CAPÍTULO 43 - SOMBRIO








Apesar de não ter notado o desempenho da debutante porque não tirava os olhos de Leo e Antoine, eu a elogio.

— Você está perfeita. Alguns ajustes aqui e ali e... “voilà”! — Movendo meus braços como as asas de uma borboleta prestes a cair, afirmo. — Sua apresentação será “meravigliosa”!

— Obrigada, tia! — Agradece-me ela por não ter cobrado nada por meu trabalho. Se ela soubesse que estou aqui somente para vigiar Antoine e Leo, certamente, não me agradeceria. — Você é demais. Leo já havia me dito isso, mas, agora, eu vi com meus próprios olhos. Como aprendeu a dançar tão bem!? Você já dançou profissionalmente em algum lugar!?

Se eu te disser a verdade, você ainda vai me considerar “demais”? E seus pais!? Uma stripper de puteiro como coreógrafa da adolescente inocente!? Talvez, ela não seja tão inocente quanto parece.

— Tia!?

— Oi?

— Esquece! — Rindo, ela comenta que sou engraçada. — Vou treinar muito até a festa! Não irei te decepcionar!

— Tenho certeza disso! — Beijo o topo de sua cabeça e aconselho. — Treine mais um pouco com seu namorado. Ele é um tronco de árvore travestido de humano.

Gargalhando, ela se afasta e se mistura à turma de onde Antoine e Leo ainda não se afastaram.

— Hora de ir embora, filha.

— Sério, mãe!? O pessoal tá querendo comemorar o último ensaio na pizzaria aqui ao lado! — Um olhar de cachorro pidão e ela me indaga. — Eu não posso ir com o Leo?

— Não. — Respondo sem rodeios. Entre os jovens, ela vai se esquecer de quem verdadeiramente é e vai se perder assim como eu me perdi quando tinha sua idade. Ou não? Ela não se parece em nada comigo aos quinze anos. Aliás, eu nem sei quantos anos tem minha própria filha.

— Mãe!!! Responde!!!

— Não!

— Leo não pode ir lá pra casa!? Por quê!? A gente só quer comemorar o término dos ensaios e assistir aos filmes novos na TV!

— Se eu estiver pedindo muito, tia, pode falar, “de boas”. Não quero ser aquele que rouba a harmonia de uma família bacana como a sua.

— Aaah... não.

— Não o quê, mãe!? Ele pode ir ou não!?

— Ir aonde!? — Antoine me responde, impaciente.

— À nossa casa, mãe!

— Antoine, menos. Bem menos. Ok? — Surge Vincenzo no ginásio com Matteo em seu colo.

— Desculpa, pai.

— Peça desculpas à sua mãe. Ela só quer o seu bem. Está cansada por acumular funções só pra satisfazer seus desejos.

— Eu sei... — Assume Antoine, arrependida.

Orgulhosa de Vincenzo por estar aprendendo a orientar nossa filha, eu o abraço. Recostando meu rosto em seu peitoral, agradeço.

— Obrigada, amor.

— Estamos juntos nessa, Dess.

Diz ele ao volante enquanto esperamos Leo e Antoine se despedirem de seus novos amigos de infância na porta do colégio.

Dentro do carro, seco minhas lágrimas enquanto Vincenzo argumenta.

— Você tem medo que ela se entregue ao Leo? Isso nunca vai acontecer. Não é isso o que ela tem buscado. Acredite em mim. Antoine está encantada por algo raro, Dess. Algo puro. E sentimentos assim... unem pessoas pra sempre.

— PRA SEMPRE!? — Grito, assustada. — Você diz... sempre... pra sempre!? Ela não pode se ligar a ele! Antoine é diferente! Especial! Isso não pode acontecer!

— Quem te disse isso, Dess!? Quem pode provar isso!? Ela é especial!? Sim! Talvez seja um serafim! Um querubim! E daí!? Alguém já escreveu sobre a história de serafins e querubins que se apaixonam por humanos e que se ferram no final!?

— Acho que não... — Respondo, confusa.

De mãos dadas, Antoine e Leo se aproximam do nosso carro. Vincenzo, preocupado em me acalmar, prossegue.

— Então deixa rolar, Dess. Pelo que ouvi naquela noite desagradável em que você se libertou do espelho, Leo não é um simples humano. Filho de Astaroth, o grande duque do inferno, ele deve ter herdado algum tipo de poder do pai.

— Quem era Astaroth!?

Um arrepio percorre meus braços antes que Vincenzo responda num tom sombrio.

— A pergunta certa é: quem é Astaroth? Ele ainda existe, Dess.

— Puta que pariu! Agora todo mundo descende de algum ser diabólico ou celestial!? Que merda é essa!? Quem é essa coisa!?

— Quer mesmo saber?

— Acho que não.

— Ok.

— FALA! — ordeno, nervosa.

Rindo da minha aflição, Vincenzo esclarece:

— É um demônio de hierarquia superior. Tanto que o chamam de “Duque do Inferno”.

— Cacete! Sério!? Leo é filho dele!? Aaaah! — Levo a mão ao peito, ironizando. — Agora eu tô super tranquila! Vou dormir muito bem a partir de agora!

— Posso continuar?

— Vai! Continua! O que mais de pior eu posso ouvir dessa criatura fofa!?

— Ele, graças ao “amiguinho” dele, se rebelou contra o Criador e, contrariando a própria vontade, foi expulso do Paraíso. Astaroth se considera injustiçado. Era um dos grandes serafins, mas se deixou levar por Lúcifer e acabou se ferrando.

— Você também “caiu” por engano. Né?

O sorriso de Vincenzo vacila por um segundo.

— Por que a pergunta?

— Porque você não responde. Que olhar é esse? Tá com medo?

— Não tenho medo, idiota. — rebate ele, rindo baixo. — Só achei engraçada sua pergunta.

— Responde. Você “caiu” por engano mesmo? Ou foi expulso também? Não ri. Não me esconde nada, Vincenzo. Por favor.

Ele suspira, mantendo os olhos fixos no limpador de para-brisas.

— Já te contei essa história. Eu caí por engano... mas resolvi ficar. Resolvi procurar você. Eu não me revoltei. Amo O Criador. Astaroth não. Nunca o vi pessoalmente, mas sei quem ele é. Está abaixo de Lúcifer na hierarquia infernal e comanda quarenta legiões de demônios. Ainda acredita que pode voltar ao Céu e convencer O Criador de que tudo foi um grande mal-entendido.

— Isso é patético.

— Dizem que ele é extremamente persuasivo. Humanos o invocam para aconselhamento.

— E quem invocaria um demônio!? Pra quê!? Conversar!?

— Porque ele enxerga passado e futuro. Tem gente desesperada o suficiente pra qualquer coisa. Além disso... ele é conselheiro daquele filho da puta que acredita ter algum parentesco com nosso filho.

— Conselheiro!? — Gargalho, incrédula. — Do Lúcifer!? Não acredito que exista reunião corporativa no inferno!

Vincenzo ri pelo nariz.

— Nosso mundo é só um reflexo do outro lado, Dess. O que existe aqui... já existia lá.

Intrigada, concluo:

— Então, se ele está ao lado de Lúcifer, as quarenta legiões dele lutam contra aquela “Legião” de merda que infernizou nossas vidas!

— Talvez. — Ele me encara rapidamente. — No que você tá pensando?

— Que temos dois supertimes sobrenaturais disponíveis contra essa seita maldita! — ironizo. — Aliás, precisamos revisar o plano de resgate da Cassie e do Sean.

O semblante de Vincenzo endurece imediatamente.

— Dess, nenhum desses demônios está do nosso lado, porra. Quantas vezes eu vou precisar repetir isso? Você não serve a dois senhores. Para de romantizar criatura caída. Eles são perigosos. Escolhe teu lado e acorda.

O tom dele me desmonta.

Mais baixo, respondo:

— Eu já escolhi meu lado. É onde você estiver.

O maxilar dele relaxa.

— Então nunca se deixe seduzir por eles. Anjos caídos sabem exatamente o que dizer.

— Não vou.

Seguro sua mão sobre o câmbio e beijo o dorso de seus dedos.

Lembrando-me de Cassie e Sean, sussurro:

— Precisamos de um plano.

— Que plano, mãe!? — pergunta Antoine, atirando-se no banco traseiro e puxando Leo para perto de si.

Eufórico, Matteo bate palminhas.

— Naninha!

Sem graça, Leo se afasta imediatamente ao notar meu olhar.

— Podemos participar desse plano? — insiste Antoine.

— Claro que não! Desacelera! Isso aqui é conversa de adulto!

— Dess...

— Eu só queria ajudar... — choraminga ela no ombro de Leo.

Contorcendo metade do corpo para trás, afasto os dois com as mãos.

— Pode começar me ajudando ficando longe dele. Que grude infernal! Leo, querido, mais pra esquerda, por favor. Coloca Matteo no meio de vocês. Obrigada.

— Mãe! Já saímos do ensaio! Chega de dar ordens!

— Quer ver eu dar outra, saindo quentinha do forno!? Fica quieta! Não quero ouvir sua voz até chegarmos em casa!

Uma risada abafada escapa de Leo.

Antoine cruza os braços.

— Ela me trata como criança.

— Porque você é uma criança, filha!

— Tenho quase quinze!

— Antoine... — interrompe Vincenzo, cansado. — Faz o que sua mãe pediu. Daqui a pouco ela desiste do baile.

— Tem razão. — resmunga ela. — Calei.

O silêncio dura pouco.

O suficiente pra minha paranoia voltar.

Olho Leo pelo retrovisor interno.

— Você disse que nunca conheceu seu pai. Certo?

— Sim. Minha mãe nunca falou dele. Por quê, tia?

— Por nada. — Minto rapidamente. — Tô pensando em genética... hereditariedade... essas coisas nada assustadoras.

Vincenzo gargalha.

Leo troca um olhar curioso com Antoine.

— Aquilo que a “outra morta” falou naquela noite pode ser verdade, mãe?

Meu corpo inteiro enrijece.

— O quê? Nem lembro mais.

— “Astaroth”. — Leo dá de ombros. — Ela mencionou esse nome. Sinceramente? Aquela conversa foi perturbadora pra caralho.

— Concordo. Vamos mudar de assunto. — apresso-me em responder. — Já escolheu seu terno pro baile?

O rosto dele finalmente se ilumina.

— Já! Irado! Aluguei um. Saiu bem mais barato.

— Um pretinho básico?

Antoine prende o riso.

— Não, mãe. Vermelho. Bem estilo infernal.

Meu pescoço quase quebra quando me viro abruptamente.

— Sério!? Por quê!?

Leo levanta as mãos, rindo.

— Zoação, tia! Só pra destoar dos outros!

Afundo no banco.

— Aaaah tá...

— E o vestido da Antoine? Gostou? — pergunta ele.

— Oi???

Antoine empalidece instantaneamente.

— Eu ia contar, mãe! Calma!

— Contar o quê, Antoine Rossi!?

— Por que não contou logo? — pergunta Leo, confuso.

— Porque ela queria continuar viva — resmunga Vincenzo ao volante.

Até eu rio dessa. Nervoso puro. O tipo de risada que antecede tragédia em família amaldiçoada. 

— Antoine... — rosno lentamente. — Que vestido é esse?

— Dess, se continuar girando desse jeito, vai deslocar o pescoço — comenta Vincenzo. — Quer trocar de lugar com eles?

— Vai pro inferno, Vincenzo!

— Calma, mãe! Eu explico! Juro!

Volto lentamente para frente.

Inspiro.

Expiro.

E anuncio, entre dentes:

— Em casa... a gente conversa.






— Eu fui a culpada, querida. Estou tão excitada com essa coisa de debutante que me empolguei.

— Você se empolgou demais, Celeste. Comprar um vestido para minha filha sem a minha permissão!? — Aos prantos, assoo o nariz ruidosamente. — Isso não se faz.

— Era um presente, mamãe.

— Ainda assim, foi sem a minha permissão! Nós éramos tão unidas, filha! O que aconteceu!?

— Ainda somos, mãe... — Lamenta Antoine antes de beijar minha bochecha. — Não chora.

— Você recebeu um presente sem a minha permissão.

— Presentes não precisam de permissão! — Refuta ela, indignada.

— Antoine! — Repreendo-a, irritada com suas mudanças bruscas de humor. — Você precisa se controlar! Ser mais equilibrada!

— Como você, Dess?

— Vá para o inferno, Vincenzo. — Rosno. — Não me provoca.

— Ele ficou lindo em mim, mãe! Quer ver!?

— Agora você quer me mostrar!? Só agora!?

— Tia, perdão. Eu não queria causar essa confusão. — Lamenta Leo, sentado à bancada da cozinha enquanto Antoine corre até o quarto prometendo voltar usando o vestido. — Acho melhor eu ir embora. Já causei problema demais.

— Fica aí e come as batatas, Leo! — Ordeno, inquieta. — Vamos lanchar todos juntos!

— Quer um suco de maracujá, Dess?

— Quero que você enfie o maracujá no seu...

Sufoco um soluço.

Um “uau” escapa dos meus lábios assim que a vejo surgir no corredor.

Encabulada, Antoine para diante da bancada.

Celeste, emocionada, corrige sua postura delicadamente, mantendo sua coluna ereta e o queixo elevado.

— É assim que uma princesa deve caminhar, meu amor.

— Obrigada, vovó...

Emudeço.

O vestido rosa, simples e delicado, abraça seu corpo de maneira cruel aos meus olhos. As alças finas, o tecido franzido abaixo dos seios, a saia longa e plissada balançando suavemente conforme ela anda.

Ela está linda.

Linda demais.

Os olhos de Leo encontram os dela e ele simplesmente para de respirar por alguns segundos.

Vincenzo é o primeiro a quebrar o silêncio.

Abraçando Antoine, ele beija seus cabelos e sussurra:

— Você está linda, filha.

— Obrigada, pai. — Antoine sorri antes de me encarar. — Mãe? O que achou?

“Deslumbrante.”

Era isso que eu deveria dizer.

Mas o medo fala antes.

— Um pouco exagerado para sua idade.

Seja lá qual for essa idade.

— Talvez um xale... um tule bordado por cima...

Próxima dela, pigarreio, tentando cobrir seu decote com um pano de prato como uma completa maluca.

— Sobre essa parte onde seus...

Vincenzo segura meu pulso antes que eu consiga continuar.

Retira o pano das minhas mãos e me encara.

— Ela está perfeita, Dess. O vestido não mostra nada. Nada além de uma adolescente feliz, pronta para viver uma noite especial. Certo?

Meu peito aperta.

Assinto devagar.

— Certo.

Abraço Antoine com força.

Forte demais.

— Você está linda, filha.

— Obrigada, mãe. Mas não vale chorar.

— Não vou.

Mentira.

De costas para todos, volto à bancada e alimento Matteo enquanto as lágrimas escorrem silenciosamente.

Estou perdendo minha filha.

De um jeito ou de outro... ela vai partir.

— Olha o aviãozinho...

Brinco com Matteo para esconder o tremor na voz.

Então lembro de Sean.

Pequeno. Fraco. Morrendo aos poucos.

Um tapa involuntário ecoa na bancada.

Leo se assusta.

— Acorda! Nunca viu Antoine antes!?

— Não assim... — Suspira ele. — Assim tão... tão...

— Bela? — Sugere Enrico ao abraçar a neta. — Nunca a viu tão bela assim?

— Isso. — Leo sorri, sem conseguir desviar os olhos dela. — Nunca.

Antoine ruboriza imediatamente.

— Já volto!

Ela desaparece corredor adentro. Retorna, vestindo uma das camisas largas de Vincenzo, cobrindo os joelhos.

Os cabelos presos de qualquer jeito.

Descalça.

Minha menina.

Quase consigo acreditar que ainda tenho tempo.

Quase.

— Leo, conta para minha mãe aquela história sobre sua mãe antes de você nascer.

— Por que agora, Antoine? — Indaga ele, desconfiado. — Eu estava conversando com seu pai.

Dando de ombros, ela morde o sanduíche e responde de boca cheia:

— Porque eles precisam saber. Ué.

— Saber o quê? — Roubo uma batata do prato dela. — O que eu preciso saber?

— Vai por mim, mãe. — Antoine devora o hambúrguer como se não comesse há dias. — Acho que isso vai ajudar muito na Grande Batalha.

— Antoine... — Reviro os olhos. — Essa conversa de novo? Não existe “Grande Batalha”.

— Existe sim. — Seu tom muda abruptamente. Frio. Sério demais para alguém tão jovem. — E nós estamos no meio dela. Conta, Leo.

— Contar o quê!?

— Que sua mãe invocava uma entidade antes de você nascer. Ela gostava de brincar com ocultismo. Fazer perguntas para uma coisa ruim.

— Isso é bobagem, Antoine. — Refuta Leo, imediatamente desconfortável.

— Não é não. — Protesto antes de encará-lo. — Com quem sua mãe falava, Leo?

Ele hesita.

Muito.

— Não lembro do nome, tia. E prefiro continuar sem lembrar. Minha mãe e as amigas dela faziam umas sessões estranhas na outra casa. Parece que uma delas acabou se dando mal.

O brilho divertido desaparece de seus olhos.

— Não gosto de falar disso. Me sinto... estranho. Podemos mudar de assunto?

— Claro. — Vincenzo responde antes mesmo que eu consiga abrir a boca. — Ninguém vai te obrigar a reviver algo ruim nessa casa, Leo. Fica tranquilo.

— Valeu, tio. Isso... sei lá... me enfraquece.

— Porque suga sua energia. — Explica Vincenzo. — Certas coisas deixam marcas. Melhor deixar quieto.

— Ok.

Vincenzo me encara.

— Ok?

Lembrando-me de Astaroth, cedo contrariada.

— Ok! Tudo bem! Não fui eu quem começou essa conversa!

Antoine se inclina discretamente na minha direção e cochicha:

— Depois eu te conto tudo, mãe. Ele ainda não sabe, mas pode ajudar muito a gente.

— Tadinho... — Murmuro.

Ao tentar roubar outra batata frita, meu braço esbarra no de Leo.

E então acontece.






A visão me atravessa como uma lâmina.

Levanto tão rápido da banqueta que quase a derrubo no chão.

— Dess!? — Assusta-se Vincenzo.

Sem conseguir responder, arranco Matteo dos braços de Antoine e praticamente o jogo nos braços de Vincenzo antes de correr para a área de serviço.

O vômito queima minha garganta.

Apoiada no tanque, tremendo, ouço os passos apressados de Vincenzo atrás de mim.

— O que você viu, Dess? Isso nunca aconteceu antes.

Abro a torneira e enxáguo a boca, tentando recuperar o ar.

— Depois... depois. Ainda não entendi direito.

Mas entendi.

Entendi o suficiente.

Ergo os olhos lentamente.

— A mãe do Leo não está bem, Vincenzo.

Minha voz falha.

— Ela não faz ideia do que está vindo atrás dela.

— Puta que pariu... — Resmunga ele, passando as mãos no rosto. — A gente não consegue se aproximar de uma família normal?

Encaro a água escorrendo pelo tanque.

Escuto as risadas vindas da cozinha.

Antoine.
Leo.
Matteo.
Celeste pedindo música para a Alexa como uma senhora possuída por tecnologia barata.

E então murmuro:

— Acho que nós somos o problema.





Mais uma vez, assisto Antoine dançar em um ginásio escolar.

Há menos de dois anos, ela dançava com Thor, um menino de dez anos.

Agora, sorri nos braços de um rapaz prestes a completar dezenove.

Se eu já não fosse completamente louca, enlouqueceria ali mesmo.

Da arquibancada, ao lado de Vincenzo, Enrico e Celeste, observo minha filha enquanto Matteo cochila em meu colo, alheio ao caos emocional da própria família.

— Puxou à mãe! — Vibra Celeste, batendo palmas como uma criança encantada. — Ela nasceu para isso!

E nasceu mesmo.

Antoine dança como se tivesse sido criada para iluminar ambientes escuros.

Leo é o culpado.

Ao lado dele, ela simplesmente... brilha.

Enquanto alguns casais erram os passos e tropeçam no nervosismo, os dois parecem ouvir uma música diferente. Uma música só deles.

A coreografia é um sucesso.

Sob aplausos, a debutante agradece emocionada pelos passos que “criou”.

Quase gargalho.

Há poucas horas, ela dizia ser humilde.

Agora, absorve cada aplauso como uma atriz faminta diante de um palco lotado.

Antes que Antoine atravesse o salão e arranque o microfone da mão da aniversariante para defender minha honra, seguro seu braço e a puxo discretamente para perto de nós.

— Você foi a melhor, filha. — Acaricio seus cabelos úmidos de suor. — Tem o dom de encantar as pessoas. Não se importe com ela. Aprenda uma coisa: existem amigas... e “amigas”.

— No momento — acrescenta Vincenzo — Você tem sua família.

— E eu!? — Protesta Leo, indignado e ofegante após a dança.

— E o Leo. Claro.

— Leo é mais do que amigo! — Exulta Antoine, irradiando felicidade.

Meu coração quase para.

Mas ela continua:

— Ele é meu Best Friend Forever!

Solto o ar lentamente.

— Aaah tá. Continuam amigos. Isso é ótimo.

— Minha mãe é boba. Né, Leo?

Leo sorri daquele jeito desarmado que me faz entender, tarde demais, que Vincenzo estava certo.

Eles realmente se amam.

Não da forma como temo.

Talvez de uma maneira pior.

Mais profunda.

Mais eterna.

Meus olhos se enchem de lágrimas antes mesmo que eu perceba.

A voz embarga quando ergo o celular diante deles.

— Parem! — Ordeno, emocionada. — Quero eternizar esse momento!

Antoine arregala os olhos, empolgada.

— Uma selfie, mãe!?

— Não. — Murmuro enquanto aproximo o celular e tento controlar o tremor em minhas mãos. — Uma prova de que vocês existiram felizes antes do fim.

Silêncio.

Vincenzo me encara imediatamente.

Leo perde o sorriso aos poucos.

Antoine franze a testa.

E eu me arrependo da frase no mesmo instante.

Porque, pela primeira vez naquela noite...

o medo escapou da minha boca.


— Não. — Minha voz falha novamente ao explicar. — Somente vocês dois. Leo, abrace Antoine. Antoine, recoste a cabeça no ombro dele e sorriam. Apenas sorriam.

Minhas mãos trêmulas mal conseguem centralizar a imagem.

Vincenzo percebe.

Sem dizer nada, toma o celular delicadamente dos meus dedos antes que eu comece a chorar na frente deles.

— Digam “Cheeseburguer”!

Rindo, Antoine e Leo repetem a palavra idiota enquanto Vincenzo tira várias fotos seguidas.

E, em todas elas, Antoine parece absolutamente feliz.

Uma felicidade rara.

Quase sagrada.

Eu guardaria aquela imagem pela Eternidade.





Guardaria como prova de que, antes da guerra, minha filha teve uma noite comum.

Uma única noite comum.

Deixamos Antoine, Matteo e Leo sob os cuidados de Enrico e Celeste.

Pela primeira vez desde que saímos de casa, Celeste parece verdadeiramente sóbria.

E assustada.

— Aquele homem não é o que parece. — Alerta ela, aflita. — Ele é cruel. Não tem coração.

— Liam chegou a fazer algo contra você, Celeste? — Pergunto enquanto caminhamos até o carro. — Por que tanto medo dele?

Celeste demora a responder.

Como se revivesse algo horrível.

— Porque ele gosta de sofrimento. — Sua voz vacila. — Ele gosta de assistir pessoas perderem tudo lentamente. Igual aos outros da Legião.

Já dentro do carro, viro-me abruptamente para ela.

— Então ele pertence mesmo à Legião!?

— Não apenas pertence. — Corrige Celeste, aproximando-se da janela de Vincenzo. — Liam é um dos líderes.

Meu sangue gela.

Mas ela ainda não terminou.

— Cassie não foi a primeira esposa dele.

O silêncio dentro do carro torna-se sufocante.

— Antes dela, existiu outra mulher. Outra criança. E ele fez exatamente a mesma coisa com os dois.

— O quê...?

Celeste fecha os olhos por um instante.

— Eles morreram.

Sinto o ar desaparecer dos meus pulmões.

— Maldito filho da puta... — Sussurro entre lágrimas. — Isso não vai acontecer com a Cassie. Não enquanto eu estiver viva.

— Vamos. — Interrompe Vincenzo, tenso ao volante. — Já está tarde demais e ainda nem sabemos o que vamos encontrar lá dentro.

Celeste segura o rosto do filho entre as mãos antes que ele feche a janela.

— Vá com Deus, meu filho.

Beija sua testa.

Enrico aproxima-se da minha janela em seguida e coloca um velho rosário de madeira em minhas mãos.

— Só por precaução. — Sorri ele.

Beijo a pequena cruz de madeira automaticamente.

Enrico então beija minha testa e murmura:

— E quando chegar a hora... bata com força.

Franzo a testa.

— Oi?

Mas Vincenzo já acelera antes que ele explique.

A casa desaparece lentamente pelo retrovisor.

Seguro o rosário com tanta força que meus dedos doem.

— Estou com medo, Vincenzo.

— Somos dois. — Confessa ele sem tirar os olhos da estrada. — Qual é o plano?

— Não faço ideia.

— Dess...

— Ué! O plano é entrar lá e tirar Cassie e Sean daquela casa!

— Isso não é um plano! Isso é um surto!

— Vincenzo, não me irrita! Eu já estou nervosa!

— E eu estou o quê!? Relaxado!? — Rosna ele, apertando o volante. — Nós vamos enfrentar um culto demoníaco sem plano nenhum! Sensacional!

— Então inventa um, sabichão!

— Cala a boca e me deixa pensar!

Cruzo os braços imediatamente.

— Você não é bom nisso. Melhor eu pensar e você ouvir meus pensamentos. Pronto. Já temos o plano A.

— “A” de abestada.

— “A” de amor da sua vida, querido. Dirige!

Apesar do medo, Vincenzo deixa escapar uma risada curta e nervosa.

Então o silêncio volta.

Pesado.

Denso.

A estrada escura parece longa demais.

Até que, finalmente, a mansão surge diante de nós.

Sombria.

Imensa.

Errada.

As luzes acesas parecem olhos observando nossa chegada.

Meu coração dispara.

— Que Deus nos ajude...

— Amém. — Sussurra Vincenzo.

E, pela primeira vez naquela noite...

nenhum de nós estava brincando.






O grande portão principal está entreaberto.

Um simples empurrão e já estamos dentro do imenso jardim de Liam e Cassie. As luzes douradas espalhadas entre as árvores iluminam caminhos de pedra impecáveis, fontes ornamentais e esculturas absurdamente caras. Dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro suficiente para esconder horrores atrás de paredes bonitas.

Apesar do medo crescente, caminhamos de mãos dadas até a escadaria da varanda principal.

Uma olhadela para a fachada reformada e concluo:

— Eles gastaram uma fortuna nessa casa.

Num movimento brusco, Vincenzo me puxa pelo braço e me esconde atrás de um arbusto alto.

— Se continuar pensando alto desse jeito, vamos ser presos. Isso é invasão de domicílio.

— Desde quando!? — cochicho, ajoelhada na grama úmida. — Cassie é da família!

— Liam não é, Dess! E se ele chamou a polícia!? Cadê o teu plano!?

— No meu cu!




O desgraçado perde o controle e começa a rir.

Rir.

Ali.

No meio daquela porra toda.

Rindo dele, tento puxá-lo pela camisa.

— Levanta! Que agentes secretos de merda nós somos!?

Ainda jogado no gramado molhado, ele limpa lágrimas de riso dos olhos.

— Agentes secretos!? Dess, isso é a coisa mais ridícula que já saiu da tua boca!

Um ruído metálico vindo dos fundos da casa nos faz congelar.

No mesmo instante, corremos agachados até um gazebo de madeira coberto por trepadeiras. Nos escondemos atrás de vasos enormes de samambaias enquanto espiamos pela abertura estreita entre as folhas.

Liam está na área de serviço.

Não sozinho.

As figuras ao seu redor parecem humanas apenas por alguns segundos. Altas. Distorcidas. Esfumaçadas. Como corpos feitos de fumaça tentando permanecer sólidos.

Símbolos luminosos giram sob seus pés molhados pela chuva fina.

Após um cumprimento grotesco, quase ritualístico, as criaturas começam a girar ao redor de Liam cada vez mais rápido.

O ar vibra.

As luzes piscam.

Então eles desaparecem.

Não como pessoas indo embora.

Como fumaça sendo sugada para dentro de um ralo invisível.

Vincenzo se inclina para mim.

— O que você tá vendo?

— Lê a porra dos meus pensamentos! Não dá pra explicar!

— Por que não!?

— Porque eu tô com medo...

Naquele instante, apesar do horror, ele me abraça.

Forte.

Humano.

Quente.

— Vai dar tudo certo. Deus é conosco.

Fecho os olhos por um segundo.

— Assim seja...

Quando volto a olhar para fora, Liam está sozinho.

Ou pior.

Talvez não esteja.

— Eles foram embora — sussurro.

— Quem?

— A Legião.

O silêncio da casa me arrepia.

Nenhuma música.

Nenhuma televisão.

Nenhuma risada.

Nada.

Só aquela sensação maldita de que algo horrível já aconteceu.

— Se não tiver uma convenção demoníaca acontecendo aí dentro, acho que a casa tá vazia.

— “Acha”? Excelente. E agora?

— Agora a gente entra, porra!

— Dess, não!

Mas já é tarde.

Um choro atravessa a casa.

Cassie.

Disparo pela sala principal sem pensar.

Os degraus parecem intermináveis sob meus pés enquanto subo para o segundo andar ignorando completamente o fato de que alguém pode estar nos observando.

O choro de Sean aumenta.

Abro a porta do quarto com violência.

Cassie está jogada no canto do cômodo.

Descalça.

Tremendo.

Os cabelos grudados no rosto molhado de suor.

Sean chora desesperadamente dentro do berço.

Há sangue no lençol.

Muito sangue.

Meu coração para.

Corro até ele e o pego nos braços.

Leve demais.

Frio demais.

Ao afastar o tecido do macacão, meu estômago revira.

Picadas.

Dezenas delas.

Marcas recentes espalhadas pelas coxas minúsculas e pelos braços esquálidos.

Sean mal consegue chorar.

Seu rostinho está pálido.

Exausto.

Como se já tivesse desistido de lutar.

Engolindo o desespero, enrolo seu corpinho num cobertor e me sento ao lado de Cassie no chão.

— Cassie... sou eu... olha pra mim...

Ela não me reconhece.

As pupilas absurdamente dilatadas vagueiam lentamente até meu rosto.

Confusas.

Distantes.

Seu corpo escorrega pela parede até desabar completamente no chão.

Vincenzo entra logo depois.

Ao vê-la, sua expressão muda na mesma hora.

Ele segura os braços de Cassie e examina seus antebraços.

Perfurações.

Mais marcas.

Com a lanterna do celular, ele abre suas pálpebras.

Nenhuma reação à luz.

Nenhuma.

Só então percebo seus dedos azulados.

A pele fria.

Os lábios secos.

E o cheiro.

Um cheiro químico.

Doce.

Podre.

Como remédio vencido misturado com sangue.

Vincenzo me encara.

E, pela primeira vez naquela noite, vejo verdadeiro pânico em seus olhos.

— Overdose! — diagnostica Vincenzo, imediatamente. — Ela não pode apagar!

Ele estapeia o rosto de Cassie numa tentativa desesperada de mantê-la consciente.

— Cassie! Olha pra mim! Fica acordada! Porra!

Seus olhos continuam perdidos.

Vidrados.

Mortos.

Erguendo-a nos braços, Vincenzo me manda segui-lo enquanto recua pelo corredor.

— Devagar! E não solta o Sean!

Agarro o bebê contra meu peito e o acompanho.

Então algo prende meus cabelos.

Com força.

Violência pura.

Minha cabeça é puxada para trás num tranco tão brutal que sinto lágrimas saltarem dos meus olhos.

— Dess!

O grito de Vincenzo ecoa longe.

Caio de costas no chão de madeira e sou arrastada pelo corredor.

Liam segura meus cabelos enrolados em seu punho enquanto me arrasta como se eu não pesasse nada.

Sorrindo.

Aquele maldito está sorrindo.

Esperneio, tentando proteger Sean contra meu peito enquanto minhas unhas arranham inutilmente o piso.

A dor no couro cabeludo é insuportável.

Vincenzo larga Cassie perto da escadaria e avança.

Não como um homem.

Como um animal.

Ele salta sobre Liam com violência suficiente para fazê-lo me soltar.

Arfando, engatinho imediatamente até Cassie.

Sean chora fraco em meus braços.

Fraco demais.

A respiração de Cassie falha sob meus dedos.

— Cassie! Cassie, acorda!

Estapeio seu rosto.

Nenhuma reação.

Atrás de mim, ouço vidro tremendo.

Madeira rachando.

Rosnados.

Ao me virar, vejo Liam e Vincenzo lutando perto do guarda-corpo de vidro da escada.

Os dois praticamente despencando juntos sobre a estrutura.

Então Liam assovia.

Um som fino.

Agudo.

Errado.

As luzes da casa oscilam violentamente.

As sombras ao redor começam a se mover.

Não sombras normais.

Elas escorrem pelas paredes.

Pelo teto.

Pelo corrimão.

Figuras escuras e distorcidas flutuam acima de nós como corpos afogados pendurados no vazio.

Uma delas mergulha sobre Vincenzo.

Outra segura seus braços.

Outra envolve seu pescoço.

Ele tenta lutar, mas seus movimentos ficam lentos.

Pesados.

Como se dezenas de mãos invisíveis o puxassem para trás.

Metade de seu corpo já está pendurada para fora do segundo andar.

Abaixo dele, o piso da sala principal parece distante demais.

Um tombo dali quebraria sua coluna.

Ou pior.

Liam aperta sua garganta enquanto sorri.

— Você realmente achou que podia entrar na minha casa?

Vincenzo tenta responder, mas só consegue tossir.

As sombras o esmagam contra o vidro.

O guarda-corpo estala.

Não penso.

Só ajo.

Puxo Cassie pelos braços até o quarto mais próximo enquanto Sean chora em meu colo.

Seu corpo é absurdamente leve.

Leve como algo que já começou a morrer.

Deixo os dois sobre um enorme tapete persa e corro de volta.

Vincenzo está cedendo.

As pernas escorregando.

As mãos falhando.

Liam vai matá-lo.

Corro.

Salto sobre as costas daquele desgraçado e travo meu braço ao redor de seu pescoço.

Aperto sua garganta com toda força que tenho.

Meu antebraço afunda contra sua traqueia enquanto tento puxá-lo para trás.

— SOLTA ELE!

Seu corpo nem se move direito.

É como tentar derrubar uma parede.

Mesmo assim continuo pressionando.

Meu bíceps trava sua nuca.

Minhas pernas envolvem sua cintura.

Ouço sua gargalhada baixa.

Doente.

Divertida.

— Interessante...

Ele recua violentamente e me arremessa contra a parede.

Minhas costas explodem em dor.

O impacto rouba o ar dos meus pulmões.

Caio de joelhos.

Vincenzo consegue se afastar da queda no último segundo.

As sombras continuam girando ao nosso redor.

Batendo contra nossos corpos.

Entrando em nossas bocas.

Nos olhos.

Nos pulmões.

Cada respiração parece mais pesada.

Mais difícil.

Liam se vira lentamente para mim.

O sorriso desapareceu.

Agora existe ódio.

Ódio verdadeiro.

Ele ergue o punho.

— Eu sempre quis fazer isso.

Desnorteada, sentindo uma dor lancinante atravessar meu olho esquerdo, caio contra o piso de madeira.

O gosto metálico do sangue invade minha boca.

Vincenzo rosna um palavrão e avança sobre Liam.

Um golpe.

Dois.

Três.

Os socos violentos atingem o rosto do maldito em sequência, fazendo sua cabeça virar brutalmente para os lados.

Liam cambaleia.

Atordoado.

Aproveitando a vantagem momentânea de Vincenzo, me arrasto até Cassie.

Num esforço quase impossível, ela consegue envolver Sean nos braços.

Mesmo dopada.

Mesmo morrendo.

Ainda tenta proteger o filho.

Caio ao lado deles e cubro seus corpos com o meu.

As sombras invadem o quarto.

Agora consigo vê-las direito.

Rostos alongados.

Dentes pontiagudos.

Olhos vazios.

Corpos distorcidos rastejando pelas paredes e teto como insetos gigantescos feitos de fumaça.

Minhas mãos tremem ao agarrar o rosário de madeira de Enrico.

Ergo-o diante delas.

Fecho os olhos.

— Miguel... nos proteja...

Um clarão explode dentro do quarto.

Não forte.

Breve.

Mas suficiente.

As criaturas recuam imediatamente, emitindo sons agudos e insuportáveis antes de desaparecerem na escuridão.

Arfando, tento recuperar a visão embaçada pelo golpe de Liam.

É quando vejo os tacos de baseball pendurados na parede.

Uma coleção inteira.

Claro.

Liam ama baseball.

Tateando a parede, escolho o mais pesado.

O mais longo.

Seguro o taco com as duas mãos enquanto minhas pernas vacilam sob meu próprio peso.

Cada passo no corredor parece torto.

Distante.

Irreal.

Quando saio do quarto, vejo Liam chutando Vincenzo violentamente contra o guarda-corpo de vidro.

O impacto faz a estrutura explodir em milhares de fragmentos brilhantes.

Vincenzo desaparece parcialmente junto aos estilhaços.

Meu coração para.

Ele consegue se agarrar à coluna metálica ao lado da escada.

Metade do seu corpo está pendurada no vazio.

Lá embaixo, a sala principal parece distante demais.

Uma queda daquela altura destruiria suas pernas.

Talvez sua coluna.

Liam gargalha ao caminhar lentamente até ele.

— Pronto pra voar novamente, irmão? — debocha. — Usa suas asas.

As palavras de Enrico ecoam na minha cabeça.

“Quando chegar a hora... bata com força.”

Minhas pernas se abrem instintivamente.

Flexiono os joelhos.

Seguro firme a base do taco.

Giro o corpo para trás.

E golpeio.

Toda a força acumulada dentro de mim explode contra a lateral da cabeça de Liam.





O som é horrível.

Seco.

Pesado.

Seu corpo gira sobre si mesmo antes de tombar desacordado no corredor.

— VINCENZO!

O taco escapa das minhas mãos.

Corro até ele e seguro seus braços enquanto ele impulsiona as pernas contra a parede.

Por um segundo aterrorizante, seus dedos escorregam.

Então ele consegue subir.

Rola para dentro do corredor ofegando violentamente.

Caio sobre ele no mesmo instante.

— Meu Deus... eu quase te perdi...

Minha voz falha contra seu pescoço.

Ele segura meu rosto imediatamente.

— Cadê a Cassie e o Sean!?

Seu desespero me arranca do choque.

Ele se levanta e me puxa pela mão.

Corremos até o quarto.

Cassie está caída sobre o tapete persa.

Os braços abertos em forma de cruz.

Sean deitado sobre seu peito imóvel.

A visão faz um arrepio atravessar nossos corpos ao mesmo tempo.

Vincenzo para na porta.

Seu rosto perde a cor.

— Ainda não estamos seguros.

Ele ergue Cassie nos braços sem esforço.

— Eles estão voltando. Corre!

Agarro Sean contra meu peito e disparo atrás dele.

Descemos a escadaria quase tropeçando.

No instante em que atravessamos a varanda, ouço o som.

Asas.

Centenas delas.

Olho para trás.

Uma massa negra atravessa os céus em nossa direção.

Morcegos gigantescos.

Olhos vermelhos.

Dentes expostos.

Grandes demais para serem naturais.

Grandes demais para existirem.

— VINCENZO!

Ele destranca o carro enquanto praticamente joga Cassie desacordada no banco traseiro.

Entro no banco do carona protegendo Sean contra meu peito.

Os morcegos mergulham sobre nós.

O primeiro impacto quase quebra o para-brisa.

Outro arranha violentamente a lateral do carro.

Outro se choca contra o teto.

— ACELERA!

— TÔ TENTANDO!

Vincenzo gira a chave.

Nada.

De novo.

Nada.

Os morcegos se atiram contra o vidro dianteiro enlouquecidamente.

Trincas começam a surgir.

Meu coração dispara.

— VAI! VAI! VAI!

Na terceira tentativa, o motor finalmente desperta.

Vincenzo pisa fundo.

O carro arranca violentamente pela estrada escura enquanto as criaturas continuam sobrevoando a mansão atrás de nós.

Só então percebo que estou chorando.

Por Cassie.

Por Sean.

Por nós.

Pelo horror daquela casa.

Aperto o crucifixo do rosário entre os dedos e beijo a pequena imagem de Cristo.

— Obrigada por nos salvar...

A respiração de Vincenzo ainda está irregular ao volante.

Mesmo assim, alguns quilômetros depois, ele pergunta:

— O que a gente faz agora, Dess?

Enxugo o rosto molhado.

— Cuida deles. Ué.

— E se ela não quiser ficar longe do Liam?

Olho para Cassie desacordada no banco traseiro.

Depois para Sean, tão pequeno em meus braços.

Rosno entre os dentes:

— Se isso acontecer, eu meto a porrada nela.






— Conseguimos reverter a overdose, mas, provavelmente, haverá sequelas.

— Sequelas!? — pergunto ao médico de plantão. — Que tipo de sequelas!?

O jovem médico suspira discretamente antes de responder:

— O cérebro da paciente sofreu lesões permanentes. Ela poderá apresentar distúrbios de memória e atenção, dificuldades motoras... talvez epilepsia.

— Epilepsia!? — minha voz falha. — Ela era perfeita! Não foi ela quem se drogou! Isso não é justo!

— Dess...

— Não é justo, Vincenzo! — repito aos prantos. — Não é justo!

Vincenzo me abraça enquanto pergunta sobre Sean.

O médico faz um discreto sinal com a cabeça, afastando-o alguns passos de mim.

— Eu quero ouvir também!

— Melhor cuidar desse olho primeiro. — O médico observa meu rosto inchado antes de chamar uma enfermeira. — Precisamos examiná-la.

Ele força um sorriso profissional.

Mecânico.

Frio.

— Seu marido explica tudo depois.

Os dois se afastam.

Sou conduzida até um leito por uma enfermeira mais velha.

Experiente.

Gentil.

Enquanto limpa meus cortes com extremo cuidado, escuta minhas lamúrias em silêncio.

Meu olho esquerdo pulsa violentamente sob o inchaço arroxeado.

— Não precisa ter medo. Pode mexer. Já apanhei muito nessa vida.

Ela arregala os olhos acinzentados.

Solto um riso curto.

— Não! Calma! Meu marido nunca me bateu! — minto imediatamente. — Ele é professor de boxe. Já treinei com ele.

E já pedi que repetisse aquilo.

Mas Vincenzo nunca mais quis.

A enfermeira relaxa os ombros.

— Você me assustou.

Seu sorriso é triste.

Cansado.

— Sua amiga vai precisar muito de você agora. Por que ela fez aquilo com o próprio filho?

— Não foi ela! — protesto imediatamente. — Foi o marido dela! Aquele demônio desgraçado!

A enfermeira baixa os olhos por um instante antes de continuar trabalhando em silêncio.

Então murmura:

— O bebê precisará ficar internado.

Prendo o choro.

Fracasso miseravelmente.

— Você poderia... me deixar vê-lo? — imploro. — Só um pouquinho. De longe. Por favor. Cassie não vai suportar perder o Sean.

Ela hesita.

Longos segundos.

Depois suspira:

— Está bem. Melhor que a notícia venha de você.

Caminhamos até o C.T.I. Pediátrico.

Enquanto ando ao seu lado, reparo melhor nela.

Os cabelos lisos e curtos possuem uma larga mecha branca no lado esquerdo.

Entre as sobrancelhas, um pequeno sinal em forma de estrela.

Bonito.

Estranhamente bonito.

— Seja forte, Dess — aconselha ela enquanto higienizamos as mãos na antessala. — E não se assuste com o que vai ver.

Meu coração dispara.

— O que ele tem?

Ela evita responder.

— Só uma olhadinha. Não estamos em horário de visita.

A porta se abre.

E o mundo parece parar.

Entre incubadoras, fios, monitores e respiradores, reconheço Sean com dificuldade.

Tão pequeno.

Tão imóvel.

As cânulas em suas narinas me causam náusea instantânea.

Um enorme curativo cobre parte de sua boca delicada.

Tubos saem de todos os lados do seu corpo minúsculo.

Seu pulso está preso por acessos que o impedem até de mover a mãozinha.

Há um cateter em sua jugular.

Outro em seu abdômen.

O sangue percorre lentamente os tubos transparentes acima de sua cabeça.

Seu tórax sobe e desce devagar demais.

Meu pobre Sean está recebendo de volta o sangue que lhe roubaram.

As lágrimas escorrem sem controle.

Cassie enlouqueceria se visse aquilo.

Eu enlouqueceria.

Se fosse Matteo naquela incubadora, eu arrancaria todos aqueles fios com as próprias mãos.

Mesmo que precisasse lutar contra médicos.

Contra enfermeiros.

Contra o hospital inteiro.

Porque nenhuma mãe deveria ver o próprio filho transformado numa máquina tentando sobreviver.

— O que ele tem? — pergunto entre soluços. — Me fala alguma coisa... por favor...

— Vamos conversar lá fora.

Dou um último olhar para Sean antes de sair.

No corredor gelado do hospital, a enfermeira finalmente responde:

— Sean está com anemia severa. O caso dele é grave.

Minhas pernas cedem.

Caio sentada numa das cadeiras metálicas alinhadas contra a parede.

A enfermeira se senta ao meu lado.

— Os pais não sabiam? Isso precisava ter sido tratado há muito tempo.

— Ele sempre foi saudável... — murmuro sem forças. — Cassie cuidava dele. Levava ao pediatra. Isso não faz sentido...

Porque não posso dizer a verdade.

Não posso contar que monstros beberam o sangue daquele bebê até quase matá-lo.

A enfermeira acaricia meus cabelos com delicadeza.

Então pergunta baixinho:

— Você sabe rezar?

Levanto os olhos imediatamente.

Apavorada.

— Por quê?

Ela sustenta meu olhar por alguns segundos antes de responder:

— Porque ele pode morrer se não reagir ao tratamento nas próximas vinte e quatro horas.

E vai embora.

Fico sozinha no corredor frio e silencioso do hospital.

Com o gosto de sangue ainda na boca.

O olho latejando.

As mãos tremendo.

Jurando que, se Sean sobreviver...

Liam vai implorar pela morte.

Ou não.




Cassie não é mais a mesma. Nem poderia ser.

Sean ainda luta pela própria vida dentro da incubadora após sua alta hospitalar. Cassie, desorientada, ainda me pergunta como o filho foi parar dentro daquela “caixa” fria.

Da noite em que a resgatamos, ela se lembra de fragmentos desconexos. Risadas altas. Copos espalhados. O choro estridente de Sean.

As risadas a incomodavam.

Ela se recorda de tentar arrumar as malas para fugir com o filho e, no instante seguinte, enxergar rostos deformados ao seu redor através da visão turva.

— Foi um pesadelo, tia.

— Não foi, Cassie. Você foi drogada.

— Por quem!? Liam estava comigo!

— Pelo Liam! — acuso, sem suavizar a verdade. — Ele não é mais o homem com quem você se casou!

Confusa, ela tenta sorrir.

Um sorriso fraco. Quase infantil.

— Ele não faria isso… Não faz sentido me drogar. Pra quê?

— Olha o seu braço, Cassie!

Ela encara o hematoma escuro no antebraço e se altera imediatamente.

— Isso não prova nada! Fiz exame de sangue semana passada! Ficou a marca! — Seus olhos encontram Sean dentro da incubadora. — Por que meu filho precisa ficar aí dentro!? Tirem ele daí!

O grito ecoa pelo C.T.I. pediátrico.

— Tirem meu filho daí! Eu quero levar ele pra casa!

— Se ela continuar nesse estado, vamos precisar sedá-la. — avisa a enfermeira de plantão, fria como o corredor daquele hospital. — Quer que ele morra? Então se controla.

— Meu Deus… — Cassie leva as mãos à cabeça, horrorizada.

Abraço seu corpo trêmulo e encaro a enfermeira.

— Ela está sofrendo! Não dá pra ser menos fria!?

A mulher me olha por alguns segundos antes de responder:

— Se eu desabar por cada criança que entra aqui, não consigo salvar nenhuma.

Aquilo me cala.

Porque ela não parece cruel.

Só cansada.

Exausta.

Morta em pé.

Cassie se debate novamente em meus braços.

— As agulhas estão machucando ele! Tira o Sean dali! Por favor! Tira!

— Cassie… — seguro seu rosto entre minhas mãos. — Ele está dormindo. Você não quer que ele acorde chorando, quer?

Ela desmorona.

— Não… — geme baixinho, encarando o filho através do vidro. — Me leva embora, tia… Me leva pra sua casa…

— Preciso pedir que se retirem. Estão incomodando os outros pacientes.

— São crianças! — protesto antes que um segurança me afaste da incubadora. — Vocês têm filhos!? Sabem o quanto ela está sofrendo!?

A enfermeira hesita.

Só por um segundo.

Mas hesita.

Então responde em voz baixa:

— Já tive um.

O corredor parece congelar.

— Morreu nos meus braços porque eu não tinha dinheiro pra interná-lo num hospital como esse.

Aquilo atravessa meu peito como uma faca.

— Sinto muito…

São minhas últimas palavras antes de deixar aquele andar onde a Morte parece circular entre incubadoras, escolhendo nomes em silêncio.

Com ajuda de Vincenzo, consigo conduzir Cassie até o elevador. Ele toca sua testa e sussurra algo em italiano perto de seu ouvido.

Cassie se acalma instantaneamente.

Quase apaga.

Descemos até o hall principal do hospital em silêncio.

Mas o silêncio nunca dura.

Assim que as portas do elevador se abrem, Cassie paralisa.

Seu corpo inteiro endurece.

Os olhos se arregalam.

Ela viu Liam.

Encostado no balcão de informações.

Impecável.

Elegante.

Como se não tivesse quase matado o próprio filho.





— Cassie… — alerto, tarde demais.

Com um grito animalesco, ela dispara pelo corredor.

A recepcionista nem entende quando Cassie arranca a caneta de sua mão e salta sobre Liam.

Os dois caem violentamente no chão.

— ASSASSINO!

Montada sobre ele, Cassie tenta cravar a caneta em sua jugular.

Seguranças avançam imediatamente.

Liam consegue segurá-la pelo pulso segundos antes da ponta atravessar sua garganta.

Vincenzo corre para ajudá-los enquanto eu afasto curiosos histéricos que filmam tudo com celulares. Porque seres humanos transformariam o Apocalipse num story de quinze segundos se pudessem.

Cassie se debate nos braços de Vincenzo.

Chuta o ar.

Grita.

Cospe.

— EU ME LEMBRO! — berra aos prantos. — VOCÊ ME DROGOU! EU ME LEMBRO!

Liam ajeita lentamente a própria camisa amarrotada.

Então ergue os olhos para ela.

Calmo demais.

Frio demais.

Ele se aproxima devagar.

Eu me posiciono entre os dois.

Seu olhar encontra o meu.

Sombrio.

Predatório.

— Quer perder a guarda do seu filho, Little Princess?

Pronto.

Acabou minha paciência.

Cerrei o punho antes mesmo de pensar.

O uppercut acerta seu queixo com violência.

A cabeça de Liam gira para trás.

Seu corpo desaba no chão lustroso do hospital.

Inconsciente.

O silêncio dura meio segundo.

Então começam os gritos.

Um riso histérico escapa da minha garganta enquanto os seguranças correm em nossa direção.

Recuando ao lado de Vincenzo e Cassie, anuncio:

— Sem visitas por hoje, monstro.





— Você é a única pessoa que consegue sair machucada de um hospital, Dess.

— Eu não pensei direito…

— Como sempre. Impulsiva.

Vincenzo resmunga enquanto massageia minha mão direita com uma pomada para dor. Seus dedos pressionam meu pulso inchado com delicadeza antes de começarem a enfaixá-lo.

Então, inesperadamente, ele ri.

Uma risada baixa.

Quase orgulhosa.

— Não era o momento… mas foi foda, Dess. Um golpe perfeito.

Ruborizo sob seu olhar demorado.

A voz dele suaviza:

— Eu te amo, doida.

— Eu também te amo.

Nos beijamos rapidamente.

O gosto salgado das minhas lágrimas ainda está ali.

Lanço outro olhar para o corredor escuro da casa antes de perguntar, aflita:

— O que faremos agora? Liam pode tirar Sean do hospital a qualquer momento. Ele é o pai.

— Não se tirarmos antes.

— Você enlouqueceu!? — cochicho, indignada. — Sean precisa de cuidados! A enfermeira disse que ele pode morrer em menos de vinte e quatro horas!

— Naquele lugar, mãe? Aqui ele teria mais chances.

Congelo ao ouvir a voz atrás de mim.

— Antoine! — grito, levando a mão ao peito. — De onde você surgiu!? Quer me matar do coração!?

Sentada na cadeira suspensa da varanda, ela continua se balançando lentamente.

Como se estivesse comentando sobre clima.

— Papai tem razão. Precisamos tirar Sean de lá.

— Não fala absurdo.

— Liam vai dar um jeito de levar o Sean de volta pra casa e terminar o ritual.

O silêncio pesa imediatamente.

Até o vento parece parar.

— Ritual? — pergunto devagar. — Do que você tá falando?

Antoine ergue os olhos para mim.

Sérios demais para alguém da idade dela.

— A ideia era matar Cassie e oferecer Sean ao líder da Legião. Assim Liam ganharia mais força… mais influência… mais poder.

Meu estômago afunda.

— De onde você tirou isso, filha?

— Como diria meu avô… tenho meus informantes.

— Interessante. — cruzo os braços. — Todo mundo nessa casa tem informante. Menos eu. Mas quando o inferno abre a porta, sou eu quem se fode.

Dessa vez, Antoine não ri.

Ela simplesmente para de se balançar.

— Dessa vez não, mãe.

O jeito como ela diz aquilo faz meu sangue gelar.

Levanto imediatamente do sofá e a puxo para um abraço apertado.

— Nem pensar. Nem começa. Você não vai se meter nisso.

— Sean vai morrer, mamãe.

— Não fala isso! — imploro, apavorada. — Ele ainda tá sendo tratado! Ainda existe esperança!

— Ela tá certa, Dess.

Viro lentamente para Vincenzo.

— Como você pode saber disso? Seus “informantes” também!?

— Não.

Ele evita meus olhos.

Isso já basta para me assustar.

— Então como sabe!?

— Você não a viu quando esteve lá dentro?

Sinto um arrepio subir pela minha nuca.

— Vi quem?

A expressão dele escurece.

— A Morte.

Uma risada nervosa escapa da minha garganta.

— Para de brincadeira.

— Não tô brincando.

O tom dele destrói qualquer tentativa minha de ironizar.

— Ela estava observando o Sean enquanto eu falava com o médico.

— Desde quando a Morte pode ser vista!?

— Desde sempre. — responde calmamente. — Ela apenas escolhe quando quer ser notada.

Meu corpo inteiro arrepia.

Antoine permanece em silêncio.

Como se aquilo fosse completamente normal.

— Ela é… palpável? — pergunto num fio de voz.

— Muito. — Vincenzo apoia os cotovelos nos joelhos. — Já a vi diversas vezes ao longo das minhas vidas.

A palavra vidas me atravessa violentamente.

Corro até ele e seguro seu rosto entre minhas mãos.

— Não se atreve a ver ela agora que você é humano.

Ele sorri.

Um sorriso triste.

Cansado.

— Dess… uma hora isso vai acontecer.

— MAS NÃO VAI SER AGORA!

Minha voz quebra.

O tremor começa imediatamente.

Braços.

Mãos.

Respiração.

Vincenzo me abraça antes que eu desabe de vez.

E não diz nada.

Só me segura.

Porque existem dores que não aceitam conselho.

Apenas presença.

Choro até faltar ar.

Até sentir vergonha do próprio desespero.

Ele enxuga minhas lágrimas com o dorso da mão e beija minha testa.

— Eu nunca vou morrer, Dess. Eu juro.

Mentiroso.

Nós dois sabemos.

Mesmo assim, balanço a cabeça.

— Ok…

Porque amar alguém é também fingir acreditar em promessas impossíveis.

Antoine se ajoelha diante de mim.

— Vocês vão envelhecer juntos, mãe.

A voz dela sai embargada.

Quase como se ela estivesse tentando convencer a si mesma.

— Cassie precisa da gente agora.

Inspiro profundamente.

Forço meu corpo a obedecer.

Ainda tremendo, faço a pergunta que não consigo mais evitar:

— Como ela é?

— Quem?

— A Morte.

Vincenzo pensa por alguns segundos.

— Ela assume a forma que quiser. Às vezes um homem grisalho. Às vezes um garoto simpático. Outras… uma senhora gentil com uma mecha branca no cabelo.

Meu coração falha uma batida.

— Os olhos dela são cinzentos… — continua ele. — E existe um sinal no rosto. Pequeno. Entre as sobrancelhas.

Sinto o sangue fugir do meu rosto.

— Uma estrela…?

Vincenzo me encara imediatamente.

— Como você sabe disso?

Levanto rápido demais.

Rápido o suficiente para esconder o medo.

— Não interessa! — minto. — Como vamos tirar Sean daquele hospital!?

— Dess… — Vincenzo estreita os olhos. — Você viu ela, não viu?

— Sean ainda tá correndo perigo! — corto, desesperada. — Ela deu vinte e quatro horas pra ele!

— Então ela tá sendo generosa. — murmura Antoine. — Porque já passou disso.

Olho para o céu estrelado da varanda.

Escuro.

Imenso.

Vivo.

Meu medo lentamente começa a virar outra coisa.

Ódio.

Determinação.

Desafio.

Ergo o rosto e declaro:

— Boazinha ou não… eu vou encontrar essa tal de Morte.

Vincenzo se levanta imediatamente.

— Dess…

— E vai ser hoje.



Celeste permanece em casa cuidando de Cassie enquanto Enrico e Leo se juntam ao nosso pequeno grupo de guerreiros despreparados, emocionalmente abalados e completamente sem plano.

Mais uma vez.

— O plano é entrar, pegar o Sean e trazer ele pra casa.

— Genial. — ironiza Vincenzo ao volante. — Simples. O bebê quase não tá ligado em aparelhos. Parece até que tá dormindo num bercinho igual o Matteo. Porra, Dess… por que a gente NUNCA tem um plano!?

— Dirige! Esse é o plano!

— Isso não é plano! Isso é transtorno psiquiátrico coletivo!

— Calma, gente. — tenta apaziguar Leo no banco traseiro, espremido entre Enrico e Antoine. — Vai dar tudo certo.

— COMO!? — explode Vincenzo. — Não é horário de visita! A porra do C.T.I. é vigiada! Só entram três pessoas por vez! TRÊS! E nós somos praticamente uma seita!

— Você aceitou vir!

— Porque você disse que viu a MORTE!

— E daí!? Isso é motivo pra sair correndo pela cidade igual um bando de condenados!?

— Você me deixou nervoso, caralho!

— ISSO É PROBLEMA SEU!

— Filhos… — suspira Enrico, tranquilo demais para alguém indo cometer invasão hospitalar sobrenatural. — Talvez seja prudente discutir menos enquanto o motorista está a oitenta quilômetros por hora.

O silêncio dura exatamente dois segundos.

— Não há saída! — rosna Vincenzo, apertando o volante.

Enrico sorri.

Aquele sorriso calmo de quem parece conversar com o próprio universo.

Irritante.

— É justamente nesses momentos que a fé importa.

Reviro os olhos imediatamente.

— Ah tá.

— A fé existe quando ainda não conseguimos enxergar a solução, filha. Ela já está lá. Nós só não conseguimos vê-la.

Antoine abraça o avô, encantada.

— Essa foi profunda, vovô.

— Foi confusa. — corrijo.

Ela me encara.

Séria demais.

— Você não entende a gravidade disso tudo, mãe.

O tom dela me desmonta aos poucos.

— Mais do que você imagina… eu entendo.

Ninguém fala mais nada depois disso.

Porque todos sentimos.

Alguma coisa está errada.

Muito errada.

Assim que chegamos ao hospital, Enrico segue ao meu lado até a recepção.

O velho parece flutuar pelo corredor.

Sereno.

Luminoso.

Quase impossível de ignorar.

Ele se inclina suavemente sobre o balcão.

— Boa noite.

Só isso.

Boa noite.




A recepcionista simplesmente para.

Congela.

Os olhos dela ficam vagos por alguns segundos enquanto encara Enrico como se tivesse esquecido do próprio nome.

Ele nem olha para mim quando murmura:

— Agora.

Nem penso.

Saio praticamente correndo.

Vincenzo, Antoine e Leo me seguem escada acima. Evitamos o elevador. Menos câmeras. Menos risco.

Mais falta de ar.

Chego ao terceiro andar arfando.

E paro imediatamente.

Ela está lá.

Parada diante da porta do C.T.I..

Esperando.

A mulher da mecha branca.

Os olhos cinzentos.

A pequena estrela pulsando entre as sobrancelhas.

Ela me encara como alguém que já sabia exatamente quando eu chegaria.

— Fiquem aqui. — peço, ofegante. — Eu preciso falar com ela.

— Mãe, Sean não tem tempo.

— Por favor. — imploro. — Só… me deixa tentar.

— Com quem você tá falando, Dess? — pergunta Leo, assustado.

— Sério que vocês ainda NÃO ESTÃO VENDO ELA!?

Aponto diretamente para a Morte.

Leo empalidece.

Vincenzo fecha os olhos por um segundo.

Como quem já sabe que aquilo vai terminar mal.

Traço uma linha imaginária no chão com a ponta do tênis.

— Ninguém passa daqui. Entenderam?

— Dess…

— AQUI!

Até Antoine obedece.

Dou alguns passos em direção à mulher.

Ela suspira levemente.

Entediada.

— Perda de tempo.

— Eu sei. — respondo. — Mesmo assim, eu precisava tentar.

Ela inclina a cabeça.

— O menino já me pertence.

Meu estômago afunda.

— Não.

— O nome dele já consta na lista.

— Foda-se essa lista!

A estrela entre suas sobrancelhas parece pulsar lentamente.

— Você não entende como isso funciona.

— Então me explica! — rosno. — Porque eu não vou aceitar!

— Não preciso da sua aceitação.

A voz dela é assustadoramente calma.

Sem crueldade.

Sem prazer.

Pior.

Indiferença absoluta.

— Cassie vai morrer sem o filho.

— Não vai. Ainda não chegou a vez dela.

— Você nunca foi mãe, né!?

Ela me encara em silêncio.

Por um instante…

um instante minúsculo…

alguma coisa muda em seus olhos.

Tristeza?

Memória?

Cansaço?

Então desaparece.

— Sentimentos atrapalhariam meu trabalho.

— Me deixa passar.

— Não.

— Você falou comigo ontem!

— E me arrependo disso.

— Você me abraçou!

— Não me toque novamente.

Perco a paciência.

Empurro seu ombro com a lateral do corpo tentando atravessar a porta.

A dor vem imediatamente.

Um choque brutal explode pelo meu sistema nervoso.

Caio no chão sem ar.

Tremendo violentamente.

Meu maxilar bate.

Os músculos travam.

— Dess! — grita Vincenzo.

A Morte apenas me observa.

— O tempo está acabando.

— Não leva ele… — imploro no chão, encolhida. — Não hoje…

— Tic tac.

Então ela desaparece.

Simplesmente desaparece.

Como fumaça arrancada pelo vento.

Vincenzo me ergue rapidamente enquanto Leo olha ao redor em pânico.

— Ela não vai desistir, Dess.

— Deve existir um jeito!

— Existe.

Olho imediatamente para Antoine.

E ela simplesmente some.

Meu coração para.

— FILHA!?

Só uma mão aparece diante de mim.

Flutuando no vazio.

— Vem, mãe.

— QUE PORRA É ESSA!?

— A capa de invisibilidade! — resmunga ela. — Foco! Sean tá morrendo!

Leo quase me empurra para frente.

Seguro a mão invisível dela.

Então Antoine reaparece parcialmente.

O suficiente para ver seu sorriso impaciente.

— Oi.

— Isso FUNCIONA mesmo!?

— Funciona pros humanos.

— E pro teu pai!?

— Papai vê tudo.

— Credo.

Ela me cobre com o manto.

O ar ao nosso redor distorce levemente.

Como calor sobre asfalto.

Meu corpo inteiro arrepia.

— Anda normal. — sussurra Antoine. — E tenta não pensar em nada.

— NÃO EXISTE isso! Só de tentar não pensar eu já tô pensando!

— Então pensa em coisa feliz!

— Tipo o quê!?

— Matteo dançando “Pretty Little Baby”.

Meu coração amolece imediatamente.

Vejo Matteo rodopiando pela sala.

As mãozinhas gorduchas levantadas.

O sorriso banguela.

A risadinha.

— Mãe! — sibila Antoine. — Menos emoção! Ela vai sentir!

Passamos pela Morte.

A poucos centímetros dela.

Ela fareja o ar lentamente.

A estrela em sua testa se move.

Meu sangue congela.

Agarro Antoine com força.

— Continua andando… — sussurra minha filha.

A Morte vira lentamente o rosto na nossa direção.

Por um segundo horrível…

acho que ela consegue nos ver.

Então ela sorri.

Um sorriso mínimo.

Quase imperceptível.

Como quem decidiu fingir que não percebeu.

E nós atravessamos a porta do C.T.I..


A última parte ficou MUITO mais assustadora porque agora existe a dúvida:

Ela realmente não percebeu?

Ou deixou passar?




— Uau… isso funciona mesmo! Fantástico! — exulto ao seguir até a incubadora de Sean.

O entusiasmo morre no mesmo instante.

Um alarme estridente explode dentro do C.T.I..

Um dos monitores dispara.

Luzes vermelhas começam a piscar.

Os profissionais correm em nossa direção e passam direto por nós.

— É o Sean! — sussurro, gelando.

Antoine segura meu braço com força.

Muita força.

— Ele tá morrendo, mãe. Escuta com atenção. Faça exatamente o que eu fizer. Entendeu?

Assustada, concordo imediatamente.

— Entendi.

A equipe cerca a incubadora.

Vejo médicos ajustando medicamentos.

Uma enfermeira aperta o respirador manualmente.

Outra tenta estabilizar os acessos venosos.

O monitor cardíaco enlouquece.

O som invade minha cabeça.

Sean está desistindo.

Antoine fecha os olhos.

Então espalma as mãos contra a incubadora.

Eu a imito.

Pequenos raios escapam de seus dedos.

Não são fortes.

Não são grandiosos.

São frágeis.

Instáveis.

Como fios luminosos feitos de pura exaustão.

Eles atravessam o acrílico da incubadora e alcançam Sean.

Meu corpo inteiro arrepia quando parte daquela energia também atravessa minhas mãos.

É quente.

Doloroso.

Vivo.

Fecho os olhos.

Penso em Sean.

No choro dele.

Nos olhos desesperados de Cassie.

No medo.

No amor.

Principalmente no amor.

Os raios aumentam.

A incubadora vibra levemente.

Antoine começa a tremer ao meu lado.

E então percebo.

Ela está dando energia demais.





— Filha…

Seu nariz sangra.

Ela continua.

As pernas vacilam.

A pele perde a cor.

Sem pensar, retiro minhas mãos da incubadora e seguro sua cabeça entre meus dedos.

A conexão muda imediatamente.

A energia passa por mim.

Atravessa meu peito.

Meu coração dispara violentamente.

Sinto minhas forças sendo arrancadas como água descendo por um ralo.

Antoine respira melhor.

Eu pioro.

Muito.

O mundo gira.

As vozes ficam distantes.

E então…

Silêncio.

O monitor cardíaco estabiliza.

A médica suspira aliviada.

— Conseguimos estabilizar.

Uma das enfermeiras sorri atrás da máscara.

Exausta.

Humana.

— Não foi dessa vez, meninão…

Ela toca delicadamente a incubadora antes de se afastar.

Quase sem forças, olho para Antoine.

— E agora…?

Minha filha encara Sean através do vidro.

Os olhos marejados.

Pequena demais para carregar tanto peso.

— Nada. — murmura ela. — Ele vai viver.

— Como pode saber?

Ela toca o coraçãozinho de Sean através da abertura lateral da incubadora.

E sorri.

Um sorriso triste.

Estranhamente bonito.

— O Mestre curou ele.

Meu estômago revira.

— Mestre?

— Ele vai ter mais tempo entre nós.

A fraqueza me obriga a apoiar na parede enquanto seguimos até a antessala.

Olho imediatamente ao redor.

— Cadê aquela vaca do cabelo listrado!?

— A Morte? — Antoine responde cansada. — Foi buscar outra pessoa da lista.

Antes que eu pergunte mais alguma coisa…

ela desmaia nos meus braços.

— ANTOINE!

Minha voz ecoa pelo corredor.

Não faço ideia se ainda estamos invisíveis.

Nem ligo mais.

Leo a segura antes que ela bata a cabeça no chão.

Vincenzo me ampara pela cintura quando minhas pernas quase cedem junto.

Saímos rapidamente do C.T.I..

Cada passo parece mais pesado.

Mais lento.

Como se tivéssemos envelhecido dez anos naquela sala.

Chegamos ao carro praticamente nos arrastando.

Enrico nos espera no banco traseiro.

Calmo.

Como se não estivéssemos fugindo de uma entidade primordial dentro de um hospital infantil.

— Ela vai ficar bem!? — pergunto desesperada enquanto Leo acomoda Antoine em seu colo.

— Vai sim, tia.

— Como você sabe?

Leo hesita.

O olhar dele muda.

Fica distante.

Quase escutando alguém.

— Meu amigo disse.

Sinto todos os pelos da minha nuca arrepiarem.

— Amigo?

Viro imediatamente para trás.

— Que amigo, Leo?

Ele evita meus olhos.

Erro grave.

Muito grave.

— Astaroth!? — disparo. — Fala sério!

— Não é ele, tia.

— Você vê esse amigo!?

— Não.

— Então como conversa com ele!?

— Eu só… escuto.

Maravilha.

Perfeito.

Agora temos vozes misteriosas orientando adolescentes.

O apocalipse realmente perdeu qualquer vergonha.

— Depois a gente descobre quem é esse amigo. — murmura Vincenzo ao volante. — Um problema de cada vez.

— Concordo. — resmungo. — Porque já temos uns novecentos atualmente.

Enrico boceja no banco traseiro.

— A propósito… consegui resolver a questão do Liam.

Pisco algumas vezes.

— Como?

— Hipnose coletiva.

Ele responde isso como quem comenta previsão do tempo.

— Convenci a recepcionista de que Liam é um foragido perigoso. Ela espalhou o alerta pelo sistema interno do hospital. Nesse momento, os seguranças já receberam a notificação.

Fico encarando Enrico.

— Isso foi… absurdamente genial.

— Foi cansativo. — corrige ele, fechando os olhos. — Muito cansativo.

Dois segundos depois…

ele está dormindo.

Literalmente dormindo.

Encolhido no banco como um senhorzinho inocente que não acabou de manipular mentalmente um hospital inteiro.

Antoine continua desacordada nos braços de Leo.

Mas começa a respirar melhor.

Mais calma.

Mais leve.

Então percebo.

Leo está olhando fixamente para o vazio.

O rosto completamente tenso.

— Algum problema? — pergunto baixinho.

Ele demora a responder.

— Não gosto dessa voz.

Meu sangue esfria.

— A mesma que disse que Antoine ficaria bem?

— É.

— E o que ela disse agora?

Leo fecha os olhos lentamente.

Quando volta a abri-los…

parece mais velho.

Mais sombrio.

— Que o único jeito de salvar a Cassie e o Sean… é matar o Liam.

Silêncio absoluto dentro do carro.

Até a chuva parece parar por um instante.

Recosto a cabeça no banco.

Exausta.

Dolorida.

Mentalmente destruída.

E deixo escapar um riso sem humor.

— Aaah tá… simples assim.




Cassie continua se recusando a aceitar que Liam seja um monstro.

Talvez porque aceitar isso significaria admitir que dormiu ao lado do próprio inferno.

Em nossa casa, instalada no quarto de hóspedes, ela cuida de Sean com carinho…

e quase nenhuma atenção.

Duas vezes precisei impedir que o pequeno despencasse do bercinho enquanto Cassie cantarolava baixinho “Stuck on You”, sorrindo para lembranças que já deveriam tê-la assustado.

A música.

Sempre a música.

A mesma canção sob a qual Antoine os fez dançar juntos naquela noite idiota em que todos acreditávamos no amor.

Às vezes, pego Cassie rodopiando sozinha pelo meu estúdio de dança.

Os braços abertos.

Os olhos perdidos.

Como alguém vivendo numa lembrança porque a realidade ficou insuportável demais.

Sean, cada dia mais forte, observa tudo em silêncio.

Isso é o que mais me incomoda.

O silêncio dele.

Matteo e Sean possuem praticamente a mesma idade, mas parecem nascer de mundos diferentes.

Meu filho gargalha por qualquer coisa.

Dança.

Bate palmas.

Destrói os próprios brinquedos arrancando a cabeça dos bonecos com os novos dentinhos enquanto vibra como um pequeno psicopata feliz.

Sean não.

Sean observa.

Quieto.

Contido.

Triste demais para um bebê.

Como se alguma parte dele já entendesse o mundo onde nasceu.

Ainda assim, Matteo insiste em incluí-lo em suas loucuras.

— Naná! Naná!




Batendo palminhas, ele rebola diante de Sean ao som de “Pretty Little Baby”.

E Sean…

pela primeira vez…

quase sorri.

Quase.

Aquilo aperta meu peito de um jeito estranho.

Como se Matteo estivesse tentando puxá-lo de volta para a vida.

— Cacete!

Vincenzo ergue os olhos imediatamente da louça.

— O que foi!?

— O aniversário do Matteo! — levo a mão à boca. — Nós praticamente não comemoramos o aniversário do nosso filho!

— Tivemos bolo.

— Um bolo mixuruca!

— Ele soprou velinhas.

— Merecia uma festa!

— Ganhou presentes.

— Nós somos péssimos pais!

— Dess…

— Tudo acontece nessa família! Tudo! Será que ele vai ficar traumatizado!?

Vincenzo segura o riso enquanto seca um prato.

— Amor… milhões de crianças nem têm bolo.

Cruzo os braços imediatamente.

— Isso não ajuda.

— Matteo tem uma família que o ama. Isso importa mais.

Continuo emburrada.

Ele sorri.

Aquele sorriso torto desgraçado que me desmonta.

— Mas, se quiser, fazemos uma festa mês que vem.

— Tema?

— O que ele gosta?

Olho para a sala.

Matteo dança segurando a cabeça arrancada de um dinossauro de borracha.

— Violência infantil e música pop.

Vincenzo começa a rir.

Eu também.

Porque se não rirmos…

a gente quebra.

— Fechado. — murmuro, beijando sua bochecha. — Obrigada por amar tanto a gente.

— Nem tanto assim.

— Ridículo.

O silêncio entre nós fica confortável por alguns segundos.

Até ele comentar:

— Leo tá com problemas.

Volto imediatamente a atenção para ele.

— A mãe?

— Pediu licença da academia por uma semana pra cuidar dela.

A expressão de Vincenzo muda.

Fica mais pesada.

Mais séria.

— Tem alguma coisa errada acontecendo ali, Dess.

Meu peito dói novamente.

A mesma dor estranha.

Aguda.

Profunda.

Desde o ritual no C.T.I..

Disfarço imediatamente.

— Convida ele pra jantar aqui.

— Pra quê?

— Porque talvez eu consiga descobrir alguma coisa.

Ele para de enxugar a louça.

Me encara.

Demais.

— O quê? — pergunto desconfortável. — Que cara é essa?

Vincenzo larga o pano lentamente.

Os olhos presos nos meus.

Perigosamente emocionados.

— Como eu fui tão idiota por não ter casado com você antes?

Minha respiração falha.

Droga.

— Vincenzo…

— Minha insegurança roubou anos da minha vida.

A voz dele vacila.

Pouco.

Mas vacila.

— Nem entre os anjos eu cresci tanto quanto cresci ao seu lado.

Pronto.

Agora fui atingida emocionalmente igual um caminhão celestial.

O último copo escapa da minha mão e bate na pia.

— Para de falar besteira.

— Não é besteira.

Ele se aproxima devagar.

Os dedos frios roçam meu rosto.

— Você sempre tenta salvar todo mundo.

Desvio os olhos imediatamente.

Porque ele não sabe.

Não completamente.

Ainda não.

— Continuo sendo a mesma merda de pessoa de antes.

— Não faz isso.

A voz dele quebra.

E isso quase acaba comigo.

— Tem alguma coisa acontecendo com você, né?

Meu coração dispara.

— Não.

Mentira horrível.

Ele percebe.

Claro que percebe.

Vincenzo me conhece demais.

— Dess… — os olhos dele lacrimejam. — Eu não sei existir sem você. Não pensa em morrer e me deixar aqui.

Matteo explode a música na sala pela milésima vez.

Graças a Deus.

Porque o barulho impede que ele ouça meu coração despencando.

Desvio imediatamente:

— O assunto era a mãe do Leo! Como fomos parar na minha suposta morte!?

— Porque eu conheço você.

Silêncio.

Pesado.

Íntimo.

Cruel.

— Você tá escondendo alguma coisa.

Seguro o ar.

— Mas tudo bem. — ele tenta sorrir. — Uma hora você vai se distrair e eu vou ouvir seus pensamentos.

Merda.

— E quando isso acontecer… eu vou descobrir como salvar você.

Meu peito afunda.

Então deixo escapar sem querer:

— Você nunca mais me tocou…

Os olhos dele mudam imediatamente.

Culpa.

Desejo.

Saudade.

Tudo junto.

— Perdão. Isso não é desculpa.

A voz dele fica baixa.

Quente.

Perigosa.

— Eu desejo você mais do que naquela primeira noite na casa de praia.

Reviro os olhos tentando sobreviver emocionalmente.

— Aquela casa é amaldiçoada.

— Não. — ele sorri. — Aquela casa é sagrada.

Se aproxima mais.

— Foi lá que eu encontrei a mulher da minha vida dentro da garota perdida que fingia não precisar de ninguém.

Minha garganta fecha.

Que ódio.

Porque ele sempre sabe exatamente onde me desmontar.

— Em minha defesa… — continua ele. — eu tentei tocar você várias vezes. Você que fugiu.

Baixo os olhos.

— Eu sei.

A verdade pesa.

— Não tenho sido a mulher por quem você se apaixonou.

Ele segura meu rosto.

Firme.

Sem me deixar escapar.

— Não mesmo.

Pronto.

Agora vem a facada emocional.

— Você se tornou muito maior do que ela.

Lágrimas escorrem antes que eu consiga impedir.

Solto um riso fraco.

Patético.

— Porra… quer mesmo me fazer chorar?


— Quero que me diga o que você tem, Dess. Algo em você não está normal.

A mão dele repousa sobre meu peito, exatamente na altura do coração.




E, como se o universo odiasse momentos íntimos naquela família amaldiçoada, Antoine explode o clima romântico e sombrio como uma granada emocional.

— A mãe do Leo tá surtando! Ele precisa de mim! Alguém me leva até a casa dele ou eu pego um Uber!?

Me viro imediatamente.

— Peraí, porra! Não é assim que a banda toca! O que tá acontecendo!?

— Ele tá nervoso! Ligou pra mim sem saber o que fazer! A mãe dele quer fugir de alguém, mas não diz de quem!

Antoine já procura o celular.

Já procurando rota.

Já entrando em colapso adolescente sobrenatural número cento e vinte e sete da semana.

— Eu vou de Uber! Vocês já têm problemas demais! E, além disso, mamãe não pode mais se meter em encrenca! O coração dela tá fraco! Fui!

— VOLTA!

Meu grito atravessa a casa.

Matteo se assusta imediatamente e corre até mim.

Sean começa a chorar no colo de Celeste.

Cassie continua sorrindo ao telefone.

Sorrindo.

Aquilo me arrepia mais do que qualquer demônio.

Com Matteo nos braços, encaro Antoine tentando abrir a porta que acabei de trancar.

— Daqui você não sai, mocinha. Desde quando vai pra onde quer sem nosso consentimento!?

— EU PRECISO, MÃE! UMA COISA RUIM VAI ACONTECER!

— NÃO GRITA! EU NÃO SOU SURDA!

— Se as duas não se calarem agora, eu juro que tranco vocês no nosso quarto e jogo a chave fora.

Vincenzo toma Matteo dos meus braços antes que o caos vire incêndio estrutural.

— Vocês assustaram nosso filho. Vamos conversar com calma, porra.

— “Porra…” — repete Matteo entre soluços.

Pronto.

Agora temos duas crianças chorando.

Cassie sussurrando no celular igual personagem prestes a cometer crime em filme psicológico.

Celeste tentando acalmar Sean.

E Enrico, majestoso como um rei aposentado do inferno, aponta para o nada e ordena:

— Alexa, pare de cantar.

A televisão continua tocando normalmente.

— Não tenho certeza do que você quis dizer. — responde a Alexa.

Preciso prender o riso.

Antoine perde a paciência primeiro.

— Vovô, a música vem da TV! Não da Alexa!

— Não fale assim com seu avô, filha. — repreendo. — Senta no sofá e me conta tudo.

— Mas, pai…

— A-go-ra.

Meu Deus.

Finalmente.

Autoridade paterna.

Vincenzo aponta para o sofá como quem está prestes a expulsar aluno de ringue clandestino.

— Posso contar de um a dez ou vai sentar agora?

Antoine se joga no sofá dramaticamente.

Braços cruzados.

Cara fechada.

Exatamente igual a mim.

Que tragédia genética.

— Estamos perdendo tempo.

— Liga pra ele, filha.

— Ele não atende! Tá com problemas sérios!

— Mantenha a calma se quiser ajudá-lo. — aconselha Vincenzo. — O que ele falou?

Sento na poltrona favorita de Enrico sentindo o coração estranho outra vez.

Pesado.

Dolorido.

Errado.

— Por que acha que ele corre perigo?

Antoine engole seco antes de responder:

— Ele disse que a mãe tava alucinando… chamando pelo pai dele.

Silêncio.

Até Cassie para de rir ao telefone por meio segundo.

— Leo ficou com medo e negou ser filho do homem que ela mencionou. Aí… ela surtou. E contou tudo pra ele.

— O quê!?

— Eu não sei! É por isso que preciso ir pra lá! Eu tenho que ajudar o Leo! A voz dele tava estranha!

— Como estranha?

— Assustada… desesperada… sei lá! E, antes de desligar, ele gritou.

Meu estômago afunda.

— Um grito de pavor. Me leva até lá, pai…

Enquanto Antoine implora, vejo Cassie desligar o celular e correr para o quarto de hóspedes com aquele sorriso de menina travessa prestes a incendiar a própria vida.

De novo.

Sempre de novo.

— Eu vou com vocês. — decido, entregando Matteo a Enrico. — Pode ficar com ele por um tempo?

Enrico ergue uma sobrancelha.

— Não querem minha ajuda? Posso ser útil nesse caso.

Antes que eu responda, Celeste se levanta.

Elegante.

Imponente.

Perigosa.

Até o ar muda.




— Não, amor. Você fica. Eu irei.

Ela acomoda Sean no carrinho como se estivesse se preparando para uma guerra espiritual e uma reunião de condomínio ao mesmo tempo.

— Sou a pessoa indicada pra lidar com isso.

Os olhos dourados deslizam por todos nós antes dela concluir:

— Quem, nessa família, poderia enfrentar um demônio como Astaroth além de mim?

Silêncio.

Até Matteo para de fungar.

— Os semelhantes se atraem. Se reconhecem. Se enfrentam. Ele já foi o líder da minha legião. Eu sei lidar com ele.

Ela se aproxima de Enrico.

Beija sua testa.

E, pela primeira vez naquela noite, vejo medo verdadeiro no olhar dele.

— Ore por mim, amor. Eu volto.

Enrico segura sua mão com delicadeza.

— Estarei contigo em pensamento. Mantenha-se forte, meu amor.

Celeste abre a porta da sala e olha para Antoine como uma general chamando soldados para o front.

— Antoine! Acorda! Vamos ou não!?

— Preciso falar com a Cassie. — cochicho para Vincenzo. — Ela não tá bem.

— Um leão por dia, Dess.

— Você não viu aquele sorriso!?

— Eu ouvi a conversa.

Meu sangue esfria.

— E sei exatamente com quem ela falava.

Ele se aproxima mais.

Baixo.

Calmo.

Tentando impedir meu coração de explodir dentro do peito.

— Se acalma. Sean tá seguro aqui. Liam não pisa nessa casa. Confia em mim.

Então segura minha mão.

Firme.

Quente.

Meu lugar seguro em meio ao inferno.

— Agora Leo precisa da nossa ajuda. Você vem com a gente?

Pego o avental sobre a bancada e jogo longe.

— Que pergunta idiota.

Abro a porta.

— Desde quando vocês entram em encrenca sem mim?





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