CAPÍTULO 25 - MACABRO





— Aonde vai, esposa?

— Do que me chamou?

Ele sorri de lado.

— Esposa.

Estaco. O ar entra pesado pelos pulmões.

— Aiden… a partir de agora, tenha muito cuidado com suas palavras.

— Adessa? É você?

Solto uma gargalhada seca e sigo até o carro, deixando-o para trás.

— No, nay, never…

Ele surge ao meu lado num instante, apoiando os braços na janela aberta.

— O que disse?

— Nada. Só cantei o refrão daquela música… no pub. Não se lembra? Na nossa lua de mel.
— Amor… — sorrio — já esqueceu?

— Não. — Ele força um sorriso. — Foram os melhores dias da minha vida.
Hesita.
— Você ainda me ama?

Rio de novo.

— Você é tão inseguro… isso é fofo.

— Aonde vai?

Piso no acelerador, impaciente.

— Resolver alguns problemas. Por quê? Não posso sair?

Ele recua, confuso.

— Claro que pode. Você não é minha prisioneira… Você me aceitou como sou. Lembra?

Inclino a cabeça, fingindo pensar.

— Aceitei?

— Baby…

— Ah… é. Aceitei.

O carro arranca. Pelo retrovisor, vejo Aiden parado na calçada, perdido.

E eu… pensando no que fazer com as fotos que acabei de receber.




Dentro do carro, observo o vai e vem do limpador de para-brisa.

Leio a mensagem outra vez:

“A César o que é de César. Espero que ambos sejam felizes depois disso.”

Um gosto amargo sobe pela garganta.

Talvez eu tenha sido cruel demais.

Talvez… eu mereça isso.

Encosto a testa no volante.

— Eu me sinto tão só…

Saio do carro. A chuva me atravessa.

— Eu não vou conseguir sozinha… — sussurro, olhando o céu fechado.
— Protejam minha filha.

— Você não está só.

Viro de repente.

Um homem alto, de roupas simples, varre a rua como se sempre tivesse estado ali.

— Quem é você?

Ele sorri.



— Muitas perguntas… poucas respostas.

Apoia o queixo no cabo da vassoura.

— Siga sua intuição. Muitas vidas dependem de você.

Sinto… paz.

— Espera! Me ajuda!

Ele não se vira.

— Estarei com você.

Meu coração dispara.

— Você é Miguel?

Ele ri.


— Não, menina. De onde tirou isso?

— Então quem é você?

Silêncio breve.

— Alguém que se importa.

Ele dá alguns passos… e some.

O frio atravessa minha espinha.

— Proteja Antoine.

Meu corpo trava.

— Antoine.






Subo as escadas xingando o elevador quebrado de sempre. Vincenzo poderia pagar melhor a funcionária dele… quem sabe assim Sweet saía dessa espelunca.

Esmurro a porta.

— ABRE, SWEEET!

Nada.

O desespero sobe.

— ANTOINE! ABRE A PORTA! É A MAMÃE!

A porta se abre lentamente.

E não é Sweet.

Paro, ofegante.

— Você aqui? Não era “noite das meninas”?

Vincenzo encosta no batente, tranquilo demais.

— E quem você acha que cozinha na “noite das meninas”? Sua amiga?

Reviro os olhos.

— Sai da frente. Inventa outra desculpa pra ficar perto dela.

Empurro ele sem cerimônia e entro.

— Tenho coisa mais importante pra fazer do que lidar com seu romancezinho ridículo.

— Posso estar carente — ele diz, levantando do chão — Mas ainda não transo com gente morta.

— Do que você tá falando?

Ele fica sério.

— Sua amiga voltou pros velhos hábitos.

Silêncio.

— Drogas — completa.

Engulo seco.

— Não fala assim comigo. Eu não sou sua funcionária.

— Mas gostaria de ser.

— Patético.

Ele me observa.

— Você andou chorando.

— Não. Eu chorei parada mesmo.

— Ridícula.

Tento segurar… e falho. Rio. Choro. Tudo junto.

Ele joga o avental de lado e me puxa pra um abraço.

E por um segundo… algo quebra dentro de mim.

Um bebê chorando. Um buquê nas mãos. Um chafariz. Um sorriso triste que eu quase reconheço.

— O que aconteceu, Dess? — ele sussurra. — Me conta.

Me afasto.

— De onde vêm essas lembranças?

— Que lembranças?

— Você ouviu.

— Eu não ouço lembranças — ele diz, seco. — Eu ouço pensamentos.

Isso me cala.

— Eu… não sei se posso confiar em você.

As fotos. Doc. O homem na chuva.

Tudo volta.

— Tô com medo…

Ele muda. Completamente.

— Agora eu ouvi.

Se aproxima devagar.

— Enfim… você enxergou.

E me abraça de novo.

E dessa vez, eu deixo.

Até que...

— WOOOHOOO!

Palmas. Risadas.

— Tá namorando! Tá namorando!

Mimi, Juju… e Antoine.

Minha filha.



— Eles são meus pais! — ela anuncia, orgulhosa.

Abro os braços.

— Vem cá!

— Mãe! Não aperta! A gente se viu hoje!

— Não parece…

Mas Vincenzo corta o momento.

— Dess. A gente precisa conversar.

Olho pra Sweet.

Ou pro que sobrou dela.

— Você quer que eu deixe minha filha com uma…?

— Uma drogada? — ela responde, rindo sem humor.

Aquilo me atinge.

Cabelos bagunçados. Pele apagada. Olhos vazios.

— Por quê…?

— Por que o quê?

— Não me olha assim — ela dispara. — Ele não quer nada comigo…

Ri. Bêbada. Perdida.

— Talvez eu não sirva mais…

— “Talvez”?

— Não escuta ela — diz Vincenzo, pegando Antoine no colo. — Vamos embora.

— E deixar as crianças aqui!?

— Eu volto depois.

— NÃO.

— Vem, mãe!

— NÃO!

Minha voz sai rasgada.

— Elas não podem ficar aqui. Não depois do que eu descobri.

— Descobriu o quê?

— Cala a boca, Sweet!

Saio juntando garrafas, jogando tudo no lixo.

— Merda… se eu tivesse uma vida como a sua, eu valorizava!

— Eu te amo… — ela murmura.

E apaga.

Perfeito.

— E agora? — olho pra Vincenzo. — Vai deixar sua funcionária assim?

Puxo Antoine pra mim.

— Fiquem todos juntos. Combina.

— Dess...

— FICA!

Saio e bato a porta.

— VAI PRO INFERNO, TRAIDOR!



Erguendo a moto ao lado do meu carro, ele resmunga:

— Mais um arranhão.

— Problema seu.

— Você derrubou.

— Você estacionou no lugar errado, idiota.

Ele ignora. Abre a porta do carro, gira a chave na mão como um troféu.

— Vamos conversar. Eu ouvi o que você disse que viu. Me mostra.

— Eu quero ver também, mãe! — Antoine vibra no banco do carona. — Posso?

— NÃO! — gritamos juntos.

Ela se assusta. Os olhos enchem d’água.

Pego minha filha no colo imediatamente.

— Desculpa, amor… seu pai é maluco.

— Agora eu sou o pai?

Ele sorri. Aquele sorriso insuportável.

Balança as chaves.

— Vem pegar.

Antoine gargalha. Claro que gargalha. Traidora.

Coloco ela de volta no banco.

— Me dá essa merda ou você vai se arrepender.

Ele faz uma careta.

— Que meda…

E sai correndo.

Debaixo da chuva.

Eu vou atrás.



— PARA, VINCENZO! EU NÃO SOU CRIANÇA!

— MAS SE COMPORTA COMO UMA!

E então ele para.

Se vira.

Sorri.

E pronto. Me desmonta.

Meu peito falha por um segundo.

Por que eu amo tanto esse homem?

Por que não consigo ir embora?

— Sua estupidez, amor.

Ele responde como se estivesse dentro da minha cabeça.

— Eu não tenho medo de nada. Nada. Eu faço qualquer coisa pra ficar com vocês.

Engulo seco.

— E o seu pacto idiota com Lúcifer?

— Ele que se foda.

— PAI???

— Foi mal!

Ele desvia o olhar, rindo de leve.

Eu aproveito.

Avanço.

Pego as chaves.

Ele tenta impedir. A gente luta. Rindo.

Ridículo.

Perfeito.

— Só vai embora se prometer que vai me contar tudo — ele diz, ainda segurando meu pulso.

— Você não leu meus pensamentos?

— Pouca coisa.

Ele me puxa de leve.

Mais perto.

— Me conta, Dess… a gente resolve isso junto. Esse massacre… a gente acaba com isso.

Meu coração dispara.

— Não tenha medo. Eu não vou desistir de nós dois…

Ele hesita.

— …de nós três.

Silêncio.

E eu quase cedo.

Quase.

Até...

BUZINA.

Antoine aponta.

Do outro lado da rua: Aiden.

Observando.

Merda.

Penso rápido.

— ME DEIXA EM PAZ, VINCENZO!

(“Me escuta. Ele não pode desconfiar.”)

— SEGUE COM A SUA VIDA! FICA COM A SWEET! AS CRIANÇAS PRECISAM DE VOCÊ!

Empurro ele com força.

— SOME DA MINHA VIDA!

(“Me ajuda.”)

— Você não chega aos pés do meu homem!

Aquilo dói.

Em mim.

Nele.

Ele entende.

Claro que entende.

Levanta a moto.

Monta.

Me olha.

Um segundo só.

— A gente se esbarra.

E acelera.

Passa por uma poça de lama de propósito.

Respinga em Aiden.

— PERDEU!

E some na noite.




Estou tentando encontrar em Aiden algo que reacenda o que senti antes… mas não consigo.

Desde o dia em que acordei na igreja, depois do desmaio… tudo nele parece deslocado. Errado.

Seu sorriso tímido ainda está ali.

Mas não me toca.

Talvez… não seja ele.

Talvez nunca tenha sido.

— Está sem fome?

— Sim.

Minha voz sai distante. Nem eu reconheço.

— O que te preocupa? — ele insiste. — Fala comigo.

— Sweet.

Mentira.

— Ela voltou a se drogar.

— E as crianças?

Paro.

Largo os talheres com força.

— O que tem as crianças?

Ele recua, surpreso.

— Nada… eu só...

— Por que essa preocupação?

— Por que você está assim comigo? — ele rebate, irritado. — Eu só quero te ajudar.

— Não queira.

Levanto.

— Fica longe de mim.

— Baby…

Saio andando. Preciso de ar. Preciso pensar.

Ele me segue.

Sempre me segue.

Segura meu braço.

— Não me deixa. Eu preciso de você.

Rio. Sem humor.

— Pra quê, Aiden?

Viro pra ele.

— Pra continuar na Terra? Pra cometer crimes?

Ele congela.

— Crimes? Você tá bem?

— Não.

Minha voz falha.

— Eu não sei quem eu sou.


Apago.



Quando acordo, estou na cama.

O quarto está escuro.

Aiden me observa da poltrona, imóvel.

A cabeça levemente inclinada.

Estranho.

Errado.

— Por que está me olhando assim… marido?

Ele pisca.

— Adessa?

— Quem mais seria?

Sento na cama, atordoada.

— O que eu estou fazendo aqui? Antoine ainda nem jantou...

— Já comeu. Cassandra pediu pizza.

Ele levanta devagar.

— Fica calma… você não está bem.

— Para de me olhar como se eu fosse louca!

Passo por ele.

— Eu vou tomar banho.

— Quer companhia?

Pausa.

Olho por cima do ombro.

— Quem sabe.




A água quente cai, mas não limpa a confusão.

O toque dele…

ainda acende algo.

Mas não é paz.

É outra coisa.

Urgente. Desorganizada. Estranha.

Eu cedo.

Mas não me encontro.

Os olhos dele…

escuros demais.

— Para, Aiden.

Ele não para na hora.

— Por quê? Não me quer mais?

— Quero…

Respiro fundo.

— Mas está doendo.

Isso o faz parar.

Finalmente.

— Quero ver minha filha.

Silêncio.

Ele se afasta.

— Sua vontade é uma ordem.

Não parece.

Ele se enrola na toalha, frustrado.

— Você mudou.

Eu também percebi.

— Desde a igreja… você mudou.

Ele me encara.

— Você me chamou de “Mr. Byrne”.

Franzo a testa.

— Quem?

— Não lembra?

— Quem é esse?

Ele desvia.

— Deixa pra lá.

Um beijo rápido. Superficial.

Ele vai até o closet.

Pega uma camisa.

— Gosta dessa?

— Sim… aonde você vai?

Ele sorri.

— Dançar.

— Com quem?

Ele se vira.

— Com você.

Pausa.

— Com quem mais eu dançaria?

E mesmo desconfiando…

eu sorrio.

Porque uma parte de mim ainda quer acreditar.



Dançamos por horas.

O corpo de Aiden se move com uma naturalidade quase hipnótica. O jeito como ele me conduz… me prende.

Por alguns minutos, eu esqueço.

Esqueço tudo.



Ele me solta no meio da pista, incentivando outros a me convidarem. Eu aceito. Giro. Rio. Me perco.

Mas sempre volto.

Sempre pra ele.

No fim da noite, estamos sentados no capô do carro.

A lua refletida no mar.

O vento frio.

E o vinho barato queimando na garganta.

— Você não gosta de beber — digo, observando. — Por que me trouxe aqui?

Ele toma a garrafa da minha mão.

Bebe.

— Porque eu quero a gente de volta.


— Você se afastou de mim.

Dou um riso torto.

— Você não é bom nisso, Aiden. Sentir… sou eu que sinto aqui.

Silêncio.

Então...

— A gente devia ter um filho, baby.

O mundo para.

Eu desço do carro devagar.

— O quê?

O chão frio sob meus pés descalços.

— Por que isso agora?

Ele vem até mim. Segura meu rosto.

— Porque eu quero ser pai. De um filho seu.

Aperta.

Forte demais.

— Não me abandona.

Algo dentro de mim se contrai.

— Eu não vou.

Pausa.

— Mas você não pode ter filhos.

Meu olhar desce.

— Não com o corpo de um morto.

Silêncio.

— Pode?

Ele hesita.

— Eu posso dar um jeito.

Um arrepio sobe pela minha espinha.

— Não, Aiden… isso é doentio.

Ele muda.

Rápido demais.

— O que você estava conversando com Vincenzo ontem?

— Nada.

Mentira ruim.

— Ele me atormenta. Pegou minhas chaves.

Os olhos dele me atravessam.

— Você ainda ama ele?

Droga.

— Por que você estragou isso?

Viro as costas. Caminho até o mar.

Arremesso a garrafa.

Entro na água.

Fria. Violenta.

Melhor que isso aqui.

Quando volto, estou tremendo.

Mas não de frio.

— Por que eu te daria um filho… — minha voz sai baixa, carregada — …se você matou o meu?

Ele trava.

E então...

— Ainda sinto o gosto do sangue…

Engulo seco.

— Mr. Byrne.

Ele fecha os olhos.

Irritado.

— De novo?

O mundo gira.

Meu estômago revira.

Eu vomito.

E tudo apaga.



— Filha… resolveu aquele problema?

— Doc! — sorrio, aliviada. — Tava com saudade!

Silêncio.

— Adessa?

Franzo a testa.

— Eu?

— Aiden está aí?

Olho pra ele.

— Tá sim. Quer falar com ele?

— NÃO...

Tarde demais.

Entrego o telefone.

— Doc? — Aiden diz, educado demais. — Posso ajudar?

A voz vem no viva-voz.

Tensa.

— Pode. Cuide bem da minha menina.

— Eu cuido.

Sorriso frio.

— Mais do que imagina.

A ligação cai.

— Estranho… — ele comenta.

— Doc não é assim…

Algo não encaixa.

Mas eu já estou cansada demais pra pensar.


— Você precisa se cuidar — ele diz.

— Eu não tô doente.

Sorrio.

Maliciosa.

— Tirando esses hematomas…

Ele se ajoelha.

Os olhos escurecem.

— Você me deixa louco.

— Eu sei.

Passo a mão no rosto dele.

— E eu gosto disso.

Mentira?

Talvez não.

Talvez seja isso que me assusta.

— Você está mais calma — ele diz.

— É…

Respiro fundo.

— Deve ser.

— É o chá.

Paro.

— Que chá?

— Um amigo indicou.

— Psiquiatra. Fitoterapia.

Meu estômago aperta.

— Eu não sou louca.

— Eu sei.

Ele sorri.

— Eu só não quero te ver como antes.

— Como antes?

— Lapsos de memória.

Ele me entrega a xícara.

Fumaça.

Cheiro estranho.

Natural demais.

Forçado demais.

— Bebe.

Eu hesito.

Por um segundo.

Um segundo só.

Então bebo.

Amargo.

Pesado.

— Eu vou cuidar de você, esposa…

A voz dele fica distante.

— Na riqueza e na pobreza.

— Na saúde…

Minha língua pesa.

— …e na doença…

— Eu te amo.

— Eu…

Tudo escurece.

— …também…


— Amor, você viu meu celular?

— Fomos roubados. — Aiden responde com naturalidade. — Não se lembra? Na areia da praia. Levaram o meu e o seu.

— Ah, não… — me deixo cair no banco, frustrada. — Eu tinha tantas fotos da Antoine… como vou recuperar tudo?

Sem tirar os olhos da estrada, ele abre o porta-luvas e me entrega uma pequena caixa, decorada com um laço vermelho.

— O que é isso?

— Abre.

— Uau! — Cassandra se adianta no banco de trás. — Um iPhone 16 Pro Max! Irado!

Forço um sorriso, ainda abalada, e beijo Aiden de leve.

— Gostou? — ele pergunta.

— Gostei… — minha voz sai fraca. — Mas eu perdi todas as fotos da Antoine…

— Relaxa, mãe. — Antoine se inclina entre os bancos, animada. — Tá tudo salvo “nas nuvens”. Eu recupero tudo.

Aiden fixa os olhos nela pelo retrovisor.

Tempo demais.

Silêncio demais.

Antoine começa a rir, sem perceber, e se joga no colo de Cassandra.

Algo naquele olhar me incomoda.

— Algum problema? — corto, direta. — Por que você tá olhando assim pra ela?

Ele força um sorriso.

— Nada. Nossa filha é muito inteligente.

— Tio, eu não sou sua filha. — Antoine responde, espontânea. — Meu pai se chama Vincenzo.

— Putz… — murmura Cassandra, sem graça.

— Esquisito — completa.

— O que foi, baby? — Aiden pergunta, olhando pra mim.

Franzo a testa.

— Eu sinto… que tinha algo importante naquele celular.

Viro o rosto pra ele.

— Eu te falei de alguma coisa?

— Não. — resposta rápida demais. — Não tinha nada. Eu sempre vejo seu celular, lembra? Não havia nada lá. Fica tranquila.

Antoine gargalha outra vez.

Aiden a observa pelo retrovisor.

De novo.

Tenso.

— Quer me contar alguma coisa, Antoine?

Ela inclina a cabeça… e canta, leve, quase brincando:

— No nay never…

O silêncio que vem depois pesa.


Deixo Antoine na escola.

Observo até ela desaparecer pelo portão.

Só então atravesso a rua em direção ao carro.

Sem meus óculos, tudo parece desfocado… até que uma silhueta se forma.

Parada ao lado do veículo.

— Doc?

Ele está diferente.

Tenso.

Escondido.

— O que você faz aí?

— Fala baixo. — ele corta, urgente. — Entra no carro.

— Doc?

— Filha… — ele sussurra, puxando o gorro sobre a cabeça, escondendo parte do rosto. — Entra. Por favor.

Algo aperta no meu peito.

Entro.

Ele arranca com o carro devagar, olhando pelos retrovisores como se alguém estivesse nos seguindo.

— Eu tô com medo… — minha voz sai mais baixa do que eu gostaria. — Para o carro. Eu preciso voltar pra casa. O Aiden vai…

Ele não me deixa terminar.

— Te dopar de novo.

O mundo trava.

— …o quê?




Sentados à mesa de uma lanchonete distante do colégio de Antoine, eu o escuto.

Atentamente.

Mas, pela primeira vez… duvidando da sanidade dele.

— Nada disso faz sentido, Doc.

— Confia em mim. — ele implora, os olhos marejados. — Filha, eu não durmo desde que você me mostrou aquelas fotos! Você precisa se lembrar, Adessa!

Meu estômago afunda.

— Que fotos, Doc? Eu perdi tudo no dia do assalto!

Puxo o celular novo da mochila e o coloco sobre a mesa.

— Perdi tudo. A Antoine conseguiu salvar algumas coisas… mas a maioria já era.

Ele ri.

Sem humor.

— Conveniente, não acha?

Ergo o olhar.

— O quê?

— Os ladrões levam os celulares… — ele se inclina, tenso — …e deixam o carro de luxo do Aiden?

Franzo a testa.

— Ah, sei lá! Quer entender cabeça de ladrão? Eu mal tô entendendo a minha!

Dou uma risada fraca.

Ela morre no meio do caminho.

Doc se inclina sobre a xícara vazia.

Os olhos arregalados.

— Você tá me assustando.

— Você se lembra do dia em que me encontrou no California?

— Lembro.

Mas não totalmente.

Desvio o olhar.

A decoração rústica. A chuva fina na janela. A jukebox no canto.

Um conforto estranho.

— Lembro… de alguma coisa. — murmuro. — Um momento feliz… com pessoas que eu amava…

Uma fisgada.

— Eu acho que tô ficando maluca, Doc.

Levo a mão à cabeça.

— Eu lembro de gente que eu nunca vi. Isso é normal?

— NÃO! — ele se inclina, segurando meu rosto. — Estão mexendo com a sua cabeça!

Afasto a mão dele.

— E por que fariam isso!?

— Pra te impedir!

— De quê!?

Ele hesita.

Eu me levanto meio da cadeira.

— Fala, Doc! Nada disso faz sentido!

Ele fecha os olhos.

Respira fundo.

Tá quebrado.

Eu suavizo.

— Posso te ajudar? Sua filha surtou de novo? É isso?

Ele bufa.

Cansado.

Derrotado.

Tira o celular antigo do bolso.

— Eu não queria te mostrar isso…

Minha respiração acelera.

— Então não mostra.

Ele ignora.

— No dia em que você me procurou… eu tive a intuição de enviar tudo pra mim mesmo.

Meu peito aperta.

— Quem eu perdi, Doc?

Silêncio.

— Doc… olha pra mim… eu não tô bem…

Ele continua mexendo no celular.

Obcecado.

— Tá aqui… tá aqui em algum lugar…

— EU PRECISO RESPIRAR!

— Achei.

Ele ergue o olhar.

— Mantenha a calma, filha.

Eu levanto.

— Eu vou embora.

— A conta, senhor.

A voz corta o ar.

A garçonete.

Sorriso torto.

Olhos errados.

Ela desliza a comanda sobre a mesa.

— Espero que tenham apreciado o café.

Olha pra mim.

Fixo demais.

— Por que você não tomou o seu?

Algo vira dentro de mim.

— Porque eu não quis.

Encosto na mão dela.

E vejo.


Um lampejo.

Violência.

Dor.

A mãe.

Sofrendo.

Minha voz sai baixa.

Perigosa.

— Sai da minha frente…

Dou um passo.

— Ou eu faço você sentir exatamente o que ela sente.

O sorriso dela morre.

Ela recua.

Doc já está de pé.

Me puxa pra fora.

Do lado de fora, o ar frio me atinge.

Ele me abraça.

— Me perdoa…

Franzo a testa.

— Por quê?

— Porque eu vou fazer.

Não entendo.

Nem tenho tempo.

Meu estômago revira.

Eu me curvo ao lado do carro.

Vomito.

Violento.

Descontrolado.

Ele segura meu cabelo.

Me entrega um lenço.

— Eu não queria, filha… mas você precisava ver.

Limpo a boca.

Tremendo.

— Era ele?

Minha voz falha.

— Era o Aiden?

— Possivelmente.

— Eu não vi o rosto…

Ele me encara.

— Isso muda alguma coisa?

Silêncio.

— A gente precisa parar isso, filha.

Ele segura meus ombros.

— Nossas crianças correm perigo.

Fecho os olhos.

Respiro.

Com dificuldade.

— Tá…

Sento no banco do carona.

O ar não entra direito.

— Tá… você tem razão…

Minha voz sai quebrada.

— O que eu faço agora, Doc?

Olho pra ele.

— Me ajuda.

As mãos dele pousam sobre as minhas.

Frias.

Suadas.

— Faça o que fizer…

Ele força firmeza.

— Eu vou estar com você.



Agarro Antoine assim que ela atravessa os portões do colégio aos pulos. De joelhos na calçada, choro sem me importar com os olhares curiosos ao redor. Ela ri, beija minha bochecha e reclama do gosto salgado.

Levanto com ela no colo. A mochila pesa quase tanto quanto seu corpinho. Seus cachos me atravessam como um choque — lembrança viva das crianças nas fotos enviadas pela preceptora.

O medo de perdê-la me sustenta.

É o suficiente para que eu encare Aiden… e esconda o nojo.

Da porta da cozinha, observo cada movimento seu. Calça de pijama, expressão tranquila, mãos firmes manuseando a faca enquanto corta batatas com precisão. Ele parece… doméstico. Controlado. Quase humano.

Quase.

Não. Não pode ser ele. Não o homem de capuz vermelho.

— Daqui a uns quinze minutos fica pronto.

— O quê? — desperto com seu beijo, ainda perdida.

— Você tá distante, baby. Aconteceu alguma coisa?

— Nada. — puxo o ar, forçando normalidade. — Tá com um cheiro ótimo. O que é?

— For Pete’s sake… você pediu boxty. Já esqueceu?

Ele suspira, frustrado.

— Esse chá não tá funcionando. Vamos ter que voltar ao psiquiatra.

— Não! — rápido demais. Nervoso demais. — Não precisa. Eu sempre fui meio aérea… só tô preocupada.

— Com quem?

— Sweet. — minto. — Ela não melhorou.

Ele me envolve num abraço.

— Traz as meninas pra cá. Espaço não falta.

— Não falta mesmo…

Sua mão segura meu queixo, firme.

— Por que você não quer me beijar? Tem nojo de mim?

Não. Nojo não.

Repulsa.

— Desculpa… às vezes dá medo.

— Do que eu sou? Já se arrependeu de me aceitar?

— Não. — mais uma mentira.

O forno chama minha atenção como salvação.

— O boxty…

Ele se afasta, abre o forno.

— Quase queimou.

Sem hesitar, tira o refratário com a mão nua.

Engulo seco.

— Sua mão… não queimou?

— Eu não sinto dor, baby. Não no corpo.

Isso deveria me assustar mais do que assusta.

Mesmo assim, cuido dele. Creme, gaze, cuidado. Tentando, em silêncio, puxar qualquer memória. Qualquer prova.

Nada.

Nenhuma imagem. Nenhum eco.

— Mesmo assim… sua pele reage. — murmuro. — Não vou deixar piorar.

— Baby…

Os olhos dele brilham.

E eu beijo.

Por um segundo… só um… eu esqueço.

— Nunca fui tão feliz — ele confessa, emocionado.

— Bobagem.

Recuo antes de me perder.

— Posso provar?

Ele ri, corta o boxty em forma de cruz.

— Prova.

Antoine surge como um furacão.

— Eu também quero!

Aiden se ajoelha, teatral.

— Seu desejo é uma ordem, madame.

— Tá perfeito! — ela comemora, boca cheia. — Mas meu pai cozinha melhor.

O sorriso dele morre.

— Claro… — ele se ergue devagar. — Ele sempre é melhor. Quem sou eu pra competir com um anjo?

Silêncio.

— Meu pai é um anjo!? — Antoine arregala os olhos.

— Cara, tu tá viajando — Cassandra puxa ela.

— Ela voltou a ver coisas? — pergunto, ainda rindo.

Cassandra hesita. Evita olhar Aiden.

— Fala.

— Ela anda dizendo umas coisas…

— Premonições? — Aiden entra, atento demais.

Meu estômago afunda.

— O que ela disse?

— Que a escuridão vai chegar… e levar um dos tios… e uma amiguinha.

Frio.

— Levar quem, filha?

— Sei lá. — Antoine dá de ombros. — Tô com fome.

Simples assim.

Como se não tivesse acabado de jogar uma bomba na sala.

— Filha… — ajoelho, controlando o desespero. — Essa escuridão… alguém vai morrer?

— Aqui não… — ela responde, já sentando à mesa. — Alguém pode me servir ou tá difícil?

Aiden se aproxima, voz baixa no meu ouvido:

— Coisa de criança.

Claro. Sempre é.

— Vamos comer, baby.

— Vamos…

O celular toca.

Alto. Estridente.

Errado.

— Atende. — mando, já tremendo.

— Tem certeza?

— Atende!

Ele pega.

— Sei… entendi… claro…

— Quem é!? — minha voz quebra.

Ele ignora.

— Vou avisar. Pode deixar.

Desliga.

— Por que não me passou!?

— Você pediu pra atender.

— Baby, calma...

— NUNCA se pede calma antes de dar notícia ruim.

Silêncio.

Ele me encara.

E confirma:

— Você tem razão.


Doc luta para sobreviver depois de ingerir uma quantidade absurda de veneno. Adele disse que ele chegou à casa dela já passando mal… no mesmo dia em que nos encontramos na lanchonete.

No mesmo dia em que ele me mostrou as fotos.

A imagem da garçonete não sai da minha cabeça. Aqueles olhos… predatórios. Insistindo para que eu tomasse do mesmo café.

O mesmo café que, provavelmente, quase matou meu melhor amigo.

Após a hemodiálise, Doc emagreceu. Parece menor. Frágil.

Irreconhecível.

Por que você não acorda, amigo?

Fala comigo.

— Não me agradeça. — A voz de Aiden corta meus pensamentos. — Farei tudo o que estiver ao meu alcance para recuperá-lo. Afinal, é o melhor amigo da minha esposa… logo, é meu amigo também.

— Sim… — murmuro, sem tirar os olhos do rosto pálido de Doc. — A culpa foi minha.

— Não diga isso, baby. — Ele me envolve num abraço firme. — Vocês nem se viam há tanto tempo…

— Viam, sim. — Adele rebate, carregada de rancor. — Ele me disse que encontraria você naquele dia. Você esteve com ele, não esteve?

Meu corpo enrijece.

— Não. — Minto. — Ele comentou da lanchonete, mas eu não pude ir. Antoine passou mal na escola. Quando liguei, ele não atendeu.

— Você mente! — Adele avança, descontrolada. — Ele esteve com você! Disse que não queria me preocupar, mas contou que ia te ver! Quando voltou, começou a suar frio, vomitar… gritar de dor!

— Eu não encontrei com ele! — recuo, sentindo o chão sumir sob meus pés. — Eu juro!

— Já chega. — A voz de Aiden é baixa, mas cortante.

Adele para.

Simples assim.

Como se alguém tivesse apertado um botão.

Ela se encolhe no sofá, tremendo.

Aiden a observa, contrariado, então suaviza o tom.

— Nós vamos encontrar o culpado. Eu prometo.

Promessas.

Sempre promessas.

Inclino-me sobre Doc.

— Eu vou te vingar, amigo.

Minha voz falha.

Saio do quarto antes que desmorone.

Cassandra e Antoine me esperam no saguão do hospital. Sem opção, levo as duas até a casa de Sweet.

Antes de tocar a campainha, olho firme para Cassandra.

— Cuida da Antoine. E fica longe do pó branco. Entendeu?

— Relaxa, tia. Tô fora disso.

Empurro a porta.

Aberta.

Estranho.

Um gesto rápido e Cassandra segura Antoine.

— Fiquem aqui.

— Mas, mãe...

— Agora.

Minha voz não admite discussão.

O corredor fede a álcool, cigarro e descuido. Garrafas espalhadas. Bitucas pelo chão.

Abro a porta do quarto das meninas.

Jujuba e Mimi dormem, abraçadas.

Alívio breve.

Fecho a porta.

Sigo até o quarto de Sweet.

Preparo-me para vê-la afundada em cocaína.

Mas nada…

nada me prepararia praquilo.

— Vocês…?

— Não é o que você tá pensando, Dess!

Solto um riso sem humor.

— Eu não tô pensando.

Minha voz sai baixa.

Cortante.

— Eu tô vendo.

Viro as costas e saio.

Corro.

Vincenzo vem atrás de mim enquanto, lá dentro, Sweet geme:

— Você ainda não terminou…



Aquilo me atravessa.

Atordoada, jogo as chaves para Cassandra.

— Vai pro carro. Tranca as portas. Som alto. Não deixa ela ouvir nada. Entendeu!?

— Entendi!

Desço as escadas quase sem sentir o chão.

— EU NÃO FIZ NADA DO QUE VOCÊ TÁ PENSANDO!

O soco vem antes da resposta.

Seco.

Direto.

— GOSTA DE BATER EM MULHER!? — cuspo, tremendo. — QUE TAL APANHAR DE UMA!?

Ele cambaleia.

Aproximo meu rosto do dele.

— Fica longe da minha filha.

Minha voz falha, mas não quebra.

— Seu merda.

— Espera...

— NÃO ME TOCA!

Lá fora, a chuva cai pesada.

Olho para o carro. Antoine canta com fones. Cassandra finge normalidade, mas observa tudo.

— EU VOU LUTAR SOZINHA AGORA! — grito. — FICA COM ELA! COM O QUE VOCÊS TAVAM FAZENDO!

— EU NÃO TRANSEI COM ELA!

— VOCÊ TAVA ESTRANGULANDO ELA!

— E ELA GOSTA!

Silêncio.

Um segundo só.

— Então tá tudo certo, né?

Dou outro chute.

— Que tipo de prazer é esse?

Ele desaba no meio-fio.

— Eu não sei…

E, pela primeira vez, parece quebrado.

— Desde que eu caí… eu não consigo controlar isso. É como se algo dentro de mim… quisesse destruir.

Ele respira fundo.

— E ela… ela incentiva.

Fecho os olhos por um segundo.

— Eu nunca transei com ela. Eu juro. Eu nunca faria isso com você.

Quase acredito.

Quase.

— Mas quando penso em você com ele… — a voz dele falha — Eu perco o controle.

Reviro os olhos, exausta.

— Agora a culpa é minha?

— SIM! — ele explode. — SE VOCÊ NÃO TIVESSE ESCOLHIDO ELE...

— MENTIRA! — corto, sem dó. — VOCÊ É DOENTE! AMOR NÃO CURA ISSO!

Ele desmorona de novo.

— Mas ajuda…


Engulo seco.

— Doc tá morrendo.

Ele congela.

— O quê?

— Foi envenenado. Na minha frente.

O silêncio pesa.

— Eu vou atrás de quem fez isso.

— Não se mete com magia.

Dou uma risada amarga.

— Vou esperar você me salvar, né?

Abro a porta do carro.

— Adeus, Vincenzo.

E vou embora.

De volta ao apartamento, Cassandra leva Antoine para o quarto.

Aiden me encontra no meio da sala.

Me abraça.

Forte demais.

— Ele morreu?

— Não… — pausa — Mas não sei se aguenta até amanhã.

Meu estômago vira.

— Quero ir agora.

— Você acabou de chegar...

— Eu vou agora.

Ele suspira.

Cede.

— Então toma isso.

O chá.

Eu tomo.

Sem pensar.

Erro.

No banheiro, lavo o rosto.

Levanto os olhos.

Meu reflexo…

se divide.

Apoio as mãos na pia.

O mundo gira.

— O que você colocou nesse chá, Aiden?

Silêncio.

Então, a voz dele.

Baixa.

Escura.

— Nada.

Um passo atrás de mim.

— Nada que te faça mal, baby.



— Se ele morrer, a culpa vai ser sua! — grito no corredor que leva ao CTI.

Descabelada, ainda de pijama, saí da cama sem pensar. Só escovei os dentes porque Antoine praticamente me obrigou. A raiva lateja no peito. Aiden me sedou. Me tirou de perto. Me deixou fora.

— Senhora, mantenha o tom de voz baixo. São sete da manhã. — a enfermeira diz, sem nem me olhar.

— Tom de voz baixo é o cacete! Meu melhor amigo tá morrendo!

— O horário de visita começa às três da tarde.

— Foda-se! Me deixa entrar!

— Não.

— Sim. — A voz de Aiden surge atrás de mim.

Eu me viro na hora.

Ele a encara com aquela calma irritante, calculada.

— Minha esposa gostaria de ver o amigo pela última vez. A senhora poderia abrir uma exceção?

O sorriso dele não chega nos olhos. Nunca chega.

A enfermeira hesita. Os dois trocam um olhar rápido demais pra ser coincidência.

Aquilo me acerta como um soco.

— É sério isso? Tu conhece essa mulher?

— Nunca vi antes! — ele levanta as mãos, na defensiva. — Só estou sendo educado.

— Aiden, não brinca comigo. Eu sinto essas coisas. Vocês se conhecem.

— Não, baby.

Eu o empurro contra a parede.

— Eu tô com ódio de você e preocupada demais pra discutir agora. Mas quando isso acabar, você vai me explicar direitinho de onde conhece ela. Começa a pensar numa boa resposta.

— Pode entrar, senhora.

A enfermeira reaparece como se tivesse brotado do chão.

— Ele está nas últimas...

Tem prazer na voz dela. Um gosto amargo, quase satisfeito.

Perco o controle.

Empurro aquela mulher sem pensar e agarro seu pescoço.

— Tu vai se arrepender de ter dito isso pra mim, sua desgraçada.

Ela cai, tossindo, me xingando. Eu já não escuto mais nada.

Eu entro.

Corro.

E quando vejo Doc… meu estômago despenca.

Ele piorou. Muito.

Adele está encolhida no sofá, chorando em silêncio.

Me aproximo, beijo a testa dele e fecho os olhos.

— Não morre… não me deixa aqui sozinha.

— Deram poucas horas pra ele — Adele sussurra.

— Não. Não fala isso. Tem que ter fé.

Ela balança a cabeça, perdida.

— Não faz sentido… ontem, depois que você saiu, ele melhorou. Abriu os olhos… até comeu…

Meu corpo trava.

— Ele comeu? Você provou a comida?

— Não. Por quê?

O presságio sobe pela minha garganta.

— Por nada.

Mentira.

Sento ao lado dela, puxo Adele pra perto. Estou prestes a contar tudo… quando o som corta o ar.

Um apito contínuo.

Estridente.

Errado.

Adele se levanta num pulo, agarrando a mão dele.

Eu não penso.

Uno as mãos e começo a socar o peito de Doc com toda a força que tenho.

— ACORDA! VOCÊ NÃO PODE MORRER!

Bato de novo.

E de novo.

Até Aiden me puxar para trás, segurando meus braços.

— É inútil, baby.

— NÃO É! ME SOLTA!

Eu me debato, chutando, tentando voltar.

Então eu vejo.

A linha verde no monitor.

Reta.

Imóvel.

Silenciosa.

Acabou.

O mundo some por um segundo.

Eu me solto dele, me jogo sobre o corpo de Doc, segurando-o como se isso ainda pudesse fazer diferença.

— Se alguém estiver ouvindo… — minha voz quebra — Traz ele de volta. Ele vale mais do que eu…

Adele segura minha mão.

E então...

— Daqui ninguém me tira!

A voz corta o caos.

Eu reconheço na hora.

— Filha…?

— Saiam da frente! — Vincenzo rosna, entrando como uma tempestade.

Aiden tenta barrá-lo.

Erro.

Vincenzo o encara como se fosse matá-lo ali.

— Fica longe de mim. A ordem veio de cima.

Alguma coisa no tom dele faz Aiden recuar.

Aquilo me assusta mais do que qualquer grito.

— Por que você trouxe a minha filha? — eu avanço. — Eu não quero que ela veja isso!

— Sai da minha frente, porra! O tempo tá passando!

Ele me empurra.

Eu tropeço.

— Calma, pai. — Antoine diz, tranquila demais. — Vai dar tudo certo.

Aquilo não é normal.

Nada daquilo é normal.

Ela caminha até o leito.

Afasta Adele com delicadeza.

Sobe na pequena escada ao lado da cama.

E então…

Coloca as mãos sobre o peito de Doc.

Fecha os olhos.

Esfrega uma mãozinha na outra, como se estivesse se preparando.

Silêncio.

Pesado.

Irreal.

— Tio… — a voz dela é suave — O senhor não quer acordar? Ainda não é a hora. Tio Miguel mandou o senhor acordar.

Meu coração para junto com o mundo.

Um segundo.

Dois.

Nada.

E então...

O monitor dispara.

A linha volta a subir.

Doc puxa o ar como se estivesse voltando de muito longe.

Seus olhos se abrem, lentos, cansados… vivos.


— Meu anjo… que saudade…

A sala inteira prende a respiração.

E, atrás de mim, quase num sussurro fascinado...

— Uau… — Aiden diz. — Ela é perfeita.

E aquilo… aquilo me dá mais medo do que a morte.



Enchendo-me de coragem, aproveito a ausência dele.

Invado o closet.

Reviro gavetas, cabides, caixas. Procuro qualquer coisa que o ligue ao ritual. O maldito manto vermelho com capuz.

Nada.

Quase entrando em “Nárnia”, desisto.

Me jogo sobre as roupas espalhadas pelo chão e encaro o teto.

Talvez seja isso. Talvez eu não tenha forças pra ir até o fim.

— Vai desistir sem lutar?

A voz me atravessa.

— Essa não é a tia Dess que eu conheci.



Sufoco um soluço e me ergo, assustada.

— Giulia!? — passo a mão no rosto. — Por San Juan Diego… por que você não descansa? Eu já matei quem fez isso com você. Por que não atravessa o túnel?

Ela revira os olhos, impaciente.

— Porque não me deixam. — cruza os braços. — Me deram uma missão. E eu não posso descansar enquanto outras crianças morrerem do mesmo jeito que o Luka.

Meu peito aperta.

— O que o Luka tem a ver com você?

— Temos o mesmo pai.

Demoro um segundo.

— Então vocês são…

— Irmãos, tia. — ela corta, seca. — E ele ainda sofre. Ainda chora por elas. — seus olhos brilham de raiva. — Sacou? Reage.

Ela se levanta.

— Levanta daí!

— Não some! — me arrasto até ela, de joelhos. — Eu já procurei em todo lugar. Me ajuda!

Antes de desaparecer, ela inclina a cabeça.

— Já tentou embaixo do colchão, tia?

Silêncio.

Olho para a cama como se ela fosse me morder.

Devagar, me aproximo.

Puxo os lençóis.

E então...

Uma força absurda me toma.

Ergo o colchão king size de uma vez só.

Ele despenca pro outro lado.

Eu recuo, batendo contra a parede.

E vejo.

Estendido sobre o estrado.

Veludo vermelho.

Capuz.

Minha voz falha.

— É ele…

— O que você tá fazendo, baby?

Eu quase pulo.

— Faxinando! Nunca ouviu essa palavra?

— Temos empregadas.

— Foda-se! Eu quero me mexer! — minto. — Tô cansada dessa vida de burguesinha que você me dá!

Mentira de novo.

Talvez eu goste demais disso tudo.

Talvez por isso seja tão difícil aceitar quem ele é.

— Baby…

Não escuto.

Estou de joelhos, esfregando o chão com um pano encharcado de água sanitária, tentando apagar qualquer vestígio.

Qualquer lembrança.

Qualquer culpa.

Até que ele me puxa.

— Para.

Sou forçada a encarar aquele sorriso tímido.

O maldito sorriso que ainda mexe comigo.

— Você tá me assustando. — a voz dele baixa. — O que houve? Alguém te machucou?

— Não.

Desvio o olhar.

— Só tô cansada.

Cansada de mentir.

Cansada de ver.

Cansada de saber.

— Preciso lavar as mãos.

Na pia, esfrego a pele com força.

Mais.

Mais.

Uso a escovinha.

Arranho até sangrar.

O sangue de Luka volta.

A pedra.

O cheiro.

— Que nojo… — minha voz treme. — Eu preciso fazer alguma coisa.

— Chega!

Ele me segura.

Me arrasta.

O chuveiro abre.

Água fria.

— Eu tô vestida!

— Eu sei.

A resposta vem seca.

Controlada.

— Melhor assim.

— Qual é o seu problema?

— Te acalmar.

A voz dele vacila.

Droga.

Isso me quebra.

— Eu nunca te vi assim… — ele sussurra, colando a testa na minha. — Não me deixa. Sem você… eu não sou nada.

Mentira?

Talvez.

— Não me deixa, esposa.

Fecho os olhos.

Uma parte de mim ainda quer acreditar.

— Não vou.

Mentira.

De novo.


Cruzo os braços, apertando a mochila contra o peito.

Olho para os lados.

Sensação de estar sendo seguida.

Apresso o passo.

Desço pro metrô.

Espero.

E sinto.

Algo errado.

Viro o rosto.

Um garoto.

Sorriso torto demais.

Olhos escuros demais.

Ele se aproxima.

Perto demais.

Empurra...



Braços me puxam.

Uma mulher de cabelos longos, vermelhos.

Ela me envolve e me arrasta pro vagão que acabou de parar.

As portas se fecham.

O garoto fica.

Parado.

Olhando.

Com ódio.

Respiro, tremendo.

— Obrigada...

Mas ela não está mais lá.

O vagão está vazio.

Sozinha.

De novo.

Ando sem rumo.

Rua deserta.

Mas sei onde estou indo.

Mesmo sem saber como.

Espero que sirva… e se ficar curto?

Paro.

— Quem tá falando comigo?

Silêncio.

— Morgana?

Nada.

— Eu tô ficando louca.

— Porra!

Esbarro em alguém.

— Não olha por onde anda!?

— Fala sério… — ele resmunga.

Reconheço na hora.

— Você? Que merda você tá fazendo aqui?

— Trabalhando, idiota.

— Claro. Eu, rica e plena, venho passear no esgoto por hobby.

— Porque você pertence ao esgoto.

Vincenzo me dá as costas.

Aperto a mochila.

— Para de pensar alto. O que tem aí?

— Nada que te interesse. Sai da frente.

Ele se curva, debochado.

— À vontade, milady.

Uma dor atravessa meu peito.

Forte.

— O que foi? — ele muda na hora.

— Eu… já senti isso antes…

Ele sorri, triste.

— Nossas memórias sempre doem. Até você fazer ele ir embora.

— Aiden?

— Enquanto ele existir entre a gente… acabou.

— Como?

— Melhor você não saber.

— Melhor eu não ouvir.

Ele me encara.

— Você vai fazer besteira.

— Cuida da sua vida.

— Vermelho.

Congelo.

— O quê?

— Não se mete nisso sozinha.

— Não sei do que você tá falando.

Mentira.

Eu sei.

E vou.

A chuva começa.

Fina.

Ele se aproxima.

Mãos nas minhas têmporas.

— Você não pode ir sozinha.

— Eu vou salvar minha filha.

— Nossa filha.

Eu travo.

— Ele quer ela. Eu senti. No dia do Doc.

Minha voz quebra.

— Eu tô com medo.

— Ninguém vai tocar nela.

Ele me puxa.

E por alguns segundos…

Eu esqueço.

Tudo.

Até sentir a mochila sendo arrancada.

— Filho da puta!

— O que você tá escondendo?

Ele abre.

Rasga o pacote.

Congela.

— Porra… é sério isso?

— Eu preciso ver com meus próprios olhos. Talvez nem seja o Aiden…

Ele explode.

— E se não for? Tá tudo bem deixar criança morrer?

— NÃO!

— Então para de passar pano pra ele!

Silêncio.

Pesado.

— Eles envenenaram o Doc. — ele continua. — Estão limpando as testemunhas.

Meu estômago vira.

— Meu celular…

— Sumiu por um motivo.

— Roubaram.

Ele ri, sem humor.

— Você ainda acredita nele?

— Ele tem sido bom comigo…

— Ele manteve uma criança presa!

O soco no saco de pancadas ecoa.

— Ga’al dorme com você, Dess! — ele rosna. — Vai esperar ele matar a Antoine?

— Para…

— “Ela é perfeita”. — ele imita. — Perfeita pra quê?

Eu não tenho resposta.

Nenhuma.

— Eu vou matar ele. Com ou sem você.

Silêncio.

— Vamos. — digo, quase num sussurro.

— Sério?

— Eu não aguento mais.

Ele me encara.

— Você não tem o que precisa.

— Tenho.

— Não tem. — ele balança a cabeça. — Você sente pena.

— Não sinto!

— Não consegue puxar o gatilho.

— Eu vou conseguir.

— Não vai.

Ele me observa estranho.

Frio.

— Então quem consegue?

Ele hesita.

— Uma amiga sua.

— Sweet?

— Não.

Um sorriso torto.

— A pior de todas.

— Quem?

— Eileen.

— Outra vadia tua?

— Esquece.

Ele vira.

— Vai com ela, então! — grito. — Eu me viro!

— Espera!

Ele me segura.

— Como você sabe de tudo isso?

Silêncio.

— Eu não te contei nada.

Ele sorri.

Errado.

— Eu sou um anjo, lembra?

Meu estômago afunda.

Eu estapeio o rosto dele.

E saio.

— Então chama seus informantes! — grito da calçada. — Lua cheia. Mansão. E leva essa tal de Eileen também!

Ele fica parado.

Me olhando ir.

E, pela primeira vez…

Eu não sei quem é mais perigoso.

Ele.

Ou eu.




— Como estou?

— Irreconhecível.

— Não incentiva ela, Adele! — repreende Doc, ainda deitado. — Ela não pode ir sozinha. É perigoso!

Afofo o travesseiro dele, impaciente.

— Vincenzo disse a mesma coisa. E você tá vendo ele por aqui?

— Deixa eu me recuperar, filha… — insiste, tentando se erguer. — Isso não tá certo. Eu sei lidar com esse tipo de gente. Você não.

Diante do espelho, observo meu reflexo.

A capa vermelha.

O capuz.

Algo estranho pulsa dentro de mim.

Quase familiar.

— Talvez eu saiba, Doc… — sussurro. — Talvez eu saiba.

Antes de sair, deixo Antoine e Cassandra com Adele.

Doc me chama, em segredo.

— Toma.

Ele me entrega um revólver.

Eu deixo cair na mesma hora.

— Eu não sei usar isso!

Ele suspira, pega a arma com cuidado.

— Tá travada. Eu te ensino. Você precisa se proteger.

— Não precisa. — tiro o punhal da túnica. A lâmina brilha sob a luz. — Prefiro isso.

A voz falha.

— Eu confio mais nisso.

— Pelo amor de Deus, filha! — ele se desespera. — Esse não era o plano! Você ia observar, só isso!

— E é isso que eu vou fazer. — minto. — Observar. Se alguém encostar em mim… se ferra.

Forço um sorriso.

— Vai dar tudo certo, Doc.

Ele não acredita.

Nem eu.

— Você tá linda, mamãe! Parece a Chapeuzinho Vermelho! Pra onde vai?

O golpe vem direto no peito.

— Pra um baile à fantasia. — minto.

Beijo as bochechas dela.

E choro.

— Eu te amo mais que tudo.

— Eu também… — ela me encara. — Mas por que tá chorando?

Engulo o nó.

— Porque eu preciso ir.

— Então não vai…

— Eu preciso, filha. Por você.


Dirijo o carro de Doc por quilômetros.

Sigo Aiden.

Sempre à distância.

A mansão surge.

Luxuosa.

Iluminada demais.

Errada demais.

Estaciono longe.

Cubro a cabeça.

Observo.

Aiden atravessa o portão.

É recebido.

Reverenciado.

De smoking.

Intocável.

Os outros o seguem, capas vermelhas arrastando pelos degraus.

Um ritual.

Um espetáculo.

Olho para a lua.

Amarelada.

Pesada.

— Me ajuda… — sussurro. — Eu não sei o que fazer.

— Eu não acredito nisso.

Quase tenho um infarto.

— Quer me matar!?

— Você é teimosa pra cacete.

— O que você tá fazendo aqui?

— Fala baixo, idiota! — Vincenzo surge, também de capuz. — Você não vai entrar.

— Tenta me impedir.

Ele segura meu braço.

Forte.

— Como você pretende entrar? Tem a senha?

— Que senha?

Ele fecha os olhos.

Respira.

— Burra…

Começa a andar de um lado pro outro.

— Para de pensar alto. Tô tentando resolver.

— Não grita comigo!

Ele se aproxima, mais calmo.

— O que você veio fazer aqui?

— O mesmo que você. Salvar nossa filha.

Ele ri.

Cansado.

— Eles são muitos. E perigosos.

— Eles não sabem que eu tô aqui.

— Sabem.

— Não sabem. Eu fui cuidadosa. Aiden não desconfia de nada.

Ele me encara.

Sério.

— Ele sente você.

Um arrepio sobe pela minha espinha.

— Eu não usei perfume.

— Não é disso que eu tô falando.

Silêncio.

— Por que você não tá com a Sweet?

— Eu não sou babá.

— As crianças não estavam lá…

Minha voz treme.

— Elas não estavam lá.

Ele trava.

— Dess…

— Sweet não tem ninguém. Ela tava estranha. Aérea…

— Não começa.

— Eu tô com medo.

— Fica calma.

— Elas não estavam lá!

Ele força um sorriso.

— Devem estar com alguém.

— Tem certeza?

— Tenho.

Mentira.

Eu sinto.

— Aiden sabe que você seguiu ele.

— Para.

— Você sabe o que ele é.

— Sei…

— E ficou com ele mesmo assim.

— Cala a boca.

Empurro ele e sigo.

Raiva.

Dele.

De mim.

— Talvez… — ele diz, me alcançando — Se você visse quem ele realmente é…

— Talvez.

— E agora?

— Você não tem um plano?

Ele me prende contra a árvore.

Rindo.

— Tenho. Me misturar a eles.

A respiração trava.

— O meu também.

— Vão te reconhecer.

— Que reconheçam.

O medo vira outra coisa.

Pior.

— Eu já queria acabar com eles faz tempo.

— Sério?

— Para de me olhar assim.

— Você é impossível…

— E você é um espancador de mulheres.

— E você tem múltiplas personalidades.

— Não entendi.

— Esquece.

Ele tira meu capuz.

Me encara.

Diferente.

— Se essa for a última vez…

— Não fala isso.

— Eu quero te beijar.

— Não...

Tarde demais.

Ele me beija.

Forte.

Desesperado.

Como se fosse a última vez.

E talvez seja.

Mãos.

Respiração.

Saudade.

Tudo junto.

Até...

Passos.

Paramos na hora.

Nos jogamos no chão.

Coturnos.

Muito perto.

— Acabou… — sussurro.

— Fica aqui.

— Não vai...

Ele levanta.

Idiota.

— Eu sabia que você viria, meu amigo.

Ele abraça um homem.

Alto.

Forte.

Sem rosto.

Meu estômago vira.

Me aproximo.

Devagar.

— Dess, esse é um amigo.

— Ele tem nome?

— Tem.

— Qual?

— Amigo.

Fecho os olhos.

— Tá de sacanagem.

— Ele pode ajudar.

— Ele fala?

— Pouco.

— Ótimo. Já gosto dele.

Chegamos ao portão.

Senha.

O homem fala.

Um dialeto estranho.

Funciona.

Entramos.

Minha mão na de Vincenzo.

Aperto forte.

Subimos.

Morcegos cortam o céu.

— Confia em mim.

— Difícil.

Ele aperta minha mão.

— Eu tô com você.

Não respondo.

Mas não solto.

O portal se abre.


E lá dentro...

Vermelho.

Preto.

Dourado.

Um altar.

Velas tremendo.

Como se respirassem.

E, pela primeira vez desde que cheguei…

Eu tenho certeza.

Não tem volta.




Garçons de máscaras medievais circulam com bandejas de champanhe.

Os convidados riem.

Alto demais.

Histéricos demais.

Algo está errado.

De cabeça baixa, observo o chão em preto e branco.

E vejo.

Ratos.

Serpentes.

Se espalhando entre os pés.

Uma delas avança na minha direção.

Eu travo.

O homem sem rosto ergue o braço.

Só isso.

A criatura recua.

Como se tivesse sido queimada.

Meu estômago revira.

— Eu quero ir embora… — sussurro.

— Tarde demais. — Vincenzo não me olha. — A cerimônia vai começar.

— Algo ruim vai acontecer. — minha voz falha. — Você não viu aquilo? O Mal tá aqui. Eu não quero ficar.

— Não tem saída antes do fim. — ele se aproxima, tenso. — Você achou que ia encontrar o quê? Fadas?

A mão dele toca meu rosto.

— Eu não vou deixar nada acontecer com você.

— Não é de mim que eu tô falando! — seguro o choro. — Alguém inocente vai morrer.

Ele fecha os olhos.

— Eu sei.

Silêncio.

Pesado.

— Segura. — ele sussurra. — Se você perder o controle, acabou.

— Eu não consigo…

Um toque no meu ombro.

O homem sem rosto.

Uma corrente de energia atravessa meu corpo.

Calma.

Forçada.

Artificial.

Eu respiro fundo.

— Obrigada…

Dou um passo mais perto.

— Posso ver seu rosto?

— Não.

— Não perguntei a você. — rebato, sem tirar os olhos dele. — Eu te conheço?

— Não é hora. — Vincenzo aperta meu braço. — Fica quieta.

Reviro os olhos.

E então vejo.

— Puta que pariu…

— Não encara! — ele me puxa, rápido demais.

Mas é tarde.

Eu já vi.

A preceptora.

O mesmo olhar.

Frio.

Cruel.

— Ela tá aqui… — sussurro, tremendo. — Foi ela. Sempre foi. Ela cuidava da minha filha…

A raiva sobe.

Explode.

Eu vou avançar...

“Te aquieta.”

A voz invade minha mente.

Eu congelo.

“Pelo bem da tua filha.”

Viro devagar.

— Como você fez isso?

O homem não responde.

Só me encara.

E, por um segundo…

Eu entendo.

— Você… também caiu?

Vincenzo abre a boca...

Mas para.

Os olhos dele se arregalam.

Eu sigo o olhar.

E vejo.

O altar.

Um homem de túnica preta surge das sombras.

O capuz esconde seu rosto.

As luzes se apagam.

Tochas se acendem.

O salão respira.

Como um organismo vivo.

Os convidados enlouquecem.

— Salve! Salve!

— Nunca mais se afasta de mim. — Vincenzo puxa minha capa. — Ou você vai estragar tudo.

— O quê? — olho pra ele, perdida. — O que vai acontecer?

— O que você viu nas fotos!

Meu sangue gela.

— Não pode…

— Não vai acontecer. — ele segura meu rosto. — A gente vai impedir.

— Algo deu errado.

O homem sem rosto fala pela primeira vez.

Baixo.

Grave.

— Anteciparam o ritual.

Um arrepio percorre minha espinha.

— Chegamos tarde demais.

— Tarde demais pra quê!?

A multidão empurra.

Grita.

— Salve, Asmodeus! Salve!

— Hoje teremos duas! — uma mulher ao meu lado vibra.

— Duas o quê?

Ela sorri.

Doente.

— Oferendas.

Meu mundo quebra.

— Não…

Eu reconheço.

— Você… — minha respiração falha — Vaca maldita do CTI!

O soco sai antes do pensamento.

Ela cai.

Apagada.

— Isso é por ter tentado matar meu amigo.

Eu chuto o corpo.

Abro caminho.

Empurro quem estiver na frente.

— Eu preciso achar o Aiden. — repito. — Ele não vai deixar isso acontecer.

— Caralho! — Vincenzo me puxa. — Você ainda não entendeu!?

— NÃO! — me debato. — ME SOLTA! ELE DISSE QUE NÃO ERA UM DELES!

Vincenzo para.

Me encara.

Nojo.

— Você é igual a ele.

Aquilo dói mais do que qualquer coisa.

Ele vira.

Vai embora.

Com o homem sem rosto.

Me deixa.

Sozinha.

O tempo desacelera.

No altar...

Um corpo.

Pequeno.

Inerte.

Meu coração para.

Eu ando.

Sem sentir o chão.

O homem ergue a criança.

Sangue escorre pelo braço dele.

Pelo curativo.

O mesmo que eu refiz.

Hoje.

De manhã.

Meu mundo implode.

— Não…

Ele joga o corpo sobre a pedra.

Mimi.

Minha visão escurece.

— Você prometeu…

Eu subo no altar.

Pego ela.

Fria.

Leve demais.

Olho pra ele.

E vejo.

Aiden.

— Eu vou te matar.

Minha voz não treme.

— Você é um monstro.

Ele sorri.

Errado.

— Ele não está aqui.

A voz não é dele.

— Mas posso deixar seu recado.

No chão.

Encostada na parede.

Mimi nos meus braços.

Eu choro.

Sem som.

Sem ar.

— Tragam a outra! — a preceptora ordena.

Meu coração para de novo.

Antoine.

Não.

Por favor, não.

E então...

Um choro.

Eu reconheço.

Jujuba.

Viva.

Nos braços de Aiden.

Ensanguentada.

Quebrada.

Eu não consigo respirar.

— Não…

A multidão grita.

Avança...

E então...

Fogo.

Azul.

Asas.

Gigantes.



A multidão queima.

Gritos viram cinzas.

Eu olho.

Sem acreditar.

— Miguel…

Vincenzo sobe ao altar.

Pega Mimi.

Me encara.

Desesperado.

— Só você pode acabar com isso!

Eu balanço a cabeça.

— Eu não consigo…

— Não você!

Ele grita.

— Ela!

— Quem!?

Aiden ri.

O demônio toma tudo.

A lâmina brilha na mão dele.

E a voz de Vincenzo invade minha cabeça...

“Sha na na na…”

Frio.

Escuridão.

Queda.

“Volta, Eileen.”



Eu me levanto.

Lenta.

Sangue na boca.

Outro gosto.

Outra presença.

Olho para Vincenzo.

Raiva.

Pura.

— Você prometeu.

Minha voz não é a mesma.

— Eu prometi que não te deixaria.

— Terminou?

Ele não recua.

— Termina o que começou.

Memórias rasgam minha mente.

Noite.

Sangue.

Meus tios.

Eu sorrio.

Frio.

Vazio.

— Maldito.

Caminho até o altar.

Seguro o punho dele no ar.

Forte.

Sem esforço.

— Hoje não é o seu dia de sorte…

Inclino a cabeça.

Um sorriso torto.

— Mr. Byrne.

E agora sim...

O jogo muda.




























 

 


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