CAPÍTULO 38 - INACEITÁVEL
Contraditoriamente aos últimos acontecimentos, eu me apego ainda mais ao meu filho.
Recuso-me a acreditar na versão de Antoine — repetida por Vincenzo como uma sentença — sobre algo que está completamente fora do meu controle.
Prefiro enxergar o que é real.
O carinho de Matteo.
Suas risadas inocentes.
Sua paixão por mim… e pela dança.
Eu sei que me afasto dos outros quando faço isso.
Mas meu coração de mãe não vai ceder.
Não vai se curvar a uma interpretação macabra sobre a morte de um pássaro caçado por um gato no quintal.
Não.
Não mesmo.
— Já tomou seus remédios?
— Esqueci.
— Dess… esse não é o tipo de remédio que você pode esquecer.
— EU ESQUECI!
Grito sem necessidade.
Aperto Matteo contra mim, tentando conter o choro que ameaça escapar.
— Minha cabeça não tá boa… perdão.
— Não pede perdão.
Ele se senta ao meu lado, nas almofadas da brinquedoteca que montamos para Matteo.
Colorida. Aconchegante. Segura.
Tão diferente do cercadinho apertado da nossa vida antiga.
Por um segundo, penso que o dinheiro nos contaminou.
— Bobagem — ele responde, como sempre invadindo meus pensamentos. — Dinheiro bem usado é ferramenta, não veneno. A gente não ostenta. A gente vive melhor.
Suspiro.
— Eu desisto de pensar com você por perto.
Matteo alisa o ursinho com uma delicadeza que me corta por dentro.
Não.
Não existe mal ali.
— Não quero tomar os remédios — murmuro. — Eles me deixam fora do ar. E eu preciso estar presente. Por ele. Pela Antoine.
— Ainda duvida dela?
— Não. Só acho que ela interpretou errado.
— Dess…
— Chega!
Minha voz corta o ar.
— Eu não vou ouvir isso de novo!
Engatinho até Matteo e o puxo para meus braços.
— Meu filho é bom.
— Nosso, Dess.
— Nosso.
— E qual o problema em admitir que ele pode ter feito aquilo por curiosidade?
Eu o encaro, incrédula.
— Curiosidade?
Minha voz falha.
— Que tipo de criança normal tem curiosidade de… estrangular um pássaro, Vincenzo?
Silêncio.
— Não me obriga a pensar que meu filho é um…
— Psicopata?
Ele ri.
Se joga no chão como se aquilo fosse absurdo.
— Essa foi boa, Dess. Eu nunca pensaria isso dele. Ele é meu filho.
— Nosso.
— E daí?
Ele se ergue num movimento brusco.
— Só porque você carrega esse trauma ridículo de “sangue impuro” quer jogar isso nele também?
Congelo.
— Como você sabe disso?
— Eu lembro. Do hospital. Do que você pensou… do seu surto no jantar.
— Surto?
— Depois a gente discute isso. Agora olha pra ele.
Ele pega Matteo no colo, brincando, como se nada existisse além daquele momento.
— Quem é o filhão do papai?
Matteo gargalha.
E o mundo, por um segundo, se ajeita.
— O sangue dele é normal — Vincenzo continua. — Saudável. É a mistura perfeita do seu com o meu. Ponto final.
Eu deito ao lado deles.
Quase acredito.
— Crianças podem ser cruéis — ele diz, casual.
— Nunca li isso.
— Devia. Quem mandou largar a faculdade?
— Eu não larguei. Eu tranquei.
— Faz séculos, Dess.
— Não me importo.
— Se tivesse terminado, hoje seria uma ótima psicóloga. Mas preferiu…
— Fala.
Minha voz endurece.
— Fala logo.
— Preferiu se apaixonar por um homem quebrado.
Silêncio.
Eu o abraço.
— Você foi a melhor coisa que me aconteceu.
— Chegou tarde.
— Eu queria esquecer tudo.
Ele me olha.
Daquele jeito.
Perigoso.
— Quer mesmo?
— Não começa.
— Eu posso apagar.
Meu corpo enrijece.
— Nem pensa nisso.
Ele sorri.
Errado.
E, num segundo, me derruba no chão, me prendendo com o corpo.
— Sente falta dele?
— Quem?
— Seu demônio favorito.
— Nunca!
Riso, luta, respiração descompassada.
— Escorregadio! — acuso.
— Sabonete safado? Sério?
— Me solta!
— Pede perdão!
— Eu não te troquei! Você sumia!
Estamos rindo.
Leves.
Idiotas.
Vivos.
Até que...
THUMP.
O impacto.
Seco.
Pesado.
O boneco acerta a cabeça de Vincenzo com força.
O riso de Matteo ecoa.
Vincenzo leva a mão à cabeça.
Sangue.
Meu estômago vira.
— Tá sangrando!
— Não foi nada…
Não.
Não foi “nada”.
Eu ajoelho diante de Matteo.
Pela primeira vez, dura.
— Por que você fez isso?
Ele treme.
Os olhos enchem de lágrimas.
E então chora.
Um choro quebrado.
Humano.
Normal.
Vincenzo o pega no colo imediatamente.
— Ele achou que eu tava brigando com você — diz, me olhando firme. — É ciúme. Só isso.
Minha cabeça gira.
— Para com essa história de “limpar o sangue”.
Congelo.
— Quando eu falei isso?
— No jantar.
— E o que mais?
— Nada importante.
Mentira.
Eu vejo.
Mas ele não vai dizer.
Ele nunca diz tudo.
— Vamos nos arrumar — ele muda de assunto. — Batizado da filha do João. Somos padrinhos.
— Primeiro sua cabeça.
— Já passou.
— Senta.
Vou buscar o kit de primeiros socorros.
Ele me puxa pela cintura.
— Eu não saberia viver sem você.
Eu sorrio.
Porque, por um segundo…
eu acredito.
— E não vai precisar.
Um tapa na minha bunda.
Leve. Familiar.
Seguro.
Caminho até o banheiro.
E, por alguns segundos…
consigo fingir que está tudo bem.
Após o batizado da filha de João, ele nos convida para um almoço em um restaurante próximo.
Apesar de João e Doc não serem próximos, faço questão de incluí-los.
Doc, como sempre, se adapta. Conversa, ri, observa.
Adele não.
Sentada ao lado dele, permanece quieta.
Ausente.
Troco de lugar com Antoine e me sento ao seu lado.
— Sem fome?
— Dor de cabeça. Vai passar.
Toco sua mão de propósito.
— Tenho analgésico na bolsa.
Enquanto mergulho na minha bolsa gigante — brinquedos, fraldas, lenços, roupas, remédios, um pequeno arsenal de sobrevivência — ela ri.
— Fazer o quê? — digo, sorrindo. — Vida de mãe. Tenho saudade da minha mochila… maquiagem, fones, celular… carteira…
Paro.
— Merda. Cadê minha carteira?
— Não reclama — ela murmura, com um sorriso triste. — Você ainda vai sentir falta disso. Vai querer esse tempo de volta.
Ela engole seco.
— Eles crescem… e vão embora.
Encontro o remédio.
— Achei. Toma. Um desses resolve.
Ela observa o comprimido na palma da mão.
— Vou precisar de algo mais forte… mas obrigada.
Bebe um gole de refrigerante.
— Você é uma ótima amiga.
— E você é uma péssima amiga.
Ela me encara, surpresa.
— Se fosse minha amiga, já teria me procurado.
Inclino o corpo, mais perto.
— Eu tô vendo você, Adele.
Silêncio.
— Cadê aquela mulher que expôs o “parrudinho” do Doc no meio de todo mundo?
Um riso curto escapa.
— Eu estava tão feliz naquela noite…
— Então a gente repete.
Sorrio, decidida.
— Hoje. Lá em casa. A gente cozinha, eles bebem, e a gente conversa sem interrupção.
Ela hesita.
Depois, cede.
— Gostei.
— Perfeito. O que quer comer?
— Feijão, arroz, bife… e batata frita.
Eu rio.
— Perfeito. Isso é felicidade pura.
Ela enche a taça de vinho.
Eu faço o mesmo.
Por fora, sorrindo.
Por dentro…
nem tanto.
— Vida longa a todos nessa mesa! — brindo, alto demais.
— Auguri! — responde Enrico.
Bêbado.
Triste.
A palavra ecoa.
E, como uma lâmina atravessando o momento, a voz de Antoine volta.
"Alguém aqui vai morrer."
Olho ao redor.
Um por um.
Risos. Conversas. Copos tilintando.
Vida.
E, mesmo assim…
um nó se forma no meu peito.
Quem?
A chuva bate contra a janela ampla da cozinha.
Eu frito as batatas.
Adele cuida dos bifes.
O feijão e o arroz já estão prontos.
As saladas, alinhadas sobre a bancada.
Da varanda, as gargalhadas de Vincenzo, Doc e Enrico invadem a casa.
— Do que eles tanto riem?
— Besteira. — resmungo. — Homem ri de qualquer coisa. Mentira… o Vincenzo ri de qualquer coisa. Enrico já passou dessa fase. E o Doc…
Sorrio, nostálgica.
— O Doc sempre foi o Doc. O cara mais decente que eu já conheci.
Bebo um gole de vinho.
— Já te contei que ele me salvou de várias situações no California? Era meu anjo da guarda.
— Ele é especial… — Adele murmura.
Ela hesita.
— Pessoas assim não deveriam…
Para.
Se cala.
Vira os bifes com mais força do que o necessário.
Eu observo.
— Não vai me contar?
Ela me encara.
— Pensei que confiasse em mim.
— Eu confio… — a voz falha. — Só… dói falar.
Aproximo-me.
— Eu já sei, Adele.
Silêncio.
— Ele nunca te contou sobre o meu “dom”?
— Não…
— Quando eu toco em alguém… eu vejo coisas.
Faço uma careta.
— Odeio isso.
Ela engole seco.
— Então você sabe…
— Quero ouvir de você.
Baixo a voz.
— Quero poder te ajudar de verdade.
Adele desliga o fogo.
Coloca os bifes na travessa.
Caminha até a ilha.
Senta.
E bebe o vinho inteiro de uma vez.
— Ele tem Alzheimer, Adessa.
A palavra cai como um peso morto entre nós.
— O homem da minha vida… vai esquecer quem eu sou.
Ela chora.
Sem controle.
— O que eu faço?
Eu apoio as mãos na bancada.
— Não desiste.
Ela ri, amarga.
— Força não impede isso.
— Em que estágio?
— No início… mas...
— Sem “mas”.
Corto.
— A gente luta.
Ela me encara.
Confusa.
— Como você sabe tudo isso?
— Eu te toquei naquela noite.
Dou de ombros.
— Atividade física. Alimentação. Sono. É o básico pra retardar.
— Eu já tentei…
— Você tentou.
Eu aponto pra mim.
— Agora é a minha vez.
Respiro fundo.
— Doc precisa parar de trabalhar. Agora.
Ela pisca.
Esperança.
Pequena. Frágil.
Mas ali.
— Vem — digo, pegando as travessas. — Antes que eles comam tudo.
Ela vai.
Eu fico.
Sozinha.
No jardim de inverno.
E desabo.
— O que eu faço…?
Minha voz quebra.
— Como eu luto contra uma coisa que apaga alguém aos poucos?
As memórias vêm.
Doc.
O California.
A proteção.
A paciência.
Ele não merece isso.
Ninguém merece.
E então...
— Existem várias possibilidades, meu bem.
Congelo.
Fecho os olhos.
Não.
Não agora.
— Cassie… Adele… Vincenzo… Liam…
A voz continua, suave demais.
— Matteo.
Abro os olhos.
Lúcifer.
Encostado, como se sempre tivesse estado ali.
— Enrico… Antoine… — ele sorri. — Alguns morrem de formas diferentes. Mas, no fim… o resultado é o mesmo.
— Maldito!
Agarro uma faca.
— Não se atreva — ele avisa, recuando levemente. — Não vou tolerar você se cortando e jogando esse sangue imundo em mim.
Pisco.
Um segundo.
Dois.
E então…
sorrio.
— Funciona, então.
Dou um passo à frente.
— Isso te afasta.
Os olhos dele estreitam.
— O que tem no meu sangue… que te incomoda?
Ele ri.
Frio.
— Nada em você poderia me assustar, criança.
— Então por que você entra e sai da casa de gente boa como se fosse dono?
— Reclama com Deus.
Ele dá de ombros.
— Livre-arbítrio.
Aproxima-se.
Mais perto.
Mais perigoso.
— Por mim… você já estaria ao meu lado.
A voz baixa.
Pesada.
— No inferno.
O trovão explode lá fora.
E, por um segundo…
eu acredito nele.
Lúcifer tem acesso irrestrito aos nossos pensamentos.
Aos nossos sentimentos.
E eu aprenderia, tarde demais, que esse mesmo poder não é exclusivo dele.
Alguns membros da Legião também escutam.
Também invadem.
Também distorcem.
Estamos todos condenados a viver expostos?
— Não vou deixar que encostem em ninguém! — grito, empunhando a faca, girando no próprio eixo. — Nem nos meus amigos… nem nos meus filhos… nem no Vincenzo!
O silêncio responde.
Pesado.
Imundo.
— Aparece, desgraçado!
Nada.
Só a minha respiração.
Só o som da chuva.
— Dess?
A voz de Vincenzo me atravessa.
Eu travo.
Os dedos se abrem.
A faca cai, afundando na terra do vaso ao meu lado.
— O que foi? — ele pergunta, suave demais.
— Nada.
Mentira fraca.
Eu me agarro a ele como se estivesse caindo.
— Me tira daqui.
— Eu vim te ajudar. A Adele disse que...
— Depois. — puxo o braço dele. — Vem.
A cozinha parece pequena demais agora.
Fechada demais.
Errada.
— Leva o arroz e a batata — digo, evitando olhar ao redor. — Eu levo o feijão.
— Ok…
Ele não acredita.
Claro que não.
Antes que eu escape, ele me prende contra a geladeira.
O calor do corpo dele me ancora.
— Depois que todo mundo for embora, você vai me contar — diz baixo. — Tudo. O que ele falou… e o que a Antoine tem a ver com isso.
Engulo seco.
— Chega de carregar isso sozinha, Dess. Eu tô contigo. Na alegria, na desgraça, no que vier.
Os olhos dele não vacilam.
— Entendeu?
Eu não tenho mãos livres pra limpar as lágrimas.
Ele limpa por mim.
Com um beijo.
Idiota.
— Não me deixa — sussurro.
— Nunca.
— Sem querer estragar o momento romântico, mas o povo tá com fome.
A voz de Antoine corta o clima como uma faca limpa.
Perfeito.
Eu rio.
Porque, claro.
Sempre tem que ter alguma coisa pra impedir o mundo de desabar de vez.
Seguimos até a sala.
Normal.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se eu não tivesse acabado de falar com o inferno na cozinha.
— Senta, Dess! — ordena Vincenzo, abrindo outra garrafa de vinho. — Para de pensar e come.
Parar de pensar.
Boa piada.
— Certo, chefe. — faço continência e me sento entre Antoine e Matteo. — Tamo junto.
— E misturado.
Olho ao redor.
Rostos.
Sorrisos.
Gente viva.
Gente que confia em mim.
E, pela primeira vez, isso não me conforta.
Me apavora.
Porque eu sei.
Eu vou perder alguém.
Só não sei quem.
Ainda.
Alguns momentos do jantar voltam à minha mente enquanto me debruço sobre a banheira de Matteo.
Eu tento não pensar.
Não consigo.
Ele ri, batendo na água, imitando o som do patinho de borracha.
— Mais água!
Eu sorrio, torcendo a toalha úmida sobre sua cabeça. Ele fecha os olhinhos e sopra, fazendo um biquinho perfeito.
Fofo demais.
Por um segundo… só existe isso.
Eu, ele, e o som da água.
Mas minha mente trai.
Volta.
Adele.
Corrigindo Doc.
Uma vez.
Duas.
Três.
Sempre suave.
Sempre tentando não constranger.
E ele errando de novo.
Chamando Enrico de Vincenzo.
E depois… irritado.
Impaciente.
Como se a culpa fosse dela.
Eu li sobre isso.
Memória recente falhando.
Irritação.
O começo.
— Mamãe! Olha o rostinho dele!
Eu me assusto.
Antoine surge no banheiro, rindo, já metendo a mão na água.
— Calma, artista — murmuro.
Ela limpa o rosto do irmão com cuidado… e, em segundos, transforma a espuma em um chapéu.
— Um chapéu de nuvem pro meu anjinho!
Matteo explode em risadas.
Bate palminhas.
Chuta água pra todo lado.
O caos mais bonito que existe.
Ele se levanta, se apoia, mergulha o rosto e sopra bolhas.
Eu travo.
Rápido demais.
Tiro ele da banheira.
— Chega por hoje.
Ele me abraça, molhado, quente, vivo.
E isso deveria me acalmar.
Deveria.
No quarto, Antoine continua fazendo caretas até ele gargalhar de novo.
Eu o deito na cama e começo a enxugar seu corpo.
— O piu-piu dele é grande, mamãe.
Eu seguro o riso.
Claro que ela ia falar isso.
— Vai crescer mais?
— Com certeza — responde Vincenzo, entrando no quarto, cheio de orgulho idiota. — Puxou ao pai.
Eu lanço um olhar.
— Você me ouviu?
— Sempre ouço seus pensamentos — ele sorri, cafajeste. — Principalmente os piores.
Ele beija a testa de Matteo.
— Não entrega o jogo, filhão. Sua mãe é violenta.
— Papai… o que quer dizer “puxou ao pai”?
Silêncio.
Eu cruzo os braços.
— Vai, responde.
— Eu quis dizer que ele vai...
— Ser inteligente como o pai e bonito como a mãe — corta Enrico, salvando a situação.
Eu balanço a cabeça.
— O pai é burro.
Vincenzo se joga no tapete, relaxado.
— Por quê?
— Porque não deixou o Doc errar.
— Ele errou o nome.
— E daí?
Minha voz perde a leveza.
— Você precisava corrigir?
Ele hesita.
E isso… me irrita mais do que qualquer resposta.
— Faz sentido, mãe — comenta Antoine.
— Faz sentido você tomar banho agora.
— Eu já tenho nove anos!
— Daqui a dez a gente conversa.
— Eu quero ficar com vocês…
Ela se joga sobre o pai.
Ele ri.
Enrico observa.
Silencioso demais.
— Eu também gosto desses momentos — ele diz, baixo. — São raros.
Algo no tom dele me incomoda.
— Vai ficar tudo bem, pai — responde Vincenzo rápido demais. — Pra sempre.
Enrico não responde.
— Mas pensou — Antoine solta.
Eu olho para Vincenzo.
— Desde quando você lê os pensamentos dele?
Ele franze a testa.
— Eu… li.
O ar muda.
Sutil.
Errado.
— Deve ser o vinho — diz Enrico, coçando a cabeça.
— Ou outra coisa… — Antoine murmura.
Silêncio.
— Banho. Agora — corto.
Ela suspira, mas obedece.
Antes de sair, abraça Enrico e cochicha algo.
Ele sorri.
Triste.
— Eu sei — diz ele. — Eu vou fazer.
Aquilo não sai da minha cabeça.
Nada sai.
Coloco Matteo no berço. Ele boceja, exausto.
Beijo sua testa.
E encaro Enrico.
— Fazer o quê?
Apago a luz.
Acendo a outra.
O quarto mergulha em azul.
Estrelas surgem por todos os lados.
Do chão ao teto.
Lindo.
Irreal.
Errado.
— O que ela te disse? — insisto. — Por que o Vincenzo consegue ler seus pensamentos?
Ele desvia o olhar.
— Por quê?
— Dess… — Vincenzo segura meu braço. — Deixa isso.
— Não.
Minha voz baixa.
Fria.
— Ele é um arcanjo. Você é humano. Isso não faz sentido.
Silêncio.
Então...
— Bobó.
A palavra corta o ar.
Clara.
Perfeita.
Eu congelo.
Vincenzo abaixa a cabeça.
— Merda…
Meu coração dispara.
— Me solta.
Eu puxo Matteo do berço.
— Onde ela tá?
— Dess…
— ELA TÁ AQUI?
— Não, filha— eu explico...
— Saiam.
Minha voz não treme mais.
— Meu filho vai dormir. E eu vou rezar.
Vincenzo tenta se aproximar.
Eu recuo.
— Não é o que você tá pensando...
— Sai.
A porta fecha.
Silêncio.
Pesado.
Eu aperto Matteo contra o peito.
Sinto o coração dele.
Rápido.
Quente.
Meu.
— Ninguém toca em você — sussurro. — Ninguém.
Fecho os olhos.
— Em nome do Criador… ninguém toca nos meus filhos.
— Como você pôde me esconder isso, Vincenzo!?
— Eu não escondi. Eu omiti.
A pedra sai da minha mão antes que eu pense.
Bate na parede da varanda com força.
Perto demais.
Antoine se encolhe.
— Dess… — ele respira fundo. — Você precisa se controlar.
— Eu errei de propósito! Era pra acertar você!
— Ele não tem culpa — diz Enrico, baixo, derrotado. — Eu tenho.
Ele está sentado no degrau, olhando o nada.
— Eu a vi… ali… — aponta, tremendo. — Debaixo da árvore.
Os olhos dele brilham.
— Tão linda… como no dia em que nos conhecemos.
Aquilo me quebra.
Eu me aproximo devagar.
— Eles te tocaram, Enrico?
Silêncio.
— A Legião te tocou?
Minha mão encontra a dele.
— Enrico… eles te tocaram?
— Eu não deixei, mãe.
A voz firme corta o ar.
Antoine.
De pé.
Imponente.
Errada.
— Eles cercaram o vovô… mas eu não tive medo.
Meu estômago afunda.
— Eu ergui minha espada.
Eu travo.
— Desde quando você tem uma espada?
Ela não responde.
Continua.
— A luz saiu de mim. Eles recuaram. Todos.
Um arrepio percorre minha espinha.
— Ela tentou levar o vovô… mas eu feri as mãos dela.
Silêncio.
— Eu disse: “nós não te amamos mais”.
Os olhos dela tremem.
— Ela riu… de mim.
Eu fecho os olhos.
— Ela não é mais sua avó.
— Não diga isso… — Enrico implora. — Ela está perdida. Eu preciso ajudar.
Eu levanto de uma vez.
— Se você tentar salvá-la, vai se perder junto!
Minha voz corta.
— Eles são muitos. E querem você.
Ele baixa a cabeça.
— É isso que você quer!? Nos abandonar!?
— Dess! Menos!
— MENOS É O CACETE!
Agora eu tô gritando.
— Ele vai se tornar um deles e você quer que eu fique quieta!?
Aponto pra Enrico.
— Ele é a nossa proteção! Se ele cair, a gente cai junto!
— Chega! — Vincenzo explode.
Ele senta ao lado do pai, o abraça.
— Vai ficar tudo bem.
Eu rio.
Frio.
— Você fala isso pra tudo. E nada fica bem.
— Não é verdade. Estamos juntos.
— Graças a mim.
Silêncio.
Pesado.
— Se dependesse de você, essa casa já era inferno aberto.
Os olhos dele mudam.
Escurecem.
— Para, Dess.
Ele levanta.
Devagar.
— Não quero brigar.
Eu recuo.
— Vai fazer o quê? Me bater como fez com ela?
Erro.
Grave.
O ar trava.
— Parem! — Enrico grita. — Não estamos sozinhos!
O vento muda.
Seco.
Errado.
A gente olha pra cima.
Um redemoinho se forma.
Rápido.
Violento.
E então… o rosto.
Pálido.
Dentes afiados.
Olhos amarelos.
Ele sorri.
Pra mim.
E mergulha.
— MÃE!
Antoine grita.
Eu não penso.
Eu pulo.
Meu corpo cobre o dela.
Garras rasgam minhas costas.
A dor vem quente.
Real.
— NOSSO FILHO!
Vincenzo corre.
Rápido.
Não o suficiente.
O impacto joga ele contra a coluna.
Enrico segura Antoine.
Eu levanto.
Cambaleando.
Sangue escorrendo.
— Matteo!
O choro vem do quarto.
A fumaça entra pela porta.
Some.
— NÃO!
Vincenzo arromba.
A porta explode.
E então...
Silêncio.
Errado.
Matteo está de pé no berço.
Calmo.
A mãozinha erguida.
O monstro… parado.
Contido.
Preso.
— Dodói… não…
Minha respiração falha.
— Não, dodói…
O ser tenta avançar.
Não consegue.
Meu filho não deixa.
Vincenzo rosna.
Parte pra cima.
Crucifixo na mão.
A criatura ri.
E some.
Simples assim.
Vazio.
Vincenzo cai.
Eu corro.
Arranco Matteo do berço.
— Acabou… acabou…
Mas não acabou.
Nunca acaba.
— Olha isso! — Vincenzo segura meu braço.
Sangue.
Rasgos profundos.
— Precisa limpar agora!
— Antoine!?
— Tô aqui!
Ela aparece.
Olhos em chamas.
— Eu vou matar todos eles.
A voz dela…
não é de criança.
Ela vai.
Batendo forte no saco de pancadas.
Sem parar.
Sem respirar.
— Ela tá mudando… — Vincenzo murmura.
— Já mudou — diz Enrico, baixo.
Eu fecho os olhos.
— Como eu paro isso?
Silêncio.
— Não para — responde Vincenzo.
Seco.
— Agora ela precisa cumprir o que tá escrito.
Meu peito aperta.
— Não.
Quase um sussurro.
— Não deixa isso acontecer.
— Vira de costas.
Ele começa a limpar as feridas.
Arde.
Queima.
— Eu não posso impedir.
Pausa.
— Mas posso te manter viva.
Eu respiro fundo.
Cansada.
— Desculpa…
— Deixa.
Silêncio.
Pesado.
— Vamos dormir.
Ele termina o curativo.
— Amanhã a gente finge que resolve.
Os dias se passaram, e evitamos falar sobre o que aconteceu naquela noite.
Após a aula de dança na Just Dance, encontro algum refúgio na cafeteria ao lado. Matteo, como sempre, grudado a mim. Enquanto ele brinca distraído, pesquiso algo sobre os seres que compõem a ‘Legião’.
As informações são escassas. Quase todas vindas de fontes anônimas.
Ainda assim… perturbadoras.
Ao contrário do que sempre imaginei, Lúcifer não é o líder.
Os que caíram com ele disputam poder entre si.
Um gole no cappuccino.
Minha nuca se arrepia.
Olho ao redor.
Um casal discute em voz baixa. O rapaz no balcão mal levanta os olhos do celular.
Nada fora do normal.
Mesmo assim, puxo Matteo para o colo.
Ele sorri para a tela do notebook, encantado com imagens que jamais deveriam chamar a atenção de uma criança.
Fecho a aba.
Continuo lendo.
Relatos raros. Ataques isolados.
Seres do fogo.
Da água.
Da terra.
Do ar.
— Seres do ar… — murmuro. — Aquilo lá em casa…
— Desde quando elementais são maus?
— Desde que o Homem se corrompeu.
Levanto tão rápido que a cadeira arrasta no chão.
O cappuccino tomba, manchando o caderno.
Dois passos para trás.
Matteo firme contra meu peito.
— Quem é você?
— Ninguém importante. — responde, com naturalidade irritante. — Só ouvi sua pergunta.
Ele está sentado próximo ao balcão.
Capa preta longa.
Jeans comum.
Tênis gastos.
Come como se não visse comida há dias.
Cabelos loiros, cacheados.
Por um segundo, me lembram os anjos dos livros que eu lia para Antoine.
“Por que não existem anjos negros, mamãe?”
A lembrança me atravessa sem aviso.
— Nossa… você pensa alto. — comenta ele, de boca cheia.
Meu estômago vira.
— Como sabe…?
— Se você não estivesse pensando, estaria fazendo o quê? — rebate, simples.
Sem paciência para aquilo, desligo o notebook.
Ajeito Matteo no carrinho.
— Fica longe de mim e da minha família.
Ele limpa a boca com um guardanapo.
Sorri.
Um sorriso limpo demais.
— Vou considerar.
Dá um salto leve do banco.
— Só repense essa postura… — diz, ajeitando a capa. — É bom ter aliados quando a escuridão chegar.
— Que escuridão?
Não há resposta.
Ele já não está mais ali.
Paro na porta da cafeteria.
Olho para fora.
Nada.
Volto até o balcão.
— O homem… de capa preta. Você viu?
O rapaz franze o cenho.
— Senhora… aqui só entraram vocês dois e aquele casal.
Um silêncio seco.
— E… nós não vendemos cheeseburger.
Perco a vontade de insistir.
— Quanto deu?
Enquanto procuro a carteira, algo chama minha atenção dentro da bolsa.
Um brilho.
Despejo tudo sobre a mesa.
Entre fraldas, lenços e bagunça…
Uma pedra.
Azul clara.
Quente.
Quente demais.
Em casa, mostro a Enrico.
— Já viu isso?
Ele toca.
Seus olhos se enchem.
— Angelita…
— O que disse?
— Pedra dos anjos. — sussurra, emocionado. — Eles estão entre nós, filha.
Ele repete, quase eufórico:
— Eles estão entre nós.
— Quem, Enrico?
Mas ele já se afasta.
Vai até o jardim.
Começa a girar lentamente, como se sentisse algo no ar.
— Deixa ele. — diz Vincenzo. — Depois explica.
Cruzo os braços.
— Seu pai está dançando no quintal.
— E desde quando nossa vida é normal?
Reviro os olhos.
Me jogo no sofá.
Encolhida.
— Não precisa ficar com medo do cara da cafeteria. — diz ele.
— Como não?
— Ele é um dos nossos.
Levanto na mesma hora.
— “Nossos” quem, Vincenzo?
— Relaxa…
— Não! — corto. — Eu nunca fui anjo. Nunca vou ser.
Ele me encara, ferido.
Droga.
Respiro fundo.
Me aproximo.
Passo os braços pelo pescoço dele.
Beijo seu rosto.
— Desculpa…
Ele suspira.
— Odeio quando você vai trabalhar. — confesso baixo. — Sei que vai ver ela.
— Você tá ouvindo coisa demais, Dess.
— Prefiro ouvir isso do que te perder.
Ele ri.
— Maluquinha.
Reviro os olhos.
— Vai pensando assim…
Dou um passo atrás.
Acendo.
A fumaça sobe devagar.
— Dess… — ele trava.
— Meu dia foi um inferno.
— Isso vai piorar.
— Já piorou.
Ele avança.
Arranca o cigarro da minha mão.
Joga no chão.
— Antoine tá em casa!
— E seu pai tá fazendo ritual no quintal!
Desço as escadas.
Piso na grama úmida.
Pego o resto do cigarro.
Encharcado.
— Ótimo. Estragou tudo.
— Melhor assim.
— Sempre eu tenho que estar alerta! — reclamo.
— Quando eu voltar, você descansa.
— Claro… — murmuro, cavando a terra sem pensar.
Algo duro.
Retiro.
Uma moeda.
Antiga.
Pesada.
— Vincenzo…
Ele limpa.
Observa.
— “Vincit qui se vincit.”
— Fala português, porra.
Ele ergue os olhos.
— “Vence aquele que se vence.”
O vento passa entre nós.
Frio.
Silencioso.
— Isso é uma mensagem. — diz ele.
— De quem?
Ele hesita.
— Do céu.
Aperto a moeda na mão.
— Duas no mesmo dia…
Engulo seco.
— Isso não é bom.
Ele me puxa para perto.
Forte.
— Também acho.
— Eu quero entrar.
— Não pode. — responde o recepcionista, seco. — Só entra quem é autorizado pelo mestre.
Cruzo os braços.
— Mestre de quê, garoto? Meu marido é o dono disso aqui.
Ele nem pisca.
— Então a senhora deveria saber das regras.
Respiro fundo.
Não resolve.
— Qual o seu nome?
— Leo.
— Leo, querido… — dou um passo à frente. — Sai da minha frente.
Ele não sai.
Fica ali.
Firme.
— Não posso.
Pronto.
Acabou minha paciência.
— VINCENZO!
O grito ecoa no galpão.
Algumas cabeças viram.
Leo não.
Ele continua me encarando como se eu fosse só mais um problema do dia.
Segundos depois, Vincenzo aparece.
Suado.
Lindo.
Ridiculamente lindo.
— O que foi agora, Dess?
— Eu tentei entrar — aponto pro garoto — E o segurança mirim resolveu me barrar.
— Eu expliquei as regras. — rebate Leo.
— Explicou nada!
— Dess… — Vincenzo passa a mão no rosto, já cansado — Ele não sabia.
— Pois agora sabe.
— Leo, ela pode entrar.
— Entendido… mestre.
Eu ergo a sobrancelha.
— Mestre?
Vincenzo ri, sem graça.
— Já falei pra parar com isso.
— É respeito. — diz Leo, simples.
Respeito demais, penso.
Vincenzo me puxa um pouco pro lado.
— Para de implicar com ele.
— Eu? — solto um riso curto. — Eu só tô achando curioso você contratar um adolescente com cara de problema existencial pra recepção.
— Se eu contratasse uma mulher, você surtava.
— Não grita comigo.
— Eu nem gritei.
— Gritou sim.
Ele suspira.
— Fala a verdade. Você veio aqui pra quê?
Desvio o olhar por meio segundo.
Droga.
— Eu… achei que você podia estar em perigo.
Ele me encara.
Sabe que tem mais coisa.
— Ou… — ele inclina a cabeça — Veio ver a tal ruiva?
— Ridículo. — cruzo os braços. — Eu tenho mais o que fazer.
— Tem mesmo?
— Tenho.
Pausa.
— Mas ela existe, né?
Ele ri.
Idiota.
— Dess…
— Só tô avisando. — abaixo a voz. — Aquele garoto pode ser um deles.
— Quem?
— Da Legião.
Ele passa a mão no rosto de novo.
— Você tá vendo coisa.
— Ele é estranho.
— Ele é só um garoto.
— Ele te olha estranho.
— Ele olha todo mundo estranho.
— Ele tá apaixonado por você.
Silêncio.
Vincenzo pisca.
— O quê?
— “Crush”. Aprende.
Ele solta uma gargalhada alta.
— Você tá completamente maluca.
— Vocês homens são cegos.
— Ele podia ser meu filho!
— E daí!? Eu já me apaixonei por meu professor no Ensino Fundamental! — deslizo o dedo pelo peitoral dele até o abdômen trincado. Por um segundo, penso em arrastá-lo pro banheiro. Não dá tempo. — Vou te dizer uma coisa…
— Que pena… — ele murmura, com aquele olhar insano.
— Tenho um convite pra te fazer. E você não pode recusar. Senão, paro de falar contigo pra sempre.
— Então eu já aceitei.
Antes que ele responda, uma voz corta o momento.
— Sua aluna chegou, mestre. Quatro minutos.
Leo.
Claro.
Viro.
A ruiva está ali.
Impecável.
Artificial.
Perfeita demais.
Reviro os olhos antes mesmo de perceber.
— Interessante… — murmuro. — Uniforme novo?
Vincenzo segura o riso.
Leo observa.
Quieto.
Atento.
Como se estivesse guardando tudo.
O sorriso amarelo de Vincenzo já me irrita antes mesmo de eu olhar pra trás.
A ruiva.
Lábios inflados demais, cílios pesados, roupa colada onde não devia.
Ele ri baixo.
— Não era botox?
— Errei.
O olhar de Leo ao meu lado me cutuca. Pronto. Perdi.
— Olá, querida. Que prazer te ver de novo — minto, doce. — Mas preciso te alertar sobre o uniforme daqui.
— Dess… — Vincenzo tenta.
— Meu marido é distraído. — corto. — Não deve ter te explicado.
— Ai, me fala! — ela pede, teatral.
— Simples. — sorrio. — Isso aqui é uma academia de boxe. Muito homem, muita tensão. Você tá… chamativa. Vai tirar foco. E pode acabar atraindo problema pra você.
Silêncio.
— Entendeu, linda?
— Entendi… — ela baixa o tom, visivelmente sem graça.
Quase sinto pena.
Quase.
— Não precisa ir embora — continuo. — A gente resolve isso agora.
Corro até a recepção, pego a maior camiseta que encontro e volto.
— Veste.
Ela veste.
Sumiu o espetáculo.
— Ficou ótima — digo, satisfeita.
— Divina — ela responde, sem graça.
— Cobriu tudo.
— Desnecessário… — Leo solta.
Chego perto do ouvido dele.
— Desnecessário vai ser o teu salário.
— Podemos começar? — Vincenzo intervém, já conduzindo a ruiva. A mão dele nas costas dela.
Filho da puta.
Ele sabe.
— Acertou. Te vejo em casa, baby.
— Verme… — rosno.
Pulo a catraca. Saio. Paro.
Volto.
— Ei… — encaro Leo. — Foi mal. Eu exagerei.
Ele dá de ombros.
— Tô de boa.
— Eu não. — respiro fundo. — Sou impulsiva. Ciumenta. Devia ter segurado.
Ele me olha melhor agora.
— Também fui grosso.
— Amigos?
Ele revira os olhos.
— Colegas.
— Fechado.
Estendo a mão.
Ele segura.
Frio.
Um choque atravessa meu corpo.
E tudo vem.
Rápido. Cru.
Gritos. Portas batendo. Um menino encolhido no canto.
Braços marcados.
Tela de celular brilhando no escuro, palavras cortando mais que lâmina.
Um quarto fechado.
O tabuleiro.
A peça se movendo.
Sozinha.
Uma resposta.
Os olhos dele… aterrorizados.
— Solta!
Caio de volta no chão, arfando.
Ele recua.
Assustado.
Eu me levanto sozinha.
Ainda tonta.
Ainda vendo.
— Leo… — minha voz falha. — O que você leu… não é verdade.
Ele me encara.
E, pela primeira vez, parece realmente com medo.
— Você não tem o direito de ir ao meu trabalho e ditar regras, Dess.
— Eu não fui lá pra isso, Vincenzo!
— Foi me vigiar! Eu não mereço isso!
— Fala sério! Se eu não tivesse ido, você ia deixar aquela ruiva treinar com a calça enfiada no cu!
— Me respeita!
— Então respeita o teu ambiente de trabalho! Aquilo não é roupa de boxe! Tá cheio de homem lá! Se ela quiser te ferrar, grava um olhar teu e te joga na internet como assediador! E aí? Vai perder dinheiro por ser otário!
— Para de delirar, Dess!
— Ela tá certa, pai. — Antoine entra, largando a mochila no tapete. — Tá cheio disso por aí.
Ela se joga no sofá, tranquila demais pra idade.
— O pai de uma amiga quase se ferrou assim. Mulher provocando, câmera escondida… só não deu merda porque pegaram o celular dela.
— Sério? — Vincenzo franze a testa.
— Não, pai. Tô inventando. — ela sorri, cínica. — Mas podia ser.
Solto um riso curto. Vincenzo não acha graça.
— O mundo tá estranho pra vocês, homens — ela continua. — Melhor abrir o olho. Ainda bem que a mãe cuida de você.
Pulo nela, enchendo seu rosto de beijo.
— Argh! Que nojo, mãe!
— Desde quando você não gosta?
— Desde que cresceu… — murmura Vincenzo, mais baixo agora, passando a mão nos cachos dela. — A gente nem percebeu, né?
Cruzo as pernas no sofá.
— Não fala comigo.
— Eu não duvidei de você, Dess…
— Duvidou sim.
— Eu só… — ele suspira — Tenho certeza que você foi por causa da ruiva. Só não precisava fazer cena e tals.
— “Tals”? — rio sem humor. — Olha teu pai tentando ser jovem, filha.
— Hilário — Antoine responde.
— Tenho só quatro anos a mais que ela — ele rebate.
— Fora os séculos antes de Cristo.
A gente ri. Por um segundo, tudo volta ao normal.
Só por um segundo.
— Vocês vão ficar lindos no palco — diz Antoine.
Congelo.
— Palco?
Respiro fundo.
— Foi por isso que eu fui lá. Eu me inscrevi num campeonato de dança.
— Que bom, Dess.
— “Que bom” nada. — sorrio, já sentindo a queda vindo. — A gente vai. Você é meu parceiro.
— Nem fudendo.
Silêncio.
— Eu não sei dançar.
— Sabe sim, pai. Já dançou com a outra e ganhou.
— Antoine…
— Se você não for comigo — digo, seca — Eu vou com outro.
Ele dá de ombros.
— Ok.
Pronto.
Ali quebrou.
Levanto devagar, segurando o choro.
— Não fala mais comigo.
— Dess, por causa disso?
Saio. Paro. Volto.
Porque não acabou.
Nunca acaba.
— Não é só isso — minha voz falha. — É o que você fez comigo lá.
Ele fica quieto.
— A mão na cintura dela. Você guiando ela… sabendo que eu tava ali. Me vendo quebrar. E mesmo assim… continuou.
O silêncio agora pesa.
— Você não quis me ensinar nada. Você quis me punir.
Engulo seco.
— E talvez você tenha conseguido.
Antoine se levanta, mas não interrompe.
— Eu não sei mais quem você é, Vincenzo. — baixo o olhar — E isso… dói mais do que qualquer ciúme ridículo.
Respiro fundo, tentando não desmontar.
— Só presta atenção em quem chega perto de você. Nem todo mundo quer o teu bem.
— Mamãe… — Antoine me abraça.
Eu a aperto de volta.
— Depois, filha… agora não.
Cancelo minha inscrição no campeonato da “Just Dance”.
Aninha se entristece.
— Vocês iam vencer. Isso não tá certo.
— Vincenzo torceu o tornozelo. — minto. — Fica pra próxima.
— Dança com outro!
Visto o casaco, enxugando uma lágrima.
— Sem ele… não tem graça. Nada tem.
Saio.
O vento frio bate no rosto. As luzes de Natal piscam nas árvores, bonitas demais pra quem tá por dentro.
Ando devagar.
Lembro dos natais antigos.
Do pouco.
Do suficiente.
Galeto, arroz, feijão, batata frita.
E a gente.
Não quero voltar praquilo.
Mas queria ele como antes.
Mais perto.
Mais… meu.
Fecho os olhos por um segundo.
— Deus, me perdoa.
Sigo.
Entro numa loja qualquer só pra não chorar na rua. A música de Natal me atravessa.
— Espera um pouco… — digo ao vendedor. — Essa música… tocou no enterro do meu tio.
Mentira.
Aponto pro tênis na vitrine.
— Aquele. O maior número. Meu amigo é enorme.
Saio com a sacola.
O celular vibra.
De novo.
“Fala comigo, amor. Onde você tá? Não me deixa louco.”
Décima nona mensagem.
Rio chorando.
Beijo a tela.
Desligo.
Dirijo até a casa de Doc.
Adele abre a porta. Óculos escuros. À noite.
Tiro antes que ela impeça.
— Quando foi isso?
Ela respira fundo.
— Ele não fez por querer.
— Eu sei.
Abraço.
Forte. Longo.
— A gente vai vencer isso — digo, firme.
— Vencer o quê?
— Doc!
Ele aparece.
Corro. Me jogo nos braços dele.
Ainda é ele.
E não é mais.
— Trouxe um presente.
Ele abre a caixa.
Tênis.
Sorri como criança.
— Pra correr?
— Pra viver mais.
— Eu não quero correr… cansa.
— Eu quero — respondo, tentando sorrir.
Adele observa em silêncio.
— Tá frio… — ele murmura.
— A gente vai junto.
— Antoine vai?
Engulo seco.
— Vai.
Ele relaxa.
— Então tá bom.
Assente.
Confia.
Como se fosse simples assim.
Viro de costas antes que ele veja.
Não dá.
Não aqui.
Não agora.
— Amanhã cedo a gente volta — digo rápido, indo pra porta.
— Vou te esperar… — ele fala.
Paro.
Por um segundo.
Um só.
— Não se esquece de mim, Antoine.
Saio.
Rápido demais.
Entro no carro.
E aí sim…
desabo.
Tia, você tá triste. O tio também. O que houve?
— Nada. — minto, sem encará-la. — Melhor colocar o peru no forno. Demora pra assar.
— O que tá acontecendo com todo mundo aqui? Você, Vincenzo, Doc, Adele… — os olhos de Cassie se enchem d’água. — É Natal… nosso primeiro Natal em família com o Sean… e ninguém parece feliz.
Afasto-a do forno quente com cuidado.
— Tá tudo certo. O Doc não tá bem. Você sabe disso. Vamos focar nele, ok?
— Tia… você nem olha pro Vincenzo desde que chegaram. Ele contou tudo pro Liam. Como eu vou ficar bem se você não tá?
Forço um sorriso torto.
— Ficando. Você tem o Liam, o Sean… egoísta. — brinco, cutucando-a de leve. — E ainda ganhou uma gata que pariu quatro filhotes. Quer mais o quê?
— Quero alguém que acolha eles… — ela suspira. — O Liam odeia gatos dentro de casa.
— Ele tá certo. — admito. — Gato protege, sim… mas também transmite doença. E o Sean é pequeno demais.
— Mas a Medusa sempre protegeu a gente. Ela sente quando tem coisa ruim por perto.
Paro. Encaro.
— Medusa? Para. Tá falando igual a mim, louca.
Nós duas rimos, apoiadas na bancada. O vinho já fez seu estrago.
Depois de um gole longo demais, ela baixa a voz:
— Tia… tem algo no Liam. Ele não é normal.
Eu rio alto, quase caindo da banqueta.
— Não me diga. E o que você acha que ele é?
— Não sei… — ela hesita. — Você acredita que anjos vivem na Terra?
Merda.
Eu sorrio. E choro.
— Acredito. Eles existem. E estão entre nós. — passo a mão no rosto. — Talvez o seu Liam seja um deles… e tenha caído por você.
— Caído?
— Do céu, meu amor… do céu.
Cambaleio até Matteo, coberto de purpurina vermelha.
— De onde você veio, hein? O que aprontou?
— ‘Miau dodói’.
— O gatinho?
— ‘Miau dodói é mau. Ai ai ai!’
Ele estica os bracinhos.
Os arranhões me gelam por dentro.
Corro até o banheiro, abro armários, procuro qualquer antisséptico. Meu reflexo no espelho parece… sozinho demais.
Beijo a cabeça dele.
— Me ajudem…
— Posso ajudar, Dess?
A voz atrás de mim quebra tudo.
Engulo seco.
— Não. Eu dou conta.
— Para com isso. Me deixa voltar pra sua vida, porra.
— Não…
— O que ele tem? — Vincenzo já tá ao meu lado, examinando Matteo.
— ‘Miau dodói. Miau é mau.’
— Deve ter sido a gata. Ela pariu, tá agressiva… — ele me encara. — Dess. Olha pra mim.
Olho.
— Para de pensar merda e me ajuda. Ok?
— Ok.
Limpo os arranhões enquanto ele segura Matteo.
— Me perdoa… — ele começa.
— Para de falar.
— Eu não aguento mais esse silêncio. Se você quiser se separar de mim…
— Cala a boca!
Eu beijo ele.
— Não fala mais nada, merda.
— ‘Merda’. — repete Matteo.
Vincenzo solta uma risada curta.
— Parabéns. Primeiro palavrão do moleque.
Matteo gargalha.
Deitamos ele na cama de hóspedes, cercado de almofadas.
Vincenzo se aproxima, devagar, como se eu fosse quebrar.
— Você pensa em me deixar, Dess?
Antes que eu responda, Matteo escapa da cama e sai correndo.
Nós dois vamos atrás.
Nossas mãos se encontram no caminho.
Idiota… meu coração ainda responde.
Até a gente chegar na sala.
E tudo desmorona.
Antoine tenta conter Doc. Enrico ao lado dela. Adele chora no canto, abraçada por Cassie. Liam protege Sean. A árvore de Natal quase no chão.
— Eu não sei quem é ela! — grita Doc, apontando pra Adele. — Tira ela daqui!
— Tio, me ajuda que eu te ajudo. — Antoine mantém a calma impossível.
Enrico o faz sentar.
Adele soluça.
Antoine me olha.
Eu me inclino.
Ela sussurra.
Eu travo.
— O que ela disse? — pergunta Vincenzo.
— Música.
Minhas mãos tremem ao procurar a playlist.
Aponto o celular pra caixa de som.
Espero algo… profundo.
Romântico.
Salvador.
Os primeiros acordes tocam.
Eu fecho os olhos.
— Fala sério… “Pata Pata”?
— É a música deles, mamãe. — diz Antoine, firme.
Como se nada houvesse acontecido, Doc se ergue do sofá e, com um sorriso leve, começa a requebrar os quadris. Caminha até Adele e estende a mão.
Devastada, envergonhada pela própria dor, ela hesita. Mas aceita.
Eles dançam.
A música tem esse poder estranho de puxar de volta quem já está se perdendo.
Por alguns minutos, ele está ali. Presente. Inteiro.
A canção termina.
Adele se aproxima de mim, a voz baixa, cansada:
— Peça um táxi, por favor. Eu preciso medicar o Doc. Eu não suporto mais tanto sofrimento.
Seguro sua mão.
— Fica pra ceia. Por favor. Ele não vai surtar de novo. Eu prometo.
Ela me encara por um instante, como quem já não acredita em promessas.
— Por você... eu fico.
Na sala, Antoine e Cassie tentam salvar a árvore de Natal. Enfeites tortos, galhos caídos, mas ainda de pé.
Na cozinha, eu confiro o peru.
E me assusto.
Vincenzo está ali.
Parado. Meio sem jeito.
Da sala, a mesma música triste da loja invade o ambiente.
— Coisas da Antoine — ele diz, coçando a nuca. — Ela mandou eu vir aqui... consertar a bagunça que eu fiz.
Ele mantém as mãos escondidas atrás do corpo.
— E como pretende fazer isso? — pergunto, limpando as lágrimas com um pano de prato. — O que tá escondendo aí?
Ele dá um passo na minha direção. Os olhos brilhando, vulneráveis de um jeito raro.
— Você é capaz de perdoar um idiota? Burro, cego... que não percebe a mulher incrível que tem?
Inclino a cabeça, provocando:
— Cadê ele?
Ele solta um riso curto, nervoso.
— Tenho medo de te perder, Dess. Eu não sei viver sem você.
Engulo o choro.
— Então para de agir como se quisesse isso.
A música aperta o peito.
Ele se aproxima mais.
— Obrigado por cuidar de mim.
Seus lábios encontram os meus. Sal.
Quando se afasta, ele se ajoelha.
Eu travo.
— Vincenzo...
Ele abre a caixinha.
O diamante captura a luz e devolve tudo em silêncio.
— O anel que eu devia ter te dado — ele diz. — Do jeito certo.
Meu peito aperta.
— A gente já é casado, idiota...
— Casa comigo de novo.
Simples assim.
Sem fuga.
Sem orgulho.
Sem escudo.
Só ele.
Só nós.
Eu não consigo falar. Só balanço a cabeça.
Sim.
Ele desliza o anel no meu dedo como se fosse a coisa mais importante do mundo.
E talvez seja.
Ele sorri, aquele sorriso que me desmonta desde sempre.
— E já que você tá aceitando pedidos hoje... quer dançar comigo no concurso?
Solto uma risada chorada.
— Não achou ninguém melhor?
— Procurei bastante — ele diz, sério. — Não existe.
Eu me jogo nos braços dele.
— Sim.
Agora eu consigo dizer.
— Sim pra tudo.
Ele me ergue do chão, me faz girar.
Por um segundo, o mundo volta pro lugar.
Mais um daqueles momentos que eu levaria comigo pela eternidade.
E então, como sempre, a eternidade dura pouco.
O grito de Cassie rasga a casa.
Estremeço.
Vincenzo segura minha mão e me puxa até a sala. Cassie, aos prantos, se agarra a Liam, repetindo como um mantra quebrado:
— Não é justo… não é justo… era tão pequeno… indefeso…
Meu peito aperta.
— O que houve? — minha voz sai falha. — Cassie, o que houve?
Liam me encara. Preocupado. E tem algo a mais ali. Algo duro.
— Nos fundos da casa.
Não espero mais nada.
Corro.
Vincenzo vem atrás, Matteo no colo. Antoine e Enrico já estão lá fora, imóveis, com aquele silêncio estranho que antecede o pior.
Passo por eles.
E vejo.
Ao lado de Medusa, dentro de uma meia de Natal decorada com rostinhos de Papai Noel e purpurina vermelha… um dos filhotes.
Imóvel.
Pequeno demais pra tanta ausência.
O mundo esfria.
— Não toca, Dess. — a voz de Vincenzo vem baixa, contida. — Deixa comigo.
A mãe não se aproxima.
Nem tenta.
Vincenzo recolhe o corpinho com cuidado, como se ainda pudesse machucar. Caminha até o quintal, ajoelha na terra úmida e começa a cavar com as próprias mãos.
Sem ferramenta.
Sem palavra.
Só urgência.
Só raiva contida.
Enterra o filhote. Fecha a terra. Lava as mãos na mangueira, a água gelada escorrendo sem limpar nada.
— Acabou.
Ele nem acredita nisso.
Olha pra Antoine e Enrico.
— A gente conversa em casa.
De volta à sala, Cassie tenta se recompor entre lágrimas.
— Desculpa… eu estraguei tudo… — ela aperta Sean contra o peito. — Não vamos estragar o Natal… isso acontece… eu li… às vezes a mãe rejeita… ele deve ter morrido de fome…
A voz dela falha.
Ela sabe que não é só isso.
Doc se levanta.
E o silêncio muda de forma.
— Fui eu.
Tudo para.
— Eu detesto gatos — ele continua, simples, frio. — Eles parecem crianças chorando à noite.
Um segundo.
Dois.
— Me dão medo.
Deixamos Doc e Adele em casa.
Despedaçada, ela me abraça com força, como se eu pudesse mantê-la inteira.
— Me perdoa… — sua voz se quebra.
Fecho os olhos por um segundo.
— Ainda não acabou, amiga. — digo, mesmo sem ter forças pra acreditar totalmente. — A gente vai vencer essa doença. Vamos trazer o Doc de volta.
Ela assente, mas o olhar… o olhar já tá cansado de lutar.
Entramos no carro.
Silêncio.
Pesado. Espesso. Quase palpável.
Nem Antoine diz nada.
Nem Vincenzo.
Nem eu.
A cidade passa pelas janelas como se fosse de outro mundo. Luzes, movimento, vida… tudo distante.
Quando estacionamos na garagem, Matteo, no meu colo, decide romper aquele vazio.
Ele sorri.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se soubesse de algo que ninguém mais sabe.
— ‘Miau dodói mau acabou’.
Meu coração falha.
Um segundo inteiro.
Aperto meu filho contra o peito.
Forte.
Forte demais.
E rezo.
Não por mim.
Não por nós.
Mas pelo que vem agora.
Porque, no fundo… eu sei.
Longe de todos, escondida até de mim mesma,
eu entendo.
Só eu e meu filho sabemos a verdade.
E isso… me apavora mais do que qualquer coisa que já enfrentamos.



.jpg)












Comentários
Postar um comentário