CAPÍTULO 36 - AO MEU REDOR
Dessa vez, não vou culpá-lo pelo abandono.
A culpa é minha.
Fui eu quem empurrou. Quem insistiu. Quem cutucou até sangrar.
Eu acordei o que ele passou tanto tempo tentando enterrar.
E ele lutou.
Lutou mais do que eu quis enxergar.
Vincenzo não é fraco. Nunca foi.
Eu é que precisei quebrá-lo para provar alguma coisa que nem eu mesma entendo.
Eu me apaixonei por um homem que quis ser melhor.
E fui eu quem o puxou de volta para o inferno.
Eu as odeio.
Eu me odeio.
E agora?
O que eu faço sem ele?
A casa continua a mesma, mas o som mudou.
Não há chave girando na maçaneta.
Não há passos pesados atravessando a sala.
Não há o toque dele me encontrando antes de qualquer outra coisa.
Era sempre assim.
Antes das crianças.
Antes do mundo.
Era a mim que ele procurava.
A mim.
Engulo o vazio seco na garganta.
Dói.
Não como antes.
Pior.
Mais silencioso.
Mais fundo.
Ainda assim, sigo.
Porque meus filhos estão aqui.
Porque a vida não para só porque eu quebrei algo que não sei consertar.
Mas não acabou.
Eu sinto.
Não acabou.
O que existe entre nós não desaparece assim. Não depois de tudo. Não depois dele.
Há uma canção.
Sempre a mesma.
Ecoando no fundo da minha mente como um filme que não termina.
Anos passando rápido demais.
Rostos indo embora.
Erros se repetindo.
Amores que resistem mesmo quando não deveriam.
Eu fecho os olhos.
E é nele que penso.
Sempre foi.
O primeiro pensamento ao acordar.
E o último que me resta antes de apagar.
Espero que ele possa, de alguma forma, ler meus pensamentos.
E que, um dia, encontre o caminho de volta até mim.
Os dele… eu já não alcanço.
Cassie e Liam continuam vindo.
A casa ainda se enche de gente, de vozes, de comida sobre a mesa.
Mas não de mim.
Eu sorrio.
Só não gargalho mais.
Observo Cassie com uma admiração que dói.
Ela luta contra um câncer que insiste em levá-la embora de Liam.
E ele… permanece.
Sempre.
Quieto. Firme.
Como se amar fosse suficiente para mantê-la viva.
Ele me disse, uma vez, com a simplicidade de quem acredita em tudo:
— Eu daria a minha vida por ela.
Engoli a resposta.
Porque, na minha cabeça, anjos não morrem.
Não antes de cumprirem o que vieram fazer.
É uma ideia tola.
Mas é bonita.
Cassie me contou, em segredo, quase sem acreditar, que quer viver mais do que nunca.
Porque há vida dentro dela.
Crescendo.
Insistindo.
Contra tudo.
Contra o corpo cansado.
Contra o diagnóstico.
Contra o medo.
Eu temi.
As trompas não sustentariam aquilo.
Não por muito tempo.
Mas, ainda assim… algo mudou.
A doença começou a recuar.
O corpo respondeu.
O impossível… cedeu.
E, pela primeira vez em muito tempo, nós comemoramos.
E choramos.
Juntas.
— Eu me enganei, tia… — a voz dela treme, mas sorri. — Não retiraram tudo. Ainda havia uma chance.
Seguro suas mãos.
— Fico feliz, Cassie. De verdade.
Mas o nome dele escapa antes que eu consiga impedir.
— Queria que o Vincenzo estivesse aqui…
— Tia… — ela entende.
Claro que entende.
Eu a abraço pela vida que cresce nela.
E sinto falta de quem deveria estar aqui pra ver isso comigo.
— Ele não é louco, filha — diz Enrico, com calma. — Ele só… não soube ficar.
— Eu provoquei — minha voz falha. — Eu causei tudo isso. E agora ele some como se isso resolvesse alguma coisa? O que eu digo pros meus filhos?
O ar pesa.
— Matteo chama por ele. Antoine pergunta. E eu… eu ainda escuto a chave na porta.
Respiro fundo, mas não resolve.
— Ele chegava suado, jogava as coisas no chão… e eu brigava. — Dou um riso sem graça. — Ele gostava disso. Ele gostava de mim assim.
O silêncio me engole.
— Eu sinto falta dele, Enrico.
Mais do que deveria.
Mais do que consigo suportar.
— Eu não sei se vou conseguir levantar amanhã.
— Vai, sim — ele responde, firme. — Você não está sozinha.
Eu queria acreditar nisso.
Mas não acredito.
— Que missão é essa, Enrico?
Ele me observa.
E eu sei que vem coisa que eu não quero ouvir.
— Aquela noite… — insisto. — Antoine. O que você quis dizer?
O sofá frio sob meu corpo. A lua iluminando tudo como se fosse mentira.
— Ela é a minha filha. Eu tenho o direito de saber.
— Você já sabe — ele diz, baixo. — Só não quer aceitar.
Fecho os olhos.
Claro que não quero.
— Ela não é comum, Dess.
O nome pesa diferente vindo dele.
— É melhor você aceitar isso.
Meu corpo encolhe sozinho.
— Eu não estou aqui por acaso.
— Não me assusta… — minha voz falha. — Não agora.
Engulo o choro.
— Vincenzo não está aqui.
— Nada vai acontecer — ele diz, mas não soa como promessa. Soa como preparação.
— Então fala.
— Filha...
— Não me manda ficar calma antes — rebato. — Isso nunca funciona.
Ele solta um meio sorriso cansado.
— Antoine… — começa, olhando para a lua — Não é só um anjo.
O ar muda.
— Ela é um querubim.
O silêncio se alonga.
— E fez uma promessa.
Meu estômago revira.
— Uma promessa… pra quê?
— Pra encontrar alguém capaz de se doar completamente.
— Eu?
Ele não responde.
O que já é resposta suficiente.
— O destino da humanidade… — continua — Não está tão firme quanto você imagina.
Solto uma risada seca.
— Deus decidiu nos apagar agora?
— Não. — Ele me encara. — Mas há quem queira.
— Lúcifer. — Bufo, revirando os olhos. — Aquele paspalho.
— Não o subestime. — A voz de Enrico vem baixa, firme. — Ele é mais forte do que parece. E mais presente do que você gostaria. Líderes, governos… gente que decide o destino de milhões. Ele está lá.
Engulo seco.
— E o que a Antoine tem a ver com isso?
— Se ela encontrasse alguém puro o bastante para aceitá-la como ela se tornou aqui… — ele pausa — Provaria ao Criador que vocês merecem outra chance.
Solto uma risada sem humor.
— E ela encontrou?
Ele me olha.
Não preciso que responda.
— Eu? — balanço a cabeça, incrédula. — Fala sério.
— Por que não?
O riso some.
— Porque eu não sou isso, Enrico. — minha voz falha, mas eu continuo. — Eu vendi meu corpo. Por dinheiro. Por validação. Fiz de tudo que você pode imaginar… e mais um pouco.
O silêncio pesa.
— E não para por aí. — respiro fundo. — Vivi com um demônio. Um que eu mesma ajudei a criar. Aiden já foi humano… e eu estraguei ele também.
Minhas mãos tremem.
— Eu estrago tudo. Todo mundo que chega perto de mim… cai.
Levanto o olhar, ardendo.
— Seu filho caiu pela pessoa errada. E a Antoine não vai pagar por isso. Não por mim.
Viro de costas, me encolhendo.
— Eu não sou digna de nada disso.
O mundo gira devagar demais.
— Isso não tá acontecendo… — repito contra as almofadas. — Não é justo com ela. Como deixam uma criança escolher uma coisa dessas?
— Ela não é uma criança, filha.
Fecho os olhos.
— Você não entenderia.
— Então me explica de um jeito que não me destrua mais do que eu já tô.
Ele solta um suspiro leve.
— Nenhum humano vê um querubim como ele realmente é… e continua o mesmo depois.
Abro um olho, seca.
— Ótimo. Agora eu tô bem melhor.
Ele ri baixo.
— Você continua impossível.
Um silêncio estranho se instala.
— Vincenzo disse isso… — murmuro.
Enrico não me deixa fugir.
— No dia em que você acolheu uma criança que ninguém mais quis.
Meu peito aperta.
— Suja. Sozinha. Invisível. — ele continua. — Quantas pessoas você conhece que fariam isso?
Engulo.
— Ela me encontrou. — digo, baixo. — Não fui eu. Ela me salvou.
— Eu sei.
A forma como ele diz isso… não tem julgamento.
Só verdade.
— Me escuta. — ele se inclina um pouco. — Cada vez que ela ama… ela se entrega.
Franzo a testa.
— Na noite da reconciliação de Cassie e Liam… ela deu mais do que devia.
Meu corpo esfria.
— No dia seguinte… ela caiu.
Levo a mão ao peito.
— Meu Deus…
— Ela se recupera. Rápido. — ele estala os dedos. — Como se nada tivesse acontecido.
— Mas…?
Ele me encara.
— Tudo tem limite.
O ar some.
— Para. — sussurro. — Para, Enrico…
— Até pra ela.
Levanto de um salto.
— Eu vou trancar minha filha em casa se for preciso.
— Não vai adiantar.
— Então o que eu faço!?
Silêncio.
Grande. Cruel.
— Nada.
A palavra me atravessa.
— Ela sabe o que está fazendo. E não vai parar.
Minha voz sai quebrada.
— Qual é a missão dela?
— Eu não sei.
Ele sustenta meu olhar.
— E isso é o pior.
O silêncio se parte com um som pequeno.
Passos.
Olho pra frente.
Matteo vem cambaleando, com aquelas perninhas desajeitadas, vindo direto pra mim.
E, atrás dele...
— Seguuuuura, peão!
Antoine.
Como se o mundo não estivesse desmoronando.
Matteo se joga no meu colo. O cheirinho dele me puxa de volta.
Pra cá.
Pra agora.
Antoine senta ao meu lado, me abraça de leve.
E sussurra:
— Vai dar tudo certo. Confia.
Fecho os olhos.
As mesmas palavras.
As mesmas.
— Com todo o respeito, diretor, foda-se o que os outros pais pensam sobre os meus hematomas. Não foi o meu marido. Ele é um bom homem e jamais me machucaria. E “ai” de quem denunciá-lo à polícia. Lei “Maria da Penha” é o caralho. Eu vim buscar minha filha. Ponto final.
— Perdão, Adessa.
— Perdão digo eu — respiro fundo, me controlando tarde demais. — O senhor não tem culpa. Só está fazendo o seu trabalho. Eu agradeço por querer o meu bem.
Um silêncio curto.
Pesado.
— Eu sei que existem mulheres que apanham e têm medo de denunciar — sustento o olhar dele, firme. — Mas esse não é o meu caso. E, sinceramente, se eu fosse contar o que aconteceu, o senhor não acreditaria.
Não acreditaria mesmo.
— Posso levar Antoine pra casa? Meu filho me espera. Meu sogro também. — Forço um sorriso que não chega nos olhos. — Somos uma família feliz. Unida. Meu marido está viajando a negócios. Em breve, retorna.
Minto.
Com facilidade demais.
— E não vai gostar dos rumores que andam espalhando por aí.
— Compreendo. — Ele pousa a mão nas minhas costas, com cuidado demais. — Vamos ao encontro de Antoine?
— Perfeito. — Dou de ombros. — Super apoio. Total.
Levo Cassie a uma de minhas aulas na “Just Dance”. Extremamente bem recebida pela turma, ela tenta acompanhar a coreografia sempre aos risos. Errando, ela pouco se importa com a opinião dos outros alunos. Feliz. Ela está feliz e isso me faz feliz.
— Você tem jeito pra dança, Cassie!
— Tia! Para agora mesmo! — Rindo, ela me faz rir. — Eu sou uma catástrofe! Mas não me importo! Meu bebê tá chegando e meu Liam— Levando a mão à boca, ela me lança um olhar de espanto e corre até o banheiro da academia.
Vomita antes de sair da sala de aula. Um, dois jatos de um líquido vermelho sobre o piso em madeira e os alunos se afastam. Eu a socorro, segurando seus cabelos e sua cintura, pedindo que ela confie em mim.
— Tudo bem. Acabou, tia.
— Você tá sangrando, Cassie?
— Não — responde-me ela, ainda curvada para frente, envergonhada diante da turma. — A cor vermelha é por conta da quimio. Fica tranquila, tia. — Erguendo o tronco, ela olha ao redor. — Onde eu pego um pano úmido pra limpar essa bagunça?
— Na sua casa, bobona. Acha que eu vou deixar você limpar isso aqui? Principalmente diante desses idiotas que estão longe de entender o seu sofrimento? Nunca!
— De boas, tia...
— Eu limpo — afirma Sebastian, surgindo do nada com um rodo e um pano úmido nas mãos. Na outra, um balde com água limpa. — Estou acostumado. Você não é a primeira, tampouco a última bailarina a vomitar em nossas aulas, Cassie.
— Você sabe meu nome?
— Ouvi por aí.
— Para de limpar isso, Sebastian. Eu devo limpar. E desde quando alunas vomitam em sua aula? Isso é patético! Danço, logo vomito? É isso?
Rindo, ele me conquista ao limpar, sem nojo, o que Cassie vomitou. Num esforço conjunto, Cassie, ele e eu, deixamos a sala limpa e vazia. Os alunos se foram.
— Obrigada — agradeço, tocando em sua mão limpa após lavarmos tudo. — Isso foi muito importante pra Cassie. Ela tem passado por maus momentos.
— Eu entendo. Isso foi um prazer pra mim, Adessa. Conte sempre com a minha ajuda.
Confusa, fixo meus olhos nos de Sebastian. Por segundos, posso jurar que Aiden está diante de mim, novamente.
Dirigindo-se a Cassie, ele comenta:
— Fique à vontade pra vir quando quiser. Se você é amiga de Adessa, é minha amiga também.
— Thanks — diz Cassie, mordendo os lábios, me encarando com sua expressão de quem vê algo onde não existe. — Até breve, Sebastian.
— See you soon — despede-se ele, carregando no sotaque irlandês.
Sério? Desde quando?
Ele, até hoje, falava nosso idioma com naturalidade.
— Te vejo amanhã, Adessa?
— Talvez — sorrio, sem jeito. — Eu aviso se precisar faltar. Ok?
— Ok.
Carregando o pano de chão imundo dentro do balde e a vassoura, ele caminha até a porta. Antes de partir, ele alerta:
— Em breve, nos veremos novamente, baby.
— Credo! Corre! — puxo Cassie até a porta de saída da “Just Dance”.
Rindo e desconfiada, ela pergunta:
— O que houve, tia?
— Não sei e nem quero saber. Só quero ir embora daqui. Você tá bem?
— Sim. Você pode me levar pra casa?
— Claro, querida. Você deve estar exausta.
— Estou. Mas, em breve, curada desse câncer, vou recuperar minhas forças pra cuidar do nosso filho, tia.
— Como engravidou, Cassie? — indago ao volante. — Seu útero ainda estava em luta contra o câncer? Já ouvi falar dessa tal de gravidez ectópica, mas, pra mim, era raríssimo.
— E é, tia! — confirma ela, acariciando a barriga ainda inexistente. — Depois daquela noite em que dançamos em sua casa, senti uma dor absurda. Pensei que morreria por conta do câncer. Fomos à emergência e, após vários exames, o próprio médico declarou: “É um milagre!”
— É mesmo — penso em Antoine e em como ela se sentiu no dia seguinte àquela noite. — Bendito o médico que optou por não retirar as trompas e ovários junto ao colo do útero, né?
— Abençoado seja. Graças a ele, ainda tenho um cantinho onde acolher nosso filho. Eles chamam de “gravidez cornual”. É lá que meu filho se mantém vivo. Meu médico disse que é arriscado, mas eu não aceito isso, tia. Liam me disse que nosso filho vai nascer. Quando meu obstetra disse que seria arriscado, Liam decidiu por mim. Sem hesitar, ele decidiu que nosso bebê nasceria perfeito. E eu acreditei. Eu confio nele, tia. Tô errada?
— Nunca — respondo, intrigada. — Não. Confie em seu marido. Certamente, ele tem quem confirme que tudo vai dar certo.
— Do que tá falando, tia?
Lanço um olhar de esguelha e sorrio.
— Bobagem. Eu adoro esse clima de mistério no ar.
— Falando nisso, o tal de Sebastian tá afim de você. Percebeu?
— Não seja ridícula, Cassie. Eu tenho idade pra ser a mãe dele.
— Ok. Eu não disse pra você ficar com ele, mas, se der mole, ele te pega.
Sorrio da gargalhada infantil.
De súbito, ela para de rir.
Arregala os olhos.
— Ele é muito parecido com o Aiden. Já notou isso?
— Sim. E não gosto nada disso. Quero distância dele.
Desbloqueando o celular, ela se encanta ao ler uma mensagem.
— Meu Liam tá dizendo que sente a minha falta, tia. Ele não é fofo? Ele tá me esperando em casa. Liam vai ser um pai maravilhoso.
— Não tenho dúvidas — uma pontada de ressentimento atravessa meu peito. — Ele nunca vai te abandonar.
Uma das partes mais difíceis do dia é me deitar em nossa cama, à noite. Ela me parece ainda maior sem ele. Leio um livro sem a menor atenção. Assusto-me com o ringtone do meu celular. “Número Confidencial”. Com o coração acelerado, atendo.
— Vincenzo?
Ninguém responde. Sinto que há alguém do outro lado da linha. Ouço sua respiração ofegante.
— Vincenzo! — Insisto. — Fala comigo, amor. Eu não tô com raiva de você. Volta pra casa. Por favor. Antoine vai dançar na próxima semana. Matteo não se cansa de chamar por você, amor. — Um arquejo e o silêncio continua. — Por que faz isso? Pra que ligar se não quer voltar? Isso é tortura. Eu sei que é você. Se esqueceu do meu super poder? — Ouço o que, talvez, seja um riso abafado por sua mão. Rolo no colchão, esperançosa. — Cassie tá grávida, amor. Mas, é lógico que você já sabe disso. Vc e sua estúpida mania de ler pensamentos. Consegue ler os meus, idiota? Consegue sentir a dor que sinto? Se não retornar em uma semana, eu juro que ponho outro homem nessa cama e, só pra te avisar, a fila vai andar. Vincenzo. Vincenzo!? Não! Não desliga!
Custo a acreditar que ele desligou. Cheirando seu travesseiro com seu perfume, choro até pegar no sono. Desperto ainda mais deprimida.
— Eu tenho certeza de que era ele, Enrico. Por que ligar se não fala nada?
— Só pra ouvir sua voz? — Sugere ele.
— Vocês têm se comunicado?
— Eu nunca te esconderia algo assim, filha. Sei que está sofrendo muito.
— Mais do que muito. Não tenho vontade de sair, Enrico. De ver gente e sou obrigada a ir ao tal ensaio de Antoine. Ver aquele bando de gente nojenta que me olha com desprezo.
— Já parou para pensar que talvez seja impressão sua? Talvez, eles te olhem com admiração?
— Duvido... — Tomando meu último gole de café, confesso. — Tive um pesadelo com Sweet hoje, Enrico. Sweet ou Isabella! Sei lá o nome dela! Ela quer o filho de volta! O que eu faço!?
— Tenho uma ideia...
— Qual!?
— Eu já decidi com que fantasia eu vou ao baile! — Anuncia Antoine, eufórica, invadindo a sala de jantar.
Enrico sorri para mim e comenta:
— Depois falamos sobre o assunto.
— Que assunto!?
— Sobre essa tal fantasia e sobre o celular ligado até tarde ontem à noite! Com quem falava, mocinha!? E de quem era o celular se você não tem um!?
Enrico baixa a cabeça enquanto Antoine ri e, apontando em sua direção, o delata:
— Era o dele!
— Foi para uma emergência, Adessa. — Desculpa-se Enrico, envergonhado. — Ela me disse que teria prova hoje e sua amiga a ajudaria a estudar.
— E vc acreditou, Enrico!? Vincenzo e você são dois bobões nas mãos dela! — Um beijo em sua testa e digo: — Sem problemas. Não caia mais nessa. Ok? Tá rindo de que, Antoine!? Tem graça mentir para o seu avô!?
— Não, mãe. — Arrependida, ela o beija na testa e lhe pede perdão. — Não vai acontecer de novo, vovô. Eu juro.
— Não mesmo! O que disse ao tal de Thor!?
— É particular, mãe. Eu tenho direito à minha privacidade.
— Tu tem direito a ficar presa no seu quarto por dois dias inteiros sem TV ou tablet! Que tal esses direitos!?
— Não posso. Ainda não conseguimos ensaiar, mãe! Tá tudo uma bagunça e o baile é na próxima semana! Gabriel precisa de mim!
— Pra quê!? Vc vai ser a coreógrafa!? Seus professores não têm domínio de turma, filha! Sinto muito em ter que te informar que o tal baile será um fracasso se alguém capacitado não assumir o controle!
— Não sei o que fazer... — Diz ela, desanimada. — Eu queria tanto que desse certo.
— Tenho uma ideia.
— Qual, vovô!?
— Sua mãe!
— O que eu tenho a ver com isso, Enrico!? — Tomo Matteo de seus braços e o faço comer as últimas duas colheradas de banana amassada com aveia. Limpando sua boquinha, eu a beijo.
Enquanto isso, Enrico cochicha no ouvido de Antoine, que volta a vibrar. Aos pulos, ela comemora:
— Perfeito, vovô!!! Você é um gênio!!!
— O que tá rolando aqui???
Antes de me deixar perplexa, ela beija minha bochecha ao declarar:
— Você será a nossa nova coreógrafa! Vai salvar o nosso baile, mamãe! O nosso baile!
— Eu???
Um olhar a Enrico e ele ruboriza.
— Eu só quis ajudar...
Estranhamente, tanto o corpo docente do colégio como os pais dos alunos aceitaram minha indicação como coreógrafa do baile à fantasia. Pergunto-me o que há de tão especial nesse baile. Não é Natal, Carnaval, Halloween ou Dia das Mães. Não é um baile de formatura.
Enfim, dando de ombros, caminho, insegura, até o pátio onde Antoine e Gabriel, de mãos dadas, me aguardam, ansiosos, junto aos demais alunos. Vencendo a vergonha e a tristeza, pergunto:
— Qual é a intenção desse baile? Ainda não entendi.
— A gente quer se divertir, mãe. E, de quebra, mostrar que sabemos dançar. E isso, você faz muito bem.
— Entendi. — Resmungo, afastando Antoine e Gabriel. — Meninos de um lado e meninas de outro, por favor.
Gabriel sorri para Antoine enquanto a professora de Artes Cênicas, com um ar de soberba, me explica o sentido de tudo:
— Gostaria que cada um demonstrasse suas habilidades e se desapegasse de preconceitos arraigados.
Então vocês chamaram uma stripper para tratar de preconceito? Uma puta de quem você quer distância? Perfeito.
— Você compreende?
— Claro. — Minto. Na verdade, com o valor que pagamos pela mensalidade desse colégio, o que vocês querem é um motivo para gastar ainda mais. — Sem problemas. Tenho uma coreografia montadinha em minha cabeça.
Empurrando-a para longe do grupo, peço:
— Deixa comigo. No que depender de mim, o baile será um sucesso.
— Não quer ajuda?
Sua? Fala sério.
— Não. Valeu. Assim que terminar, eu te chamo. Ok?
Observando-me, ofendida, provoco:
— Entendeu ou quer que eu desenhe?
Antoine gargalha e, ao sair da formação, vai até Gabriel e cochicha:
— Essa é a minha mãe.
— Hilária. — Diz ele.
— Em suas posições! — Ordeno, incomodada com o “grude” entre ambos. — Já ouviram falar em Backstreet Boys!?
— Aquilo que você fumou, mãe!?
Inspiro fundo e, envergonhada, minto:
— Eu não fumo, filha!
— Mas naquela noite lá em casa, a Cassie disse que “beck” era um grupo antigo. Lembra? E você estava fumando. Um cigarro pequeninho que você escondia.
— Antoine... — Rosno. — Podemos começar o ensaio ou você pretende tomar mais do meu tempo?
— Foi mal.
— Ela é brava. — Comenta sua amiguinha.
— Você não viu nada. — Cochicha Antoine.
— Vamos ao ensaio!? Se é demonstração de habilidades o que a versão feminina de Severo Snape do Harry Potter deseja, é o que ela vai ter, meu bem.
Apesar de antiga, a turma adorou a música.
“Everybody” fez até os mais tímidos moverem os quadris. Levei muito tempo até que todos aprendessem a coreografia, difícil até mesmo para um adulto. Mas, ao final do dia, exaustos, todos estavam saltitantes e confiantes. Mais relaxada e entrosada, alerto:
— Esse é só o primeiro ensaio! Não faltem aos outros ensaios e treinem em casa!
Alguns alunos comemoram aos gritos enquanto correm até o portão da saída. Um aperto no peito, sentindo falta de Vincenzo e um ranço cada vez maior por ele não estar aqui, levo Antoine até o carro. No vidro embaçado pelo frio, um coração desenhado. Olho ao redor e, estupidamente esperançosa, ainda procuro por ele. Frustrada, entro no carro e arrisco uma olhada no retrovisor externo. Nada.
— Covarde...
— Quem, mãe? — Pergunta Antoine no banco traseiro. — O papai?
— Não. — Minto. — Alguém da academia. Você não o conhece. Tem falado com seu pai por telepatia?
— Não... — Um profundo suspiro e ela desabafa: — Tô com saudades. Ele vai voltar logo da viagem, mãe? Falta pouco tempo para o baile.
Tentando não chorar, volto a mentir:
— Não se preocupa. Ele vai estar presente no dia do seu grande baile.
Não posso negar que os ensaios no colégio e o meu trabalho na academia têm tomado tanto do meu tempo que quase não penso nele. Quase. Vincenzo tem pago todas as contas em dia e deposita em minha conta muito mais do que eu gastaria em um ano. Talvez, ele pense que seu dinheiro compre a minha paz.
— Que pense.
— No que, tia?
— Em nada, querida. Como posso te ajudar? Eu não aguento ver você pôr pra fora tudo o que come. Quando a quimio vai acabar?
— Mais duas sessões e devo esperar pelo milagre. — Pálida, ela sorri ao afirmar: — Eu sei que ele virá. Eu vou me curar, tia.
— Tenho certeza, amor. — Confirma Liam, sempre ao seu lado, em uma das mesas do restaurante onde almoçamos.
Ele não trabalha? Estranho. Anjos ricos que não trabalham. Será que tem mais deles por aí?
— Tenho gente tomando conta dos negócios, Adessa. Não se preocupe.
Escondendo meu rosto entre as mãos, murmuro um pedido de desculpa.
— Bobagem. — Diz ele, sorrindo. — Tem razão. É estranho mesmo.
— Do que estão falando? — Pergunta Cassie, inocentemente. — Às vezes, eu acho que você me esconde algo, “coelhinho”.
— Escondo.
— O quê!?
Ao lado da mesa, uma caixa retangular fechada. Cassie vibra ao indagar:
— É o que eu tô pensando!?
— Abra.
— Aqui???
— O que deve ser? — Pergunto, curiosa.
— Só pode ser o bercinho, tia! — Exulta ela.
— Melhor abrir em casa. — Sugere ele após sairmos de sua antepenúltima sessão de quimioterapia.
Como dizer a ela o que senti ao tocá-la? O bebê está perdendo a batalha contra o veneno que injetam no corpo franzino de Cassie.
— Eu acredito em milagres, Adessa. Vc não?
— Sim. — Meio que minto. — Com certeza. Vou deixar vcs em paz. Preciso trabalhar.
Um forte abraço e Cassie me agradece:
— Sem você ao meu lado, eu não suportaria, tia. Nós vamos vencer. Não vamos?
Um ligeiro olhar a Liam e respondo:
— Sem dúvida.
Alongo-me na barra diante do espelho após a aula. Pela primeira vez, sinto-me orgulhosa de mim mesma. Estou dando aulas de dança. Eu, que sempre sonhei em ser aluna, agora sou professora.
— Você merece.
— Sebastian!?
— Te assustei?
— O que acha!? Não faça mais isso!
— Perdão.
Caminhando até a torre de som, ele escolhe uma canção. Triste. Antiga. Densa demais para aquele espaço. Um arrepio lento sobe pela minha espinha.
Ele se vira. Me reverencia.
— Concede-me uma dança?
— Por que eu dançaria com você, Sebastian? Isso aqui é trabalho.
— Não é sobre isso. — Seus olhos me atravessam. — Eu preciso me libertar.
— Do que você tá falando? — recuo, já sentindo que errei em ficar. — Eu vou embora.
Ele segura meu braço. Não forte. Pior. Delicado.
— Uma única dança. Aquela que foi roubada de mim. Eu deveria estar naquele baile ao seu lado. Eu deveria ter escolhido você... não o ódio.
O mundo inclina.
— Você não é parecido com o Aiden… — minha voz falha — Você é o Aiden.
O ar pesa.
— Como você voltou? — minha respiração acelera — Veio pra ferrar com a minha vida de novo!?
— Nunca. — um meio sorriso cansado — Estou aprendendo a me comportar, baby. Fique tranquila. Eles estão aqui.
— Quem?
Olho ao redor.
A academia desaparece.
Lustres.
Tochas.
Um salão antigo, vivo, pulsando. Casais giram em trajes do século XVII. A música me envolve como se já fosse minha há séculos.
— Não… — recuo — Eu não quero ficar aqui.
— Dance comigo… e me liberte.
Ele se aproxima.
— Eu preciso voltar àquela noite. Dançar com a minha esposa pela última vez… e quebrar a maldição.
Minha resistência vacila.
Sua mão encontra minha cintura.
A outra ergue meu braço.
Postura perfeita.
Ele ergue o queixo.
Meu corpo responde antes da minha mente.
Eu o imito.
E dançamos.
Passos tímidos. Observo-me no espelho.
O vestido. Antigo. Perfeito demais para ser real.
— Você está linda, esposa.
— Isso é um sonho?
— É o meu.
Sua voz não carrega mais veneno. Só cansaço.
— Eu estraguei tudo. — ele admite — Por ciúme. Por ódio. Eu só queria estar naquele baile… com você.
— Se você não tivesse me ferido… — minha voz falha — E matado o nosso filho…
Giramos.
Mais rápido.
O salão desaparece aos poucos. As tochas tremulam. O mundo gira junto.
Ficamos só nós dois.
— Me perdoa… — ele sussurra.
Silêncio.
— Eu já perdoei. — respondo, quase sem sentir o próprio corpo — Já passou.
Uma lágrima escorre.
— Me perdoa você… — continuo — Você perdeu tudo… por minha causa.
Ele sorri.
Pela primeira vez… leve.
— Agora estou livre, esposa.
Encosto meu rosto em seu ombro. Choro por tudo que fomos. Por tudo que destruímos.
A música termina.
Nossos olhos se encontram.
Ele recua.
Se curva.
— Eu sempre vou te amar, Morgana. Obrigado por me libertar.
Um último sorriso.
— Adeus.
— Adeus…
As luzes explodem.
Estou parada.
Sozinha.
Diante do espelho.
Os alunos no chão. Dispersos. Como se nada tivesse acontecido.
Meu corpo ainda sente a dança.
Meu coração não entende nada.
— Isso não vai dar certo, Enrico.
— Não custa tentar. Já estamos aqui.
— Ela não foi enterrada. Esse túmulo é falso. Não há corpo.
Ele franze a testa, olhando ao redor.
— O que fizeram com o corpo?
— Não me pergunte. Isso é coisa do seu filho idiota. — Reviro os olhos enquanto os primeiros pingos de chuva caem. — Foi um dia terrível. Arcanjo Miguel levou a alma dela. O corpo… sumiu antes de eu chegar. Vincenzo não quis explicar. Eu também não insisti. Resultado: um túmulo vazio e uma morta me assombrando por causa de um filho que nem existe mais. Fim.
Enrico solta um riso baixo e me puxa para debaixo do guarda-chuva.
— Bem-vinda ao seu mundo.
— Bem-vindo ao meu inferno particular.
— Movimentado, pelo menos.
— Não fala “monotonia”.
— Monotonia.
Ele sorri, sem graça.
— Vamos dar um jeito nisso hoje.
— Como? Daqui a pouco o coveiro acha que a gente tá roubando osso pra ritual.
— Você é hilária, filha.
Ele fecha os olhos, respira fundo.
— Ela já está aqui.
— Onde?
— Atrás de você.
— Porra!
Me viro de supetão.
Ela está lá. Molhada. Coberta por algas. Os olhos verdes cravados em mim.
— Tem que aparecer assim!? Não dá pra avisar antes!?
— Meu filho… — murmura.
— Sweet, vc não tem filho! Eu vi o Arcanjo Miguel te levar! Como vocês fogem assim!? É você, é o Aiden… ninguém fica morto nessa história!?
— Deixe que eu resolvo. — diz Enrico, sereno.
Recuo, contrariada.
Ele ergue a mão e começa a recitar palavras que fazem o ar pesar. A terra ao redor treme.
— Pelo poder que me foi concedido, eu te devolvo ao lugar de onde saiu. Deixe meus filhos em paz.
Ela sorri. Um sorriso torto.
— Mio Giovanni é o único que pode me devolver a paz… e il nostro bambino.
— Vincenzo sumiu, sua vaca!
— Acho que ela não ouviu — comenta Enrico.
— Puta que pariu…
Ela é sugada pela terra escura. Some.
Silêncio.
— Não deu certo — resmungo.
— Ainda não acabou. — Ele tira o casaco encharcado e entra no carro. — Cabe a Vincenzo consertar isso.
— Super confio. Ele some sempre que a coisa fica feia. Desculpa, mas seu filho não vale nada.
Enrico não responde. Só olha pra frente.
— O dia ainda não terminou.
— A minha paciência já.
Arranco com o carro.
— Amanhã é o último ensaio! Antoine tá aflita! Onde aquele imbecil se enfiou!?
Freio no sinal. Enrico me encara, assustado.
— Relaxa. Anjos não morrem. A menos que vc tenha filhos por aí.
Ele ri, mas sem graça.
— Não tenho. Gostaria.
— Celeste é burra. Perder você…
— Concordo. Obrigado, filha.
Olho de lado. Ele limpa uma lágrima discreta.
— Você ainda sente falta dela.
Ele não responde. Só sorri.
— Tá na minha lista de ranço.
— Lista de quê?
— Gente que eu vou meter a porrada.
Ele ri.
— Eu estou nela?
— Nunca. Mas seu filho tá em primeiro.
— Você sente falta dele.
Paro o carro na garagem. A vaga vazia.
— Sinto. — engulo seco — Mais do que eu queria.
Nos abraçamos. Choramos.
— Somos dois idiotas.
— Mãe!!!
Antoine surge na varanda, pulando, celular na mão.
— Meu amigo pode jantar com a gente!? Diz que sim!
— Cacete…
— Calma — murmura Enrico.
— Eu não tenho calma!
Subo as escadas.
— Antoine!
— Fala baixo! Ele tá ouvindo!
— Que ouça! Você roubou o celular do seu avô!?
— Não roubei! Ele esqueceu!
— Pensou errado!
Arranco o celular da mão dela.
— Alô!
— Tia!?
Droga.
— Você é hilária! Queria te conhecer melhor!
Fecho os olhos, respiro fundo.
— Pode vir. Nove horas.
Desligo.
— Enrico, você não usa bloqueio nesse celular!?
— Pin é Pix?
Reviro os olhos.
— Depois eu te explico.
Antoine tenta fugir. Seguro pelo braço. Belisco.
— Desde quando eu te ensinei isso!? Mentir pra mim!?
Ela se encolhe.
— Eu não sei… é estranho… mas é bom.
Solto o ar.
Me sento no chão.
Abraço minha filha.
— Desculpa. Eu tô nervosa. Não faz mais isso. A gente é amiga, lembra?
— Lembro… posso me arrumar?
— Pra quê!? Você já tá pronta!
— Não pra uma ocasião especial.
Reviro os olhos.
— Vai logo. O poderoso Thor tá chegando.
Passo por Enrico.
— Espero que sem martelo.
Ele ri.
No banho, a água quente não leva embora o peso.
— Cadê você, Vincenzo? Filho da puta…
Saio, ainda enrolada na toalha.
Um coração no espelho embaçado.
Paro.
— Idiota… volta pra casa.
Me visto. Volto.
O coração sumiu.
Fico parada.
— Como…
Silêncio.
— Sua lasanha é simplesmente esplêndida, tia!
— Engraçado… Antoine costuma falar exatamente assim. — ironizo, sem tirar os olhos do menino bonito, branco e loiro à minha frente. — Obrigada.
Dou mais um gole de vinho e pigarreio.
— Então, Thor… quais são seus planos para o futuro?
A mesa inteira ri. Até Matteo, na cadeirinha, entra na onda.
— Qual é a graça? — encaro um por um. — Ele precisa pensar no futuro.
— Ele só tem dez anos, filha.
— Enrico, quanto mais cedo traçarmos metas, melhor. — Menos chances de acabar com a vida destruída como a minha. — E, por favor, não fale como o seu filho. Obrigada. De nada.
Eles riem mais.
Respiro fundo.
Mantenha a calma. Ele só tem dez anos.
— Perdão, Enrico… detesto me lembrar dele.
— Do pai, mãe? Por quê? Ele não vem ver nossa coreografia?
— Claro que vem! — minto sem hesitar. — Chega no dia do baile.
— Quero ser astronauta, tia.
Olho pra Gabriel. Sério. Distante.
— Sempre quis conhecer outros planetas… outras pessoas diferentes das que vivem aqui.
— Uau… isso foi profundo. — inclino a cabeça. — Por que não gosta dos humanos?
— São falsos. Maus. Mesquinhos. Egoístas.
Antoine prende o ar ao lado dele.
— Exceto você — ele completa, olhando pra ela. — Nunca conheci alguém como você.
— E nunca vai conhecer! — solto uma gargalhada meio fora do lugar. — Ela é mais do que especial, Thor.
— Gabriel, tia. Meu nome é Gabriel.
— Desculpa… Gabriel. — faço uma careta. — Por que escolheu ser o Thor?
— Porque ele luta contra o mal sem ser chato. É engraçado. E, quando erra, reconhece e segue em frente.
Eu estreito os olhos.
— Quantos anos você disse que tem mesmo?
— Dez. Mas minha mãe diz que sou precoce. Ela não gosta disso.
— Sua mãe é uma vaca...
— Mamãe!
— Perdão, Gabriel. Digo… Thor. Ah, sei lá. Come mais lasanha!
Me sento ao lado dele, mais calma.
— Gostei de você. E da forma como dança. Você leva jeito.
Os olhos dele brilham.
— Sério, tia?
— Super.
— Woohoo! Minha mãe gostou de você!
— Menos, Antoine… — rosno. — Você ainda está de castigo.
— O que ela fez, tia?
— Nada não, Biel.
Olho pra mim mesma por um segundo.
Desde quando é “Biel”?
— O que foi, Enrico?
Ele já está de pé ao meu lado.
— Vamos tirar os pratos.
— Ainda não acabei.
Ele pousa a mão no meu ombro. Firme. Suave.
— Acabou sim, meu anjo.
Silêncio.
— Acabou sim.
Ainda enciumada, levo Gabriel até sua casa, apesar de sua mãe ter mandado que ele voltasse de Uber.
— Não me custa nada. E, convenhamos, você é novo demais pra sair por aí sozinho. A gente nunca sabe quem está ao volante.
— Eu amei a noite, tia. Principalmente o filme.
— “Mufasa: O Rei Leão!” — vibra Antoine. — Simplesmente esplêndido!
— Sim. Glorioso — concorda Gabriel, animado, já diante do prédio onde mora.
Um apartamento por andar. O aluguel deve custar mais do que meu carro e o de Vincenzo juntos.
— Acho que o Mufasa foi duro demais com o irmão.
— Concordo. — me abaixo diante dele. — Todo mundo erra. O problema é que nem todo mundo tem coragem de admitir… e pedir perdão.
Seguro seu rosto com delicadeza.
— Você vai ser um grande astronauta, Gabriel.
— Sério, tia?
— Vai sim! — Antoine praticamente salta ao lado dele. — Minha mãe vê coisas quando toca nas pessoas! Se ela disse, é porque vai acontecer!
Reviro os olhos. Ótimo. Agora virei vidente oficial.
— Uau… a senhora tem superpoderes?
Antes que eu responda, Antoine já entrega tudo.
— Tem! E meu pai também! Ele lê pensamentos! Não é incrível?
Incrível não. Um inferno.
— Meus pais são super-heróis!
— Menos, Antoine. Bem menos.
Os dois se abraçam com uma naturalidade desarmante. Inocente demais pra esse mundo torto.
Observo em silêncio.
Gabriel é um bom garoto.
Pais errados.
Volto ao carro ainda com essa sensação estranha grudada na pele. Dou partida.
Por um segundo, a imagem de Luka invade minha mente.
Sacudo a cabeça.
— Vamos pra casa, filha?
— Vamos! Amanhã vai ser um dia lindo!
— Com certeza…
Ajusto o retrovisor.
E travo.
Um homem parado no meio da rua. Mãos nos bolsos do casaco. Imóvel.
Me encara.
Pisca.
Some.
Respiro fundo.
— Bobagem… bebi demais.
— Nem devia estar dirigindo, mamãe.
— E deixar seu grande amigo nas mãos de estranhos?
Ela beija minha bochecha.
— Você é demais!
Demais, sim. Quase vendo gente que não existe. Um ótimo sinal de sanidade.
Enrico me acompanha ao baile. Liam e Cassie ocupam os melhores lugares nas arquibancadas, como se aquilo fosse um espetáculo particular.
Matteo, no colo de Cassie, a faz rir como nunca.
Evito tocá-la.
Não quero… não posso aceitar que ela esteja perdendo outra vida.
O barulho ao redor me salva. Com tanta gente, Liam não ouve meus pensamentos.
No camarim, desejo sorte aos meus pupilos.
Beijo Antoine, vestida de princesa Shuri. Beijo Gabriel.
Erro.
Os olhares dizem tudo. O clima muda.
Ótimo. Criei romance entre crianças.
Perfeito, Adessa.
A apresentação começa.
Quase sem erros.
No final, aplausos. Gritos. Orgulho.
Levo a mão ao peito.
Sirvo pra alguma coisa.
Antoine e Gabriel correm até mim. Me abraçam. Riem.
E eu lembro de quem eu era. De quem eu quis ser.
Hoje, tenho quase tudo.
Quase.
— Desce daí! — grito.
Tarde demais.
Antoine pega o microfone.
Microfonia. Caos.
— É ela! — aponta pra mim. — Minha mãe!
Congelo.
— Ela me tirou da rua! Me deu amor! Me ensinou a dançar! Por isso eu danço assim!
As crianças sobem no palco. Aplaudem.
— Foi ela que ensaiou a gente! Por causa dela, a gente detonou!
Palmas.
— Te amo, mãe. Você é a melhor do mundo. Mesmo quando briga comigo… por isso eu te escolhi.
Escolhi.
Isso me quebra.
Cubro o rosto.
Enrico me guia pra fora. Antoine me abraça.
— Gostou, mãe?
— Muito, filha… te amo.
Saio.
Corro pro carro.
Choro como se ninguém estivesse olhando.
Porque ninguém está.
— Por que você não tá aqui, Vincenzo…?
Seco o rosto. Retoco o batom. Improviso um coque.
Saio do carro.
Olho pro céu.
— Ela é minha filha. E me ama. Não vai ser fácil tirarem ela de mim. Ouviram?
— Acho que sim.
Paro.
A voz.
Atrás de mim.
— De onde eu venho, não tem música. Eu nunca dancei antes de você. Quando você disse que eu usava isso pra te manipular… doeu.
Fecho os olhos.
— Todas as vezes que eu te chamei pra dançar… em todas as vidas… era pra acalmar. Você ou eu.
Respiro fundo.
— Eu não sei ser humano. Ainda não. Eu erro. Eu fujo. Eu falho… e me odeio por isso.
Minhas mãos tremem.
— Eu tentei voltar. Várias vezes. Mas a vergonha… — a voz falha. — Hoje eu vim por ela. Pela Antoine.
Silêncio.
— Me perdoa? Porque viver com o teu desprezo… não dá.
Me apoio no carro.
Choro baixo.
Ele está perto.
Muito perto.
— Me perdoa de novo… eu só te faço sofrer.
Me viro devagar.
Quero bater nele.
Merece.
Mas o olhar…
— Cachorro. — rosno. — Eu te odeio por me fazer sentir isso.
Pulo nele.
Beijo.
Com raiva. Com fome. Com saudade.
Ele me segura contra o carro.
Forte.
Real.
A barba arranha meu rosto.
Ainda bem.
— Não tive cabeça pra me cuidar…
— Cala a boca.
Outro beijo.
— Preciso respirar.
— Depois.
Afundo mais um segundo naquele caos que é ele.
E então…
Tapa.
Seco.
Ele aceita.
Eu também.
Agora eu enxergo.
O homem.
O erro.
O amor.
Ele me abraça.
De dentro do ginásio, uma música antiga escapa.
Ele hesita.
— Dança comigo?
Minhas mãos tremem.
Aceito.
— Me deixa voltar pra casa?
— Sério que você tá imitando cantor agora?
— Dess… — ele sorri, tímido.
E pronto. Eu desmancho.
— Posso?
— Vou pensar. Preciso de mais uns dois beijos pra decidir.
— Ok… é um sacrifício, mas...
Ele segura meu rosto e me beija com tanta fome que eu esqueço até meu próprio nome.
— E então? — pergunta, rindo.
— Talvez. Quem sabe até o fim do baile?
— O baile! — os olhos azuis se arregalam. — Antoine!
— Já dançou. Você perdeu!
— Não perdi! — ele me puxa pela mão, me arrastando de volta. — Eu tava lá, imbecil!
Dou socos nas costas dele.
— Então por que não falou comigo?
— Porque você tava linda. E feliz. Não quis estragar.
Paro.
Droga.
Entramos no ginásio.
— Vincenzo!? Você voltou!
— Pai!
Enrico o abraça. Discreto, enxuga as lágrimas.
— Cuidou deles por mim?
— Claro, filho.
Liam o abraça. Cassie o beija e entrega Matteo.
Vincenzo senta.
Chora.
— Te amo, filhão…
— Cabe mais uma aí?
— Pra você? Sempre.
Me puxa.
Beijo.
Palmas.
Reviro os olhos e olho pro salão.
Congelo.
Antoine.
Dançando lento.
Com o tal do Thor.
— Isso não tava no roteiro!
— Dess… são crianças.
— Ele podia ficar um metro mais longe dela!
— Tia! — Cassie ri. — Eles já tão dançando tipo robô!
— Melhor ainda! Distantes!
Levanto.
— Antoine! Separa!
Antoine ri.
Cassie resolve ajudar.
— Mão no pescoço, pirralha!
— CASSIE!
Aponto.
— Mãos nos ombros! Bem longe do martelo!
Vincenzo ri me abraçando.
— Um dia ela vai dançar de verdade. Se prepara.
— Vai demorar.
Silêncio.
— Não vai, Dess.
Algo na voz dele muda.
— Ela não tem tanto tempo assim.
O mundo para.
— O quê?
Já tô descendo a arquibancada antes de pensar.
— Aonde você vai?
— Se isso for verdade, ela não vai perder nem um segundo!
Corro até o DJ.
— Muda essa música. Agora.
As luzes mudam. O clima muda.
Volto até eles.
— Mãe… o que eu fiz?
— Nada. Só vamos fazer direito.
Seguro o rosto dela.
— Thor, mão na cintura.
— Filha, mãos na nuca dele.
Eles riem.
Obedecem.
Desajeitados.
Lindos.
Eu recuo.
Me escondo atrás de uma pilastra.
E assisto.
Eles erram passos.
Pisam no pé um do outro.
Riem.
E continuam.
Choro.
Sem segurar.
— Meu anjo… — sussurro. — Finalmente dançando.
Comemoramos o sucesso do baile em uma cantina aconchegante. Em nossa vasta mesa, a alegria é contagiante. Ao lado de Vincenzo, grudada em seu braço, observo a inocente conversa entre Gabriel e Antoine. Ambos comentam sobre os passos da coreografia. Liam e Cassie riem das piadas de Enrico, um tanto embriagado pelo vinho tinto. Matteo, seguro, em sua cadeirinha com bandeja, baba em seu mordedor de silicone.
Plenamente feliz, cochicho no ouvido de Vincenzo:
— Prepare-se para sofrer hoje, canalha. Meu ranço por você triplicou.
— Meu desejo por você é três vezes maior do que o seu ranço por mim. — Sorrio diante de seu olhar devasso. — Hoje, eu controlo tudo. Ok?
— Ok.
Ainda rindo de Vincenzo, ouço Cassie anunciar o término das sessões de quimioterapia.
— Uau! Isso é...!
— Simplesmente esplêndido! — exulta Antoine. — Agora, o bebê vai voltar a crescer!
— Por que “voltar”, pirralha? Ele não estava crescendo!?
— Estava, mas não gostava daquele suco ruim.
— Que suco? — indaga Gabriel, confuso.
— Um suco ruim que davam pra Cassie tomar no hospital pra matar as células do mal. Agora, ela não precisa mais disso e nem o bebê.
Inspiro profundamente ao sentir um arrepio na nuca. Vejo o braço do garçom à minha direita servir meu prato: um fumegante nhoque ao molho branco.
— Espero que aprecie. — diz a voz grave do garçom.
Sem olhar em seu rosto, agradeço.
— Sempre às ordens.
Outro forte arrepio e Vincenzo me pergunta:
— Tudo bem?
— Sim. — minto.
Sem meus óculos, procuro enxergar os rostos dos clientes mergulhados na penumbra acolhedora do ambiente.
— Ninguém...
— Quem, Dess? Quem você procura? Me fala. — Puxando-me pela cintura, ele me aproxima ainda mais de seu corpo. — Nada vai acontecer.
— Espero que não. — murmuro.
Uma garfada no nhoque e exclamo:
— Perfetto! Mangia che ti fa bene!
Provoco risos enquanto meu coração se comprime. Todos à mesa comem e conversam ao mesmo tempo. Exceto Gabriel, que, acidentalmente, se corta com a faca.
Ao seu lado, o garçom se apressa em limpar o sangue em sua mão com um guardanapo de pano.
Erguendo-me, ruidosamente, dou a volta à mesa e o afasto de minha filha e de Gabriel.
— Me dá a porra do guardanapo. — ordeno em voz baixa. — Agora.
— Eu tô bem, tia. — diz Gabriel num tom conciliador. — Não se preocupa. Já parou de sangrar.
— Viu? Não foi nada. — Vincenzo, com Matteo no colo, tenta fazê-lo parar de chorar.
Ele acaba de se ferir mordendo a própria língua.
Atordoada, volto meu olhar ao garçom que, abrindo um sorriso sinistro, ironiza:
— Todo o cuidado com um bebê é pouco.
Próximo ao meu ouvido, ele sussurra, discretamente:
— Alguém dessa mesa precisa morrer. Faça a sua escolha.
Num ato desesperado, alcanço Cassie e a impeço de terminar de comer seu fettuccine, empurrando seu prato contra o chão.
Surpresos e incrédulos, todos me observam enquanto sigo o garçom e, puxando-o pela gola engomada, pergunto:
— Por que fez isso? O que quer dessa vez!?
— Dess!!!
Ouço o grito de Vincenzo, o ruído de sua cadeira contra o piso.
Aflita, repito a pergunta.
Lúcifer responde:
— O de sempre, meu bem. Semear o caos, a dor e a discórdia e... — Uma breve pausa. — Antoine. Óbvio.
— Me dá a porra do guardanapo! — insisto.
— Sumiu. — ironiza ele, mostrando a mão vazia. — Que estranho...
— Não toque em Gabriel!
— Antoine seria melhor, mas, se ainda não a tenho, serve o Thor mesmo. — Uma olhadela sobre meu ombro. — Ih... o bonitão está vindo. Fui.
Antes de sumir diante dos meus olhos aterrorizados, ele comenta:
— Boa escolha. Como diria Rafael: uma vida pela outra.
— O que ele queria!? — pergunta Vincenzo, enfurecido. — Matteo não parava de chorar! Antoine está nervosa! Cassie está com cólicas! Com quem você estava falando, Dess!? O que ele queria!?
Um olhar distante e repito:
— Uma vida pela outra.
Após aquela tarde, procuro estar sempre próxima a Cassie que, esfuziante, comemora a cura do câncer e a saúde perfeita do feto em seu ventre.
Antoine, visivelmente abatida, acolhe Gabriel em nossa casa após a separação de seus pais. Quase sempre, ele passa as noites conosco.
Quase sempre.
Hoje, não foi uma dessas noites.
Apático, ele confessa ao celular:
— Estou mal, tia. Minha mãe está deprimida.
Do outro lado da linha, procuro incentivá-lo a continuar a sonhar com seu futuro:
— Vai passar. Pense que, um dia, você vai nos ver lá de cima com seu capacete de astronauta.
Não gosto do que acabo de dizer.
Pioro quando Vincenzo me lança um olhar indecifrável, movendo lentamente a cabeça baixa ao passar por mim.
Intrigada, desligo o celular e o sigo.
— Por que me olhou daquele jeito? Falei alguma coisa errada?
— Não. Pelo contrário. — lamenta ele, lavando os pratos do jantar. — A verdade. Você falou exatamente a verdade, Dess.
De madrugada, aos prantos, Cassie me liga.
Ergo-me da cama e, sentada à beira do colchão, desesperada, pergunto:
— Você tá bem???
— Sim!
— O bebê???
— Tá bem!
Vincenzo, sentado ao meu lado, me abraça pela cintura. Sua cabeça baixa volta a se mover enquanto prossigo:
— Liam está bem???
— Estamos, tia. — responde ela, tentando se acalmar.
Liam toma o celular de sua mão e, mantendo o tom de voz linear, avisa:
— Não deixem Antoine acessar o site do colégio. Por favor.
— O que houve??? Me fala, Liam!!!
Em silêncio, ele me envia um link e se despede.
— O que é isso??? Liam!!!
Com o tronco curvado para frente, Vincenzo toma o celular de minha mão e toca no link do jornal do colégio.
— Me deixa ver!!!
Impedindo-me de recuperar o celular, afastando-me com a mão em meu peito, ele alerta, sombrio:
— Você tem que se acalmar. Nossa filha vai precisar da nossa ajuda, Dess.
Não foi preciso ler a notícia estampada na primeira página.
Não depois da foto.
Nada sobrou do carro que colidiu contra o poste tombado.
Nada além de dois corpos estendidos no asfalto molhado.
Um deles, eu reconheço imediatamente.
Um grito de horror.
Choro pelo menino sonhador.
Pela mãe suicida.
Pela minha filha.
— Não é justo... — murmuro entre soluços. — Gabriel não merecia isso.
Abraçada a Vincenzo, ouço sua voz embargar ao prever:
— Ela vai sofrer muito, Dess. Muito.







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