?


Seu corpo inteiro enrijece.


Devagar.


Devagar demais.


Ele se vira.


Os olhos arregalados.


— De onde tirou isso?


— Que papo idiota é esse de asas?


— Você mostrou suas asas enquanto brigava com Lúcifer no baile da Antoine.


Dou um passo em sua direção.


— Você me disse que, depois de ser pai, se tornaria mortal.


Outro passo.


— Anjos que caem e se tornam mortais ainda mantêm suas asas?


Agora estou perto o suficiente para tocar seu rosto.


Mas não toco.


Tenho medo da resposta.


Tenho medo do silêncio.


Tenho medo dele.


Tenho medo de mim.


— Não me esconda mais nada, Vincenzo.


Minha voz se quebra.


— Eu posso aguentar tudo.


Tudo.


— Exceto mais um segredo que me faça perder a confiança em você.


Por um instante, vejo algo atravessar seus olhos.


Culpa.


Dor.


Medo.


Adeus.


Mas desaparece rápido demais.


— Não estou te escondendo nada.


Mentira.


A mais triste de todas.


Porque ambos sabemos disso.


— Me deixa em paz.




O mar está revolto.


As nuvens pesadas.


O vento frio.


Tudo parece errado.


Tudo parece prestes a acabar.


Sem olhar para trás, Vincenzo segue em direção às ondas.


E, pela primeira vez naquela noite, tenho a sensação de que não é do mar que ele está se aproximando.


É de alguma coisa que já o está chamando pelo nome.


— Vai chover, mãe. Vem.


Sem desviar os olhos do mar, murmuro:


— Teu pai tá estranho, filha.


Engulo em seco.


— Me diz que ele não tá me escondendo nada.


Antoine segura minha mão e me puxa para dentro da casa, obrigando-me a perder Vincenzo de vista.


— Eu preciso falar com ele, filha.


— Depois, mãe.


Um beijo leve em minha testa.


Doce.


Triste.


Quase uma despedida.


— Depois.


Ela sorri.


— Leo e eu estamos sovando a massa da pizza. Me ajuda?


O primeiro trovão explode no céu.


Matteo corre até mim.


Assustado.


— Que medo!


Abraço-o contra meu peito.


Ele se acalma.


Eu não.


Continuo observando o horizonte.


O mar e o céu parecem uma única massa cinzenta.


Uma fronteira apagada.


Um mundo prestes a desaparecer.


— Mãe!


— Ele não tá normal.


— Quem? Meu maninho?


— Seu pai, Antoine!


Entrego Matteo aos seus braços e recuo.


— Se vocês estiverem me escondendo alguma coisa...


Minha voz falha.


— Eu não vou suportar.


— Ouviram?


Corro.


A chuva começa a cair antes mesmo que eu alcance a areia.


Debaixo das primeiras gotas, procuro Vincenzo.


Chamo seu nome.


Uma vez.


Duas.


Dez.


Nenhuma resposta.


O vento devolve apenas o eco da minha própria voz.


Um relâmpago rasga o céu atrás da montanha.


A chuva desaba.


Violenta.


Fria.


Implacável.


Em segundos, estou encharcada.


E sozinha.


Vincenzo simplesmente desapareceu.


Como se nunca tivesse estado ali.


Como se o mar o tivesse engolido.


Meu coração dispara.


Não.


Não.


Não agora.


Não hoje.


Não no último dia.


— Talvez eu possa te explicar, meu bem.


— AGORA NÃO!


Grito sem conseguir enxergá-lo.


— Eu preciso encontrar meu marido!


Tenho lágrimas misturadas à chuva.


— Temos pouco tempo juntos!


— Eu sei.


A voz soa divertida.


Cruelmente divertida.


— O terceiro dia está prestes a acabar.


Uma pausa.


— E ele deseja ficar sozinho.


Outra pausa.


— Isso não te parece estranho?


— Não consigo te ver, seu merda!


Giro sobre mim mesma.


— APARECE!


— Abra os olhos, Adessa.


A voz surge atrás de mim.


— Estou aqui.


Meu estômago afunda.


Lúcifer.


Não em forma humana.


Não dessa vez.


A forma demoníaca.


Os olhos amarelos.


Os chifres.


As unhas.


A presença sufocante.


O horror.


— Ou deveria te chamar de Ravena?


Ele sorri.


— Anahita?


Outro passo.


— Morgana?


Mais um.


— Eileen?


Meu corpo inteiro estremece.


— Todas as versões estúpidas de uma mulher que passou séculos amando o mesmo homem...


Sua voz torna-se um sussurro venenoso.


— ...sem nunca enxergar a verdade.


— Do que tá falando?


— A verdade está diante dos seus olhos.


Ele abre os braços.


— E você continua cega.


— Imbecil.


As ondas explodem contra os rochedos.


A água cobre meus pés.


O frio atravessa meus ossos.


— Fica longe de mim.


— Não quero te machucar.


Ele sorri.


— Ainda.


— O que você quer?


— Que você veja.


Apenas isso.


— Veja tudo.


Os olhos amarelos brilham.


— E depois sofra pelas suas escolhas.


— Por que um anjo tão bondoso não se daria bem com o Arcanjo da Cura?


Silêncio.


— Por que não o deixaram voltar ao Paraíso?


— Ele tentou...


Minha própria resposta soa fraca.


— Mas...


— Até o menino Leo é mais sagaz que você.


— PARA!


— Por que um anjo cheio de privilégios largaria tudo para viver entre macacos?


— Porque ele me ama!


— Ama?


Lúcifer ri.


— Que adorável.


— Ele me procurou! Antoine contou tudo!


— A verdade dela.


Ele aponta para mim.


— Não a verdade dele.


— Só existe uma verdade! Não tente me confundir!


— Eu já confundi você, meu bem.


Aquele sorriso.


Aquele maldito sorriso.


— Faz muito tempo.


Meu coração dispara.


— O que você sabe?


— Tudo.


— Então fala!


— Não.


Sua resposta sai imediata.


— Seria fácil demais.


Ele se aproxima.


Devagar.


Como um predador.


— Pergunte ao seu Vincenzo o que ele fez para tentar ocupar o lugar de Rafael.


Meu sangue gela.


— Pergunte qual foi o castigo.


— Pergunte quais foram as consequências.


— Pergunte por que ele realmente caiu.


— MENTIRA!


— Talvez.


Ele encolhe os ombros.


— Talvez não.


Ajoelho na areia.


Exausta.


Tremendo.


— Me conta.


— Por favor.


Pela primeira vez, sua expressão se suaviza.


Não por bondade.


Por diversão.


— Não.


Ele balança a cabeça.


— Quero que seja ele quem conte.


Seus olhos brilham.


— Quero ver o rosto de vocês dois quando a verdade finalmente aparecer.


Ele olha para trás.


Para o mar.


Para a tempestade.


Para alguma coisa que eu não consigo ver.


— Agora ele está vindo.


Minha respiração trava.


— Tome seus remédios.


— Proteja meu neto.


— E...


Ele sorri.


Aquele sorriso que precede tragédias.


— Se despeça de Antoine.


— Maldito. Não fale o nome dela...


Sem forças para avançar sobre ele, esmagada pelo peso de suas palavras e pelas suspeitas que começam a criar raízes dentro de mim, rastejo para trás.


Para longe dele.


Para longe da verdade.


Lúcifer me observa.


Divertido.


Pacientemente divertido.


Antes que eu consiga me afastar, ele agarra meus cabelos e me obriga a erguer o rosto.


A chuva escorre por sua pele humana.


Seu sorriso permanece monstruoso.


— Não é incrível? — murmura. — Como tudo muda o tempo todo?


Livre de sua mão, bato a testa contra uma pedra próxima ao rochedo.


A dor explode.


Meu corpo cede.


Desorientada, caio de costas na areia.


Abro a boca.


A chuva invade meus lábios.


Meus olhos.


Minha garganta.


Fecho os olhos.


Pela primeira vez em muito tempo, peço ajuda.


Não a Deus.


Não aos anjos.


Não a Antoine.


A qualquer um.


A arritmia piora.


Meu coração parece um animal preso dentro do peito.


Tento me levantar.


Cambaleio.


Então o vejo.


Ao longe.


Debaixo da tempestade.


— Vincenzo?


— O que faz aqui, Dess!?


Ele corre até mim.


Irritado.


Assustado.


— Eu disse que queria ficar sozinho, cacete!


Dou um passo em sua direção.


Apenas um.


— Precisamos ficar... juntos.


Um relâmpago corta o céu.


Por um segundo, vejo seus olhos brilharem.


— Você é tão burra...


Sua voz falha.


— ...e tão bela.


Fecho os olhos.


A chuva bate em meu rosto.


— Não minta...




— Mamãe 'codô'!


A voz de Matteo me arranca da escuridão.


— Filho...


Tremendo de frio, abraço-o imediatamente.


Como se precisasse confirmar que ele ainda está ali.


Que continua vivo.


Que continua meu.


Tusso.


Meu corpo inteiro dói.


Vincenzo me cobre com uma manta quadriculada.


O calor não chega.


Pisco.


Tudo continua embaçado.


— O que houve?


— Você desmaiou.


Ele evita meus olhos.


— Bateu a cabeça em algum lugar.


Se resfriou.


Só isso.


Só isso.


Mentira.


Tem alguma coisa errada.


Eu sinto.


— Toma seus remédios.


Examino os comprimidos em minha mão.


— Pra que serve esse vermelho?


Levanto os olhos.


— Eu só tomo quatro.


Ele suspira.


Cansado.


Exausto.


Derrotado.


— É pra gripe, Dess.


— Gripe não se cura com remédio.


Engulo em seco.


— O corpo combate o vírus sozinho.


— Concordo.


Sua resposta vem rápida demais.


— Mas nada impede você de ajudar seu sistema imunológico com um antitérmico.


Uma pausa.


— Algum problema nisso?


Fixo meus olhos nele.


Por tempo demais.


Algo está errado.


Muito errado.


E não é a gripe.


Não é a pancada.


Não é o frio.


É ele.


— Dess?


Não respondo.


Continuo olhando.


Tentando reconhecer o homem diante de mim.


Tentando encontrar alguma coisa.


Uma rachadura.


Um segredo.


Uma mentira.


— Tem alguma coisa errada.


A frase escapa antes que eu consiga impedi-la.


— Está sentindo dor?


Ele se aproxima.


— A testa ainda dói?


— Não.


Engulo os comprimidos.


Bebo a água.


Desvio o olhar.


— Deixa pra lá.


Meu peito aperta.


— Me deixem quieta.


— Com quem você conversou na praia, Dess?


Meu sangue gela.


— Com o mar.


Rosno a resposta.


— Me deixa, Vincenzo.


Levanto os olhos.


— Agora sou eu que não quero falar com você.


Pode ser?


A tristeza em seu rosto me desmonta.


— Não.


Sua voz quase não sai.


— Não pode.


Ele abaixa a cabeça.


Respira fundo.


— Eu quero...


Outra pausa.


— Eu preciso te contar a verdade.


Meu coração para.


Literalmente para.


Por um segundo.


Um único segundo.


— Não.


Recuo no sofá.


— Não, Vincenzo.


Não agora.


Não hoje.


— Me deixa.


Minha voz quebra.


— Eu tô fraca.


Levo a mão ao curativo acima do olho.


Xingo.


Baixo.


Exausta.


Quando volto a encará-lo, sua expressão me assusta.


Não é culpa.


Não é vergonha.


Não é medo.


É dor.


Dor pura.


Daquelas que não podem mais ser escondidas.


— Mamãe 'dodói'!


Matteo se coloca entre nós.


Pequeno.


Furioso.


Protetor.


— Fica longe!


O silêncio que se segue é devastador.


Vincenzo observa nosso filho.


Depois me observa.


Então sorri.


Um sorriso triste demais para existir.


Sentado ao lado da lareira, ele balança a cabeça e sussurra:


— Para...


— Eu preciso, esposa.


Sua voz falha.


— Antes que seja tarde demais.


O silêncio entre nós dura apenas alguns segundos.


Então Antoine surge na sala carregando um tabuleiro coberto por um pano de prato.


Como se estivesse salvando todos nós.


Como se pudesse.


— Nunca é tarde demais pra comer pizza!!!


— CONCORDO!


Leo ergue o braço, teatral.


Desajeitado.


Apaixonado.


Vivo.


Enquanto arrumam a mesa de jantar, uma canção começa a tocar na playlist de seu celular.


Antoine imediatamente o puxa pela mão.


— Vem.


— Aqui?


— Aqui.


— Na frente de todo mundo?


— Principalmente.


Leo ri.


Antoine o abraça pela cintura.


Os dois começam a se mover lentamente ao som da música.



Ela joga a cabeça para trás quando ele a gira.


Ele quase tropeça.


Ela gargalha.


Ele também.


Por um instante, parecem apenas dois adolescentes apaixonados.


Nada mais.


Nada menos.


Observo os dois.


Sorrio.


E preciso morder o interior da boca para conter o choro.


Limpo as lágrimas discretamente.


Ainda sentada no sofá.


Ainda observando aquela cena simples demais para ser esquecida.


Quando volto meus olhos para Vincenzo, percebo que ele continua me encarando.


Como se estivesse tentando memorizar meu rosto.


Cada detalhe.


Cada expressão.


Cada respiração.


Como se estivesse se despedindo sem dizer adeus.


— Não me machuca.


As palavras saem baixas.


Frágeis.


Infantis.


Vincenzo fecha os olhos por um segundo.


Apenas um segundo.


Quando volta a abri-los, existe uma tristeza tão profunda neles que quase não consigo respirar.


— Nunca.


Sua voz é pouco mais que um sussurro.


— Nunca mais.


O silêncio retorna.


Pesado.


Imenso.


Então ele pergunta:


— Mais tarde?


Meu coração aperta.


Assinto.


Sem conseguir dizer nada.


Matteo surge entre nós.


Como sempre.


Determinando suas próprias regras para o universo.


Ele sobe em meu colo.


Me beija a bochecha.


Depois lança um olhar desconfiado ao pai.


— Papai mau?


A pergunta arranca um sorriso cansado de mim.


Passo os dedos pelos cabelos macios de nosso filho.


— Não, filho.


Olho para Vincenzo.


Para aquele sorriso tímido.


Para aqueles olhos tristes.


Para aquele homem impossível.


E respondo:


— Papai bobo.


Matteo ri.


Antoine continua dançando.


Leo continua apaixonado.


A pizza espalha seu cheiro pela casa.


A chuva bate nas janelas.


E, pela primeira vez naquela noite, sinto medo de ser feliz.


Porque tudo está perfeito.


Perfeito demais.


Como se o mundo estivesse prendendo a respiração.


Esperando alguma coisa.


Esperando o fim.


Sentiria falta daquele sorriso tímido.


Daquela forma torta de me olhar.


Daquele homem que nunca aprendeu a me amar sem medo.


Sentiria falta dele para sempre.





— Ele era tudo o que eu queria ser.


A chuva tamborila contra os vidros da janela.


Vincenzo mantém os olhos presos ao fogo da lareira.


— Era amado pelo Criador. Possuía o dom da Cura. Era admirado por todos.


Um sorriso amargo surge em seus lábios.


— E, para piorar, era absurdamente bonito.


— Mas?


— Um pouco soberbo.


— Só um pouco?


Ele solta uma risada curta.


A primeira em muito tempo.


— Talvez mais do que um pouco.


Cruzo os braços.


— E isso te incomodava?


— Muito.


Seu olhar se perde nas chamas.


— Eu não conseguia entender como alguém podia se sentir superior aos outros e ainda assim continuar recebendo a aprovação de Deus.


Uma pausa.


— Miguel percebia minha revolta.


— Miguel sempre percebia tudo.


— Sim.


O sorriso desaparece.


— Há algo nele que ainda me fascina.


Levanta os olhos para mim.


— Miguel conhece os defeitos dos outros.


— Todos eles.


— E ainda assim escolhe permanecer ao lado deles.


— Foi ele quem te tirou da jaula?


— Foi.


— Por quê?


— Porque acreditou em mim.


A resposta vem rápida demais.


Dolorida demais.


— E por que te colocaram naquela jaula?


Vincenzo desvia o olhar.


— Porque eu toquei em um arcanjo.


— Tocou?


— Dess...


— Vincenzo.


— Eu dei um soco no queixo de Rafael.


O silêncio dura apenas um segundo.


Então eu explodo numa gargalhada.


— Você fez o quê?


— Eu perdi a paciência.


— Você socou um arcanjo?


— Sim.


— No rosto?


— Sim.


— Meu Deus...


— Foi exatamente o que Miguel disse.


— E Enrico?


Volto a ficar séria.


— Ele também era um arcanjo.


— E vocês viviam se abraçando.


O rosto de Vincenzo muda imediatamente.


A tristeza retorna.


Profunda.


Pesada.


— Meu pai...


Ele baixa a cabeça.


— Meu grande amigo.


Sua voz falha.


— Enrico pertencia aos missionários.


— Os que escolhiam viver entre os humanos.


Assinto.


— Ele gostava de vocês.


— Ele amava vocês.


Vincenzo sorri.


Um sorriso pequeno.


Saudoso.


— Não se importava em ser tocado.


— Pelo contrário.


— Muitas vezes era através de um abraço que ele salvava alguém.


Engulo em seco.


— Seu pai era iluminado.


— Eu sinto falta dele.


— Eu também.


— E Miguel te libertou porque confiava em você?


— Sim.


— E você estragou tudo de novo.


Ele fecha os olhos.


— Sim.


— Como?


O silêncio dura mais do que deveria.


Quando responde, sua voz sai quase inaudível.


— Eu tentei ser Rafael.


Meu coração aperta.


— Como assim?


— Eu descia à Terra.


— Curava pessoas.


— Ajudava aldeões.


Um sorriso sem humor surge em seus lábios.


— Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.


— E o que você fazia de verdade?


— Dess...


— A verdade.


Somente a verdade.


Ele me encara.


Sem fugir.


Sem mentir.


— Eu me aproveitava do que recebia.


— Das pessoas.


— Da devoção delas.


Sua mandíbula trava.


— E das mulheres também.


O silêncio cai sobre a sala.


Pesado.


Incômodo.


Necessário.


— Minha compulsão nasceu naquela época.


Sua voz sai carregada de vergonha.


— Eu odiava Rafael.


— Odiava o que ele representava.


— Odiava tudo o que ele possuía sem sequer desejar possuir.


— E comecei a desejar aquilo para mim.


Levanto os olhos.


— Você o invejava.


— Sim.


A resposta sai imediata.


Sem defesa.


Sem desculpa.


— Eu o invejava.


— E foi aí que Lúcifer apareceu.


Vincenzo assente.


Lentamente.


— Sim.


— O primeiro criado.


— O mais belo.


— O mais orgulhoso.


— O mais solitário.


— E o mais perigoso.


— Você se juntou a ele?


O horror em minha voz faz Vincenzo erguer a cabeça.


— Não.


A resposta vem firme.


— Não da forma que está pensando.


— Mas cheguei perto demais.


Seus olhos encontram os meus.


— Perto o suficiente para cair junto com ele.


O silêncio é interrompido pelo som de pratos.


Antoine surge da cozinha carregando uma pilha deles.


Claramente ouvindo tudo.


Claramente fingindo que não.


— Tá tudo bem por aí?


— Tudo.


Respondo antes de Vincenzo.


— Conversa de adultos.


— Ah, não...


Ela revira os olhos.


— Essa desculpa ainda existe?


— Continua funcionando.


— Discordo.


— Ninguém perguntou.


— Justo.


Ela se vira.


Mas antes de desaparecer, lança um olhar rápido para o pai.


Um olhar que dura apenas um segundo.


Mas que diz coisas demais.


Coisas que eu não consigo entender.


Coisas que Vincenzo entende perfeitamente.


E que o fazem empalidecer.


— Gostaram da pizza?


— Amamos.


Respondo.


Depois aponto para a cozinha.


— Agora vaza.


— Que família amorosa.


— Vai logo.


— Tô indo.


Murmurando ofensas em voz baixa, Antoine desaparece.


Mas não antes de lançar mais um olhar para Vincenzo.


E dessa vez...


Ele não consegue sustentá-lo.


— Minha mãe é um poço de delicadeza... — resmunga Antoine, desaparecendo na direção da cozinha ao lado de Leo.


Acompanho os dois com os olhos até que sumam de vista.


Só então volto minha atenção para Vincenzo.


— Por que não te reconheceram nos portões do Paraíso?


O sorriso desaparece de seu rosto.


— Porque eu já não era o mesmo.


Seu olhar encontra o meu.


— A inveja e a ira me transformaram em algo irreconhecível.


Uma breve pausa.


— Eu havia perdido minha luz.


O silêncio se instala entre nós.


— E por isso te expulsaram?


— Não.


Ele balança a cabeça.


— Porque eu me expulsei primeiro.


— O que aconteceu depois?


— Eu vaguei pela Terra.


— Séculos.


— Séculos demais.


Sua voz se torna distante.


— Sem propósito.


— Sem casa.


— Sem Deus.


— Sem mim.


— Até?


Pela primeira vez naquela noite, um sorriso verdadeiro ilumina seu rosto.


Pequeno.


Quase tímido.


— Até encontrar algo dentro de mim que me obrigou a mudar.


Cruzo os braços.


— Ah, tá.


— O quê?


— Nada.


— Fala.


— Isso tá parecendo discurso de filme ruim.


Ele ri.


De verdade.


— Boba.


Aproxima-se.


Segura minha mão.


— Foi você.


Meu coração tropeça.


— Dess...


Sua voz falha.


— Foi você quem me transformou em alguém melhor.


Desvio os olhos para o mar.


As ondas continuam se chocando contra os rochedos.


Implacáveis.


— Acho que essa versão já passou.


— O quê?


— Você.


Volto a encará-lo.


— Você não parece mais o mesmo homem.


— Está distante.


— Triste.


— Como se já estivesse indo embora.


A expressão dele se desfaz.


Completamente.


— Eu não posso ser o mesmo.


Sussurra.


— Não depois de vocês.


Sem pedir permissão, ele se aproxima.


Esconde o rosto em meu ombro.


Como alguém exausto.


Como alguém que finalmente parou de fingir.


— Antes de você, eu não tinha medo.


Fecho os olhos.


— Medo de quê?


— De perder.


Sua voz quebra.


— De perder você.


— Antoine.


— Matteo.


— Tudo.


O ar abandona meus pulmões.


Devagar.


Dolorosamente.


— Eu nunca tive nada, Dess.


— Nada que pudesse ser arrancado de mim.


— Agora tenho.


Seus braços me apertam com força.


— E isso me apavora.


Seguro seu rosto entre as mãos.


Obrigo-o a olhar para mim.


— Ei.


Ele evita meus olhos.


— Olha pra mim.


Finalmente obedece.


E eu quase não o reconheço.


Há lágrimas ali.


Medo.


Um medo antigo.


Profundo.


— Enquanto estivermos juntos...


Minha voz falha.


Mas continuo.


— Nada vai acontecer conosco.


— Nosso Deus não vai permitir.


O canto de sua boca se curva.


— Nosso?


— Sim.


— Nosso.


— Ele é misericordioso, Vincenzo.


— Já te perdoou.


— Tenho certeza disso.


Ele fecha os olhos.


Como quem recebe uma facada.


Não um consolo.


— Ele já me deu muitas chances, Dess. E eu desperdicei todas.


— Não.


Minha resposta sai imediata.


Feroz.


— Não desperdiçou. Olha ao redor.


Aponto para a cozinha.


— Antoine.


Aponto para o quarto.


— Matteo.


Volto a tocar seu peito.


— Eu.


— Você acha que construiu tudo isso sozinho?


Uma lágrima escapa.


Dessa vez ele não tenta escondê-la.


— Não.


— Eu estava lá.


Sua voz é apenas um sussurro.


— E sou imensamente grato por isso.


Então ele sorri.


Pequeno.


Dolorido.


— Finalmente você aceitou Deus.


Inspiro profundamente.


E respondo entre os dentes:


— Desde que Ele não resolva tirar você de mim.


O beijo que me dá não parece um beijo.


Parece uma despedida.


E isso me assusta.


Quando ele se afasta, segura meu rosto.


Com cuidado.


Como se eu fosse feita de vidro.


— Haja o que houver...


Sua voz quase desaparece.


— Nunca deixe de acreditar n'Ele.


Meu estômago afunda.


— Para.


— Eu errei.


— Existem consequências.


— As regras existem por um motivo.


— Para!


Empurro seu peito.


— Eu não quero ouvir isso!


— Dess...


— Não!


Levanto-me abruptamente.


— Chega desse papo!


Ele também se levanta.


Mas não avança.


Não discute.


Apenas espera.


Como alguém condenado aguardando a sentença.


— Então responde uma coisa.


Apenas uma.


Minha voz treme.


— O que Antoine sussurrou no seu ouvido?


O silêncio dura segundos demais.


— E ela mentiu sobre o seu passado?


Um sorriso cansado.


Triste.


— São duas perguntas, esposa.


Enlaçando minha cintura, ele encosta a testa na minha.


— Não.


— Antoine não mentiu.


— Ela não conseguiria.


— Vai contra tudo o que ela é.


Meu coração dispara.


— Então ela sabia?


— Não.


Sua voz suaviza.


— Ela conhecia apenas a parte boa da história.


— Nunca viu o que havia de pior em mim.


Aperto sua camisa entre os dedos.


— Então o que ela disse?


Os olhos dele se enchem de lágrimas.


E, pela primeira vez...


parece prestes a responder.


Mas a porta da cozinha se escancara.


— EU CONSEGUI!


Antoine invade a sala como um furacão.


Saltitante.


Risonha.


Brilhando.


Exatamente como a menina que acreditava em fadas, borboletas e finais felizes.


— Olhem o que eu acabei de receber!


Antoine invade a sala como uma explosão de luz.


Estende a mão direita diante de nós.


Orgulhosa.


Radiante.


Esperando aplausos.


Demoro alguns segundos para compreender.


O brilho dourado reflete as chamas da lareira.


Meu coração tropeça.


— Mãe?


Antoine balança a mão.


— Mãe!


Abro a boca.


Fecho.


Abro novamente.


Nenhum som sai.


— Fala alguma coisa!


— Eu!?


— Vocês dois...? — Vincenzo arregala os olhos. — Isso é um anel de noivado?


— Credo, tio! — Leo protesta imediatamente. — Calma!


— É uma aliança de compromisso!


— Compromisso?


— Dess...


— Compromisso com o quê?


Viro-me para Antoine.


— Compromisso com quem?


— Por quê?


— Dess...


— "Dess" é o inferno!


Arranco a mão de Antoine para examinar a aliança.


O nome de Leo está gravado na parte interna.


Ao lado dele...


o símbolo do infinito.


Meu estômago despenca.


— Não entendi.


Leo e Antoine começam a rir.


O que só piora tudo.


— Puta que pariu, Dess! — resmunga Vincenzo. — Eles estão namorando.


— NÃO PODE!


— Mãe!


Dou alguns passos para trás.


Atônita.


— Até outro dia você dizia que ele era seu melhor amigo!


Aponto para Antoine.


— Seu único amigo!


— Que não queria beijar a boca dele!


— Que isso era nojento!


— Eu acreditei!


Antoine tenta responder.


Ignoro.


— Depois vocês se beijaram na minha frente!


— Eu sobrevivi!


— Eu aceitei!


— E agora isso!?


Aponto para a aliança.


— NAMORO?


— ALIANÇA?


— O quê vem depois?


Minha voz falha.


— Casamento?


— Daqui a duas semanas você aparece grávida?


— Aos vinte anos?


— Com três filhos?


— Mãe...


Ela me abraça.


E isso só piora tudo.


— Não fica assim.


— COMO NÃO!?


— Nós nem terminamos o ritual ainda.


O mundo para.


— Vai ter mais?


Antoine sorri.


Leo também.


E eu sinto vontade de me jogar da janela.


Antes que eu consiga fugir, Leo se ajoelha diante de mim.


Silêncio.


Até Vincenzo para de respirar.


Leo abaixa a cabeça.


Respeitosamente.


Como um cavaleiro antigo.


— Tia...


Sua voz vacila.


— Posso namorar sua filha?


As lágrimas já escorrem pelo meu rosto.


— E...


Ele engole em seco.


— Bem mais tarde.


— Muito mais tarde.


— Quando chegar a hora...


Olha para Antoine.


E sorri.


— Posso ser o homem mais feliz da Terra me casando com ela?


Pronto.


Acabou.


Começo a chorar.


Sem dignidade alguma.


Sem controle algum.


Faço-o se levantar.


Abraço-o com força.


Como se pudesse protegê-lo.


Como se pudesse protegê-los.


Como se pudesse impedir o tempo de continuar andando.


— Sim.


Minha voz se quebra.


— Sim.


— Sim.


Ele não sabe.


Antoine não sabe.


Nenhum deles sabe.


Nenhum deles percebe que estou me despedindo.


— Tia...


Leo sussurra junto ao meu ouvido.


— Vai dar tudo certo.


Fecho os olhos.


Porque é exatamente isso que mais dói.




Outro homem em nossa família a prometer o que não poderia cumprir.




Enquanto tento conter o choro, Antoine e Leo dançam juntos no centro da sala. Felizes. Radiantes. Jovens demais para perceberem que algumas noites carregam o peso de uma vida inteira.


Vincenzo me abraça por trás e me sussurra:


— Ela puxou você, Dess. Dança muito bem.


Soluçando, comento:


— E ele deve ter tido aulas com você, tadinho. Duro feito um graveto.


Um beijo em minha bochecha e Vincenzo me pede com ternura:


— Aproveite cada segundo, Dess. Como se fosse o último.


Deixo-me embalar por ele no ritmo da canção e da emoção que toma conta da pequena e aconchegante sala. Quase me esqueço de tudo o que nos ameaça até ouvir suas últimas palavras.


— Aproveite o dia. Carpe Diem.


— Carpe Diem!?


Grito ao empurrar Vincenzo e correr pelos cômodos da casa à procura de Matteo.


Estilhaço o clima romântico ao berrar, tomada por um desespero súbito:


— MATTEO SUMIU!


Ainda ouço o eco daquele flashback enquanto pulo os degraus da varanda, fincando meus pés na areia molhada.


Correndo com todas as minhas forças, sou ultrapassada por Vincenzo.


Ele vê o mesmo que eu.


Ele teme o mesmo que eu.


Enfurecido, ordena assim que o encara:


— Em nome do Criador, solte meu filho!


— Seja feita a tua vontade, Cassiel. — zomba Lúcifer.


Ainda ouço um "mamãe!" amedrontado antes de assistir ao maldito arremessar Matteo contra o mar bravio.


Sem hesitar, mergulho no oceano sombrio.


Nado sob as ondas violentas, ignorando o frio e a escuridão.


Então eu o vejo.


Acima de mim.


Envolto por uma luz diáfana.


Boiando de barriga para cima.


Subo à superfície, encho os pulmões de ar e o agarro em meus braços.


Matteo chora.


Treme.


E balbucia, entre soluços:


— Monstro mau...


Movendo as pernas com toda a força que ainda possuo, sussurro em seu ouvido:


— Mamãe está aqui. Calma, filho. Mamãe está aqui.


Com um dos braços livres, continuo nadando até cruzar a zona de arrebentação.


Leo me espera na água rasa.


Aflito.


Desesperado.


Tomando Matteo de meus braços, ele se afasta de costas.


Não percebe.


Não enxerga o perigo.


De costas, Leo não enxerga o que vejo.


Alcançando a areia, ergo-me a tempo de assistir à grande lança de fogo cruzar a distância que separa Lúcifer de Vincenzo.


E de Antoine.


Logo atrás do pai.


Instintivamente, corro em direção a eles.


Um breve olhar de pavor e Vincenzo ordena:


— Fique onde está, Dess!


Um arquejo de horror me atravessa.


Estaco.


O mundo parece parar.


Um longo gemido de dor escapa de meus lábios enquanto meus joelhos cedem sob o peso do impossível.


Caída na areia molhada, ergo os olhos para as nuvens cinzentas e revoltas acima de nossas cabeças.


E pergunto:


— Por que, Senhor?


Um raio, mais intenso do que o normal, atinge Lúcifer.


Antes de desaparecer, ele gargalha.


Triunfante.















[






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CAPÍTULO 36 - AO MEU REDOR

CAPÍTULO 35 - INJUSTO

CAPÍTULO 43 - SOMBRIO