CAPÍTULO 51 - NUNCA!
Reza a lenda que aquele que tocar na lança forjada pelo fogo do Inferno será consumido por ele.
Seu coração, antes puro, jamais voltará a ser o mesmo.
Sua alma será tomada pelo desejo de vingança.
E suas memórias desaparecerão pouco a pouco.
Milhares de homens, ao longo dos séculos, foram atingidos pela lança maligna.
Milhares esqueceram suas famílias.
Esqueceram seus nomes.
Esqueceram quem um dia haviam sido.
Por fim, mergulharam na Escuridão.
Jamais soubemos o destino deles.
Jamais houve quem os procurasse.
Jamais houve quem os amasse com força e coragem suficientes para enfrentar o Anjo Caído que, ao final, contaminava suas almas para sempre.
Os que tocaram na lança salvaram suas famílias de um destino ainda pior.
Livraram aqueles que amavam da escravidão a um ser diabólico que ousou desafiar Aquele que o criou.
Ouvira dizer que anjos e arcanjos choraram por sua morte.
Cercaram seu corpo e, em um dialeto conhecido apenas por eles, rezaram juntos ao tomarem conhecimento da tragédia.
Alguns se revoltaram contra Lúcifer.
Outros exigiram Justiça.
O Céu abriu-se sobre suas cabeças.
As nuvens densas se dissiparam, cedendo lugar à Luz do Criador.
Dos céus descera o arcanjo que combate o Mal.
O mais benevolente de todos.
Miguel.
O Arcanjo fora o responsável pelo raio colossal que atingira Lúcifer.
Mas, mesmo ele, chegara tarde demais.
Tarde demais para deter a lança de fogo.
Tarde demais para salvar aquele que amava.
Entristecido, Miguel assistira ao humano chorar e se culpar.
Ainda mais triste, percebeu a revolta nascer no coração daquele que deveria ter morrido no lugar do querubim.
A lança deveria ter atravessado o corpo do homem fracassado.
Mas, em um movimento súbito, o heroico querubim o protegera com o próprio corpo.
Ouvira dizer que o homem atormentado afastara todos do querubim caído sobre a areia.
E, urrando de dor, ordenara:
— Não toque na lança!
— Foi por mim que ela morreu!
— Que eu sofra por isso!
Ouvira dizer que o pobre homem quase enlouquecera.
Durante três longos dias, afastou-se da própria família.
Ouvira dizer que sua esposa não suportara tamanho sofrimento.
Vira o corpo da filha se desfazer em fagulhas douradas.
Começara pelos pés.
Antes que as chamas alcançassem seus braços, a menina a encarara com doçura e lhe entregara a aliança de compromisso.
— Vai te dar sorte, mãe. Te amo pra sempre.
Então desaparecera.
E levara consigo o coração da mãe.
Em choque, a pobre mulher dormiu por três longas noites.
Três noites povoadas por pesadelos intermináveis.
Sonhou que o Mal ainda não havia terminado.
Sonhou que a tragédia ainda não havia mostrado sua face por completo.
Ao despertar, pensou em se matar.
Sem a filha amada e sem o apoio do homem revoltado, o que lhe restava na vida?
Hesitou diante da lâmina afiada prestes a cortar seus pulsos.
Mergulhada no imenso vazio dentro de si, ouviu o choro da criança desnorteada.
O instinto materno falou mais alto.
Sentindo-se oca por dentro, lembrou-se de que ainda havia o pequenino a quem deveria guiar pelo bom caminho.
Havia também o jovem que sofria em silêncio pela morte de sua amada.
Um amor impossível.
Mas, ainda assim, um amor.
Ouvira dizer que o pai retornara ao lar tão despedaçado quanto o próprio coração.
Trancafiado em um pequeno quarto da casa, o pobre homem chorou, urrou, quebrou móveis e socou paredes.
Assustado, o pequenino permaneceu aos pés da cama da mãe até balbuciar:
— Papai dodói.
Havia tanta vida nos olhos daquela criança que a mulher decidiu não ter mais tempo para "ouvir dizer".
A hora de reagir ao luto havia chegado.
— Você nunca mais vai me tocar, né?
— Não. Já não sou o mesmo.
— É sim. — ironizo. — Continua o mesmo covarde de sempre. Já perdi a conta das vezes em que me deixou sozinha com as crianças.
— Dess...
— Não fala comigo.
— Ela partiu.
— Não fala comigo!
— Se você tocasse na lança...
— NÃO FALA COMIGO! SUMA DAS NOSSAS VIDAS!
Matteo chora à mesa da cozinha, a testa apoiada sobre os braços cruzados. Chora de soluçar.
Seca por dentro, observo o receio de Vincenzo em se aproximar do próprio filho.
Do que ele tem medo?
— Estou contaminado pelo mal que havia na lança, Dess. — rosna ele. — Você jamais vai entender isso.
— Então me explica!
— Não posso.
— Porque nem você entende!
— Porque eu não vou arriscar vocês!
— Nós já fomos arriscados! — Minha voz falha. — Nossa filha morreu!
O silêncio que se segue é pior do que qualquer grito.
Matteo continua chorando.
Vincenzo continua imóvel.
E eu continuo esperando que alguém acorde daquele pesadelo e me devolva Antoine.
Mas ninguém acorda.
Ninguém vem.
Ninguém devolve.
— Não mesmo!
Com Matteo em meus braços, recuo até a sala ao ouvir vozes do lado de fora.
— O que é isso?
— Tia... — diz Leo, abatido, parado na varanda. — Vem...
Sua voz embarga.
Seu tronco se curva para a frente.
Uma das mãos se apoia na pilastra de madeira enquanto a outra aponta para a praia.
— Leo...? — sussurro.
Chorando, ele apenas insiste:
— Vem.
Minhas pernas bambeiam antes mesmo de enxergar.
Vincenzo surge ao meu lado.
Respira com dificuldade.
Seus olhos, mais claros do que o normal, permanecem fixos no horizonte.
Por um instante, ele parece esquecer de respirar.
Então, quase sem voz, sussurra:
— É por Antoine...
Meu coração falha.
Uma.
Duas.
Três vezes.
— Me ajuda. — imploro.
Matteo escorrega de meus braços.
Uma dor brutal atravessa meu peito.
Caio de joelhos.
Curvo-me para a frente.
E, pela primeira vez desde a praia...
choro tudo o que ainda não havia chorado.
Sem forças nem vontade de me levantar, agarro-me à pilastra de madeira e observo os jovens erguerem os braços.
Na escuridão da noite, dezenas de lanternas de celulares se acendem em homenagem à minha filha.
O rosto angelical de Antoine, estampado em suas camisetas, revela o respeito, a admiração e o carinho que sentiam por ela.
São tantos.
Tantos diante de nossa casa.
Tantos chorando por alguém que eu acreditava conhecer por completo.
— Ela deixou sua marca em cada um desses jovens, tia. — explica Leo ao se ajoelhar à minha frente.
Matteo me abraça por trás e recosta o rostinho em minhas costas.
Entre soluços, pergunto:
— Como assim? Ela mal saía de casa. E, quando saía, era comigo.
Leo abre um sorriso triste.
Da praia, alguém aumenta o volume da música.
A canção que ecoa de um dos carros, estacionado diante da casa com as portas abertas, me destrói por dentro.
A dor é tão intensa que não consigo respirar direito.
Não consigo pensar.
Não consigo falar.
— Neném dodói... — choraminga Matteo, aflito, agarrando-se ao meu pescoço.
Com os olhos embaçados pelas lágrimas, puxo meu filho para os braços.
Devastada, sento-me no degrau da varanda.
Fraca.
Vazia.
Como uma casa depois do incêndio.
Seco o rosto com a barra da camisa e volto a encarar as pequenas luzes espalhadas pela praia.
Tantas estrelas.
E nenhuma delas era a minha.
Leo me abraça.
E, chorando, revela ao me encarar:
— Enquanto você trabalhava, ela treinava. E, depois dos treinos, sempre reservava um tempo para conhecer pessoas e ouvir suas histórias.
Aperto Matteo contra o peito.
Leo continua:
— Enquanto estudava online, ela participava de grupos de apoio à prevenção do suicídio.
— Como?
Sua expressão se desfaz.
— Ela fez isso por mim, tia.
A música continua ecoando da praia.
In the arms of the angel...
Fecho os olhos.
Não.
Não agora.
Não essa música.
— Ela disse que se dedicaria aos jovens com essa tendência porque já havia perdido outros amigos. Disse que faria o possível e o impossível para que ninguém morresse sozinho.
Ele engole em seco.
— E ela fez.
Com o queixo erguido, aponta para a multidão diante de nossa casa.
Flores.
Velas.
Cartazes.
Fotografias.
Jovens abraçados.
Jovens chorando.
Jovens vivos.
Ao redor de uma fotografia de Antoine próxima ao jardim.
— A maioria dessas pessoas está viva graças a ela.
Minha respiração falha.
Leo sorri através das lágrimas.
— Inclusive eu.
— Eu não sabia...
Leo me abraça com força.
Então me surpreende ao sussurrar junto ao meu ouvido:
— Ela sabia, tia.
Meu coração para.
— Ela sabia que partiria logo.
As lágrimas voltam.
Mais fortes.
Mais cruéis.
— E me pediu para não deixar que você fizesse uma besteira. Ela me pediu para cuidar de você.
Um longo gemido escapa de minha garganta.
Curvo-me para a frente.
Abraço os joelhos flexionados.
Não sei o que fazer sem ela.
Não sei para onde ir.
Não sei quem sou sem ela.
Era ela quem me guiava.
Foi por ela que mudei.
Seria por ela que eu enfrentaria todos os obstáculos.
Era ela quem me unia a Vincenzo.
E agora...
é por ela que o odeio.
Por que a levaram de mim?
Engasgando-me com o próprio choro, admito em voz baixa:
— Não vou conseguir.
Leo se ajoelha novamente.
— Vai.
— Não sem ela.
— Você precisa, tia.
Seus lábios tremem.
Seus olhos se enchem de lágrimas.
E, pela primeira vez, percebo que ele também está se despedaçando.
— Por ela, eu acordava feliz todas as manhãs.
A voz falha.
— Porque sabia que iria reencontrá-la.
Fecho os olhos.
Não.
Por favor.
Não.
— Nossa amizade me salvou.
Ele sorri através das lágrimas.
— Ela me mudou.
— Aprendi a respeitar o Criador que ela tanto amava.
— Aprendi a acreditar que ainda existia alguma coisa boa em mim.
— Por ela, eu desisti de morrer.
O mundo desaparece ao meu redor.
Só existe a voz dele.
Só existe a ausência dela.
— Por ela, eu decidi viver.
— Lutar.
— Fazer planos.
— Sonhar.
— Mesmo sabendo que...
A frase morre em sua garganta.
Escondo o rosto entre os braços.
Não quero ouvir.
Não consigo ouvir.
Uma mão pousa suavemente sobre minhas costas.
— Não desista.
Sua voz é apenas um sussurro agora.
— De onde ela estiver... ela não vai suportar ver você desistir também.
Quando ergo a cabeça...
Leo já está de pé.
Mistura-se aos jovens reunidos diante da casa.
Às flores.
Às velas.
Às lanternas.
Àquela multidão de vidas que Antoine salvou.
E desaparece entre elas.
— Leo?
Mas ele não olha para trás.
— Levanta, Dess. Nosso filho precisa de você.
— Não consigo.
Minha voz falha.
— Não vou conseguir.
Fecho os olhos.
— Dói tanto...
— Vem.
— Não me toca.
Cambaleio até a sala.
Ao longe, escuto Matteo me chamar.
Pálido, Vincenzo o mantém nos braços e tenta acalmá-lo.
— Vai amaldiçoar nosso filho. Larga ele.
— Com ele é diferente.
— Por quê?
— Você é humana, Dess. Não suportaria a dor.
— E o que o meu filho é?
Os olhos dele se erguem.
— Nosso.
— Meu.
Dou um passo para trás.
— Meu filho.
Outro.
— Meus filhos.
E então tudo explode.
— Minha filha morreu, maldito!
A sala gira.
Recosto-me à parede.
E a vejo.
Sentada à mesa.
Rindo.
Falando de boca cheia enquanto devora duas fatias de pizza.
Eu a repreendo.
Ela revira os olhos.
Depois sorri.
Seu riso ecoa pelo cômodo.
Tão real.
Tão vivo.
Tão impossível.
Inspiro profundamente.
Ainda consigo sentir seu perfume de lavanda.
Por quê?
Por que não a abracei naquele instante?
Por que desperdicei tanto tempo com coisas inúteis?
Por que não fiquei ao lado dela?
Por que não disse que a amava mais uma vez?
Por que não corri?
Por que não morri em seu lugar?
O ar não entra.
O ar não sai.
Corro.
Corro até o quarto dela.
Abro a porta.
Tudo continua exatamente onde ela deixou.
A cama.
Os livros.
As fotografias.
Os desenhos.
O ursinho.
O primeiro ursinho que lhe dei quando ela ainda era minha menininha.
Caio sobre a cama.
Abraço-o contra o peito.
Encolho-me em posição fetal.
E finalmente permito que a dor me destrua.
Meu grito atravessa a casa.
Atravessa meu corpo.
Atravessa tudo.
Matteo chora.
Sentado no chão.
Confuso.
Assustado.
Sozinho.
Vincenzo permanece de pé diante da escrivaninha.
Em silêncio.
Os dedos tocam o porta-retratos.
A fotografia de Antoine sorri para ele.
E ele chora sem emitir som algum.
Num impulso desesperado, abro os braços.
Matteo corre até mim.
Enterra o rosto em meu peito.
E então me destrói completamente ao perguntar:
— Cadê Nininha?
O mundo para.
Minha respiração desaparece.
Meu coração esquece de bater.
Muda, apenas balanço a cabeça.
Beijo sua testa.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Mamãe?
— Mamãe dodói, filho. Vem com papai.
— Não toca nele!
— Dess. Ele está assustado.
De pé, eu o encaro.
Permito que todo o ódio que sinto por ele seja cuspido em seu rosto.
— NÃO TOCA NELE!
Dou um passo à frente.
— POR QUE VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI?
— DESS! SE CONTROLA!
— ELA MORREU NO SEU LUGAR!
Minha voz falha.
— ERA VOCÊ QUEM DEVERIA TER MORRIDO, DESGRAÇADO!
— E VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SEI DISSO!?
Ele também grita agora.
— ACHA QUE EU VOU CONSEGUIR VIVER COM ESSA CULPA!?
— Foda-se.
A palavra sai fria.
Morta.
— Morra.
Outro passo.
— Morra longe de mim.
Mais um.
— Longe do meu filho.
— Dess...
Encolhida no canto do quarto, pergunto:
— O que ela sussurrou ao seu ouvido quando te abraçou?
O olhar dele se perde.
Muito longe.
— "Não se perca novamente. Não terá uma nova chance. Meu tempo acabou."
O silêncio pesa.
— Foi isso.
Fecho os olhos.
E então respondo:
— E você se perdeu novamente, Vincenzo.
Minha voz quebra.
— E ainda a tirou de mim.
— DESS! EU NÃO SABIA O QUE ELA IA FAZER!
Ele avança.
— EU NÃO VI A LANÇA!
O tapa ecoa pelo quarto.
Seco.
Violento.
Assustado, ele leva a mão ao rosto.
Eu olho para minha própria palma.
Chamas.
Pequenas.
Vivas.
Famintas.
Um sopro.
Elas desaparecem.
Mas o medo permanece.
— Não sou tão humana quanto pensa...
Ergo os olhos para ele.
— ...seu anjo de merda.
Tomada por uma fúria incontrolável, corro até a varanda.
Pulo os degraus.
Atravesso a areia.
E expulso todos eles.
Os jovens.
As flores.
As velas.
Os celulares erguidos.
As lágrimas.
E aquela música maldita.
— FORA DAQUI!
Minha voz rasga a noite.
— TODOS VOCÊS!
Eles recuam.
Assustados.
— SUMAM DA MINHA VIDA!
As lágrimas queimam meu rosto.
— ELA MORREU!
O vento aumenta.
— MORREU, PORRA!
Ergo os braços.
A areia gira ao meu redor.
Um redemoinho violento se forma.
As velas se apagam.
As flores são espalhadas.
— ELA MORREU!
Os jovens começam a correr.
— ELA SUMIU!
A fotografia de Antoine cai ao chão.
Eu a agarro.
Rasgo-a ao meio.
Depois outra vez.
E outra.
— ENTENDERAM!?
O silêncio que sobra é pior do que os gritos.
Todos fogem.
Todos.
Inclusive eu.
Porque já não reconheço a mulher que continua ali.
Gargalho.
Uma gargalhada histérica.
Vazia.
Doentia.
Com os punhos cerrados, atinjo o capô de um dos carros.
Uma vez.
Outra.
E outra.
O motorista me encara.
Pálido.
Apavorado.
Então engata a ré e desaparece.
Todos se foram.
Todos.
Menos eu.
Menos a dor.
Aos poucos, a lucidez retorna.
Olho para os pedaços da fotografia espalhados sobre a areia.
Meu coração para.
Caio de joelhos.
Com mãos trêmulas, recolho cada fragmento.
Cada pedaço de seu sorriso.
Cada pedaço de seus olhos.
Cada pedaço da minha menina.
Guardo tudo dentro do sutiã.
Junto ao peito.
O lugar onde ela sempre pertenceu.
Então olho para o céu.
As estrelas observam.
Silenciosas.
Indiferentes.
E algo dentro de mim se rompe.
Para sempre.
Meu grito atravessa o oceano.
Atravessa a noite.
Atravessa o próprio Céu.
— DEUS A TOMOU DE MIM!
O vento para.
— MALDITO SEJA!
O silêncio responde.
E, naquele instante...
a dor em meu peito explode.
Ainda vejo Matteo.
Seus olhos enormes.
Assustados.
Cheios de lágrimas.
Ainda ouço sua voz.
Ainda sinto seu medo.
Então minhas pernas cedem.
A areia me acolhe.
Fria.
Escura.
Distante.
E eu simplesmente...
paro de lutar.
Chega de chorar.
Parte de mim já não existe.
A outra exige cuidados.
Eu daria tudo para não ter de me levantar da cama.
Tudo para não precisar continuar respirando.
Tudo para não precisar cuidar dele.
Mas eu o amo.
E é justamente por isso que dói.
Porque, toda vez que olho para seu rostinho fofo, lembro-me do homem que destruiu minha vida em definitivo.
Vincenzo já deveria ter partido.
Sumido.
Desaparecido.
Ter sido engolido pelo mar.
Abduzido por extraterrestres.
Qualquer coisa.
Mas continua aqui.
Nesta casa que, dia após dia, se torna mais claustrofóbica.
Com extremo cuidado, dobro as roupas de Antoine.
Uma por uma.
Como se elas fossem feitas de vidro.
Acomodo tudo dentro da mala com estampas das princesas da Disney.
Apesar da altura.
Apesar da inteligência.
Apesar da maturidade que fingia ter.
Ela ainda era uma criança.
Vivia como uma criança.
Pensava como uma criança.
Inocente.
Pura.
Altruísta.
A mesma garotinha que me ofereceu drops em promoção.
"Um é dez. Dois são vinte."
Fecho os olhos.
Meu anjo se foi.
Não vou conseguir.
Não sem ela.
Levo seu pijama preferido ao rosto.
Tenho um igual.
O mesmo tecido.
O mesmo cheiro de amaciante.
O mesmo perfume suave de lavanda.
Por um instante, sorrio.
Um sorriso pequeno.
Triste.
Quase inexistente.
Então Matteo toca minhas costas.
— Mamãe.
Não respondo.
— Mamãe.
Outra vez.
— Mamãe.
Mais uma.
Prestes a explodir de raiva por ter sido arrancada daquele único momento em que ainda podia fingir que Antoine existia, abro os olhos.
E vejo uma margarida amassada em sua mãozinha.
Uma única flor.
Pequena.
Torta.
Perfeita.
Ele a estende para mim.
— Pá você.
Engulo em seco.
— Mamãe dodói vai ficá boa.
Tomando a flor quase sem pétalas de sua mãozinha suada, eu a seguro como se fosse um tesouro.
Então o abraço.
Com força.
Muita força.
Beijo sua cabeça.
Aspiro o cheiro de seus cabelos.
Escuto sua gargalhada inocente.
Ele não faz ideia da dor que existe dentro de mim.
Não imagina o quanto estou me apoiando em seu amor.
Se não fosse por Matteo...
eu já estaria morta.
— E desperdiçar todo o trabalho que Antoine teve durante sua passagem pela Terra?
A voz de Vincenzo ecoa atrás de mim.
— Ela lutava contra o suicídio, Dess.
Fecho os olhos.
Respiro.
Conto até três.
Não funciona.
Ergo-me do chão.
Lentamente.
Os punhos cerrados.
— O que ainda faz aqui?
Minha voz sai rouca.
— Por que não foi embora?
— Porque não consigo.
Ele parece exausto.
Velho.
Derrotado.
— Tenho medo do que pode acontecer com vocês.
Dou uma gargalhada amarga.
— O pior já aconteceu.
Aponto para o quarto vazio de Antoine.
— E foi culpa sua.
Ele fecha os olhos.
Como se tivesse levado um golpe.
— Vá para o inferno.
Minha voz falha.
— Vá se juntar ao maldito que matou minha filha.
Os olhos dele escurecem.
— Se eu tiver que me juntar a alguém...
A mandíbula se contrai.
— Será para destruí-lo.
O ódio em sua voz me assusta.
— Enquanto minha hora não chegar, vou proteger vocês.
Um passo.
— Mesmo contra a sua vontade.
— Assim como protegeu Antoine?
O silêncio dura apenas um segundo.
Mas é suficiente.
Sua mão agarra meu braço.
Forte.
Instintivamente.
A marca de seus dedos surge em minha pele.
Vermelha.
Dolorida.
Ele me solta imediatamente.
Como se tivesse tocado fogo.
O arrependimento atravessa seu rosto.
Mas já é tarde.
Meu coração dói por ele.
Mesmo agora.
Mesmo depois de tudo.
Talvez por isso eu o odeie ainda mais.
— Fala.
Minha voz treme.
— Qual é o plano?
Dou um passo à frente.
— Entregar nosso filho ao seu amigo?
Repulsa.
É a única coisa visível em seus olhos.
Repulsa.
— Lúcifer jamais será meu amigo.
A resposta vem como um rosnado.
— Quem costumava conversar amigavelmente com ele era você, Dess.
Eu estaco.
— Você deixou brechas para que ele entrasse em nossas vidas.
Outro golpe.
— Você pediu ajuda a ele.
Outro.
— Você o invocou.
Outro.
— Você descende dele.
A última frase me atravessa como uma faca.
— Não eu.
O silêncio pesa entre nós.
Então ele conclui:
— Você sempre o tratou como um ser inofensivo.
Abro a boca para refutá-lo.
Não consigo.
Avançando em minha direção, ele explode.
— CALA A BOCA E ME OUÇA!
Matteo se encolhe em meus braços.
— NÃO MINTA!
O peito de Vincenzo sobe e desce rapidamente.
— VOCÊ ACHAVA GRAÇA NELE!
Cada palavra é uma facada.
— ELE TE ENGANOU, DESS!
Outro passo.
— ELE ENTROU EM NOSSAS VIDAS PORQUE VOCÊ ABRIU A PORTA!
Gotículas de saliva atingem meu rosto.
Eu não me mexo.
Não consigo.
— SATISFEITA COM O RESULTADO DA SUA IMPRUDÊNCIA?
Os olhos dele brilham.
Não de raiva.
De dor.
— VOCÊ O VIU NA PRAIA NAQUELE DIA!
Eu fecho os olhos.
— VOCÊ OUVIU O QUE ELE DISSE!
Outro golpe.
— VOCÊ NÃO O EXPULSOU!
Outro.
— VOCÊ TEM PODERES PRA ISSO!
Outro.
— MAS NÃO O EXPULSOU!
Minha garganta fecha.
— VOCÊ NÃO NOS AVISOU!
A voz dele falha.
Pela primeira vez.
— Ela poderia estar entre nós, Dess...
Um sussurro.
Quase uma súplica.
— Ela poderia estar entre nós.
O silêncio dura apenas um segundo.
Então ele volta a explodir.
— QUANDO EU TE IMPEDI DE ME SEGUIR NAQUELA TARDE FOI PORQUE SENTI O PERIGO!
As veias saltam em seu pescoço.
— MAS VOCÊ!
O dedo aponta para mim.
— INSUPORTAVELMENTE IMPULSIVA!
A palavra ecoa pelo quarto.
— FEZ O QUE SEMPRE FAZ!
Ele bate no próprio peito.
— AGIU SEM PENSAR!
Matteo chora.
Eu o aperto contra mim.
— TUDO O QUE ELE PRECISAVA ERA SE APROXIMAR DA NOSSA CASA!
A voz quebra novamente.
— E PERCEBER A FRAQUEZA DA NOSSA FILHA!
Meu coração para.
— OS DIAS DELA JÁ ESTAVAM CONTADOS!
As lágrimas escorrem pelo rosto dele.
— MAS ELA NÃO PRECISAVA PARTIR DAQUELA FORMA!
Outro passo.
— NÃO PRECISAVA SER NAQUELE DIA!
Outro.
— NÃO PRECISAVA SER NAQUELE DIA, DESS!
As veias em seu pescoço latejam.
Seus olhos escurecidos se arregalam.
Então vem o golpe que nenhum dos dois conseguirá esquecer.
— FOI VOCÊ QUEM MATOU NOSSA FILHA!
O mundo para.
— VOCÊ ATRAIU O ASSASSINO!
Minha respiração falha.
— VOCÊ DEU A ELE A CHANCE DE AGIR!
O chão desaparece sob meus pés.
— VOCÊ É A PORRA DE UMA HOMICIDA!
O silêncio que se segue é monstruoso.
Vincenzo recua.
Como se tivesse acabado de perceber o que disse.
As mãos trêmulas cobrem seu rosto.
E, pela primeira vez desde a morte de Antoine...
ele parece verdadeiramente destruído.
— Ela poderia estar aqui...
Sua voz se desfaz.
— Ainda.
O quarto inteiro fica em silêncio.
Até Matteo parar de chorar.
Até o vento parar.
Até meu coração parar de tentar se defender.
De olhos fechados, respondo.
Num sussurro.
Sem raiva.
Sem força.
Sem lágrimas.
— Não fui eu.
A voz mal existe.
— Foi o Teu Deus.
— Cala a tua boca.
O tom de ameaça me faz estremecer.
— Miguel desceu à Terra por Antoine.
Ele aponta para o céu.
— Você viu.
— E o seu Deus não sabia exatamente quando Lúcifer arremessaria aquela maldita lança?
Minha voz sai amarga.
Envenenada.
— Não é Ele quem sabe tudo antes de acontecer?
Vincenzo fecha os olhos.
Por um segundo.
Quando os abre, algo mudou.
— Você muda de lado com facilidade, Dess.
A acusação é quase um sussurro.
— Até aquele dia, você acreditava no nosso Deus.
Outro passo.
— Basta que algo te contrarie e você joga fora a sua fé.
— ALGO?
Minha voz explode.
— FOI A MORTE DA NOSSA FILHA!
— E Ele sabia de tudo.
A resposta vem imediata.
Firme.
Cruel.
— Inclusive, te deu inúmeras chances de recuar.
Meu sangue gela.
— Antoine ainda estaria entre nós se você não tivesse permitido que Lúcifer se aproximasse tanto da nossa casa.
Ele aponta ao redor.
— Das nossas vidas.
— Você não pode provar isso!
— Posso!
A explosão faz Matteo se encolher.
— CONVIVI SÉCULOS COM AQUELE MISERÁVEL!
As narinas inflam.
Os punhos tremem.
— EU CONHEÇO OS TRUQUES DELE!
Outro passo.
— ELE FAREJOU A FRAQUEZA DA NOSSA FILHA!
Outro.
— ENQUANTO CONVERSAVA COM VOCÊ!
Outro.
— ELE DESCOBRIU QUE ANTOINE JÁ NÃO PERTENCIA À TERRA!
Meu coração dispara.
— ELE SENTIU A FRAQUEZA DO CORPO DELA!
Os olhos dele brilham de ódio.
— ELE CALCULOU TUDO, DESS!
Tudo.
A palavra ecoa.
— Por que você acha que ele nunca a atacou antes?
O silêncio pesa.
— Ele teve inúmeras oportunidades.
A voz diminui.
— E nunca avançou.
Agora há lágrimas.
— Porque Antoine ainda tinha uma missão.
Minha respiração falha.
— Ela era um querubim.
Outro segundo de silêncio.
— Lúcifer jamais a tocaria.
Então a voz dele volta a subir.
— MAS AGORA ELE CONSEGUIU!
O quarto inteiro parece estremecer.
— AGORA ELE CONSEGUIU, DESS!
As lágrimas escorrem pelo rosto dele.
— GRAÇAS A VOCÊ!
Fecho os olhos.
Não.
Não.
Não.
— Ele te usou.
A voz vem baixa.
Pior do que os gritos.
— Idiota.
A palavra atravessa.
— Enquanto você se achava a pitonisa do século...
O olhar dele encontra o meu.
— Ele farejava a morte da nossa filha.
— NÃO ME CHAME DE PITONISA!
O grito sai involuntário.
Instantâneo.
Como um reflexo.
Como uma ferida aberta.
E então...
Vincenzo percebe.
Percebe exatamente onde acertou.
Os olhos dele escurecem.
— Por que não?
A voz baixa.
Perigosa.
— Isso te lembra algum outro pecado?
— Vincenzo... — urro de raiva. — Não me provoca.
— Não preciso.
A resposta vem rápida.
Fria.
— Você sabe o que fez, Dess.
Os olhos dele queimam.
— Você matou um homem com a ajuda do Rei dos Infernos.
— LIAM NÃO ERA UM HOMEM!
Meu grito faz Matteo se encolher.
— ERA UM DEMÔNIO!
As lágrimas voltam.
— VOCÊ ESQUECEU QUE ELE MATOU A MINHA CASSIE?
— ACORDA, DESS!
A explosão vem imediata.
Violenta.
— A SUA CASSIE SALTOU DA JANELA PORQUE NÃO QUIS LUTAR!
O quarto inteiro parece tremer.
— NÃO QUIS LUTAR PELO PRÓPRIO FILHO!
Outro passo.
Outro golpe.
— ELA MATOU A CRIANÇA QUE CARREGAVA!
Minha respiração falha.
— ALÉM DE SUICIDA, A SUA CASSIE ERA UMA HOMICIDA EGOÍSTA!
Fecho os olhos.
Não.
Não.
Não.
— ELA ERA FRACA!
A palavra atravessa meu peito.
— A PORRA DE UMA GAROTA FRACA!
Antes que eu perceba, cuspo em seu rosto.
O silêncio dura apenas um segundo.
— Nunca mais fale assim dela.
Minha voz sai baixa.
Perigosa.
— Ou o quê?
Ele abre os braços.
Desafia.
— Vai invocar o seu parceiro?
— MALDITO!
— Talvez prefira se unir ao seu amigo.
O sarcasmo escorre de cada sílaba.
— Semelhantes se atraem.
A frase me atinge como um soco.
Um passo.
Depois outro.
Deixo Matteo no chão.
Minhas pernas vacilam.
Não de raiva.
De dor.
— Eu odeio aquele monstro.
Minha voz quebra.
— Infelizmente, eu descendo dele.
Olho para Matteo.
— Meu filho também.
As lágrimas queimam.
— Dele eu nunca esperei nada de bom.
Minha respiração falha.
— Mas de você...
Mordo os lábios.
Com força.
Tentando impedir o choro.
Inútil.
— De você, Vincenzo...
Os olhos dele encontram os meus.
— Eu esperava mais.
Ele passa as mãos pelos cabelos desgrenhados.
Exausto.
Derrotado.
— Eu te dei o meu melhor, Dess.
A voz dele falha.
— Depois que nos unimos de verdade...
Ele desvia o olhar.
— Eu te dei o meu melhor.
O silêncio pesa.
— Mas o meu melhor nunca foi suficiente.
Meu coração para.
Porque eu já sei o que vem.
— Eu jamais cheguei aos pés do seu grande amor.
Idiota.
A palavra ecoa dentro de mim.
Porque ele ainda não entendeu.
Depois de tudo.
Depois de todos esses anos.
Depois dos filhos.
Depois da vida inteira.
Ele ainda não entendeu.
— Idiota...
As lágrimas finalmente caem.
Livres.
— Você sempre foi.
Dou um passo.
A voz vira um sussurro.
— Você sempre foi o meu grande amor.
— Não fui, não.
A voz de Vincenzo sai cansada.
Vazia.
— Nossa filha me alertou antes do fim.
Ele ergue os olhos para mim.
— "A Fera, no final, conquista a Bela."
Meu coração aperta.
Eu me lembrava.
Claro que me lembrava.
— Lembra?
Lembro.
Cada palavra.
Cada sorriso.
Cada maldito instante.
— Sendo assim...
Ele engole em seco.
— Melhor que eu desapareça da sua vida.
— Melhor mesmo!
A raiva explode antes que eu consiga contê-la.
— Covarde!
Pego um dos livros de Antoine e o arremesso.
Sem pensar.
Sem mirar.
Sem controlar nada.
O livro atravessa a sala.
Passa ao lado de Vincenzo.
Acerta em cheio o quadro do Crucificado acima de sua cabeça.
O estrondo ecoa pela casa.
O vidro explode.
Centenas de fragmentos voam pelo ar.
Então Matteo chora.
E tudo desaparece.
Raiva.
Ódio.
Discussão.
Tudo.
— Matteo!
Corro até ele.
Meu coração quase para.
Um filete de sangue escorre por sua testa.
— Meu Deus...
— Filho...
Com ele nos braços, atravesso a casa correndo.
Vincenzo vem atrás.
Desesperado.
Tão desesperado quanto eu.
Entramos no banheiro.
Ofegantes.
Assustados.
Assustadoramente unidos.
Então eu vejo.
O espelho.
Embaçado.
Uma frase escrita a dedo.
As mãos tremem.
Minha respiração falha.
Vincenzo para ao meu lado.
Lemos juntos.
"Parem de brigar.
Eu preciso descansar."
O silêncio que segue é pior do que qualquer grito.
Mais tarde.
Sentados à mesa.
Nenhum dos dois fala.
Nenhum dos dois olha para o outro.
O pão francês estala entre os dentinhos de Matteo.
Os ovos fritos desaparecem do prato.
Como se o mundo não tivesse acabado.
Como se crianças ainda soubessem existir quando adultos esquecem como fazê-lo.
Ele toca o pequeno curativo em sua testa.
Sorri.
— Neném dodói.
Mastiga.
— Pão gotoso.
Outra mordida.
— Hmmmm...
Abre um sorriso.
— Muito gotoso!
Apesar de tudo...
apesar da dor...
apesar do vazio...
um canto esquecido do meu coração quase sorri.
— Gostoso, filho.
Minha voz sai rouca.
Fraca.
— Repete. É “gostoso”, filho. Repete.
— Gootoso! — Sorrio ao ver sua boquinha formar um círculo perfeito. Por um instante, pergunto-me de onde vieram os pães. Não ouvi a porta abrir. Não ouvi passos. Dormi... ou melhor, passei a noite inteira deitada no sofá, encarando o teto e fingindo que estava dormindo.
— Padaria. — Responde Vincenzo, de cabeça baixa. — Estranhamente, é o tipo de lugar onde costumam vender pães.
Prendo o riso tarde demais e me engasgo com um gole de café quente.
— Cuidado com o café, esposa. Fui eu quem fez.
— Está explicado por que quase arrancou o couro da minha língua.
— Humor ácido logo pela manhã? Parabéns.
— Eu não quis te...
— Quis, sim. — interrompe ele, sem erguer os olhos. — Quis me machucar. E conseguiu.
O silêncio que se segue pesa mais do que nossa discussão da noite anterior.
Matteo, alheio à guerra entre nós, continua concentrado em seu pão com ovos.
— Matteo é imune ao seu problema. — digo, por fim. — Você pode tocar nele quando quiser.
— Retiro o “esposa”. Perdão. Eu me esqueci.
O mundo parece parar.
— De mim? — pergunto, tentando soar indiferente e falhando miseravelmente. — Você se esqueceu de mim? Assinamos o divórcio? Porque eu não vi os papéis.
— Devem ter voado com o vendaval que você provocou ontem. Aquela sua demonstração de bruxaria que apagou as velas.
Cubro a boca com as mãos para esconder o riso.
— O riso faz som, Dess. Não adianta esconder.
— Como eu poderia estar feliz depois de tudo?
— Não faço ideia. — responde ele. — Mas você está rindo.
— Shhhh! — repreende Matteo, levando o indicador aos lábios. — Paaia, mamãe!
— É “para”. Não “paia”. Quando você vai começar a falar direito?
Seus lábios tremulam.
Os olhinhos se enchem de lágrimas.
— Mamãe feia.
— É sim, filho. Muito feia. — concorda Vincenzo, pegando-o no colo. — Vamos brincar lá fora?
Antes que eu consiga responder, ele beija a testa do menino.
Então me lança aquele olhar.
O novo.
O olhar de repulsa.
Odeio aquele olhar.
— Ele ainda não completou dois anos, Dess. O desenvolvimento dele é absolutamente normal.
Corro até a porta antes que os dois saiam.
Sem argumentos de verdade para mantê-los perto de mim, invento qualquer coisa:
— Está chovendo lá fora! Se quiser ir, vá. Mas deixa meu filho aqui!
— Nosso filho, porra. E não está chovendo.
— Porra! — repete Matteo, franzindo as sobrancelhas.
Fecho os olhos.
Tarde demais.
— Mamãe feia sai!
Vincenzo prende uma gargalhada.
Eu o odeio por isso.
E, por um segundo horrível, quase sorrio também.
— Não, filho... — choramingo, abrindo os braços. — Fica comigo.
Minha voz falha.
— Sem você...
Escondo o rosto.
Não quero que Vincenzo me veja chorar de novo.
Não quero que veja o quanto estou quebrada.
— Me perdoa, filho.
Aperto Matteo contra o peito.
— Me perdoa.
Minha respiração treme.
— Eu só quero viver em paz.
— Com o nosso filho?
Ergo os olhos.
Exausta.
Vazia.
— Com os dois.
O silêncio paira entre nós.
— Ainda somos uma família.
A voz dele sai baixa.
Quase um pedido.
— Não somos?
Engulo em seco.
— Somos?
— Vincenzo...
Pela primeira vez em dias, não há raiva em minha voz.
Só cansaço.
— Não dificulta.
Aponto para o espelho.
Para a mensagem.
Para o último pedido de nossa filha.
— Você leu o que ela escreveu.
Minha garganta aperta.
— Onde quer que ela esteja...
As lágrimas voltam.
— Ela nos quer unidos.
Vincenzo permanece imóvel.
Por alguns segundos.
Longos.
Dolorosos.
Então devolve Matteo aos meus braços.
Com cuidado.
Como se eu fosse me despedaçar.
— Mamãe dodói. — diz ele ao filho. — Faz carinho nela. Faz?
Matteo obedece imediatamente.
Os dedinhos pequenos se perdem em meus cabelos.
Um beijo molhado pousa em minha bochecha.
Outro.
E outro.
Meu coração quebra mais um pouco.
Porque ele está tentando me salvar.
E nem sabe disso.
Vincenzo sorri.
Um sorriso triste.
Pequeno.
Quase inexistente.
— Você é uma ótima mãe, Dess.
— Aonde vai?
O pânico me atravessa.
— Fica.
Ele desvia o olhar.
— Daqui pra frente...
A voz falha.
— Só vai piorar.
— Não me importo.
Levanto-me.
— Vamos enfrentar isso juntos.
Dou um passo.
Depois outro.
— Por favor.
— Favô, pai!
Matteo bate palminhas.
Animado.
Como se estivesse resolvendo o problema mais simples do mundo.
— Papai fica mamãe e neném?
O pomo de Adão de Vincenzo sobe.
Depois desce.
Os olhos brilham.
A voz embarga.
— Papai fica.
Por algum motivo, decidimos permanecer na casa da praia.
A simples ideia de retornar à cidade me causa aflição.
Parece abandono.
Como se partir significasse deixar Antoine para trás.
Como se afastar desta casa fosse apagar os últimos vestígios de sua existência.
Apesar de não termos conversado sobre isso, imagino que Vincenzo também não deseje retomar sua antiga vida.
Ele já não pode tocar em seres humanos sem provocar queimaduras em suas peles.
Somente Matteo permanece imune.
Talvez por isso os dois tenham se aproximado tanto nos últimos dias.
Matteo praticamente me esqueceu.
E eu não o culpo.
Isolada em meu próprio luto, continuo chorando pela morte de Antoine que, na verdade, não morreu.
Ascendeu.
Ao menos é nisso que tento acreditar.
Deitada sobre a areia fria, observo o mesmo céu para onde ela partiu.
Nuvens escuras avançam lentamente sobre o oceano.
De tempos em tempos, raios rasgam o horizonte.
Fecho os olhos.
Por um instante, desejo que um deles me encontre.
Que me atinja.
Que me transforme em cinzas.
O trovão ecoa.
Cada vez mais próximo.
Cada vez mais curto o intervalo entre um estrondo e outro.
Uma tempestade se aproxima.
Talvez ela já tenha chegado.
Talvez esteja apenas dentro de mim.
Vincenzo organizou tudo.
Pediu a João que assumisse a academia como se fosse sua.
Disse que precisaria se ausentar por tempo indeterminado.
Escondida no corredor, ouvi apenas fragmentos da conversa.
João hesitou.
Tentou recusar.
No final, aceitou administrar os negócios da família e receber metade dos lucros.
Família.
Certo.
Vou fingir que ainda faço parte dela.
O homem mal consegue olhar para mim.
Tem medo de encostar em mim.
Temos dormido todos no mesmo quarto sob a desculpa de proteger Matteo de uma nova investida do maldito.
Mas não sou idiota.
Vincenzo permanece distante porque me culpa.
E talvez eu também me culpe.
O pior não são as palavras que trocamos.
O pior é aquele olhar.
O olhar de repulsa.
Ele continua me perseguindo.
Mesmo quando fecho os olhos.
— Uau...
A descarga elétrica de um raio atravessa meu corpo no exato instante em que uma árvore, a poucos metros de distância, explode em uma chuva de fagulhas.
Observo os galhos em chamas.
— Com um pouquinho mais de sorte, o próximo cai em mim.
— Não vai.
A voz surge atrás de mim.
Calma.
Absoluta.
— Seu tempo ainda não terminou.
— Diabos!
Dou um salto para trás e, rolando pela areia, me ergo de joelhos.
— Quem é você!?
Aponto para ele.
— De onde saiu!?
— Já haviam me avisado que você poderia ser arrogante.
O desconhecido me analisa da cabeça aos pés.
Sem pressa.
Sem medo.
— Agora percebo que não estavam errados.
Assumo posição de ataque.
— Quem é você!?
— Tem luz demais para ser do time do Lúcifer!
— Lúcifer?
Uma gargalhada seca escapa de seus lábios.
— Ele jamais ousaria erguer os olhos para mim.
O sorriso desaparece.
— Principalmente depois do que fez com nossa amada Hariel.
— Hariel?
Franzo a testa.
— Quem é essa aí?
— Vai continuar pulando de um lado para o outro?
Ele suspira.
— Isso me cansa.
Olha para o céu carregado.
— Na verdade, me irrita.
Volta a me encarar.
— Estou perdendo meu tempo. E meu tempo é precioso.
— Seu tempo?
Dou um passo à frente.
— E quem seria você?
Aponto um dedo em sua direção.
— Faz parte da Legião?
— Ainda querem levar meu marido?
Ele retira o cigarro da boca.
A fumaça escapa lentamente.
Então ri.
De mim.
Não da situação.
De mim.
— Errou de novo.
A guimba cai na areia.
Ele a esmaga sob a sola da bota.
— Pare de pular.
Seu olhar endurece.
— Você realmente não gostaria de me ver irritado.
Apoio as mãos nos joelhos.
Ofegante.
Tentando entender quem é aquele sujeito insuportavelmente calmo.
— Quem é Hariel?
Silêncio.
O vento levanta meus cabelos.
— Eu a conheço?
— Muito.
Seu olhar se perde por um instante no horizonte.
— Nós a chamávamos assim.
Volta a me encarar.
— Você a conheceu como Antoine.
Levo a mão ao peito.
A simples menção do nome me fere.
— Minha Antoine não tinha amigos que eu não conhecesse.
Dou um passo para trás.
— Você está mentindo.
Antes que eu consiga dizer mais alguma coisa, ele ergue um dos braços.
O céu responde.
Um raio atravessa as nuvens e atinge uma árvore próxima.
A explosão me faz estremecer.
Desta vez, não tenho dúvidas.
Não foi coincidência.
Foram seus olhos.
Foram suas mãos.
Foi ele.
— Você pensa demais.
Sua voz soa irritada.
— Isso me irrita.
— Tudo te irrita.
Continuo recuando.
O vento se intensifica ao nosso redor.
— Eu também me irrito.
Aponto para ele.
— Detesto homens que não se apresentam.
Outro passo.
— Homens sem senso de humor.
Mais um.
— E, principalmente, homens que falam da minha filha como se a conhecessem.
Seus olhos faíscam.
Literalmente.
— Eu a conheço, bastarda.
— Bastarda!?
Cruzo os braços.
— Patético.
Aponto para a casa.
— Vou chamar meu marido.
— Melhor ir embora.
— Ele luta pra cacete.
— Poderia usar palavras menos indignas?
— Não!
O vento arrasta meus cabelos para trás.
— Fica longe da minha família, porra!
Minha voz falha.
— Já perdemos demais.
Engulo em seco.
— Ninguém vai tocar no meu filho.
— Ninguém vai tocar no meu marido.
Ele revira os olhos.
Como se estivesse diante de uma criança particularmente inconveniente.
— Não queremos tocar no seu filho.
— Pode acreditar.
— Por que não!?
Seu semblante muda.
Pela primeira vez.
Não para algo amigável.
Para algo... curioso.
— Porque ele é diferente de tudo o que já vimos.
O silêncio entre nós pesa.
— É melhor observá-lo antes de agir.
— Meu filho é normal!
— Não tentem encostar nele ou vão ter que me enfrentar!
— Você é mais irritante do que Rafael havia me dito.
Meu coração falha uma batida.
— Rafael?
Dou um passo à frente.
— O Rafael do hospital?
Desta vez...
Quem parece arrependido de ter falado demais é ele.
— O arcanjo que curou seu marido a pedido de Hariel.
Avanço em sua direção.
Meu peito sobe e desce rapidamente.
— Não se refira a Antoine desse jeito!
Aponto para ele.
— Ela é minha filha!
Minha voz falha.
— Eu não conheço essa Hariel!
— Não conhecia mesmo.
Sua resposta vem sem crueldade.
Sem piedade também.
— E ainda está longe de conhecê-la.
Ele observa o céu por um instante antes de continuar.
— Hariel é um dos querubins mais fortes e benevolentes que já conheci.
Volta a me encarar.
— Só Deus sabe por que ela escolheu você.
— Escolheu?
Dou um passo para trás.
— Minha filha não me escolheu. Ela nasceu de mim.
— Presunçosa.
— Arrogante.
— Impulsiva.
— Repulsiva.
— Devassa.
Cada palavra é uma pedrada.
— Sabe com quem está falando?
— Claro que não!
Abro os braços.
— Já perguntei umas dez vezes e você não respondeu, porra!
Inflando as narinas, ele finalmente se apresenta.
— Gabriel.
Silêncio.
— O Arcanjo.
— Ah, tá.
Faço uma reverência exagerada.
— Lilith, a deusa.
Seu semblante escurece.
— Não duvido que exista sangue daquela criatura em suas veias imundas.
Sua voz se torna mais grave.
— Mas não admito que duvide de mim.
— Veias imundas!?
Levo a mão ao peito.
— Agora pegou pesado!
Dou um passo para trás.
Algo me impede.
Meu corpo trava.
Como se correntes invisíveis se fechassem ao meu redor.
— O que é isso!?
Tento me mover.
Não consigo.
— Para!
Gabriel toca minha cabeça.
A transformação acontece diante dos meus olhos.
Asas enormes se abrem atrás dele.
Belas.
Assustadoras.
Majestosas.
Os cabelos escuros caem sobre seus ombros.
Seus olhos tornam-se prateados.
Antigos.
Impossivelmente antigos.
Quando fala, sua voz já não parece humana.
É metálica.
Poderosa.
Imutável.
— Eu Sou o Mensageiro do Criador.
O vento se cala.
Até a chuva parece hesitar.
— Fui eu quem anunciou a vinda de João Batista.
— Aquele que prepararia o caminho para o Messias.
As asas estremecem.
— Fui eu quem esteve diante de Maria.
— Fui eu quem anunciou a chegada do Cristo.
Meu coração dispara.
— Fui eu quem ajudou Daniel a compreender suas visões.
Tento levantar.
Não consigo.
Tento desviar o olhar.
Não consigo.
— Eu Sou Gabriel.
Ajoelhada na areia molhada, escuto suas palavras sem compreender totalmente seu significado.
Compreendo apenas uma coisa:
ele não está mentindo.
Baixo a cabeça.
Humilhada.
Assustada.
Pequena.
— Me perdoe.
A chuva finalmente começa a cair.
Suave.
Constante.
Por alguns segundos, tudo permanece em silêncio.
Então sua voz volta a soar.
Desta vez...
gentil.
— Levante-se.
A pressão desaparece.
Consigo respirar.
Consigo me mover.
Cambaleio ao me erguer.
Ainda tonta.
Ainda assustada.
Gabriel me observa.
E, pela primeira vez, vejo um discreto sorriso surgir em seu rosto.
— Preciso me lembrar de que você é humana.
Seus olhos percorrem meu rosto.
— Apesar de sua descendência.
— Eu descendo dos meus pais.
Aponto para mim mesma.
— Meu filho, Matteo, descende de dois humanos.
— Humanos?
Gabriel arqueia uma sobrancelha.
Claramente cético.
Fecho os olhos.
Respiro fundo.
Recomeço.
— Ok.
Ergo um dedo.
— Vou explicar.
— Eu sempre fui humana.
Levanto outro.
— Vincenzo se tornou mortal depois do nascimento do nosso filho.
Mais um.
— Logo, humano.
— Uh hum...
— Agora somos todos mortais.
Abro os braços.
— Normais.
— Humanos.
Inclino a cabeça.
— Entendeu?
— Eu juro.
Dou um passo à frente.
— Você soube que Vincenzo quase morreu.
— Rafael lhe contou.
— Anjos não morrem.
— Certo?
Aponto para a casa.
— Agora ele pode.
— Porque é humano.
Minha voz falha.
— Mas isso não significa que ele deva morrer.
— Porque somos uma família.
Um sorriso triste surge em meus lábios.
— Uma família feliz.
A lembrança me atravessa como uma faca.
— Ele fez merda.
— Eu o perdoei.
— Eu fiz merda.
— Ele me perdoou.
Dou de ombros.
— Tá zerado.
— Vida que segue.
Levanto os olhos para ele.
— Entendeu?
Minha voz quase desaparece.
— Somos uma família.
O silêncio pesa.
Então acrescento:
— Antoine fazia parte dela.
— Disso eu sei.
A resposta vem imediata.
Sem hesitação.
Sem dúvida.
Aquilo me destrói.
Porque ele fala dela como alguém que ainda existe.
Como alguém que continua sendo.
Impulsivamente, ajoelho-me diante dele.
Seguro sua mão.
Beijo o dorso de seus dedos.
— Você poderia nos ajudar?
Minha voz treme.
— Sinto que algo ruim vai acontecer.
— Precisamos de ajuda.
Num movimento repentino, Gabriel abre as asas.
Sou envolvida pela sombra delas.
Um clarão explode atrás de nós.
O raio atinge a areia.
Tão perto que sinto o calor.
Tão perto que deveria ter me matado.
Protegida sob aquelas asas colossais, permaneço imóvel.
Há força ali.
Muita.
Mas também existe algo inesperado.
Paz.
Uma paz antiga.
Absoluta.
Então ele recua.
Como se nada tivesse acontecido.
Cambaleio ao me levantar.
Ainda confusa.
Ainda assustada.
— Meu marido perdeu tudo por mim.
Minha voz sai baixa.
— Tudo.
Olho para o horizonte.
— Dinheiro.
— Poder.
— Asas.
Faço uma pausa.
— Não.
Balanço a cabeça.
— Minto.
— Ele ainda tem asas.
— Só não sabe mais como usá-las.
Os olhos prateados de Gabriel permanecem fixos em mim.
— Ele era um anjo.
— Um bom anjo.
— E então caiu.
Engulo em seco.
— Eu nunca pedi isso.
— Nunca.
— Ele caiu por amor.
Olho diretamente para Gabriel.
— Você acredita nisso?
A chuva começa a engrossar.
— Agora ele sofre.
Minha voz vacila.
— Eu sei.
Levo a mão ao peito.
— Eu sinto.
Fecho os olhos.
— Ajude-nos, Gabriel.
— Mensageiro de Deus.
Silêncio.
A chuva bate contra a areia.
Contra as asas.
Contra o mundo inteiro.
Por fim, ele responde:
— Você fala muito.
Piscando rapidamente, limpo as lágrimas do rosto.
— É porque estou nervosa.
Pela primeira vez...
Gabriel parece prestes a sorrir.
— Levante-se.
Obedeço imediatamente.
Ainda me sinto pequena perto dele.
Ainda me sinto observada.
De pé, Gabriel me encara por alguns segundos antes de perguntar:
— Por que eu ajudaria uma mulher que não acredita em Meu Pai?
A pergunta me atravessa.
Mas a resposta surge antes mesmo que eu possa pensar.
— Porque Vincenzo acredita.
Baixo os olhos.
— E é por ele que estou pedindo ajuda.
Minha voz vacila.
— Façam o que quiserem comigo.
— Mas poupem ele.
Engulo em seco.
— Ele vai cuidar bem do nosso filho.
— Ele se sacrificou pela nossa filha.
Ergo o rosto.
— Eu imploro.
— Ajudem meu Vincenzo.
Aperto as mãos uma contra a outra.
— Ele está cada vez mais fraco.
Gabriel permanece em silêncio.
Depois, surpreendentemente, responde:
— Se eu pudesse, faria.
Inclina levemente a cabeça.
— Gosto da sua sinceridade.
Uma pausa.
— E da sua bravura.
Outra pausa.
— Você é divertida.
Franzo a testa.
— Divertida?
— Rafael não me disse nada a respeito.
Reviro os olhos.
— Rafael desconhece o significado da palavra empatia.
Começo a caminhar ao seu lado.
— Isso porque ele cura humanos.
Dou de ombros.
— Imagine se trabalhasse no outro lado.
Gabriel solta uma gargalhada espontânea.
A primeira.
A verdadeira.
— Vocês são todos bonitos assim ou eu tive sorte?
O riso aumenta.
Por um breve instante, ele parece apenas um homem.
Um homem absurdamente bonito.
Mas apenas um homem.
Então sua mão pousa em meu braço.
Quente.
Firme.
Ele me puxa discretamente para trás.
Paramos a poucos metros do jardim.
— Você se parece com Miguel.
— Porque somos negros?
— Também.
Um sorriso discreto surge em seus lábios.
— Mas não é apenas isso.
Ele me observa atentamente.
Como se estivesse lendo algo escondido dentro de mim.
— Existe mais ternura em você do que gostaria de admitir.
Inclina a cabeça.
— Você tem medo dos humanos?
— Medo, não.
Cruzo os braços.
— Piedade.
— Eles erram o tempo todo.
Gabriel parece achar graça.
— Por que paramos?
Aponto para a casa.
— Não vai entrar?
— Vincenzo adoraria saber que você veio falar com ele.
O sorriso desaparece.
— Não vim por ele.
Um arrepio percorre minha espinha.
Gabriel ergue o indicador em direção ao céu carregado.
— Vim por você.
O vento sopra entre nós.
— Alguém lá em cima me pediu que lhe trouxesse uma boa nova.
Meu coração dispara.
— Boa nova?
— Sim.
Ele confirma.
— Uma boa notícia.
Dou um passo à frente.
— Qual?
Minha voz sai ansiosa.
— Estamos livres das punições?
— Da Legião?
— Não.
O mundo parece parar.
— Vocês terão duas noites de paz.
Meu sorriso desaparece.
— Antes do início do fim.
Silêncio.
A chuva engrossa.
— Início do fim?
Meu coração dispara.
— Quando isso começa?
Gabriel franze a testa.
Pensativo.
Depois responde:
— Não me lembro.
— O quê!?
Corro atrás dele.
Seguro seu casaco.
— Não faz sentido!
Sacudo o tecido entre meus dedos.
— Você desceu à Terra para dizer que teremos duas noites de paz antes do fim...
Aponto para ele.
— E não sabe quando começa!?
— Nem que tipo de fim é esse!?
Gabriel me encara.
Pacientemente.
Como um professor observando uma criança desesperada.
Então suspira.
Longamente.
— Agora estou me lembrando por que Miguel gosta de você.
— Havia mais a ser dito.
Gabriel observa o horizonte.
— Mas você ainda não está preparada.
— Estou!
Dou um passo à frente.
— Eu juro que estou!
— Ele vai se juntar à Legião?
— Podemos ir com ele?
Gabriel balança a cabeça.
— Seu lugar é aqui, Adessa.
Sua voz se suaviza.
— Com seu filho.
Faz uma breve pausa.
— E com mais alguém que ainda vai chegar.
Meu coração dispara.
— Quem?
Corro atrás dele.
— Quem!?
— Espera!
— Não tenho tempo.
A chuva escorre por suas asas.
— Faça o que puder para que ele não se esqueça de quem é.
Fecho os olhos.
— Gabriel...
— Até o fim da segunda noite...
Ele me encara.
— Ele ainda será seu.
— Ele não pode me tocar!
— Pode.
— Não vai te queimar.
Sinto o chão desaparecer sob meus pés.
— Até o fim da segunda noite.
— Espera!
Minha voz ecoa pela praia.
— Você é o arcanjo!
— Não eu!
— Me ajuda!
Gabriel me observa.
Há compaixão em seus olhos.
Talvez tristeza.
— Eu apenas trago mensagens.
Ele abre as asas.
— Nada posso fazer por vocês.
Minha garganta fecha.
— Continue sendo forte.
— Existem outros lutando por vocês.
— Quem!?
— Quem!?
Gabriel sorri.
Um sorriso cansado.
Antigo.
— Pobres humanos.
Sua voz se perde entre o vento e a chuva.
— Quando irão compreender que o Criador os ama?
— Não!
Corro atrás dele.
— Não desaparece!
— Volta!
— Vincenzo precisa de você!
— Volta!
— Dess?
Estaco.
Meu coração falha uma batida.
— Vincenzo!
Corro até ele.
Sem pensar.
Sem respirar.
Sem medo.
— Não me toca.
Ele recua.
Assustado.
— Vou te queimar.
— Não vai.
Enlaço seu pescoço.
Enterro o rosto em seu ombro.
E desmorono.
— Fica com a gente.
Minha voz se quebra.
— Seu filho e eu precisamos de você.
Aperto-o com toda a força que me resta.
— Não vai embora.
— Por favor.
— Não vai embora.
— Não me deixa.
As lágrimas escorrem livres.
— Eu te amo.
Silêncio.
Então sinto seus braços ao meu redor.
Fortes.
Tremendo.
Humanos.
— O que aconteceu aqui?
Sua voz sai baixa.
Confusa.
— Como consegue me abraçar?
— Como eu consigo tocar em você?
— Milagres acontecem.
Ele não sorri.
— Quem esteve aqui, Dess?
— Ninguém.
— Dess.
— Ninguém.
— Eu sinto.
Seu olhar percorre a praia.
A árvore destruída.
A chuva.
A fumaça.
— Alguém esteve aqui.
— E não era Lúcifer.
— Claro que não.
Resmungo.
— Se eu o visse novamente, mataria aquele desgraçado.
— Dess.
Sua voz endurece.
— Não minta.
— Não estou mentindo.
Aponto para a árvore carbonizada.
— Um raio caiu.
— Eu me assustei.
Ele continua me observando.
Longamente.
Silenciosamente.
E então...
Pela primeira vez desde a morte de Antoine...
Volto a enxergar meu marido.
Não o homem consumido pela culpa.
Não o homem contaminado pela lança.
Não o homem que me odiava.
Meu marido.
O homem por quem me apaixonei.
O homem que eu ainda amo.
— Fala alguma coisa.
Peço num sussurro.
Antes de me beijar, ele fecha os olhos.
Como quem se agarra ao último pedaço de si mesmo.
E confessa:
— Eu também te amo, Dess.
Sua voz falha.
— Mais do que nunca.
Ele encosta a testa na minha.
E implora:
— Não me deixa te esquecer.
Fecho os olhos.
Porque já sei que é isso que está vindo.
O verdadeiro inimigo.
O esquecimento.
Então respondo:
— Nunca.
Esforço-me ao máximo para não pensar em Gabriel.
Nem em suas palavras.
Nem no aviso.
Nem no que ele deixou escapar.
Vincenzo me observa com desconfiança sempre que acredita que estou distraída.
Conheço aquele olhar.
Ele sabe que estou escondendo alguma coisa.
E odeia isso.
Apesar de voltarmos a conversar...
Apesar de voltarmos a rir...
Apesar de, aos poucos, reaprendermos a respirar no mesmo ambiente...
Ainda existe algo pairando sobre nossas cabeças.
Uma sombra.
Uma contagem regressiva invisível.
Matteo tornou-se o centro absoluto de nossas atenções.
Entre uma brincadeira e outra, trocamos olhares tímidos.
Olhares que dizem mais do que palavras.
Depois daquele beijo...
Nada mais aconteceu.
E talvez seja exatamente isso que me assuste.
Meu coração chega a falhar dentro do peito sempre que me lembro das palavras de Gabriel.
Duas noites de paz.
Duas.
Apenas duas.
Depois disso...
Seja lá o que o arcanjo quis dizer...
Talvez eu perca o homem da minha vida.
— Por que a música?
Vincenzo ergue uma sobrancelha.
— Matteo dormiu.
Aproxima-se lentamente.
O olhar cafajeste aparece.
Finalmente.
— Pensei em aproveitar o pouco tempo que ainda tenho com minha esposa.
Cruzo os braços.
— Sua esposa?
Inclino a cabeça.
— Não tinha assinado o divórcio?
Ele me puxa pela cintura.
Sem cerimônia.
Sem pedir licença.
Como se nunca tivéssemos brigado.
Como se nunca tivéssemos nos machucado.
Como se ainda existisse futuro.
Sua boca encosta em meu ouvido.
— O vento levou os papéis.
Meu riso escapa.
— Ah, claro.
— Claro.
Ele concorda, sério demais para estar falando sério.
— Ela é uma bruxa muito poderosa.
Assinto.
— Concordo.
— Do nada...
Ele aponta para o horizonte.
— Surgiu um pequeno ciclone.
— E lá se foram os documentos.
Finjo refletir.
— Trágico.
— Terrível.
— Irreversível.
— Exatamente.
Ele sorri.
Aquele sorriso.
O que sempre me desarma.
— Já gostei dela.
Passo os braços por seu pescoço.
— Ela é linda.
Ele concorda imediatamente.
— Muito.
— Poderosa.
— Bastante.
— Impulsiva.
— Extremamente.
— E ciumenta.
— Irritantemente.
Dou-lhe um tapa leve no braço.
— Idiota.
— Não tiro a razão dela.
Aproximo meu rosto do seu.
— O marido é um pedaço de mau caminho.
Vincenzo sorri.
Aquele sorriso lento.
Perigoso.
Arrogante.
O sorriso que fez minha vida desandar anos atrás.
— Concordo.
— Ele realmente é.
— "Pedaço de mau caminho", Dess?
Vincenzo arqueia uma sobrancelha.
— Tem certeza de que tem menos de setenta anos?
— Não tenho certeza de mais nada, amor.
Enlaço seu pescoço.
— Estamos dançando?
— Parece que sim.
Ele recosta a testa na minha.
Fecha os olhos.
E sussurra:
— Não fala nada.
Sua voz sai baixa.
Quase triste.
— Continua dançando.
— Continua me deixando te conduzir.
Aperta minha cintura.
— Vamos fingir que estamos no baile de formatura.
Abro um sorriso melancólico.
— E que temos um futuro brilhante pela frente?
— Sim.
Ele sorri.
— Com dois filhos.
— Uma casa na praia.
— E contas para pagar.
— Muitas.
— Muitas.
Rimos juntos.
Por alguns segundos...
a dor parece distante.
— Nossos filhos vão se formar.
A voz dele vacila.
— Um deles será veterinário.
— O que matou o gatinho no Natal?
Pergunto imediatamente.
Vincenzo gargalha.
— Foi um acidente!
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Ele ama animais.
O sorriso permanece.
Mas seus olhos escurecem.
— E a mais velha...
Sua voz diminui.
— Será uma cardiologista brilhante.
Fecho os olhos.
Lágrimas escorrem sem permissão.
— Dizem que ela salvou a própria mãe.
O silêncio se instala.
— Hoje todos vivem felizes.
— Longe da cidade.
— Todo Natal eles se reúnem em volta de uma mesa enorme.
— Cheia de comida.
— Cheia de vida.
Sua voz falha.
— E rezam pelo pai.
Engulo em seco.
— Vincenzo...
— Que morreu...
— Para.
— ... muito amado.
— Para.
— E muito feliz.
— Para.
Ele sorri.
Mas também está chorando.
— Tem razão.
Passa as mãos pelo rosto.
— O pai deles não vai morrer agora.
— Vai morrer velho.
— Bem velho.
— Muito velho.
— Ao lado da mãe.
— Fim da história.
— Fim da história.
Concorda ele.
Então continua:
— Os filhos...
— Já adultos.
— Casados.
— Felizes.
— Enterram os pais em solo santo.
— E na lápide estará escrito:
Sua voz embarga.
Mas ele continua.
— "Nunca houve um homem que amasse tanto sua esposa."
Minhas lágrimas aumentam.
— "Nunca houve uma mulher que lutasse tanto por ele."
— Vai ser uma lápide enorme.
Comento entre risos e lágrimas.
— Vão precisar de uma cova larga.
— Muito larga.
— Onde caibam dois caixões.
Vincenzo me abraça ainda mais forte.
— Tomara.
— Assim ficaremos juntos para sempre.
Fecho os olhos.
— Para sempre.
— Para sempre.
Repete ele.
Então me encara.
E sorri.
Um sorriso bonito.
Triste.
Apaixonado.
— É assim que será, A...
Seu rosto muda.
Subitamente.
Como alguém tentando agarrar uma palavra que escorrega pelos dedos.
— Ei...
Meu coração para.
O dele também.
Vejo a confusão em seus olhos.
Vejo o medo.
Vejo a luta.
Longos segundos passam.
Até que ele força um sorriso.
E termina:
— Adessa Rossi.
Pego sua mão e o conduzo até nosso quarto.
Como uma criança obediente, ele permite que eu retire sua camisa, erguendo os braços sem protestar. Seus olhos tímidos encontram os meus. Seus lábios tocam os meus. Com cuidado, como se eu pudesse me quebrar a qualquer instante, ele me abraça e me deita sobre os lençóis.
Duas lágrimas escapam de seus olhos.
Curvando-se sobre mim, ele sussurra:
— Haja o que houver, jamais se esqueça de mim.
— Nunca. — respondo.
Dentro de mim, o medo cresce.
Ele me beija como se fosse a primeira vez.
Como se voltássemos ao início de tudo.
Ao astro do futebol.
À líder de torcida desastrada.
A lareira acesa em um dos cantos do quarto confere ao momento um ar nostálgico. As chamas se movem lentamente, refletindo em seus olhos.
Antes que a madrugada termine, eu o abraço com tanta força que ele se assusta.
Há música no quarto.
Graças a ela, ele não consegue ouvir meus pensamentos.
Meu desespero.
O desespero de quem está perdendo, aos poucos, o homem por quem lutou a vida inteira.
— Fica quieto. — peço quando ele repousa a cabeça sobre meu ombro. — Deixa eu ouvir seu coração, amor.
— Por que tanto medo, Dess? — pergunta ele. — O que Gabriel te contou?
Ergue a cabeça e me encara.
Seu sorriso continua ali.
Infantil.
Bonito.
Meu favorito.
— Idiota. Me abraça.
Ele obedece.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
Depois se joga ao meu lado, cobrindo-nos com o lençol.
— Eu queria que ele falasse comigo. — comenta.
— Eu também.
— Mas?
Fecho os olhos.
— Ele parecia ocupado demais.
— Gabriel?
— Distribuindo boas novas por aí.
Vincenzo arqueia uma sobrancelha.
— Por que essa ironia?
— Porque a minha não foi exatamente boa.
Merda.
Falei.
— Dess...
— Não foi ruim. Só...
— Complicada.
— Qual foi a mensagem?
— Gabriel se parece muito com Miguel. Você não acha?
Ele me encara.
Incrédulo.
— Está mesmo tentando me distrair com essa pergunta ridícula?
Cubra meu rosto com as mãos.
— Merda.
— Dess.
Sua voz suaviza.
— Olha pra mim.
— Não quero.
Delicadamente, ele afasta minhas mãos.
— Olha pra mim.
Obedeço.
— Esqueça o que ele disse.
— Vincenzo...
— Arcanjos são diretos. Às vezes cruéis. Talvez ele tenha mostrado algo que não acontecerá exatamente da forma como você entendeu.
Permaneço em silêncio.
— Entendeu?
— Entendi.
Um raio de sol invade o quarto.
Aproveito a distração.
— Vamos correr na praia?
— Comprar comida?
— Fazer qualquer coisa que nos faça parecer normais?
Vincenzo se levanta da cama.
Os olhos marejados.
O sorriso cansado.
Mas verdadeiro.
— Nós somos normais, Dess.
Abre os braços.
— Olha pra mim.
— Estou olhando.
— Não. — corrige ele. — Olha de verdade.
E, pela primeira vez desde a morte de Antoine, eu tento.
— Nunca se esqueça deste homem diante de você.
Sua mão toca meu rosto.
— Nunca se esqueça de que eu te amo.
Engulo em seco.
— Nunca se esqueça de que amo nossa família.
Sua voz falha.
— Nossos filhos.
— E a mãe deles.
Fecho os olhos.
Já sei para onde essa conversa está indo.
Já sei.
— Vincenzo...
— Mesmo que tudo...
Ele hesita.
— Mesmo que todos digam o contrário...
Seu olhar encontra o meu.
— Sempre existirá um lugar dentro de mim onde vocês permanecerão intactos.
Meu coração dispara.
— Quando a escuridão vier...
Não.
— É para lá que eu vou correr.
Não.
— Mesmo que eu esqueça quem sou...
— Vincenzo, não!
Enrolada no lençol, salto da cama e me lanço sobre ele.
Abraço-o como um náufrago abraça o último pedaço de madeira antes de afundar.
— Para.
Minha voz quebra.
— Não quero ouvir isso.
— Dess...
— Para.
As lágrimas escorrem sem controle.
— Essa maldição não existe.
— Existe.
— Não existe!
— Dess...
— Não existe!
Agarro sua camisa.
— Por favor.
— Já parei.
Sua mão desliza por meus cabelos.
— Respira.
— Fica calma.
— Eu estou calma.
— Mentira.
— Eu sei.
Ele beija minha testa.
— Respira fundo.
E eu tento.
Mas o medo continua ali.
Enorme.
Vivo.
— Mamãe dodói?
Congelo.
Viro-me imediatamente.
— Filho!
Matteo está parado sob o batente da porta.
Descabelado.
Sonolento.
Perfeito.
Corro até ele.
Abraço-o.
Beijo seu rosto.
Seu nariz.
Sua testa.
Como se tivesse voltado de uma guerra.
Ele aponta para Vincenzo.
Franze a testa.
Analisa.
Então pergunta:
— Qué ixo?
Sigo seu dedo.
Meu cérebro demora alguns segundos para entender.
— Papai tem pintinho?
O silêncio dura exatamente dois segundos.
Depois...
Vincenzo explode em uma gargalhada.
Veste a calça do pijama.
— Pintinho?
Cruza os braços.
Ofendido.
— Papai tem pintão, filho.
— Pintão.
Matteo arregala os olhos.
Impressionado.
— Pintão!
— Isso mesmo.
— Papai tem pintão!
Eu rio.
Vincenzo ri.
Matteo ri.
E, por alguns segundos...
o mundo inteiro parece normal.
Não me lembro da última vez que fui feliz.
Talvez tenha sido antes da praia.
Antes da lança.
Antes do sangue.
Antes da perda.
Mas hoje...
Hoje chegou perto.
Vincenzo nos levou até uma reserva florestal distante da cidade.
Matteo passou o dia correndo entre flores, pedras e pequenos animais.
Encantava-se com tudo.
Como Antoine fazia.
Sempre Antoine.
Sempre ela.
O vazio continua aqui.
Mas hoje não sufoca.
Apenas acompanha.
Em determinado momento, Matteo corre em direção ao penhasco.
Meu coração para.
Corro.
Alcanço-o.
Seguro-o no colo.
Forte demais.
Talvez forte até demais.
Talvez porque eu ainda esteja tentando salvar alguém que já não pode ser salva.
Vincenzo surge atrás de nós.
Passa os braços por minha cintura.
Apoia o queixo em meu ombro.
E sussurra:
— Fica tranquila.
Fecho os olhos.
— Nada vai acontecer ao nosso filho, Dess.
— Não gosto desse lugar. Me faz lembrar de coisas ruins.
— Eu entendo...
Meus cabelos esvoaçam sob a ação do vento enquanto Matteo ri de mim, tentando conter os fios com seus dedinhos.
Sigo os passos de Vincenzo, que nos afasta do penhasco, murmurando, de cabeça baixa:
— Nunca mais volte a pular. Suicidas geralmente não vão para o céu.
Apressando meus passos, eu o ultrapasso e o contenho com uma mão em seu peito.
Assustada, indago:
— O que disse?
— Eu?
— Vincenzo! Você disse alguma coisa sobre suicidas pulando de penhascos!
Um sorriso triste atravessa seu rosto.
— Não me lembro, Dess. Mas, se você tentasse pular, eu ainda poderia usar minhas asas. Lembra?
Menos angustiada, pergunto:
— Será que ainda funcionam?
Rindo, ele se curva para frente.
— Quer que eu te mostre?
— Não!
Gargalhando, movo os braços aleatoriamente.
— Não me mostra isso! É assustador!
— Mamãe!
O grito de Matteo corta nossa brincadeira.
Um novo aperto atravessa meu peito.
Corremos em sua direção.
Sentado, quase escondido pela relva alta, ele ergue as mãozinhas cobertas de sangue.
Vincenzo passa por mim e estaca diante dele.
Um lampejo de pavor cruza seu rosto.
Antes que eu consiga alcançá-lo, ele me impede.
— Fica calma. Não pensa bobagem. Está me ouvindo?
— Me solta! Ele se machucou?
Levo alguns segundos para assimilar a cena.
Há sangue ao redor de Matteo.
Muito sangue.
Ajoelhada diante dele, apalpo seu corpinho inteiro.
Braços.
Pernas.
Pescoço.
Costas.
Nenhum ferimento.
Nenhum arranhão.
Nada.
— De onde vem esse sangue?
Minha voz sai como um sussurro.
Vincenzo o ergue nos braços.
Um grito escapa da minha garganta.
Com a mão livre, ele tenta me afastar.
Atordoada, desvencilho-me dele.
Volto a me ajoelhar na grama.
Só então percebo.
Ao meu lado.
Quase oculto entre as flores silvestres.
Um pequeno coelho.
Um filhote.
O pescoço quebrado.
Os pelos claros encharcados de vermelho.
Lentamente, ergo os olhos para Matteo.
Mostrando-me as mãozinhas ensanguentadas, ele balbucia:
— Cueio mau, mamãe...
Sua boquinha treme.
— Quis modê neném.
— Dess. Não pensa nada de ruim sobre ele. Por favor.
— Como não, Vincenzo? — No banco do carona, evitando olhar para Matteo sentado no banco traseiro, ofegante, pergunto: — Como acha que aquele coelho morreu?
— Não sei! Não foi o nosso filho!
— Quem foi então!?
Retirando Matteo do carro, Vincenzo o leva nos braços até a varanda de nossa casa. Somente depois de acomodá-lo no sofá da sala, volta-se para mim.
— Temos inimigos, Dess! Talvez um deles tenha matado o coelho só para que pensássemos coisas ruins sobre nosso filho! Isso não passou pela sua cabeça!?
— Um inimigo invisível matou um coelho, quebrou o pescoço dele e colocou o sangue nas mãos do nosso filho? É isso que está me dizendo?
— Estou dizendo que não sabemos o que aconteceu!
— Eu vi o corpo, Vincenzo!
— E eu vi o nosso filho chorando!
O silêncio que se segue é pesado.
Dentro da sala, Matteo brinca com um carrinho encontrado sob o sofá. Seu riso infantil atravessa a varanda como uma lâmina.
— Ele disse que o coelho queria mordê-lo. — Minha voz sai mais baixa. — E depois apareceu morto.
— Crianças inventam coisas.
— Matteo não inventa.
— Dess...
— Não! — interrompo. — Ele não inventa. Antoine também não inventava.
O nome dela paira entre nós como um fantasma.
Vincenzo fecha os olhos por um instante.
— Não compare os dois.
— Eu não estou comparando.
— Está sim.
— Porque estou com medo!
A confissão me escapa antes que eu consiga contê-la.
O vento vindo do mar faz a cortina da sala ondular atrás de nós.
— Estou com medo de perder mais alguém. Estou com medo de olhar para o nosso filho e enxergar alguma coisa que não deveria estar ali. Estou com medo de tudo, Vincenzo!
Sua expressão muda.
Pela primeira vez desde o penhasco, ele parece compreender exatamente o que estou sentindo.
— Eu também.
As palavras me desmontam.
— Então para de fingir que está tudo bem!
— E você para de procurar monstros em toda sombra!
— Depois de tudo o que vivemos, deveria existir uma sombra sem monstros?
Vincenzo não responde.
Porque não existe.
Nem para ele.
Nem para mim.
Nem para Matteo.
Ao longe, um trovão ressoa sobre o mar.
E, pela primeira vez desde a visita de Gabriel, sinto aquele aperto voltar ao peito.
O mesmo aperto.
O mesmo aviso.
Como se alguma coisa estivesse se aproximando.
E estivesse apenas esperando o momento certo para se revelar.
— Não. — Respondo ao passar por ele e seguir até a cozinha, onde esvazio uma garrafa inteira de água. — Lúcifer não estava ali. Eu o sentiria se estivesse.
Enxugo a boca com um pano de prato e, subitamente, começo a chorar.
Apoiando-me na pia, confesso:
— Eu não vou suportar ter um filho com transtornos de personalidade, Vincenzo. Não vou.
Enquanto lava as mãozinhas de Matteo na pia, Vincenzo tenta me acalmar.
— Ele não tem nada de errado, Dess. Talvez o coelho já estivesse morto e ele, curioso, apenas o tocou.
— Mamãe?
— Não.
Afasto-me de Matteo.
Tenho medo de descobrir a verdade no instante em que tocar nele.
— Fica com ele, Vincenzo. Eu preciso respirar.
Recuando, observo o sorriso inocente de meu filho.
Por um instante terrível, chego a duvidar daquela inocência.
Corro, desorientada, até a porta da sala, ouvindo Vincenzo me repreender.
— Você precisa crescer! Seus dias de adolescente mimada pela sua tia acabaram! Volta aqui!
Paro.
Da porta da sala, volto-me lentamente.
Encaro seus olhos.
Mais escuros do que o normal.
Mais vazios.
Mais distantes.
Então pergunto, num tom baixo:
— Tia?
Vincenzo franze a testa.
— O quê?
— Que tia, Vincenzo?
Confuso, ele leva a mão à cabeça.
Como alguém tentando alcançar uma lembrança que se recusa a ser encontrada.
— Eu...
Seu rosto empalidece.
— Não sei.
Mergulho no mar sem sequer tirar a roupa.
A água está morna.
Prendo a respiração.
Submersa, deixo que o silêncio me envolva.
Aqui embaixo não existem vozes.
Não existem profecias.
Não existem lanças.
Não existem coelhos mortos.
Só o som distante do oceano.
E, pela primeira vez naquele dia, consigo me acalmar.
Talvez Vincenzo esteja certo.
Talvez o coelho já estivesse morto.
Talvez Matteo não tenha força suficiente para quebrar o pescoço de um animal.
Talvez eu esteja enlouquecendo.
Meu filho precisa apenas de um banho.
Nada mais.
Volto à superfície.
Piscando contra a claridade, vejo alguém parado na areia.
Imóvel.
Observando.
Daqui parece um homem.
Alcanço a zona de arrebentação e cruzo os braços sobre os seios.
Desvio o olhar.
Finjo não vê-lo.
Mas o vento muda de direção.
E traz consigo seu cheiro.
Um cheiro pútrido.
Fétido.
Antigo.
Como carne esquecida dentro de um túmulo.
Meu estômago revira.
Continuo caminhando.
O cheiro aumenta.
Mais próximo.
Mais forte.
Mais próximo.
Ele está me seguindo.
Antes que seus dedos alcancem minha pele, viro-me abruptamente.
E o vejo.
O rosto pálido.
Os cabelos escuros escondendo parte da expressão.
Os olhos.
Meu Deus.
Não há diferença entre pupila e íris.
Apenas duas esferas negras.
Vivas.
Famintas.
Um sorriso lento se abre em seus lábios.
Ele ergue o braço coberto por tatuagens grotescas.
Uma das caveiras tatuadas parece me observar.
Os olhos amarelados da figura acompanham meus movimentos.
Como se estivesse viva.
Recuo um passo.
Depois outro.
Mas não demonstro medo.
Não para ele.
Não mais.
— O que veio fazer aqui?
— Rever um amigo. — Responde ele, olhando fixamente para a casa logo atrás de mim.
Inspira profundamente.
Depois sorri.
Um sorriso torto.
Doente.
— Você ainda cheira à luxúria.
Apanho um galho da árvore atingida pelo raio e o cutuco no peito.
— Fora da nossa propriedade.
Ele não se move.
— Você não é bem-vindo aqui.
Outro empurrão com o galho.
— E para de olhar para a nossa casa.
Um longo assobio escapa de seus lábios.
Lento.
Proposital.
Ele ergue o braço e acena.
Meu coração para.
Viro-me imediatamente.
E encontro Vincenzo parado na varanda.
Imóvel.
Sem expressão.
Sem reação.
Sem nada.
Matteo corre em minha direção.
O homem abre os braços.
Ajoelha-se.
Como alguém esperando uma criança retornar para casa.
Um calafrio percorre minha espinha.
Acerto o galho contra sua cabeça.
Com força.
Resgato Matteo segundos antes de ser alcançada por aquelas mãos imundas.
Enfurecido, ele emite um som agudo.
Um ruído impossível.
Algo entre um grito e o rasgar de metal.
Sua boca se abre além do que deveria.
Muito além.
As unhas compridas avançam em direção ao meu pescoço.
Então ele para.
Subitamente.
Assombrado.
Pendurado em minha corrente de ouro, o anel de Antoine começa a brilhar.
Uma luz branca.
Quente.
Familiar.
O verme recua.
Protegendo os próprios olhos.
Rosnando.
Sibilando.
Queimando.
— Nós voltaremos.
E desaparece.
Enquanto lavo os cabelos de Matteo na banheira, minhas mãos tremem.
Não consigo esquecer o som.
Aquele som.
Aquele grito impossível.
Aquela boca.
Aquelas unhas.
Seco as lágrimas com o dorso da mão.
Mas não é da criatura que tenho medo.
É de outra coisa.
De alguém.
De Vincenzo.
Ele não nos defendeu.
Desde que o viu parado na varanda, nada aconteceu.
Nenhuma pergunta.
Nenhuma reação.
Nenhuma palavra.
Nenhum abraço.
Nenhuma ameaça.
Nada.
Como se ele não estivesse realmente ali.
Como se parte dele já tivesse partido.
Agora está sentado sozinho na varanda.
O olhar perdido no horizonte.
O rosário de padre Pietro deslizando entre seus dedos.
Conta após conta.
Conta após conta.
Conta após conta.
Como alguém tentando se lembrar de alguma coisa.
Ou impedir que alguma coisa seja esquecida.
Será isso?
Será esse o início do fim?
O que mais pode acontecer?
Enxáguo a cabeça de Matteo.
O anel de Antoine aquece contra minha pele.
Fecho os olhos.
Ele ainda está aqui.
Um pedaço dela.
Um pedaço da minha menina.
Um pedaço de luz.
— Mamãe dodói?
Abraço Matteo contra meu peito.
— Tô, filho.
Minha voz falha.
— Eu não vou suportar outra perda.
Beijo o anel.
Com força.
Como se pudesse alcançar minha filha através dele.
— Onde quer que você esteja... não deixa que levem seu pai de mim.
Deitada na cama ao lado de Matteo, seguro sua mãozinha.
Fecho os olhos.
E sou arrastada para longe.
De volta ao penhasco.
De volta às memórias dele.
De onde estou, eu o vejo se afastar de mim enquanto brinco com Matteo.
A memória parece distante.
Nebulosa.
Mas consigo vê-lo.
Caminhando sozinho entre a relva alta.
Resmungando.
Reclamando do que chama de:
— Bichinhos insuportavelmente alegres.
Franzo a testa.
Não entendo.
Então acontece.
Num movimento brusco, ele se abaixa.
Apanha um dos coelhos.
Segura-o pelo pescoço com apenas uma das mãos.
O animal se debate.
Assustado.
Indefeso.
Antes que eu consiga gritar, sua outra mão segura a cabeça do filhote.
Um único movimento.
Seco.
Preciso.
Um estalo.
O som dos ossos se partindo ecoa dentro da minha cabeça.
O grito que escapa de minha garganta o faz erguer os olhos.
Assustado.
Confuso.
Ele olha ao redor.
Procura por mim.
Mas eu já não estou lá.
Volto ao meu corpo arquejando.
Com os olhos arregalados.
O coração disparado.
Abraço Matteo com tanta força que ele reclama.
— Mamãe?
— Não foi você.
As lágrimas descem sem controle.
— Não foi você, meu amor.
Beijo sua cabeça.
Uma.
Duas.
Dez vezes.
— Não foi você.
Devastada, caminho até a varanda.
Vincenzo continua sentado no sofá.
O rosário desliza entre seus dedos.
Conta após conta.
Conta após conta.
Conta após conta.
Seu tronco balança para frente e para trás.
Como uma oração.
Ou uma penitência.
Paro diante dele.
E pergunto sem rodeios:
— Por que matou o coelho?
Ele congela.
A conta seguinte para entre seus dedos.
Lentamente, ergue os olhos para mim.
Olhos cheios de medo.
— Não sei, Dess.
Minha respiração falha.
— O quê?
— Eu não sei.
Sua voz quase não existe.
— Eu já não sei quem sou.
Ajoelho-me entre suas pernas.
Seguro seu rosto.
Forço-o a me olhar.
— Você é Vincenzo Rossi.
Minha voz treme.
— Meu marido.
Engulo o choro.
— O pai dos meus filhos.
— Dess...
— Não nos deixa.
Seus olhos vagueiam.
Como se ele estivesse ouvindo vozes que eu não consigo ouvir.
— Vincenzo.
Seguro seu rosto com mais força.
— Olha pra mim.
— Papai dodói.
Matteo sobe no sofá.
Abraça o braço do pai.
Vincenzo o observa.
Por longos segundos.
Então o puxa para perto.
Beija o topo de sua cabeça.
Fecha os olhos.
E sussurra:
— Talvez seja o último abraço.
— Nunca!
Minha própria voz me assusta.
Abraço os dois.
Ao mesmo tempo.
Como se pudesse mantê-los unidos apenas pela força dos meus braços.
Descanso a cabeça sobre as coxas de Vincenzo.
E choro.
— Ninguém vai tirar você de mim.
Repito.
Como uma oração.
Como uma ameaça.
Como uma promessa.
— Eu te prometo.
— Dess...
Sua voz está distante.
Cansada.
— Eu errei.
Levanto a cabeça.
— Não.
— Eu devo ser punido.
— Não!
Levanto tão rápido que quase tropeço.
A raiva explode antes das lágrimas.
— Não!
Aponto para o céu.
Para as nuvens.
Para Deus.
Para quem quer que esteja ouvindo.
— Eu proíbo!
Minha voz ecoa pela varanda.
— Está ouvindo!?
— Dess...
— Eu proíbo o Seu Deus de tirar você de mim!
O silêncio que se segue é aterrador.
— Ele não percebe que temos uma criança para criar?
— Ele não percebe que eu preciso de você?
— Ele não percebe que já levou demais?
Vincenzo fecha os olhos.
Um sorriso triste surge em seus lábios.
— Ele me deu mais do que eu merecia.
Seu olhar sobe para o céu.
— Um amor.
Engole em seco.
— Filhos.
Outra pausa.
— Uma família.
As lágrimas escorrem.
— Eu fui feliz, Dess.
Sua voz falha.
— Eu fui...
— Para!
O tapa ecoa pela varanda.
Matteo se assusta.
Eu também.
Mas consigo sua atenção.
Pela primeira vez.
De verdade.
— Volta pra mim!
Seguro sua camisa.
— Está ouvindo!?
— Você é meu!
As lágrimas me cegam.
— Só meu!
— Entendeu!?
Por um instante...
ele parece voltar.
Aquele olhar.
Aquele mesmo olhar.
O homem por quem eu atravessei infernos.
O homem que escolhi.
O homem que me amou.
Movendo a cabeça devagar, ele tenta sorrir.
E responde:
— Sim.
Beija minha mão.
— Pra sempre.
Posso sentir o medo em cada célula de seu corpo enquanto ele me toca.
Como se cada segundo ao meu lado fosse precioso.
Como se estivesse tentando decorar meu rosto.
Minha voz.
Meu cheiro.
Minha existência.
Agora, abraçada ao pai dos meus filhos, ao homem por quem atravessei infernos, chego a odiar Gabriel.
O Arcanjo.
Por que descer à Terra apenas para anunciar o fim de algo tão bonito?
O fim de nós.
O fim da nossa família.
Que merda era aquela de "duas noites antes do fim"?
Seria o Apocalipse?
Lembro-me de ler aquele livro da Bíblia escondida no quarto de minha mãe.
Apocalipse.
Sempre ele.
Anjos caídos.
Bestas.
Trombetas.
Fogo.
Sangue.
Cavaleiros.
Abismos.
Eu vibrava com aquelas histórias.
Tinha pouco mais de dez anos.
Jamais imaginei que passaria boa parte da vida vendendo meu corpo.
Nem que seria salva por um anjo atormentado.
Nem que acabaria apaixonada por ele.
Nem que um dia estaria prestes a perdê-lo.
Não me deram escolha.
Nada.
Tudo me foi arrancado.
Justamente agora.
Justamente quando eu mais precisava de ajuda.
Ajuda do Céu.
Do Deus de Vincenzo.
Do Deus que aprendi a amar.
Do Deus que agora parecia disposto a levar embora tudo o que me restava.
Velas iluminam a sala.
O brilho dourado dança sobre as paredes.
O ambiente parece suspenso no tempo.
Como uma despedida.
Ou um velório.
O calor das chamas não consegue competir com o frio que escapa da pele de Vincenzo.
Tento conduzi-lo numa valsa lenta.
Mas ele quase não se move.
Está distante.
Cada vez mais distante.
Seus lábios tocam meus cabelos.
Sua respiração vacila.
Sua voz também.
— Não me esquece... Dess.
Meu coração se parte.
Mesmo assim respondo:
— Nunca.
Assustada, abro os olhos.
Matteo está ao lado da cama.
De pé.
Com o lábio inferior tremendo.
— Papai lá fóia.
Aponta para a varanda.
— Homem mau.
Começou.
O pensamento surge antes mesmo de eu conseguir respirar.
Corro.
Descalça.
Desesperada.
Ao alcançar a varanda, o vejo.
Vincenzo caminha sozinho pela areia.
A cabeça baixa.
Os ombros curvados.
Como alguém sendo conduzido para o próprio funeral.
Lá adiante...
três homens aguardam envoltos por uma névoa escura.
Uma escuridão que parece viva.
— VINCENZO!
Minha voz rasga a madrugada.
Corro.
Corro até alcançá-lo.
Seguro seu rosto entre minhas mãos.
Obrigo-o a me olhar.
— Olha pra mim.
Ele pisca.
Confuso.
Perdido.
E então...
sorri.
Um sorriso pequeno.
Vazio.
— Eileen?
Meu coração para.
— Não.
Sacudo seus braços.
— Não.
Mais forte.
— Sou eu.
As lágrimas já descem sem controle.
— Sou eu.
— Sua Dess.
— Lembra de mim.
— Por favor...
— Lembra de mim.
— Ele já está perdendo a memória.
A voz surge atrás de nós.
Fria.
Satisfeita.
Protejo Vincenzo com meu próprio corpo.
Como uma loba.
Como uma mãe.
Como uma mulher prestes a enlouquecer.
— Fica longe dele!
Rosno.
— Seu merda!
— Ele é um anjo!
— Já foi.
A criatura sorri.
Os cabelos desgrenhados dançam sob o vento.
— Não é mais.
Seus olhos brilham.
— Agora ele é nosso.
Impulsivamente, lanço areia contra seu rosto.
Avanço.
Meu pé atinge seu diafragma.
Com força.
Com ódio.
Com tudo o que ainda me resta.
Ele nem se move.
Apenas sorri.
Mostrando dentes afiados.
Animalescos.
Então ergue um dos braços.
Apenas isso.
Um gesto.
Pequeno.
Preguiçoso.
E eu voo.
Atirada vários metros para trás.
Como uma boneca quebrada.
Caída na areia.
Ofegante.
Humilhada.
Escuto sua voz:
— Você é humana.
Ele inclina a cabeça.
Observando-me.
— Lembre-se disso.
— NÃO SOU!
Ajoelhada na areia, traço símbolos cabalísticos com a ponta do indicador.
Minhas mãos tremem.
Minha respiração falha.
As palavras de poder escapam de meus lábios pela segunda vez em toda a minha vida.
Pela segunda vez.
E, como um aviso vindo do passado, a voz de Padre Pietro invade minha mente.
"Use seu poder uma única vez.
Ele vai sugar sua energia vital por completo.
E talvez você nunca mais se recupere."
— É por Vincenzo!
Grito para o céu.
As lágrimas se misturam à chuva.
— É por Vincenzo, Padre Pietro!
Fecho os olhos.
— Me ajuda!
Repito as palavras.
Uma.
Duas.
Dez vezes.
Meu corpo oscila para frente e para trás.
Quase em transe.
Quase fora de mim.
Então percebo.
Medo.
Pela primeira vez.
Medo nos olhos da criatura de cabelos longos.
Vincenzo continua me observando.
Indiferente.
Como se eu fosse apenas mais uma desconhecida.
O vento aumenta.
A areia sobe.
Um enorme redemoinho nasce ao meu redor.
Sinto algo sendo arrancado de dentro de mim.
Minha força.
Minha energia.
Minha vida.
Tudo é sugado pelo vórtice.
Um portal se abre.
Vincenzo dá um passo em minha direção.
Apenas um.
E, por um instante...
acredito.
Acredito que consegui.
Acredito que ele voltou.
Então escuto:
— Mamãe!
A voz de Matteo.
Assustada.
Tremendo.
Pequena.
E eu desisto.
Outra vez.
Desisto por ele.
Porque meu filho precisa de mim.
Porque não posso morrer.
Ainda.
O ciclone desaparece.
O portal se fecha.
E leva consigo a última esperança que eu possuía.
Abraçada a Matteo, corro atrás de Vincenzo.
— Olha pra gente!
Minha voz falha.
— Somos sua família!
— Não vai!
— Você consegue lutar contra isso!
Ele para.
Por um instante.
Apenas um instante.
— Quem são vocês?
Meu coração para.
Choro contra seu peito.
Seu toque volta a arder.
Não me importo.
Nada mais importa.
— Papai fica.
Matteo estende os braços.
As mãozinhas trêmulas.
Os olhos cheios de lágrimas.
Vincenzo o observa.
Depois me afasta.
Com força.
— Não me deixa!
Tropeço na areia.
Corro atrás dele.
— Você não precisa se juntar à Legião!
Ele se vira.
Os olhos completamente tomados pela escuridão.
A voz grave.
Fria.
Estranha.
— Eu não sou obrigado.
Pausa.
— Eu quero.
Meu corpo inteiro congela.
— Eu preciso deles para enfrentar aquele que matou Hariel.
Os punhos se fecham.
— Ele merece sofrer.
— Não pelas suas mãos!
— Não nos deixa!
— Hariel era minha filha!
O sorriso que surge em seus lábios é cruel.
Cruel porque não pertence a Vincenzo.
— Nunca foi.
O mundo desaba.
— Vincenzo!
Corro novamente.
— Ela era nossa Antoine!
— Por ela, fica!
— Hariel era um querubim.
Sua voz corta minha alma.
— Jamais se deixaria tocar por uma humana suja como você.
— Vincenzo...
Minha voz se quebra.
— Não me deixa.
Dou mais um passo.
— Somos sua família.
Ele olha para Matteo.
Depois para mim.
E nos dá as costas.
Segue caminhando.
Sem hesitar.
Sem olhar para trás.
Enquanto desaparece na névoa.
Ajoelhada na areia.
Destruída.
Vazia.
Choro até não conseguir respirar.
Matteo senta ao meu lado.
Confuso.
Assustado.
Pequeno demais para entender.
Seu abraço quase me mata.
Porque é o único que me resta.
Então...
Vincenzo para.
Lá longe.
Quase invisível.
As mãos sobem lentamente.
Tocam o próprio rosto.
Seus olhos clareiam.
Apenas por um segundo.
Um único segundo.
Sua voz atravessa a distância.
Rouca.
Quebrada.
Humana.
— Não... me esquece.
Cuspo na areia.
As lágrimas queimam meu rosto.
— Nunca.
Minha voz sai em um sussurro.
Um sussurro cheio de ódio.
Cheio de amor.
Cheio de dor.
— Eu vou te odiar pra sempre, Vincenzo.
E ele vai embora.
De volta à Legião.
De volta à escuridão.
De volta ao lugar onde eu não posso segui-lo.
Sem forças para me levantar, deito-me na areia.
Puxo Matteo para junto de mim.
Meu filho repousa sobre meu peito.
Escuto seu coração.
Escuto o meu.
Cada vez mais lento.
Cada vez mais distante.
— Ajudem meu filho...
As palavras quase não saem.
— Quem vai cuidar dele se eu...
A dor atravessa meu peito.
Violenta.
Insuportável.
Final.
E então...
uma voz.
Suave.
Triste.
Familiar.
— Você não está sozinha.
Fecho os olhos.
As lágrimas finalmente cessam.
— Eu vou cuidar de vocês, filha.


















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