CAPÍTULO 24 - EILEEN - VOLUME II
— Não pense que eu vou te agradecer por isso.
— Jamais esperaria isso de você. — provoca ele. — Uma moça tão generosa, cheia de virtudes…
Os risos ecoam pelo quarto.
Estou deitada, a perna esticada, engessada, pesada como chumbo. Olho para ela e penso, com um aperto no peito, em como vou dançar.
Fecho os olhos.
— Você vai se recuperar logo. — diz ele. — Não houve fratura. Só uma entorse.
— Então por que engessaram a perna inteira?
— Pra você não tentar voar de novo. — Ele sorri. — Bailarina, voadora… versátil.
Quero xingar.
Mas não consigo.
— Ele está bem. — sussurra.
Meu coração falha.
Tia Celeste pousa a mão sobre minha barriga.
— Amanhã vocês estarão em casa, a salvo daquele monstro.
— Tia… — repreendo, aflita.
— Nós já sabemos. — diz tio Enrico, emocionado. — Nosso neto está vindo.
Volto a chorar.
Vincenzo me abraça.
E, por um instante ridículo, eu me sinto segura.
Depois de muita dor, eu volto a dançar.
Com medo.
Sempre com medo.
Aiden está em algum lugar.
Eu sinto.
Como uma sombra grudada na pele.
Vincenzo agora passa horas no meu quarto.
Ensina.
Explica.
Insiste.
E eu… provoco.
De propósito.
— Você deveria se importar com isso.
— O quê?
— As teorias.
— Cara… você me ouve?
Ele hesita.
Droga.
— Você me ouve, não é?
— Você acredita em telepatia?
— Não.
— Então não.
Mentira.
— Deve ser incrível saber o que os outros pensam.
— Nem sempre.
Salto da cama.
— Te peguei!
Erro.
O tornozelo vira.
A dor explode.
— Não vou conseguir dançar… — choramingo.
— Vai sim.
Ele me deita com cuidado.
— Fecha os olhos.
— Tá inchando!
— Cala a boca. Fecha os olhos.
Obedeço.
Contra a vontade.
O calor vem.
Forte.
Quase insuportável.
Abro um olho.
Vejo.
As mãos dele.
O movimento.
A concentração.
Algo… errado.
Ou certo demais.
Fecho os olhos de novo.
Quando abro…
A dor sumiu.
— O que você fez?
— Nada.
— Mentira!
— Eu mandei fechar os olhos!
— Você não é normal!
Ele explode.
— Você não muda! Continua mimada!
— Não grita comigo!
Ele sai.
Eu vou atrás.
— Para!
Ele para.
Finalmente.
— Fica… — peço, sem força.
— Você precisa mudar, Eileen. Pessoas dependem de você.
— Quem?
— Seus tios. Antoine. Seu filho…
Uma pausa.
— …e eu.
Tudo desaparece.
Só sobra isso.
— Você precisa de mim?
— Mais do que imagina. Se eu não te mudar agora… não temos futuro.
O mundo inclina.
— Futuro? Você e eu?
Ele me encara.
Como se eu fosse idiota.
— Futuro, Dess.
Silêncio.
Frio.
— Dess?
A dor vira raiva.
O tapa vem antes do pensamento.
— NUNCA MAIS TROQUE MEU NOME!
Subo.
Fugindo.
Covarde.
Antes de fechar a porta, vejo ele…
quebrado.
— Fique com essa “Dess” e me deixa em paz!
Silêncio.
Então, baixo… quase inaudível:
— Você precisa mudar, Dess…
O pub está fervilhando.
Turistas. Risadas. Copos tilintando.
E eu…
esperando.
Cada vez que a porta se abre, meu coração dispara.
Ridículo.
Encho mais uma tulipa com Baby Guinness e, claro, derramo metade.
— Eu nunca vou aprender… — resmungo, limpando o vestido. — Não nasci pra isso.
— Concordo.
A voz me corta.
Viro.
Um homem.
Elegante demais.
Errado demais.
— Você nasceu pra brilhar, meu bem.
Ele já está indo embora quando eu jogo o avental no balcão e vou atrás.
Não penso.
Só vou.
— Espera!
Lá fora, o vento frio me acerta em cheio.
Ele para.
Sorrindo.
Como se já soubesse.
— Quem é você?
Agarro sua gola.
Ele olha minha mão.
Só isso.
Eu solto.
— Por que veio aqui?
— Porque ele tem vindo.
— Quem?
Ele ri baixo.
— Não seja boba.
Meu estômago revira.
— O bonitão. Vincenzo.
— Não toca nele.
— Então já começou…
— Não temos nada.
Mentira amarga.
— E nem devem ter. — A voz dele endurece. — É pro seu próprio bem.
Não confio.
Abro a mão.
Sal grosso.
Ele ri.
— Vai me temperar?
— Não.
Desenho o círculo.
A linha na soleira.
Proteção.
Simples.
Antiga.
Funciona.
— Tenta entrar.
Ele tenta.
E para.
As fagulhas queimam o ar.
Interessante.
Ele não gosta disso.
— Você lembra… — murmura.
— Lembrar do quê? Aprendi em livros.
Mentira mal contada.
Ele percebe.
Claro que percebe.
— A chuva leva o sal… — diz, calmo. — O meu poder só cresce.
— O nosso.
A voz de Vincenzo.
Atrás de mim.
Droga.
Quero virar.
Abraçar.
Beijar.
Não faço nada.
Porque o olhar dele…
me trava.
— Desde quando ele fala com você?
— Segunda vez. Eu juro.
— Que bonito. — Lúcifer bate palmas, lento. — Primeira briga do casal?
— Não somos um casal.
— Ainda.
Silêncio pesado.
— E quando forem… — ele sorri — Eu vou estar por perto.
— E eu vou estar pronto. — A voz de Vincenzo muda. Fica… perigosa. — Fica longe dela, Lúcifer.
Meu cérebro trava.
— Lúcifer… tipo… o Lúcifer?
— O único. — Ele inclina a cabeça. — E eu vim cobrar um pacto.
O ar pesa.
— Está preparado, Cassiel?
Cassiel.
Eu olho pra ele.
Ele hesita.
Só um segundo.
Mas eu vejo.
— Por elas… — ele diz baixo — Eu faço qualquer coisa.
Elas?
Ah, não.
— ELAS?!
Pronto.
Explodi.
— De novo essa porra?!
Empurro ele.
— Desisto de você!
— Que sensível… — Lúcifer sorri, divertido.
Quero arrancar aquele sorriso.
— Vai pro inferno!
— Já estou em casa, querida.
Ele se aproxima um pouco.
— Cuidado com o seu outro pretendente…
Meu sangue gela.
— Aiden?
— Ele quer o que está dentro de você.
Meu mundo para.
— NÃO.
Vincenzo me puxa.
— Não acredita nele.
— Eu poderia mentir… — Lúcifer dá de ombros — Mas hoje estou de bom humor.
Ódio.
Eu sinto.
Dele.
Por ele.
Por todos nós.
— Mande lembranças à Antoine.
Vincenzo avança.
Segura o pescoço dele.
E, pela primeira vez…
eu vejo medo.
Não de Lúcifer.
De si mesmo.
— SOME.
Lúcifer só ajeita a roupa.
Calmo.
Sempre calmo.
— Até breve… Cassiel.
Ele desaparece.
Simples assim.
— PRA ONDE ELE FOI?!
— Entra.
— Seu nome é Cassiel?!
— Entra.
— Isso é nome de anjo, caralho!
— ENTRA!
— EU NÃO TE OBEDEÇO...
Ele me joga no ombro.
Sem cerimônia.
— Aiden está por perto.
Pronto.
Entro.
Na marra.
Segura.
E, contra toda lógica…
esperançosa.
Da calçada da faculdade, eu o vejo.
Aiden.
Instintivamente, levo a mão à barriga.
Meu passo acelera.
Olho para trás.
Nada.
Só gente feliz demais pra perceber o perigo.
Idiotas.
Corro.
Preciso chegar ao pub.
Preciso me proteger.
Ele acena de dentro do carro.
Como se fosse normal.
Como se não tivesse me atropelado.
O que mais ele quer de mim?
No meu filho ele não encosta.
Não encosta.
Abro a porta do pub.
E travo.
— Cacete… o que vocês estão fazendo?
— O que parece?
Vincenzo.
Abraçado com Antoine.
Rindo.
Dançando.
Nossa coreografia.
NOSSA.
Algo rasga dentro de mim.
— No meu pub?!
— Dos seus tios. — ele responde, tranquilo.
Jogo os cadernos na mesa.
Avanço.
— Saiam daqui antes que eu perca a cabeça!
— Se perder, procura debaixo da mesa. — ele debocha.
Antoine ri.
Eu desligo a jukebox.
Arranco o plugue.
Silêncio.
— Idiota! — ele explode.
— Não fala assim com ela… — Antoine tenta.
— Não preciso de defesa! — cuspo. — Que lindo, Antoine. Mostrando nossos passos pra ele!
— Foi ele quem pediu…
— E você faz tudo o que ele pede agora? Desde quando? Desde que começaram a transar?
Silêncio.
Pesado.
Errado.
Os olhos dela enchem.
Passei do limite.
E não me importo.
— Por que está me olhando assim? — provoco. — Porque eu falei a verdade?
Ele vem.
Perto demais.
— Tenho pena do seu filho.
Silêncio.
— Ele não merece uma mãe egoísta, mesquinha e invejosa.
Cada palavra.
Uma lâmina.
— Você usa a Antoine. Sempre usou.
— Para… — ela chora.
— Que chore. — ele continua, frio. — Ela dança como homem porque você manda. Ela se apaga por você.
— Ela quis!
— Ela aceitou. Porque te ama.
Eu recuo.
Não gosto disso.
Não gosto nada.
— Ela é rica! — rebato. — Tem tudo!
— Tem uma governanta. — ele corta. — Não tem mãe.
Silêncio.
— EU TAMBÉM NÃO! — grito. — FUI ABANDONADA! POR MINHA MÃE!
— Fez bem.
O mundo para.
Antoine reage primeiro.
— Não fala assim dela!
Mas ele já não fala comigo.
— Meu anjo… — diz pra ela, doce. — Você precisa sair disso. Isso não é amizade.
— É sim. — ela sorri.
SORRI.
Quem sorri numa hora dessas?
— Ela é minha melhor amiga.
Aquilo…
me quebra.
— Chega! — ele explode.
Respira fundo.
Passa a mão no cabelo.
Cansado.
— Eu cansei, Eileen.
O chão some.
— Eu não vou desistir de nós. — ele continua. — Mas posso desistir de mim.
— Quem é essa tal de Dess?!
— Alguém que vive dentro de você.
— Não entendi!
— NÃO ENTENDA!
Ele vira.
Vai embora.
— Não vai! — eu imploro. — Eu preciso de você!
Ele para.
Mas não volta.
— Você não precisa de mim. — diz, sem olhar. — Precisa crescer.
Silêncio.
— E crescer dói.
Eu vejo.
Não devia.
Mas vejo.
Asas.
Caídas.
Pesadas.
Reais.
— Alguns aprendem pelo amor… — ele diz — outros pela dor.
Meu peito aperta.
— Quando estiver pronta… me chama, minha Dess.
— EU NÃO SOU ESSA PORRA!
— É sim.
Ele vai.
E leva alguma coisa comigo.
Antoine me abraça.
Eu desmorono.
— Me perdoa… — digo, sem ar.
— Eu também sinto sua falta.
A voz dela…
sempre calma.
Sempre boa.
— Eu te invejo. — confesso. — Sempre invejei.
Ela sorri.
Triste.
— Eu preferia ter meus pais vivos.
Silêncio.
Eu ignoro.
Porque sou assim.
— Ninguém gosta de mim. — continuo. — Nem ele.
Ela me observa.
Diferente agora.
— Vincenzo mentiu.
— Quando?
— Nós somos irmãos.
Meu cérebro trava.
— Irmãos?!
— Ele sempre cuidou de mim.
Algo não fecha.
Nada fecha.
— Ele tem asas… — sussurro.
Ela ri.
— Claro que não.
Mas…
algo muda.
No olhar.
Na voz.
No ar.
— Você trouxe Aiden. — ela diz.
Frio.
— Não… eu não...
— Usou magia.
O mundo gira.
— Seu outro lado o trouxe.
— Que lado?!
— A outra.
Eu recuo.
— Antoine… para…
Mas não é mais ela.
— Seu filho foi concebido naquela noite.
— PARA!
— O corpo não era seu.
Minhas mãos tremem.
— ACORDA!
Sacudo ela.
Nada.
— Eles o querem.
— NINGUÉM VAI TOCAR NO MEU FILHO!
— Desfaça o acordo…
— QUE ACORDO?!
— Uma vida… pela outra.
Silêncio.
Morto.
Eu estapeio.
Ela volta.
Respira.
Assustada.
— O que eu fiz?
Eu abraço.
Forte.
Como se fosse quebrar.
— Nada… — minto. — Fica calma.
Mas dentro de mim…
eu sei.
Eu comecei isso.
E agora…
vou ter que terminar.
— É um menino.
— Uau! Tio Enrico vai amar, Eileen!
— Está se sentindo bem? — pergunta a ginecologista, deslizando o transdutor sobre minha barriga exposta, fria e coberta de gel.
Enquanto ela observa a pequena tela à sua frente, eu prendo a respiração.
Até então, meu filho era apenas uma ideia. Um medo. Um erro. Um segredo.
Agora, ele está ali.
Pequeno. Real. Vivo.
Flutuando no líquido amniótico, com o coração batendo quase tão rápido quanto o meu.
Uma onda de emoção me atravessa inteira. Minha garganta trava.
— Eileen? Você está bem?
Engulo em seco.
— Ele… é perfeito?
— Aparentemente, sim. Ainda precisamos de mais exames para fechar o diagnóstico, mas, por enquanto… — ela sorri — Seu bebê é perfeito.
Tia Celeste e Antoine comemoram como duas crianças descontroladas. Tio Enrico, no canto da sala, chora em silêncio, limpando o rosto com as costas da mão.
A médica ri da cena.
— Já tem nome?
— Matteo! — dispara tio Enrico, erguendo o braço como se estivesse num leilão. Logo se recompõe, meio sem graça. — Meu neto é italiano.
— Que lindo — comenta a médica. — Você é italiana?
— Não… — começo, mas tia Celeste me atropela, rindo.
— Nós somos italianos. Ela é irlandesa.
— Entendi… — a médica hesita por um segundo. — E o pai do bebê?
O silêncio que cai na sala é pesado o suficiente para quebrar ossos.
Meu estômago revira.
Antes que eu precise responder, ela suaviza o tom:
— Não precisa dizer nada. Fui indiscreta. Você é a mãe. Isso basta. E, se o avô é italiano… justo que o neto também seja.
Solto um pequeno sorriso.
— Obrigada.
O som do coração do meu filho preenche o espaço.
Forte. Rápido. Teimoso.
Como se já estivesse lutando para existir.
Respiro fundo.
— Meu filho já tem nome.
— Matteo? — insiste tio Enrico, quase implorando.
Eu fecho os olhos por um segundo.
E então digo:
— Vincenzo.
— Uau… — Antoine ri, surpresa. — Essa eu não esperava.
Ainda choro ao me lembrar de suas últimas palavras antes de desaparecer da minha vida. Foram duras… mas verdadeiras.
Ele se foi porque eu não era quem ele queria que eu fosse.
Não o compreendo… mas sinto sua falta.
Por que me trata como se eu fosse nada?
Apesar da humilhação, começo a enxergar o quanto fui injusta com Antoine. Pela primeira vez, penso em deixá-la brilhar. Ela merece. Sempre mereceu mais do que eu.
Emagreci demais com a gravidez. Não há mais nada para vomitar. Minha pele pálida não convence ninguém de felicidade. Muito menos de paixão.
Se eu vestir as roupas masculinas… talvez funcione.
Um homem arrasado.
Fracassado.
Consumido.
Isso eu sei interpretar.
— Eu serei o homem.
— Não!
— Sim, Antoine! Vem e veste minha roupa!
Silêncio.
— Não posso… — sua voz falha do outro lado da linha. — Estou de cama, amiga.
O mundo para.
Encosto na parede e deslizo até o chão.
— Repete. — minha voz sai baixa, perigosa. — Tenho poucas fichas.
— Eu não vou poder dançar.
O som ao redor vira um borrão. Bailarinos passam, rindo, vivendo… enquanto eu afundo.
— COMO ASSIM, ANTOINE!? O SHOW COMEÇA EM MINUTOS!
— Vai dar tudo certo…
— NÃO VAI! LEVANTA E VEM! ANTOINE!
A ligação cai.
Silêncio.
— Ela desligou.
Ergo os olhos.
Ele.
Claro que tinha que ser ele.
— Vai amassar o vestido se continuar aí no chão.
Solto uma risada vazia, derrotada.
— Parabéns. Você estava certo. Eu fui uma péssima amiga. Deve ser isso… punição divina.
Ele estende a mão.
— Vem. Levanta. E para de drama.
Reluto.
Ele não.
Me puxa.
Me ergue.
Me carrega.
E pronto. Meu coração já esqueceu como se odeia alguém.
— Ainda temos uma hora — diz ele, calmo demais. — Dá pra ensaiar.
— Ensaiar!? — rio, quase histérica. — Vincenzo, levamos meses pra montar isso!
— Você continua burra… — ele me encara — …e linda.
Reviro os olhos, mas sorrio.
Droga.
— Você tá mais pesada.
— Vai se ferrar.
— Pronto. A Eileen de verdade voltou.
Idiota.
Perfeito.
Ele me coloca no chão.
— Vamos dançar?
— Aqui? No meio de todo mundo?
— Não é pra isso que viemos?
— Não tem música.
Ele se aproxima.
Mão na minha cintura.
Curto-circuito imediato.
— Escuta melhor — sussurra no meu ouvido. — A música tá em todo lugar.
Nossos dedos se entrelaçam.
Ele começa a cantarolar.
Baixo.
Quase inaudível.
Mas eu ouço.
E quando levanto os olhos…
Os dele já estão em mim.
Azuis.
Calmos.
Como se o mundo inteiro tivesse parado só pra esse momento.
— Consegue ouvir?
— Sim. Como faz isso?
— Não fiz nada.
— Fez sim. — afirmo, apoiando o rosto em seu peito.
O coração dele bate rápido.
Escolho acreditar que é por minha causa.
— Do que está rindo?
— Felicidade. Só isso.
Borboletas se agitam dentro de mim.
— Dança comigo?
— Sim… — suspiro.
Contrariando todas as minhas expectativas, vencemos.
Vincenzo dança como se tivesse nascido para aquilo. Como se cada passo já existisse dentro dele antes mesmo da música começar.
No último movimento, salto.
Ele me segura.
Braços firmes. Corpo alinhado ao meu. Suspensa no ar, sinto o mundo inteiro desaparecer por um segundo.
A plateia explode.
Quando meus pés tocam o chão, nossas mãos ainda estão entrelaçadas.
Nos curvamos.
E então...
Ele me beija.
Um beijo rápido. Quente. Decidido.
O público enlouquece.
Eu… travo.
Idiota. Era pra ter puxado ele de volta.
— Foi simplesmente esplêndido!
— Antoine!? — arregalo os olhos. — Você não estava doente?
— Você é muito ingênua… — diz tia Celeste, rindo. — Ainda não entendeu?
— Entender o quê!?
— Foi tudo armado, filha — completa tio Enrico.
Olho para Vincenzo.
Ele está lindo. Suado. Respirando pesado. Irritantemente perfeito.
— Explica.
— O que tem de bonita, tem de lenta — ele solta.
— Vincenzo! — Antoine repreende. — Eu ensinei tudo pra ele. Era pra ele dançar com você.
— Por quê?
— Porque você precisava ganhar — ele responde, direto. — E precisava de um parceiro à altura.
— Talvez agora você possa ir embora da cidade — completa, como se fosse simples.
Passo por ele.
— Não quero mais ir.
— Por quê?
Paro. Respiro.
— Talvez… um dia eu responda.
E eu nunca respondi.
Porque, a partir daquele dia, eu fiquei.
Por ele.
Vincenzo e eu nos tornamos inseparáveis.
Brigamos. Muito.
Mas, pela primeira vez na vida… eu mudo.
Uso o dinheiro do prêmio para o enxoval.
Ele me ajuda a escolher tudo.
Cada detalhe.
Como se… importasse mais do que deveria.
— Dizem que é melhor montar o berço depois que o bebê nascer.
— Não acredito nisso.
— Então eu te ajudo.
— Uau. Convite formal pra montar o berço do meu filho?
Ele se ajoelha diante de mim.
Sério.
— É um dos momentos mais importantes da minha vida.
Meu peito aperta.
— Você me confunde.
— Você mudou, Eileen.
— E gosta disso?
— Gosto de quem você está se tornando.
Engulo seco.
— Eu fiquei… por você.
Silêncio.
— E meu filho?
— Também.
Ele sorri de um jeito estranho.
Quase triste.
— Ele tem nome?
— Tem.
— Matteo?
— Vincenzo.
Ele para.
Como se o mundo tivesse acabado de puxar o chão dos pés dele.
— Não acredito…
Ajoelho na frente dele.
— Não teria nome melhor.
Ele levanta os olhos.
— Nosso.
Meu coração falha.
— O quê?
— Casa comigo?
— A gente nem se conhece.
— Conhece, sim… minha Dess.
Reviro os olhos.
— Eu odeio esse nome.
— É você. Não tenha ciúmes.
— Eu tenho. Eu deveria ser a única em sua vida.
— E é. Sempre foi. Sempre será.
— Por que não me ama como eu sou? Por que precisa se lembrar dessa tal de 'Dess'? — Um beijo em minha testa e ele pede.
— Se esquece disso. Ok?
Claro.
Simples.
Tão simples.
Sem opções, concordo.
— Ok.
— Casa comigo? — insiste ele com aquele olhar que me desmonta. — responde.
— Não sei. — provoco. — E se você não for 'bom de cama'?
— Sério?!
Seus olhos se arregalam, indignados. Eu, estupidamente, enrubesço enquanto o observo retirando a blusa, expondo seu tórax perfeito, suas pernas torneadas...seu...
— Vincenzo!
— Com roupa ou sem roupa?! — ele pergunta, afoito, retirando meu macacão, a blusa que cobria meus seios agora maiores. Um passo atrás e, arfando, ele anuncia. — Preciso passar no teste! Pode ser agora?!
Após meses, eu transo com um homem.
Mentira feia.
Após uma vida inteira, eu faço amor com o homem da minha vida.
Ao meu lado, deitado, relaxadamente, sobre o tapete felpudo, ele pergunta como quem já conhece a resposta.
— Aprovado?
— Com louvor!
Rimos juntos. De mãos dadas, ele volta a me propor.
— Casa comigo?
— Então aprende a amar quem eu sou.
Ele me encara.
E, dessa vez, não foge.
O beijo vem diferente.
Sem pressa.
Sem disputa.
Sem jogo.
E, pela primeira vez…
não parece só desejo.
Parece escolha.
Casamos.
Simples assim.
Como se fosse inevitável.
Como se já tivesse acontecido antes.
— Não importa quantas vezes eu me case com você — ele diz, segurando meu rosto — Pra mim, é sempre a primeira.
— Você fala cada coisa estranha…
Rimos.
Saímos da capela.
Foto. Flores. Gente feliz.
E então...
Eu vejo.
Aiden.
Parado. Observando.
Esperando.
Meu sorriso morre.
— Ele está aqui…
— Quem?
— Aiden.
O corpo de Vincenzo endurece.
— Fica calma. Eu estou aqui.
— Não tenho medo dele…
Minha voz falha.
— Tenho medo de te perder.
Ele segura meu rosto.
— Quando vai entender?
— O quê?
— Que é tudo você.
— Então prova.
Silêncio.
— Me ama como eu sou.
Exausta, tiro os sapatos e, descalça, procuro uma cadeira.
Sorrio ao ver meus tios indo de um lado ao outro do pub, servindo, rindo, vivendo.
Talvez… eu também consiga.
— Com certeza.
Viro o rosto.
— Você lê meus pensamentos?
— Leio. Desde o início. — ele ri, já meio alto pelas garrafas de Guinness.
— Bastardo! — bato em sua cabeça. — Sempre soube que eu te queria!?
— Você precisava crescer, Sra. Rossi.
Esse sorriso…
Droga.
— Vem.
— Pra onde?
— Dançar! Hoje é festa! Eu me casei com você!
Ele me puxa pro meio do salão.
— Fica aí.
— Ok…
Antoine o ajuda com a jukebox. A música começa.
Ele comemora como uma criança.
Nunca vi ele assim.
— Sério? Essa música?
— Nosso amor é óbvio!
— Que frase horrível!
— Eu sei! A felicidade me deixa ridículo!
E, por alguma razão… eu amo isso.
Dançamos.
Primeiro só nós.
Depois todos.
O pub vibra.
Luz. Risos. Música.
Vida.
Até que...
Levo a mão à barriga.
— O que foi?
— Ele mexeu…
O mundo para.
— NOSSO FILHO SE MEXEU!
Gritos. Risos. Brindes.
Mas eu só consigo olhar pra ele.
— Te amo… per sempre.
— Per sempre, marido.
Ele encosta a testa na minha.
— Nada importa… além disso.
— Nem a outra?
Ele hesita.
— Dess…
Reviro os olhos, mas abraço mais forte.
E então...
O sino.
Um som seco.
Errado.
Frio.
Meu corpo trava.
— Não faz nada… por favor…
A luz começa a morrer.
Sombras rastejam pelas paredes.
Engolem o pub.
— Vocês não são bem-vindos aqui.
Aiden.
Sorrindo.
Sempre sorrindo.
Corro até o balcão, pego o giz e desenho no chão. Rápido. Preciso. Instintivo.
As palavras saem da minha boca antes mesmo de eu pensar nelas.
— Sai daqui — rosna Vincenzo.
— Duvido.
— SAI! — grito, cuspindo nele. — Eu tenho nojo de você!
— E o nosso filho, baby?
O soco de Vincenzo quebra o nariz dele.
O som é seco.
Mas Aiden… ri.
Sempre ri.
— Vim em paz.
— Assassino! — grita meu tio.
— Vou chamar a polícia — diz tia Celeste.
— E dizer o quê? — ele levanta a caixa. — Trouxe um presente pro nosso filho.
Meu estômago vira.
— Não temos nada! — cuspo. — Meu filho tem pai.
— Sempre criando filho dos outros, hein? — ele provoca.
Sinto Vincenzo avançar.
Seguro ele.
— Ele não está sozinho.
— Eu sei.
Antoine entra na frente.
— Você não vai levar nada hoje.
Aiden sorri.
Erro.
Antoine o acerta.
Forte.
Direto.
Ele cai.
Mas continua sorrindo.
— Não abram a caixa! — ela grita.
Tarde demais.
A caixa cai.
Abre.
Um bebê.
Sangue.
Gritos.
O caos explode.
Antoine se aproxima.
— É um boneco...
— NÃO TOCA!
Tarde.
A fenda se abre.
Baratas.
Centenas.
Vomito.
Direto sobre aquilo.
Silêncio.
— O feitiço… foi quebrado.
Mas já é tarde.
Ela está vindo.
A outra.
Meu corpo não é mais meu.
— Dannazione… eu vou te matar!
Estou sobre Aiden.
Uma garrafa quebrada na mão.
A ponta encosta no pescoço dele.
Eu vejo.
Mas não controlo.
Vincenzo me puxa.
Meu corpo luta.
Grita.
Se debate.
Eu grito por dentro.
Pelo meu filho.
Pelo controle.
Pela minha sanidade.
O giz ainda está na minha mão.
Com o último esforço…
Escrevo no chão:
“Me ajuda.”
E tudo apaga.
Ouço a voz de Vincenzo me chamar.
— Está aí?
— Sim… — respondo, envolta na escuridão. — Tenho medo. Salva nosso filho.
— Fique calma, Eileen. Não vai doer. Eu prometo. — sua voz treme levemente. — Vou te contar uma história… e, quando terminar, vou contar de três até um. Quando acordar, só vai lembrar da sua vida atual.
— Uma história de amor?
— De muito amor… — sussurra. — Nunca se esqueça… eu sempre te amei… e sempre vou te amar, Morgana.
Meu coração aperta.
— Anche io… ti amo…
Tudo some.
Acordo com uma melodia suave.
— Sha na na na… it’ll be all right…
Abro os olhos, confusa.
— Que música é essa…?
— Três… dois… um… — ele sussurra. — Volte, Eileen.
Pisco.
— Por que estou na cama?
O mundo parece… normal demais.
— A festa acabou? Eu desmaiei?
— Calma, filha… — diz tia Celeste.
— Antoine! A caixa!
— Não abrimos — garante tio Enrico.
Tudo… certo demais.
Quase perfeito.
— Preciso de um banho. Vincenzo, tira esse vestido de mim, vai?
Risos.
Estranhos.
Mas eu ignoro.
Porque estou feliz.
Porque estou segura.
Porque ele está aqui.
— Ainda tem alguém no pub?
— Não, filha…
Paro na escada.
— Tem sim.
Desço rápido.
E vejo.
Aiden.
Sorrindo.
Sempre sorrindo.
— Ainda aqui?
A garrafa voa da minha mão.
Ele desvia.
Aplaude.
— Eu ouvi tudo, Vincenzo.
O ar muda.
— Vai mesmo apagar ela sempre que quiser? — ele ri. — Bonito. Romântico até.
— Sai daqui — rosna Vincenzo.
— Agora eu sei como acordar ela também…
Um frio percorre minha espinha.
— Do que você tá falando?
— Nunca pensou que talvez… você não seja a mais amada?
Silêncio.
— Não escuta ele! — Vincenzo corta, tenso. — Ele mente.
— Eu minto? — Aiden sorri. — Ou você que vive uma mentira?
Vincenzo avança um passo.
— O que você ouviu?
— O suficiente.
E então...
Ele canta.
A mesma música.
Lenta.
Doce.
Errada.
— Sha na na na… it’ll be all right…
Meu corpo trava por um segundo.
Vincenzo empalidece.
— Maldito…
Aiden recua.
— Até breve, baby.
E desaparece na noite.
Beijo Vincenzo.
Preciso disso.
Preciso dele.
— Ainda vamos pra Itália?
Ele sorri.
Triste.
— Foi lá que tudo começou…
A Itália me devolve o fôlego.
Estradas longas. Céu aberto. Casas antigas.
E ele.
Sempre ele.
— Quero que conheça nosso lar.
— Nosso?
— Nosso.
Paramos.
E então eu vejo.
Um castelo.
— Isso… é seu?
— Nosso.
Ele me pega no colo.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Bem-vinda.
— Eu vou odiar… — murmuro, sem conseguir parar de sorrir.
Os dias passam leves.
Mas o lugar… fala.
Sussurra.
Ecoa.
E eu vejo.
A ruiva.
Sempre molhada.
Sempre triste.
Sempre procurando.
— Quem é Giovanni?
Vincenzo engasga.
— Por quê?
— Porque ela chama por ele.
Silêncio.
— Você vê coisas… — ele diz, mais baixo.
— Eu não sou maluca.
— Eu sei.
Ele se aproxima.
— Você sente o passado. Pessoas. Lugares…
— Como sabe disso?
Ele sorri.
Um sorriso antigo.
— Porque eu te conheço há muito tempo.
Frio.
Um arrepio sobe pela minha coluna.
— Aqui… era feliz, não era?
— Muito.
— “Era”?
Ele hesita.
— Todos fomos felizes aqui.
— “Fomos”?
Ele ri.
— Ciúme até disso?
— Sempre.
Ele toca minha barriga.
— Falta pouco…
— Você não se importa?
— Com o quê?
— Ele não é seu.
Vincenzo me encara.
Sem dúvida.
Sem hesitação.
— Eu amo ele como se fosse.
Uma pausa.
— E depois… quero o nosso.
Meu rosto esquenta.
— Então… é melhor você começar a treinar.
— Com dedicação — ele responde, baixo.
Seguro o riso.
Seguro tudo.
Mas não seguro o olhar.
Ele me pega no colo.
Subindo as escadas.
Minha risada ecoa pelos corredores.
Mas não é só isso que ecoa.
A ruiva está lá.
Parada.
Olhando.
Assustada.
— Giovanni… — ela sussurra.
Meu coração trava.
Vincenzo não responde.
Mas eu sinto.
Ele ouviu.
Em nossa última noite na Itália, Vincenzo me convida a dançar no vasto salão iluminado por lustres de cristais belíssimos pendendo do teto abobadado. Um pouco distante, na sala de estar, o fogo lambe a lenha na lareira enquanto meu coração se comprime sem motivos.
— Tem medo do fogo?
— Não sei. Ele me incomoda — respondo, abraçada a ele. — Eu costumava gostar.
— Posso apagar.
— Não. Deixa pra lá — sorrio ao observá-lo. — Você está lindo, marido. Parece ter saído de um dos livros de Jane Austen. Já leu Orgulho e Preconceito?
— Muitas vezes.
— Eu amei esse vestido, “Mr. Darcy”. Nem parece que é a primeira vez que o visto.
— Talvez não seja...
— Ai! — reviro os olhos. — Você e suas frases de efeito. Quase não coube — choramingo. — Estou uma baleia.
— Você está tão bela quanto sempre foi... — um sorriso tímido surge enquanto ele faz uma leve reverência.
— Seja minha “Elizabeth” e dance comigo, meu grande amor.
Um beijo no dorso de minha mão e a magia acontece.
Dançamos juntos como nos bailes do século XVII. Passos rítmicos, suaves, delicados. Há lágrimas em seus olhos ainda mais azuis. Bailando com maestria, ele me corrige com ternura quando erro.
— Está se sentindo bem?
— Não sei, Vincenzo. Tenho a impressão de já ter vivido isso.
— Um “déjà vu”.
— Não. — Interrompo a dança e olho ao redor. As velas acesas, os risos, um grito de horror... — É mais do que isso. Parece que eu já estive aqui e já sofri aqui também.
— Vamos parar. Foi uma péssima ideia.
Arrependida por vê-lo triste, peço desculpas.
— Devem ser os hormônios, amor. Vamos continuar. Essa é a nossa última noite na Itália. Não quero estragar tudo.
Abraçando-me com força, ele indaga ao beijar meus cabelos:
— De que tem medo?
— De voltar à Irlanda.
— Vamos morar em outro país.
— Não posso! — Recuo. — Meus tios precisam de mim! Estão velhos e cansados! Quem vai cuidar do pub!?
— Alguém que não seja você, amor! Precisamos começar uma vida nova!
— Não sem meus tios... — Protesto aos prantos. — Agora que posso ajudá-los, você quer que eu os abandone?
Baixando a cabeça, ele sorri ao comentar:
— Vc mudou mesmo.
— E isso é ruim?
— Não. Você cresceu. Temos um futuro, Dess.
— Do que me chamou!?
— De amor, Eileen.
— Ah... tá. — Forço-me a esquecer o que ouvi. — Teremos um futuro em minha terra.
— Teremos?
— Claro que teremos, Vincenzo. Nosso filho, você, meus tios e eu.
Apreensivo, ele concorda:
— É isso. Temos um futuro na Irlanda. E não se esqueça de Antoine.
— Nunca! Agora somos amigas e cunhadas!
Tocando as paredes do salão, debaixo de uma tocha acesa, indago:
— Por que sinto que algo de muito ruim aconteceu aqui?
— Porque deve ter acontecido.
— Vc tá me escondendo alguma coisa. O que houve aqui?
— Melhor não saber, amor.
— Mas eu quero saber. — Insisto. — Eu ouço cavalos relinchando. Isso não faz sentido.
— Eu cometi um erro ao te convidar pra dançar. — Ele passa as mãos pelos cabelos. — Eu queria reviver aquele momento, mas não deu certo.
— Que momento!? Eu não acredito em vidas passadas, Vincenzo!
— Melhor assim.
— Me fala. Por favor.
— Quer acordar a “outra”? — pergunta num tom sinistro.
— Não. Não mesmo. Por que faz isso!?
— O quê!?
— Brincar comigo! Se sabia que isso poderia acordar a “outra”, por que estamos aqui, dançando!?
— Eu errei, porra! Perdão!
— Tá perdoado!
Grito, arrastando a saia pomposa pelo chão do salão.
— Essa roupa pesa mais do que meu vestido de noiva. Como as mulheres daquela época conseguiam ficar dentro disso por tanto tempo!?
— Vc amava vestidos novos... — diz ele, nostálgico.
— Para de falar de mim no passado ou vai se arrepender!
Pressionando as mãos nas têmporas, ele admite:
— Já me arrependi. Cometi um erro em nossa última noite.
— Vamos tirar essas roupas. Que tal voltarmos pra cama?
Tocando em seu rosto triste, comento:
— Essa foi a nossa primeira briga de casal.
— A primeira de muitas, sra. Rossi.
— Você não quer voltar.
— Quero sim.
— Não quer. Eu sinto.
Empaco enquanto ele me arrasta para fora do salão.
— Aonde vamos?
— Ver o céu.
— Não fica assim. Eu amo esse lugar. É só isso.
— Não é isso. Você tá me escondendo algo. Me diz... você deixou de me amar?
Ele me puxa para si e responde contra minha boca:
— Nunca. Eu nunca deixei de te amar, Eileen. Para de pensar em coisas ruins. Eu vou te proteger. Eu prometo.
Na varanda, sob a luz da lua amarelada, eu suplico:
— Proteja nosso filho. Aiden não vai desistir, amor.
— Se acalma.
— Eu não sei como desfazer o pacto porque eu não me lembro de ter feito essa porcaria de pacto!
— Ele já foi desfeito.
— Como sabe!? Quem o desfez!? Seu amigo Lúcifer!?
— Ele nunca foi meu amigo. Tenho amigos de verdade. Ao menos um.
Ele ergue os olhos ao céu e declara:
— Ele desfez o pacto. Nosso filho está livre.
— Jura!?
— Sim.
— Por quem!?
— Um amigo.
— Qual o nome!?
— Vc não o conhece... ainda.
Voltando a me abraçar, ele mente:
— Vai dar tudo certo, amor. Confia em mim.
— Por que me trata como uma criança? Vc tratava sua “Dess” assim?
— Eileen! Para com isso! Eu estou com você!
— Não! Você pensa nela enquanto está comigo!
— Ela é você, porra!
— Não grita comigo! Tô confusa!
— Não fica, amor. Confia em mim. Por favor.
— Confio.
Nossa última noite na Itália foi a mais ardente de todas. Enquanto descanso ao seu lado na imensa cama com dossel, pergunto:
— Vincenzo?
— Sim...
— Por que ficou preocupado quando Aiden cantarolou aquela canção?
— Esquece isso, amor.
Subo sobre ele, insistente:
— Não! Me conta tudo! Somos um só agora!
— Tem razão... — diz, de olhos fechados. — Talvez ele conheça o poder daquele refrão.
— E qual seria?
— O de acordar a “outra”. Satisfeita agora?
— Não mesmo.
Retiro a camisola e a arremesso contra o fantasma da ruiva colérica.
— Estou longe de me satisfazer, marido.
— De novo!?
— Não. Novamente!
Nosso filho chega ao mundo em um dia ensolarado. Meu pequeno irlandês italiano nascera forte e saudável, cercado de amor por todos os lados. Não me canso de observar cada parte de seu corpinho, os dedinhos dos pés e das mãos, enquanto Vincenzo, Antoine e meus tios tentam, a todo custo, esconder algo de mim.
Absolutamente feliz e confiante, aceito a proposta de Vincenzo em mudar o nome de nosso filho para Enzo, a fim de não confundi-lo.
— Enzo é perfeito — sussurro, enquanto o coloco em seu berço em nossa nova casa, próxima ao pub.
Dormindo, Enzo parece um anjo. Três meses se passaram e ele fica mais lindo a cada dia. Curvado sobre o berço, Vincenzo o acaricia. Procuro não comentar sobre o sinal no dorso de sua mãozinha, embora Vincenzo já tenha ouvido meus pensamentos e tentado me convencer de que todos têm sinais e que eles nada significam, em sua maioria.
— Em sua maioria? E se nosso filho fizer parte da minoria?
Contendo o choro, cravo as mãos nas grades do berço ao murmurar, horrorizada:
— E se essa cruz invertida significar algo?
Revirando os olhos, ele replica num tom divertido:
— Cruz invertida? Amor, onde você vê essa cruz? Parece mais com a letra “t” minúscula! E só fica invertida se você olhar por outro ângulo!
Jogada contra a cadeira de balanço onde eu o amamento, desabo. Dias e dias de um silêncio avassalador e, enfim, compartilho meus medos:
— Não, amor. É mais do que um “t”. — Entre soluços, afirmo: — É uma cruz. Eu sei que é.
— Que seja — diz Vincenzo, ajoelhado entre minhas pernas.
Enxugando minhas lágrimas, ele, arrebatado por sua fé, enche-me de esperanças:
— Que seja a cruz do Salvador. Do Cristo. Nosso filho nasceu abençoado, Eileen. É protegido por Jesus. Nunca houve alguém como Ele.
Seus olhos brilham ao prosseguir:
— Sua voz mansa nos atraía a todos. Sua luz nos cegava até que...
Observando meu olhar de desconfiança, ele hesita:
— Desculpa.
— Continue. Eu sei que estava lá. Sei que é um anjo. Continue.
Minutos de silêncio precedem suas palavras. Enxugando suas lágrimas, eu o incentivo:
— Continue, amor. Me diz que você estava do lado certo.
— Estava. Eu o acompanhei durante os sermões e, infelizmente, durante o calvário, mas jamais me atrevi a falar com Ele.
— Por que não?
— Vergonha.
Engolindo em seco, sua voz embarga:
— Eu sempre fui confundido com um dos membros da “Legião”. “Caí” por amor e não por odiar o Criador.
— “Caiu”? Do céu? Por amor a quem?
— A você.
— A mim? O que eu tenho de especial?
— Tudo... — diz ele, me beijando. — Eu sempre te amei.
— Isso é lindo. Como “caiu”?
— Havia uma rebelião...
— Já sei — interrompo, observando Vincenzo estirado no tapete felpudo. — Conheço essa história. Vc já me contou sobre isso antes?
— Sim. Mas não nessa vida.
Inebriada por sua voz melodiosa, deixo escapar um:
— Aaah. Claro.
A luz do abajur se expande enquanto ele confessa:
— Eu percebi a intenção de Lúcifer ao se aproximar de Judas e nada fiz para impedir.
— Você não é Deus, amor. — Refuto, deitada ao seu lado. — Não poderia mudar o curso da História.
— Faz sentido.
— Por que tá me olhando assim?
— Você acredita em tudo o que digo?
Abafando o som de minha gargalhada estridente, respondo:
— E eu tenho outra opção? É mergulhar no seu mundo maluco ou internar o pai dos meus filhos!
Rimos juntos até que ele, de súbito, erga o tronco e me encare com aquele olhar de menino travesso que tanto amo.
— Nossos filhos?
— Sim, “Mr. Darcy”. Seu filho cresce dentro de mim.
Emocionado, ele emudece e me abraça forte ao sussurrar:
— Nosso filho? Só nosso?
— Só nosso — afirmo, absolutamente feliz. — Nosso filho tem um pai e seu nome é Vincenzo.
— Dessa vez, nada vai nos separar, amor.
Choro em seu ombro ao perguntar, cheia de dúvidas:
— Tem certeza?
— Tenho. Estaremos juntos pra sempre.
Como bons católicos, meus tios cuidaram de todos os detalhes do batismo de Enzo, a cada dia mais fofo. Risonho, ele conquista a todos que o veem. Em nada se parece com o pai biológico que, segundo os boatos, tem ganhado muito dinheiro com negócios ilícitos. Não me importo. Eu o quero distante de minha família, embora eu o sinta por perto enquanto seguro Enzo em meu colo diante da pia batismal.
Tia Celeste cedera seu lugar de madrinha a Antoine que, a princípio, relutou em separar o casal. Tio Enrico a convencera de que Celeste não precisa de títulos. Sempre será a avó presente.
— Tenho certeza de que você será a melhor madrinha que Enzo poderia ter.
— Obrigada, tio — diz Antoine, emocionada ao segurar Enzo em seus braços.
Parecendo ausente, ela fala com ele:
— Eu daria a vida por você, meu anjo.
Padre Pietro, após o batismo, abraça Vincenzo e, com certo temor, adverte em tom baixo:
— Cuide dele e não o deixe se desviar do Caminho.
Com Enzo em meu colo, tomada pelo medo, assusto Vincenzo ao confrontar o padre:
— Que caminho, padre? Do que estão falando?
— Calma, Eileen!
— Me solta, Vincenzo!
Enzo chora em meu colo. Tio Enrico me abraça, protegendo-o de uma possível queda, enquanto me desespero:
— É a marca! Não é, padre? O senhor viu a marca e sabe o que ela significa! A cruz invertida!
— Dio mio... — murmura tia Celeste, fazendo o sinal da cruz. — Essa conversa de novo, filha?
Tomando Enzo de meus braços, ela refuta, indignada:
— Meu neto não tem cruz nenhuma na mãozinha!
Beijando com ternura o dorso da mão de meu filho, ela sussurra:
— Mamãe tá vendo coisas, né? Vc não tem marca nenhuma. Isso é a porcaria de um traço com outro traço menor cortando o traço maior. Ponto.
Erguendo os olhos serenos, ela me encara:
— Esqueça esse assunto, Eileen. Hoje é dia de festa.
— Vocês não entendem... — choramingo. — Ele corre perigo.
Próxima à saída da capela, Vincenzo me segura pelos braços e tenta me acalmar:
— Eu não vou deixar que nada aconteça a ele. Entendeu?
— Filha... — diz padre Pietro, erguendo meu queixo com o indicador. — O conselho que dei ao seu marido é o que dou a todos os pais. Não há nada de cabalístico nisso. Só não deixem que seus filhos se desvirtuem num mundo como o de hoje. Há muitas tentações. Só isso.
— Abençoa nosso filho, padre.
Posando para uma foto, Antoine, contente, segura seu afilhado nos braços. Meus tios conversam com padre Pietro enquanto discuto com Vincenzo em um dos degraus da escadaria em frente à capela.
Ele se preocupa com o sol forte sob a pele delicada de Enzo. Eu quero mais fotos.
— Só mais uma! — grito, irritada.
Como sempre, Vincenzo cede aos meus caprichos e se afasta, risonho.
A culpa e o remorso me acompanhariam até o fim.
Eu deveria estar em seu lugar...
— Eu quero que pegue o chafariz!
— E eu quero sair daqui com nossos filhos! — reclama Vincenzo, sorrindo.
Dou um beijo em sua boca e desço os degraus. De costas para ele, peço, empolgada:
— Só aperta o botão da máquina quando eu estiver lá, ao lado de Antoine!
Do último degrau, assisto a tudo.
O tempo para.
Meu coração deixa de bater quando a ouço dizer, assim que arremessa meu bebê em meus braços:
— Uma vida pela outra.
Vejo seu sorriso puro pela última vez.
Antoine partira dessa vida por amar demais.
Seu caixão desce à cova sob os pingos da chuva fria. Antoine amava dias chuvosos. Vincenzo chora, de joelhos, a perda da irmã, minha única e melhor amiga. Meu filho, salvo pela madrinha, dorme tranquilo no colo de tia Celeste.
Não suporto a dor de Vincenzo. A dor que eu lhe causei.
Movida pelo remorso, recuo assim que o coveiro joga, displicentemente, a primeira pá de terra sobre o caixão fechado. O lindo rosto de Antoine ficara irreconhecível após ser arrastado pelo carro de Aiden por quilômetros.
Longe de todos, ouço os urros de Vincenzo e me culpo. Minhas lágrimas se misturam à chuva. Meu vestido preto se gruda ao corpo. Deitada sobre a relva, recordo-me de nossos dias na faculdade.
Vincenzo, mais uma vez, urra de dor e de ódio. Nunca o vira tão transtornado antes.
— E vai piorar.
— Te afasta de mim, víbora.
Agachado ao lado da grande árvore, ele destila seu veneno.
— Vincenzo deseja vingança, meu bem. Ele não pode matar humanos, mas tu podes matar aquele que esmagou a cabecinha de nossa pobre Antoine.
Num tom irônico, Lúcifer comenta:
— Quando Aiden a atropelou, não imaginava o tamanho do estrago que faria. Quem poderia supor que ela ficaria presa debaixo do veículo?
— Vá embora.
Rosno, tapando os ouvidos com minhas mãos sujas de terra.
— Suma de nossas vidas ou vai se arrepender.
Avançando até mim, ele me assusta ao sussurrar, bem próximo ao meu ouvido:
— Vinga-te ou serei obrigado a assistir à queda de Vincenzo. E, enfim, ele será meu.
Erguendo meu tronco, encaro seus olhos em chamas:
— Como assim?
— Se o nosso querido Vincenzo praticar um ato de maldade, ele deverá voltar ao meu exército. Esse é o pacto.
Sorrindo maliciosamente, ele exulta:
— Mal posso esperar por esse momento.
— Não vou deixar.
Refuto, de pé.
— Meu Vincenzo não vai pecar.
— Vão deixar que Aiden escape, impune, dessa vez? Que lástima!
Sem perceber, decreto o fim da minha história:
— Não. Dessa vez, ele vai ter o que merece. Por que me disse isso, maldito? Se eu salvar Vincenzo, vc nunca o terá ao seu lado.
Afastando-se, ele evapora, mas ainda consigo ouvir sua resposta:
— Talvez porque vc mereça sofrer mais do que ele.
Eu preciso continuar a viver. Não quero morrer. Quero o que nunca mais teremos: a inocência do início. Os dias sem temor, sem ressentimentos.
— Vc me culpa. Eu sei.
— Não seja boba. Eu jamais te culparia.
Diz Vincenzo ao meu lado, no balcão do pub vazio, após uma noite cansativa. Enxugando os copos, ele divaga:
— Antoine veio ao mundo para cumprir uma missão. E ela cumpriu.
— Salvou nosso filho.
— E nos uniu novamente.
Um sorriso triste e ele continua:
— Para de pensar bobagens. Eu te conheço, Eileen. Vc não é má. Sempre foi impulsiva, mas nunca foi má.
Em seu carrinho, Enzo brinca com os dedinhos das mãos, sob os cuidados de tia Celeste, descabelada e sorridente. Tio Enrico me sorri com os olhos enquanto varre o salão.
Um aperto no peito, e pergunto em tom baixo:
— Desistiu da vingança?
Com outra pergunta, ele me faz calar e chorar:
— Como posso pensar em vingança se eu tenho tudo com que sempre sonhei?
Acariciando minha barriga, ele renova minhas esperanças:
— Nossa filha está a caminho e eu não me lembro de ter sido tão feliz em todas as minhas vidas, amor. Vamos viver o presente.
Eu o abraço forte e, entre soluços, suplico:
— Nunca mais me deixe, amor.
— Nunca.
“Nunca” é tempo demais.
Um olhar ao redor e percebo que nunca fora merecedora de tanto amor. Um amor que transborda e me dá forças para agir no momento certo.
Ou quase...
Os espectros infernais o precedem, espalhando-se pelas paredes do “pub” como erva daninha. Com um chute brutal, ele estilhaça o vidro da porta. O “sino dos ventos” anuncia o início do fim. O primeiro a ser atingido pelos disparos de seu revólver é tio Enrico. Seu corpo tomba contra o piso salpicado de vermelho enquanto tia Celeste, aos gritos, se joga sobre seu grande amor. Em choque, eu a vejo chacoalhar meu tio como quem sacode um boneco de pano. Vincenzo pula do balcão e, com agilidade, impede o primo de Aiden de disparar contra tia Celeste. A cadeira em madeira se parte ao meio ao atingir sua cabeça. Num gesto ligeiro, Vincenzo pressiona sua mão sobre a mão do primo de Aiden e o faz atirar contra si mesmo. Outro corpo estirado no piso quadriculado. O choro estridente de Enzo me tira do transe. Meu instinto materno me guia até o carrinho de onde retiro nosso filho. Com ele em meu colo, encaro os olhos escuros e coléricos de Aiden.
— Nosso filho? — Horrorizada com seu tom de voz gutural, penso em subir as escadas e proteger Enzo do ser infernal que se une a Aiden. Solto um grito de pavor ao me virar em direção à escada que me levaria ao segundo andar e, novamente, encarar Aiden. Sua voz maliciosa indaga. — Com medo de mim?
— Aiden! Não! — Grito enquanto recuo agarrada ao meu filho. — Não toca nele!
— É meu filho. — Abrindo um lento sorriso sinistro, ele se corrige. — Nosso.
— Nunca! — Impulsiva, eu o provoco. — Esse filho é de Vincenzo, meu marido! Assim como o que carrego em meu ventre!
Tomado pela fúria, ele cerra os punhos e me atinge com um soco no queixo. Tonta, cambaleio entre as mesas. Vincenzo me ampara tomando de mim nosso filho. Caio ao lado do corpo sem vida de tio Enrico. Suas bochechas, sempre rosadas, estão pálidas. Tia Celeste, em choque, sorri ao afirmar:
— Ele vai acordar. Tem estado cansado, meu pobre Enrico.
— Perdão... — Suspiro ao manchar minhas mãos com seu sangue. — Eu poderia ter evitado tudo.
— Não. — Refuta ela, sem ânimo, recostada à parede. — Eu deveria ter te impedido de conhecer Vincenzo, mas não consegui. Eu sempre soube que ele seria o seu fim.
— Não! Ele me deu razão pra viver! Ele me curou, tia!
Um outro disparo e comprimo meus olhos. Desesperada, engatinho no chão escorregadio até Vincenzo. Um tapa em seu rosto e ordeno:
— Volta! Não se atreva a morrer!
— Nosso filho... — Murmura ele, golfando sangue pela boca.
Pressiono com minha mão suja o ferimento em seu abdômen, por onde seu sangue escapa. Atrás de Vincenzo, pressionado por seu corpo contra a parede, nosso Enzo chora. Desorientada, eu o recebo de suas mãos trêmulas. Ouço sua voz doce e sofrida pela última vez ao ordenar:
— Fuja.
— Nunca! Eu vou te salvar! — Apertando Enzo contra meu peito, protesto. — Você é um anjo! Reaja, Cassiel!
— Tarde demais, baby... — Diz Aiden, agachado ao meu lado. Observando, curiosamente, os momentos finais de Vincenzo, ele ironiza. — O filho que carrega em seu ventre o enfraqueceu. Que pena. Agora, somos nós três. Você, nosso filho e eu.
— Não se eu puder impedir.
Dois tiros de espingarda e tia Celeste se vinga ao abrir dois enormes buracos no peito de Aiden. Seu sangue maldito respinga em meu rosto enquanto seu corpo pesado tomba para trás. Erguendo-me do chão, tia Celeste acolhe Enzo em seus braços e me aconselha:
— Se despeça do seu amor. Vá. Eu não tive essa chance.
Chorando convulsivamente, volto a estapear o rosto de Vincenzo e a ordenar, histérica:
— Volta! Eu não posso viver sem você!
— Então, não viva, vagabunda.
Puxo o ar pela boca. Meus olhos arregalados procuram por meu filho. A dor excruciante me impede de falar. Um ponto em minhas costas queima como fogo. Desorientada, olho para trás. Seu sorriso maligno me faz compreender que é o fim. Um segundo golpe em meu ventre e curvo meu tronco para frente. Deitada, em posição fetal, urro de dor ao retirar o punhal de minha carne. De mãos dadas a Vincenzo, desisto de lutar. Sei que minha tia vai cuidar de nosso filho. Sei que, sem Vincenzo, não vale a pena viver. Nossa filha já deve estar morta. Engasgando-me com meu próprio sangue, lanço um último olhar aflito ao meu pequeno Enzo antes de exalar.
É quando ouço Vincenzo, com dificuldade, cantarolar:
— “Sha na na na na na na na na na”. Volte pra mim, Morgana.
— Sono qui... — Aviso ao retornar do mundo dos mortos e, utilizando-me uma última vez do corpo da pequena “puttana”, ergo minha mão ensanguentada e cravo o punhal no coração de Aiden. Ainda admiro sua adorável expressão de incredulidade antes de me despedir e retornar ao meu mundo. — Nos vemos no inferno, Mr. Byrne.
— Ele te usou... novamente. — Sussurra Aiden antes de morrer.
DIAS ATUAIS
— Acorda, mamãe! Para de gritar!
— Quem é você?
— Antoine, mamãe! Antoine!
Puxando o ar pela boca, eu a aperto contra meu peito. Sob seus protestos, permaneço abraçada a ela por minutos até parar de chorar e suplicar:
— Nunca mais saia da minha vida.
— Nunca. — Confirma ela, sorrindo.
Mas “nunca” é tempo demais.
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