CAPÍTULO 37 - HEREDITÁRIO
Há dois dias, ela não se alimenta.
Não fala. Não chora. Não reage.
Há dois dias, eu choro por ela.
Por sua dor mal disfarçada.
Tenho dormido ao seu lado, abraçada a ela que não me abraça.
Não sorri. Não conversa.
Durante o sono, ela chama por Gabriel.
Move os braços como se tentasse salvá-lo de alguma queda.
Luta, punhos fechados, contra algo que a assusta — algo de quem eu tento protegê-la, ajoelhando-me diante do Crucificado sobre o batente da porta, implorando para que Ele me deixe entrar em seus pesadelos e lutar junto a ela.
Eu sei contra quem ela luta.
Ao menos… imagino.
A Legião a deseja.
Lúcifer a persegue.
Fraca no corpo e na alma… talvez eles a alcancem.
— Não vou permitir.
— Ela ainda é forte. Seu corpo se alimenta da fé.
— Não vejo fé em seus olhos quando, raramente, ela olha pra mim, Vincenzo. Vejo um vazio assustador.
— Dess, ela é diferente. Fique calma. Ela vai passar por tudo isso.
— Como pode saber!? Ela é uma criança! Precisa de cuidados! Terapia! Qualquer coisa que a traga de volta à vida… a mim!
— O que Antoine pode dizer a uma terapeuta, Dess!?
— Que o melhor amigo morreu!?
— E que quem o matou foi um “anjo caído”? Isso não faz sentido no mundo em que vivemos, amor!
— Vincenzo! Olha pra mim! — ordeno às suas costas nuas e suadas.
Sigo atrás dele.
— Estou falando da nossa filha e você sai assim!?
Ele sorri — infantil, deslocado — E tampa minha boca com a mão ao cochichar:
— Eu preciso trabalhar, Dess. Em casa a gente conversa.
— Não aceito!
— Aceitando ou não, eu tenho que trabalhar.
— Que diabos é essa Legião!? Outro grupinho asqueroso atrás da luz da nossa filha!? Quando essa merda vai acabar!?
— Dess. Agora não.
— Agora sim! Eu não aceito o seu silêncio!
— Aceitando ou não… eu vou trabalhar.
João elogia Matteo no colo de Enrico.
Puxo uma das cordas laterais do ringue e, num impulso, subo no tatame.
Ergo-me, sem jeito, mas avanço.
— Sua filha precisa de ajuda e você não faz nada!? Ela precisa chorar! Viver a dor dela!
— Dess…
— “Dess” é o cacete! Você voltou pra ficar ou pretende ir embora de novo!? A gente virou peso na sua vida!?
Ele olha por cima do meu ombro.
— Minha aluna chegou, Dess. Em casa a gente conversa.
— Atrapalho alguma coisa?
A voz.
Aveludada. Segura. Sedutora.
Viro devagar.
Muito devagar.
E o ranço cresce dentro de mim como se tivesse vida própria, construindo imagens que eu não pedi.
— Posso voltar se…
— De maneira alguma — responde Vincenzo, rápido demais, quase nervoso. — Ela já estava de saída.
— “Ela”, não.
Não desvio o olhar.
— Eu tenho nome e sobrenome. Adessa Rossi. Esposa dele. Vincenzo Rossi é o meu marido… e seu professor. Interessante, não acha?
— Muito. — Ela sorri. Bonitos dentes.
E então eu vejo tudo.
Abdômen trabalhado demais. Silicone. Harmonização. Cílios postiços. Lábios preenchidos.
Olhos escuros.
E o maldito cabelo ruivo.
De novo.
— Vocês formam um belo casal.
— Seu cabelo é natural?
— Dess!
— Ué. Curiosidade. — Minto. — Eu adoro essa cor.
Minto de novo.
Vincenzo ri.
— Ela é assim mesmo. Curiosa. Fala muito. Não liga.
— Sem problemas. — Ela caminha pelo tatame. — Podemos começar? Eu não sei nada de boxe. Absolutamente nada.
— Melhor assim. Sem vícios. Eu te ensino tudo.
Filho da puta.
Ensina tudo?
— Dess, pode descer do ringue?
Recuo um passo.
Mas não cedo.
— É natural ou você pinta?
— Dess!!!
— Natural — responde ela, enquanto Vincenzo começa a enfaixar suas mãos.
Sinto a irritação dele no ar.
— Por quê?
— Por nada. Eu AMO cabelos ruivos.
Minto absurdamente.
— Ciao, bella.
— Foi um prazer te conhecer.
— Igualmente.
Mentira.
Eu arrancaria fio por fio daquele “vermelho intenso, puta infernal” com as próprias mãos.
Salto para fora do ringue.
Lanço mais um olhar de desprezo a Vincenzo.
— Te espero em casa.
Ele corre até a corda.
— Dess!
Paro.
Volto o olhar.
Ele se ajoelha, voz baixa:
— Relaxa. É só uma aluna. Nada vai acontecer. Nada. Fica em paz.
— E por que eu não ficaria em paz, Vincenzo?
Rio. Sem humor.
— Você me dá tanta segurança… tanta tranquilidade… Eu acordo todos os dias tranquila, sabendo que você sempre vai estar ao meu lado.
— Dess…
Não deixo terminar.
Com Matteo no colo, dou as costas.
— Boa aula. Fui.
— Infantil! É o que você é!
— Foda-se! Era pra você estar aqui, cuidando da nossa filha! Mas prefere fugir e ficar com aquelas vacas no ringue!
— Eu trabalho, porra! — Vincenzo larga a bolsa sobre o tapete felpudo.
Que ódio.
Ele não faz ideia do trabalho que dá pra limpar essa merda.
— Você também trabalha e eu te respeito!
— Já não precisa mais, Vincenzo! Ou esqueceu que é rico!? Ou será que tem atraído mais alunas do que alunos justamente por isso!?
— Não seja idiota. Eu sou competente. — Ele rebate, seco. — Não tenho culpa se, no meu horário, aparecem mais alunas.
— Então troca de horário com o João e atende só homens!
— Pra sustentar teu ciúme doentio!? Nunca!
— Nossa filha precisa de ajuda e você dando aula pra ruiva “harmonizada”!?
— “Harmonizada”!? Que porra é essa!?
— Esquece!!! Vai pro inferno!!! Mas antes tira a porra dos teus tênis imundos do meu tapete!!!
— Dess, não fala assim...
— Fica longe, Vincenzo! Agora eu te odeio!
— Eu dei uma aula, porra! Tá gravado! Quer que eu traga o cartão de memória!?
— Não é sobre isso!
Ele avança.
— É exatamente sobre isso! Você pensa demais! Imagina demais! Já me viu trepando com ela só porque ela é ruiva! Isso é loucura!
— Loucura é você não ter resolvido aquele problema que me persegue nos sonhos… justo com a porra de uma ruiva!!!
— Do que você tá falando!?
— Da sua Isabella, Giovanni!!! Da porra de uma louca ruiva, podre, cheia de algas, que quer o filho que você roubou dela!!!
Silêncio.
Pesado.
— Isso é insano.
— CONCORDO!!! ENTÃO RESOLVE!!!
— COMO???
— VOCÊ ERA O ANJO AQUI, LEMBRA!? Não… pior… um padre… um anjo… um padre exorcista… sei lá que merda você era! — rio, sem humor — Então usa isso! Tambor, reza, macumba, qualquer coisa! Se vira!
Ele passa a mão no rosto.
Cansado.
— Cansei...
— Alguém aqui aceitaria uma xícara de chá? Dizem que acalma os nervos… — sugere Enrico, com uma bandeja de prata nas mãos trêmulas. — O de cidreira é uma delícia.
— Pai… — Vincenzo, envergonhado, o abraça.
Retiro a bandeja de suas mãos antes que ela caia.
— Fica tranquilo. A gente briga… mas depois a gente se entende.
— Nem sempre — resmungo.
Dou um beijo na bochecha de Enrico e sussurro:
— Preciso conversar com você.
— Claro. Quando?
— Quando puder.
Não olho pra Vincenzo.
— Vou me deitar. Se puder, Enrico… fale comigo ainda hoje.
— Sim, filha. Me dê alguns minutos e estarei lá.
Do corredor, escuto Enrico dizer, baixo, firme:
— Brechas, meu filho. Brechas.
Caminho descalça até o quarto de Antoine.
Ela dorme.
Sem acordá-la, retiro com cuidado o tablet de seus braços cruzados sobre a barriga.
Um toque na tela.
A foto.
Minha visão embaça.
As lágrimas vêm sem pedir licença.
Seco a tela com a barra do pijama, como se isso fosse suficiente pra limpar alguma coisa dentro de mim.
No canto do quarto, me encolho.
E choro.
Baixo.
Diante da selfie onde Antoine e Gabriel fazem caretas — juntos, vivos — no último dia em que se viram aqui na Terra.
O baile.
O último dia.
Sem força, continuo.
Um choro fundo.
Silencioso.
A porta se abre.
Escondo o rosto entre as pernas.
Inútil.
Ele pega o tablet das minhas mãos.
Senta ao meu lado.
Silêncio.
A luz da tela acende.
Ilumina o quarto.
E o som que sai dele…
não é palavra.
É dor.
Vincenzo me puxa contra o peito.
Forte.
Como se ainda desse tempo de segurar alguma coisa.
— Eu não sei como ajudar nossa filha, Dess… — a voz falha — Me ensina.
Enterro o rosto nele.
Minha voz sai abafada:
— Eu também não sei.
Pausa.
Respiro.
— A gente vai ter que aprender… juntos.
De volta à sala, à mesa de jantar, Enrico, Vincenzo e eu falamos sobre Antoine.
Faltam poucos minutos para a meia-noite.
O ciúme da ruiva do boxe… some.
Agora, só existe uma coisa.
Minha filha.
— Como o Deus de vocês permite que um “anjo caído” mate uma criança? Isso não faz sentido.
— Não foi assim, filha.
— Como sabe?
— Meus informantes.
Enrico não hesita.
— Lúcifer não tem poder sobre nós… a menos que abramos brechas. A mãe de Gabriel abriu. Ferida pela separação, alimentou vingança. Ele e os seus a cercaram… dia e noite… até que os pensamentos já não eram só dela.
Silêncio.
Pesado.
— Gabriel confiou nela. Entrou no carro sem saber. Ela já tinha decidido tudo. Tirar do pai… o filho amado.
— Por que Lúcifer se importaria com ela?
Enrico me olha.
Sombrio.
— Porque o filho dela tocou o coração de quem ele quer possuir.
Meu estômago revira.
— Ele viu Antoine. Viu o que aconteceria com ela. Quanto maior a dor… maior a brecha.
Apoio os cotovelos na mesa.
Não consigo parar de ouvir.
— No carro… ela sorriu. E jogou o veículo contra o poste. No último segundo, o instinto materno tentou salvar o menino… girou o volante…
Pausa.
— Mas não estava sozinha.
Meu corpo gela.
— Mãos… sobre as mãos dela. Forçando. Direcionando. O impacto foi do lado do passageiro.
Fecho os olhos.
Já sei o resto.
— Gabriel morreu. E… não está sozinho. Corre, brinca… ainda não entende. Vive como se fosse um sonho.
Engulo seco.
— E a mãe?
— Sofre. Presa ao momento da morte. Grita por socorro… por ele. Mas não se arrepende pelo amor. Se arrepende por não ter ferido o pai como queria.
— Que apodreça no inferno… — rosno.
— Dess… — Vincenzo tenta.
— Teria compaixão se tivesse morrido sozinha. Mas ela levou um pedaço da minha filha.
As chamas da lareira dançam.
Eu encaro.
— Eu vou buscar esse pedaço.
— Gabriel está no céu.
— Mas ele lembra. E enquanto ela sofrer… ele sofre. E Antoine sofre.
Bato os dedos na mesa.
Ritmo irregular.
— Eu desato isso.
Levanto o olhar.
— Mesmo que eu tenha que ir até lá.
Silêncio.
— Lúcifer me deve.
A frase escapa antes que eu perceba.
— Nossa ligação é… profunda.
Eu travo.
Tarde demais.
— Dess. Acorda.
— Oi?
— Que ligação é essa?
— Não entendi.
— O que você e ele têm em comum?
— Nada.
Mentira.
— Para de ouvir o que eu penso!
— Eu não ouvi antes. Mas agora… eu quero saber.
— Não tenho nada pra contar. Alexa, toca alguma coisa!
Nada.
— Vaca! Toca qualquer merda!
A resposta vem vazia.
Arremesso o aparelho contra a parede.
O estalo corta o ar.
Cato os pedaços.
Jogo no fogo.
— Estúpida! Inútil! Não serve pra nada!
Vincenzo me segura por trás.
Forte.
— Se acalma…
Meu corpo treme.
— Nada do que você disser vai nos separar. Entende isso?
Silêncio.
— Entende?
— Entendo.
Ele respira fundo.
— Qual é a sua ligação com ele?
Deitada, exausta, respondo:
— Não lembro. Alguém me contou… e eu esqueci.
— Quem?
— Uma voz. A mais antiga. A mais calma. Ela tentou trazer Cassie ao mundo…
Olho pro nada.
— E eu não quero lembrar.
— Quando?
— Hospital… talvez. Foi tudo confuso. Matteo… você… o sangue…
— E antes?
Olho pra ele.
Raiva.
— Do que você se lembra, Vincenzo? Você esteve com ela quando caiu!
Ele nega.
— Estou esquecendo… tudo.
— Engraçado. Você lembra o suficiente pra me engravidar e desaparecer.
— Você não se jogou.
— Não pode provar.
Ele levanta.
Olha o céu.
Perdido.
— Por que estou esquecendo?
— Porque é humano agora — diz Enrico. — E humanos não carregam vidas inteiras sem enlouquecer.
Eu rio.
Seco.
— Então por que eu tenho que carregar?
Silêncio.
— Eu estou enlouquecendo, Enrico.
Respiro fundo.
E explodo:
— Demônios, sequestros, estupros, arcanjos, Legião, Aiden, Lúcifer, Isabella… e uma criança… uma criança sofrendo… e eu não posso fazer nada!
Minha voz falha.
— E você acha pouco?
Silêncio.
Pesado.
Enrico abaixa a cabeça.
Eu me arrependo.
Beijo suas mãos.
Volto pro sofá.
Vincenzo insiste:
— Ele é seu pai?
— Nunca.
Nojo.
— Disso eu sei.
— Então fala comigo sem gritar.
— Tô tentando…
Fecho os olhos.
— Vejo ele. Contando algo. Sobre outra vida. Uma mulher… alguém puro… ele feriu ela…
Levo a mão à testa.
— Isso dói.
— E Matteo?
— Não sei!
Tamponho os ouvidos.
— Não quero lembrar.
Sussurro:
— Tenho medo.
Silêncio.
— Eu ouvi — diz Vincenzo.
Rio, cansada.
— Você não faz ideia de como é viver com alguém dentro da minha cabeça.
Levanto.
— Vou deitar.
— Dess…
— Boa noite, Enrico. Vai pro inferno, Vincenzo.
— Dess!
— Deixa ela — diz Enrico, baixo.
Caminho.
Ouço ao longe:
— Ela é humana… carregando coisas que não devia lembrar…
Abro a porta.
— EU NÃO QUERO SER FELIZ SÓ NO FINAL! EU MORRO NO FINAL!
Bato a porta.
Silêncio.
No quarto, deito com Matteo.
Ao lado da cama de Antoine.
Onde antes havia risadas.
Agora…
nada.
Beijo a cabeça dele.
E sussurro:
— Volta pra mim, filha.
Desperto.
Matteo brinca no chão, cercado pelos bonecos.
A cama de Antoine…
vazia.
O ar some dos meus pulmões.
Agarro Matteo e corro até o nosso quarto.
Vincenzo ainda dorme.
Corredor.
Sala.
Vazia.
Cozinha.
Nada.
Os outros cômodos…
silêncio.
Uma ideia atravessa minha mente, absurda.
E se ela tiver ido?
Se desistiu… e voltou pro céu?
— Ela não pode fazer isso comigo!
Grito no jardim.
Matteo se assusta.
Chora.
— Calma, filho… calma… — beijo seu rosto, desesperada — A gente vai encontrar sua irmã.
Descalça, sinto a grama úmida.
O vento frio toca meu rosto.
E algo dentro de mim…
afunda.
Cheiro de maresia.
Mesmo longe do mar.
“Talvez ela tenha pulado… como antes.”
A voz.
Sibilante.
Ignoro.
Corro.
Até a casa na árvore.
O último lugar.
Subo os degraus com cuidado.
Antes de abrir a porta…
paro.
A voz de Enrico.
Doce.
Contando uma história.
Encosto na parede do lado de fora.
Sento.
Matteo me olha.
Curioso.
— Shhh… — sorrio, beijando sua boca — Escuta o vovô… ela tá bem.
— O senhor tá inventando só pra eu ficar melhor.
— Não mesmo. Eu não minto, filha. Você conhece nossas regras.
— Conheço… desculpa, vovô. Continua.
— Quando eu tinha sua idade, perdi um grande amigo…
A voz dele é calma.
Quase um abraço.
— A gente nadava no mar. Ele não tinha medo de nada. E eu… eu admirava isso.
— Ele sabia que o senhor era um arcanjo?
— Não. Ele era humano. Mas tinha um coração puro. Amava o Criador… — um sorriso na voz — E era bonito. As meninas ficavam todas ouriçadas quando ele passava.
— O que é “ouriçadas”?
— Animadas. Assanhadas.
Um riso baixo.
Pequeno.
Mas vivo.
— Ele queria servir o exército… — a voz de Enrico falha por um instante — Mas não conseguiu.
— O que aconteceu?
Silêncio.
— Ele pulou de uma rocha.
— E…?
— Bateu a cabeça. Morreu na hora.
Silêncio.
— Como o Gabriel…
Minha filha.
— Sim… como o Gabriel.
Meu peito aperta.
— Eu achei que nunca mais fosse vê-lo.
— E viu?
A esperança volta.
Frágil.
— Vi. — Enrico sorri, agora mais leve. — Sempre que posso… eu vejo.
— Como??? — Antoine quase sussurra — Eu posso ver o meu Gabriel?
Meu Gabriel.
Engulo seco.
— Pode. Quando quiser. Você é mais forte do que eu.
— Mas… minha mãe…
— Ainda não é hora de ir embora. — ele responde, firme — Você tem coisas pra fazer aqui. Ser feliz… é uma delas. Seus pais precisam de você.
Pausa.
— E seu irmão… principalmente.
Meu corpo trava.
Principalmente?
Por quê?
— Sabe como encontrar seu amigo?
— Não… eu esqueci.
— Eu te ensino. Mas antes… preciso da sua ajuda.
— Que ajuda?
— As panquecas.
Antoine hesita.
— Eu acho que coloquei sal no lugar do açúcar.
Silêncio.
— Se sua mãe descobrir… eu não sobrevivo.
Um riso.
Baixinho.
Depois outro.
E então…
ela ri.
De verdade.
Depois de dias.
Eu quebro.
Em silêncio.
Chorando.
Sorrindo.
O sol da manhã toca meu rosto.
Uma sombra se aproxima.
Não vejo.
Mas reconheço.
O cheiro.
Vincenzo.
Ele pega Matteo.
Beija meu rosto.
— Ela tá rindo… — sussurro.
— Eu sei.
— Vamos sair… ela vai ficar com vergonha.
Ele sorri.
— Vamos.
O tempo passou.
Antoine voltou a ser como antes.
Quase.
Menos infantil.
Mais quieta.
A foto de Gabriel permanece sobre a cômoda.
Todas as noites, ela reza.
— Hoje eu vou te encontrar.
Eu escuto.
E deixo.
Não sei se esses encontros são consolo… ou outra coisa.
Mas ela está aqui.
Entre nós.
De volta ao colégio. À rotina.
Respirando.
Depois da morte de Gabriel, Antoine começou a pintar.
E não parou mais.
Paisagens. Pessoas. Sentimentos.
Coisas que eu não sei nomear.
Há um quarto só pra isso.
Onde ela prefere ficar sozinha.
Cassie, com a barriga já pesada, posa no divã.
Fala sem parar.
Sobre roupas, fraldas, detalhes inúteis que parecem importantes pra ela.
— Já posso levantar? — ri — Eu preciso ir ao banheiro.
Ela se inclina, curiosa.
Antoine arrasta o cavalete.
Bloqueia a visão.
— Por que não, pirralha!?
— Ainda não terminei. Vai. Depois eu mostro.
— Sim, senhora.
Cassie ri e corre.
Aproximo-me da tela.
E paro.
Minha mão cobre a boca antes do grito sair.
Antoine nem se vira.
— Melhor rasgar. Ela não vai gostar.
Minha voz sai baixa.
— O que é isso, filha?
— Eu pinto o que vejo, mãe.
Simples.
Frio.
Ela rasga a tela.
Sem hesitar.
Começa outra.
Como se nada tivesse acontecido.
Eu me agacho.
Recolho os pedaços.
As mãos tremem.
Na lata de lixo…
há outros.
Muitos outros.
— Já posso ver, “Da Vinci”? — Cassie se joga no divã, impaciente.
— Ainda não. Só mais um pouquinho.
— Mas você disse que tava pronto!
— Estava… — respondo, rápido demais — Ela é perfeccionista.
— Jesus…
Cassie revira os olhos.
Eu já estou saindo.
— Vou preparar um lanche.
Minha voz não parece minha.
No banheiro do meu quarto, tranco a porta.
Caio de joelhos.
Espalho os pedaços no chão.
Monto.
Um a um.
Respirando errado.
— Não… não… não…
A imagem se forma.
E eu entendo.
Recuo.
Como se aquilo pudesse me tocar.
— Meu Deus… não…
Cassie.
Deitada.
Barriga aberta.
Não como num hospital.
Não como vida.
Como…
sacrifício.
Algo dentro dela.
Não um bebê.
Algo olhando de volta.
Sombras atravessando o corpo.
Encosto na parede.
Abraço meus joelhos.
Minha voz sai quebrada:
— Quando isso vai acabar…
— Olha isso.
— Não dá pra ver direito, Dess.
— Qual parte você não entendeu, Vincenzo!? — ergo a tela remendada com fita, meu dedo cravado em um ponto. — Aqui! Você não reconhece essa sombra atrás da Cassie!?
Ele olha.
Franze a testa.
Nada.
— Coisa de criança. Não significa nada.
Ele tenta me abraçar.
Eu recuo.
O tapa sai antes de eu pensar.
O som seco corta o ar.
Silêncio.
— Desculpa.
Saio.
Ele vem atrás.
— De novo, Dess!? Porra! Você quer brigar por qualquer coisa!? — a voz dele ecoa pelo corredor — Nunca tá satisfeita!? Tá todo mundo bem! Nossa filha tá bem! Cassie tá bem! O bebê tá bem! O que você quer agora!?
Eu paro.
Viro devagar.
— Eu quero uma solução.
Ele trava.
— Uma solução pra essa perseguição antes que alguma coisa aconteça com a Cassie… ou com o bebê.
Aproximo um passo.
— Você não percebe o que a Antoine pintou?
Silêncio.
— Não reconhece?
Ele não responde.
Claro que não.
— Do fundo do seu coração, Vincenzo… você não reconhece ela?
O nome não sai.
Mas fica no ar.
Pesado.
— Quando você vai tomar uma decisão… e acabar com isso?
— Não fala assim comigo — ele rosna — Me respeita.
Eu rio.
Sem humor.
— Não dá.
Pausa.
— Não dá pra respeitar um homem que sabe que a amante morta dele anda pela nossa casa… e não faz nada.
Aquilo acerta.
Fundo.
— Não dá mesmo.
Caminho até a lareira.
Jogo a pintura no fogo.
As chamas engolem o papel rápido demais.
— Se você não fizer alguma coisa pra afastar a Isabella… eu faço.
Ele se aproxima.
— Dess...
— Eu vou embora.
Olho direto pra ele.
— E levo nossos filhos comigo.
— Dess!
Ele me segura pelo braço.
Forte.
— Não faz isso.
— Me solta.
Não grito.
Pior.
— Agora.
Nossos olhos se prendem.
— Já senti tudo por você, Vincenzo.
Minha voz falha um pouco.
— Menos vergonha.
Pausa.
— E agora eu tô com vergonha da sua covardia.
Ele solta.
Passa a mão no cabelo.
Perdido.
Respira errado.
— Eu faço.
Olha pra mim.
Finalmente sério.
— Mas eu preciso de você.
Isso quebra alguma coisa.
— Eu não sei mais como atravessar… não sei mais como falar com o outro lado.
Mais baixo:
— Me ajuda.
Porra.
Agora ele veio certo.
Eu me aproximo.
Abraço.
Cansada.
— Eu ajudo.
Encosto a testa no peito dele.
— Mas tem que ser hoje.
Ele assente.
— Hoje.
— Três da manhã.
Olho pra sala.
Pra lareira ainda acesa.
— Aqui.
Silêncio.
Pesado.
Errado.
— Aqui.
Todos dormem.
Menos nós dois.
Visto o camisolão longo, as mangas bufantes pesando nos braços como se puxassem algo antigo de volta à superfície. Obrigo Vincenzo a vestir a camisa social branca, aberta no peito.
Ele me olha, desconfiado.
— Pra quê isso, Dess?
— Você vai entender.
Seguro sua mão.
Está quente. Humana demais pra quem já não foi.
— Vem.
Caminhamos pelo corredor em silêncio. A casa parece… errada. Como se escutasse.
— O que vai começar? — ele insiste, a voz mais baixa agora.
Não respondo.
A lareira já está acesa.
As chamas sobem altas, inquietas, como se reagissem à nossa presença.
— Um anjo com medo… — murmuro, sentando no tapete — …isso é novo.
Puxo-o pela calça. Ele senta ao meu lado, meio rindo.
— Eu gosto desse teu lado… místico.
— Cala a boca. — seguro o riso. — Isso aqui não é brincadeira.
Silêncio.
O ar pesa.
— Escuta bem — digo, firme. — Aconteça o que acontecer… não solta minha mão.
Ele para de sorrir.
— Dess… outra época?
— Sim.
— Por isso a roupa?
— Sim.
— Tá. Agora eu tô oficialmente desconfortável.
— Ótimo. Cala a boca.
O frio chega primeiro.
Depois… a sensação.
— Não estamos sozinhos — sussurro.
— Não mesmo — ele responde, quase aliviado. — Meu pai tá ali atrás.
Fecho os olhos com força.
— Que maravilha.
— Desculpa, filha — diz Enrico, baixo, respeitoso, no escuro da sala. — Eu não podia deixar vocês sozinhos.
— Fica. Mas não atrapalha.
— Eu só observo.
Uma pausa.
— Vincenzo — a voz de Enrico endurece — Concentra.
— Tô concentrado.
Não está.
Seguro seu rosto com a mão livre.
— Para de fugir.
Ele engole seco.
Assente.
Das mãos de Enrico, o crucifixo.
Madeira simples. Antiga. Pesada.
Errada.
— Pra quê isso?
— Por garantia — responde Enrico.
Sempre tem uma “garantia” quando algo dá muito errado.
Seguro o crucifixo.
Frio.
Frio demais.
— Começou — murmuro.
Fecho os olhos.
Respiro.
Uma vez.
Duas.
Na terceira… não sou mais só eu.
As palavras vêm.
Não da minha cabeça.
De algum lugar mais antigo.
Baixo.
Ritmo lento.
Depois mais rápido.
Mais forte.
Minha mão aperta a de Vincenzo.
Ele responde.
Tarde demais pra recuar.
O ar vibra.
A lareira estala mais alto.
As sombras nas paredes… se alongam.
Erradas.
Muito erradas.
Repito.
Repito.
Repito...
A descarga vem.
Violenta.
Atravessa meu corpo.
Invade o dele.
Vincenzo grita entre os dentes.
— Não solta — eu rosno.
O chão treme.
De leve.
Depois mais forte.
O vidro da janela vibra.
As chamas disparam.
E então...
Silêncio.
Absoluto.
Pesado.
Irreal.
Meus pés… não tocam mais o chão.
Os dele também não.
Estamos suspensos.
Não caindo.
Não subindo.
Presos.
Como se algo tivesse nos segurado no meio do caminho.
E aí…
a casa respira.
Não é metáfora.
Ela respira.
Lenta.
Profunda.
Viva.
E não é Deus.
Um vento forte e frio nos atinge.
Corta.
Meus cabelos se agitam no rosto. Minha pele arrepia inteira.
Ainda estou de pé.
Ainda seguro a mão de Vincenzo.
Abro os olhos.
Arquejo.
Ele me encara antes de olhar ao redor.
— Você tá bem?
— Não. — sussurro. — Consegue ver?
O olhar dele se desloca.
Para.
Endurece.
— Caralho… que porra é essa?
À nossa frente… o castelo.
Não como era.
Apodrecido.
Respirando umidade, mofo, abandono.
— Não solta minha mão.
— Onde a gente tá, Dess?
— Eu me concentrei na Isabella… — engulo seco — …acho que isso aqui respondeu.
— Isso é o quê? Viagem no tempo?
— Tá mais pra erro.
Dou um passo.
O chão cede.
Lama.
Fria. Espessa. Viva demais.
— Vincenzo… não solta.
— Não vou.
Ele me puxa pra mais perto.
— Não estamos sozinhos.
— Eu sei. Anda.
Cada passo faz um som úmido.
Errado.
— Eu devia ter vindo de tênis…
— Cala a boca!
— Esse chão tá podre, Dess…
— Eu sei!
Paro.
Inclino a cabeça.
— Tá ouvindo?
Silêncio.
Depois...
— …isso é música? Radiohead? — ele sussurra, incrédulo.
Degrau por degrau.
A escadaria parece mais longa do que deveria.
Mais alta.
Mais funda.
Quando alcançamos a varanda…
o ar muda.
Pesado.
Denso.
O castelo inteiro está coberto por uma camada viva de mofo. As paredes respiram. As sacadas parecem apodrecer enquanto olhamos.
E do salão…
vem a música.
Errada.
Arrastada.
Familiar.
— Não… — ele ri, nervoso. — Não pode ser.
A melodia distorcida preenche o espaço.
Uma voz arranhada, quebrada, canta como se estivesse sendo estrangulada.
Reconhecível.
Profanada.
— Isso não tá acontecendo — ele murmura.
— Tá.
A música continua.
Mais lenta.
Mais pesada.
Como se o próprio ar estivesse doente.
— Vamos embora — ele diz, puxando minha mão. — Agora.
Eu cedo.
Descemos.
Rápido.
Quase correndo.
Ele para.
Dois degraus antes do fim.
Fico imóvel junto com ele.
Ouvimos.
Um sussurro.
Próximo demais.
— …I wish I was special…
Meu estômago vira.
— Isabella…?
Silêncio.
Depois...
— Giovanni…
A voz dela.
Atrás de nós.
Viramos.
Ela está ali.
Errada.
Não combina com o lugar.
Limpa.
Perfeita.
Intocada pelo apodrecimento ao redor.
Cabelos soltos.
Vestido antigo.
Pele viva demais naquele cenário morto.
— Eu queria ser especial pra você…
Ela sorri.
Devagar.
Vem na nossa direção.
— Por que me trocou por ela?
Aperto a mão de Vincenzo.
Ele recua.
Sinto.
A culpa.
A memória.
— Você me ama — ela continua. — Ontem… você me amava.
Ela toca o próprio ventre.
— Nosso filho está aqui.
Meu coração dispara.
— Vem comigo, Giovanni…
Ela estende a mão.
— Ainda dá tempo.
Silêncio.
Pesado.
Insuportável.
Ela olha pra mim.
E o sorriso muda.
— Deixa que ela vá.
A mão esquerda surge.
O punhal.
Brilha pouco.
Mas suficiente.
Canhota.
Meu estômago afunda.
— Puttana.
— Solta isso — rosna Vincenzo.
Ele não solta minha mão.
Mas o corpo dele… já não é o mesmo.
Ele segura o pulso dela.
Forte demais.
— Eu mandei soltar.
Ela ri.
Mesmo sentindo dor.
— Você sempre gostou assim…
O riso dela ecoa.
Errado.
— Cala-te!
O punhal cai.
O som ecoa no chão úmido.
E então...
o soco.
Seco.
Violento.
A cabeça dela vira.
Sangue.
Ela ri.
Rindo.
Sempre rindo.
— Vincenzo! — puxo sua camisa. — Para!
Ele não me ouve.
Os olhos…
não são dele.
São mais escuros.
Mais antigos.
Mais frios.
— Para! — eu imploro. — Volta!
Outro golpe.
Mais forte.
— VINCENZO!
Nada.
Só respiração pesada.
Ódio.
E culpa.
Giovanni.
Não o homem que eu amo.
O homem que destruiu.
— PARA!
— Ele é meu…
A voz dela falha.
O corpo cede.
Isabella cambaleia… cai… e o som seco do crânio contra a pedra ecoa alto demais naquele lugar.
Ela ergue os braços.
Treme.
— Aiutami…
Vincenzo avança.
O punhal sobe.
Sem pensar, pressiono o crucifixo contra o peito dele.
— Pelos nossos filhos, Vincenzo! Acorda!
O corpo dele trava.
O punhal escapa dos dedos.
Ele me encara, perdido.
— O que eu faço agora, Dess?
Seguro seu rosto.
Ele voltou.
— Faz o que devia ter feito antes. — sussurro — Pede perdão.
Solto sua mão.
Dou espaço.
Fico atrás.
Assistindo.
— Não me deixa morrer aqui… — implora Isabella, arrastando o corpo — Tenho medo…
— Não vou. — a voz dele falha — Você não está sozinha.
Ele ajoelha.
— Eu te amei, Isabella… antes de tudo. Antes de todos. Mas acabou. Meu coração… não é mais seu.
Ela engasga com o próprio sangue.
— Você não me ama mais…?
Silêncio.
Ela entende.
E levanta.
Rápido demais.
Corre.
— SEM VOCÊ, EU NÃO QUERO!
Se joga no rio.
A água a engole.
Escura.
Grossa.
Errada.
— Merda! — rosno.
Vincenzo ainda segura a mão dela.
A correnteza puxa.
Forte.
Mãos.
Mãos surgem da água.
Cadavéricas.
Agarram Isabella.
Agarram ele.
— FALA! — grito — TERMINA!
— Eu te amei! — ele grita — Mas acabou! Você precisa ir!
Ele puxa.
Com tudo.
O corpo dela volta à margem.
Pesado.
Molhado.
Vazio.
Ela sorri.
Fraca.
— Era só isso… que eu queria ouvir…
Ele baixa a cabeça.
— Segue em paz.
Silêncio.
Eu viro o rosto.
— Ótimo. Final bonito. Já deu.
— Também achei pouco… — a voz surge, suave demais — Você sempre foi mais interessante que isso.
Meu sangue congela.
— Lúcifer…
— Sentiu saudade?
— DESS!
Vincenzo é arremessado.
O corpo dele bate no chão e desliza direto pro rio.
Ele se agarra num tronco podre.
Que estala.
Vai quebrar.
Corro.
Me jogo.
Agarro seus braços.
— ME SOLTA! — ele grita
— NUNCA!
A água sobe.
Puxa.
As mãos mortas voltam.
Agarram suas pernas.
Seu tronco.
Arrastam.
— Aqui… — diz Lúcifer, caminhando na margem, tranquilo — …eu mando em tudo.
— Você traiu quem te criou! — grito sem olhar pra ele — Invejoso! Covarde!
— Bonito discurso.
— Dess… — a voz de Vincenzo falha — Me solta…
— Cala a boca!
Ele afunda.
Até o pescoço.
Depois o queixo.
Depois a boca.
— Volta… nossos filhos…
— Eu vou com você.
Ele some.
Só as mãos.
Só os dedos.
Seguro.
Com tudo.
Meu corpo escorrega.
Entro no rio.
A água é pesada.
Podre.
Viva.
Algo toca minhas pernas.
Algo sobe.
— Que pena… — Lúcifer observa — Vai morrer agarrada nele.
Penso em Matteo.
Em Antoine.
Travo.
Não solto.
Passo o braço pelo pescoço dele.
Prendo.
Com o outro, agarro um tronco.
Ele racha.
— NÃO!
Afundamos mais.
A água entra na boca.
Nos pulmões.
Pressiono o crucifixo com força.
Não falo.
Só penso.
Ajuda.
Qualquer coisa.
Qualquer um.
— Ninguém te escuta aqui… — ele sussurra.
Então...
— Escuta sim.
O impacto é seco.
Lúcifer é chutado pelas costas.
Cai no rio.
E some.
Arrastado.
A água recua.
Por um segundo.
Só um.
Duas mãos me puxam.
Firmes.
Fortes.
Enrico.
Num único movimento, ele nos arranca dali.
Caímos na terra.
Vincenzo não se mexe.
— NÃO! — grito
Enrico me segura.
— Espera.
Um segundo.
Dois.
Então...
o ar volta.
Vincenzo respira.
Os olhos abrem.
Azuis.
Vivos.
Eu desabo nele.
— Eu achei que tinha te perdido…
— Não hoje…
Enrico observa.
Silencioso.
Depois aponta.
— Hora de ir.
— O QUÊ?
— O portal.
Olho.
Um círculo azul.
Fechando.
Rápido.
— Ah, perfeito. Claro. Mais uma coisa.
Corremos.
Atravessamos.
E caímos...
no tapete.
Imundo.
Real.
Seguro Enrico.
— Obrigada…
Ele me corrige com um olhar pro alto.
— Não fui eu.
Claro.
Sempre tem alguém acima puxando os fios.
Abraçados na banheira com hidromassagem, tentamos lavar da pele o que ainda lateja na memória. Vincenzo esfrega minhas costas com uma toalha úmida enquanto eu bebo vinho direto do gargalo.
Ele toma a garrafa da minha mão e faz o mesmo.
Ajoelho-me entre suas pernas e enxáguo seus cabelos duas vezes.
— Tá tão sujo assim?
— Nem me fale...
— Sabe que seus peitos estão na minha cara, né?
— Sei. — Gargalho. — Mas tu tá tão cansado que nem assim vai rolar hoje.
— Pode ser. Minha vez.
Ele me puxa com cuidado, me faz sentar entre suas pernas e começa a lavar meus cabelos. Seus dedos deslizam pelo couro cabeludo, firmes, lentos.
De olhos fechados, deixo a cabeça cair contra seu peito.
— Gostando? — murmura, rouco.
— Muito.
Ele enxágua meus cabelos e me deita sobre si. Suas mãos descem, me encontram sem pressa, me puxam de volta num abraço apertado.
— Eu te amo. Sabia?
Viro o rosto, encostando o queixo em seu ombro.
— Sei. Eu também te amo.
— Mais do que nunca, Dess. Eu nunca passei por nada como hoje. Nem quando... — ele hesita — Nem quando eu era um anjo. Foi... surreal. Você salvou minha vida.
— E você, a minha.
Ele se afasta um pouco, elétrico, inquieto.
— Eu digo literalmente. Eu ia morrer lá. Afogado. Num lugar que nem devia existir. Você entende isso?
Tomo a garrafa de volta, dou dois goles longos.
— Eu nunca desistiria de você. Nunca. A gente morreria junto.
— Dess!
Ele arranca a garrafa da minha mão, quase irritado.
— Para. Não fala assim.
Encolho-me. Abraço meus joelhos. O calor da água já não alcança.
— Para de falar nisso... por favor.
Minha voz falha.
— Eu não quero pensar nisso.
Silêncio.
Então ele me puxa de volta. Forte. Como se ainda pudesse me perder.
— Desculpa... — sussurra contra meu cabelo. — Eu só... eu fiquei com medo.
Fecho os olhos.
— Eu só quero esquecer. Quero paz.
— Nós vamos ter. — Ele encosta a testa na minha. — Eu prometo.
Deito novamente em seu peito. A espuma já começa a desaparecer. A água esfria devagar.
— Vai dar tudo certo agora, amor.
Inclino o rosto. Nossos lábios se encontram. Um beijo longo, cansado, verdadeiro.
Ele espirra água no meu rosto, tentando me fazer rir.
E consegue.
— Estamos livres, Dess. É isso que importa.
Sorrio. Ou quase.
— Sim... livres.
Saio da banheira e me enrolo na toalha. O piso frio arrepia meus pés.
— Vem. Vamos deitar.
Ele sai logo depois, se envolvendo no roupão.
— Esfriou... do nada.
— Também senti.
Antes de vestir o meu, a casa desperta.
Sozinha.
A voz metálica de Alexa corta o silêncio:
“Tocando ‘Creep’.”
Congelo.
Vincenzo não.
Ele gira, pega a garrafa vazia e arremessa contra a parede. O impacto ecoa.
— CHEGA! — grita, fora de si. — Acabou! Aqui você não pisa nunca mais! Em nome do Criador, eu te expulso!
Abraço-o com força.
— Calma... — sussurro. — Não é ela. Já passou. Foi coincidência. Acabou, amor. Confia em mim.
Ele respira pesado. Tremendo.
— Vamos deitar.
— Vamos.
Debaixo do edredom, o silêncio volta. Denso. Quase confortável.
— Você tem certeza... — ele murmura, já vencido pelo cansaço — ...de que ela foi embora?
Aliso seus cabelos até sentir seu corpo ceder ao sono.
Espero.
Só então respondo, em voz baixa:
— Absoluta.
Pausa.
Olho para o escuro.
Sinto.
— Ela não está mais entre nós.
Engulo seco.
— Ela não.
— Não é certo! Não é justo com ele, Antoine!
— Mas, mãe...
— Não. Sem “mas”. Você, mais do que eu, sabe o que é certo e o que é errado. Manter seu amigo preso entre dois mundos é cruel.
Ajoelho-me diante dela. Seguro seu rosto com cuidado.
— Liberta ele, filha. Eu sei que dói. Dói demais. Mas não é justo manter Gabriel aqui quando ele precisa seguir pra ser feliz. Você não o ama? Não quer que ele seja feliz? Ele já não sofreu o suficiente?
Ela vacila. Os olhos marejam.
— Eu não sei o que fazer, mãe... — confessa, chorando. — Ele sente falta do pai. Me pede pra procurar por ele... e eu não consigo. Eu fico triste porque ele tá triste.
Assinto, respirando fundo.
— Então escuta. Se você não sabe, eu sei.
Ela me encara, frágil.
— Você é um anjo, filha. Mais do que isso. Não tá acostumada com a dor como eu tô. Mas eu tô te dizendo: ele precisa ir. E você precisa deixar.
Seguro suas mãos.
— Se eu te disser que é assim que ele vai encontrar paz... você confia em mim?
Ela hesita.
— Eu tenho medo de nunca mais ver ele...
Aproximo meu rosto do dela.
— Isso não existe. A gente não se perde assim. Somos eternos, filha. Eternos.
Ela chora mais forte.
— Ele anda pela casa procurando o pai... — continuo, mais baixo. — E, mesmo sendo luz, ele ainda tá preso à dor da mãe. Você acha isso justo?
— Não... — ela sussurra, quebrando. — Eu só queria ele comigo...
— Eu sei.
Abraço-a.
— Mas, se ele ficar, ele não segue. Não descansa. Não encontra a paz que merece.
Ela fecha os olhos.
— Como você sabe disso?
Solto um suspiro curto.
— Não sei. Só sei.
Passo a mão por seus cabelos.
— E sei que te amo mais do que tudo. E te ver errar... me dá medo.
Ela me encara, em silêncio.
— Você é maior do que eu, filha. Maior que seu pai. Que seu avô. Você é luz. Então faz o que a luz faz: deixa ir.
Pausa.
— E quando vocês se encontrarem de novo... que seja num lugar melhor do que esse.
Ela respira fundo.
— Esse mundo é pesado... — murmura.
— É. E você já sentiu isso.
Ela assente.
— Me ajuda... — pede, quase sem voz. — Eu não quero me separar dele.
Sorrio de leve.
— Você não vai.
Deito ao lado dela no tapete.
— Não corre atrás de borboleta. Cuida do teu jardim... que ela volta.
Silêncio.
Então ela ri. Um riso pequeno, quebrado.
— De onde você tirou isso?
Dou de ombros.
— Roubei de alguém mais inteligente que eu.
Rimos. Um riso torto, misturado com choro.
Eu a puxo pra mim. E ali, finalmente, ela volta.
Minha menina.
— O que você sente? — pergunto, beijando sua testa.
Ela fecha os olhos.
— Que você tá certa... — sussurra. — Ele é uma borboleta. Se eu cuidar do meu jardim... ele volta. Quando puder.
Abro um sorriso cansado.
— Isso.
Ela respira fundo.
— Eu não posso prender ele comigo...
— Não pode.
— Eu vou libertar ele.
Aperto ela contra o peito.
— É isso, filha. Quando ele voltar... vai ser ainda mais bonito.
Silêncio.
— Te amo, mãe...
Minha garganta trava.
Claro que trava.
Em vez de responder, só a abraço mais forte.
— Também.
Antoine volta a iluminar a casa com suas gargalhadas e seus dramas. Vincenzo volta ao ringue… e à ruiva que me faz inflar as narinas mesmo sem estar presente.
Ele me conta tudo.
Eu acho.
— Ela não leva jeito pra luta, mas preciso incentivar. É minha aluna.
— Você podia passar ela pro João. — sugiro. — Ele precisa da comissão. Acabou de ter outro filho.
— Não seja ridícula, Dess.
Estamos reunidos para o último jantar antes do parto de Cassie. A cesárea será amanhã. Precaução. Trauma ainda fresco.
À mesa: Liam, Doc, Adele, Antoine, Enrico, Cassie… e nós.
Todos riem.
Matteo mastiga uma cenoura, alheio ao circo.
— Isso é insegurança — continua Vincenzo. — Depois de tudo que a gente viveu, você não deveria…
— Do que vocês estão falando? — Cassie pergunta, animada, enorme, linda. — Me conta! Mais uma aventura sobrenatural?
— Nada demais… — corto. Não quero ela agitada. — Só quis ajudar o João.
— Mentira. — Vincenzo solta, seco. — Você tem ciúme da ruiva porque ela te lembra Isabella, que te lembra Sweet, e aí você inventa que eu tive alguma coisa com ela.
Silêncio.
— Envolvimento físico? Tipo… Educação Física? — Antoine pergunta, séria.
Eu fecho os olhos por um segundo.
— Não, filha. Nada a ver com Educação Física. Tem a ver com falta de vergonha na cara.
— Dess!
— Ela não deveria ser sua aluna.
— Eu trabalho com isso!
— Você não precisa!
— Então você também não precisa dar aula de dança!
Viro e dou um tapa na cabeça dele.
— Não compara! Eu ensino jovens a dançar! Não fico fingindo que luto com uma vaca ruiva plastificada!
— Plastificada… — ele ri. — Você encanou com isso.
— Ela não mexe a testa, Vincenzo! Não mexe!
— Eu não olho pra cara dela!
— AHAM! OLHA PRO CORPO!
Eu aperto a taça.
Doc intercepta antes que eu faça besteira.
— Me dá isso aqui, filha. Antes que você se machuque.
— Ele não vale nada!
— Ele não mente — diz Doc, tranquilo. — Esse homem só tem olhos pra você.
Jogo um guardanapo na cara dele.
— Duvido.
— Eu entendo de coração… — continua Doc. — E nunca vi dois brigarem tanto e ainda assim ficarem juntos assim.
— A gente brinca — diz Vincenzo. — Ela sabe que eu sou todo dela.
— Idiota. Cala a boca.
— Vem calar.
Cassie bate palmas, encantada.
Liam não ri.
Enrico observa Matteo… demais.
Tem alguma coisa errada. Pesada. Invisível.
Só eu sinto?
Vincenzo beija minha bochecha.
— Para de pensar tanto. Eu sinto.
— Sente o quê, papai?
— Que você é muito abelhuda!
— Antoine! — corto.
— “Se meter em conversa de adulto!” — ela e Cassie repetem juntas.
Risos.
Menos Liam.
Menos eu.
Adele bebe de novo.
— Ela bebe porque tá triste — diz Antoine.
Silêncio.
— ANTOINE!
Ela se encolhe.
— Foi mal…
Doc a abraça.
— Não tem problema.
Eu levanto.
— Desnecessário é você — rosno pra Vincenzo.
Ele ergue as mãos.
— Eu nem falei nada…
— Nem fala.
Dou a volta na mesa, ajoelho diante da minha filha.
— Desculpa. Eu me assustei.
— Eu sei…
Ela chora.
Vincenzo tenta aliviar com piada ruim.
Enrico ri alto.
Mas Antoine não ri.
— Eu tô nervosa.
Meu estômago vira.
— Por quê?
Ela chega perto, sussurra:
— Alguém aqui vai morrer.
O chão some.
Eu caio sentada.
— Não vai ser agora — ela completa rápido. — Vai demorar.
— Como você sabe?
— Não posso falar. Prometi.
— Pra quem?
Ela hesita.
— Pra vovó.
O mundo inclina.
— Puta que pariu…
Levanto rápido demais.
— Tá tudo bem — minto pra mesa. — Bullying. Escola.
Arrasto Antoine.
— Quando você viu ela? Onde?
Vincenzo me segura.
— Disfarça. Depois a gente fala.
— Me solta. Você sabia?
— Dess…
— Dança com ela, tio! — Cassie interrompe, feliz. — Termina isso logo!
Todo mundo olhando.
Claro.
Vincenzo sorri.
— Vamos resolver juntos. Dança comigo.
— Não dá.
— Desde quando você não dança?
— Para.
— Mas com o Aiden você dançou…
Olho pra Antoine.
Ela levanta as mãos.
— Não fui eu!
— Eu fui praticamente forçada a dançar!
— Já ouviu na palavra: ' “não, obrigado”? — ele provoca.
— São duas palavras, imbecil!
— Não fuja!
— Parem! — grita Antoine. — As brechas!
Enrico concorda.
— É por aí que o mal entra.
— No caso, a “maldita” — resmungo.
E então tudo quebra.
Cassie desmaia.
Eu me jogo no chão antes que a cabeça dela bata.
Sangue.
De novo.
— NÃO! — Liam a pega. — Bolsa! AGORA!
Eu corro.
Quarto do bebê.
Silêncio.
Frio.
Paro.
Celeste.
Encostada no berço.
Sorrindo.
Eu não penso.
Avanço.
Minha mão no pescoço dela.
— Fica longe deles… ou eu acabo com você.
Ela some.
Covarde.
Pego a bolsa.
Quase saio.
Paro.
Volto.
A estátua de São Miguel.
Seguro.
— Protege eles. Agora.
Corro.
A estátua do Arcanjo Miguel é a primeira coisa que Cassie vê ao abrir os olhos na maternidade.
Ela sorri.
Fraca. Pálida. Viva.
Depois de uma cesárea de emergência que quase levou os dois, ela segura o filho nos braços como quem segura o próprio milagre.
E eu… desabo.
— Um milagre, Cassie… mais um. Por que não me contou dos riscos? Eu teria estado mais perto.
Ela nem me olha. Está contando dedos.
— Não se liga nisso, tia… — sussurra, emocionada. — Ele é perfeito. Não queria te dar mais trabalho.
Engulo o choro.
— Você é patética… — minha voz falha — Dez dedinhos?
— Tudo perfeito.
Ela sorri. Um sorriso cansado, mas inteiro.
— Eu nunca pensei que fosse ser tão feliz.
Liam beija sua testa.
Eu seguro a mão dele.
Fria.
Tensa.
— Parabéns, papai… — digo baixo. — Já tem nome ou vão filosofar por meses?
Cassie ri… e se contrai de dor.
— É normal. Dói mesmo. — minto.
Não é normal.
Nada nisso é.
Uma gravidez ectópica que dá certo não termina limpa. Nunca termina limpa.
Me afasto um pouco, deixando Antoine tagarelar sobre o colégio, e puxo Liam de lado.
— O que foi?
Ele demora.
Respira.
— Eles estão bem. Milagrosamente bem. Mas… — engole seco — Ela nunca mais vai poder ter filhos. Tiraram tudo.
O mundo dá uma leve inclinação.
— E você?
— Tenho medo de perder ela.
Assinto.
Porque eu também sinto.
Algo errado.
Algo rondando.
— Ninguém vai tocar nela. Nem no bebê. Eu prometo.
Ele me abraça como quem precisa acreditar nisso.
— Estão falando de quê? — reclama Cassie, do leito. — Quero participar.
O bebê está ao lado dela, escondido entre almofadas demais, tecido demais, cuidado demais.
Como se isso pudesse protegê-lo do que a gente sabe que existe.
— Nada! — respondo rápido. — Só o nome do meu afilhado que você tá escondendo há meses.
Ela sorri.
Cansada. Orgulhosa.
— É Sean. “Deus é gracioso”.
Silêncio.
Porque… é.
— Porra, Dess… vai chorar de novo?
— Vai se...
— Mãe! — corta Antoine. — Ele é pequeno demais pra ouvir isso!
Solto o ar, rindo entre lágrimas.
— Pelo Sean, eu paro. Por enquanto.
— Lá em casa você compensa — provoca Vincenzo.
— Lá em casa eu faço o que quiser contigo.
— A gente percebe — resmunga Cassie, revirando os olhos.
— Puta que pariu…
— O que foi, mãe?
— Seu pai…
Do volante, observo ele atravessando o estacionamento.
E droga.
— Ele continua lindo.
— Meu pai é um pão — diz Antoine, séria.
— Quem te ensinou isso?
— Vovô.
Claro.
Sempre ele.
A porta abre. Vincenzo entra no carro como se nada no mundo fosse estranho.
— Tá babando.
— Vai à merda. Você ouviu?
— Tudo.
Eles riem. Eu dirijo.
— Você não faz ideia do quanto é bonita, Dess — diz ele, de repente. — Devia se olhar mais no espelho.
— Odeio espelhos.
Silêncio curto.
— Por quê?
A mão dele pousa na minha coxa.
Calma.
Quente.
Humana.
— Porque eles falam demais.
Ele entende.
Na hora.
— As vozes voltaram?
Olho pelo retrovisor.
Antoine está alheia, fones no ouvido.
Seguro o volante com mais força.
— Elas nunca foram embora.
Dizer isso em voz alta pesa diferente.
Mais real.
Mais perigoso.
— Não sei por quanto tempo vou aguentar.
Ele entrelaça os dedos nos meus.
Firme.
Presente.
— A gente vai vencer isso junto.
O sinal abre.
Eu sigo.
Porque parar… não é mais uma opção.
— O que elas te falaram sobre o nosso filho, Dess? — pergunta Vincenzo, baixo. — Eu sou o pai. Tenho direito de saber.
— Não quero falar sobre isso.
Descasco batatas sob a água corrente, forçando a lâmina com mais força do que o necessário. Ao meu lado, ele lava as verduras em silêncio.
Tarde demais.
Ele já ouviu.
— Para — murmuro. — Não entra na minha cabeça. Eu não quero pensar nisso. Não quero falar disso. Vamos só… fazer um almoço simples. Sábado. Frio. Chuva lá fora. Uma família normal.
— Ok — responde ele, depois de um tempo. — Uma família normal.
O som de cadeiras arrastando corta a cozinha.
Matteo entra correndo, rindo, com as mãos fechadas em concha.
Atrás dele, Antoine.
— Eu tentei salvar, mãe! Eu tentei!
O riso de Matteo não combina com o rosto dela.
Largo a faca.
— Do que você tá falando?
Vincenzo se aproxima devagar. Agacha diante do menino.
— Mostra pro papai… dá?
Matteo abre as mãos.
Vincenzo prende o ar.
Eu recuo.
Os pratos batem contra a pia e caem no chão.
O som estilhaça o silêncio.
Sob a luz da janela, os cacos brilham espalhados pelo piso de madeira.
Bonitos.
Errados.
— É só um pássaro morto, Dess! — diz ele rápido demais. — Ele pegou sem querer!
— Não, pai! — Antoine quase grita. — Eu vi! Ele pegou o pássaro, riu e...
Antes que termine, ajoelho sobre os cacos.
Não sinto.
Seguro os braços dela.
— É só um pássaro morto, filha — digo, firme demais. — Você se confundiu. Pensou que viu outra coisa. Entendeu?
Ela hesita.
Olha pra mim.
E cede.
— Entendi…
A voz falha.
Ela corre para Enrico e se enterra no colo dele.
Vincenzo já abriu a janela.
O corpo do pássaro desaparece lá fora.
Ele lava as mãos de Matteo com cuidado.
Como se isso resolvesse.
Eu continuo ajoelhada.
Agora sinto.
Os cacos.
O sangue.
Enrico fala com calma, mas o olhar… não acompanha.
— Eles estavam no jardim. O gato trouxe o pássaro ainda vivo. Eu tentei impedir… — pausa — Antoine tentou salvar. Matteo pegou e correu.
Um sorriso triste.
— Coisa de criança. O pássaro sufocou. Só isso.
— Não foi… — sussurra Antoine.
— Foi sim, meu anjo.
Ele a leva para fora.
A cozinha fica grande demais.
Vazia demais.
Matteo já não está ali.
Da sala, a música começa.
A mesma de sempre.
Leve.
Feliz.
Deslocada.
Ele dança com o ursinho nos braços, rindo, dobrando as perninhas.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se nada tivesse sido… feito.
Vincenzo fala comigo, mas as palavras não chegam.
Ele limpa meus joelhos.
O sangue escorre pelo chão.
Vermelho demais.
Errado demais.
Sangue que não é só meu.
Sangue que vem de antes.
Que passa adiante.
Que não para.
— Eu vou limpar… — murmuro.
Não sei se falo do chão.
— Dess! — ele segura meu rosto. — Olha pra mim. Esquece isso. Agora.
Os olhos dele dizem outra coisa.
Ele também viu.
Ele também entendeu.
— A gente resolve — insiste. — Juntos. Sempre juntos.
Deixo que ele me levante.
— Ok.
Mas, lá no fundo, algo já não concorda.
















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