CAPÍTULO 29 - ENFIM, A PAZ?






Havia muito mais luxo no apartamento em que vivi ao lado de Aiden. Ainda assim, neste — onde agora habito — existe algo que nunca conheci antes: paz.


Depois de dias incontáveis de lutas e desencontros… enfim, a calmaria.


E isso me assusta.


Chego a ter medo da felicidade que tem preenchido meus dias. Lembro-me do que minha mãe dizia:


“Rir demais é mau agouro.”


— E eu digo que sua mãe estava errada — rebate Vincenzo. — Infelizmente, ela nunca conheceu o amor. Nunca foi amada como você é.


— Nunca — concordo, em um sussurro.


Deitada ao seu lado, em nossa nova cama, em nosso novo quarto, completo:


— Ela amou o homem errado. E ambos tiveram um fim triste.


— Não vamos falar disso agora, Dess. Não quero te ver triste. Não hoje.


Ele me puxa para si, apertando-me contra o peito.


— Amei seu pijama novo — diz, num tom leve.


— Amei o seu também. Estranhamente… é igual ao meu.


— Igual ao seu e ao de Antoine. Pena não ter encontrado um do tamanho do Matteo.


Um riso frouxo escapa.


— Quando ele nascer, eu compro.


Sua mão desliza até minha barriga.


— Matteo vai ter uma família unida. Feliz. Finalmente… o universo nos juntou.


— Eu sinto o mesmo.


Beijo sua boca e, sem perceber, me deito sobre ele. Meus dedos percorrem seu rosto, como se eu ainda precisasse confirmar que ele é real.


— Perdemos tanto tempo… — murmuro. — Tanta coisa aconteceu…


O medo volta, súbito, sufocante.


— Jura pra mim que nunca mais vai embora?


— Não preciso jurar. Eu não pretendo ir a lugar nenhum.


— Você já disse isso antes.


— Agora é diferente.


Ele me beija, mas eu não cedo.


— Jura que não vai nos abandonar?


— Dess…


— Jura pelo nosso filho?


Ele suspira, rendido.


— Juro. Tá bom assim?


Viro de lado, encarando o teto.


— Quando nosso filho nascer… você vai poder morrer?


O silêncio pesa.


Ele se afasta.


— Esse assunto de novo, não…


— Vincenzo!


As lágrimas vêm sem permissão. Afundo o rosto no travesseiro.


— Para… — ele murmura, beijando minha nuca. — Eu não vou morrer. Prometo. Não antes de ver Antoine crescer… casar…


— Não vai… se continuar lutando.


Jogo o travesseiro no chão e o encaro.


— Para de lutar. Você pode dar aulas. Eu continuo na boate. Temos o apartamento, minhas economias…


— Dess…


— Olha pra mim! — exijo. — A gente precisa falar sobre isso!


Ele segura meu rosto com calma.


— Eu não estou fugindo. Só não quero falar disso agora.


Um sorriso torto surge.


— É nossa última noite como solteiros… e você quer brigar?


— Vincenzo…


— Dess…


A voz dele muda. Desce. Encosta.


— Não prefere tirar esse pijama lindo… e deixar eu te foder?


Eu arquejo. Reviro os olhos.


— Você era assim antes de cair… ou foi depois?


Ele ri baixo, abrindo meus botões.


— Eu não sou tarado. Só gosto de você.


— Mentira. Devasso.


— Devasso… e apaixonado.


A boca dele no meu pescoço me desmonta.


— Melhor você ir embora… — ele sussurra. — Se minha noiva te pegar aqui, eu tô morto.


— Eu vou… — respondo, quase sem voz. — Mas antes…


Aproximo minha boca da dele.


— Me fode.


Nos despimos entre risos e urgência. O beijo esquenta, o corpo responde...


— EU QUERO ENTRAR! É BOM PARAR COM A SAFADEZA!


Congelamos.


Mãos na boca. Olhos arregalados. Dois adolescentes pegos no flagra.


— Já vamos abrir! — aviso, segurando o riso.


Abro a porta.


Antoine está de braços cruzados, julgando minha existência.


— O que vocês estavam fazendo?


— E a senhorita? — rebato. — Que vestido é esse?


Ela gira, orgulhosa.


— Eu sou linda, né?


Invade o quarto, desfilando.


Vincenzo, ainda em estado crítico sob o lençol, tenta manter a dignidade.


Jogo o edredom sobre ele.


Antoine pula na cama.


— Posso dormir com vocês hoje? Tô nervosa.


— Por quê? — pergunta ele.


— O casamento… a coreografia… e a Cassie com aquele Liam safado…


Rimos.


— Ele não desgruda dela — continua, indignada. — E ela fica naquele celular, rindo igual boba.


Revira os olhos.


— Eu nunca vou beijar ninguém. Acho nojento.


Pausa dramática.


— Mas ela não sabe… ele vai casar com ela.


— Quem te disse isso? — pergunto.


— Não vou falar.


Ela se enfia entre nós.


— Gosto dessa cama.


— A sua também é boa. Vai pra lá.


— Dess… — intervém Vincenzo. — Deixa ela.


Cruzo os braços.


— Só se tirar esse vestido.


— Não vai amassar!


— Vai sim. Quer chegar toda amassada na igreja?


— Eu sou uma princesa!


— Antoine Rossi...


— Não dá sorte dormir com vestido antes do casamento — corta Vincenzo.


Ela hesita.


— Sério?


— Muito sério.


Eu o encaro.


— Aprendeu a dizer “não”. Milagre.


— Tá me testando?


— Tô.


Antes que ele responda, Antoine muda.


A voz falha.


— Papai… seu nariz tá sangrando.


O ar some.


Corro até ele.


— Eu falei pra você parar de lutar.


— Não é nada — ele diz, limpando o sangue. — Vai passar.


Ele se levanta, tentando sair.


Mas Antoine fala.


Baixo. Grave.


Errado demais pra uma criança.


— Não vai.


Silêncio.


— Você precisa parar… se quiser continuar.


Um suspiro.



E ela apaga.



Escolhemos não falar sobre a noite anterior.


Nem sobre o medo.


Nem sobre o sangue.


Fingimos.


E nos agarramos ao que importava:


O dia mais feliz das nossas vidas.


Uma capela simples. Longe de tudo.


Poucos convidados.


Os certos.


Antoine, à minha frente, espalhava pétalas de rosas como se estivesse criando um caminho seguro… num mundo que nunca foi seguro.


Eu chorava.


Sem controle.


Sem vergonha.


Doc me amparava enquanto eu caminhava até o altar.


Cada passo… uma vida inteira passando diante dos meus olhos.


Os que estavam ali.


E os que já não estavam mais.


Padre Pietro.


Miguel, ao seu lado… invisível para todos, menos para mim.


Sweet… pálida, frágil… sorrindo como quem já se despede.


Eu paro.


— Está tudo bem? — pergunta Doc.


— Está… — minto.


Não está.


Mas eu sigo.


Porque, pela primeira vez…


vale a pena seguir.



Ao som de Ave Maria, eu chego até ele.


Vincenzo.


Esperando.


Como sempre deveria ter sido.


— Você borrou a maquiagem — ele murmura, sorrindo.


Encosto minha testa em seu peito.


— Não me importa.


— Então chora — ele sussurra. — Porque daqui pra frente… é só felicidade.


Mentira bonita.


Mas eu aceito.


— Promete?


— Prometo.


E, diante do Crucificado… e de tudo o que não pode ser visto…


eu me caso com um anjo caído.



Debaixo de uma chuva de arroz e risos frenéticos, Vincenzo e eu corremos até a Kombi, decorada por Liam e Cassandra, com direito a latinhas penduradas na traseira e uma placa de “Recém-Casados”.


— É pra afastar as energias negativas, tia! — vibra Cassie, ajeitando cuidadosamente a cauda do meu vestido antes de fechar a porta do carona. — Se quiser, Antoine vai comigo e com o Liam!


— NUNCA! — protesta Antoine no banco traseiro, agarrada ao buquê. — Não entro em carro de gente safada!


Cassie gargalha e se afasta. Liam, ao seu lado, apenas observa, divertido.


— E o buquê? — ele lembra. — A noiva precisa jogar o buquê!


Arregalo os olhos, ainda borrados de emoção.


— Puta que pariu… eu esqueci!


Abro a porta e, estabanada, subo os degraus da capela enquanto os convidados se amontoam ao redor da Kombi. Antoine corre até mim e me entrega o buquê.


— SAI, CASSIE! VOCÊ NÃO! — grita, aos berros.


Um coro de risos e aplausos explode. Antoine faz uma reverência, aproveitando o momento como se estivesse num palco.


Arrisco uma olhadela para trás… e arquejo.


Vincenzo está ali, dois degraus abaixo, me observando. Emocionado. Mas… tenso.


— Joga, amor — ele diz, com um sorriso que não me convence.


Um arrepio percorre minha espinha.


— Você tá estranho… — grito. — O que foi?


Ele ri, jogando a cabeça para trás, como se fosse nada.


— Vai!


— JOGA LOGO, MAMÃE! — ordena Antoine.


O coro cresce: “Joga! Joga! Joga!”


Pressionada, respiro fundo e lanço o buquê para trás.


Viro o rosto a tempo de ver Cassie agarrá-lo com a precisão de um goleiro em final de Copa.


— Eu sabia… — resmunga Antoine. — Eles vão se casar.


Quase sorrio.


Quase desço os degraus.


Quase.


Porque então…


Uma voz.


Fria. Gutural. Colada ao meu ouvido.


“Aproveite seus poucos dias de alegria… pois eles terão um breve fim.”


Meu corpo trava.


Olho para dentro da capela.


E vejo.


Ele.


Correndo na minha direção.


Em sua forma monstruosa, Lúcifer salta sobre mim. O impacto me arranca o ar. Seu ódio pesa como concreto, me empurrando para trás.


Por um segundo, eu não estou mais no chão.


Estou caindo.


Mãos me agarram antes do impacto.


Vincenzo. Doc.


Mesmo assim, rolamos escada abaixo.


O mundo vira um borrão de gritos, passos e desespero.


No colo de Vincenzo, tento entender o que acabou de acontecer. Minha cabeça gira. Meu corpo lateja.


Antoine chora ao longe, sendo amparada por Cassie, que — num gesto quase automático — ainda segura o buquê.


Olho para ele.


Para Vincenzo.


Seu olhar está… furioso.


E assustado.


— Era ele…? — minha voz sai fraca. — Por isso você estava tão perto, né?


Por um segundo, ele hesita.


Então sorri.


Forçado.


— Esquece isso, Dess… depois a gente fala.


Ele beija minha testa, tentando manter o controle.


— Vamos festejar nossa união?


Eu devia insistir.


Devia exigir respostas.


Mas não consigo.


Me agarro ao seu pescoço, ainda tremendo.


— Vamos…



Assim que chegamos ao salão, me deparo com uma decoração luxuosa demais para alguém como nós.


Lustres. Arranjos impecáveis. Garçons circulando com bandejas elegantes.


Sinto um aperto no peito.


Consigo até imaginar quanto Vincenzo gastou tentando me agradar.


Eu sei. Eu deveria estar feliz. Qual mulher não gostaria de um marido “mão-aberta” e essas coisas?


Mas, como diria Cassie:


“Não rola.”


Combinamos algo simples. Não somos ricos. Eu trabalho em uma boate. Ele dá aulas de boxe. Temos uma filha de sete anos e outro a caminho.


Então… por que isso tudo?


Por que garçons?


Por que DJ?


Por que esse exagero inteiro pra gente que conhece exatamente de onde viemos?


E por que eu não consigo simplesmente relaxar e aproveitar a porra do meu casamento?


Meus pés doem. Meu peito aperta.


Todo mundo ri.


E eu…


quero chorar.


A lembrança volta como um soco.


Lúcifer.


O empurrão.


A queda.


O olhar de Vincenzo.


Se ele matou aquele garoto… ou o levou à morte…


Então já foi corrompido.


E se foi corrompido…


Lúcifer tem mais poder sobre ele agora?


Ele está se afastando da Luz?


Por minha causa?


Porra.


Eu só queria uma noite de paz.


— Dess…


O toque em meu ombro me faz saltar.


— Já volto! — respondo, com a voz falhando.


Arrasto a cauda do vestido pelo salão até o banheiro. Entro. Tranco a porta.


E desabo.


Apoio-me na pia, chorando em silêncio, enquanto a água corre sem parar pelo ralo.


Respiro fundo.


Penso.


Quando nosso filho nascer… talvez tudo mude.


Talvez Vincenzo se torne… humano.


Normal.


Mortal.


Como deveria ser.


Lavo o rosto com água fria. A maquiagem se dissolve. O papel-toalha arrasta o que restou.


Encaro meu reflexo.


Algo em mim quebra.


Com raiva, puxo o véu, desfaço o penteado, ignorando o cuidado que tiveram comigo horas antes.


— NÃO. — minha voz sai rouca. — NÃO MESMO.


Aproximo-me do espelho.


— Eu não vou deixar tirarem ele de mim.


Meu punho se fecha.


— Eu tô cansada de lutar…


As lágrimas voltam, quentes.


— Me dá uma folga…


Minha voz falha.


— Uma folga…


O impacto vem antes do pensamento.


Meu punho acerta o espelho.


O estilhaço corta minha pele.


Minha imagem se fragmenta diante de mim.


E, por um instante…


parece sorrir.


Gotas de sangue escorrem, manchando o mármore branco da pia.





“Ele morreu no dia do nosso casamento. Vai acontecer o mesmo com você.”


— NÃO VAI! — grito, desesperada. — QUEM É VOCÊ!? POR QUE ME ODEIA!?


“Porque ele é meu… vagabunda.”


O som da voz ainda ecoa quando a porta é arrombada.


Vincenzo.


Ele invade o banheiro, ofegante.


Para.


O olhar dele percorre minhas mãos ensanguentadas, o vestido destruído, o cabelo em desalinho.


Algo nele quebra.


Sem dizer nada, rasga a cauda do meu vestido, abre a torneira e segura minhas mãos com firmeza. Lava os cortes. Enfaixa. Estanca o sangue.


Silêncio.


Ele ajeita meu cabelo… sem me olhar.


Sinto.


O desapontamento.


— Me desculpa… — sussurro. — Eu não queria estragar nossa noite.


— Mas tá conseguindo.


A resposta vem seca.


— Eu sei que não é o que você tinha com o Aiden… — ele continua, amargo — Mas foi o melhor que eu pude fazer. E você age como louca.


Engulo em seco.


— Tá arrependida? — ele solta. — Ainda dá pra anular.


Seguro o rosto dele e o beijo.


— Não fala isso…


Ele recua, irritado.


— Você nunca tá satisfeita comigo, Dess! Acha que eu não ouvi o que você pensou?


— Eu não queria que você gastasse tanto! Só isso!


— Eu gastei porque queria te ver feliz, porra!


— Eu já sou feliz! — minha voz falha. — Eu só quero você! Nossa família! Juntos!


— Eu também!


— NÃO GRITA COMIGO! EU NÃO TÔ BEM!


Ele solta uma risada sem humor.


— Que ótimo ouvir isso no dia do nosso casamento…


Se afasta.


— Você sempre me surpreende.


— Não se atreva a me deixar aqui! — aviso, já indo atrás.


— Fui.


Saio atrás dele pelo corredor.


— Vincenzo Rossi! — minha voz ecoa. — Olha pra mim! Eu sou sua esposa! Mãe dos seus filhos!


Ele para.


Baixa a cabeça.


E… ri.


Baixinho.


Aproximo-me devagar. Toco seu ombro.


— Foi nossa primeira briga… — digo, sem graça. — A gente pode terminar ela agora?


Ele levanta o olhar.


E lá está.


A ternura.



— Por favor… — peço.


— Dess…


— Eu sou muito burra.


Ele solta o ar pelo nariz, quase sorrindo.


— É mesmo. Muito burra…


Puxa-me para um abraço apertado.


— …e linda.


Enterro o rosto em seu peito.


— Eu não quero te perder… ela disse…


— Shhh.


A mão dele cobre minha boca.


— Esquece o que ela disse. — seus olhos cravam nos meus. — Você tá no controle. Entendeu?


Assinto.


— Entendi.


Respiro fundo.


Aponto para o salão.


— Tem bolinho de queijo?


Ele me encara por um segundo.


E começa a rir.


Me pega no colo.


— Você é impossível…


Antes de voltarmos, Liam surge no corredor. Meio sem jeito, abre a mão.


— Alguém aqui precisa de band-aid?


Olho para minhas mãos improvisadas.


— Preciso…


— Como você sabia, Liam?


Ele troca um olhar rápido com Vincenzo.


Silêncio suspeito.


Claro.


Mais segredos.


Mas deixo passar.


Deixo que ele cuide dos meus ferimentos.


Deixo que Vincenzo me pegue no colo de novo.


— Isso não acaba aqui, “Liam da Irlanda”… — aviso, rindo.


De volta ao salão, a música começa.


Vincenzo me puxa para o centro.


— Vem dançar comigo.


Reconheço a canção.


Meu coração falha.


— Você… lembra?


— Eu lembro de tudo. — ele sussurra. — Você disse que queria dançar isso no seu casamento.


Ele enxuga minhas lágrimas com um guardanapo de tecido.


— Eu torci pra você não dançar com o Aiden…


Sorri, quase emocionado demais.


— E você não dançou.


— Tinha que ser com você…


— Tinha que ser comigo.


Ele me gira com precisão.


Seguro. Firme. Como se tivesse ensaiado cada passo.


— Agora eu sei… — ele murmura — Que não caí à toa.


Minha garganta fecha.


Eu paro.


Ele encosta a testa na minha.


— Estão olhando, amor…


Sussurra, divertido.


— Você é a bailarina. Me guia.


— Eu não consigo… — admito. — Tenho medo de ser feliz.


Ele segura meu rosto.


Sem pressa.


Sem fugir.


— Dá medo mesmo, Dess…


Um beijo leve.


— Mas a gente vai ser feliz.


Outro passo.


— Você…


Mais um.


— Antoine…


Giro.


— Matteo…


Ele me puxa de volta.


— E eu.


Silêncio.


— Pra sempre.


Respiro fundo.


Endireito a postura.


E danço.


Até o fim.


Os aplausos explodem.


Ele sorri, orgulhoso.



— Mais uma música pra nossa lista, Sra. Rossi.



Antoine enlaça seus bracinhos em torno de nossas cinturas e, naquele gesto simples, eu percebo o quanto ela cresceu.


Cresceu rápido demais.


— Quer dançar, filha?


— Quero, papai!


Afasto-me dos dois e os observo. Vincenzo a puxa com cuidado, fazendo-a repousar a cabeça em seu ombro, e a embala suavemente ao som de Sarah McLachlan.


“Angel”.



O tipo de música que, um dia, ainda vai me destruir.


Engulo a emoção antes que ela me alcance inteira. Não hoje. Não agora.


— DJ! — chamo, forçando um sorriso. — Toca alguma coisa mais animada. Bem mais animada.


As luzes mudam. O chão pisca em cores vivas. Antoine corre para o meio das outras crianças, rindo, girando, leve. Livre.


Como uma criança deveria ser.


Vincenzo, João e Doc brindam com cerveja. Adele lança aquele olhar de quem já viu demais e ainda assim insiste em manter alguma ordem no caos.


Eu não.


Eu peço outra tequila.


— Você precisa comer, Dess. Chega de bolinho de queijo.


— E você não precisa parar de beber, Vincenzo?


Rio alto demais. Minha voz já não me obedece direito.


— Não se atreva a dizer que eu tô bêbada.


— Nunca…


Seguro a gola da camisa dele e o puxo pra perto.


— Não se atreva a sorrir assim pra mim de novo… ou eu juro que faço uma cena aqui mesmo.


Ele tapa minha boca na hora, rindo, meio constrangido, e me arrasta para um canto.


— Não faz isso de novo… ou eu te levo pro banheiro masculino.


Dou um passo pra trás, rindo sozinha.


— Claro. Você já destruiu o banheiro feminino mesmo. Parabéns, Mr. Counter Puncher. Mais uma conta.


— Eu não me importo.


Ele se aproxima.


— Você ainda não percebeu que eu sou capaz de qualquer coisa por você?


E é aí que a festa some.


O barulho some.


Tudo some.


— Você matou o italiano da cruz invertida?


Minha voz sai baixa. Séria.


— Me diz a verdade. Eu enfrento qualquer coisa por você. Por nós. Mas eu preciso saber.


— Dess…


Ele não responde.


Claro que não responde.


Antes que eu insista, os alunos da academia o puxam de volta pra roda. Ele ri, pula, vira outro homem ali no meio.


Leve.


Livre.


Eu fico.


Sentada.


Observando.


— Deixa aqui — digo ao garçom, arrancando a garrafa de vinho da mão dele.


Ele hesita.


— O que foi? Eu quero beber. É o dia mais feliz da minha vida.


Ou pelo menos era pra ser.


Dou um gole direto da garrafa.


E continuo olhando Vincenzo.


Meu marido.


Meu problema.


Meu tudo.


— Opa…


O soluço vem forte.


— Fica calma, Adessa — diz Adele, sentando ao meu lado. — É só uma festa…


— Calma? Eu?


Rio, levantando de uma vez.


Claro que não.


Eu caminho até o grupo.


Cumprimento os alunos, os amigos… e então vejo.


Ela.


A tal “novinha”.


Sobrancelha arqueada.


Veneno pronto.


— Não me lembro de ter te enviado convite.


— Dess…


Ignoro Vincenzo.


Prendo o cabelo num coque improvisado.


— Aliás… eu nem sei seu nome.


— Diana — responde ela, com aquele sorrisinho de quem acha que venceu alguma coisa. — Seu marido me ensinou muita coisa.


Dou um passo à frente.


— Não me diga. Quer detalhar?


— Dess. Para.


— Me solta, Vincenzo! — puxo o braço. — Você tá bêbado e essa garota tá te dando mole na nossa festa de casamento!


— Eu não faria isso aqui, “tia” — diz ela, inclinando a cabeça. — No ringue seria mais fácil.


Silêncio.


Pesado.


— Tia?


Eu rio.


Mas não tem humor nenhum ali.


— Como você é baixa…


E então eu avanço.


Seguro o cabelo dela sem pensar duas vezes.


— Baixa vai ser a surra que você vai tomar, pirralha!


Vincenzo me segura pela cintura, rindo, porque claro que ele ri. Doc tenta apaziguar. João entra no meio.


— Você não foi convidada — diz ele pra garota.


— Fui sim. O noivo me convidou.


Ela sorri.


E eu viro.


Devagar.


Pra ele.


— Vincenzo… — minha voz sai mais perigosa do que qualquer grito — isso é verdade?


Agora sim.


A festa acabou.


— Dess, eu chamei a galera da academia. Ela é uma das alunas.



— E você fala isso com naturalidade!?


Ele me puxa para longe do burburinho. As mãos no meu rosto, o olhar embriagado, mas ainda assim… sincero.



— Não estraga a nossa festa, amor. Ela não é nada. Olha pra mim… eu tô tão feliz…


— E você não vai expulsar essa mulher daqui!?


— Fica tranquila.


— “De boas”, o caralho!


— Eu sou bissexual. — A voz dela corta o ar. — Não tenho interesse no teu homem.


Eu nem penso.


Empurro.


Ela cai no chão.


— Foda-se! Melhor que fosse lésbica! Sendo “bi”, você ainda me incomoda, sua merdinha!


— DESS!


— CALA A BOCA, VINCENZO! A CULPA É SUA! SEMPRE BONZINHO DEMAIS!


— Tia, calma — Cassie me puxa, firme. — É isso que ela quer. Te ver perder o controle.


— Se fosse com o Liam, você já tinha quebrado a cara dela!


— Com certeza.


— Então pronto!


— Dess! Todo mundo tá olhando!


— QUE OLHEM!


Minha voz rasga o salão.


— EU AMO MEU MARIDO! MORRO DE CIÚME DELE! QUAL É O PROBLEMA!?


Arranco outra garrafa da bandeja do garçom. Três goles seguidos.


Vincenzo tenta tomar.


Eu chuto.


Ele recua, soltando um gemido.


E Antoine…


Antoine ri.


— Minha mãe é demais! Ela luta e dança muito bem!


Eu paro.


Repito, baixo:


— Dança… muito bem…


O sorriso que nasce não é bonito.


É perigoso.


Olho pra Vincenzo com desprezo e caminho até o DJ.


— Dess, não faz isso…


— Impulsiva? — eu rio. — Imagina.


Um gesto.


Centro da pista.


As luzes apagam.


Só eu.


Os primeiros acordes de American Woman tomam o salão.



E eu volto a ser quem eu era.


Rasgo a saia do vestido sem hesitar. O tecido cede, curto, livre. As botas aparecem. Firmes. Donas do chão.


O silêncio vira grito.


Eu danço.


Não é vulgar.


É pior.


É controle.


É domínio.


É lembrança de tudo o que eu já fui… e de tudo o que ainda sou.


Cada movimento é um recado.


Cada giro, um aviso.


Passo pela “novinha” e lanço os cabelos contra ela, como um chicote. Nem olho pra ver o efeito.


Não importa.


Só um olhar importa.


O dele.


Vincenzo não se move.


Hipnotizado.


Quase… assustado.


Perfeito.


Eu o rodeio.


Lento.


Provocando.


Tomo sua boca num beijo que não pede permissão.


E, no fim, me sento em seu colo.


Seguro seus cabelos.


Puxo de leve.


Suficiente.


— Você é meu.


Aproximo meus lábios do ouvido dele.


— Só meu.


A música termina.


Sou ovacionada.


A energia ainda vibra no meu corpo quando me levanto do colo de Vincenzo. Procuro a “novinha” com os olhos.


Ela sumiu.


Um sorriso lento se forma.


Venci.


— Perdeu, novinha.


— Dess… você é tão idiota… e tão sexy.


Ele segura minha mão e me puxa. Rápido. Decidido.


Banheiro masculino.


A porta se fecha. Tranca.


O silêncio lá dentro é outro tipo de tensão.


— Você foi uma garota travessa — ele murmura, próximo demais. — Merece um castigo.


Eu rio.


Mas não recuo.


Ele me ergue com facilidade, me senta na pia fria. O contraste me faz arrepiar. Suas mãos firmes, seu corpo colado ao meu… tudo nele ainda carregando a adrenalina da pista.


O beijo não é suave.


É urgente.


— Essa é a primeira vez a gente trepa… — sussurro, entre um fôlego e outro — Depois de casados…


Ele para só o suficiente pra me olhar.


— Não.


Sua voz baixa, firme.


— É a primeira vez que eu faço amor com você, Dess.


E dessa vez…


eu acredito.



Revendo as fotos do casamento, percebo algo estranho.


Não a festa.


Não a dança.


Não o caos.


Eu.


Pela primeira vez na vida… eu acertei.


Vincenzo. Antoine. Matteo, crescendo dentro de mim.


Minha família.


Minha base.


Nosso apartamento não é luxuoso. Nem de longe. Mas é quente. Vivo. Nosso.


Antoine cresce cercada de amor. Matteo pesa cada vez mais, dificultando meu trabalho, afastando — por enquanto — o sonho do Conservatório.


E, pela primeira vez…


eu aceito.


— Assim que ele nascer, você volta a estudar, Dess — diz Vincenzo, como se lesse meus pensamentos.


Ele sempre faz isso.


— Não tem culpa nenhuma aqui — continuo, mais pra mim do que pra ele. — Só um sonho esperando a hora certa.


Sou mulher de um homem só.


E ele… lutou por mim por séculos.


Agora é meu.


Só meu.


— Além do seu sonho interrompido…


O impacto no sofá me arranca dos pensamentos.


— Vincenzo! Você tá suado! Sai daqui!


Ele ri, beijando minha barriga.


— Se sujar, eu limpo.


Sempre assim.


Leve.


Como se o mundo não estivesse à espreita.


Ele pega as fotos das minhas mãos.


— Quando nosso filho nascer, você vai voltar pro Conservatório. Eu prometo.


— Eu tô bem assim.


— Mentira.


Ele me conhece.


Melhor do que eu gostaria.


Um beijo rápido, calando qualquer argumento. Ele observa outra foto.


Silêncio.


— Tem alguma coisa errada aqui.


Reviro os olhos.


— A única coisa errada sou eu. Tava bêbada, com ciúmes…


— Não é isso.


O tom dele muda.


E isso… nunca é bom.


— Tem alguém atrás de você.


Meu estômago afunda.


Ele aponta. Um vulto. Muito perto de mim.


Perto demais.


— Consegue ver?


Eu vejo.


Infelizmente… vejo.


Engulo seco.


— Dess… — ele me encara — Não esconde nada de mim. Quem é?


Levanto rápido demais.


Pego o controle.


Ligo a TV.


Volume no máximo.


Barulho.


Qualquer coisa pra abafar aquilo.


— Dess! — a voz dele corta o som. — Desliga a TV.


Mas eu não desligo.


Porque o problema…


não tá na foto.


Tá no fato de eu saber exatamente o que eu vi.


E não querer dizer em voz alta.


— Não! Não quero que leia meus pensamentos! Para! Me deixa em paz!


Me afasto rápido demais. Vou pra cozinha como se distância resolvesse alguma coisa.


— Me deixa quieta. Eu preciso descansar. Ainda vou trabalhar.


Abro a garrafa e bebo água como se estivesse tentando apagar um incêndio por dentro.


Ele não diz nada.


Só me observa.


Encostado na pia.


Aquele silêncio… me irrita mais do que qualquer pergunta.


— O que é!? — rebato, incomodada. — Tô com sede!


— Por que você tá nervosa, Dess?


— Não tô! De onde tirou isso!?


— O que ele te disse dessa vez?


O chão some por um segundo.


— Ele quem??? Disse o quê???


Não dá tempo de fugir.


Ele me segura.


Me puxa contra o peito.


Forte.


— Não vamos deixar aquele anjo de merda estragar nossas vidas… — a voz dele baixa, perigosa. — O que ele te disse?


Eu tento não pensar.


Tarde demais.


Ele já viu.


Sinto no jeito que ele me afasta.


No jeito que me encara.


— Ele disse isso!? — a voz dele falha entre raiva e medo. — Que eu vou morrer quando nosso filho nascer!? Você acreditou nisso!? Quando foi isso!? Você tava dançando… depois a gente foi pro banheiro… como…?


— Eu não sei! — fecho os olhos, sufocada. — Não sei quando, nem como! Ele só… apareceu! Como um sonho! Eu via, eu ouvia… e continuava dançando!


Minha voz quebra.


— Eu não quero acreditar… mas ele não vai desistir de você… e eu não sou forte o suficiente pra lutar contra ele, Vincenzo! Eu ainda não sou forte pra enfrentar um anjo caído!


Silêncio.


Pesado.


Ele não entende tudo.


Ainda.


— Não entendi…


Eu abraço ele com força.


Como se pudesse prender ele ali.


— Nada… eu falei besteira… — minto mal. — Só… não me deixa sozinha. Eu não consigo sem você.


E isso, pelo menos, é verdade.


— Eu não vou a lugar nenhum, Dess — ele diz, firme. — Minha vida é aqui. Com vocês.


Ele me pega no colo e me leva de volta pro sofá como se eu fosse quebrar.


Talvez eu vá.


— Antes de resolver esse assunto… — ele continua, mais leve, tentando me puxar de volta — Eu tenho uma proposta.


— Qual?


— Quer trabalhar comigo na academia?


Eu travo.


— Eu???


— Quem mais? — ele sorri de lado. — Alguém precisa cuidar das finanças… e manter certas “novinhas” bem longe.


Isso arranca um riso de mim.


Finalmente.


Eu me jogo no colo dele.


— Eu topo! Sempre quis ficar lá com você… desde quando você me expulsou…


— Não fala disso. Já passou.


— Passou… — repito, acariciando a barriga. — Agora vai ser diferente.


— Vai. — ele beija minha barriga com cuidado. — Vamos trabalhar juntos. Sem você na rua de madrugada. Sem risco.


Ele fala animado.


Faz planos.


Como se isso bastasse pra manter o mundo longe.


— O dinheiro não vai ser igual ao da boate… mas eu dou conta. Eu só quero a gente junto. Seguro.


— Eu também…


Ele me encara.


— E esse olhar?


Droga.


— Ele tocou nela…


O corpo dele endurece na hora.


— Em quem?


— Na Antoine.


— O quê!?


— Eu não consegui impedir! — me levanto, desesperada. — Eu tava presa… parecia um sonho!


Agora ele levanta.


Raiva pura.


— Lúcifer encostou na nossa filha? Na nossa festa!?


— A culpa foi minha! — disparo. — Se eu não tivesse feito aquele escândalo, eu teria visto! Eu teria parado ele!


E então…


ele ri.


Do nada.


Aquele riso leve que não combina com nada daquilo.


— O que seria de um casamento sem um escândalo, hein?


Eu fico olhando.


Sem saber se isso me acalma… ou me assusta mais.


Ele me pega no colo de novo, como se nada tivesse acontecido, e me leva pro quarto.


— Que olhar é esse? — pergunto, desconfiada. — Eu preciso trabalhar.


— Hoje não. — ele responde, simples. — Não na boate.


Ele me joga na cama.


Sorrindo.


— Hoje você fica aqui comigo.


— Vincenzo…


— Shhh…


E por alguns minutos…


o mundo para.


De verdade.


Mais tarde, deitada ao lado dele, observo sua respiração tranquila.


Ele dorme.


Dessa vez… eu tenho certeza.


Mas eu não.


Eu não consigo.


Porque as palavras ainda estão aqui.


Grudadas.


Vivas.


“Seu anjo vai perder mais do que as asas…

Se prepare para dias difíceis…

Eu estou de olho em vocês.”


E dessa vez…


eu sei que não foi um sonho.



— O que ele quis dizer com isso?


Em breve, descobriríamos juntos.



Há um mês, como recepcionista da academia de boxe de Vincenzo e João, tenho me disciplinado ao máximo. Há um mês, não tomo os medicamentos para o meu transtorno. De que adiantam pílulas se não temos dinheiro para o acompanhamento psiquiátrico?


Melhor assim.


À medida que minha barriga cresce e meu corpo se transforma, observo outros corpos ganhando músculos, agilidade e beleza. Tento controlar meus ciúmes, principalmente porque Vincenzo tem me tratado com o triplo de delicadeza e atenção.


Eu o amo ainda mais por não me deixar sentir distante da mulher sexy e confiante que já fui.


Vestindo batas largas, ainda me permito expor minhas pernas e meu sorriso aos alunos que se afeiçoaram a mim. Segundo Vincenzo, minha presença atrai cada vez mais alunas que, antes de mim, não se atreviam a entrar em um ambiente dominado por homens.


Sinto-me honrada em fazer algo por ele. Algo que, de alguma forma, também me faz bem.


Ele sempre atende aos meus desejos, mesmo quando isso lhe custa caro.


E é justamente nesses momentos que me odeio.


Porque ainda existe em mim algo da garota ambiciosa que eu acreditava ter deixado para trás.


Ela já deveria ter morrido.


Mas não morreu.


Eu sinto.


Às vezes, não é como um pensamento.


É como uma presença.


Observando.


Esperando.


Eu não gosto de gastar dinheiro à toa. Então por que faço isso?


Outra compulsão?


Ou não sou só eu escolhendo?


Compro coisas bonitas, inúteis. Para a casa. Para o enxoval de Matteo, que já tem roupas suficientes para os primeiros anos de vida, cuidadosamente guardadas em seu baú de madeira.


Sempre mais do que o necessário. Como se alguém quisesse excesso. Luxo. Controle.


Nosso filho merece.


Eu também.


Ela acha isso. Eu só… concordo.


Esperei demais por esse momento.


Talvez eu a tenha curado da compulsão por sexo… e a tenha transformado em uma vontade quase incontrolável de gastar nosso dinheiro com nossos filhos, com ele… com a nossa casa.


Um vício pelo outro.


Ou uma troca.


Vincenzo nada fala. Apenas me observa em silêncio, sem me censurar.


Ele não vê. Ainda não.


— Gostaria que me reprovasse. Assim, eu teria algo que me impedisse de gastar tanto.


— Você não gasta muito. — refuta Vincenzo à mesa de jantar impecavelmente posta, com taças para água, vinho branco, vinho tinto e talheres para cada detalhe. Um olhar benevolente e ele continua: — Só não vejo necessidade de tanta coisa… se somos pessoas simples recebendo amigos simples. Você me repreendeu tanto pelo casamento… e agora mudou?


Contrariada, endireito a postura na cabeceira.


— Nossos amigos simples merecem o melhor que temos para dar, marido. Você não concorda?


Merecem luxo. Respeito. Excesso.


O sorriso dele é calmo. Ele concorda.


— Tem razão, Dess. — diz, dando tapinhas nas costas de Liam. — Cassie e Liam merecem o melhor. Estávamos com saudades, irmão.


“Irmão.”


Palavra fácil. Leve.


Laços frágeis. Substituíveis.


— Irmão, pai??? Tio Liam é seu irmão???


Vincenzo ri.


— É maneira de falar, filha…


A conversa segue, leve, ruidosa, viva. Cassie ri, Liam cora, Antoine provoca.


Eu observo.


Sorrio.


Participo.


Mas algo em mim não está ali.


Quando Cassie elogia a casa, meus olhos percorrem cada detalhe. As plantas. Os móveis. As cores.


Tudo no lugar.


Tudo sob controle.


Como deve ser.


— Eu quero que a nossa casa seja assim também, “Coelhinho”!


“Coelhinho.”


Ridículo.


Engraçado.


Humano.


Antoine explode em risos, zombando. A mesa vibra. A cena é leve.


Até Vincenzo endurecer.


— Antoine Rossi! Pare, agora!


O choro dela vem rápido demais.


Sempre rápido demais.


Corre para ele.


Depende dele.


Respira por ele.


E eu…


…assisto.


Fraca.


Peço desculpas aos outros, mas meus olhos estão neles dois.


Na conexão que não é minha.


Na forma como o mundo dela gira ao redor dele.


E como o meu…


já não gira só.


— Não grita comigo.


— Não vou gritar, filha. Mas o que vc fez é feio. Você entende isso?


Antoine larga os talheres e corre para o colo de Vincenzo, chorando alto. Ele, imediatamente, amolece. Acaricia seus cachinhos, arrependido.


— Desculpa, filha...


— Não faz isso! — interfiro, engolindo o riso. — Continua. Ela fez uma coisa feia. Precisa ser corrigida.


— Dess...


Apoio os cotovelos na mesa, sustentando seu olhar.


— Vincenzo, você precisa aprender a lidar com ela. Crianças precisam de correção.


Antoine soluça contra o peito dele.


— Desculpa, Cassie... eu não queria rir de vocês, mas... — ela volta a rir — “Coelhinho” é muito engraçado. Por que ele não te chama de “Safada”? Vc continua safada.


Cassie revira os olhos, mas sorri.


— Porque esse apelido é seu, pirralha!


O clima amolece. Riso. Comida. Normalidade.


Até não ser mais.


Cassie prova a comida, encantada. Elogia. Ri. Pergunta.


E então…


— Que família, Dess!?


Respondo sem pensar.


— Não se lembra dos meus tios? Tia Celeste amava o meu Boxty.


Silêncio.


Não é um silêncio comum.


É o tipo de silêncio que percebe antes mesmo de entender.


— Por que tá me olhando assim, Vincenzo?


Ele já está de pé.


Rápido demais.


Chega perto. Muito perto.


Apoia o braço na mesa. Me observa como se estivesse tentando me puxar de algum lugar.


— Dess? É vc?


Sorrio.


Calma. Natural.


Errada.


— Quem mais poderia ser, amor?


Ele cai de joelhos ao meu lado.


Desespero disfarçado de cuidado.


— Volta, Dess. Não se deixa controlar.


O sorriso não sai.


Não precisa.


— Pai...?


— O que tá rolando aqui, tio!?


Vincenzo volta ao lugar, forçando normalidade.


— Nada. — ele me encara — Nada. Às vezes ela fica confusa. Distraída.


Assinto devagar.


— Sim... eu preciso dos meus remédios.


— Não pode. Vai fazer mal ao bebê.


— Eu sei…


— Que remédios, tia? — pergunta Cassie, já tensa.


Antes que eu responda...


— O que faz a “outra” dormir. — diz Antoine, simples.


Silêncio.


Dessa vez, pesado.


— Já se esqueceu? — continua ela, inocente demais — Ela já falou com você.


Cassie empalidece.


— Eu… não lembro…


— Claro que não. — sorrio, inclinando levemente a cabeça — Ele apaga o que não convém.


Liam finalmente entra na conversa.


— Que “outra”?


Vincenzo corta:


— Depois a gente conversa.


— No nay never. — jogo o guardanapo no chão — A gente fala agora.


Levanto.


Devagar.


— Por que eu tenho que me esconder? Por que você precisa me esconder, Vincenzo?


Antoine desliza ao redor da mesa, calma demais pra uma criança.


Para ao lado dele. Sussurra:


— Ela voltou, papai. Fica calmo.


Cassie perde o eixo.


— Puta que pariu… — respira fundo — O que tá acontecendo aqui!? Ela não tinha ido embora!?


Olho para todos.


Um por um.


E sorrio.


Agora, sim, eu estou presente.


— Nunca! — rosno. — Striapach!


— Vagabunda??? Eu???


— Calma, Cassie — pede Vincenzo. — Ela não fez por querer.


Sorrio.


— Fiz sim. E faria de novo. Ela é vagabunda mesmo. Como diz sua filha… safada.


— Peça desculpas à Cassie, Eileen!


— No nay never.


— Não precisa, tio. Deixa rolar — diz Cassie, já desconfortável.


— Eileen! — a voz dele endurece — Peça desculpas.


Reviro os olhos.


— A mim, você repreende. À sua filhinha, não. Ela fala o que quer, quando quer.


— Eu posso — gaba-se Antoine. — Minha mãe, que não é você, deixa eu falar tudo.


Aquilo me atravessa.


Por um segundo.


Só um.


— “Filha, para”… — imito, debochada — Olha no que você se transformou, Vincenzo. Um pai fraco.


— Já mandei calar a boca.


Inclino a cabeça, provocando.


— Nossa… que medo, Amadán.


— O que ela disse, “Coelhinho”? — pergunta Cassie, perdida.


Liam responde, seco demais pra quem finge leveza:


— “Tolo”.


Nossos olhares se encontram.


E, finalmente…


alguém na sala entende o jogo.


— Gaélico… — Cassie ri, nervosa — Que irado.


— Acho melhor irmos embora — diz Liam.


Claro que quer.


Claro que sabe.


— Não antes da sobremesa — digo, suave demais — Seria deselegante sair sem provar a minha torta.


Dou um passo.


Olho direto pra ele.


— Uma Pavlova de morango. Você deve conhecer… sendo irlandês.


Ele não desvia.


Bom.


— É minha preferida… mas eu não sou irlandês. Meus pais eram.


Sorrio.


Agora sim.


— Não sou Adessa, “Coelhinho”. Pode me chamar de Eileen.


Silêncio.


Vincenzo sente.


Todos sentem.


Mas ninguém segura.


Levanto.


— Não se atrevam a sair sem experimentar.


Na cozinha, antes mesmo de abrir a geladeira, ele aparece.


Sempre rápido demais quando se trata de mim.


— Por que eu não posso ficar? — minha voz baixa — Você a ama mais do que a mim?


Ele não responde.


Nunca responde isso.


— Nosso filho nasceu, amor. — me aproximo — Eu te dei isso. Uma família. Um filho. Uma vida.


Inclino o rosto.


— Será que “sua Dess” consegue fazer o mesmo?


— Eileen…


Ah. Agora ele fala.


— Talvez esse bebê nem devesse nascer… — sussurro — Se nascer, vc esquece o nosso, Collach.


A mudança no olhar dele é instantânea.


Perigo.


— Nunca mais fala isso.


A mão dele fecha no meu pescoço.


Força.


Controle.


Medo.


Perfeito.


— Vai me matar? — rio, quase sem ar — Vai matar o corpinho da sua Dess?


Ele me solta.


Sempre solta.


— Eu não vou te perdoar, Vincenzo — cuspo — Eu te dei tudo. E você deixou tirarem de mim.


— Não fui eu. Foi o Aiden.


— Eu sei — sorrio — Mas ela não o odeia. E você ainda quer ela de volta.


Dou um passo mais perto.


Quase um pedido.


— Me deixa ficar. Eu posso te fazer feliz.


Silêncio.


Então ele sussurra:


— Eu sei que pode.


Aquilo… dói.


— O que você tem na mão, Vincenzo?


Agora eu vejo.


Tarde demais.


— Eu não queria isso.


— CADÊ O BOLO!? — grita Cassie ao fundo.


A distração perfeita.


A picada vem.


Rápida.


Fria.


Traição limpa.


Minhas mãos vão ao pescoço.


Quente.


Sangue.


— Por quê…? — minha voz falha — Eu te amei tanto…


— Pai…?


A voz de Antoine se dissolve.


O mundo apaga.


De novo.


— Acabou? Ela já foi?


— Sim, filha. Ela está indo...



Ainda sonolenta, de madrugada, beijo os lábios de Vincenzo e me levanto da cama. Descalça, caminho até a cozinha. Com fome, corto uma fatia da torta já pela metade.


— É sério que comeram sem mim??? Ingratos! Seu pai e sua irmã, meu filho!!!


Penso alto, alisando minha barriga com uma das mãos. A outra ergue o garfo até minha boca aberta.


De esguelha, vejo seu vulto se aproximar segundos antes do tapa em minha mão.


— O que foi isso??? Vincenzo!!! Quer me matar de susto???


Enquanto ele se abaixa, catando os farelos da torta no piso frio, pede perdão. Exasperado, me encara.


— Você chegou a comer algum pedaço!?


— Graças a você, não! Eu tô faminta! Quero um pedaço da torta, porra! Que ódio! Sujou tudo!


Agarrado ao suporte para bolos, ele praticamente implora.


— Dess, não come! Pode ter alguma coisa aí que faça mal pro bebê!


— De onde você tirou isso!? Cacete! A torta já foi comida! Alguém passou mal aqui!?


— Não.


— Então! Por que eu passaria!?


Seguro o suporte entre nós e travo uma verdadeira guerra pelo pedaço enquanto ele ri do meu desespero.


— Eu tô com fome! Teu filho tá com fome! A gente quer essa torta, cachorro! Me dá!


— Não, Dess! — diz ele, ainda rindo. — Dessa torta não!


— POR QUE NÃO!? EU TÔ COM DESEJO DE COMER A PORRA DESSA TORTA!


Num impulso, ele joga tudo na lixeira da pia.


E pronto.


Morreu ali.


— Filho da puta... — choramingo, me jogando contra ele. — Eu queria só um pedacinho...


Ele me abraça, tentando consertar o estrago.


— Amor, eu compro outra igualzinha. Agora. Deve ter alguma confeitaria aberta.


— Eu queria aquela, seu bosta.


— Não me xinga, amor. É pro seu bem.


— Vocês comeram sem mim... — reclamo contra seu peito. — Isso não é justo.


Respiro fundo, ainda emburrada, ainda com fome.


— Cassie e Liam foram embora sem se despedir? Por quê?


Afasto-me dele, limpando o rosto com as costas da mão.


Ele não ri mais.


Não brinca.


Não tenta me acalmar.


Só me encara.


E é aí que o ar muda.


Pesado.


Errado.


— Ela voltou, Dess.


— Quem?


Em silêncio, ele me observa.


— Tá de sacanagem!? De novo!? Puta que pariu! Hashtag “de volta ao inferno”!? Não é possível!


— Fica calma.


— Calma como, Vincenzo!? A vaca quer matar meu filho e você me pede calma!?


— Como sabe? Eu não te falei nada.


Insatisfeita e ainda faminta, abocanho uma maçã, respondendo de boca cheia:


— Não precisa. Eu me lembrei quando te toquei. Meu grande e útil poder de merda.


— Ela não vai mais voltar.


— Você não pode ter certeza disso, Vincenzo!


Arremesso a maçã mordida contra a parede.


— A gente nunca vai se livrar dela ou do seu amiguinho chifrudo! Por que a gente não pode ter paz, cacete!? Por quê!? VINCENZO!


Aponto o dedo pro nariz dele, tremendo.


— Tá sangrando de novo. Você voltou a lutar?


Ele abaixa a cabeça, limpa o sangue com papel-toalha… e quando fala, destrói tudo:


— Eu perdi tudo, Dess.


O chão some.


Caminho, desorientada, até a sala e me jogo no sofá.


— Tudo o quê? Do que você tá falando!? Você me prometeu que não voltaria a lutar! Eu te vi num ringue agora há pouco, Vincenzo!


— Eu precisei, Dess… — a voz dele sai pesada, cansada.


Sentado na poltrona, ele passa a mão no cabelo, nervoso.


— Eu lutei pra pagar as contas. E… eu perdi tudo. Não sei como isso aconteceu.


— Tu-tu-tudo o quê? — Me ajoelho diante dele, tentando puxar seu olhar de volta pra mim. — Do que você tá falando? Da sua herança?


— Sim.


Ele esfrega a cabeça, inquieto.


— Eu não mexi em nada. Juro. Eu guardava aquela grana há séculos… literalmente. Era pra uma emergência. Pros nossos filhos. Eu sempre soube que teríamos filhos… e agora… sumiu. Do nada.


Caio sentada no tapete.


Respiro fundo.


Uma vez.


Duas.


— Grana não some de banco, Vincenzo. — Ergo o olhar. — Alguém te roubou.


Ele trava.


— Como???


— Eu vi.


— Como assim viu!?


— Acabei de ver! Eu te toquei, porra! Ele quis que eu soubesse!


— Quem???


— Aquele viado se fez passar por você! — cuspo, com raiva. — Falou com o gerente e raspou a tua conta!


— A nossa conta… — corrige ele, já quebrado.


Ele cobre o rosto com as mãos e chora.


Sem filtro.


Sem defesa.


— Era dos nossos filhos… — a voz falha. — Não é justo. Eu sei que errei. Eu falhei, Dess. Eu pratiquei o Mal… mas não era pra punirem eles. Era pra me punirem. Essa grana era o futuro deles…


Aquilo me acerta.


Forte.


Afasto as pernas dele e me encaixo entre elas, de joelhos.


Seguro suas mãos.


Tiro do rosto dele.


Forço ele a me olhar.


— Eles vão ter um futuro incrível, amor. Com ou sem essa grana.


Respiro fundo, segurando firme.


— A gente tá junto. A gente é forte. E ainda é jovem. A gente trabalha. A gente constrói tudo de novo.


Minha voz começa a tremer, mas eu continuo.


— Eu vendo tudo o que comprei. Tudo. A gente divulga a academia. Atrai mais aluno. Eu volto pra boate, se precisar. Vai dar certo.


Aproximo meu rosto do dele.


— Só não desiste. Eu não quero te ver assim. Você é o mais forte da gente. É você que me levanta sempre.


Silêncio.


Ele respira fundo.


Se recompõe aos pedaços.


— Não vou desistir.


Seca as lágrimas com o dorso da mão.


— Eu sei que errei… estão me punindo. Eu mereço.


Inclino a cabeça, observando.


— Seu Deus é vingativo?


— Não. Ele não. — Ele balança a cabeça. — Existem outros abaixo d’Ele que… coordenam. Existem leis.


Ele para.


Pesa.


— E eu quebrei uma delas.


Meu estômago aperta.


— Quando?


— Quando incitei o jovem italiano à morte. Ele cheirou mais pó do que devia… graças a mim. Eu sussurrei no ouvido dele. Eu o odiava por tudo o que fez à nossa filha. — A voz dele endurece. — Eu fui corrompido pelo ódio… e é pelo ódio que eu vou vencer de novo.


Recuo, sentindo o estômago virar, até me recostar na mesa de centro.


— Não me olha assim, Dess. — Ele insiste. — Eu vou fazer o que for preciso pelos nossos filhos.


— Seus filhos te querem vivo. — Corto, na hora. — E eu também.


Dou um passo à frente, tremendo.


— Você não pode lutar, Vincenzo. Você sabe que isso é perigoso. Eu não sei — e nem quero saber — o que são esses sangramentos, mas isso não é normal!


Ergo a voz, firme:


— Eu não quero que você lute.


Silêncio.


Um segundo.


Dois.


— Eu não quero que você lute, Vincenzo!


— Calma, amor. O nosso filho…


— NÃO TOCA EM MIM!


Ele trava.


— Dess…


Vira atrás de mim enquanto eu entro no quarto e me jogo na cama. Enterro o rosto no travesseiro e abro o choro sem dignidade nenhuma.


Travesseiro de penas de ganso.


Quem compra uma porcaria dessas?


Deve ter custado uma fortuna…


— Amor… — a voz dele vem mais baixa agora. — Olha pra mim. Você precisa se acalmar. Nosso filho precisa de você.


Sento de uma vez, com o peito explodindo.


— NOSSO FILHO PRECISA DE UM PAI VIVO, VINCENZO! VIVO!


Aponto pra ele, sem conseguir parar de tremer.


— Se você continuar lutando, você morre!


Ele respira fundo.


E solta, como se fosse nada:


— Não. Eu ainda sou imortal.


O mundo para.


Engulo em seco.


A voz falha.


— Até… — engasgo — Até o nosso filho nascer.



Recebo outra proposta do mesmo fotógrafo de meses atrás.


O cara ainda insiste em me ver pelada, como se eu tivesse nascido pra isso.


Em outra fase da minha vida, eu mandaria ele pro inferno sem nem pensar duas vezes.


Agora?


Agora a conta não fecha.


Depois de vender quadro, tapete, enfeite inútil e tudo mais que eu comprei sem saber por quê… ainda não dá.


A grana que ele tá oferecendo resolveria muita coisa.


Por algum tempo.


Mas tem alguma coisa errada.


Tem alguma coisa… suja.


Toda vez que o nome dele aparece na tela, eu sinto.


A mesma presença.


Fria.


Observando.


Lúcifer.


Claro que é.


Quem mais seria?


Atendo, já sem paciência:


— Quando é que você vai parar de encher o meu saco e entender que eu não vou posar nua!?


Desligo sem esperar resposta.


Solto o ar, irritada.


— Insuportável…


— Com quem minha linda esposa estava conversando em pleno horário de trabalho?


O corpo inteiro trava.


Lento.


Pesado.


Eu conheço essa voz.


E ela não deveria estar aqui.


— Ninguém. — Minto, sorrindo. Debruço-me sobre a bancada e beijo sua boca após o término do expediente. Não há alunos na academia. Somente Vincenzo e eu. Rezando para que ele não tenha ouvido, brinco ao sair da recepção. — Sabe que daqui a alguns dias eu não vou caber nesse quadradinho, né? — Olho-me no espelho e dramatizo. — Jesus! Eu tô uma baleia! Talvez ele nasça antes do tempo!


— Isso tudo é pra disfarçar, Dess?


— Oi? Não entendi. — Minto outra vez. — Disfarçar o quê? A gente precisa pegar a Antoine na casa da amiguinha. Tá quase na hora.


— Quanto ele ofereceu, Dess? Você ainda não aceitou?


Travo.


Desvio do olhar dele, mas não adianta. Vincenzo não pergunta quando não sabe.


— Não sou obrigada a te responder, idiota. Sai da frente. Eu me nego a brigar com você de novo. É só o que a gente tem feito. Brigar, brigar, brigar. Trepar que é bom, nada! Nada! Você não me acha atraente!? Ok! Dá até pra entender! Eu tô um monstro de gorda! Meus seios estão gigantescos e doloridos! Mas não briga comigo porque, a qualquer momento, eu posso chorar feito uma vaca alucinada! Depois não reclama!


Tento passar, mas ele não deixa.


— Dess.


— Sai da frente, Vincenzo Rossi!


Ele não sai.


Só me olha.


E isso é pior.


Respiro fundo, passo a mão no rosto, derrotada.


— Ele ofereceu uma grana boa… — confesso, baixo. — Boa mesmo.


Silêncio.


— E não — continuo, antes que ele fale — Eu não aceitei.


Agora ele respira.


De verdade.


— Nem considerei direito — minto mal, porque considerei, sim. — Eu só… desliguei. Não quero mais isso pra mim. Não quero voltar a ser aquela mulher.


Ele se aproxima devagar, como se tivesse medo de me quebrar.


— Dess… — a voz dele falha. — Você mudou por mim.


— Não. — balanço a cabeça, sentindo os olhos arderem. — Eu mudei por nós. Por ela. — levo a mão à barriga. — Por ele. Por tudo isso aqui. Eu não quero estragar.


Por um segundo, ele só me encara.


E então me puxa.


Forte.


— Você é incrível. — murmura contra meu cabelo. — Eu sei que a grana era boa. Mas você escolheu a gente. De novo.


— Porra… — começo a chorar antes de terminar a frase. — Que merda. Eu te avisei que meus hormônios…


Ele ri baixo, me segurando enquanto eu desmorono.


Meu celular vibra no bolso do vestido largo. Irritada, atendo.


— Eu já te pedi pra não ligar de novo, porra! — Pauso. — Cassie!? Há quanto tempo! Desculpa! — Gargalho. — Não era com você! Como??? Não acredito!!! Quando???


Vincenzo cruza os braços, me observando.


Se eu não estivesse me sentindo um balão prestes a explodir, eu já teria agarrado ele ali mesmo.


— Vocês dois??? Meu Deus!!! Onde??? Não acredito!!! — Rio, choro, tudo ao mesmo tempo. — Espera… — assoo o nariz na barra do vestido. — Fala!!! Não!!! Não mesmo!!! Tá!!! Vou esperar, hein??? Todos bem! Vincenzo tá me olhando como se eu fosse louca! Antoine? Ela tá daquele mesmo jeitinho que você conhece! Vai continuar te chamando de “safada”! Mesmo casada!


Mais uma gargalhada.


— Te amo! Manda logo!


Desligo ainda rindo.


— Não vai me contar o que a Cassie falou? — pergunta ele já ao volante. — Você ficou tão animada… — me olha de esguelha e trava. — Por que tá chorando, Dess? É algo triste?


— Não. — sorrio. — Não mesmo. Eles vão se casar, Vincenzo. Cassie e Liam estão noivos. E querem a gente como padrinhos.


— Que bom. Mas eu já sabia.


— Paspalho. Então por que perguntou?


— Liam pediu pra não contar. Cassie queria te surpreender.


— Detesto surpresas. Como eu vou subir no altar monstruosa desse jeito?


— Nunca mais fala assim. — Ele beija minha mão. — Você sempre foi linda. Mas agora… tá absurda.


Reviro os olhos.


— Se eu estivesse absurda assim, alguém ia querer alguma coisa comigo, mas…


Ele freia de repente.


A Kombi para no acostamento.


— O que foi!? O pneu furou!? A gente vai se atrasar! VINCENZO!


Ele ignora. Puxa a alavanca e reclina meu banco.


— Me ajuda! Tá difícil com essa barriga!


— Shhh… — sussurra, deitando ao meu lado. — Por que você não faz o que pensou em fazer?


— Eu?


— Sim. Aquele lance de me esfolar vivo de tanto sexo.


Ele ri, baixo, rouco.


Eu coro.


— A rainha do sexo vai recuar?


— Idiota…


Antes que eu reaja, ele puxa o tecido do meu vestido com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo. Suas mãos encontram meu corpo com uma mistura de cuidado e admiração que me desmonta mais do que qualquer pressa.


— Estão ainda mais lindos, Dess… — murmura, com aquele olhar insano que sempre me tira do eixo. — Não se menospreze. Esse é o momento mais precioso de uma mulher. Pena que muitas não enxergam isso. Vocês, mães… têm um poder que nem imaginam.


Seu beijo me cala.


E eu me perco.


— E a Antoine? — consigo perguntar, sem ar.


— Vai esperar um pouquinho. — Ele encosta a testa na minha, sorrindo de lado. — Agora eu quero minha mulher.


Reviro os olhos, rendida.


— Como diria sua filha… safado.


Um dia antes do casamento de Cassie e Liam, nossa família se mudou para o sobrado acima da academia de boxe. Sem condições de pagar o condomínio absurdo do apartamento, optamos pela mudança.

Antoine nos ajuda a abrir as caixas dos nossos pertences sem perceber o desânimo no rosto do pai. Eu sigo em silêncio, pesada, exausta, varrendo o chão do nosso quarto depois de pendurar nossas roupas em cabides apertados dentro de um único armário. Vendemos o meu, maior e mais caro, agora inútil para quem aprendeu a viver com menos — sem luxo, sem ostentação, sem o brilho vazio que me acompanhou desde jovem até a morte de Aiden.


Prostrado na poltrona predileta da sala, ele encara o teto enquanto empurro o berço do nosso filho para o centro do quarto. Dali, consigo ver Vincenzo. Tão pequeno dentro do nosso novo espaço. Dentro de mim, Matteo se move, como se me lembrasse de não ceder.


— Eu não vou, filho… eu não vou. — penso alto, segurando o travesseirinho com cheiro de lavanda.

Um chute forte me arranca um sorriso.


— Essa doeu, filho…


Antoine corre até mim, animada, pedindo que o irmão repita.


— Maninho, chuta de novo. Eu quero sentir.

Ela se apoia na cadeira de balanço onde pretendo amamentá-lo e observa Vincenzo com expectativa.


— Vincenzo! Vem aqui, por favor!

Ele desperta como de um transe e vem até nós. O sorriso dele é triste.


— Aconteceu alguma coisa, Dess? Tá sentindo dor?


— Sim.


— Onde? — ele pergunta, alarmado.

Levo minha mão ao peito.


— Aqui.


Ele entende. E, sem dizer mais nada, se ajoelha ao lado de Antoine e toca minha barriga. Matteo se move imediatamente.


Ele chora.


— Me perdoa…


— Pelo quê? — minha voz sai baixa. — Por me fazer a mulher mais feliz do mundo?


— Você sabe…


— Não sei de nada. A única coisa que sei é que estou feliz por estar com minha família, nesse nosso pequeno lar.

Ele olha ao redor, ainda com culpa.


— É tão pequeno, Dess…


— Eu gosto dele.


Antoine se aproxima e abraça o pai pelo pescoço.


— É melhor que o outro. Não tem sombras nas paredes.


Vincenzo congela.


— Sombras nas paredes? Por que nunca me disse isso?


Ela dá um beijo na bochecha dele.


— Porque elas eram boazinhas. Não davam medo. Medo eu tinha lá na casa do tio Aiden. Aquilo sim era assustador.


O nome pesa no ar.


Vincenzo tenta justificar, como se buscasse sentido no passado.


— Mas lá vocês tinham tudo… roupas de grife, escola particular, brinquedos caros, viagens…


Eu o interrompo.


— Exceto amor.


Silêncio.


— Tínhamos tudo o que o dinheiro dele podia comprar… menos paz. Menos amor. Nunca mais fale daquele lugar como se fosse melhor do que isso aqui. Nunca mais se compare a ele.


Meu tom não é raiva. É fim.


— Você é melhor do que tudo aquilo.


Antoine levanta, leve, e muda o ar da sala com uma música no celular conectada à caixa de som.


— Escuta essa, mãe. Papai gosta.


Olho surpresa.


— Eu não sabia disso…



A música enche o ambiente.


Ele se aproxima devagar e encosta a cabeça em minhas coxas. Chora em silêncio. Eu acaricio seus cabelos até ele respirar melhor.


— Te amo tanto…


— Eu fiz tudo errado, Dess. Não era pra ser assim.

Ele ergue o olhar, destruído por dentro.


— Eu não sou mau.


— Você é humano.


Enxugo suas lágrimas.


— Humanos erram. Humanos amam. Humanos quebram e tentam de novo. A vida é isso. Bem-vindo ao meu mundo, marido. Não me deixa.


A voz falha, mas não recuo.


— Não se afaste de mim por causa do seu erro. Quem não errou nesse mundo? E olha onde eu estou agora.


— Na pobreza?


— Não. No paraíso.


Ele me encara, sem entender.


— Se existe um, eu estou nele. E você está aqui comigo.


Ele me beija.


E por um instante, tudo parece inteiro.


— Até o fim?


— Até o fim.


Nosso filho se move novamente dentro de mim.

Sorrio… mas algo quebra por dentro.

Porque eu vi.

Eu vi onde ele esteve ontem.

E vi também o que o médico disse.

A felicidade segura minha mão… enquanto o medo me observa de longe.


— Até o fim… — repito, mais baixo.



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