CAPÍTULO 41 - CERCADOS PELO MAL
— Que tipo de gente coleta sangue de um bebê!? Pra quê!? Liam não pode ser tão mau assim! Talvez sejam médicos… talvez estejam tentando salvar Sean. — Ao volante, tento ligar para Vincenzo. Ele não atende. Insisto. Duas, três vezes. Caixa postal.
"Amor, não sai daí. Me espera. Eu preciso te contar tudo. A gente resolve isso junto."
Jogo o celular no banco ao lado e acelero.
Antoine e Leo estavam na sala de musculação. Não me viram sair. Enrico ficou com Matteo. E eu… eu ainda não faço ideia de como salvar Celeste.
Quem eu penso que sou?
Estaciono em frente à academia. O carro de Vincenzo está lá.
— Ótimo. — Respiro fundo. — Ele ainda tá aqui.
Saio do carro. Dou dois passos.
Volto.
— Merda.
Abro a porta de novo e pego a mochila. A adaga pulsa dentro dela, quente. Viva.
Não vou esconder mais nada dele.
Não dele.
Caminho até a recepção.
A porta… encostada.
Sempre aberta. Sempre uma brecha.
— Depois eu brigo com ele. Não vim pra isso.
Entro. Tranco a porta atrás de mim.
O ringue está vazio. Silencioso demais.
Só a luz do escritório acesa.
Brechas.
Essa palavra de novo.
Chego até a porta. Giro a maçaneta devagar.
Queria surpreender.
Mas é o mundo que se parte quando eu entro.
O ar some.
Meu corpo trava.
Tem alguma coisa errada… muito errada.
Dou um passo.
Depois outro.
E então eu vejo.
Não entendo de primeira.
Meu cérebro recusa.
Minha visão falha.
Pisco.
Volta.
Pisco de novo.
E a cena continua lá.
Vincenzo.
Sobre a mesa.
Com outra mulher.
O som… o movimento…suas costas se movendo, seus músculos. O suor em sua pele... tudo distante, como se eu estivesse debaixo d’água.
Eu não consigo respirar.
Minhas costas batem na parede.
Minha mão entra na mochila sem que eu perceba.
A adaga vibra.
Mas não é isso que me paralisa.
É ela.
O cabelo.
A pele.
A forma como o corpo se move debaixo dele.
Errado.
Tudo errado.
Até que ela vira o rosto.
E me vê.
Sorri.
Devagar.
Lambe os lábios.
E o mundo afunda de vez.
Porque…
sou eu.
Não parecida.
Não semelhante.
Eu.
Minha boca.
Meu rosto.
Meu corpo.
Ali.
Naquela mesa.
Com ele.
— Não…
Minha voz não sai.
Minha mente racha.
Olho pra mim.
Depois pra ela.
Depois pra ele.
Ele não me vê.
Ele não sabe.
Mas eu vejo.
Eu sinto.
Como se fosse arrancada de dentro de mim e jogada ali, naquela cena distorcida.
Sombras rastejam pelas paredes.
O teto pulsa.
Fagulhas.
As mesmas.
As da ruiva.
Ela.
É ela.
O sorriso muda.
Mais largo.
Mais cruel.
Como se soubesse.
Como se quisesse que eu visse.
Cambaleando, tropeço na cadeira giratória e caio no chão, o impacto seco ecoando pelo escritório.
O movimento chama a atenção de Vincenzo.
Ele vira.
O rosto.
O choque.
O pavor.
— Dess!? — a voz sai quebrada, sem ar. — O que… o que você tá fazendo aqui? Você é você!? Que porra é essa!?
Antes que eu responda, o som corta o ar.
Uma gargalhada.
Errada.
Doente.
Lenta.
Ela.
A ruiva se ergue sobre a mesa como se nada tivesse acontecido. Como se a realidade não tivesse acabado de rachar ao meio.
O movimento dela continua… provocativo, calculado, como se estivesse encenando pra mim.
Pra mim.
Vincenzo recua de uma vez, como se tivesse levado um choque.
— Não… não… — ele passa a mão no rosto, em desespero. — Eu achei que era você. Eu juro. Dess, eu pensei que era você!
— Fica longe de mim. — Minha voz sai baixa. Grossa. Carregada de algo que eu mesma não reconheço. — Não chega perto.
Ele para.
Congela.
E aquilo quebra ele mais do que qualquer grito.
Atrás dele, ela se alonga sobre a mesa, preguiçosa, satisfeita.
Observando.
Saboreando.
— Teu homem… — ela inclina a cabeça, sorrindo pra mim — …é fácil de enganar.
O mundo escurece nas bordas.
Minha mão já está dentro da mochila antes mesmo de eu perceber.
A adaga pulsa.
Responde.
Chama.
— Dess… — a voz de Vincenzo falha. — Eu não fiz isso. Eu não faria isso com você. Eu… eu não sabia.
Mas eu não consigo mais ouvir direito.
Porque ela ri.
Porque ela me olha como se tivesse vencido.
Porque ela usa o meu rosto.
Meu corpo.
Minha existência contra mim.
Eu avanço.
Não penso.
Só vou.
Subo na mesa, empurrando-a para trás, minha mão esquerda cravando em seu pescoço frio.
Frio demais.
Errado demais.
Ela não reage.
Não luta.
Só sorri.
Mais.
Mais largo.
Como se estivesse esperando.
Como se quisesse isso.
— Finalmente… — ela sussurra.
Erro.
Talvez.
Mas eu já passei desse ponto.
A lâmina desce.
Rápida.
Precisa.
Afunda no peito dela.
Por um segundo… nada acontece.
E então...
O corpo se desfaz.
Explode em luz distorcida.
Fagulhas.
As mesmas.
As malditas fagulhas.
O ar estoura.
O som some.
E ela simplesmente deixa de existir.
Silêncio.
Só o silêncio.
E a respiração quebrada de Vincenzo atrás de mim.
Ainda de joelhos sobre a mesa, em choque, vejo Vincenzo perder o controle.
— Eu não fiz nada, amor. Eu juro… — a voz dele falha, desesperada. — Eu achei que era você. Eu vi você. Era você, Dess! Fala comigo… por favor!
Não respondo.
Não consigo.
Largo o punhal.
Desço da mesa.
E saio.
Sem olhar pra ele.
Sem dar a ele o que ele mais precisa agora: resposta.
Ou perdão.
O corredor parece mais longo do que antes.
Cada passo pesa.
Algo em mim… mudou.
Não é só dor.
Não é só raiva.
É outra coisa.
Mais fria.
Mais perigosa.
E é isso que me empurra pra fora da academia, pra chuva que cai pesada sobre a calçada.
Eu ando.
Sem direção.
Sem pensar.
Só indo.
A buzina ecoa atrás de mim.
Vincenzo.
Distante.
Insistente.
Desesperado.
— Dess!
Eu não paro.
A chuva me engole.
Me apaga.
Dobro uma esquina. Entro num beco. Desapareço.
Ele passa.
Não me vê.
E, por algum motivo, isso não alivia.
Volto.
Não sei por quê.
Minutos depois — ou horas — estou de volta ao estacionamento.
O carro.
O silêncio.
Abro a porta.
Sento.
E só então o corpo cobra.
O punhal.
Está no banco do carona.
Eu não trouxe ele.
Eu não lembro de trazer.
Mas ele está lá.
Reluzindo.
Esperando.
Algo revira dentro de mim.
Abro a porta de novo e vomito no asfalto.
Seco.
Doloroso.
Humilhante.
Fecho a porta, tremendo.
Frio.
Medo.
Minhas roupas encharcadas colam no corpo.
Levanto os olhos.
O retrovisor.
E por um segundo…
não me reconheço.
Tem algo ali.
No fundo do olhar.
Algo escuro.
Algo que não era meu.
— Eu não pensei… — minha voz sai baixa, rouca. — Em nenhum momento eu pensei se ela era humana.
Silêncio.
— Eu não hesitei.
O ar pesa dentro do carro.
— E se fosse?
A pergunta fica.
Apodrecendo.
— Eu teria matado.
Engulo seco.
Minhas mãos tremem no volante.
— Por impulso… ou por causa disso?
Olho pro punhal.
Ele não responde.
Mas eu sinto.
— Eu tô passando do meu limite…
Minha cabeça encosta no banco.
— Eu não sei mais o que é real.
Fecho os olhos.
— Aquilo… era da Legião?
O celular vibra.
Ignoro.
De novo.
E de novo.
Até que paro.
Leio.
Antoine.
“Onde você tá, mãe!? Volta pra casa! Meu pai tá surtando! Volta! Eu preciso de você! Você precisa de mim! Volta, mamãe!”
Alguma coisa quebra.
Finalmente.
As lágrimas vêm.
Sem controle.
Sem força.
Só queda.
Eu deslizo pro banco de trás, abraçando o próprio corpo, como se isso ainda significasse proteção.
Choro até não sobrar nada.
E, em algum momento entre um soluço e outro…
o corpo desliga.
Por Matteo e Antoine… eu voltei.
Por mim, eu iria embora. Sumiria. Recomeçaria do zero.
Mentira.
Eu não tenho mais a mesma força.
E, pior… eu ainda o amo.
Ele está na sala quando abro a porta.
Me esperando.
Eu passo por ele como se não visse.
Mas vejo.
Vejo tudo.
Nunca o vi assim.
Curvado.
Apagado.
Quebrado.
Ele não levanta o olhar.
Não tenta me impedir.
Só fala, baixo:
— Não sou. — a voz falha. — Não sou um traidor. Fui vítima… como você.
Paro.
Mas não viro.
— Não se preocupe. — ele continua. — Eu vou embora hoje. Vocês precisam mais de você do que de mim.
A frase entra como faca.
Eu quase respondo.
Quase.
Mas não confio na minha voz.
Nem no que sairia dela.
Sigo pelo corredor.
Fugindo.
Dele.
De mim.
No quarto, Enrico me olha como se já soubesse de tudo.
— Vai tomar um banho, filha. — diz, calmo, firme. — Depois a gente conversa. Tem coisas… que você precisa entender.
Eu só assinto.
No chuveiro, deixo a água cair.
Sem pressa.
Sem reação.
— Leva isso… — sussurro, sem força. — Leva isso de mim.
Mas a cena volta.
De novo.
De novo.
De novo.
Não vai embora.
Nunca vai.
No espelho, eu paro.
Encaro meu reflexo.
E não reconheço.
— Foi real. — digo, quase sem som. — Foi real…
Minha mente rebate.
Grita.
NÃO FOI.
REAJA.
Eu fecho os olhos.
— Para… — peço. — Só por hoje. Para.
— Mamãe?
O abraço de Antoine me quebra.
Quente.
Vivo.
Real.
— Não deixa ele ir embora, mãe… — ela sussurra. — Ele tá perdido. Mais do que você.
Solto um riso fraco.
Sem humor.
— Você não sabe o que aconteceu…
— Sei.
Aquilo me atravessa.
— Sei… mas deixa o vô te explicar.
Eu recuo.
— Como você sabe?
Ela sustenta meu olhar.
E então eu lembro.
Quem ela é.
— Tem coisas que eu não posso dizer… — ela murmura. — Mas eu vi. Foi injusto.
Silêncio.
— Dá uma chance pra ele.
Eu olho pra ela.
De verdade.
— Você… cresceu?
Ela sorri de lado.
Triste.
— Treino, mãe. Só isso.
Mentira mal contada.
Mas eu deixo passar.
— Eu preciso de vocês dois — ela continua, mais baixo agora. — Pra entender o que eu tô sentindo.
Aquilo me desmonta mais do que tudo.
Ela me puxa.
— Vem. Ele vai embora.
E aí tudo acelera.
Corredor.
Passos.
Respiração.
A sala.
As malas.
Ele.
Sempre ele indo embora.
— Larga isso! — minha voz explode antes de eu pensar. — Fala comigo! Eu mereço uma explicação!
Ele levanta o rosto.
Os olhos vermelhos.
Destruído.
— Eu não sei… — ele diz.
— Não me faz implorar, Vincenzo…
Minha voz quebra.
— Eu já tô no limite.
Ele desvia.
Como sempre.
— Eu tô sujo, Dess… — sussurra. — Indigno.
Aquilo acende algo em mim.
Raiva.
Antiga.
Conhecida.
— E vai fugir por isso? — eu avanço. — De novo?
Silêncio.
— É sempre assim! — eu grito. — Você erra, decide sozinho… e some!
Ele não reage.
Só entra no carro.
Como se já tivesse escolhido.
Como se eu não importasse.
— Fica! — agora não é mais grito. — Fica e resolve essa merda comigo!
O motor liga.
E pronto.
Acabou.
Ele vai.
De novo.
Eu fico.
De novo.
— Covarde… — a palavra sai sem força. — Sempre foi.
Minhas pernas cedem.
A rua gira.
Chão.
Frio.
Choro.
Cansaço.
Antoine e Enrico me levantam.
Eu mal sinto.
— Não me deixem sozinha… — peço, já longe.
Muito longe.
O corpo arde.
A cabeça pesa.
E eu apago.
— Graças ao Criador… sua febre baixou, filha. — Enrico fala baixo. — Deve ter sido a chuva… e o tempo com a roupa molhada.
— Enrico… — minha garganta arde. — Matteo… tá bem? E a Antoine?
— Estão. Todos bem.
O alívio vem devagar.
Pesado.
— Você é um anjo… — tento rir. Não consigo. — Minto. Um arcanjo. Sem você, eu não chegaria até aqui.
— Chegou. — ele responde, simples.
Tento me levantar.
— Preciso voltar… à minha vida…
— Você acabou de sair de uma febre de quarenta graus. — ele me segura. — Sua vida pode esperar algumas horas.
— Meus filhos não.
Ele me ajuda a sentar.
A água desce rasgando a garganta.
Mas alivia.
Muito.
Rápido demais.
— O que você colocou nisso…?
Ele me olha.
Triste.
— Amor.
Não compro.
Mas não discuto.
— Dorme — ele completa.
— Novidades…? — murmuro, já caindo de novo.
Quando acordo, o mundo é outro.
Luz.
Calor.
Silêncio bom.
Corro até o quarto de Matteo.
Ele tá de pé no berço.
Me esperando.
Sorrindo.
E pronto.
Acabou.
Eu me quebro inteira ali.
Beijo.
Cheiro.
Aperto.
Ele ri.
Aquele riso que salva gente.
Levo ele até a janela.
— Olha… os passarinhos…
Ele responde no idioma dele.
E eu finjo que entendo tudo.
Porque, de algum jeito, eu entendo mesmo.
Na cozinha, tudo parece… normal.
Quase.
— A vida continua, né, filho… — murmuro. — Mamão ou banana?
— Nanana!
— Claro que é banana.
Preparo.
Mecânico.
Quase em paz.
Até lembrar.
Vincenzo.
A falta dele entra quieta.
Mas entra.
Seco o olho com o pano de prato.
Como se resolvesse.
Não resolve.
— Voilà… — imito ele, sem pensar.
Erro.
Porque dói.
Sento.
Dou a primeira colherada a Matteo.
Ele aceita.
Milagre.
Antes da segunda, Antoine invade a cozinha.
Elétrica.
Viva demais pra quem viu o que viu.
— Temos um hóspede!
— Leo?
— Não!
Enrico entra atrás.
Calado.
Observando.
Sempre observando.
— Na casa da árvore — ela completa, quase pulando.
Eu paro.
— Você trouxe um bicho pra casa?
— Um bem triste… — Enrico comenta, se divertindo mais do que deveria.
Tem coisa errada aí.
Óbvio.
— Se me morder, eu processo vocês dois — aviso, já indo.
— “Mamãe!” — Matteo dá tchau.
— Já volto, amor.
Subo.
A madeira range.
Como sempre.
A porta… abandonada.
Tempo demais sem olhar pra isso aqui.
Entro.
Luz demais.
Não vejo direito.
Tropeço.
Caio.
— Merda…
O “tapete” se mexe.
Respira.
— Agora não, filha… — uma voz resmunga. — Me deixa dormir…
Eu travo.
— Você…?
Silêncio.
Ele levanta o rosto, ainda meio apagado.
— Dess?
— Não, idiota. — levanto, limpando a roupa. — Volta a dormir.
Ele sorri.
Cansado.
Mas ali.
Ele voltou.
Por mim.
— E por quem mais eu voltaria…? — ele murmura.
— Não fala comigo.
Idiota.
Eu viro.
Desço antes de desabar ali mesmo.
Quase caio nos degraus.
— E aí!? — Antoine grita.
— Adotem esse animal! — respondo, pegando Matteo no colo pra esconder o sorriso que tá escapando.
— Seu pai voltou… — sussurro no ouvido dele. — Voltou.
— Papai não?
— Não… papai não abandona mais.
Lá de cima:
— Essa eu ouvi, panaca! Eu vou ficar!
Pronto.
Circo armado.
Antoine vibra.
Enrico ri.
Como se tudo estivesse resolvido.
Não está.
Nem perto.
Mas…
Ele voltou.
E, por hoje, isso basta.
Apesar de ele ter voltado… eu não falo com Vincenzo.
Não é raiva.
É pior.
Medo.
E uma vergonha que eu não sei explicar.
Ele também não me procura.
Dorme no quarto de hóspedes.
Como se a nossa cama tivesse virado território proibido.
Mas eu sinto falta.
Idiota.
A cena volta.
Eu.
Não sendo eu.
Com ele.
E ele acreditando.
Eu devia odiar só ela.
Mas sinto ciúme de mim mesma.
Ridículo.
PRA SEPARAR VOCÊS, IDIOTA. JUNTOS, VOCÊS SÃO FORTES.
Fecho os olhos.
Droga.
Faz sentido.
— Sentimos sua falta, Adessa. Melhorou?
— Melhorei. — minto fácil demais. — Obrigada, Aninha.
O buquê pesa nas minhas mãos.
— Viu? Todo mundo te ama!
Nem todo mundo.
Toco nela.
Erro.
Visões.
Ela chorando.
A namorada gritando.
Culpa que não é dela.
Solto rápido.
— Se quiser conversar… — digo baixo — Eu tô aqui.
Ela tenta sorrir.
Não consegue.
Inclino e sussurro:
— Ela não te traiu.
O choque no rosto dela me dá um cansaço imediato.
Eu não devia fazer isso.
Mas faço.
Na rua, o silêncio volta.
Eu e o buquê.
Pensando em como falar com Vincenzo…
Sem parecer fraca.
Sem pedir.
Porque ele não pediu desculpa.
E isso me corrói mais do que devia.
Esbarro em alguém.
Levanto o olhar.
Liam.
Claro.
Porque o dia não tava ruim o suficiente.
— O que faz aqui?
— Não é da sua conta.
— Não tô a fim de brigar.
— Nem eu. — ele sorri sem humor. — Você não vale isso.
Respiração funda.
— Quero ver a Cassie.
— Não vai.
— Eu não pedi permissão.
Erro.
Grave.
Ele se aproxima.
Perto demais.
— Eu não estou sozinho, Adessa.
— Nem eu. — sorrio, mesmo sem vontade. — Já ouviu falar em arcanjos?
Ele hesita.
Pouco.
Mas hesita.
É o suficiente.
Minha mão age antes da cabeça.
O lenço some do bolso dele.
Pro meu.
Simples.
Limpo.
Idiota… e perfeito.
— Se encostar neles… — digo baixo — Eu te mato.
Ele me encara.
Ódio puro.
Mas recua.
Eu viro antes de pensar melhor.
E só então percebo.
Round 666.
Sério?
Eu vim parar aqui?
De novo?
Tarde.
— Tia!
Leo.
Claro.
— Vem ver!
E lá vou eu.
Arrastada.
Como sempre.
No ringue, Vincenzo para.
Me vê.
E pronto.
O ar muda.
Não falamos.
Mas tudo tá ali.
João cumprimenta.
Eu respondo.
Educada.
Fria.
Leo luta.
E luta bem.
Melhor do que devia.
Vincenzo me observa.
Eu vejo.
Ele tenta esconder.
Não consegue.
Tem ciúme.
Ótimo.
Que sinta um pouco.
— Tia! — Leo vibra. — Agora eu posso entrar na Grande Batalha, né!?
Sorrio.
Mas dói.
— Pode.
Pausa.
— Claro que pode.
Ele não entende.
Ainda não.
Mas já tá dentro.
Todos nós estamos.
— De quem são as flores?
— Minhas. — não olho pra ele. — Cadê meu carro?
— Você veio a pé, idiota.
— Como sabe?
— Eu vi.
Silêncio curto.
Perigoso.
— Quem te deu essas flores?
Eu viro, rindo. Meio quebrada.
— Ciúmes? Sério? Não deveria ser o contrário?
Ele trava o maxilar.
— Onde deixou o carro?
— Não lembro.
— Just Dance?
— Isso.
Ele passa a mão no rosto.
— Você tá ficando fora de si.
— Somos dois. — cuspo. — Fica longe de mim.
— Eu tava aqui. Quem veio foi você.
— Eu me distraí.
— Você andou três quadras… e parou exatamente aqui?
Droga.
— O Leo trabalha aqui. Eu vim ver ele.
Ele morde o canto da boca.
Quase sorri.
E isso me irrita mais do que devia.
— Já viu.
Viro de costas antes que ele veja o meu sorriso escapando.
— Quer que eu te leve?
— Prefiro morrer soterrada por granizo.
Saio andando.
— Cuidado com quem encontrar — ele avisa, mais sério. — A Grande Batalha começou.
Eu paro.
Sem virar.
— Eu sei. Já levei o primeiro golpe.
E ainda sangra.
— Eu tô exausta, Enrico…
— Só uma partida.
Ele não quer xadrez.
Nunca quis.
Mas eu deixo.
Abraço ele.
De verdade dessa vez.
— Eu tô te usando… como babá.
— Tá nada. — ele sorri. — Eu sou parte disso aqui.
E ele é mesmo.
Talvez mais do que deveria.
Vou pro quarto.
Roubei o lenço.
Guardo.
Errado.
Eu sei.
Mas deixo.
Depois eu vejo isso.
Mentira.
Matteo dorme.
Anjo.
Antoine… acordada.
Rindo no telefone.
Leo.
Claro.
Ela esconde seus sentimentos.
Ele não vê.
Clássico.
Mãe sofre por dois.
Sempre.
A sala tá… diferente.
Quente.
Iluminada demais.
Errado.
Enrico à mesa.
Vinho.
Três taças.
Claro.
Claro que tem mais alguém.
— Cadê o tabuleiro?
— Não tem jogo hoje.
Meu estômago fecha.
— Senta.
Vincenzo.
Na ponta da mesa.
Como se fosse normal.
— Não tenho nada a ver com isso — ele diz, antes de eu falar. — Eu cheguei antes.
— Não te perguntei.
— Mas pensou.
— Eu não vou ficar aqui com ele.
— Nem eu — ele levanta.
Covarde.
— Senta. — Enrico não levanta a voz. Nem precisa. — Ninguém sai.
Sento.
Encho a taça.
Até a borda.
Viro.
De uma vez.
— Ele me traiu.
— Eu não te traí! — Vincenzo explode.
— Era você! — ele bate na mesa.
— Aquilo não era eu!
— Então era o quê!?
Silêncio.
Pesado.
— Calem a boca. — Enrico corta. — E escutem.
Obedeço.
Odeio isso.
Mas obedeço.
— Súcubos.
Eu reviro os olhos.
Claro.
Demônio.
Sempre demônio.
Mas… eu vi.
Droga.
— Foi isso que te atacou, filho.
Vincenzo ri.
Sem humor.
— Tá de brincadeira…
— O que é isso? — pergunto, mais baixo do que queria.
— Predadores. — Enrico bebe. — Usam desejo pra sugar vida.
Meu estômago vira.
Porque encaixa.
Perfeitamente.
E eu odeio isso.
— E o que isso muda? — corto.
— Tudo.
— Não muda nada! — eu bato na mesa. — Eu vi!
— Eu pensei que fosse você! — Vincenzo grita. — Eu nunca quis outra mulher!
Eu rio.
Feio.
Amargo.
— Então por que nunca fez aquilo comigo daquele jeito?
Silêncio.
Pronto.
Golpe baixo.
Eu sei.
Mas saiu.
Ele trava.
Respiração pesada.
— Porque eu achei que era você.
Simples.
Direto.
E ainda assim…
não resolve.
— Eu não sei mais o que é real! — eu explodo. — Eu me vi ali!
— Eu também não! — ele rebate. — Mas eu não te traí!
— Chega! — Enrico bate a mão na mesa.
Silêncio.
De novo.
— Vocês dois estão sendo manipulados.
A palavra pesa.
— Separar vocês é estratégia.
Droga.
De novo isso.
Faz sentido.
E eu odeio quando faz sentido.
Vincenzo desaba na cadeira.
— Eu não aguento mais…
E pela primeira vez…
não é raiva.
É cansaço.
De verdade.
— Me deixa ir…
Aí não.
— Não se atreva! — eu levanto. — Você não foge de novo!
Ele nem reage.
Isso assusta mais do que qualquer grito.
— Fica. — minha voz quebra. — E me explica.
— Ele não precisa. — Enrico levanta.
Vem até mim.
Toca minha testa.
Frio.
Preciso.
— Vê.
De olhos fechados, eu vejo.
Antes de mim.
Antes da porta.
Vincenzo está sozinho.
Concentrado.
Alheio.
Ela já está lá.
No canto.
Observando.
Errada.
Inumana.
A forma se contorce… e muda.
Pele.
Cabelo.
Corpo.
Eu.
Quase perfeito.
Quase.
A cauda se recolhe devagar, como se soubesse que não pode ser vista.
Ela se aproxima.
Silenciosa.
Ele não percebe.
Nunca perceberia.
— Dess…
A voz dela… é a minha.
E isso me dá nojo.
Ela não espera.
Não fala.
Não explica.
Invade.
Destrói a mesa com um único movimento.
Ele nem reage direito.
Só… aceita.
Porque acha que sou eu.
Idiota.
— O que foi hoje? — ele ri, sem entender. — Não dava pra esperar em casa?
— Eu tenho fome.
A palavra pesa.
Errada.
Antiga.
Ele fecha os olhos.
Entrega.
E é aí que tudo piora.
Porque ele confia.
Porque ele acredita.
Porque ele quer.
A cauda se move atrás dele.
Viva.
Faminta.
Mas ele não vê.
Não vê nada.
Só ela.
Só “eu”.
E quando eu abro a porta…
ele abre os olhos.
Tarde demais.
Volto.
Ar.
Sala.
Vinho.
Nojo.
— Foi horrível…
— Você viu? — Enrico pergunta.
— Vi.
Olho pra Vincenzo.
Ainda dói.
— Você viu, Dess?
— Vi. — olho direto pra Vincenzo. — E como eu sei que vocês dois não armaram isso? Você adora mexer com a minha cabeça.
— Eu não faço isso, filha. — Enrico corta, magoado. — Nunca fiz.
— Perdão… — cubro o rosto, engolindo o choro. — Não quis te ofender, pai. Mas esse idiota… — aponto pra ele — Não viu a cauda?
— Que cauda, Dess!? — ele explode. — Você queria me engolir! Eu ia reparar em cauda!?
— Desde quando eu apareço nua no seu escritório, seu animal!? — eu avanço. — Ela tava nua! Eu tava nua! E você nem estranhou!?
— Você me atacou por trás! — ele rebate, já de pé. — Eu pensei que fosse você, porra! Sei lá se você tinha deixado a roupa no banheiro!
— Claro! Sempre uma desculpa!
— Não é desculpa! — ele perde a paciência. — Você viu tudo! Se ainda quiser acreditar que eu te traí, o problema é seu!
Silêncio.
Pesado.
Ele respira fundo.
— Eu não sei mais o que fazer além de ficar longe de você pra não piorar isso. Com licença.
Ele tenta passar.
— Não.
Eu entro na frente.
Ele ri, sem humor.
— Sai da frente, Dess. Não tô brincando.
— Nem eu.
Enrico levanta.
Vai embora.
Claro que vai.
Agora é só nós dois.
— Controle de quê? — ele rosna. — Você não manda em mim.
— Não mando. — chego mais perto. — Mas cobro.
Ele estreita os olhos.
— Cobrar o quê?
E eu vou direto.
Sem freio.
— Você comeu aquela coisa como nunca me comeu.
Silêncio.
Duro.
— Eu quero o mesmo.
Ele pisca.
Uma vez.
Só.
— Você tá falando sério?
— Tô! — eu grito, já tremendo. — Todo esse tempo sem olhar na minha cara não foi só traição! Foi isso! Eu vi você… daquele jeito!
— Você tá com ciúme de um demônio! — ele ri, incrédulo.
— Tô com ciúme do meu homem!
Aquilo acerta.
Cheio.
Ele fecha o maxilar.
— Então era isso…
— Era isso! — eu bato no peito dele. — Eu nunca te vi assim comigo!
— Porque eu achei que era você! — ele explode de volta.
— Então prova!
Eu estapeio o rosto dele.
Som seco.
Ele não reage.
Só me encara.
Perigoso.
— Você quer prova… desse jeito?
— Quero. — minha voz falha, mas eu não recuo. — Com força. Com loucura. Sem freio.
Erro.
Grave.
Eu sei.
E pioro.
— Aiden já me levou até lá. Você nunca.
Pronto.
Acabei de jogar gasolina.
Ele trava.
Olho escurece.
— Vai pro inferno.
Ele vira.
Anda.
Eu sigo.
Claro que sigo.
— Fugir agora? De novo?
Ele entra no quarto.
Eu entro atrás.
Tranco a porta.
O clique ecoa.
Agora não tem plateia.
— Por que falou o nome dele? — ele pergunta, baixo. Perigoso.
— Pra te tirar do sério.
Dou mais um passo.
— E pra ter o que aquela coisa teve.
Silêncio.
Respiração pesada.
Dos dois lados.
— Então você não tem ideia do que tá pedindo.
— Tenho. — encaro ele. — E é exatamente por isso que eu quero.
— Não precisa, porra! — ele explode. — Você acabou de me comparar com um homem… um demônio que te destruiu, Dess! Esqueceu o dia que eu e o padre Pietro te tiramos daquele inferno!? Você fedendo, quase morta por causa dele!
A voz falha.
Raiva misturada com medo.
— É assim que você quer que eu seja!?
Ele me empurra.
Não forte.
Mas o suficiente.
Eu não tava pronta.
Bato a cabeça na quina da cama e caio.
O mundo gira.
Silêncio.
Escuro.
Fico imóvel.
Não sei se por dor… ou por vergonha.
— Dess! — a voz dele quebra.
Passos rápidos.
Ele ajoelha do meu lado.
— Eu não… eu não quis…
— Eu sei… — minha voz sai fraca. — Fui eu.
Ele passa a mão pelo meu cabelo, nervoso.
— Onde dói?
— Aqui… — levo a mão à nuca. — E aqui.
Ele segue meu gesto até o peito.
Confuso.
— Bateu o peito?
Eu quase rio.
Quase.
— Não, idiota… — sussurro. — Aqui dentro.
Encosto nele.
Sem pedir.
Sem pensar.
— Burro.
Ele solta o ar pelo nariz.
— Estúpida.
Mas a voz já mudou.
Me levanta com cuidado.
Como se eu fosse quebrar.
— Deita. Agora.
— Não tô sangrando…
— Eu sei, porra! — ele se irrita, mas não solta. — Você não vai dormir pelas próximas horas.
Me coloca na cama.
Ajeita meu cabelo.
Olha meus olhos.
De perto.
— Fica acordada.
Eu fecho os olhos mesmo assim.
Só um pouco.
— Ok… volta logo.
Ele se afasta, ainda olhando.
Como se eu pudesse desaparecer.
— Eu te odeio, Dess.
Silêncio curto.
— Somos dois… — murmuro. — Eu também me odeio.
Ele para na porta.
Não responde.
Mas também não vai embora.
— Por que vai levantar, Dess? Você ainda precisa ficar em observação.
— “Observação” é o caralho! — eu já levanto. — Se não posso dormir e não tem nada de interessante pra fazer nessa cama por doze horas, eu vou trabalhar.
— Não me tira do sério de novo.
— Sai da minha frente. Eu preciso fazer algo de útil, já que você...
— Cala a boca!
Eu paro.
Sorrio.
Errado.
— Olha só… Vincenzo Rossi mostrando o lado selvagem pra esposinha medíocre… sem cauda.
A dor vem.
Forte.
Faço uma careta.
— Se vier atrás de mim, eu te arrebento.
— Não vou. Fica tranquila.
Aquilo bate pior que a dor.
— Que ótimo. Seu anjo de merda. Não encosta mais em mim.
— Dess…
Eu já virei.
Não paro.
— Posso ficar com você?
— Filha…
Ela já me abraçou.
— Por que tá chorando, mãe? Vocês não fizeram as pazes?
Eu rio sem graça.
— Seu avô acredita em final feliz. Eu não moro nesse mundo.
— E o papai?
Pausa.
Essa dói.
— Seu pai é melhor que eu, Antoine. O que eu sinto… tá lá embaixo. Num lugar feio.
Ela aperta mais.
— Não tá. Você é tão forte quanto ele.
Eu quase desmonto.
— Não fala isso…
— Já foi. — ela ri. — Você chora por tudo.
— E você não chora por nada.
Ela fica quieta.
E aí vem.
— Eu queria chorar.
Eu olho.
Agora sério.
— Por quê?
Ela desvia.
— Quando ele vai embora… dá vontade.
— Leo?
Ela assente.
— Ele não me vê, mãe. Me trata como irmã.
Silêncio.
— E isso dói.
— ‘Dodói.’ — Matteo decreta, feliz da vida.
A gente ri.
Porque se não rir…
— Eu não sei o que eu quero — ela continua. — Só sei que não quero isso.
Eu puxo ela pra perto.
— Você nunca vai ser “como as outras”, filha.
Ela levanta o rosto.
Esperando.
— Porque você é melhor.
Ela engole seco.
— E quando ele perceber isso…?
Eu sustento o olhar.
Mesmo sem certeza nenhuma.
— Ele vai.
Matteo me agarra, baba minha cara inteira.
Perfeito timing.
— Vai ter o amor do melhor amigo — eu completo, mais baixo.
E pronto.
Ela desaba.
A gente chora junto.
Bonito.
Feio.
Real.
De repente, ela levanta.
Olho aceso.
— Vou lutar. Vou ficar forte. Ele vai ter que me enxergar.
Eu suspiro.
Clássico.
— Você não precisa provar nada pra ele.
— Mas eu quero.
Claro que quer.
— Então chama ele pra vir aqui amanhã — eu cedo. — Lanche, bagunça… esses desenhos esquisitos que vocês gostam.
— Shingeki no Kyojin!
— Isso não é língua humana.
— Attack on Titan!
— Gente virando monstro pra comer gente?
— Basicamente.
Eu encaro.
— Não faz o menor sentido.
Ela dá de ombros.
— Eu sei.
— Mas você assiste.
— Por ele.
Eu balanço a cabeça.
Um meio sorriso escapando.
— Perigoso isso aí.
Ela só suspira.
— Eu sei…
— Eu te entendo, meu amor. Eu assistia às lutas com seu pai… mesmo odiando aquela violência.
— Por que não assiste mais? Ele tá tão sozinho.
Eu respiro.
— Eu também.
— Mãe…
Eu corto antes de afundar.
— Vai, liga pro Leo. Eu vou pedir pizza.
— Com batata frita!?
— Lógico. Colesterol alto é o verdadeiro sentido da vida.
Ela ri, me abraça forte.
— Você é a melhor mãe do mundo. Eu sabia que era você… naquela noite.
Aquilo me desmonta por dentro.
Ela beija Matteo, sai correndo.
Eu fico.
No chão.
Chorando.
Matteo encosta a cabecinha na minha barriga.
— Dodói?
Eu acaricio o cabelo dele.
— Não, amor… não é dodói.
Mentira descarada.
— Mãe! — ela grita da porta. — Para de chorar e fala com o papai! Ele é burrinho, mas te ama!
Eu rio chorando.
Claro que ama.
Idiota.
Me encolho no chão.
“Não tira a Antoine de mim… eu não aguento.”
— O que pretende fazer?
Eu nem olho.
— Um experimento. Preciso de paz pra pensar.
Vincenzo pega Matteo, faz ele rir. Depois fica sério.
— E o lenço?
Eu viro.
— É do Liam. Eu roubei.
Ele solta um ar pelo nariz.
— É do Sean, Dess. Tem o nome bordado.
Eu abro o lenço.
Congelo.
“Faz sentido.”
Claro que faz.
— Quer ajuda?
— Não.
Ele dá de ombros, meio cansado.
— Cuidado com o que você tá procurando.
Ele começa a sair.
Eu vou atrás, me agarro na perna dele.
— O que quer dizer com isso?
Ele abaixa, fica na minha altura.
— Que isso é maior que você.
— E você deixaria quem você ama nas mãos disso!?
Silêncio.
— Nunca. — ele responde baixo. — Eu só não quero te perder.
Matteo bate palminha.
— Mamãe e papai.
A gente olha um pro outro.
Por um segundo… paz.
Eu estrago.
— Você sabe de alguma coisa.
— Não tenho certeza. Mas tem coisa errada com o Liam.
— Ele tá com a Cassie e o Sean! Eu vi ele tirando sangue do menino!
Ele trava.
— Como assim?
Eu recuo.
— Esquece.
— Dess…
— Vai trabalhar. Você tem seus informantes, não tem?
Ele cansa.
De verdade.
— Eu não quero mais brigar.
— Então vai embora! E presta atenção nas caudas da próxima vez!
Ele fecha os olhos.
— Não fala assim… só piora tudo.
Matteo pede colo.
E eu faço merda.
Levanto.
Bato a porta.
Forte.
Silêncio.
Do outro lado:
— Mamãe dodói?
A voz do Vincenzo vem baixa.
— Tá, filho… mas vai passar.
Não vai.
Eu sei que não vai.
Abro a porta.
Pego Matteo.
Fecho de novo.
Vincenzo já foi.
—
Fico ali.
Com meu filho.
Com aquele buraco no peito.
— Papai feio. Ai ai ai.
Eu rio.
Cansada.
— Concordo, filho.
Mas amo ele.
Mais do que antes.
E isso é o pior de tudo.
Infelizmente, a tentativa de Enrico só piorou tudo.
Dois dias sem trocar uma palavra.
Dois dias me segurando pra não pular no pescoço dele… ou mandar ele à merda.
—
Vou até o escritório enquanto ele dá aula com o Leo.
Fecho a porta.
Deixo Anahita assumir.
Quando volto, o ar tá diferente.
Pesado.
Vejo os sigilos sob a mesa.
Acima da porta.
— Ótimo… — murmuro.
Queimo sálvia.
Limpo a mesa com álcool… e raiva.
Esfrego cada canto onde aquela coisa encostou.
Finalizo com água benta.
Roubada, com orgulho.
Quando termino…
Eles entram.
— Que porra é essa, Dess!? — Vincenzo se assusta. — Tá pegando fogo!?
— Relaxa. É sálvia. Pergunta pro Google.
— Você é maluca. Tá saindo fumaça lá fora!
— Melhor. Já limpa a academia inteira.
— Entraram no seu escritório!? — João trava. — Precisa de segurança!
— Não precisa — Vincenzo corta. — É coisa dela.
Claro.
“Coisa dela.”
João ainda tenta ser educado.
— Se quiser fazer isso lá em casa…
— Ok… — respondo, meio fora do eixo.
Ele vai embora.
Vincenzo me puxa pelo braço.
— Isso é pra me proteger?
— Digamos que sim. Não quero outra piranha com cauda te confundindo comigo.
Pego minhas coisas.
Ignoro.
— Que desenho é esse na porta!? — ele aponta. — Isso aqui é trabalho, não é terreiro!
Eu viro na hora.
— Isso é proteção, idiota! Já que você não distingue um súcubo da sua esposa, alguém precisa fazer alguma coisa!
Silêncio.
Tento sair.
— Dá licença.
Ele não deixa.
— Não vai me benzer antes?
Droga.
A voz dele baixa.
A mão no meu rosto.
O cheiro.
Eu fecho os olhos por reflexo.
Idiota.
— Eu preciso ser bento… — ele sussurra perto demais.
Quase beijo.
Quase.
— Tia!
Leo.
Claro.
Perfeito timing.
— Merda… — Vincenzo rosna.
Eu passo por ele.
Respirando errado.
Leo me abraça.
— Cadê a Antoine!?
— Ela não te contou?
— Disse que precisava se afastar… — ele tá perdido. — Eu fiz alguma coisa?
Ele levanta as mãos, nervoso.
— Eu nunca desrespeitei ela!
Eu quase rio.
Claro que não.
Esse é o problema.
— Fala pra ela me ligar… eu sinto falta dela.
— Sério? Tipo… muita?
— Ela é minha melhor amiga.
Pausa.
— Minha única amiga.
Pronto.
Meu coração derreteu sem autorização.
— Vai lanchar lá em casa hoje.
— Posso?
— Pode.
— Quer carona? — Vincenzo se mete.
— Quero!
Leo sai correndo.
Silêncio entre nós dois.
— Bancando o bom pai? — provoco.
— Fiz o mesmo que você.
— Competição?
— Talvez.
Eu viro.
Erro.
Ele tá me olhando daquele jeito.
— Para com isso.
— Isso o quê?
— Você sabe.
— Tesão?
— Vai pro inferno.
Pego a bolsa.
— Leva ele. Eu vou na frente.
— Depois você me benze?
Eu nem viro.
Levanto o dedo do meio.
— Vai à merda, Vincenzo!
E mesmo assim…
Meu corpo inteiro queria ter ficado.
Antes mesmo de estacionar, algo já tá errado.
Segundo andar.
Janela do quarto do Matteo escancarada.
Cortina voando.
Frio na espinha.
Corro.
Antoine me espera na varanda, pálida.
— Meu filho!
— Eu não sei! Ele tá chorando! A porta não abre!
Já tô subindo antes dela terminar.
Enrico se joga contra a porta.
Desalinhado.
Desesperado.
Antoine reza.
Eu chuto.
Nada.
Outro chute.
Nada.
O choro do meu filho atravessa minha cabeça.
Eu perco o controle.
— CALMA, FILHO! MAMÃE TÁ AQUI!
Encosto a mão na porta.
Vejo.
Eles.
Em volta do berço.
Sorrindo.
Esperando.
Minha pele rasga de tanto bater.
Sangue na madeira.
— ARCANJO MIGUEL, PROTEGE MEU FILHO!
Mais um golpe.
Eu desabo contra a porta.
— SAIAM DE PERTO DELE!
Passos.
Vincenzo. Leo.
Eles nos puxam pra trás.
— Três.
Chute.
A porta explode.
Eu entro primeiro.
E grito.
Matteo no colo de Doc.
Chorando.
Intacto.
Graças a Deus.
Graças a ele.
Os outros…
Não são gente.
Se movem rápido demais.
Errado demais.
Vincenzo já tá em cima deles.
Leo entra na briga.
Antoine…
Antoine fecha os olhos.
Ergue as mãos.
E o ar muda.
Eletricidade.
Raios nos dedos.
Ela dispara.
Sem piedade.
Leo olha pra ela.
Metade choque.
Metade fascínio.
Doc me encara, tremendo.
— Perdão, filha. Ainda não posso te entregar ele.
— Ele é meu filho!
— E comigo ele ainda tá vivo!
Engulo o ódio.
A lógica vence por um segundo.
Pego um giz.
Risco um círculo ao redor deles.
Proteção.
Ruim.
Fraca.
Mas é o que eu tenho.
Vincenzo tá ficando cercado.
Leo cai.
Antoine puxa ele de volta.
Eles não vão aguentar.
Não assim.
Eu corro.
Quarto.
Pego o punhal.
Ele pulsa.
Como se quisesse isso mais do que eu.
Volto.
Ataco.
Erro.
Eles são rápidos.
Rápidos demais.
Isso não vai dar certo.
Então eu faço o que não devia.
De novo.
Dentro do círculo.
Corto a palma da mão.
Doc grita.
— NÃO, FILHA!
Uma gota.
Só uma.
Já é suficiente.
A janela explode em vento.
Fumaça.
Enxofre.
Ele chega.
Errado.
Gigante.
Antigo.
Furioso.
Lúcifer não luta.
Ele apaga.
Fogo.
Gritos.
Silêncio.
Um por um, eles viram nada.
Pó.
Cinza.
Medo.
Eu cubro Matteo.
Ele para de chorar.
Como se reconhecesse.
Como se soubesse.
Droga.
Quando tudo acaba…
Ele vira homem.
Sorri.
Como se fosse um favor.
Antoine rosna.
— Ainda não acabou.
— Pra você? Nunca — ele responde.
Vincenzo entra na minha frente.
Protetor.
Idiota.
Lúcifer ri.
— Eu não vim por você.
Olha pra mim.
— Eu fui chamado.
Silêncio.
— Dess…? — Vincenzo.
Ignoro.
— Isso aqui tá uma festa — ele continua. — Demônio, vampiro, espírito… qualquer um entra.
Dá uma volta no quarto, irritado.
— Organização zero.
Claro.
O inferno reclamando da bagunça.
Perfeito.
Ele para.
Me encara.
Sorriso torto.
— E não foi bondade.
— Eu sei — rosno.
— Quero essa escória longe dos humanos.
Pausa.
— Os humanos são meus.
Meu estômago revira.
Ele se inclina um pouco.
— E você sabe… tudo tem preço.
Eu sei.
Merda, eu sei.
Antes de sumir, ele olha pro Leo.
— Bonito. Quase foi meu.
Leo trava.
— Desgraçado!
Eu avanço.
Tarde demais.
Ele some.
Silêncio.
Só a respiração de todo mundo.
E o som do meu erro ecoando dentro de mim.
De novo.
Depois de cuidar de Leo e Antoine, Vincenzo vem até mim.
Cabeça baixa, sentada no chão, agarrada ao Matteo.
— Não preciso. Sei me cuidar sozinha.
— Não é hora pra isso, Dess. Me dá a mão.
— Já estanquei.
— Com a fralda do Matteo? Brilhante.
— Não quero brigar.
— Nem eu. Me dá a mão.
Obedeço.
Ele tira a fralda ensanguentada. Analisa. Fica sério.
— Para de se cortar. Entendeu?
— Eu nem pensei.
— Quer morrer e largar todo mundo?
Ele limpa o corte, respira aliviado.
— Ainda bem que não foi no pulso.
Fico recostada no sofá, vendo ele trabalhar com cuidado.
Desinfeta. Fecha. Enfaixa.
— Você não devia ter feito aquilo. Você chamou ele. Agora ele pode entrar quando quiser.
— Não pode. Eu sei afastar.
— Dess… é o Lúcifer. Não é seguidor teu.
— Chega… — Enrico murmura da poltrona. — Chega de briga. Isso enfraquece vocês.
— O vovô tá certo — Antoine diz, ainda no colo do Leo. — A gente tava fraco. Quase levaram o Matteo.
Leo, meio atordoado:
— Isso… é normal pra vocês? Tipo… Legião, Lúcifer, mortos?
— Faltou anjo, arcanjo e súcubo — Antoine responde. — Bem-vindo.
— Obrigada, Leo — digo. — Você entrou sem pensar. Lutou de verdade.
— Tipo um Eren Jaeger? — ele ri.
— Se você é o Eren, eu sou a Mikasa — Antoine rebate, corando.
— Aquilo dos raios foi insano!
— Depois te ensino — ela diz, deitada no colo dele. — Relaxa.
Vincenzo se joga ao meu lado, exausto.
— Quem são esses?
— “Ataque dos Titãs”, pai.
— Não recomendo — resmungo. — Loucura pura.
— Podemos orar? — Enrico pede, frágil.
— Podemos.
— Sério? — Vincenzo me encara. — Disse a mulher que invocou o diabo.
— Eu faria de novo pra salvar nossos filhos!
— Fica — ele segura meu braço. — Tô cansado. Perdão. Você fez o que achou certo.
— E salvou todos nós — Enrico conclui.
Silêncio.
— Chega de briga — Antoine diz. — A gente precisa se unir.
— Concordo — sussurro.
— Eu também — Vincenzo.
Ele olha pra mim.
— Eu quero nossa família de volta.
— Eu também.
Respiro fundo.
— Quer que eu cuide dos seus ferimentos?
Um sorriso dele. Aquele.
— Confio. Sou todo seu.
— Bobo.
— Dois bobos perdendo tempo.
— Total.
Leo levanta o braço, empolgado:
— Então eu já posso entrar na “Grande Batalha”?
— Pode! — Antoine beija ele. — A gente vai destruir esses demônios de merda!
— Já é!
— Vou pedir comida — corto antes que eles se empolguem demais.
— Comida??? — Vincenzo.
— A vida continua. E eu tô morrendo de fome.
— Eu também! — Leo.
— Três! — Antoine.
— Quatro… — Enrico ergue o braço bom. — A boca ainda funciona.
— Hoje é banquete — anuncio. — Vitória contra a Legião!
— Contra uma parte — Vincenzo corrige.
— Vitória! — Antoine grita.
— Aos guerreiros! — Leo levanta o punho.
— Que os deuses nos protejam!
— Amém… — murmuro, mais baixo. — “Deuses”? — cochicho pra Vincenzo.
— É só jeito de falar. Ela quer falar a língua dele.
— Tá…
Fecho os olhos.
— Tô com medo.
— Eu também.
— Do quê?
Ele me encara.
— De te perder de novo.
Engulo seco.
— Não vai acontecer.
— Então não se afasta.
— Nunca.
— Antes de cuidar de você, eu peço a comida — aviso.
— Antes, a gente ora — ele rebate, olhando pro pai. — A gente tá vivo por causa de Deus.
— E de uma ajudinha do diabo — Leo completa, confuso.
— Isso é muito louco.
— Total — Antoine suspira, apaixonada.
Eu observo os dois.
Quase morreram.
E tão pensando em lanche e anime.
Ser jovem deve ser isso.
Vincenzo beija meu rosto.
— Se atualiza, “Flashback Girl”.
Matteo vai até Enrico e beija o rosto dele.
A sala respira de novo.
Me inclino no ouvido do Vincenzo.
— Ainda me ama?
Ele nem hesita.
— Mais do que antes.
— É sério!? “Vamos colocar fogo no mundo”!? Minha filha tem amigo bêbado na rua agora!?
— A melodia é boa, Dess.
— A mensagem não! — esvazio mais um gole. — Você devia repreender!
— Eu??? Vai você.
— Covarde…
Matteo dorme no carrinho ao meu lado. Ainda bem.
— Não dá pra servir dois senhores, Dess — ele solta, seco. — Uma hora você escolhe.
— Isso não tem nada a ver com o assunto! — corto. — E você não reclamou da “ajudinha” quando tava com aquilo no pescoço.
— Vamos parar… — Enrico pede, se levantando com dificuldade.
Vincenzo ajuda. Eu sigo, empurrando o carrinho.
— Não sabe beber… — ele resmunga, ajeitando o pai na cama.
Eu observo. Ele beija a testa do Enrico.
Isso desmonta qualquer guerra.
— Eu não consegui fazer nada… — Enrico lamenta.
— O senhor orou. Já foi tudo — falo, me metendo no meio.
Beijo o rosto dele.
— Vou trazer a Celeste de volta. Não sei como, mas vou.
— Promete?
— Prometo.
Ele dorme.
Porta fechada.
Corredor.
— E aí, Feiticeira Escarlate? — ele provoca. — Mais sangue? Vai morrer assim.
— Isso foi baixo.
— Eu sei. Perdão.
Quarto de hóspedes.
Ele tira a camisa.
Sem cerimônia.
— O que foi? Nunca viu?
— Já… é que…
— Dess, eu quero dormir.
Tá. Direto. Do jeito dele.
— Tô com medo.
— Estamos? Matteo não parece.
— Você sabe…
— Quer dormir aqui?
— Quero. Não fico sozinha hoje.
— Faz o que quiser. Vou tomar banho.
Humilhação aceita.
Deito.
O colchão afunda.
— Banho rápido — murmuro.
Braço frio em mim.
Frio demais.
— Lavou direito isso aí?
— Sim…
A voz.
Errada.
A mão.
Errada.
Deslizando.
— Hoje não… a gente precisa conversar…
— DESS! — a voz dele explode da porta do banheiro.
Eu viro.
Tarde.
Os olhos.
Duplicados.
Errados.
O bicho geme.
Desaparece.
Vincenzo, de pé, cruz na mão, ofegante.
— Foi isso. Eu não percebi. Nada.
Silêncio.
O peso cai.
Eu ajoelho.
— Me perdoa?
Ele não pensa.
Me puxa.
Deita comigo.
Matteo entre nós.
Protegido.
— Vamos recomeçar?
— Sim…
Minha voz falha.
Beijo na testa.
Respiração dele mais calma.
A minha não.
— Escolhe um lado, Dess.
— Já escolhi. Onde você estiver.
— Sem adaga? Sem invocação?
— Sim…
Mentira.
Ele não percebe.
Ou finge.
Durmo nos braços dele.
Metade de mim já não é mais luz.
E isso… não volta.
Hoje é aniversário de Enrico. Nem Deus deve saber quantos anos ele faz.
Antoine e Vincenzo já deram os presentes. Eu, na cozinha, preparo o famoso Fettuccine ao Molho Branco, observando-o dançar com Matteo na sala, todo orgulhoso de ter domado a tal da “Alexa”.
Matteo ri, gira, grita. Enrico acompanha, leve. Feliz demais.
E eu pensando no meu presente.
Perigoso.
Sem garantia.
Sem volta.
Talvez sem mim.
— Dança comigo? — ele pede, radiante.
— A comida…
— Eu sou o aniversariante. Tenho prioridade.
Fui.
— Por que você tá tão feliz? — pergunto, girando nos braços dele.
— Porque estou.
Simples assim.
— Celeste não faz mais parte da Legião.
O mundo dá uma leve inclinada.
— Como você sabe?
— Informantes… — ele sorri. — Ela se libertou por mim. Ainda me ama.
Para de dançar.
A música abaixa.
Ele senta.
E quebra.
— Mas não volta. Sabe o mal que fez. Quer ser perdoada… com amor.
Droga.
— Vincenzo tentou?
— Tentou. Ela ainda não consegue.
— E ninguém me contou nada?
— Ele quis te poupar.
Claro. Sempre decidindo o que eu posso ou não suportar.
— Onde ela tá?
— No portão.
Silêncio.
— No… portão?
— Vigiando. Temos um sinal.
Interessante. Ou completamente insano. Difícil escolher.
Beijo o rosto dele.
Levanto.
— Aonde vai?
— Comprar seu presente.
Ele não entende.
Melhor assim.
Ajoelho na frente dele.
— Cuida do Matteo. Ninguém chega perto. Promete?
— Prometo… — confuso.
Abraço meu filho.
Forte demais.
Beijos demais.
— Eu volto. Me espera.
Minha voz falha.
Banheiro.
Porta trancada.
Espelho.
Eu.
E ela.
A única com poder suficiente.
— Traz sua tia de volta. — ordeno. — Sem tocar na minha família. Sem chegar nos meus filhos. Entendeu?
Silêncio.
Então o sorriso.
O dela.
— No nay never.
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