CAPÍTULO 32 - O MAL ESTÁ ENTRE NÓS

 





— Pensei que ficaria feliz, Dess!


— Eu fiquei, mas...


— Não precisa aceitar a sugestão de Celeste, filha. Vocês podem fazer o que quiserem com o dinheiro da venda.


— Não fale por mim, Enrico! — protesta Celeste, erguendo o queixo delicado. Seus olhos astutos recaem sobre mim. — Eu os quero por perto. Somos uma família. Qual o problema em vivermos todos juntos?


— Não podemos largar a academia e ir morar em outro país, Vincenzo! Fala pra ela! Nossa filha tem uma vida aqui! Eu tenho uma vida aqui! Nosso filho vai ter uma vida aqui!


— Não me faça acreditar que você prefere viver nesse país de gente pobre, sem futuro.


— Pode se afastar de mim enquanto fala, Celeste? — rosno, encarando seu nariz afilado.


— Dess, calma. Eles estão tentando ajudar. — diz Vincenzo.


Viro-me pra ele, revoltada.


— Eu agradeço, Vincenzo. Mas uma coisa é vender o castelo e nos dar o dinheiro. Outra é impor condição. Isso não faz sentido.


— Dess!


— O quê? Eu não posso achar estranho que sua mãe queira morar com a gente depois de tudo?


— Tudo o quê, filha? — pergunta Enrico.


— Nada, Enrico. — responde Vincenzo rápido demais.


— Tudo, Enrico! — rebato. — Você ainda não conhece a esposa que tem. E eu… — levo a mão à cabeça — Por algum motivo, não me lembro do que deveria te dizer, mas sinto que é importante!


— Para, Dess. Você tá sendo inconveniente!


— Sério? Não foi o que você disse antes deles chegarem! Cadê o papo de que a gente ia vencer tudo junto?


— Você não tá pensando direito! Respira!


— Me solta!


— Não vou soltar porra nenhuma! — ele explode. — Eles fizeram algo incrível por nós e você tá reclamando? Amor, pensa!


— Não me manda respirar, Vincenzo… — rosno. — Você muda de lado rápido demais.


— Vincenzo... — intervém Enrico, desconfortável. — Não fale assim com ela. Chegamos em má hora. Fomos invasivos. Conversem. O castelo é de vocês, independente da decisão.


As bochechas dele denunciam o constrangimento. Eu cedo. Abraço-o.


— Me perdoa… Eu não sei o que fazer. É muita coisa.


Evito olhar para Vincenzo.


O choro de Matteo corta o ar.


Corro para o quarto. Celeste vem atrás.


— Fique aqui fora! — ordeno, entrando e trancando a porta.


Aperto meu filho contra o peito, beijando sua testa, ninando até ele se acalmar.


Do lado de fora, Vincenzo bate leve.


— Dess… abre a porta.


— Volta pra lá! Me deixa em paz com meu filho! Fica com os seus!


— Isso não é justo… Eu não fiz nada. Só quero o nosso bem. Não vai abrir?


Chorando baixo, balanço Matteo até ele dormir.


Olho para o Crucificado na parede.


Será que Ele me entende?


Não confio em Celeste.

Vejo o mal nela. No olhar. Nos gestos.


O pânico de deixá-la sozinha com meu filho cresce.


A imagem de Lúcifer ao lado dela não sai da minha cabeça.


O que está acontecendo comigo?


Eu deveria melhorar… sair dessa depressão.


Mas só pioro.


— Dess...


— VÁ PRO INFERNO! — grito, querendo exatamente o contrário: o abraço dele.


— Vai pra Itália com eles! Deixa a gente em paz!


— Que bagunça é essa, meu Deus! — resmunga Antoine no corredor. — Eu posso ter um minuto de sossego?


Eu quase rio, no meio do choro.


— Eu não quero brigar com ela, filha… — diz Vincenzo. — Pede pra ela abrir.


— Não. Agora não. Deixa meu maninho dormir. Amanhã tenho prova.


— Pede, filha...


— Tá bom… — resmunga. — Mãe, abre a porta.


— Agora não, filha.


— Vocês parecem duas crianças… Papai não vai sair daí enquanto você não abrir. E eu preciso dormir.


— Sua mãe precisa abrir a porta! — exalta-se Celeste.


— Vovó… — boceja Antoine — Tá na hora de ir embora. Amanhã a gente fala.


— Desde quando criança manda em vocês? — rebate Celeste, indignada.


Levanto, coloco Matteo no berço. Acendo o abajur de borboletas. Apago a luz principal.


Perto da porta, escuto Celeste cochichar:


— Não permita que sua filha te domine, meu filho.


— Ela tem oito — corrige Vincenzo. — E não me domina. Ela me ensina a viver.


Silêncio.


— Gostei, papai… — murmura Antoine. — Agora eu quero dormir.


Abro a porta.


Os olhos de Celeste voam direto pro berço.


Eu tranco a porta por fora.


— Vamos.


— Não posso dar boa noite ao meu neto?


— Não.


Seco. Direto.


Vincenzo desiste de mim por um momento.


— Ela não está bem… desculpa, Enrico.


— Nós que pedimos perdão.


— Fale por você — rosna Celeste. — Eu não peço nada. Viajamos tudo isso pra sermos tratados assim?


Sentada na cama de Antoine, fico alerta.


Se ela tentar entrar naquele quarto…


— Eu queria ver meu neto… — choraminga.


Respiro fundo.


Pronta pra impedir.


Suspiro aliviada ao ouvir Vincenzo argumentar:


— Se a mãe dele não deixou, é porque tem motivos, Celeste. Sinto muito. Hoje não. Voltem outro dia. Prometo que será melhor. Tentem compreender. Ela está com um pequeno transtorno… vai melhorar.


— Em nome do Criador, ela vai melhorar — reforça Enrico. — Vamos, Celeste. Voltamos outro dia.


— Eu volto — diz ela, num tom baixo, quase uma ameaça. — Pode acreditar.


Silêncio.




— Podemos conversar?


— Vai dormir.


— Você tá bebendo vinho?


— Tô. Por quê?


— Preciso dizer?


— Foi só um gole. Não vou fazer mal ao seu filho. Fica tranquilo. — Debocho, a voz arrastada. — Já tirei o leite como uma vaca ordenhada. Tá na geladeira.


Ele se senta à minha frente, na mesa da cozinha.


— Você tá infeliz, Dess… Não foi pra isso que eu caí. Não foi pra te ver assim. Se eu pudesse voltar no tempo…


Agarro sua gola e puxo.


— Se falar isso de novo, eu te espanco. Juro. Nem vou ligar pra sua dor na cabeça.


Ele me encara. Triste.


Eu odeio quando ele me olha assim.


— Não me olha desse jeito. Eu ainda te odeio.


— O que eu fiz?


— Você ficou contra mim.


Levo a garrafa à boca. Ele segura.


— Larga!


Ele puxa. Eu rio.


— Não tô brincando. Eu tô puta. Me deixa beber.


— E quanto à nossa noite?


— Aquela que a vaca da sua mãe interrompeu?


— Ela não é minha mãe, Dess. Já te falei.


— E me fez esquecer… — arranco a garrafa e bebo de novo. — Não nega. Você me contou algo importante… e depois apagou. Mas tanto faz…


Soluço.


— É questão de tempo até eu lembrar.


Passo a língua nos lábios.


— Eu sou mais do que seus olhos podem ver… não sou?


— Muito mais. — ele diz baixo. — Quando pretende me contar a sua história?


— Qual?


— A sua primeira vida na Terra.


Solto uma risada histérica.


— Você queria mesmo morar com eles?


— Não. — ele sorri, quase inocente. — Só não quis magoar o Enrico. Ele não merece.


— Ela merece.


— Celeste?


— Sim.


— Celeste é diferente. Você sabe. Você sente.


— Você também tem medo dela?


Ele hesita.


— Tenho medo dela perto do nosso filho. Ele é puro… o sangue dele é valioso. Não sei até que ponto ela está livre de…


— De quem?


Ele me encara.


— Essa camisola é pra me provocar?


— Ridículo. Não muda de assunto.


— Você mudou quando falei da sua primeira vida.


— Sua cabeça tá doendo?


— Não.


— Mentira. — rio quando o toco. — Tá sim.


Amoleço.


— Onde tá seu remédio?


Levanto, cambaleando.


— Não me pega! Eu sei andar!


— Claro. Os móveis é que estão girando.


— Vincenzo…


Ele me prende no abraço.


— Para… preciso achar seu remédio…


— Hoje não. Lembra?


— Não… — um arrepio me corta quando ele beija minha nuca. — Lembrar do quê?


— Que eu te amo… e que estamos há mais de um mês sem…


— Trepar? Foder?


— Devassa.


Rio.


E deixo que ele me leve.





Algo de bom em relacionamentos longos e estáveis é que não existe a necessidade de se chegar ao clímax de imediato. Tudo acontece com calma, mais profundo, sem pressa, como quem revisita memórias que ainda aquecem.


É… nós temos um passado. E eu amo isso.


Estamos deitados em nossa cama há mais de meia hora e, até agora, só nos beijamos. Beijos longos. Muito longos. Misturados a risos tolos que escapam sem controle.


Nos braços dele, eu esqueço de tudo.


— Por quê? — pergunto, mordiscando seus lábios. — De onde tirou isso?


— Você já brigou com dois diretores das escolas da Antoine, Dess. Tenha dó. — Ele ri, descendo os beijos pelo meu corpo, até que o interrompo com um gesto. — Tá, já sei… são do nosso filho.


Reviro os olhos.


— Eu tive medo da forma como você olhou pra Celeste — ele completa, mais sério.


— Acho que exagerei… mas não confio nela.


Ele afasta minhas pernas com cuidado, atento.


— Por quê?


— Você sabe. Você me contou… e me fez esquecer. Qual a graça nisso?


— Não sei do que você tá falando. Só quero nosso filho protegido.


— E a Antoine? — rebato. — Você fala como se ela não precisasse.


— Ela não precisa, Dess.


O tom dele muda. Grave. Convicto.


E, quando me toca, meu corpo responde antes da minha cabeça.


— Nossa… — ele murmura, os olhos fechando por um instante.


— O quê?


— Eu tinha esquecido o quanto você é… — ele sorri, sem terminar.


Seguro a cabeceira com força, meu corpo reagindo ao dele.


— Nem pense em esquecer disso, Vincenzo Rossi.


— Dess… — o nome sai entre os dentes quando o prazer vem forte demais.


Meu corpo acompanha. Sem aviso. Sem defesa.


Ele desaba sobre mim logo depois, ofegante.


— Já não sou o mesmo de antes…


Passo a mão em seu rosto.


— Não. Tá melhor.


— Te amo.


— Eu sei. Eu também.


Ele me beija devagar, ainda ali, como se o tempo tivesse desacelerado só pra gente.


— Amor…


— Hm?


— Por que a Antoine não precisa de proteção?


Ele suspira, pensativo.


— Porque ela não é como as outras crianças… e você sabe disso.


Fico em silêncio por um instante.


— Mesmo assim… ainda é uma criança.


— Eu sei. E ninguém vai deixar nada acontecer com ela.


— Nem com o Matteo.


— Nem com ele.


Pausa.


Dois segundos de paz… que não duram.


— Amor?


— Meu Deus… o que foi agora?


— Por que você demorou tanto?


Ele abre os olhos, confuso.


— Pra quê?


— Pra ficar comigo. Desde o começo. Desde aquele dia… você podia ter evitado tanta coisa.


O rosto dele fecha. Não de raiva. De dor.


— Você não faz ideia do que foi pra mim… — a voz sai baixa — Ser quem eu era… e sentir o que senti por você.


Engulo em seco.


— Eu tive que assistir… ficar longe… — ele passa a mão pelo rosto, tenso — E fingir que não importava.


Silêncio.


— Ainda bem que acabou — ele conclui, quase num sussurro.


Me aproximo mais.


— Se eu soubesse…


— Teria continuado — afirma ele, abatido. — Você demorou muito pra mudar de verdade.


O peso na voz dele me faz recuar por dentro. Arrependida, beijo sua bochecha.


— Não fala mais nada… me perdoa por ter te feito sofrer.


— Já passou. — Ele me olha com uma calma que quase machuca. — Agora para de falar, mulher.


— Ok.


Fixo os olhos no teto, tentando obedecer. Não consigo.


— Fala, Dess — resmunga ele, já vencido.


— Era você… no penhasco? Na Itália? Quando eu pensei em pular… ou eu surtei?


Ele solta um riso curto, sem humor.


— Nossa… faz tempo.


— Responde.


— Era eu. — pausa — Eu ainda era um anjo. Podia te proteger daquele verme. Foi ele quem te fez pular da primeira vez. Ia fazer de novo.


Estico o corpo, absorvendo aquilo.


— Você é tão… tão…


— O quê?


— Fantástico.


Ele ri, e eu junto. Nus, lado a lado, mãos entrelaçadas como se fosse a coisa mais simples do mundo.


— Bobagem.


— Não é. — viro o rosto pra ele — Que mulher pode dizer que tem um anjo como marido?


— Cassie?


— Não vale. — gargalho — Ela nem sabe.


— Eu já não sou um anjo, Dess…


Subo sobre ele, cortando o tom.


— Pra mim, sempre vai ser. Foi você que me tirou da escuridão. Depois de você… eu me achei. Lembra de quem eu fui?


— Muito pouco. E não faço questão.


— Eu também. — respiro fundo — Daquela vida, nada sobrou.


Ele sorri de lado.


— Sobrou sim. Você ainda é perigosa.


Desço a mão até sua cabeça, massageando com cuidado.


— Só pra você. Só com você. Pra sempre.


— Pra sempre.


Silêncio.


Até que não é mais.


— “Um dia você pula de novo.”


Ele enrijece.


— O que é isso?


— A voz. No penhasco… naquele dia.


— Já sei — rosna — Lua de mel com aquele irlandês de merda.


— Idiota. — viro de costas e puxo seu braço pra mim — O que Lúcifer quis dizer?


— Me diz você.


Meu corpo trava.


Ele percebe. Sempre percebe.


— Tarde demais pra fingir que não sabe — murmura na minha nuca.


— Para de ler minha mente.


— Por que ele diria aquilo?


— Porque vocês são todos malucos. Anjos, caídos… tanto faz.


— Tem certeza que não lembra de nada?


— Tenho.


Fecho os olhos, forçando convicção.


— Tudo o que sei é que já pulei antes. Em outras vidas. Você me contou. Pra mim, isso basta.


Ele fica em silêncio por um segundo.


— Então tá.


Beija meu pescoço, mas a tensão não some.


— Você acha que eu posso pular de novo?


— Não… se se mantiver forte. E longe de penhascos italianos.


Solto um bufar.


— Com a nossa vida? Difícil querer morrer.


— Não fala isso.


— É verdade. Eu quero viver. Quero melhorar. Me ajuda?


— Sempre.


Pausa.


— Não tem mais nada que queira me contar?


— Não.


Ele aceita… mas não acredita.


— Posso te perguntar uma coisa?


— Já perguntou.


— Qual era o segredo?


Abro os olhos.


— Que segredo?


O braço dele aperta minha cintura.


— Eu já disse… não sei de nada.


— O que padre Pietro te confessou naquele dia no cativeiro de Ga’al? — ele insiste, já meio irritado. — Por que eu, seu melhor amigo, tive que sair da sala?


Eu rio, aliviada.


— Não ri! — protesta — Guardei isso por anos! O que ele viu em você que não viu em mim?


— Humanidade?


Ele faz uma careta.


— Pode ser… eu ainda era um anjo idiota.


— Um perfeito idiota que me fez sofrer várias vezes.


— Esquece isso, Dess. — Ele apoia a cabeça no cotovelo, me olhando com aquela calma que desmonta.  — Eu também, amor… mas não foge da pergunta.


Gargalho.


— O que ele te disse de tão terrível?


— Não posso! Foi confissão!


— Desde quando você virou padre? Conta!


As cócegas começam e eu me contorço, rindo.


— CONTO! CONTO!


Respiro fundo.


— Não é nada demais…


— Fala.


— Ele era gay… e se envolvia com um seminarista.


Solto de uma vez.


— Pronto. Acabou. Não falo mais nada.


Ele fica em silêncio, processando.


— Quem?


— Não importa. Eles foram felizes… depois acabou.


— Mas...


— CHEGA, VINCENZO!


Caio na risada com a cara dele.


— Como eu nunca soube disso?


— Porque você é burro. — sorrio, suave — Burro e inocente. A coisa mais fofa desse mundo.


Passo a mão no rosto dele, mudando o tom.


— Onde tá seu remédio?


— Dess…


— Não vou deixar você com dor.


Ele tenta fugir, mas eu não deixo.


— Por que você disse que o Aiden podia te matar, se você era imortal?


Ele trava.


— Oi?


— Você falou isso na casa do João. Ou mentiu e ficou com aquela vaca morta?


— Não!


— Então fala a verdade.


Ele respira fundo.


— Porque você não acreditaria. Aiden já era um demônio disposto a tudo pra me afastar de você. Até matar crianças… e eu ainda não tinha provas.


O ar pesa.


— Viu? — ele continua — Você ainda não acredita.


— Para… — peço baixo — Não quero lembrar delas… Luka, Mimi, Juju…


— Perdão.


Ele me puxa num abraço firme. Ficamos ali, quietos.


— Você ainda gosta…?


— Não. — corto — Eu te amo. Sempre amei. Ele foi… uma fase. Uma dívida. Já foi paga.


Pausa.


— Eu acho que ele ou os seguidores mataram os pais da Cassie.


— Jesus…


— Ouvi isso num jantar. Nunca fala disso com ela.


— Nunca.


— Antoine disse que ele podia matar o monstro…


Ele solta um riso sem humor.


— Que monstro, Dess? Ele era o monstro. Ela tentou te avisar… e você não viu.


Desvio o olhar.


— Chega. Não quero mais falar dele.


— Concordo.


Silêncio.


Eu volto ao essencial.


— Seu remédio. Sua cabeça tá pior.


— Impressão sua.


— ONDE?


Levanto da cama, me enrolando no lençol. Ele levanta sem o menor pudor.


Aponto.


— Esconde isso!


Ele ri, incrédulo.


— Isso o quê? Meu pau? — arqueia a sobrancelha — Até agora você tava gostando.


— Ele estava duro! — cubro o rosto com as mãos, rindo de mim mesma. — Cobre isso!


Rimos juntos.


Num movimento rápido, ele me imobiliza, prendendo meus braços atrás das costas.


— Não tem graça, Vincenzo Rossi! Me solta!


— Diz que gosta dele assim.


Outra crise de riso me faz perder as forças enquanto ele aperta um pouco mais.


— Diz.


— Para, amor… tá doendo!


— Diz.


— Eu gosto! Pronto!


Ele me solta, satisfeito, e me joga de volta no colchão. Inclina-se sobre mim, a voz baixa, provocante.


— E onde foi que você viu isso, mocinha?


Antes que eu responda, batidas na porta.


Congelamos.


E então… rimos.


— EU PRECISO DORMIR! — grita Antoine do corredor. — TENHO PROVA AMANHÃ! ALIÁS, HOJE! DO QUE VOCÊS ESTÃO RINDO!?


Puxo o ar, tentando parecer normal.


— Nada, filha! Desculpa! — afasto Vincenzo, que ri abafado no travesseiro. — Seu pai perdeu os remédios! A gente tá procurando! Pode dormir!


— Prometo — acrescenta ele, ainda rindo. — Vai dormir, filha.


— Abre a porta! Eu sei onde ficam!


— Puta que pariu… — sussurro.


— Eu ouvi, mamãe!


Reviro os olhos.


Ele veste a calça do pijama, ainda com aquele sorriso idiota no rosto. Eu me cubro com a camisola, tentando parecer uma pessoa minimamente respeitável.


Antes de abrir a porta, ele me olha daquele jeito… calmo demais pra quem tava aprontando há dois segundos.


— Posso?




Antes de responder, exalo, tomada por uma felicidade que mal cabe no peito.


Vincenzo abre a porta.


Antoine surge à nossa frente com Matteo nos braços.


Engulo o choro.


Agradeço, em silêncio.


Tudo o que sempre sonhei… está aqui.


Diante de mim.


Dormimos os quatro na mesma cama.


Matteo e Antoine entre nós.


Os dedos de Vincenzo se entrelaçam aos meus, sobre as cabeças dos nossos filhos.


Antes de fechar os olhos, imploro:


“Se isso for um sonho… não me acorda.”



Decidimos não aceitar o dinheiro da venda do castelo.


Celeste manteve a condição.


Entrar na nossa casa. Na nossa vida. Na nossa família.


Não.


Mesmo precisando, recusamos.


Eu e Vincenzo… não vamos deixar aquela mulher perto dos nossos filhos.


Por nada.


Deus sabe o quanto precisamos daquele dinheiro.


Vincenzo está piorando.


Ele tenta esconder, mas eu vejo.


Sempre vejo.


As dores de cabeça… os tremores… o cansaço que não vai embora.


O homem por quem me apaixonei aparece cada vez menos.


No lugar, ficam o silêncio… e uma estranha euforia que não dura.


Tem dias em que nem Antoine consegue alcançá-lo.


E nesses dias…


eu penso nela.


Celeste.


Ou melhor…


Suriel.


O anjo da cura.


Irônico, não?


Ela pode curar o próprio filho.


E não cura.


Por escolha.


Por capricho.


Por algo que eu ainda não entendo…


mas sinto.


E isso me consome.


Eu te odeio, Suriel.


Se você não vai salvar seu filho…


eu vou.


Nem que isso me custe tudo.



Impressiono-me com o poder que Celeste exerce sobre o doce Enrico.


Ele não se opõe… mesmo querendo.


É visível.


Ele queria dar o dinheiro ao filho.


Sem condições. Sem exigências.


— Deveria ser um presente, Celeste! Não se lembra disso!? — ouvi antes que ele se afastasse.


Agora, sozinho no parque, ele parece menor.


Aproximo-me em silêncio e, de braços dados a ele, pergunto:


— No que pensa, Enrico?


— No meu coração. — graceja — Ainda bem que é forte. Não corro o risco de cair duro aqui.


Eu rio.


Do outro lado, Celeste observa. Sempre observando.


Perto da roda gigante, Antoine acena lá do alto como se fosse uma celebridade internacional.


— Você me assustou — ele comenta.


— Perdão. Não foi a intenção. E, convenhamos… vocês não morrem mesmo.


Ele sorri, mas não responde como antes.


— Há várias formas de morrer, filha… várias.


Inclino a cabeça.


— Tá falando da Celeste?


Silêncio.


Acerto.


— Desculpa… não quero invadir, mas eu tenho um…


— Dom. — ele completa — Sente o que os outros sentem pelo toque.


Paro.


— Como você sabe?


— Digamos que… as notícias andam a cavalo por lá.


Eu solto uma risada.


— Essa comunidade de vocês precisa urgentemente de atualização. “Andam a cavalo”? Que século é esse?


Ele ri. Finalmente.


— E como eu diria hoje?


— Viralizou. Meu dom viralizou.


— Saquei.


— Não usa isso! — rio — “Sacou” é velho!


— E “viralizou” é moderno demais pra mim — rebate ele, divertido — Prefiro Elvis… “The Pelvis”.


— Você não meteu essa!


Rimos de verdade agora.


Alto demais.


O suficiente pra irritar Celeste.


Ótimo.


Por um segundo… penso em algo cair da roda gigante.


Bem em cima dela.


Balanço a cabeça, afastando o pensamento.


— Não adiantaria — diz Enrico, tranquilo — Ela só ficaria com o rosto um pouco… danificado.


Paro.


— Puta que pariu… você lê pensamentos?


— Parece que sim.


E ele ri.


E eu rio junto.


Antoine aparece correndo, elétrica.


Nos abraça pela cintura.


— Vocês PRECISAM ir! É incrível! Lá de cima dá pra ver a nossa casa!


— Nossa casa? — franzo a testa — A gente tá longe daqui, filha.


— Não essa casa, mãe! — ela ri — A minha e a do vovô… lá no céu!


O ar muda.


Engulo seco.


— Aaah… tá.


Forço um sorriso.


Ela percebe.


Sempre percebe.


— Minha mãe não gosta de falar disso, vovô — cochicha.


— Então não falamos — responde ele, no mesmo tom.


— Ok!


E já muda de assunto, como se nada tivesse acontecido.


— Vamos na montanha-russa!?


— Menos, Antoine! — rio — Seu avô não sobrevive!


— Talvez eu viralize despencando de cabeça pra baixo! — ele pisca.


E se deixa puxar por ela.


Louco.


— Vem! — ele me chama.


— NUNCA!!!


Cruzo os braços, rindo.


— Eu não faço parte da sua comunidade, esqueceu!?


De onde estou, vejo Enrico gargalhar com Antoine.


Ela se agarra a ele com um amor que chega a doer.


Celeste observa.


Sempre observa.


Como uma pantera à espreita, ela vem na minha direção.


Sinto o corpo enrijecer antes mesmo de ouvir sua voz.


— Por que não foi, querida? Estavam tão unidos…


— “Estavam.” — corrijo, seca — No passado.


Dou um passo atrás.


— Preciso ver meu filho.


— Espere. Vamos conversar. Precisamos esclarecer alguns pontos obscuros. 


Ela toca um ponto entre meus seios.


Meu corpo reage antes da cabeça.


Afasto sua mão com um tapa.


— Obscuro aqui é essa sua obsessão em morar com a gente.


Um sorriso lento surge em seu rosto.


— Direta… gosto disso. Humanos assim são interessantes.


Inspiro fundo.


— E eu odeio anjos como você.


Ela inclina levemente a cabeça.


— Não sei do que fala, meu bem.


Chego mais perto.


— Sabe, sim.


Pausa.


— Lúcifer.


O nome corta o ar.


Por um segundo… ela falha.


E eu vejo.


— Então você conhece. — sorrio, sem humor — Que curioso. Já vi que o conhece. Talvez algum pagamento não feito. Contas a pagar. Ajustes. Pactos. Possessões? Quem sabe?


Ela endurece.


— Primata. Como ousa...


Eu rio.


Alto.


— Primata? Sério? Já me chamaram de muita coisa… mas essa é nova.


Dou um passo à frente.


—  E, só pra constar… primatas são inteligentes.


O sorriso dela some.


— Burra como um deles.


Agora eu sorrio.


— Ainda lembra de quem te criou, Suriel?


Silêncio.


— Ou já esqueceu?


Os olhos dela vacilam.


Só um segundo.


Mas o suficiente.


— Ele vê você. — continuo, mais baixo — E vê o que você está fazendo com Vincenzo.


Ela respira mais rápido.


— Pare.


— Vincenzo não é seu. Nunca foi.


Aproximo mais um passo.


— E daquele outro… você não escapa.


— Pare de falar. — a voz dela falha — Ele não sabe onde estou.


Eu rio.


Sem esforço.


— Ele sabe onde eu estou.


Viro o rosto na direção de Vincenzo.


— E eu nunca estou sozinha.


O sorriso some de vez do rosto dela.


— Nem se escondendo atrás da luz do Enrico… você desaparece.


Dou as costas.


Encerrado.


— Algum problema, Dess? — a voz de Vincenzo chega.


— Nenhum. — forço um sorriso ao pegar Matteo dos braços dele. — Estávamos falando do parque. É… revigorante.


Lanço um olhar direto.


— Não é, Suriel?


Ela trava.


— S-sim. Muito.


— Você tá pálida, Celeste — observa Vincenzo. — Tá se sentindo bem?


— Melhor não perguntar, amor. — corto, puxando-o levemente.


Enrico surge ao nosso lado, ainda meio em choque.


— Nunca mais eu entro naquela coisa!


— Foi incrível, mamãe! — Antoine salta, elétrica — Eu gritei muito! Você ouviu?


— Claro. — minto. Eu estava ocupada demais querendo arrancar o coração da sua avó. — Seu avô não gritou?


— Gritou sim!


Ela ri e puxa Celeste pelo braço.


— Vamos no trem fantasma!


— Perfeito… — murmuro. — Cuidado pra não esquecer sua avó lá dentro!


Vincenzo me lança um olhar.


— É sério! — dou de ombros — Só tem assombração…


— Dess.


A música sobe ao fundo.


Viro o rosto.


— Nossa música.


— Que música?


— Essa.


Entrego Matteo a Enrico.


— Vem. Dança comigo.


Começo a me mexer, provocando.


— Como antes.


— Eu não danço.


— Dança sim — insisto.


— Não...


— Ele dançou com a outra! — Antoine solta, sem filtro.


Silêncio.


— Antoine! — Vincenzo trava.


— É verdade! — ela continua — Num concurso! Eles ganharam!


— Isso é verdade. — Celeste entra, suave… venenosa. — Eileen e Vincenzo sempre se deram muito bem.


— Cala a boca, Celeste. — a voz dele endurece — Eu fiz porque...


— Porque a amava. — ela completa — Ela disse não. Você insistiu.


— Chega! — corta Enrico.


— Eu só confirmei — ela ergue a sobrancelha.


Antoine murcha.


— Eu não queria deixar a mamãe triste…


Ajoelho diante dela.


— Não estou, filha.


Mentira descarada.


— Não importa. Ele sempre foi meu.


— Sério?


— Sim.


Mais uma mentira.


— Ele dançou mesmo?


— Dançou… — ela hesita.


— ANTOINE! — Vincenzo passa a mão no rosto.


— Desculpa…


— Ei — Enrico intervém, tentando salvar o resto do clima — Qual o problema? Todas são você, no fim. Um dia você se encontra.


Bonito. Quase útil.


— Ele tem razão — diz Vincenzo, mas sem firmeza — Eu te amo, Dess.


Antoine olha pra ele.


— Então dança com ela, papai.


Silêncio de novo.


E então…


— Eileen não precisou implorar. — Celeste solta, leve.


Pronto.


Acabou.


Eu levanto devagar.


— Se você disser mais uma palavra… — minha voz sai baixa, controlada — Vai implorar por ajuda.


Ela sorri de lado.


Desdém puro.


Vincenzo tenta segurar a situação.


Tarde demais.


— Era você, amor. Era você.


Dou um chute leve na perna dele e sussurro, venenosa:


— Depois a gente conversa. Vem.


No meio da multidão, sob luzes piscando e risadas alheias, puxo Vincenzo pra perto e lanço um último olhar de triunfo pra Celeste.


— Dança comigo, filho da puta.


Ele sorri de lado.


— Pedindo assim… fica difícil negar.





Ele guia meus passos com facilidade.


E eu odeio o quanto gosto disso.


Aos poucos, minha raiva se dissolve no movimento do corpo dele junto ao meu.


Sem dor.


Sem tensão.


Só ele.


— Te amo — sussurra no meu ouvido, me puxando pela cintura.


Giro sob seu braço e sorrio… só pra morder logo depois:


— Não esquece do que fez. Vai ter volta, bastardo.


A música cresce.


A gente se perde nela.


Dançamos como se estivéssemos sozinhos, como se o mundo lá fora fosse só cenário barato.


Eu provoco.


Ele responde.


Eu avanço.


Ele segura.


Roubo um beijo.


Ganhar o sorriso cafajeste dele devia ser crime.


Pulo em seus braços.


Ele me gira.


Cabeça pra trás, luzes rodando, estrelas piscando como se estivessem assistindo.


Por um segundo… tá tudo certo.


A música termina.


Palmas tímidas.


Vincenzo fica vermelho.


Eu faço uma reverência exagerada.


— Eles são iguais a Cassie, vovô! — grita Antoine, batendo palmas.


Pausa dramática.


— Os dois são safados!


A gente ri.


Abraçada a ele…


eu sinto.


Na nuca.


Frio.


Olho.


Celeste.


Parada.


Observando.


E naquele olhar…


não é só raiva.


Nem só inveja.


Tem algo pior.


Muito pior.


Um daqueles pecados que não se disfarçam bem.


Eu travo.


Não.


Não.


Não mesmo.


Isso não.





Assim que chegamos ao nosso apartamento, eu demonstro o que guardei durante toda a noite. Com nojo de Vincenzo, não permito que ele me toque. Tomo um banho demorado debaixo da ducha fria porque não suporto a água escaldante. Já deveríamos ter trocado esse chuveiro com duas únicas temperaturas, mas isso, no momento, é o que menos me aflige. Saber que Celeste estragou um dos melhores momentos que poderíamos ter tido me faz ter ânsia de vômito. Imaginar o que ela sente por Vincenzo me faz vomitar no box. Levo tempo lavando tudo, inclusive meus cabelos longos, cujos fios têm caído aos tufos.


“São os hormônios”, diz o ginecologista da clínica próxima à nossa casa. Um médico que sequer me olha nos olhos.


Quem disse que dinheiro não traz felicidade??? Só não traz quando é pouco!!!


Se eu tivesse grana, não estaria lavando o banheiro de madrugada enquanto todos dormem, inclusive Matteo, a quem amamentei antes de me limpar. Sou uma escrava dentro dessa casa, dentro desse corpo que é usado por mais de uma pessoa além de mim mesma. Adoraria olhar para esse espelho embaçado e declarar ao meu reflexo:


ESSE CORPO É MEU! O MARIDO É MEU! OS FILHOS SÃO MEUS! O DINHEIRO DA VENDA DO CASTELO É NOSSO!


Vincenzo era o dono do castelo!!! Cadê a vaca da outra personalidade que viveu com ele àquela época que não surge, diante de Celeste, e a confronta???



— O QUE É??? TÔ SAINDO, PORRA!!!


— Perdão. — diz Vincenzo, de cabeça baixa, ao lado de Antoine, assim que abro a porta. — Nossa filha queria falar com você antes de dormir.


Cubro meu rosto com as mãos e choro feito criança. Vincenzo me conduz até a cadeira de balanço. Desorientada, aguardo por Matteo em meus braços esticados.


— Ele já dormiu faz tempo, Dess. — avisa Vincenzo, condoído.


Continuo a chorar sem coragem de encarar Antoine.


— Fala, filha. — incentiva Vincenzo. — Mamãe vai gostar de ouvir.


— Mãe?


— Desculpa, filha. — peço, escondendo meu rosto e a vergonha. — Eu tô tão cansada...


— Eu trouxe um presente, mamãe.


Engulo o choro e, inspirando e expirando profundamente, procuro sorrir ao perguntar:


— Sério? Um presente? Qual?


— Toma. — diz ela, entregando-me algo em formato arredondado, embrulhado em papel dourado, onde a fita durex reluz mais do que o próprio papel. — Eu que embrulhei o presente, mãe. — avisa ela, envaidecida. — Não ficou muito bom, mas eu não quis que meu pai me ajudasse porque eu já sou bem crescida. Vou fazer nove anos. Já sou uma moça. Né?


— É. — sorrio. — Uma linda moça.


Afirmo abrindo cuidadosamente o embrulho. Assim que vejo parte dele, baixo a cabeça, tentando esconder a decepção. Continuo a desembrulhar o presente e, fingindo surpresa e contentamento, minto:


— Que lindo! Um chuveiro novo! Eu vou poder tomar banho morno!


— Sim! Foi isso que eu disse ao meu pai quando quebrei meu cofrinho! Mamãe precisa tomar um banho morno! Assim ela vai ficar mais calma!


Minha voz embarga quando pergunto:


— Você quebrou seu cofrinho, filha?


— Sim! Era pra uma emergência!


Engulo em seco. Meu coração dói. Vincenzo parece me compreender ao comentar:


— Nossa filha é única, Dess. Ela aprendeu a ser assim com você.


— Não. — refuto, enxugando minhas lágrimas com parte da toalha enrolada em minha cabeça. — Ela já era assim antes de mim. Antes de você. Ela é um anjo.


— Gostou, mamãe!?


Encarando-me à espera de minha confirmação, ela sorri. Meus lábios tremem de emoção, decepção e sei lá mais o quê quando tudo o que consigo dizer é:


— Amei, filha! Um banho morno! É disso que preciso pra mudar a minha vida!


Longe de entender a ironia de um ser humano sujo como eu, ela celebra, saltitando e batendo palmas. Nego-me a encarar Vincenzo que, certamente, já leu meus pensamentos.


— Isso é só parte dos presentes, Dess. Tem mais um... — diz ele, receoso. — Olha pra mim, amor. Eu te entendo.


— Não consigo. Eu sou um monstro.


— Não. — ajoelha-se ele diante de mim. — Você é mais uma das milhares de mães que sofrem por amar seus filhos e lutar contra um transtorno que poucos estudam. Queria te dar muito mais, mas tudo o que posso te dar, no momento, é isso. — entregando-me um número de celular escrito em um papel, ele me olha com ternura ao explicar: — É de um lugar que vai te fazer feliz, Dess. Eu sei que vai. Jura que vai ligar?


— É de algum médico?


— Não. Mas vai ajudar a te curar. — seu sorriso inocente me faz chorar ainda mais. Merda. — Vai molhar o papel.


Rindo, ele me faz rir. Antoine ri porque ambos estamos rindo. Ela é tão cheia de amor. Assim como seu pai...


— Para de pensar, Dess! Quer que eu chore também!?


— Não! — rindo, assoo meu nariz na toalha que arranco da cabeça. Meus cabelos úmidos caem sobre meu ombro direito. Vincenzo me olha, encantado. Por quê?


— Para de me olhar. Eu tô feia.


— Você é linda, Dess. Linda e burra. Vai ligar?


— Pra quem?


— Pro celular, mamãe... — resmunga Antoine, impaciente.


— Não entendi.


— Liga, mãe! Eu vou com você!


— De onde é??? — pergunto, entre confusa e curiosa.


Vincenzo me faz arfar ao comentar, esperançoso:


— Tem a ver com aquilo que você mais ama depois dos seus filhos.


Sem ter entendido a dica, acaricio o rosto dele e corrijo:


— Depois dos meus filhos e de você, meu grande amor.


— Woohooo! — uiva Antoine, me beijando e saindo do quarto, satisfeita. Antes de fechar a porta, ela alerta: — Eu quero ir com você, mamãe! Vai ser simplesmente esplêndido! Ah! E nada de safadeza! Meu maninho tá dormindo!


— Ela é especial. — comenta Vincenzo, emocionado, sentado no tapete diante de mim. — Bendito o dia em que você saltou daquele carro e a salvou.


— Eu sou uma péssima mãe. — digo entre soluços. — Eu gritei com ela sem querer. Eu explodi. Eu me vi no espelho e não me enxerguei.


— Foi sem querer, Dess. Você mesma disse.


— Eu não me vi, Vincenzo. — assumo, assustada. — Eu vi outra mulher.


— Eileen?


— Não.


— Morgana?


— Não. Eu a invoquei e uma outra mulher surgiu.


— E o que ela disse?


— Nada. Foi quando vocês bateram à porta. — arranco fios do meu cabelo úmido, em desespero. — Eu tô surtando, amor. Não me deixa enlouquecer. Cuida dos nossos filhos por mim.


— Ninguém aqui vai surtar. — ele afirma, segurando minhas mãos para eu parar de puxar o cabelo. Enrola os fios entre os dedos e os joga no lixo. — Todos nós perdemos cerca de cinquenta a cem fios por dia, Dess. Faz parte do ciclo natural. Não se prende nisso. — me olha com serenidade. — Você ainda tem muito cabelo nessa cabeça oca.


— Por que dançou com a “outra”?


— Porque você precisava da grana do prêmio e eu, como sempre, queria estar ao seu lado.


— Ao lado da “outra”. — insisto, enciumada. — Você nunca aceitaria dançar comigo em um concurso. Foi difícil te fazer dançar comigo no nosso casamento.


— Era diferente, Dess. Eu dancei com você na Irlanda pra te conquistar. No nosso casamento, você já era minha. Então achei que podia ser eu mesmo. — ele solta um suspiro pesado. — Errei.


— Não. Eu que errei. Por que não diz o nome dela?


— Porque ela é você, Dess. Eileen é você. Morgana é você. E a mulher que apareceu hoje pra você no espelho… é você. Tome posse do teu corpo.


— Não se cura um transtorno de personalidade assim! Não se joga alguém com fobia de cobras num buraco com ninhos delas! Não funciona assim, Vincenzo!


— Fale baixo. Nosso filho dorme.


Enraivecida, me ergo da cadeira, levando comigo o chuveiro novo até o banheiro. Deixo-o sobre o cesto de roupa suja e penteio meus cabelos com agressividade.


— Assim vai ficar careca.


— Isso não me ajuda em nada.


— Me dá a porra desse pente.


— Não. — digo ao seu reflexo. — Vá embora.


— Me dá a porra desse pente, Adessa Rossi.


A voz dele não levanta. Não precisa.


Tomo o pente de sua mão.


Ele desliza devagar da raiz até as pontas do meu cabelo.


A raiva não some. Só perde força.


Me apoio na pia. Fecho os olhos.


Ele continua. Penteia. Cuida. Organiza o caos como se fosse rotina, como se não fosse absurdo.


Depois seca as pontas com uma toalha de rosto.


— Desde quando você virou cabeleireiro? — minha voz sai menor.


Ele não responde de imediato.


Trança meu cabelo com calma.


— Desde que tive que lidar com uma mulher impulsiva, reativa e difícil de agradar.


— Você trançava o cabelo dela?


— Não. Nunca tivemos tempo. Ela morreu jovem. Você morreu jovem, Dess, deixando nosso filho nas mãos da sua tia.


Um frio atravessa meu estômago.


— Celeste cuidou do nosso filho??? Como você permitiu???


— Seu amado demônio irlandês já tinha me matado, ou melhor, inutilizado meu corpo. E mortos não salvam crianças.


Minha respiração falha.


— Talvez seja isso que a “outra” deseje. Tirar nosso filho das nossas vidas.


— Talvez não seja isso que Eileen esteja tentando te dizer, Dess. — ele ajusta o elástico na ponta da trança. — Talvez ela queira voltar por medo.


— Medo do quê?


Ele me encara no espelho.


— Do que sua tia possa fazer ao nosso filho. Que talvez ela ainda ache que é dela.


O sangue some do meu rosto.


— Não vai. Celeste não toca no Matteo.


Ele se afasta um pouco.


— Encare suas personalidades. Diga os nomes. Converse com elas. E liga pro número no papel. É pouco, mas é tudo o que posso te oferecer.


— Não me deixa, Vincenzo.


Mas ele já está indo.


Fico sozinha no quarto.


O silêncio pesa.


Olho o papel amassado.


O celular.


Google.


“Just Dance – Cia. de Ballet Contemporâneo”.


E alguma coisa dentro de mim… não discute.


Só reconhece.





Durante o café da manhã, observo a janela. Grossos pingos de chuva se chocam contra o vidro. Desisto de levar Antoine ao colégio. Não posso submeter Matteo a uma possível gripe ou algo pior. Desde que Celeste se revelou um ser perigoso, já não posso contar com sua ajuda. Não posso sair de casa sem meu filho. Já não posso trabalhar por meio período na academia, o que me fazia muito bem.


— Não precisa ir ao colégio, filha. Hoje tem alguma prova?


— Não, mãe. Mas eu prometi ao meu amigo que estaria lá. Ele precisa de ajuda em Matemática.


— Que amigo? Quantos anos ele tem?


— Pega leve, Dess. São crianças.


— Eu tinha seis anos quando aquele monstro me atacou.


— Isso não vai acontecer com a nossa filha. — afirma ele, com as mãos trêmulas ao partir o pão francês ao meio. — Somos pais atentos e sempre presentes.


— Eu sei. Desculpa. — arrependida, ergo-me da cadeira e, apressada, procuro um de seus remédios no armário da cozinha: o que impede os tremores. De volta à mesa, obrigo-o a tomar com o leite no copo. Ele se nega. Eu insisto: — Você cuida de mim e eu cuido de você. Lembra?


— E quem cuida de mim??? — dramatiza Antoine, de boca cheia.


— Nós dois. — responde Vincenzo, beijando sua bochecha. — E você cuida do seu irmãozinho. Certo?


— Certo, chefe! — exulta ela, prestando continência. — Ninguém chega perto dele. Principalmente a minha avó.


Vincenzo me olha ressabiado.


— Por que, principalmente, a sua avó? Ela fez alguma coisa de errado, filha?


Ela esconde o rosto entre as mãos.


— Prefiro não falar o que eu vi. Vocês vão brigar comigo e eu não vou poder ir ao colégio.


— Ninguém vai brigar com você, amor. — afirma Vincenzo, tocando sua mão e afastando-a do rosto com cuidado. — Conte o que viu.


— Eu não vi. Eu ouvi, papai.


— O quê!?


Eu me exalto. Matteo sorri ao meu lado, deitado no carrinho. O pânico de perdê-lo me atravessa inteiro.


— Diz! O que você ouviu, filha!


— Calma, Dess. — rosna Vincenzo, visivelmente afetado pela dor em sua cabeça.


Atordoada, me levanto. Uma caixa de remédios cai do armário. O som estoura dentro de mim.


Uma onda de horror me engole ao perceber que meu marido era saudável até que eu surgisse em sua vida. Que meus filhos correm perigo por minha culpa.


Se eu não tivesse surgido na vida de Vincenzo, Lúcifer não teria tanta sede de vingança e Celeste não teria tanto ciúme do filho. Um ciúme mais do que maternal.


Maldita.


— Dess…


— Deixa que eu pego tudo. — aviso, baixando a cabeça.


Agacho no chão, fugindo do olhar dele.


Ele chama meu nome de novo. Mais de uma vez.


Eu odeio quando ele me chama assim. Como se estivesse me desmontando por dentro.


Ergo com as caixas de remédio nas mãos e as jogo contra a pia. Me apoio ali, tentando respirar.


Uma crise de claustrofobia me pega sem aviso.


— Não fica nervosa. Assim você não respira.


— Você me ouviu? — ele pergunta.


Assinto.


— Ouvi o que você pensou sobre Celeste.


— Merda. Eu não consigo…


— Inspira em quatro tempos. Segura por sete e expira por oito.


— Eu já sei…


— Faz o que eu mando.


O tom muda. Firme. Quase duro.


Eu obedeço.


Antoine brinca com Matteo tentando fazê-lo parar de chorar. Ele precisa de mim.


— Se não conseguir respirar, ele perde o leite e a mãe ao mesmo tempo. Respira.


Eu completo o ciclo. O ar volta devagar.


Molho o rosto na pia.


Quando levanto, ainda estou tonta.


— Perdão pelo grito.


— Toma seu remédio, amor.


— Não tá doendo, Dess.


— Eu sei que está. Eu sinto.


— Você e seus superpoderes. — ele ironiza, engolindo o comprimido a seco.


Bebe água da torneira. Seca o rosto.


— O que é?


— Depois você me conta isso, Dess. Agora eu tô atrasado.


— Contar o quê???


Ele veste o casaco.


Me olha com aquele ar impossível de ler.


— Você ainda não aprendeu que não dá pra esconder nada de mim? Depois de tanto tempo?


— Quem vai levar Antoine ao colégio!? Tá chovendo muito! Eu não vou andar com Matteo debaixo dessa chuva!


— Meu pai me leva! — exulta ela, dando as costas.


— Antoine Rossi!


Ela encolhe os ombros.


— Ihh… ferrou…


— Não pense que eu esqueci o que você ainda não me disse sobre sua avó, ouviu?


— Ouvi.


— Já ligou?


— Vincenzo… eu…


— Sério!? Nem pra saber do que se trata!?


Ele beija Matteo, depois me beija.


— Eu não acerto uma.


Antoine cruza os braços, ofendida.


Ele sai com ela.


A porta fecha.


Silêncio.


— Vincenzo! Volta!


Corro até a porta.


Nada.


“Não deixem brechas”, diz a voz na minha cabeça.


“Olhe-se no espelho.”


Vou até o banheiro.


Matteo no colo.


O espelho me devolve algo que não é fixo.


Ela aparece.


Um sorriso calmo.


Errado de um jeito certo demais.


Eu engulo seco.


— Valeu.


E saio.


Macacão largo.


Gorro.


Tênis branco.


Seguindo em direção ao presente que o meu marido me deu.





— Quanto???


— Duzentos ao mês, senhora.


“Senhora?”


Eu tenho quase a idade dela. Que merda. Envelhecer é uma bosta.


Observando minha insatisfação, a jovem recepcionista da “Just Dance” esclarece:


— São duzentos por mês, mas temos um pacote semestral que sai mais em conta.


— Sério???


Sorrio sem graça.


— E… quanto seria o pacote???


— Mil reais.


OI???


— A senhora economizaria uns duzentos reais. Não lhe parece melhor?


Super melhor. Mil reais eu tenho na minha carteira. Aqui. Agora mesmo. Espera um pouco. Já vou te dar.


— Senhora?


— Então… — recosto-me na bancada requintada, espelhada, perfumada. — Pode me chamar pelo nome?


Um sorriso franco.


— Claro. Qual o seu nome?


— Adessa. Adessa Rossi.


Dinheiro eu não tenho, mas meu nome é de gente rica.


— Foi um prazer te conhecer… — chego mais perto. — Você me disse seu nome?


— Ana. Mas todos me chamam de Aninha.


Aaah. Fofo.


Aninha. Novinha, bonitinha…


— A senhora está bem?


Um olhar atravessado meu.


Ela engole seco.


— Você está bem, Adessa? Seu filho é lindo. Parece muito com você.


— Que nada… — sorrio, envaidecida. — Puxou ao pai. Ele é lindo.


Suspiro.


— Você não faz ideia.


— Faço sim. — ela diz, digitando no computador, sorrindo pra tela. — Rossi… Rossi… Rossi. Achei.


— O quê?


Matteo, preso ao meu corpo no canguru, encosta as mãozinhas no meu rosto. Eu quase esqueço de respirar.


Aninha fica eufórica:


— Eu sabia! Eu sabia!


— Sabia do quê?


— Eu vi seu marido. Ele esteve aqui semana passada.


Reviro os olhos.


— Um sapão.


— Sapão???


Ela ri.


— Um deus grego, gato, um pedaço de mau caminho…


Puta.


Vadia.


— Com todo respeito.


Eu já tô com metade da minha paciência no chão.


— Eu preciso ir. Ele tem pediatra marcado.


Minto.


— E eu preciso passar no shopping e comprar roupas pro bebê. Eles crescem rápido.


Minto de novo.


— Não quer dar uma olhada nas acomodações?


— Pra quê!?


Minha voz sobe um nível.


Eu quero arrancar a alma dela com educação, mas tô me segurando.


— Vincenzo.


Congelo.


— O quê tem ele!?


Me grudo na bancada.


— Você conhece ele? De onde!?


— Daqui.


— Daqui???


Ele vem aqui???


Ele conhece alguém aqui???


— É você?


A frase quase sai inteira.


Ela ri.


— Você é muito ciumenta. Eu também sou. Minha namorada odeia isso em mim.


Ufa.


Ela é gay.


Menos um problema no mundo hoje.


Ela continua:


— Seu marido esteve aqui, Adessa. Você está matriculada.


— Oi??? Onde???


— Aqui. Onde mais?


Minha cabeça encosta no balcão.


— Ele me matriculou aqui???


— Pra dançar.


Silêncio.


— Ele disse que você é uma bailarina perfeita.


— Perfeita?


Engulo seco.


Aperto Matteo contra mim.


Olho pro chão, pro teto, pra qualquer coisa que não seja minha própria fragilidade escorrendo.


— Eu nunca frequentei um lugar assim…


Ela gira o notebook pra mim.


— Então chegou sua vez.


Meu nome tá lá.


Escrito.


Real.


Pagos seis meses.


Minha respiração falha.


— Viu?


— Não…


Ela levanta, estende a mão.


— Seu marido é inteligente. E eu ganhei comissão.


Eu não tô entendendo nada.


Matteo ri.


Traidor pequeno.


Ela me puxa.


Eu puxo de volta.


— Eu não posso. Preciso falar com ele. Me perdoa. Você é um anjo.


— Adessa!


— Eu volto!


Passo pela catraca como quem atravessa um erro.


— Assim que eu falar com ele, eu volto. Ok?


Rua.


Chuva fina.


Ar frio.


E o pensamento que não para:


Vincenzo gastou mil reais comigo.


Mil.


E eu nem sei se isso é amor…


ou uma loucura dele tentando me manter inteira do jeito mais estranho possível.





— Eu não posso aceitar, amor!


— É um presente, porra!


— Não fala assim comigo, Vincenzo! Eu quero o nosso bem!


— E eu quero o seu! Eu não “caí” pra te fazer infeliz!


— Eu não sou! EU NÃO SOU INFELIZ! EU TENHO TUDO O QUE QUERO!


— Eu quero te dar alguma coisa!


— Você já me deu tudo, cacete!


— Então por que eu me sinto um merda!?


— Porque você é um idiota cego que não me enxerga! Não vê o quanto eu te amo e não preciso de nada além do teu amor e dos nossos filhos!


— EU QUERO TE DAR A PORRA DAS AULAS DE DANÇA!!!


— EU NÃO QUERO!!!


— ACEITA!!!


— NÃO!!!


— SE FOSSE PRESENTE DELE, VOCÊ ACEITARIA!!!


Arquejo. Recuo, magoada.


— Você tá doente. — lamenta Vincenzo, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas. — Eu não suporto te ver sofrer.


— Eu digo o mesmo. Seu sofrimento é maior, amor. O que eu tenho vai passar. O que você tem, talvez…


— Não tem cura. Talvez fosse melhor você…


Eu corto antes que ele termine.


— Nunca mais pense nisso!


— Seria melhor ele voltar e sustentar vocês porque eu não consigo mais. Só vai piorar, Dess. Daqui pra frente só vai piorar!


Arremesso um chinelo contra ele. Atinge o abdômen.


Ele me encara, confuso.


— Você é louca?


— Sou. Por você.


— E por isso me machuca?


— Eu não vou te perder.


— Dess…


Desorientada, caminho pela sala, sem eixo, sem ar. Aponto pra ele.


— NÃO FALA NADA! EU VOU TE CURAR! NÃO SEI COMO, MAS VOU TE CURAR!


— Parem de brigar. — choraminga Antoine, no corredor.


Ela aparece com uma das minhas camisolas, arrastando no chão, e abraça Vincenzo.


— Para de brigar, papai. É isso o que ele quer.


— Ele quem, filha? Quem falou com você?


— Aquele tio que não é meu tio.


— Tio Lu. — rosno. — Ele tem falado com você?


— Fica longe, Dess. Deixa nossa filha falar.


— Eu não sou um monstro.


Me afasto, pego o chinelo no chão e rio sem humor.


— O que tá olhando?


— Falta pouco, mas ainda não enlouqueceu. — ele responde, quase sorrindo.


Me jogo no sofá.


— Dess, presta atenção no que ela disse.


— O quê???


— Ele não falou comigo porque eu disse que vocês não querem.


— Fez bem.


— Dess!


— Foi só uma observação.


Antoine ri, nervosa. Continua:


— Eu ouvi aquele tio falando com a vovó.


A sala muda.


Eu ajoelho na frente dela.


Antes que eu fale, Vincenzo corta:


— Fica quieta. Aprende a ouvir.


— Dois a zero, bandido. — rosno, recuando até a mesa.


Sento.


Mexo os pés rápido demais.


— Continua, filha. Eu tô calma.


Minto.


— Ele não falou comigo porque eu disse que vocês não querem que eu fale com ele.


— Fez bem.


— Dess!


Tapando a boca com a mão:


— Tá. Calada. Fala.


Ela respira fundo.


— Eu ouvi a vovó chorando na frente dele. Ela não queria deixar o vovô, mas o…


— Pode falar, filha.


— …mas o tio Lu disse que se ela não conseguisse o que ele queria, ela voltaria pra “Legião”.


— Isso é um lugar, papai?


— Não. — responde Vincenzo, pesado. — É uma comunidade.


— Comunidade?


— Uma rede social. Tipo Instagram… TikTok… Deep Web.


— Ah. Entendi.


— Continua. O que ele disse?


— Ele disse que minha avó tá atrás do sangue errado.


Silêncio.


O ar muda de novo.


— Sangue???


— DESS!!!


— Sangue??? Você ouviu isso??? Eu te disse que aquela mulher não era confiável!!!


— Dess! Controle-se!


Eu travo, mas não caio.


Sento de novo.


Respiração curta.


— Ele disse que ela tá mirando no alvo errado.


— Alvo? — Vincenzo traduz, tenso. — Sua avó tá mirando no alvo errado?


— Isso!


— É tipo uma trave de gol, filha. Menor.


— Minha vó tá tentando acertar uma bola na gente?


— Por quê? Eu preciso proteger meu irmão?


— Mamãe!!! Você tá bem???


O chão me encontra antes de qualquer resposta.


Ar não entra.


Não vem.


Não fica.


— Ela tá tendo um ataque de pânico. — a voz dele chega distante. — Pega meu estojo.


Passos.


Pressa.


Minha visão falha.


A última coisa que vejo é a agulha na mão dele.


— Não… isso… não…


— Eu não vou deixar você morrer.


Picada.


Silêncio.


E depois… nada.



— Eu estou exausta. Por que não o deixam em paz? Por que não nos deixam viver nossas vidas? O que temos de tão especial?


— Cada um de vocês é parte de um quebra-cabeças. Cada um tem sua importância. Um anjo que “cai” por amor. Um querubim que se propõe a correr riscos entre Humanos e uma antiga e poderosa bruxa que deu início a essa história de amor antes mesmo do “Messias” nascer. Há muita força, magia e poder entre vocês, querida.


— Pra quê? Por quê? Não queremos isso. Queremos viver em paz. Curar Vincenzo é o meu maior desejo. Eu daria minha vida por ele e ele cuida dos nossos filhos.


— E você o deixaria nas mãos do “Anjo Caído” para ser corrompido? Permitiria que Lúcifer machucasse Antoine? E quanto àquele que carrega o sangue maldito do avô? Sem você, o pequeno vai se perder.


— O sangue maldito de quem???


— Acorde e lute.


— Não! Não me deixe aqui!


— Estarei no espelho…


Corro pela relva atrás de sua silhueta elegante e diáfana até perdê-la de vista.



— Não me deixa! Salva meus filhos! MEUS FILHOS!


— Dess! Estamos aqui!


— MEUS FILHOS! ELE QUER MEUS FILHOS!


Agarrando-me pelos braços, Vincenzo grita:


— Se acalma! Foi só um pesadelo!


— Você me drogou, bastardo!


Estapeio seu rosto e me arrasto pelo chão da sala, recuando até a parede. Acuada, repito:


“Ele quer nossos filhos. Ele quer nossos filhos.”


Antoine chora ao me ver descontrolada. Matteo chora, com fome. Vincenzo comprime as mãos na cabeça, em sofrimento. Em choque, eu paro.


Choro.


Cubro o rosto.


Nosso mundo virou caos e a culpa é minha.


Lembrando do conselho da mulher que vi antes de voltar ao corpo, reúno o que resta de mim e me levanto.


Caminho até a cozinha sob os olhares de Vincenzo e Antoine.


Tampo a borda do copo com uma das mãos e sussurro palavras que não conheço.


— Bebe.


— Dess…


— Bebe agora. A dor vai passar.


Derramo sal grosso na soleira da porta, murmurando encantamentos.


— Pra quê isso, Dess?


— Proteção.


Viro o corpo dele na minha direção.


Ele está com medo.


— Não precisa. Vai dar tudo certo.


Acaricio seu rosto, tentando me desculpar.


— Perdão. Eu me descontrolei.


Pego Matteo no colo e o amamento no sofá, cantarolando uma canção antiga.


— Não sei… — respondo à pergunta de Antoine. — Não sei quem me ensinou.


— Senta aqui comigo. Não tenha medo.


— Não tenho. — ela diz, me abraçando forte. — Eu sabia que você ia voltar.


— Até quando vai ficar com a gente?


— Até seu avô chegar.


— Do que estão falando?


A voz de Vincenzo sai baixa, tensa.


— Sou eu. — digo. — Sou parte dela.


— Abra a porta e aceite o que ele te oferecer. Quanto a ela, não deixe cruzar o batente. Ela não está pura. Perdeu a razão. O pouco que tinha.


— Dess…


— Abra a porta, amor.


O copo cai da mão dele.


A campainha toca.


Ele abre.


Enrico.


Celeste.


— Sou eu, meu filho. Vim em missão de paz.


Enrico tenta impedir Celeste, mas ela empurra. Sorri.


Depois recua.


— O que diabos é isso!?


— Magia.


— Tire isso daqui, Enrico.


— É só sal. — Sorrio. — Você não passa.


— Há mais coisas aqui…


— O que há com você, Celeste? — Vincenzo diz, abatido. — Eu te livrei dele uma vez.


— Ele não te quer mais, meu doce Vincenzo, — Lascívia. — Seu alvo é outro.


Enrico tenta intervir.


— Não fui eu que a trouxe. Ela não me obedece mais, filho.


Celeste arranca o cheque da mão dele.


Rasga.


— Maldita.


Enrico me ajuda a levar Vincenzo até o sofá.


— Quarenta graus. Ele precisa de hospital.


— Eu fico com as crianças!


Celeste grita da porta, tremendo na barreira invisível:


— Façam o que eu falei! Meu filho vai morrer por sua culpa, Adessa!


Vincenzo convulsiona.


Antoine chora.


— Volta, papai! Volta!


— Ele não vai morrer! Eu prometo!


Enrico e eu o levamos até a banheira.


Água gelada.


Corpo quente demais.


O dele treme.


O meu o abraça num desespero.


Seus lindos olhos azuis se foram. 


Olhos brancos fixam o teto.


Enrico ora.


— Rafael, se puder, nos ajude.


Uma presença muda o ar.


Liam.


Algo responde.


Vincenzo volta aos poucos.


— Dess?


— Amor… você voltou.


Eles o tiram da água.


Eu fico tremendo.


Saio deixando rastros de água pelo chão.


— Cassie!


— Tia! Troca de roupa!


— Onde está Matteo?


— Aqui, mamãe!


Antoine o segura.


— Boa garota…


Eu me viro.


Celeste está dentro da casa.


Como?


Corro.


Me jogo.


Sem pensar.


Impacto.


O mundo quebra.


Antes da parede, só dá tempo de um pensamento:


strike.




— Bem-vinda ao nosso mundo, amor.


— Vincenzo!


— Você é louca, Dess. — A voz dele vem baixa, cheia de ternura. E isso me desmonta mais do que qualquer dor.


— Por você…


— Os dois são loucos. — conclui Cassie, indignada, no quarto onde Liam nos hospedou. — “Anemia” e “Pneumonia”. Que par perfeito. Uma dupla sertaneja.


Ela aponta pra cama king size, lençóis macios com cheiro de lavanda, como se aquilo fosse um teatro absurdo onde a gente acabou de cair de paraquedas.


— Anemia? — pergunto, tentando organizar a própria respiração. — Vincenzo tem anemia?


— Sim. Foi o que o médico disse. Anemia severa raramente causa convulsões em adulto… mas acontece.


Engulo seco.


— Ele disse como curar?


— Fica quieta, Dess. Você ainda tá muito fraca.


— Me deixa… — tusso, virando pro lado. — Tem cura, Cassie?


— Transfusão de glóbulos vermelhos — responde Liam, sentado numa poltrona de couro no canto do quarto, como se estivesse falando do clima.


Franzo o cenho.


— Transfusão de glóbulos…?


— Uma transfusão total de sangue. Tirar o sangue do corpo dele e trocar por sangue saudável.


O ar some da minha garganta.


— Esquece, Dess.


— Eu não falei nada.


— Falou sim. Pensou. Já deu.


Cassie cruza os braços.


— Liam, muda de assunto.


— Tia, fica de boa. Me poupa.


— Eu não disse nada… — murmuro, me escondendo debaixo do lençol.


Cassie me encara como se quisesse me multar por existir.


— Se vocês morrerem, quem eu vou escolher como padrinhos do meu filho? — solta ela, irritada. — Dá pra pensar um pouco em mim e no meu coelhinho?


Eu rio. Tossindo. Fraca. E mesmo assim feliz.


Olho pra Vincenzo.


Ele já tá melhor. Vivo. Aqui. Isso basta.


— Dá. Dá sim. Um filho?


Cassie congela.


Depois sorri e chora ao mesmo tempo.


— Sim. Eu vou ser mãe, tia. Acho que dessa vez a Antoine se enganou. Eu vou ser mãe.


— Louvado seja o Criador… — sussurro, exausta, deixando o corpo afundar no colchão.


O teto vira borrão.


A última coisa que sobra na minha mente é uma frase piscando, insistente, como luz de emergência num quarto escuro:


“Transfusão de glóbulos vermelhos.”









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