Vincenzo permanece recostado à viga, em silêncio. Observando. Distante.
— Mas ele é jovem. Vai superar. — completa Enrico.
— E ela? — pergunto — Estava lá?
— Sim. Apática. Pálida. — pausa — Não chorou. Jogou flores… e foi embora antes do fim. Liam a levou.
Engulo seco.
— Ela me odeia.
— Vai passar, Dess.
Balanço a cabeça.
— Não acredito nisso.
Silêncio.
— Eles me culpam.
— Você não tem poder sobre essas escolhas. — Enrico diz — Deus define.
Levanto.
Olho direto pra ele.
— Então diga isso ao seu amigo.
Passo por ele.
— Dess! — ele chama.
Não paro.
Corro até o quarto de Antoine.
Empurro a porta.
Quase tranco.
Ele impede.
— Fala comigo agora, porra! Eu tenho direito à defesa!
Viro.
Explodo.
— Defesa de quê, Vincenzo!? Sua amante voltou do inferno e destruiu tudo!
— Eu não tive nada com ela!
— Para! — avanço — Cassie era minha família! E agora me odeia!
— Ela não te odeia!
— Como você sabe!?
Ele se aproxima.
— Porque eu vi.
Pausa.
— Não tinha nada nela, Dess. Nada. Nem ódio. Nem pensamento.
Aquilo me desmonta por um segundo.
Mas não o suficiente.
— Eu não consigo chegar perto dela.
— Eu te ajudo.
Ele tenta me tocar.
— Não encosta em mim.
Ele trava.
— Dess…
— Eu confiei em você. — minha voz baixa, mas afiada — E você mentiu.
— Do que você tá falando?
Rio.
Sem humor.
— Sempre esse rosto… esse ar de inocência… — balanço a cabeça — Você é cruel. E eu fui burra.
— Eu não tive nada com ela! — ele perde o controle — O que você quer que eu diga!?
— A verdade!
O quarto parece menor.
— Por que ela fala de um filho seu!? — minha voz sobe — Por que ela foi atrás da Cassie!?
Silêncio.
— Se não foi agora… foi antes.
Respiro fundo.
— Em outra vida.
Paro.
— Olha o que eu tô dizendo… — rio, nervosa — Eu nem acredito nisso.
Dou um passo atrás.
— Fica longe de mim.
Entro no banheiro.
Abro a torneira.
Água correndo.
Barulho constante.
Preciso disso.
Procuro os sais.
Esbarro nele.
— SAI!
Empurro.
— Eu quero ficar sozinha!
— Depois a gente fala?
— Não é justo me culparem por isso! — viro, tremendo — Eu não quis machucar a Cassie! Eu não controlo isso!
— Você precisa voltar com os remédios.
Aquilo me acerta.
Forte.
— Eu preciso morrer. — sussurro
Silêncio.
— Só assim isso acaba.
— Não fala isso.
— Eu tenho que resolver isso, Vincenzo! Eu!
Ele suaviza.
— Eu sei… — pausa — Mas não sozinha.
Que raiva disso.
— Me deixa.
Pausa.
— Por favor.
Ele cede.
— Ok.
A porta fecha.
Tranco.
Silêncio.
Água.
Respiro.
Tiro a roupa.
Abro a porta.
Congelo.
A água transborda.
Mas não é água.
Lodo.
Escuro.
Denso.
Meu coração dispara.
— Vincenzo…
Minha voz falha.
— Ela… de novo.
Ela se ergue.
Lenta.
Molhada.
Coberta de algas.
Errada.
Sempre errada.
Os olhos grudam em mim.
Depois…
nele.
— Nosso filho… — a voz arrasta — Você me deixou… no frio…
Vincenzo me puxa.
Forte.
À frente.
Proteção.
Raiva.
— Sancte Michael Archangele… — a voz dele corta o ar
O ambiente vibra.
Sweet grita.
Se contorce.
E some.
Deixa o som.
O eco.
O cheiro.
Silêncio.
Pesado.
Nós dois nos encaramos.
— Vai me explicar agora… — minha voz sai baixa — Ou nunca?
Pausa.
Ele não desvia.
— Eu conto.
Respira.
— Eu sou o culpado.
— Por que eu tenho que estar sempre ligada aos seus B.O.s? Eu não entendo!
— Escuta, Dess! Se não calar a boca, eu não continuo!
— Se você não continuar, eu volto a não falar com você, cretino!
— Vou repetir. — Ele arregala os olhos azuis, sério. — Vê se entende dessa vez.
— Fala.
— Aconteceu no castelo, na Itália. Você e eu nos reencontramos.
Reviro os olhos.
— Odeio esse papo de vidas passadas...
— Posso continuar?
Suspiro, me jogando contra a cabeceira.
— Vai.
Abraço os joelhos, fingindo desinteresse. Ele percebe.
— Continua, porra.
— Antes de me casar com você… eu a tinha como amante.
Meu corpo trava.
— Sweet!?
— Isabella. — corrige, firme. — Se não se controlar...
— Continua.
— Quando soube que eu te amava, ela surtou. Não queria desistir de mim. Eu não sabia que ela estava grávida.
Silêncio.
— Ela trabalhava no castelo?
— Sim. Servia minha mãe. E você… tomou o lugar dela. Minha mãe se encantou por Antoine.
— Puta que pariu… — murmuro. — Eu sabia.
Ele ignora.
— Houve uma festa. Nós dançamos. Foi quando eu percebi que te queria… de verdade. Mas você ainda era casada. E nunca traiu seu marido.
Engulo seco.
— Aiden já estava sendo influenciado por Asmodeus. Eu não o culpo. Eu tirei você dele.
A dor na voz dele é real.
— Vocês eram felizes… e eu destruí isso.
— Continua… — peço, mais baixo.
— Estávamos na varanda quando Isabella nos viu. Tomada pelo ciúme, ela tentou te matar. Você reagiu. Empurrou.
O ar some dos meus pulmões.
— Ela caiu… bateu a cabeça… morreu na hora.
— Eu matei a Sweet…?
— Não. — Ele segura meu olhar. — Você se defendeu. Eu… escondi o corpo.
Meu estômago revira.
— Arrastei até o lago. Joguei lá. A corrente levou. E eu fiquei com isso.
Silêncio pesado.
— Eu nunca pude pedir perdão a ela.
Desvio o olhar.
— Ela tentou te conquistar…
— Tentou. E não vou mentir… ela me instigava ao pior de mim. Foi uma época… confusa.
Ele hesita.
— Eu fui brutal com ela. Mas nunca houve… nada além disso.
Soco o travesseiro.
— Eu odeio ouvir isso.
— Eu sei. — ele abaixa a cabeça. — Mas eu mudei. Por você.
Respiro fundo.
— Não ajuda… mas… eu também te fiz sofrer com o Aiden.
Ele ri sem humor.
— Mais do que você imagina. Eu ficava do outro lado da rua… te vendo viver com ele.
Meu coração aperta.
— Vincenzo…
— Já passou. — ele corta. — Agora é você e eu. Sempre foi.
Ele segura meu rosto.
— Eu causei tudo isso. Isabella… Sweet… tudo começou comigo.
— Não. — nego, firme. — Foi uma fatalidade.
— Ela não acha isso.
O nome pesa no ar.
— Por que agora?
— Porque o véu caiu. — responde, frio. — Ela lembra de tudo.
Sinto um arrepio.
— Ou quer o filho de volta…
— Seja o que for, ela não tem direito à vingança.
— Que ela nem pense em encostar nos nossos filhos.
Ele me encara.
— Não temo por mim, Dess…
— Não me olha assim!
Levanto da cama, o coração acelerado.
— Não! Mais uma atrás dos nossos filhos? Não!
Ele se aproxima, segura meu rosto.
— Eu vou proteger eles. Eu prometo.
Sua voz falha.
— Mas eu preciso de você.
Desabo contra ele.
— Eu fico… só não me deixa.
— Nunca.
Sem saber o que pensar, me jogo sobre o colchão, encarando o teto.
Ele vem.
Sem pedir.
Sem esperar.
Se deita sobre mim e me beija como se o mundo tivesse acabado lá fora.
E talvez tenha.
Eu correspondo.
Com raiva.
Com ciúme.
Com tudo que ainda não consegui digerir.
Agarro sua camisa e puxo, os botões cedendo um a um sob meus dedos trêmulos. Ele ri baixo contra a minha boca, tentando respirar.
Não deixo.
Prendo ele ali.
Meu.
Só meu.
As mãos dele deslizam pelas minhas pernas, me puxando mais pra perto, como se quisesse apagar tudo o que veio antes.
— Dess… — ele tenta dizer.
— Não fala. — sussurro contra a boca dele. — Só fica aqui.
Por um segundo… só existe isso.
Calor.
Pele.
Presença.
Nada de passado.
Nada de culpa.
Nada de Sweet.
Só nós.
Ele se afasta um pouco, me olhando com aquele meio sorriso torto.
— Foi mal… — murmura, passando a mão pelos cabelos bagunçados.
Solto um riso curto, ainda sem ar.
— Fica quieto… — digo, puxando ele de volta.
Ele cede.
Como sempre.
— PAREM DE SAFADEZA! — Antoine grita, esmurrando a porta. — Meu maninho quer falar uma coisa séria!
O mundo volta.
Na marra.
Me afasto dele num pulo, o coração disparado, puxando o roupão pelo caminho.
— O que mais pode acontecer, meu Deus…?
— Calma, Dess. — ele diz, já se cobrindo também, tentando recuperar o fôlego.
Abro a porta.
E tudo muda.
Matteo vem.
Cambaleando.
Braços abertos.
Rindo.
Como se nada no mundo pudesse dar errado.
— Dess… — a voz de Vincenzo quebra — Ele falou…
— Mamã.
O tempo para.
De verdade, dessa vez.
Ele pega Matteo no colo, emocionado, rindo como eu não via há… tempo demais.
— Você ouviu!? — ele ri, quase incrédulo — Ele falou!
Antoine cruza os braços, orgulhosa.
— Eu que ensinei. Posso ser uma ótima professora, tá?
Sorrio pra ela.
Mas algo aperta aqui dentro.
Forte.
Rápido.
Feio.
Quinze anos.
Não chega aos quinze.
Engulo seco.
— Pode sim, filha… você leva jeito.
— Para de pensar besteira. — Vincenzo murmura no meu ouvido, me puxando de volta pra cama — Vem.
Eu vou.
Porque eu preciso desse momento.
Mesmo sabendo que ele não vai durar.
Salto no colchão, Matteo gargalha, Antoine vibra, e por alguns minutos…
somos só uma família.
Inteira.
— Acho que estou atrapalhando… — Enrico aparece na porta, visivelmente sem saber onde enfiar a cara.
Antoine não deixa escapar.
— Vai nada! — ela puxa ele pela mão — Senta aí! Conta a história da rádio!
— Antoine… — ele tenta resistir, já vermelho.
— Aquela do grito!
— Que grito? — pergunto, encostando em Vincenzo, quase esquecendo tudo.
Ele troca um olhar cúmplice com o pai.
— Conta.
Enrico respira fundo, resignado.
— Eu preciso de concentração…
Matteo começa a pular no colchão, rindo.
E então...
— “Bom dia, Vietnam!”
A risada explode no quarto.
E por um instante…
só por um instante…
tudo fica leve.
Após os risos, Enrico abaixa o olhar, visivelmente constrangido.
— Era assim que eu começava os programas na rádio… — diz, a voz mais baixa — Tempos difíceis. Homens lutando por nada… por nenhum ideal. Não existe ideal em guerra. Todo mundo perde. Até quem acha que venceu.
O silêncio pesa por um instante.
— Vi muitos amigos morrerem por nada… — completa, distante — E ainda vão morrer outros.
— Enrico! — estalo os dedos diante dele — Ei. Volta pra cá. Isso já passou.
Ele pisca algumas vezes, como se estivesse atravessando um véu.
— Pai… — Enrico corrige, com suavidade — Pode me considerar um pai?
Vincenzo congela.
Olha pra mim.
Engulo seco.
Assinto.
Vincenzo aperta minha mão.
— Claro que pode. — diz por nós dois — Ninguém cuidaria da gente como você cuidou.
Os olhos dele enchem.
As mãos tremem ao cobrir o rosto.
E então Matteo, decidido como só ele, se arrasta até a poltrona, se apoia nos joelhos de Enrico e solta, orgulhoso:
— Bo-bô!
Enrico ri entre lágrimas.
E alguma coisa ali… se ajeita.
De um jeito silencioso.
Simples.
Terminamos a noite espalhados pela sala.
Pizza fria.
Pipoca no chão.
Refrigerante sem gás.
Filmes antigos passando sem que ninguém realmente preste atenção.
Eu observo.
Guardo.
Sem tentar entender demais.
Sem medo de perder.
Porque, pela primeira vez em muito tempo…
eu não tô lutando.
Só… ficando.
Ouvindo suas histórias, penso no quanto ele deve sofrer sem o grande amor ao seu lado.
Celeste o deixou.
Voltou pra Legião.
E ele ficou.
Sozinho.
Despeço-me de Enrico e, debaixo do chuveiro, a água quente não leva embora o que pesa.
Cassie.
O quarto vazio.
O silêncio.
A ausência que grita.
Fecho os olhos.
Ela também está sozinha.
Sem a filha.
Preso num mundo que ninguém alcança.
Diante do espelho, secando o cabelo com movimentos automáticos, encaro meu próprio reflexo.
Cansada.
Assustada.
Mas não paralisada.
Ela sempre fez isso por mim.
Então…
eu faço por ela.
Ajudar.
Coincidências não existem.
Depois da aula na Just Dance, passo no mercado com Matteo.
Ele vai no carrinho, rindo sozinho, encantado com o barulho dos pacotes que amassa sem culpa. Pequenas coisas.
Eu observo.
Guardo.
Porque sei como tudo pode desaparecer rápido demais.
Pego besteiras que antes eu nem olhava.
Biscoitos.
Doces.
Vinho.
Uma vida quase normal, fingindo que é suficiente.
Paro diante da prateleira de iogurtes.
— Zero caloria… — resmungo, jogando um no carrinho — Tua irmã tá aprontando alguma, Matteo. Eu sinto.
Ele ri.
E então...
Impacto.
O carrinho bate em outro.
Instinto.
Minha mão vai direto em Matteo.
Só depois eu olho.
E vejo.
— Liam.
Ele me encara como quem já sabia que eu estaria ali.
— Adessa.
Os olhos dele… não são mais os mesmos.
Param em Matteo.
Um sorriso breve.
Cansado.
— Como ele cresceu… — diz, baixo — Tá lindo.
— Obrigada.
O silêncio se instala.
Pesado.
Eu recuo um passo.
— Eu… preciso ir.
— Não vai.
A mão dele segura o carrinho.
Firme.
Sem força.
Mas suficiente.
— Preciso de você. — ele diz — Nós precisamos.
Meu estômago vira.
— Como assim…?
Ele me olha.
Direto.
Sem fuga.
— Eu não te odeio.
A frase me atinge mais do que qualquer acusação.
— Como eu poderia? — continua — Você escolheu a vida da Cassie.
Meu peito aperta.
— Você… se ofereceu no lugar dela.
O mundo desacelera.
— Como você sabe disso?
Ele observa ao redor.
Gente passando.
Vidas normais.
Barulho de carrinhos.
Tudo fora de lugar.
— Aqui não. — diz — Vamos sair. Tomar um café. Eu te explico.
Penso em Antoine.
Em Vincenzo.
Em Enrico.
Eles estão bem.
Seguros.
E, pela primeira vez…
não é sobre eles.
É sobre reparar algo que nunca devia ter quebrado.
— Adessa…
Fecho os olhos por um segundo.
Respiro.
— Tá. — digo, enfim — Vamos.
Ajeito Matteo na cadeirinha enquanto Liam permanece em silêncio.
Os olhos dele não saem do meu filho.
Brilham.
Cheios.
Segurando alguma coisa que insiste em transbordar.
Eu me ocupo com qualquer detalhe inútil só pra não chorar junto.
Até que ele fala.
— Não vai pedir seu expresso?
— Prefiro te ouvir.
Ele solta um sopro curto, quase um riso sem vida.
— Não há segredos entre anjos, Adessa… — diz — Ainda mais quando uma humana resolve discutir com um arcanjo.
Um canto de sorriso surge.
E some.
— Cassie teria rido disso…
O nome dela pesa entre nós.
— Ela não melhorou? — pergunto, mesmo já sabendo.
Ele nega, devagar.
— Eu não ouço mais a voz dela.
Silêncio.
— Ela criou um lugar onde eu não entro. — continua — Não fala comigo. Não me olha.
A mão dele treme levemente sobre a mesa.
— Eu morreria por ela… — sussurra — Por uma palavra.
— “Depressão grave”. — ele repete, vazio — Ela não aceita nada. Não come se eu não insistir.
Fecha os olhos por um segundo.
— E quando eu insisto… ela me olha como se eu fosse o inimigo.
A dor na voz dele não pede tradução.
Eu seguro a mão dele.
— Ela não te odeia.
Ele reage na hora.
— Então o que é isso?
Respiro fundo.
— Vergonha.
Ele trava.
— De mim?
— De si mesma… diante de você.
Silêncio.
Pesado.
— Ela acha que te decepcionou. — continuo — Que falhou.
A palavra cai como pedra.
— Quando a Niamh morreu.
Ele desaba.
Sem cena.
Sem barulho.
Só inclina o corpo, a testa encostando na mesa, como se não conseguisse mais sustentar o próprio peso.
— Me ajuda… — sai baixo — Eu não vou aguentar perder ela também…
Aperto a mão dele com força.
Não penso.
Não analiso.
— Você não vai.
Promessa idiota.
Mas necessária.
E então...
vem.
De repente.
Violento.
Labaredas.
Asas em chamas.
Gritos.
Risos.
Algo errado.
Muito errado.
Pisca.
Some.
Eu travo.
O coração dispara.
Olho pra ele.
Ali.
Quebrado.
Humano.
Bom.
— O que foi? — ele pergunta, percebendo.
Demoro um segundo a responder.
— Nada… — minto — Só… cansaço.
Mas não é.
E eu sei.
Liam me conduz até o quarto. Assim que cruzo o umbral, o peso me atinge.
O ar é denso. Quase sólido.
Na parede, as imagens do parto se repetem sem cessar. Dor. Sangue. Perda. Um ciclo cruel projetado pelos pensamentos dele… sem que ele perceba.
Ele a ergue do chão frio com cuidado e a deita sobre a cama desarrumada.
Cassie.
Pálida. Oca. Os olhos mortos, presos no teto.
Engulo o choque.
Caminho até a janela e a abro de uma vez. O ar entra. A luz invade. Preciso respirar.
Ela se vira imediatamente, incomodada, oferecendo-me as costas.
Olho para Liam.
— Me dá um minuto.
— Tem certeza? — ele pergunta, inseguro.
Forço um sorriso.
— Vai dar tudo certo. Confia em mim.
Ele hesita.
— Fico com o Matteo?
Um frio atravessa meu corpo.
Sorrio mesmo assim.
— Ele vai adorar o quarto de brinquedos.
Mentira.
Mas assinto.
Beijo a testa do meu filho.
— Que o Arcanjo Miguel te proteja.
Liam sai.
Fecho a porta.
O silêncio pesa.
Puxo o ar devagar e, mentalmente, peço luz. Mais luz. Mais ar.
Da janela, encaro o jardim.
Talvez seja só minha mente tentando não quebrar… mas vejo movimento. Pequenas formas aladas entre as árvores.
Deixo.
Preciso acreditar em alguma coisa.
Arrasto a poltrona e me sento diante dela.
Uma canção antiga surge na memória.
Cantarolo baixo.
Com cuidado, estendo a mão.
Toco seus cabelos.
Oleosos. Frágeis.
Ela se encolhe.
Não paro.
Deito ao lado dela. Abraço seu corpo por trás.
Frio. Leve demais.
Escuto seu coração.
Irregular.
Fraco.
Meus olhos ardem.
— Não me importo se você me odeia… — sussurro. — Eu te amo. Me perdoa.
Fecho os olhos.
Puxo lembranças.
Nosso apartamento apertado. As risadas. As festas improvisadas. As brigas bobas. A barriga crescendo. Os abraços. A praia. O casamento. A vida.
A vida que existia.
As batidas do coração dela mudam.
Mais fortes.
Mais presentes.
A esperança dói.
— Volta pra gente… a gente precisa de você.
Silêncio.
Então...
— Não consigo…
A voz dela quase não existe.
Viro seu corpo com cuidado.
Ela enrijece ao meu toque.
— Me deixa.
— Não. — minha voz sai firme, apesar do medo. — Você nunca me deixou.
Respiro fundo.
— Eu falhei. Eu sei. Não consegui salvar sua filha. Eu sinto muito… mas o Liam… ele tá se desfazendo sem você…
Duas lágrimas escapam dos olhos fechados dela.
— Vocês podem recomeçar… vocês ainda têm tempo…
Ela abre os olhos.
E me corta.
— Não temos.
Sinto o chão ceder.
— O quê?
— Não sou saudável, tia.
O mundo para.
— Por que não me matou quando eu pedi?
Meu corpo trava.
— Eu vou morrer… e o meu Liam vai ficar sozinho.
Recuo. Caio contra o piso.
Não.
Não.
Não.
Ela se ergue com esforço.
— Descobriram um câncer no meu útero… depois que ela morreu.
Cada palavra é um golpe.
— Tiraram tudo.
Silêncio.
— Como uma mulher sem útero pode ser mãe de novo?
Meu peito implode.
— Eu não sabia… ninguém me disse…
— Eu não deixei.
Os olhos dela procuram a porta.
— Ele não pode saber.
— Ele já sabe.
Minha voz quebra.
Ela continua, amarga:
— Ele vai me deixar. Eu tô vazia… mas o mal ainda tá aqui.
A mão dela vai até o ventre.
— Eu ainda tô doente.
Eu me ajoelho diante dela.
— Você queria que eu te matasse?
— Não grita… — ela implora.
Eu não consigo respirar.
Olho pro alto.
— Me ajuda…
— Deus não ajuda ninguém — ela responde, vazia. — Não ajudou meus pais.
Congelo.
— O que você sabe?
— Eles não se drogaram. Foram mortos.
Frio.
— Deus me deu tudo… só pra tirar depois.
A porta se abre com violência.
— NÃO!
Liam.
Cassie se cobre.
Eu recuo, despedaçada.
Matteo me abraça.
Liam cai aos pés dela.
— Eu não vou embora… nunca.
A voz dele treme.
— Mesmo sem filhos… mesmo doente… eu fico.
Ele sussurra a música deles.
E ela quebra.
De verdade.
Os dois choram.
Se agarram.
Eu não fico.
Saio.
Com Matteo nos braços e culpa suficiente pra afundar um mundo.
Ando sem direção.
Portas. Corredores.
Ar.
Preciso de ar.
Chego à sala.
Minha visão falha.
Perco-me entre portas até alcançar a sala.
O ar muda.
Mais frio.
Mais pesado.
Lá fora, as árvores.
Preciso delas.
Preciso de qualquer coisa viva.
Caminho cambaleando até o jardim.
Minha visão falha.
Lágrimas.
Respiração curta.
E então...
eu vejo.
Um vulto.
Parado.
Esperando.
Não se move.
Não precisa.
Eu já sei.
A culpa me puxa pra baixo antes mesmo que ele fale.
— Mais um… — a voz vem baixa, quase entediada — Você coleciona bem.
Fecho os olhos.
Não.
Não agora.
— Deveria ter ficado em silêncio. — continua — A criança viveria.
Uma pausa.
— Seria… mais útil.
Minhas mãos tocam o gramado.
Frio.
Real.
— Posso ouvir o choro dela… — ele diz, quase curioso — Todas as noites.
Meu estômago revira.
— Chega… — sussurro.
Silêncio.
— Chamando pela mãe.
— CALA A BOCA!
A voz rasga minha garganta.
O mundo gira.
— Maldito…
Minhas forças acabam.
Caio de joelhos.
A cabeça pende.
Puxo o ar, desesperada, tentando manter Matteo longe.
Longe dele.
Longe de tudo isso.
Mas o ar não vem.
Não o suficiente.
O corpo cede.
Tombo.
O impacto é seco.
Pedra.
Escuridão avançando.
Mas antes...
antes de tudo apagar...
eu vejo.
Ela.
— Isabella…?
Um sorriso lento.
Errado.
— Sono io, puttana.
E então...
nada.
— Você não vai!
— Você não manda em mim!
— Eu sou o teu homem! Me respeita! Você não vai sair desse jeito, e pronto!
— Vamos ver se eu vou ou não, Vincenzo!
Ele me agarra pela cintura antes que eu alcance a porta. Me debato, braços e pernas sem direção, a raiva explodindo.
— ME SOLTA, PORRA! EU PRECISO SAIR! EU QUERO… EU PRECISO TRABALHAR!
— Não precisa. — rebate, firme, com Antoine ao lado dele. — Pela primeira vez na vida, você não precisa trabalhar. Eu dou conta de tudo.
— Eu não quero teu dinheiro!
— Quer sim, mamãe! — Antoine corta, prática demais. — Você comprou seu carro com o dinheiro dele e nem terminou de pagar!
— ANTOINE ROSSI! O QUE EU JÁ TE FALEI SOBRE…!?
Ela revira os olhos, impaciente.
— Sobre não se meter em conversa de adulto. Eu sei. Mas você não pode ir pra academia com essa cabeça toda enfaixada. Tá parecendo uma mãe de santo!
— Qual o problema? — dou de ombros, irritada.
— Nenhum. Vai lá. Quando te zoarem, não chora.
— “Mãe de santo”… — Vincenzo repete, rindo. — Essa foi boa. Bate aqui.
O estalo das mãos deles me atravessa.
Caminho até o espelho.
Estou medonha.
Só não me arrependo de ter ido até Cassie naquele dia porque Liam me contou: ela voltou a comer… voltou a reagir. Ainda não sorri, mas voltou.
E ele voltou a falar comigo.
E, por algum milagre, eu não morri. Nem fiquei com sequela. Só um corte na parte de trás da cabeça.
Então por que, inferno, essa faixa ridícula envolvendo meu crânio inteiro?
— Ordens médicas, Dess. Respeita. — Vincenzo cruza os braços. — Doze pontos não são “um cortezinho”.
— Respeita você a minha intimidade e para de ler a porra dos meus pensamentos!
— Mãe! Olha o palavrão!
— Não me repreende! — viro pra ela, já explodindo. — Tá do lado do seu pai? Ótimo. Castigo. Agora. E amanhã também.
— MAMÃE!
— Não é justo, Dess! — Vincenzo interfere. Antoine já agarrada nele. — Deixa ela.
— Amanhã tem ensaio na escola, mãe… — ela tenta, dramática.
— Que ensaio?
— Eu te falei!
— Ela não lembra, filha. — ele dá um meio sorriso. — Mas relaxa, a pancada não foi forte… e mesmo assim ela quer sair pra dar aula.
— Errou! — aponto pra ele. — Não é pra dançar. É pra ensinar, idiota! E você, mocinha, esquece esse ensaio!
— Não posso! — ela se joga no sofá. — Meu amigo vai me esperar!
Silêncio.
— Amigo??? — estreito os olhos.
— Dess, fica calma…
— Vincenzo… — avanço até ele, ferida, cansada, sem filtro. — Vai pra puta que te pariu. A filha é minha. Eu me resolvo com ela.
— É nossa. — ele rebate, com aquele maldito meio sorriso. — E convenhamos… equilíbrio nunca foi exatamente o teu forte.
— Amor é o cacete! — confusa, levo a mão à cabeça. Dói. — Já nem sei por que eu tô brigando!
— Viu?! Não vai sair! Fica em casa!
— Que amigo é esse, mocinha???
— Da escola. — responde ela, evitando meu olhar. Cruzando as pernas, completa: — Eu te contei sobre o baile à fantasia e sobre os ensaios. Eu não posso faltar, mãe.
— Você não pode faltar à porcaria de um ensaio de um suposto baile à fantasia no seu colégio e eu posso faltar ao meu trabalho?! Isso é justo?!
— Eu não tô com a cabeça enfaixada, mãe. Você precisa descansar.
— Não. Eu vou trabalhar.
— Não vai.
— Jesus. Vocês parecem crianças brigando. — comenta Enrico, enquanto brinca com Matteo. — Se ela colocar um gorro na cabeça, o problema se resolve.
— PAI!!! — repreende Vincenzo.
Beijando a bochecha de Enrico, agradeço.
— Você é demais! Te amo!
Corro até o quarto. Vincenzo me segue. Irritado, ele me observa revirar todas as gavetas de gorros, bandanas e bonés até encontrar uma que me agrade.
Sorrio.
— Sai. — rosno, enquanto ele permanece em frente ao espelho do closet. — Eu vou te empurrar.
— Tenta.
O desafio vem com aquele sorriso cafajeste que me irrita e me desmonta ao mesmo tempo.
Cerro os punhos, prendendo o riso. Segundos antes de socar o abdômen trincado dele, a campainha toca.
— Salvo pelo gongo. — ele brinca, roubando um beijo meu. — Fica em casa. Ponto final.
E tranca a porta do quarto por fora.
— SE FICAR QUIETINHA, EU TE LIBERO!
— VOLTA AQUI, VINCENZO!
Chuto a porta. A dor sobe pelo dedinho do pé.
— Filho da…
Tropeço nos meus próprios tênis. Caio no colchão.
Respiro fundo, xingando os pontos atrás da minha nuca.
E começo a falar sozinha, porque claro que começo:
— Repouso… — resmungo, encarando o teto. — Aquele tipo de repouso em que você cuida de um filho que aprendeu a correr antes de aprender a andar. Repouso onde você cozinha porque sua família diz amar sua comida, mas na verdade quer te fazer de escrava. Repouso onde eu ajudei minha filha com tarefa escolar. Filha que agora está contra mim!
Grito no travesseiro.
Me levanto de novo.
Vou até a porta.
Decidida a arrebentar a maçaneta com um halter de dois quilos.
Mas a voz dele vem antes.
— Não se atreva, Dess. Eu vou abrir.
— Arrependido, canalha? — pergunto assim que ele destranca.
Ele me puxa pela cintura.
Me beija.
— Claro que não, idiota. Temos visitas.
— Quem?
— Seja boazinha, Dess. Se controla. Meu amigo precisa de você.
— Liam???
Escapo do abraço e corro pra sala.
Empaco.
— Não… acredito…
— Dess… — sussurra Vincenzo no meu ouvido. — Vai com calma. É a primeira vez que ela sai de casa em meses. Ok?
— Ok. — engulo em seco. — Ok…
Caminho devagar.
Insegura.
E então abro um sorriso torto.
— Oi…
— Tia. Relaxa. Eu não sou um bicho. Não vou te morder.
Uma crise de riso me dobra no meio.
Eu tento parar, mas não consigo.
Procuro Vincenzo no meio do riso e choro ao mesmo tempo.
Ele me abraça forte.
— Temos visitas pro jantar, Dess. Não é incrível?
— Sim… — limpo o rosto com as mãos. — Sim…
Toco nas ataduras.
Me assusto comigo mesma.
— Foi um… acidente.
— Na nossa casa. Eu sei. — Liam responde. — Foi minha culpa.
Dou um passo e o abraço.
Forte demais.
— Não vamos mais falar de culpa. Ok?
— Ok. Posso respirar agora?
Solto ele rindo.
E fico sem saber o que fazer com Cassie me olhando de volta, viva, presente, quase inteira de novo.
Enrico aparece com vinho.
— Um pouco vai te fazer bem. Relaxa.
Ela pega.
Sorri.
Pequeno.
Mas sorri.
— Viu? — Liam fala, fascinado. — Você sorriu.
Antoine puxa Cassie pela mão.
— Senta comigo? Tenho muita coisa pra te contar.
— Tem???
— Dess!!!
— Contar pra ela o que não contou pra mim???
— Mãe!
Cassie ri.
— Nada mudou, tia. A pirralha vai começar a dar trabalho.
E some com Antoine pelo corredor.
Liam me abraça de novo, agora chorando.
— Obrigado, Adessa. Por você… ela voltou. Eu te devo a minha vida.
Meu peito aperta.
Eu não respondo.
Só corro pro banheiro e desabo.
Choro até o ar faltar.
Seco o rosto.
Cubro as ataduras com um gorro torto.
Olho o espelho.
— Porra… de novo não.
Abro a porta antes que qualquer coisa dentro de mim tome o controle.
— Tudo bem, Dess?
Respiro fundo, apoiada na pia da cozinha.
— Sim. — engulo o medo. — Não deixa ninguém tomar meu corpo hoje, amor. Por favor. Nada pode estragar esse encontro. Nada.
Ele me beija a testa.
— Deixa comigo.
Após o jantar e incontáveis taças de vinho, percebo Liam e Cassie muito mais relaxados do que antes.
Incomodada por não ter ouvido sua gargalhada, provoquei Vincenzo ao responder Cassie:
— Amanhã. Amanhã eu retiro esse turbante ridículo e volto às minhas atividades.
— Daqui a dois dias. — ele refuta, sorrindo. — Não me desobedeça. Eu sou teu marido.
— Marido… — dou um gole de vinho e aviso. — Melhor parar por aqui se não quiser ter problemas.
— Esposa. — ele me encara. — E se eu quiser ter problemas?
Rindo, respondo:
— Acho que alguém aqui nessa mesa vai apanhar… e não vai ser a Cassie, o Liam, o Enrico, o Matteo ou a Antoine.
— Papai! — Antoine exclama. — Só pode ser o papai, mãe! Só sobrou ele!
— Garota esperta… — beijo sua bochecha. — Como descobriu?
— Essa foi fácil! Manda outra!
— Qual o nome do seu amigo do baile???
— Dess!!!
— Não se atreva a me repreender, Vincenzo!!! Eu estou cuidando da… — mais um gole direto da garrafa — da inte… inte… in…
— Integridade, idiota. — ele corrige. — Para de beber, Dess.
— Eu já te mandei tomar no…?
Ele tampa minha boca com a mão.
— Sim. Já me mandou pra todos os lugares hoje. E é por isso que eu te amo.
Arfo.
— Também te amo, imbecil.
— Vocês continuam os mesmos. — murmura Cassie.
Liam a abraça com cuidado, beijando sua bochecha. Gosto disso.
— Quanto mais se xingam, mais se amam…
— Mais vinho pra Cassie, Enrico! — peço, animada. — In vino veritas!
— O que é isso, mãe?
— Não faço ideia!
Rimos.
Até que Vincenzo se inclina sobre a mesa, cotovelos apoiados entre pratos que mais tarde eu vou odiar lavar.
— “No vinho, a verdade”. É um provérbio antigo. As pessoas tendem a falar o que realmente sentem quando bebem.
— Eu não preciso disso. — respondo. — Sou o que sou com ou sem vinho.
— Isso é verdade. — ele concorda.
— Pronto pra apanhar?
— Sempre.
Ele sorri daquele jeito que me desmonta.
— O que eu posso fazer se sou gostoso?
Jogo o guardanapo na cara dele.
— Fica quieto. Tá passando dos meus limites.
Cassie ri.
— Tia… você não tem limites. Nunca teve.
— Concordo. — diz Vincenzo.
Antoine então se inclina para Cassie, conspiratória:
— Eles sempre brigam. Todas as noites eu ouço minha mãe xingando meu pai no quarto deles. Mas eles sempre estão juntos e felizes. Então acho que não é briga de verdade… acho que eles brincam.
Silêncio.
Cassie pisca.
— Brincam?
— Brincam e fazem safadeza. Eles são muito safados. Vivem se beijando.
O silêncio dura meio segundo a mais do que deveria.
E então Cassie explode numa gargalhada alta, verdadeira, limpa.
Aquela gargalhada que parecia perdida.
Nos entreolhamos.
Liam congelado.
Enrico sorrindo sem saber por quê.
Vincenzo… olhando pra ela como se tivesse acabado de ver o mundo voltar a funcionar direito.
Cassie respira, ainda rindo:
— É isso aí, pirralha! Eles brincam de brigar! Isso é bem legal!
— Você já fez isso com o tio Liam?
O ar muda.
Um microsegundo de tensão.
Cassie olha pra ele.
E depois responde, baixa, honesta:
— Já… faz tempo, mas já.
Antoine abre um sorriso satisfeito, como se tivesse resolvido um mistério do universo.
— Então devia começar de novo.
Liam engole seco.
Cassie desvia o olhar, ruborizada.
E Vincenzo, claro, quebra o clima:
— Ela tem razão.
Reviro os olhos.
— Você vai apanhar hoje.
— Sempre.
Antoine puxa Cassie pela mão.
— Vem ver uma coisa!
— Filha, estamos conversando!
— Cassie precisa ver minha sala de dança!
E antes que alguém impeça, elas já estão indo.
Cassie meio tonta de vinho, curiosa.
Eu sigo.
Vincenzo e Liam atrás.
Enrico fica com Matteo dormindo no sofá.
Quando chegamos, Antoine acende as luzes coloridas.
A bola de discoteca gira.
Reflexos dançam pelas paredes.
Cassie olha em volta, incrédula.
— Sério que você tem uma bola de discoteca em casa, tia?!
Rindo, respondo:
— Ok. Eu sei que é um pouco de exagero…
— Um pouco!? — reclama Vincenzo. — Isso me custou o olho do…
Um beijo interrompe a frase antes que ela morra de forma criminosa na mesa da sala.
Ele fica tonto por um segundo, depois suspira, derrotado.
— É assim que ela gasta meu dinheiro, Cassie.
— Foi num lugar como esse que tudo começou, amor. — digo, abraçando meu marido enquanto Antoine protesta do lado. — Eu queria recriar o clima do “California”.
— Conseguiu, Dess…
— Vai começar a safadeza, Cassie.
Ela revira os olhos, atravessa a sala e liga a torre de som como se estivesse assumindo o controle de um pequeno universo.
Depois pega o celular do Vincenzo.
Rápida demais.
Suspeita demais.
Sorrio no canto da boca.
— Ela tá aprontando alguma.
— Com certeza…
A música preenche o espaço.
Antoine mexe no celular como se estivesse hackeando o destino.
— Eu me amarro nessa música, Cassie. Eu te contei, né?
— Contou o quê!?
— Dess! Cala a boca e dança comigo!
Enciumada e rendida ao mesmo tempo, obedeço.
Ele me guia.
Simples.
Fácil.
Perigoso.
O mundo reduz pra isso: passos, respiração, calor.
— Tô me sentindo na casa de praia quando a gente fez amor pela primeira vez.
— Exatamente…
— Safada.
— Cachorro.
E eu rio.
Porque ainda é isso entre a gente. Ainda é isso mesmo depois de tudo.
Ao fundo, Antoine faz o impossível acontecer.
Ela empurra Liam até Cassie como se estivesse organizando o universo à força.
— Dancem. Isso faz bem pra alma.
Os dois travam.
Confusão pura.
Dois adultos esquecendo como se atravessa um momento simples.
— Dá pra começar ou vou ter que ensinar?
Silêncio.
E então Liam a puxa.
Devagar.
Como quem tem medo de quebrar algo precioso.
Cassie hesita… e depois cede.
A música muda tudo.
Eles dançam como se o tempo tivesse resolvido dar uma trégua.
E isso me desmonta.
As lágrimas vêm sem pedir licença.
— Eles vão ficar bem, Dess.
— Eu sei…
Antoine nos empurra discretamente pra fora da sala.
Como se entendesse que aquilo não era mais pra olhos de criança.
No corredor, ela boceja, satisfeita.
— É safadeza, mas eles precisavam disso.
Ela beija nossa bochecha.
— Boa noite, papai. Boa noite, mamãe. Amo vocês…
Se afasta.
Vincenzo me abraça.
Forte.
Quente.
Real.
— Nossa filha é mais do que especial, Dess.
A voz falha.
Eu não seguro.
— Sim… muito.
Engulo o choro que insiste em ficar preso.
— Não deixa que nada de ruim aconteça com ela. Nunca.
Ele aperta mais.
Sem hesitar.
Sem dúvida.
— Nunca.
No dia seguinte à reconciliação de Liam e Cassie, acordo tarde.
Fico na cama lembrando de como os dois saíram daqui, alegres, leves… apaixonados. Aposto que já “brincaram de brigar”.
Rio comigo mesma.
E então lembro de Antoine.
Nosso anjo.
Tudo aconteceu por causa dela.
— Preciso ligar pra Cassie… — penso alto, já levantando.
Caminho descalça até o quarto de Matteo e beijo seu rostinho. Ele ainda dorme, pequeno, protegido… escoltado pelo avô, que ronca alto no canto.
— Te amo — sussurro.
Saio.
Na cozinha, resmungo ao ver a pia cheia de louça.
— Depois do café eu lavo.
Abro a geladeira e travo.
A merenda de Antoine está lá.
Intacta.
O peito aperta.
Corro.
Abro a porta do quarto dela sem pensar.
— O que faz aqui???
— Calma, Dess… — pede Vincenzo, ao lado da cama.
Antoine está deitada, encolhida, ainda sob o edredom.
— Por que não a levou ao colégio?!
— Dess…
Ajoelho ao lado dele num movimento brusco. Ele recua.
Toco a testa de Antoine.
Queima.
Um soluço prende na minha garganta.
— É só uma febre — ele diz, tentando me segurar no chão. — Se você perder o equilíbrio, vai ser pior.
— Oi, mamãe… — a voz dela sai fraca, doce. — Eu tô bem.
Ela sorri de leve.
— O tio Liam e a Cassie já foram?
— Já, filha — responde Vincenzo, sem tirar os olhos de mim. — Você foi bem esperta ontem.
— Você ficou com ela a noite toda?! — pergunto, já em pânico.
— Ela me chamou de madrugada.
Engulo seco.
— Como eu não vi isso no nosso quarto?!
Um olhar dele.
Curto.
Significativo.
Entendo.
Telepatia.
— Vamos ao médico. Agora.
— Eu preciso ir ao ensaio, mãe…
Ela abre os olhos, vermelhos, pesados.
— Meu amiguinho…
— Eu te levo depois. Agora você precisa ficar bem.
— Eu não consigo levantar… meu corpo dói.
E então me abraça.
Forte demais pra alguém tão quente.
O corpo dela me assusta.
— O ensaio é hoje… eu vou perder…
— Não vai, meu amor. Eu falo com a diretora. Vai ter outro. Eu juro.
— Você não, mãe. Papai vai.
Vincenzo disfarça um sorriso.
Fica quieto.
— Por que o papai? — pergunto, já vestindo ela com cuidado.
Ela me olha, cansada.
— Você faz barraco… papai é mais calmo.
Pausa.
— Mas eu te amo. Tá?
O peito quebra um pouco.
— Não vou fazer barraco. Prometo.
— Vamos, Dess — ele insiste.
— Aonde?!
— Médico.
— Claro… claro.
Levanto num impulso.
Corro pro banheiro.
Escovo os dentes rápido demais.
Coloco o gorro torto.
Olho o crucifixo no quarto de Matteo.
— Cura minha filha… — sussurro.
Volto.
Vincenzo já está com ela no colo.
E aí ele fala, mais sério do que antes:
— Mantenha a calma, Dess. Ela desmaiou.
O mundo falha.
Só por um segundo.
Mas falha.
Saio correndo pela casa.
Grito Enrico.
Peço que cuide de Matteo.
Ele me olha assustado, já com o bebê no colo.
— O que ela tem?!
— Não sei, pai. Fica calmo. Voltamos logo.
Na garagem, Enrico faz o sinal da cruz.
— Que Deus a cure…
Essas palavras ficam no ar.
Eu ainda não entendo o peso delas.
Pijama, descalça, entro no carro.
Abraço Antoine.
Choro.
Rezo.
— Dess, é só uma febre… — Vincenzo diz ao volante.
— Eu sei… — minto.
Porque eu não sei.
Eu sinto.
— Mais rápido, amor… mais rápido.
Quarenta graus.
Confiro de novo.
Quarenta.
Olho pra ele pelo retrovisor.
Medo agora mora no rosto dele também.
— Ela vai ficar bem, Dess… confia.
E pela primeira vez naquela manhã, ninguém tem certeza de nada.
Assim que chegamos ao pediatra, Antoine, já acordada, tagarela enquanto é meticulosamente examinada.
O médico sorri, ouvindo tudo com uma paciência quase ofensiva.
Vincenzo e eu ficamos no sofá, de mãos dadas, incrédulos, esperando o diagnóstico.
— Nada.
Silêncio.
— Nada??? Como assim??? Ela estava ardendo em febre e desmaiou!!!
O médico nem pisca.
— Vou prescrever alguns exames por precaução, mas Antoine está perfeita. Pronta para o ensaio.
Alívio.
Um alívio tão grande que quase irrita.
Antoine salta da maca, olha o relógio no pulso do pediatra e comemora:
— Woohoo! Ainda dá tempo!
E olha pra nós, ainda sentados no sofá.
— Vão ficar aí?! Eu tenho um compromisso!
De volta pra casa, ela corre pro quarto cantarolando.
Passa por Enrico e beija sua bochecha.
— Voltei.
— Eu sabia. — ele sorri.
E alguma coisa em mim aperta.
Não devia, mas aperta.
“Eu sabia.”
Como se todo mundo soubesse alguma coisa que eu não sei.
Enrico comenta:
— Ela é extremamente forte.
— Sim. — rosno.
E isso já sai errado.
Seguro o pulso dele de repente.
— O que quis dizer com “ela se exauriu muito ontem”?
Ele abre a boca, mas não termina.
Porque Antoine e Vincenzo já estão saindo juntos.
De mãos dadas.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Meu olhar trava neles.
— Aonde pensam que vão?!
— Ao ensaio! — ela responde, leve demais. — Papai vai filmar tudo pra você ver depois, mamãe!
Vincenzo coça a nuca.
— Ela me pediu, Dess.
Silêncio.
Perigoso.
— Ela te pediu??? Não me diga!!!
Explodo.
Empurro Enrico, avanço em Vincenzo.
Ele nem tenta fugir.
Já tá em posição de defesa antes mesmo do primeiro golpe.
E eu bato.
Não forte de machucar.
Forte de descarregar.
— NINGUÉM SAI DAQUI SEM MIM!
— Mãe! — Antoine dramatiza. — Estamos atrasados!
— ANTOINE ROSSI! HÁ MEIA HORA VOCÊ TAVA DESMAIADA!
— Palavrão…
— PALAVRÃO É O CACETE!
Tranco a porta.
Levanto o molho de chaves.
— Daqui ninguém sai sem mim, mocinha! Entendeu ou quer que eu desenhe?!
— Mas mãe…
— MAS MÃE NADA!
O peito aperta.
E a pergunta sai antes de eu segurar:
— Agora você tem vergonha de mim?! Desde quando?!
— Dess, não é vergonha… — Vincenzo tenta.
— VINCENZO!!!
Silêncio.
Ele levanta as mãos.
— Depois a gente conversa.
Antoine cruza os braços.
Sentada no sofá.
Pequena, firme, irritantemente segura de si.
— Nem daria… você tá com as chaves.
Ele segura meu pulso.
Suave.
Só o suficiente pra me parar.
— Agora não, Dess. Depois. Vai se vestir. Eu te espero.
Meu peito desaba por dentro.
— Ela gosta mais de você.
A frase escapa.
E eu odeio ela assim que sai.
Ele encosta em mim, baixo:
— Não pensa isso. Ela te ama. Só tem medo de você não gostar do amigo dela.
Um beijo na minha bochecha.
E me solta.
— Vai. Não demora.
Antoine me olha de lado.
— Não vai de botas.
Dois golpes invisíveis.
Saio.
No quarto, o espelho me encara antes mesmo de eu encarar ele.
Choro.
Seco o rosto.
Capricho na maquiagem como se isso resolvesse alguma coisa.
Olho nos meus olhos e sigo mesmo assim.
Batom leve. Cílios pesados. Raiva bem escondida.
“Puta vencida.”
A frase vem sem pedir licença.
Eu rio sem humor.
Botas texanas.
Vestido leve.
Perfeita pra fingir normalidade.
Arranco as ataduras.
Dor.
Raiva.
Mais dor.
Faço uma trança torta no cabelo.
— Que merda…
Minha visão falha por um segundo.
Ela aparece.
O reflexo.
Sorriso errado.
Respiração trava.
Eu puxo o lençol da cama.
Jogo no espelho.
Cubro tudo.
— No. Nay. Never.
Engulo seco.
— Hoje quem manda sou eu, Eileen.
Retornando à sala, anuncio:
— Estou pronta.
Vincenzo deixa escapar um “wow” antes de se levantar do sofá e me observar com aquela cara irritantemente satisfeita.
— Obrigada. Vamos. — digo, fria. — Não devemos atrasar o ensaio.
— Você tá linda, mamãe.
Sorrio, ainda sentindo aquela tensão estranha por dentro. Não confio no silêncio da minha própria cabeça.
Entro no carro e fecho a porta como se estivesse fechando um acordo comigo mesma.
Durante o trajeto, uma ideia começa a se formar.
Raiva alimenta Eileen. Emoção alimenta Anahita.
Se eu descobrir o que puxa cada uma delas… talvez eu consiga segurar tudo no lugar. Talvez isso seja o começo de alguma coisa que se pareça com cura.
Vincenzo, ao volante, pousa a mão na minha coxa.
— Essa é uma grande descoberta, Dess.
— Não me diga.
— Você tá linda.
— Vá pro inferno.
Mas não tiro a mão dele.
Quando chegamos ao colégio, desço do carro já em alerta, encarando o caos alegre do estacionamento. Pais, crianças, gritos, fantasia demais, energia demais.
Tudo demais.
Vincenzo entrelaça os dedos nos meus.
— Não vou fazer escândalo — aviso, magoada. — Fica tranquilo.
— Eu te amo de qualquer jeito. Seja você mesma.
Engulo seco.
— Não me faz chorar.
Ele ri.
— Vai borrar sua maquiagem esplêndida.
— Ok.
Antoine dispara até os amigos.
E eu fico ali.
Preso no meu próprio corpo.
Vincenzo percebe e puxa minha cintura, firme.
— Calma.
— Eu tô calma.
Mentira elegante.
Sento na arquibancada, tentando parecer funcional enquanto tudo ao redor se move rápido demais.
E então eu vejo.
Antoine cercada.
Rindo.
Viva.
Amada.
E isso deveria me acalmar.
Mas não acalma.
Porque onde ela brilha… eu me sinto sombra.
— Ela é, Dess. Para de pensar assim.
— Para de falar comigo dentro da minha cabeça.
— O que eu fiz de tão grave?
— Vincenzo Rossi…
Seguro a gola da camisa dele.
— Não me olha assim.
— Sua filha tá vindo. Se controla, mulher.
Eu viro o rosto na hora.
Respiração curta.
Antoine se aproxima.
E vem com um menino.
Mão na mão.
Pronto. Acabou a paz.
— Esse é o meu amigo, pai!
— Eu tô aqui, Antoine. Não vai me apresentar ao seu amigo?
— Essa é minha mãe! — ela anuncia, feliz. — Ela não é linda?!
O menino sorri, educado demais pra idade.
— Muiiito.
Ótimo.
Já começou.
— Eu te falei! — Antoine comemora. — E ela luta muito.
— Wow. A senhora é profissional?
Meu cérebro trava.
Profissional do quê, exatamente?
— Antoine me contou sobre a luta. Irado!
Vincenzo estala os dedos na minha frente.
— Ground control to major Tom…
— Para de me chamar assim.
— Ele te fez uma pergunta.
Suspiro.
— Eu não preciso de intérpretes. Obrigada.
— Menos, Dess — ele sussurra, rindo.
— Ele é o Thor, mãe!
— Thor?!
— Thor de Thor?!
— Thor é a fantasia dele — Vincenzo explica.
Olho pra ele como se ele tivesse traído a humanidade.
— Eu não preciso de tradutor.
— Eles vivem brigando, mas se amam muito — Antoine comenta, tranquila.
E então o menino fala, mais baixo:
— Meus pais nem se falam… às vezes eu me sinto meio sozinho.
Silêncio.
Isso corta mais fundo do que deveria.
Antoine segura a mão dele.
— Quando ficar triste, vai lá pra casa. É enorme. Minha mãe cozinha muito bem. Meu maninho já sabe andar. E meu avô é simplesmente esplêndido!
Eu olho pra Vincenzo.
Ele olha pra mim.
E por um segundo, o mundo inteiro parece menos agressivo.
Respiro.
— Qual seu nome, Thor?
— Gabriel, senhora.
Ele aperta minha mão.
Educado.
Inofensivo.
Perigoso do jeito errado.
— Prazer conhecê-la.
Vincenzo ri do meu lado.
— Relaxa. Ele tem dez anos.
— Eu não pedi sua opinião.
— Você já tá planejando casamento, né?
— Cala a boca.
O ensaio continua.
O caos continua.
E, de algum jeito irritante, minha filha parece mais feliz do que eu consigo explicar.
No carro, no fim, ela solta:
— Mãe… ele pode dormir lá em casa?
Eu engasgo.
— Claro. Por que não?
Vincenzo dirige como se estivesse se divertindo da minha desgraça.
— Você não tem jeito mesmo.
— Aguarda.
Olho pra frente.
Sorriso mínimo.
— O que é teu… já tá a caminho.
— Ainda com raiva de mim?
— Raiva??? Eu???
— Dess, conversa comigo.
— Estou tomando banho. Esse cabelo tá um nojo de sujo. Me deixa em paz.
— Quer que eu te ajude a lavar?
— Do box, com os olhos fechados, ameaço:
— Não se atreva. É melhor ficar distante de mim hoje.
— Não consigo. — diz ele antes de sair do banheiro.
Sorrio ao ouvir uma das minhas canções prediletas vindo do quarto.
— Essa é nova, Dess. Tipo… uma canção velha, mas nova pra mim.
— E daí? — provoco ao sair nua do banheiro, caminhando devagar até a gaveta de lingeries. O frio da água ainda escorre pela minha pele. Ele está sentado na beirada da cama, me olhando como se tivesse esquecido de respirar. — O que foi? Nunca me viu antes?
— Já. — ele solta o ar devagar. — E sempre que te vejo… é como se fosse a primeira vez.
Me visto rápido. Tiro a toalha da cabeça. Por um segundo, no espelho, meu cabelo… muda.
Bobagem.
— Vincenzo! Não me assusta!
— Eu já estava aqui. Por que o susto?
— Non lo so.
O silêncio pesa.
— Não sabe? Desde quando você fala italiano?
Viro rápido demais.
— Italiano? De onde você tirou isso?
— Dess…
— Não foge de mim.
Agarro seu cabelo. Forço seu rosto contra o meu.
— Você me maltratou o dia inteiro, cachorro.
— Dess, eu não...
— Não quis bancar o pai perfeito? Acha que eu não vejo? Ela prefere você.
O olhar dele muda. Não é raiva ainda.
É… alerta.
— Eu não tô gostando disso.
— Do quê?
Sussurro no ouvido dele, quase rindo.
— Não gosta da sua mulherzinha raivosa? Arranca. Rasga. Me quebra.
As mãos dele apertam meus braços.
— Dess! O que deu em você?
— Raiva. Ranço. Ira. Não é disso que você gosta?
— Dança comigo.
Aquilo sai estranho. Fora de lugar. Um pedido de socorro disfarçado.
— Não.
Recuo. E bato.
O som do tapa corta o quarto.
Ele não reage.
Só… me olha.
— Não era assim que você gostava? — provoco. — Não tratava a Sweet assim?
— Para.
Baixo. Controlado.
— O que isso tem a ver com hoje?
— Tudo e nada. Niente.
Ele passa a mão no rosto. Respira fundo.
— Eu não vou entrar nisso.
— Covarde.
Outro tapa.
Agora o maxilar dele trava.
— Me larga, Dess.
— Dor te incomoda? Ou você só gosta de causar?
Mais perto. Mais baixo.
— Me mostra, Cassiel.
O nome bate nele.
Forte.
Ele segura meus pulsos. Não machuca. Ainda não.
— Para. Tá passando do limite.
— É isso que eu quero.
Forço. Provoco. Empurro.
Ele recua.
Eu avanço.
De novo. De novo. De novo.
Até ele cair.
O ar dele falha por um segundo.
— Não… — ele rosna, mais pra si do que pra mim. — Não me força a isso.
— Já foi forçado.
Subo sobre ele. Pressiono. Desafio.
— Reage.
As mãos dele tremem nos meus pulsos.
— Eu já estou curado, Dess. Você me curou.
— Será?
Silêncio.
Pesado.
Denso.
Ele fecha os olhos.
Por um segundo… ele quase consegue.
Então eu empurro mais uma vez.
E mais.
E mais.
Até quebrar.
Quando ele abre os olhos de novo…
não é mais só ele.
Ele me afasta com força suficiente pra me fazer perder o equilíbrio.
Se levanta rápido demais.
Respiração descompassada.
Olhar perdido.
E cheio de alguma coisa que ele odeia reconhecer.
— Eu pedi… — a voz sai falha, rouca — Pra não acordar isso.
Eu sorrio.
Errado.
— Então acorda.
O impacto vem seco. Sem explosão. Sem espetáculo.
Só… inevitável.
O quarto gira.
O ar some.
E, mesmo assim, o que mais dói não é o corpo.
É o olhar dele.
Arrependido.
Destruído.
Preso no próprio erro no mesmo instante em que acontece.
A mão dele ainda no meu pescoço, mas já cedendo.
Já recuando.
Já falhando.
— Agora é tarde… — ele sussurra, como se estivesse se condenando.
A visão escurece nas bordas.
E, no fundo…
não sou mais eu.
— Chiamami… Isabella.
Assim que acordo, procuro, desesperadamente, por Vincenzo.
Nada.
A cabeça lateja como se eu tivesse levado um impacto antigo, não recente. Chamo o nome dele uma vez. Depois outra.
Silêncio.
E é aí que a saudade vem do nada.
Violenta.
Sem lógica.
Sem explicação.
Meu peito aperta como se tivesse sido deixado pra trás em algum lugar que eu não lembro de ter ido.
Na suíte, a pia está fria.
O envelope está lá.
Esperando.
Eu não abro de primeira.
Fico olhando.
Como se o papel pudesse me responder antes da verdade.
As mãos tremem quando finalmente rasgo a borda.
E leio.
“Perdão, meu grande amor.
Eu te machuquei no corpo e na alma.
Infelizmente, ainda não aprendi a viver com a culpa.
Me afasto de você e de nossos filhos por medo de que o velho homem retorne.
Te amo pela eternidade, Dess.
Adeus.”
O mundo não desaba.
Ele simplesmente para.
E depois continua sem mim.
O papel escapa dos meus dedos.
Eu me sento no chão do banheiro sem perceber.
Choro sem som no começo.
Depois com som.
Depois sem controle.
No espelho, vejo meu rosto.
Marcas.
Não só na pele.
Em mim inteira.
A lembrança não vem como cena.
Vem como fragmento.
Eu.
E outra coisa dentro de mim usando meu corpo como passagem.
Engulo em seco.
— Não foi ele… — minha voz falha. — Não foi ele.
Mas eu lembro.
As brechas.
A sensação de perder o centro.
O gosto de não ser só eu.
— Eu deixei acontecer…
O choro aperta mais.
Culpa, raiva, vazio.
Tudo junto.
Sem ordem.
Sem defesa.
— Eu dei espaço…
O nome vem na mente como um sussurro antigo.
Isabella.
E junto dela, a vergonha.
Não dele.
Minha.
Levanto devagar.
Encaro o espelho.
Não tem vitória ali.
Só um pedido quebrado olhando de volta.
— Não vai embora… — sussurro, como se ele ainda pudesse ouvir. — Não assim.
Dessa vez, não vou culpá-lo pelo abandono. A culpa é minha. Fui eu quem empurrou. Quem insistiu. Quem cutucou até sangrar. Eu acordei o que ele passou tanto tempo tentando enterrar. E ele lutou. Lutou mais do que eu quis enxergar. Vincenzo não é fraco. Nunca foi. Eu é que precisei quebrá-lo para provar alguma coisa que nem eu mesma entendo. Eu me apaixonei por um homem que quis ser melhor. E fui eu quem o puxou de volta para o inferno. Eu as odeio. Eu me odeio. E agora? O que eu faço sem ele? A casa continua a mesma, mas o som mudou. Não há chave girando na maçaneta. Não há passos pesados atravessando a sala. Não há o toque dele me encontrando antes de qualquer outra coisa. Era sempre assim. Antes das crianças. Antes do mundo. Era a mim que ele procurava. A mim. Engulo o vazio seco na garganta. Dói. Não como antes. Pior. Mais silencioso. Mais fundo. Ainda assim, sigo. Porque meus filhos estão aqui. Porque a vida não para só porque eu quebrei algo que não sei consertar. Mas não ac...
Apesar de não ter notado o desempenho da debutante porque não tirava os olhos de Leo e Antoine, eu a elogio. — Você está perfeita. Alguns ajustes aqui e ali e... “voilà”! — Movendo meus braços como as asas de uma borboleta prestes a cair, afirmo. — Sua apresentação será “meravigliosa”! — Obrigada, tia! — Agradece-me ela por não ter cobrado nada por meu trabalho. Se ela soubesse que estou aqui somente para vigiar Antoine e Leo, certamente, não me agradeceria. — Você é demais. Leo já havia me dito isso, mas, agora, eu vi com meus próprios olhos. Como aprendeu a dançar tão bem!? Você já dançou profissionalmente em algum lugar!? Se eu te disser a verdade, você ainda vai me considerar “demais”? E seus pais!? Uma stripper de puteiro como coreógrafa da adolescente inocente!? Talvez, ela não seja tão inocente quanto parece. — Tia!? — Oi? — Esquece! — Rindo, ela comenta que sou engraçada. — Vou treinar muito até a festa! Não irei te decepcionar! — Tenho certeza disso! — Beijo o topo de sua cabe...
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