CAPÍTULO 26 - INSANO
Aos prantos, assisto o pequeno caixão descer à cova.
De mãos dadas a Sweet, compartilho de sua dor. Não pelos meus dois filhos que não chegaram a nascer… mas por aquele que cheguei a amamentar.
Seu nome?
Não me lembro.
Doc e Adele estão ao nosso lado, consolando Sweet, quando é o meu coração que sangra.
E eu sequer sei o porquê.
Pobre Mimi.
Eu poderia ter evitado tudo. Se o tivesse rejeitado quando ele se mostrou por inteiro… eu poderia ter salvo Mimi, Luka e tantas outras crianças que partiram em sofrimento.
Eu poderia ter matado Aiden naquela noite.
Por que não me lembro de nada?
Vincenzo se afastou de mim.
Ele lê meus pensamentos. Sabe que desconfio de seu amor. Sabe o quanto me decepcionou… embora eu não me lembre do motivo.
Em minha cabeça, tudo é confuso.
A chama azul dizimando corpos contorcidos pela dor é a única lembrança nítida que tenho daquela noite.
O resto… é um borrão de gritos, tochas, fogo, luta e sangue.
Sangue no meu curativo.
Lembro-me de Jujuba correndo em direção a Vincenzo enquanto, em minhas mãos, havia um punhal.
Lembro-me dos olhos claros dele… confusos… antes de fugir de mim.
Aiden fugiu de mim.
Sweet não fala há dias.
Hoje, pela primeira vez, ouço sua voz.
Um grito.
Cru.
Dilacerado.
Assim que a terra úmida cobre, para sempre, o corpo de sua filha.
Eu me afasto.
Tenho a estranha certeza de já ter vivido isso antes. Em algum lugar. Em algum tempo.
Estou pior do que antes.
Sequer consigo lembrar o que aconteceu aos meus pulsos enfaixados.
Vincenzo, em silêncio, cuida dos meus ferimentos.
Ele vai à minha casa todos os dias… temendo que Aiden retorne.
E, todos os dias, trocamos olhares que dizem mais do que qualquer palavra.
Foi Antoine quem me obrigou a aceitá-lo por perto.
Como negar um pedido de Antoine?
Há tanta dor ao meu redor que me isolo.
Me escondo sob a copa de uma árvore frondosa, no belo cemitério que mais parece um campo de golfe.
Recostada ao tronco, observo o curativo em meus pulsos.
Intrigada, murmuro:
— Como isso aconteceu?
— Cortes horizontais nos pulsos? — a voz vem carregada de deboche. — Deixa eu pensar… Uau. Essa é difícil até pra mim.
Fecho os olhos.
— Hoje não. Por favor… vai embora. Não tenho forças pra te expulsar.
— Não quero ser expulso. — Ele se senta ao meu lado, relaxado. — O sol na pele até que faz bem. Dá vontade de ficar na Terra por um tempo.
Uma pausa.
— E então? Alguma ideia de como conseguiu isso?
— Não me lembro. — Evito encará-lo. — Eu… não era eu.
— Aaaah… — ele sorri. — Entendi. Ele te usou de novo.
Meu corpo trava.
— Como assim? Do que você tá falando?
— Aham! — ele vibra, satisfeito. — Finalmente consegui sua atenção. Ainda se importa com aquela coisa fofa que quase te matou…
Balança a cabeça, irritado.
— Estúpida.
— Você estava lá?
— Claro. — Ele ri. — E eu perderia a festa do século?
Se inclina, desdenhoso.
— Quando aprenderem a me louvar, talvez tenham sucesso. Asmodeus deve estar rindo até agora… Idiotas. Chama azul? Típico do Miguel. Sempre fazendo teatrinho pro “Chefão”.
Perco a paciência. Ergo os pulsos enfaixados.
— O que eu fiz? Por que isso não para de sangrar?
O sorriso dele muda.
— Porque a outra não vai te deixar em paz… até te matar.
Recuo.
— Que outra? Por quê?
Ele se aproxima. Perto demais.
— Você roubou o homem dela, meu bem.
Meu estômago revira.
— Ela quer ele de volta. E não vai parar até conseguir.
— Onde ela tá? O que fez comigo?
Ele solta o ar, impaciente.
— Como você é burra…
Se inclina, quase sussurrando:
— Ela está em você, Adessa.
O mundo inclina.
— Uma das suas personalidades. Adormecida por Vincenzo… até o ritual.
Minha respiração falha.
— Ele a invocou. Precisava de alguém mais violento. Alguém que matasse Aiden.
Engulo seco.
— E…?
O sorriso volta. Pior.
— Eileen sabia que ele te ama. E não aceita ser segunda opção.
Silêncio.
— Então ela fez o que fez.
— O quê?
Ele gargalha.
— Cortou seus pulsos, meu bem. E teria conseguido te matar… se não fosse o seu santo covarde e bonitão.
Minha voz falha:
— Vincenzo… me salvou?
— Pelo amor de Deus… — ele revira os olhos. — Você ainda acha que ele é bom? Que te ama?
Se inclina, cruel:
— Por que acha que ele mesmo não matou Aiden?
O silêncio pesa.
— Eu… não sei.
Ele se levanta de repente.
— Covardia!
Se vira pra mim, furioso.
— Se ele cometer um pecado mortal, vem direto pra mim. Quantas vezes vou ter que repetir isso?
Passa a mão no rosto, irritado.
— Humanos… vocês me cansam.
— Quem criou essa lei estúpida?
— Eu. — responde seco. — E ele aceitou.
— Mentira. Ele te odeia.
— Bandida.
— Falido. — encaro de volta. — Não tenho medo de você.
Ele sorri.
Devagar.
— Deveria.
Um passo atrás.
— Ainda tenho meus trunfos.
— Quais?
Ele ri.
— Você acha mesmo que eu vou contar?
Se vira, já indo.
— Nada como o tempo.
— Espera!
Ele para, sem paciência.
— Fala. Dois segundos.
Respiro fundo.
— Liberta ele… desse acordo ridículo.
Pausa.
— E me leva com você.
Avançando em minha direção, ele rosna, a voz gutural carregada de ódio:
— Nunca! Ele é meu! Hei de vê-lo em nosso exército em breve! A “Legião” está se fortalecendo!
— Que “Legião”?
— Um bando de idiotas que pensam ter força contra mim!
— E o que Vincenzo tem a ver com isso?
— Burra! — cospe ele. — Eu e ele, juntos, podemos abater esses seres que infestam esse mundo! Eu devo ser o único Mal a existir entre vocês!
Solto um riso curto.
— Então… você tem rivais?
Os olhos dele escurecem.
— Não queira ver o meu pior lado. Eu te suporto por motivos que, um dia… talvez… sejam revelados.
Sustento seu olhar.
— Sinto que te conheço há muito tempo. Não tenho medo de você.
— Deveria. Vincenzo não é tão puro quanto pensa, palerma. Ele e eu temos a mesma origem. Os mesmos propósitos.
— Não, irmão.
A voz de Vincenzo surge ao meu lado.
Firme. Cansada.
— Nunca mais me unirei a você. Desista.
— E o nosso pacto!?
— Nunca houve um. — Ele não hesita. — Você surtou. E eu não te contrariei. Esse foi o meu erro.
Ele se coloca à minha frente.
Me protegendo.
— Houve um tempo em que eu me sentia feliz ao seu lado. Esse tempo acabou, irmão. Aceite.
— Nunca!
— Vá embora.
Lúcifer ri, furioso.
— Ela conhece a verdade, Cassiel! Acha que vai te querer depois da sua covardia? Diga a ela por que invocou a “outra”!
— Direi.
— Ela vai te odiar.
— Ainda que ela me odeie… — a voz de Vincenzo falha por um segundo, mas ele continua — Eu vou continuar amando essa mulher pelo resto das minhas vidas. E, se um dia eu sucumbir… nunca mais seremos o que fomos. Eu não caí pelos mesmos motivos que você.
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
— Entenda isso de uma vez por todas.
— Nunca!
Vincenzo ergue a mão.
Fecha os olhos.
— Agora… em nome do Nosso Criador… suma.
— VOCÊ É MEU!
O grito rasga o ar.
O solo racha sob nossos pés.
E então…
ele desaparece.
Consumido pela própria fúria.
Fraca, me apoio no tronco da árvore.
— O que ele disse… é verdade?
Não preciso ouvir.
Vejo a resposta nos olhos de Vincenzo antes mesmo de sua voz.
— Sim.
Sweet se entrega à apatia.
Juju… sobrevive.
E isso já é mais do que eu esperava.
Revisito suas memórias em silêncio e agradeço… por ela não ter sido tocada por mãos imundas.
Aiden a protegeu.
Como prometeu.
Talvez seja por isso…
que ainda exista algo dentro de mim.
Algo que insiste em não morrer.
O apartamento continua o mesmo.
Luxuoso. Frio. Vazio.
E eu ainda estou aqui.
Esperando.
Em breve, Antoine, Cassandra e eu vamos embora.
Mas ainda não.
Ainda não terminei.
Arranco nossas fotos das paredes.
Jogo todas no lixo.
Recolho as roupas dele.
Camisas. Calças. Sapatos.
Resquícios de uma vida que já não existe.
— Melhor vender, mamãe.
Antoine arrasta um dos sacos pelo corredor.
Jujuba imita, rindo.
E, por um segundo…
eu sorrio também.
— Ouviu o que eu falei?
— Sim, filha.
— Outra bizarrice — resmunga Cassandra, equilibrando um saco pesado nas costas. — Liga não, tia. Ela tá surtando de novo. Bora, pirralha!
— Espera, Cassandra…
Me jogo no chão frio.
Sem forças.
— No que você tá pensando, filha?
Antoine deita ao meu lado.
Jujuba também.
Cassandra se larga no sofá, já perdida no celular.
— Acho melhor vender no “be bay”.
— eBay, criatura! — Cassandra ri. — Desde quando você conhece isso? Nem internet você tem!
— Sei lá…
Ela gargalha.
Jujuba acompanha, sem entender nada.
E eu…
me sinto em casa entre elas.
— De quem você ouviu isso?
— Não posso falar… — ela responde, rindo, chutando o ar. — Meu pai disse que você vai brigar comigo se eu contar que ainda falo com ele.
O mundo para.
— O quê?
— Putz… tu é burra, mermo — solta Cassandra, abafando o riso.
— Burra é tu que fala “mermo”! — Juju rebate, indignada. — É “mesmo”!
As duas rolam no chão, rindo.
E eu levanto.
Rápido demais.
— Por que ele disse isso?
Silêncio.
— Responde agora.
— Mãe…
— Agora!
Minha voz falha.
— Por que vender… e não doar?
Ela sorri.
Simples.
— Porque a gente vai precisar de dinheiro.
O ar some dos meus pulmões.
Vou até a cozinha.
Viro um litro de água no gargalo.
Volto tremendo.
— Quando?
— Quando você matar o monstro.
— Que monstro?
Ela pisca.
— O monstro que foi bonzinho com a Juju.
Silêncio.
Eu sei.
Claro que eu sei.
Arrasto os sacos de volta pro quarto.
Cassandra cuida das meninas.
E eu…
desabo.
Na cama.
Sozinha.
Lembro do sorriso dele.
Dos dias bons.
Da mentira confortável.
Sinto falta.
E odeio sentir.
O telefone toca.
Número desconhecido.
Atendo.
— Aiden?
— Você já deixou de me amar?
A voz dele…
quebra algo dentro de mim.
— Me perdoa… — ele implora. — Me deixa voltar. Ou me mata de uma vez. Eu não posso vagar pela eternidade assim.
Fecho os olhos.
E escolho.
— Não vai.
Desligo.
E choro.
Até apagar.
O luto não tem prazo.
Eu sei disso.
A dor não passa.
Ela se instala.
E a dor de perder um filho…
essa apodrece tudo ao redor.
Mas Sweet não reage.
Não tenta.
Se afunda.
Enquanto isso…
eu cuido da filha dela.
Pago as contas.
Mantenho tudo de pé com o dinheiro que consegui vendendo tudo o que restou de Aiden.
O apartamento.
As roupas.
Os vestígios.
Tudo virou dinheiro.
E o dinheiro…
vai acabar.
E eu não faço ideia de como recomeçar.
Minha vida virou uma montanha-russa da qual eu só quero descer.
Mas não posso.
— Posso te ajudar. Você sabe disso.
— Como ajudou no ritual? Não, obrigada.
Vincenzo abaixa a cabeça.
Ajoelhado diante de mim.
— Não me julgue… você não conhece toda a verdade.
— Por que continua sangrando?
Ele troca a gaze dos meus pulsos.
Cuidado demais.
Silencioso demais.
— Ela quer voltar.
— E pra isso…
— Você precisa morrer. Ou desistir de viver.
O ar pesa.
— Se eu desistir… você protege a Antoine?
Ele levanta o olhar.
E, de repente, não é mais calmo.
— Não se atreva.
Ele segura meu rosto com força.
— Eu não vou deixar. Entendeu?
— Mas…
— ENTENDEU?
O tom dele me corta.
— Eu não a quero, Dess! Eu fiz tudo isso! Eu vou consertar!
A respiração dele falha.
— Ela vai voltar a dormir.
— E se não voltar?
Chego perto demais.
— Cuida da Antoine… por mim.
Silêncio.
— Dess… tenta confiar em mim.
Eu espero.
Um gesto.
Um abraço.
Qualquer coisa.
Nada.
Ele se afasta.
— Eu vou dar um jeito.
Claro que vai.
Sempre vai.
Menos quando eu preciso.
— Aonde você vai?
— Me despedir das crianças.
O desespero sobe.
— E a Sweet? Eu não posso...
Ele me prende contra a parede.
— Cuida da Antoine. E, se puder, da Juju.
A pausa vem como aviso.
— Sweet que siga o caminho dela.
— Como você sabe disso?
Ele me encara.
— Precisa mesmo perguntar?
— Você leu a mente dela?
— Sim.
Um sorriso leve.
Quase tímido.
Quase humano.
— Você pode ir pra minha casa.
— A casa de praia?
— É.
Eu corto.
— Por que não matou Aiden?
Ele trava.
— Anjos não podem matar humanos.
— Ele não era humano.
Silêncio.
— Anjos não podem matar demônios em corpos humanos.
Melhor assim.
Ele vai embora.
Sem olhar pra Sweet.
Que se exibe.
Ridícula.
Deslocada.
Errada.
Antoine corre atrás dele.
Eu puxo.
Ela chora.
— Fica com a gente, pai…
Ele também.
— Eu sempre vou estar com vocês.
Sempre.
Essa palavra mentirosa que todo mundo usa.
Ele olha pra mim.
E não diz nada.
Nada.
— Coloca esse apartamento à venda, Dess.
Só isso.
Assinto.
Porque é o que me resta.
Antes da porta fechar…
ele sussurra sem som:
te amo.
Eu sorrio.
Porque, aparentemente, eu ainda sou idiota o suficiente pra acreditar em silêncio.
Sweet surta quando falo da venda.
Claro.
Ela não perdeu só a filha.
Perdeu o conforto.
O luxo.
As roupas.
A vida fácil.
Eu confundi luto com acomodação.
Erro meu.
Grave.
Idiota.
“Um dia você vai conhecer a verdadeira Sweet.”
Vincenzo disse.
Eu ignorei.
Porque era mais fácil.
Agora…
eu vejo.
Ela não chora mais.
Ela observa.
Calcula.
Compara.
Inveja.
E quando finalmente vai embora…
leva minhas roupas.
Parte do meu dinheiro.
E o pouco de carinho que eu ainda tinha por ela.
Juju adoece de saudade da mãe.
Com poucos recursos, duas crianças e uma adolescente sob meus cuidados, vendo meu carro. Não me importo em trabalhar para mantê-las, mas não faço ideia de como recomeçar. Não voltarei à prostituição. Isso é um fato.
Outro fato é que jamais ganharei o que ganhava sendo garota de programa ou stripper.
Com menos de dois meses para deixar o apartamento já vendido, procuro outro lugar em sites especializados ao lado de Cassandra, que tem sido uma segunda mãe para Antoine e Juju.
— Devo muito a você, Cassandra.
— De boas, tia. Você me acolheu quando eu mais precisei. Agora é minha vez.
— Eu não posso mais te pagar, Cassie.
— Não me importo. Eu tenho uma família aqui. — Ela sorri, de canto. — Aliás… gostei de “Cassie”.
Engulo o choro. Beijo o topo de sua cabeça.
— Você ainda vai ser muito feliz.
— Tipo você e o tio Vincenzo?
— Não… — suspiro. — Vincenzo e eu nunca seremos felizes. Ele nem me procurou.
— Você que pensa… — murmura, sorrindo para a tela.
Meu coração dispara.
— Fala.
— Calma, tia. Eu não sei de nada.
— Sabe sim. Você viu ele?
— Não vi nada! — Antoine se intromete, irritada. — Quem vê meu pai sou eu!
Ela se joga no meu colo, fazendo biquinho.
— Ele disse que é hora da gente ir pra casa de praia… porque o monstro vai chegar.
O ar some dos meus pulmões.
— Tia… — Juju sussurra, fraca, no sofá. — Não deixa o monstro me levar. Ele levou a Mimi… eu não quero morrer.
Antoine cai no sofá quando me levanto num salto. Vou até Juju e a abraço com força.
— Ninguém vai te machucar. Eu prometo.
— Vai sim — Antoine insiste, chorando. — Foi meu tio que disse! Eu não tenho culpa!
— Que clima… — Cassandra levanta, batendo palma. — Quem quer assistir “Enrolados” pela bilionésima vez?
— EU!
As duas correm.
Eu fico parada.
Pensando em qual “tio” diria algo assim para uma criança.
E, pior… sabendo exatamente quem.
Tenho recebido mensagens de um fotógrafo famoso, daqueles que dominam o mercado sensual que abandonei.
Leio. Releio. Penso.
E recuso.
A ninfomania ainda existe em mim. Adormecida. Esperando. Não vou alimentá-la.
Não posso.
Tenho três vidas dependendo da minha.
Deitada no colchão king size jogado no chão, encaro o teto vazio do quarto que já não é meu.
— Não me importo… — murmuro. — Enquanto Antoine estiver comigo, eu aguento.
O cheiro de sândalo invade o ar.
Meu corpo trava.
Uma nova mensagem vibra no celular.
“Por que tanta insistência?”, digito.
“Porque eu quero. Suas fotos me dariam lucro. Aceite.”
“Quem te indicou?”
“Sigilo. Vai aceitar?”
Arrepios sobem pela minha nuca.
“Não.”
“Não vou desistir…”
Apago a tela.
Fecho os olhos.
— Ainda tá trancada… — penso na faculdade. — E com que dinheiro eu pagaria?
— Aceite.
A voz sussurra no meu ouvido.
Eu me levanto de um salto.
— Fica longe de mim e da minha família, assassino.
Silêncio.
Acendo a lanterna do celular. Vasculho as paredes. Corro até o closet vazio. Pego o punhal.
— Como ousa voltar, Aiden? Depois de tudo?
Nada.
— FALA!
Meus cabelos são trançados por mãos invisíveis.
Paro de respirar.
— Aiden… não faz isso.
“Nunca, baby.”
Seus lábios tocam meu pescoço.
“Saudades.”
— Eu vou te matar. Para.
Minha mão treme no punhal.
— Me deixa em paz.
“Me mata… ou me deixa ficar. Só hoje.”
Seu toque desliza pela minha pele.
Meu corpo reage antes da minha mente.
Maldito.
— Eu te expulso… — minha voz falha. — Da minha casa… da minha vida…
Sou empurrada de volta ao colchão. O celular cai. A luz se apaga.
O peso dele sobre mim.
— Suma… — sussurro.
“Você vai me matar, baby. Mas não hoje.”
Silêncio.
“Hoje… me deixa lembrar.”
Meu corpo trai cada palavra que digo.
— Aiden…
“Só hoje.”
Fecho os olhos.
Entre o medo… e algo que eu odeio reconhecer…
Eu cedo.
— Só hoje…
Acordo com hematomas espalhados pelo corpo.
Lembro de tudo.
Cada detalhe.
A vergonha me prende debaixo do chuveiro por tempo demais, como se a água fosse capaz de arrancar aquilo de mim.
A campainha toca.
Sobressalto.
Vista de qualquer jeito, me cubro com um moletom largo, escondendo até o pescoço, e caminho até a sala.
Paro.
Vincenzo.
Antoine e Juju no colo dele.
Meu peito falha.
— Oi… — digo, sem saber onde colocar os olhos.
Ele não responde.
Sem sequer me encarar, pede a Cassandra:
— Guarda isso com cuidado.
— O quê? — pergunto, confusa. — Do que vocês estão falando?
— Da chave, tia. — Cassandra ergue o molho. — Ele pediu pra...
— Não. — A voz de Vincenzo corta o ar.
Cassandra trava.
Ele a encara com firmeza.
— Só você pode ficar com essas chaves. Entendeu? Estou confiando em você. Você é responsável pela minha filha… e pela Juju.
— Tio… — ela hesita. — Eu não posso. Quem cuida de mim é a tia. Eu nem sou da família.
— É sim. — abraço Cassandra, firme. — Ela é minha filha. Todas são. Se tem algo pra dizer, diz pra mim.
Silêncio.
Vincenzo inspira fundo.
Quando me olha… não tem calor. Não tem cuidado.
Só distância.
— As chaves da minha casa vão ficar com ela. — pausa. — Infelizmente, Dess… depois de um grave delito seu, eu não posso mais falar com você. Nem te procurar.
O chão some.
— Que porra de delito é esse!? — minha voz explode. — Quem me julgou!? Quem me condenou!?
Ele me encara.
Frio.
— Quer mesmo saber?
— EU NÃO CONSEGUI! — grito, já chorando. — Eu tentei!
— Não começa, Dess… — ele recua.
Beija a bochecha de Cassandra.
— Vou buscar Antoine na escola. Trago ela à noite.
— Tio… — Juju se agarra à perna dele. — Não deixa o monstro me pegar.
Ele a pega no colo.
— Não vou deixar, meu anjo.
Sem me olhar:
— Não vou deixar que aquele verme toque em vocês. Já que quem deveria não fez… eu faço.
Cassandra entende.
Leva as meninas.
A porta fecha.
Silêncio.
— Não precisa dizer nada — ele fala, baixo. — Eu sei de tudo.
Meu estômago revira.
— Eu ouvi tudo.
O desprezo no rosto dele corta mais que qualquer palavra.
— Como eu já disse… vocês se merecem.
— Eu não consegui… — minha voz falha. — Tem alguma coisa nele… eu não sei o que é… me ajuda…
Seguro suas mãos.
— Não me deixa. Eu não sei viver sem você.
Ele solta.
— Vai ter que aprender.
— Você não quer ir embora. Eu sinto.
— Não quero. — pausa. — Mas eu sigo ordens.
— Ordens de quem!?
— Não posso dizer. Ainda.
— Corrigir o quê!? — quase imploro. — O que eu fiz!?
Ele ri.
Sem humor.
— Dormiu com um assassino de crianças? Ou prefere pedófilo?
— NÃO! — grito. — Isso ele não é!
O olhar dele muda.
Piora.
— Ainda defende?
Eu quebro.
Silêncio.
Entramos no elevador.
O ar pesa.
— Vou sentir sua falta, Dess.
— Não vai. — seguro a gola da camisa dele no corredor. — Eu não vou te perder assim!
— Não faço as leis.
— Conveniente, né!? — rio, sem sanidade. — O “grande chefe” viu você espancando a Sweet!?
— Para.
— NÃO! — avanço. — Você não leva minha filha sem minha permissão!
— Não grite.
— Isso é uma piada!? — rio, tremendo. — Você só quer me assustar!
— Não.
Ele sustenta meu olhar.
E isso é pior que qualquer grito.
— Aguentei muita coisa calado. Ele não.
— Ele quem!? — minha voz quebra. — O que eu fiz de tão imperdoável!?
Silêncio.
— Me diz.
Ele não responde.
No lugar disso:
— Só me deixa ver a Antoine.
A faca entra devagar.
— É só isso que eu te peço.
— Como eu vou melhorar sem você!? — pergunto, na frente da moto.
Ele coloca o capacete.
Pausa.
Me encara uma última vez.
— Você tem a minha casa… e o meu amor eterno.
Um riso fraco.
— Li isso em algum lugar.
Liga a moto.
— Ainda te amo… mas não gosto de quem você se tornou.
E vai embora.
De joelhos, eu o escuto, chorando sem controle.
Sua voz, grave e serena, atravessa minha dor.
— Você errou muitas vezes, filha. Durante meses, conhecia a verdade e, por apego aos bens materiais, permaneceu ao lado dele. Um homem capaz de sequestrar crianças. Você mesma resgatou Mimi de seus braços… e nada fez depois disso.
Minhas mãos tremem.
Minha cabeça pesa.
— Deveria ter partido. Denunciado. Buscado justiça na Terra.
Curvo-me ainda mais, apoiando a testa nos joelhos.
Não tenho forças para me defender.
— Perdão… — sussurro entre soluços. — Eu não consigo… matar alguém.
Ele se ajoelha diante de mim.
Seus dedos tocam meus cabelos com uma delicadeza que dói mais que qualquer acusação.
— Ele já não é um homem, filha. Há séculos vaga, ocupando um corpo que não lhe pertence. Há séculos morreu.
Silêncio.
— Liberta-o.
Minha voz falha.
— Por que eu?
— Porque foi por te amar que ele se perdeu.
Levanto o rosto, devastada.
— E eu tenho culpa?
— Não. — pausa. — Mas pode ajudá-lo a se libertar.
Sua luz azul me envolve, quase insuportável.
— Amar… às vezes… é deixar partir.
— Eu não o amo… — minha voz quebra.
— Eu sei. — um leve sorriso. — Mas você ainda sente algo.
Fecho os olhos.
— O senhor vai estar comigo?
— Sempre.
Ele se levanta.
A luz se recolhe.
— Não me chame de “senhor”. Sou apenas um servo.
Uma última pausa.
— Até mais, Adessa.
— Adeus… Miguel.
Acordo.
A culpa me afunda.
Não é tristeza.
É peso.
É prisão.
Cassandra fala comigo. Implora. Tenta me erguer.
Eu não consigo mover um músculo.
Nem para comer.
Nem para viver.
Por dentro, eu grito.
Por fora, eu apodreço.
Todas as noites, Aiden retorna.
Ou o que restou dele.
Ou o que o possui.
Ao amanhecer, eu me entrego à escuridão.
Penso em Vincenzo.
E me sinto suja.
Arranco sua imagem da minha mente como se fosse um pecado.
Cassandra chora encostada na parede.
Sem dinheiro. Sem saída. Sem saber o que fazer.
Juju deita ao meu lado.
Antoine…
Antoine se afasta.
E isso me destrói mais do que qualquer outra coisa.
— Quero viver… — grito por dentro.
E então…
Tudo recomeça.
Aiden pede perdão.
Por segundos.
Depois desaparece.
E algo pior assume.
Asmodeus.
A violência.
A invasão.
A perda total de controle.
— Onde está Miguel!? — penso, desesperada. — Ele não vê isso!?
Luto.
Inútil.
O ódio cresce.
Mas não é suficiente.
Nunca é suficiente.
Com o tempo…
Eu paro de rezar.
Com o tempo…
Eu paro de lutar.
E me torno escrava.
De um homem que já morreu.
E de um demônio que nunca viveu.
Uma ideia surge.
Fraca.
Mas clara.
Se eu quiser me livrar de Aiden…
Preciso arrancar Asmodeus primeiro.
— Tia… volta…
Cassandra segura meu rosto com mãos trêmulas.
— Eu sei que você tá aí.
O canudo encosta nos meus lábios.
Forço.
Um gole.
Outro.
— Volta pra gente…
O cheiro do meu corpo me enoja.
Vejo o esforço dela pra não demonstrar.
E isso me quebra mais uma vez.
— Vai com o Vincenzo… — sussurro. — Leva as meninas.
— Não vou te deixar!
Meu corpo treme.
Algo sobe.
Algo toma.
— VAI!
O grito rasga o ar.
Silêncio.
Sozinha.
Sem risos.
Sem Antoine.
Sem nada.
Olho para o teto.
Vazia.
Ele guia minha mão.
Um crucifixo.
Na outra…
Um punhal.
Sua voz sussurra uma oração.
Não consigo virar o rosto.
Mas sinto.
O cheiro.
Maçã verde.
Meu peito aperta.
Vergonha.
Esperança.
Misturadas.
Um beijo leve na minha testa.
— Estou com você. Não desista.
Minha voz falha.
Quase inexistente.
— Nunca…
Sozinha com a minha dor, penso em cravar o punhal em meu peito e deixar que Antoine tenha uma vida normal ao lado de Vincenzo. Cassandra e Juju, igualmente, estarão seguras.
— Concordo. — diz Lúcifer, agachado à minha frente. — Meu bem… seu cheiro está insuportável. Termine logo com isso e nos poupe desse espetáculo deplorável.
Reviro os olhos, sorrindo.
— Você sempre tão sensível.
— Para de rir, idiota! — rosna ele, perdendo a paciência. — Enfie esse punhal no peito e acabe com isso antes que eles voltem e façam de você um pedaço de carne outra vez!
Continuo sorrindo.
— No. Nay. Never.
O sorriso dele desaparece.
— Eileen…?
Um corte seco atravessa a palma de sua mão. O sangue escorre.
— Você me feriu… sua desgraçada!
Sem responder, arrasto o dedo no sangue e traço um círculo no chão. Com dificuldade, me arrasto para dentro dele.
Minha voz sai rouca, quase irreconhecível.
— Hécate… venha em meu socorro. Traga seus cães. Traga sua luz. Liberta meu corpo… desses homens… desses demônios…
Lúcifer ri, nervoso.
— Desde quando você serve essa...
— E por que não serviria?
A voz corta o ar.
O riso dele morre.
A presença chega antes da forma.
Hécate.
Os cães surgem primeiro. Sombras com dentes.
Lúcifer recua.
— Isso não vai terminar bem…
Ele já sabe.
Asmodeus aparece em seguida, puxando Aiden como uma marionete. Mas dessa vez… eles hesitam.
Os cães avançam.
O grito de Asmodeus rasga o quarto enquanto pedaços dele são arrancados. Não há sangue. Só desintegração. Fumaça densa. Ódio.
Em segundos… ele não existe mais.
Silêncio.
Aiden cai.
Pela primeira vez… humano.
Confuso. Fraco. Preso no próprio corpo.
Eu me arrasto até ele.
Ele me olha.
— Me perdoa…
Sem responder, golpeio seu tendão. Ele cai.
Hécate me ergue.
— Termine.
A força que me invade não é minha.
Monto sobre ele.
O segundo golpe vem seco.
Ele geme. Não grita.
— Pode me matar… — diz, sereno demais — …mas eu nunca vou deixar de te amar.
Algo em mim estilhaça.
— EU NÃO SOU ADESSA!
Minha voz não é minha.
— SOU EILEEN!
Ele sorri. Mesmo assim.
— Liberta-me…
O punhal desce.
Dessa vez… direto no coração.
Silêncio.
Só o som dos cães.
Seu olhar ainda me encontra.
Ainda há algo ali.
— Não deixa ela te dominar… baby…
Seu último suspiro.
— Adeus.
— Adeus, Mr. Byrne.
Coberta de sangue… eu acordo.
— Levanta, tia.
A voz é leve. Quase irreal.
— Estou… morta?
— Ainda não. Mas quase.
Forço os olhos.
— Giulia…?
Ela sorri.
— Agora posso descansar.
Olho ao redor.
O quarto… muda.
Luz.
Crianças.
Muitas.
Demais.
— Você… libertou a gente.
Minha garganta fecha.
— Perdão…
É tudo o que consigo dizer.
Elas se aproximam. Uma a uma.
O abraço delas… não pesa.
Mas atravessa.
Giulia beija minha testa.
— Não deixa a outra voltar, tia.
Ela some.
Todas somem.
Silêncio.
Escuro.
— NÃO VOU!
Minha voz explode antes mesmo de eu entender onde estou.
— FICA LONGE DE MIM E DA ANTOINE!
— Dess, se acalma...
— CALMA É O CACETE!
O galpão de boxe ecoa meu grito.
— Quem me tirou daquele inferno? Você? Seu anjozinho?
Ele não responde.
— NÃO! FUI EU! — aponto para mim mesma, tremendo — EU me arrastei! EU me limpei! EU sobrevivi!
Jogo o crucifixo contra o peito dele.
— Enfia isso em você e nunca mais chega perto de mim!
— Dess… essa não é você...
Dou um riso baixo.
Frio.
— Dess?
Viro de costas.
— No. Nay. Never.
As chaves caem no asfalto.
— Tenta me salvar de novo… e perde ela pra sempre.
Silêncio.
E dessa vez… eu não olho pra trás.
A casa não é grande, mas cabe em nós.
Antoine e eu. Cassandra e Juju.
Quatro mulheres e um destino simples demais pra quem já viu o inferno de perto: sobreviver.
Sweet voltou pra vida de antes. Eu, não.
Agora encho tulipas de cerveja num pub qualquer enquanto observo pessoas rindo, bebendo, caindo… vivendo.
Engraçado.
O mundo não gira.
Ele capota.
Cassandra segura tudo em casa. As crianças. A rotina. O pouco de paz que ainda existe.
Gosto dela.
Esperta. Sobrevive como eu.
— Você tá bem, filha?
— Claro, Doc.
Ele me observa mais do que deveria.
— E a Adele?
— Bem. Quer carona?
— Não! — sorrio, abrindo o carro. — Eu tenho meu Chevette.
Ele olha o carro, depois pra mim.
— Cabem todos aí?
— For God’s sake, Doc… claro que cabem.
Ele sorri, mas não confia.
— Que Deus te proteja.
Solto um riso seco.
— Nunca protegeu antes. Não vai começar agora.
Ele hesita.
— Falou com o Vincenzo?
— No. Nay. Never.
Dou partida.
— Desse aí eu quero distância.
Enquanto me afasto, ele solta:
— Ele disse que talvez precise te fazer dormir.
Minha mão trava no volante por um segundo.
Depois… acelero.
— Acho difícil, Doc.
Muito difícil.
— O que tá lendo, mamãe?
— Um livro.
Antoine encosta em mim, curiosa demais.
— O livro… das sombras?
Ela me encara, assustada.
— Meu pai não gosta disso.
Fecho o livro.
— Seu pai não sabe de tudo.
Ela ri.
— Sabe sim. Ele me disse seu nome.
Meu estômago revira.
— Meu nome?
— O de verdade.
Meu corpo inteiro tensiona.
— Para de ouvir esse homem.
— Você não pode me impedir. — ela sorri, provocando — Você nem é minha mãe.
— ANTOINE!
A campainha toca.
Ela corre.
Abre.
Erro.
Grave.
Sweet entra antes mesmo de ser convidada.
Maquiada. Exagerada. Vazia.
— Vim buscar minha filha.
O ar muda.
— Sua filha? — minha voz baixa — Aquela que você abandonou?
— JUJU!
Ela tenta avançar.
Eu não deixo.
Seguro seus cabelos.
Puxo.
— Você sabe com quem tá falando?
— Me solta, Adessa!
— Não.
Ela se debate.
— Agora eu tenho dinheiro! Tenho quem me banque!
Sorrio.
Errado.
Muito errado.
— Que bom.
Arranco o aplique dela com força.
Ela cai gritando.
Eu chuto.
— Vaca.
— PARA! — Vincenzo entra, atordoado — Olha as crianças!
— Tarde demais pra isso.
Ele me encara.
— Se controla, Eileen.
Silêncio.
Lento.
Perigoso.
Me abaixo.
Sussurro no ouvido de Sweet:
— Eileen. Prazer.
Ela nem entende antes do tapa.
Cassandra puxa as crianças.
Porta fechada.
Agora… somos nós.
— Quanto você ganhou? — pergunto, montada sobre ela — Pra vender meu corpo?
— Eu não...
— MENTE!
Outro tapa.
— Foi você. — rosno — Você organizou tudo.
O silêncio pesa.
Vincenzo observa.
— Do que vocês estão falando?
Rio.
— Você não lembra, padre?
Ele empalidece.
— Sweet… — ele engole seco — Isso é verdade?
— NÃO! — ela chora — Eu não sabia!
— Não sabia? — inclino a cabeça — Era sangue e porra pra todo lado. Lembra agora?
Ele fecha os olhos.
Lembra.
Eu vejo.
— Você apagou isso. — sorrio — Da cabeça dela.
Ele não nega.
— Eu quis proteger.
— Protegeu quem?
Silêncio.
Resposta suficiente.
Empurro Sweet pra longe.
Levanto.
— Essa é a mulher que você toca… e depois espanca?
Ele me encara, ferido.
— Cala a boca, Eileen.
Sorrio.
— Doeu?
Viro as costas.
Saio.
Ele vem atrás.
Claro que vem.
— Como você sabe disso?
— Tá tudo aqui. — bato na cabeça — Na lixeira que você criou.
Minha visão falha.
— Você não devia lembrar…
— Pra quem é cruel? Pra ela… ou pra mim?
Ele não responde.
Porque sabe.
— Eu quis proteger você também.
— NÃO QUIS!
Meu corpo vacila.
— Que gosto… amargo…
Ele suspira.
— O chá.
Demora um segundo pra cair.
— Chá?
— Você precisa dormir.
O mundo gira.
— Antoine não faria isso…
— Ela não sabia.
Ele segura meu corpo antes de cair.
— Fui eu.
Luto contra.
Inútil.
— Não… eu quero viver…
Seguro na camisa dele.
— O que ela tem… que eu não tenho?
Ele fecha os olhos.
Sofrendo.
De verdade.
— Eu te amo, Eileen.
Isso me quebra.
— Então por quê…?
— Porque não é a sua vez.
Silêncio.
— A vida é dela.
Respiro com dificuldade.
— E a minha?
Ele sorri triste.
— Já foi.
Isso dói mais que tudo.
— A gente… foi feliz?
— Mais do que com qualquer outra.
As lágrimas vêm.
— Nem com ela?
— Nem com ela.
Sorrio.
Destruída.
— Promete… que não vai me esquecer?
— Nunca.
Minha voz falha.
— Se tiverem uma filha… dá meu nome a ela?
Ele ri, chorando.
— Você ainda invade minha cabeça.
Sorrio.
Fraca.
— Me beija… antes de eu ir.
Ele beija.
Lento.
Doloroso.
Último.
Eu estapeio ele.
— Collach.
Ele quase ri.
— Ainda assim… eu te amo.
Escuridão.
Quando abro os olhos… sou eu.
Dess.
De volta.
Sweet está indo embora.
Com Juju no colo.
— TIA! — Juju grita — NÃO!
Antoine, na calçada, chorando, grita mais alto:
— ELA VAI MORRER!
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
— Deixa ela aqui! — Antoine implora — Ela vai morrer se for com ela!
A profecia se cumpriu.
Meses após deixar nosso apartamento, Juju morreu.
Bala perdida.
Comunidade.
Namorado de Sweet.
Fim.
Espero até que todos se vão. O cemitério silencia. Só então me permito cair sobre o pequeno túmulo.
— Me perdoa…
Minha voz não sustenta o peso do que carrego.
Antoine e Cassandra ficaram em casa. Eu não permitiria que minha filha visse o corpo frio da melhor amiga. Os risos de Juju ainda ecoam em mim… e o silêncio que ficou é pior que qualquer grito.
Por que não impedi?
Não lembro.
Mas sei que estava lá.
E sei… que falhei.
Mimi. Juju.
Duas mortes.
Duas culpas.
E eu ainda a trouxe de volta.
Sweet.
Ela ocupa o espaço que era de Juju.
No meu apartamento.
Na minha vida.
— Tia, eu não te entendo. — Cassandra resmunga, irritada. — Depois de tudo?
— Ela não tem pra onde ir.
— Foda-se!
— Cassandra!
— Palavrão é feio… — Antoine comenta, com a boca cheia — …mas eu concordo.
Fecho os olhos por um segundo.
Cansaço.
Culpa.
Confusão.
— Ela fica.
Nem eu acredito na minha própria voz.
— Eu vou pro colégio, mamãe cabeça oca!
Ela ri de si mesma e corre.
Volta com a mochila.
— Escovou os dentes?
— Não precisa.
Paro.
Devagar.
— Desde quando você não escova os dentes?
— Eles sangram.
Meu estômago afunda.
— Desde quando?
— Desde que meu tio me deu a bala.
O mundo trava.
— Que tio?
Olho pra Cassandra.
— Alguém chegou perto dela?
— Nunca, tia! Eu fico com ela o tempo todo!
— Então por que ninguém chega perto?
Antoine dá de ombros.
— Porque me chamam de esquisita… e de neguinha.
Fecho os olhos.
Respira.
Depois resolvo isso.
Agora… não.
No banheiro, ajoelho diante dela.
— Escova.
Ela obedece.
Devagar.
Sangue.
Pouco… mas suficiente.
— Tá vendo? — digo, controlando a voz — Não precisa força.
Ela cospe.
Bochecha.
Me olha pelo espelho.
— É porque eu não aceitei a bala dessa vez.
O arrepio sobe pela minha espinha.
— Filha… quem te deu isso?
— O tio Lu.
Silêncio.
Denso.
Pesado.
— Ele pediu pra não te contar… — ela continua, tranquila demais — …porque você não era você.
Meu coração dispara.
— Era a outra.
Engulo seco.
— E agora?
— Agora você voltou.
Ela sorri.
Inocente.
— Eu gosto mais de você.
Isso quase me destrói.
Seguro seu rosto.
— Nunca mais fala com esse homem.
— O tio Lu?
— Ele não é seu tio.
Minha voz falha.
— Ele é um monstro.
— Ele não tá aqui. — ela responde, simples — Só aparece quando você não tá.
Claro.
Claro que sim.
— Ele tem medo de você.
Eu solto um riso sem humor.
— De mim?
— Disse que você é briguenta.
Caio sentada no chão frio.
O banheiro apertado gira ao meu redor.
Outro.
Mais um.
Sempre mais um.
— Mamãe… você tá bem?
Puxo ela pra perto.
Abraço forte.
Como se isso resolvesse alguma coisa.
— Se você estiver comigo… eu tô bem.
Mentira.
Mas é a única que tenho.
— E o papai?
Levanto o olhar.
— Que papai?
— O Vincenzo, ué. — ela diz, como se fosse óbvio — Agora que o tio Aiden morreu, você podia casar com ele.
Automaticamente:
— Poderia.
Ela joga os braços pro alto.
— ALELUIA!
Meu corpo trava.
Devagar.
Muito devagar.
Viro a cabeça.
Porque eu senti.
Antes de ver.
A presença.
O ar muda.
Pesado.
Quente.
Errado.
E aquela voz…
Baixa.
Divertida.
Encostada no meu ouvido:
— Finalmente alguém sensato nessa casa.
— Você tá falando com ele agora, filha!?
Fugindo de mim, Antoine corre até a porta antes mesmo da campainha tocar.
— ANTOINE! VOLTA AQUI!
Quando alcanço a sala, paro.
O cheiro de maçã verde vem antes dele.
— O que faz aqui?
— Vim levar nossa filha ao colégio.
— Ah, claro. Simples assim?
Ele suspira, entediado.
— Há mais de um mês é assim, Dess.
— Eu não me lembro disso!
— Porque não era você, mamãe...
— Aaaah, claro! A “outra”! — passo a mão no rosto, rindo sem humor — Que história conveniente.
— Não fala assim com ela, Dess. — Vincenzo a segura com mais firmeza. — Se controla.
Respiro fundo.
— Perdão, filha. Não foi com você.
— Foi comigo??? — ele ironiza, e Antoine ri, aliviando o clima por um segundo.
Erro.
Porque eu começo a pensar.
— Espera… deixa eu entender...
— Depois.
— NÃO. AGORA. — minha voz sobe — EU PRECISO ENTENDER AGORA.
Antoine se encolhe no pescoço dele.
— Ela não precisa ouvir isso — diz ele, firme.
— Desde quando você virou o pai do ano?
— Dess…
— Cala a boca e me escuta!
Ele hesita. Depois:
— Vai pro quarto, filha.
— Não briga com ela, pai… ela não tá bem da caixola…
A porta fecha.
Silêncio.
Agora é só nós dois.
Ele se vira, segura meus braços.
— Para. Pensa antes de agir.
— Vai. Tomar. No. Cu.
Um canto de sorriso.
— Essa é a Dess que eu conheço.
— Engraçado. Porque você não é o Vincenzo que eu conheci.
— Você nunca me deu chance.
Eu rio.
— Nunca te dei chance? Eu me joguei em você desde o primeiro dia! E você sempre escapou!
— E você casou com um demônio.
— Eu dei uma vida pra minha filha! — avanço — Coisa que você nunca fez!
— Ela é minha filha, sim!
— Ah, é? — chego perto, encarando — Porque leva pra escola? Compra lanche? Cinema? Isso te faz pai?
Ele não responde.
Erro dele.
— EU tava tentando salvar duas crianças enquanto você sumia!
— NÃO FALA ASSIM...
— COVARDE! — explodo — VOCÊ PODIA TER IMPEDIDO TUDO! MAS FUGIU!
Silêncio.
Ele só me encara.
E isso me deixa pior.
— EU TIVE QUE MATAR AIDEN! — minha voz falha — EU ME LEMBRO! EU LEMBRO DE VOCÊ ME DEIXANDO LÁ!
Minha respiração quebra.
— Sozinha… com dois monstros…
Minhas mãos tremem.
— Onde você estava, Vincenzo? — mais baixo agora — Onde você estava quando minha filha tinha medo de madrugada?
Nada.
Só silêncio.
— Sai daqui… — sussurro — Me deixa viver com dignidade.
— Não vou.
Eu rio. Sem graça.
Caio no sofá.
— Engraçado… quando eu precisava, você não podia ficar. Agora pode?
Ele se aproxima. Eu tento resistir.
Não consigo.
Acabo encostando nele.
Maldição.
— Eu não podia desobedecer ordens — ele murmura — Agora posso.
— Tarde demais.
— Não é.
— É sim. — me afasto — Eu não tenho mais coração pra você.
— Tem.
— Não pra você.
Ele insiste:
— A gente pode dar certo. Já deu...
— Com a “outra”? — corto — Você casou com ela? Teve filhos?
— Sempre foi você.
— Para.
Ele dá um passo.
— Agora é real, Dess.
Eu rio.
— Real? Agora que só sobrou o Lúcifer pra ferrar a minha filha?
— Ele não vai tocar nela.
— Você disse isso antes.
Silêncio.
Golpe baixo. E ele sentiu.
— Somos uma família...
— Desde quando? — corto — Desde que você parou espancar Sweet? Ou desde que tiraram sua coleira?
Ele fecha a cara.
— Você não estava aqui — continuo — Nunca esteve quando precisei.
Pego a porta.
Abro.
— Vai embora.
Ele não se mexe.
— Você preferia o Aiden, né?
Aquilo entra.
Fundo.
— Pelo menos… ele ficava.
Erro. Eu sei.
Mas já saiu.
— Um pedófilo demoníaco — ele rosna.
— Um homem que enlouqueceu — respondo, fria — Muito por sua causa.
Silêncio.
Agora quem levou foi ele.
— Entendi… — ele diz baixo — Não temos o que eu pensei.
— O quê?
— Amor.
As chaves caem no chão.
— Se precisar, chama o Aiden — ele diz, amargo — Eu desisti.
Aquilo doeu mais do que qualquer grito.
— Eu desisti de você… e de mim.
Ele vai.
E dessa vez…
eu deixo.
— Vai, covarde.
A porta fecha.
E só então…
minhas pernas cedem.
Mas não corro atrás.
Não dessa vez.
Eu nunca o vira chorar tanto como naquele dia de chuva antes de caminhar pela calçada até sumir. Se, ao menos, ele soubesse que tudo o que disse não era real.
— Eu não vou permitir que Lúcifer te escravize, amor. Eu mesma vou resolver tudo sozinha e, talvez, você volte a sentir algo por mim. Por enquanto, vou tentar respirar sem você por perto.
Sweet, obcecada por limpeza, esfrega o apartamento como se pudesse apagar o passado com água sanitária. Não consegue.
A culpa a corroeu por dentro.
E, agora, ela apodrece por fora.
Cassandra não fala mais com ela desde o dia em que Sweet tentou matá-la. Se eu não tivesse chegado a tempo…
"Ela atirou em Juju! Eu vi!", gritava, fora de si.
Desde então, virou rotina: crise, grito, remédio, silêncio.
— Ele disse que posso ter minhas filhas de volta… — repete, sorrindo.
Sempre isso.
Sempre a mesma frase.
Até que eu cedo.
— Ele quem, Sweet? Jesus?
O sorriso muda.
Piora.
— Não… — ela sussurra. — Um homem bonito. Terno engomado.
Frio na espinha.
— E o que ele quer de você?
— Ainda não posso dizer…
Apago.
Mais uma dose.
Ela dorme.
E eu fico acordada.
— O que você quer que eu faça!? Jogar ela na rua!? — rosno, dirigindo.
— Sim — responde Cassandra, seca. — Antes que ela faça algo com a Antoine.
Isso me corta.
Antes que eu retruque, Cassie aponta:
— Tia… se controla. Antoine saiu.
Tarde demais.
Saio do carro quase arrancando a porta.
Descabelada. Descalça. Fora de mim.
Perfeita.
— Mamãe, não faz escândalo… — Antoine tenta.
Ignoro.
Invado a diretoria como um furacão.
— COMO VOCÊS PERMITEM ISSO!? — berro. — Minha filha sofre bullying aqui dentro!
A diretora tenta falar.
Erro dela.
Espalho os papéis da mesa.
— Chamam ela de "neguinha"! De "esquisita"! Em que século vocês estão!?
— Senhora, por favor…
— POR FAVOR O CACETE...
Braços me seguram por trás.
Fortes.
Firmes.
Familiares.
— Me solta, porra...!
Então eu sinto.
O cheiro.
Maçã verde.
Droga.
— Ela teve dias difíceis — diz ele, calmo demais.
Sempre calmo demais.
— Me solta! — rosno, virando o rosto. — O que você tá fazendo aqui!?
— Sendo pai.
Silêncio.
O tipo de silêncio que dá vontade de quebrar alguém.
— Vc me contou sobre o bullying de nossa filha. E eu, como pai, já conversei com essa agradável senhora e resolvi o assunto.
Olho pra ele.
Sério mesmo?
Antes que eu exploda, Antoine se agarra ao braço dele.
— Meu pai é bonito, né tia!? Muiiiito bonito!
Reviro os olhos. Claro que ela herdou o talento pra caos.
— Mas ele já tem dona! — continua, toda convencida. — Minha mãe e ele vão se casar. Mas ela ainda não sabe disso.
Perfeito. Só me faltava essa profecia infantil no meio do colapso mental.
No carro, não falo nada.
Milagre.
Cassie dirige como se tivesse ganhado na loteria.
— Tia… ele foi incrível.
— Incrível? — repito, seca.
— Foi! — Antoine vibra no banco de trás. — Ele entrou nas salas, falou com todo mundo! Disse que eu tenho pai e mãe! Disse que eu sou tipo a Shuri disfarçada!
Solto um suspiro cansado.
— E ameaçou todo mundo — ela completa, orgulhosa. — Disse que volta e acaba com geral.
Perfeito. Um anjo justiceiro com leve tendência homicida. Nada preocupante.
— Meu pai é louco… igual você, mamãe!
Silêncio.
Então ela muda.
A voz baixa.
— Vocês vão se casar… mas até lá… alguém vai sofrer.
Pronto.
— Não… — sussurro, me curvando no banco. — De novo não.
— Pai? — rio, sem humor. — Agora você é pai?
Ele não reage.
Claro que não.
— Onde você tava quando ela tinha medo à noite? Quando via coisas? Quando eu tava lutando sozinha!?
Nada.
Só aquele olhar.
Aquele maldito olhar que sente tudo… e não impede nada.
— Eu não podia interferir — ele diz.
Baixo.
Controlado.
Errado.
— NÃO PODIA!? — avanço. — NÃO PODIA OU NÃO QUIS!?
— Eu segui ordens — ele insiste.
— E eu segui o inferno inteiro sozinha! — cuspo de volta.
Minha voz falha.
O corpo também.
— Eu tive que matar ele, Vincenzo… — sussurro. — Eu tive que fazer tudo.
Ele se aproxima.
Devagar.
Como se eu fosse quebrar.
Talvez eu fosse.
— E eu vi — ele diz. — Mesmo de longe… eu vi.
Isso me paralisa por um segundo.
Um segundo só.
Erro meu.
— Então viu e não fez nada — concluo.
Pronto. De volta ao ódio.
Seguro. Familiar.
— Eu tô aqui agora.
— Tarde.
— Não precisa ser.
— Pra mim, precisa.
Ele hesita.
Finalmente.
— Dess…
— Não — corto. — Não me chama assim como se tivesse direito.
Silêncio de novo.
Mais pesado.
— Eu só quero fazer parte da vida dela.
— Então começa sendo honesto — retruco. — Porque até agora… você só aparece quando já deu merda.
Isso acerta.
Eu vejo.
Finalmente.
— Eu vou ficar — ele diz.
— Não vai.
— Eu vou.
— Então vai assistir — respondo, fria. — Mas não chega perto.
Ele não discute.
Só assente.
E isso, estranhamente…
Dói mais.
— Que porra você fez no cabelo, Sweet?
— Pintei, ué. Não posso?
— Não de ruivo.
Respondo automático.
Mas não é só implicância.
Algo me incomoda.
Uma imagem atravessa minha mente: água escura, algas se enrolando, alguma coisa puxando pra baixo.
Ignoro.
Erro meu.
— Ficou bonito — completo, seca.
— Eu sei. Ele disse o mesmo.
Pausa.
Pequena.
Errada.
— Disse que eu precisava me lembrar de umas coisas…
Debaixo do chuveiro escaldante, finjo que não ouvi.
Claro que ouvi.
— Ele prometeu muita grana — ela continua, tranquila demais. — Vou poder levar minhas filhas pra bem longe daqui.
— Vai sim — respondo, passando por ela. — Com licença.
Banheiro minúsculo. Ar pesado. Presença pior ainda.
— Em breve, vou ter um banheiro enorme — ela diz, olhando ao redor com desprezo. — Igual ao do seu antigo apartamento.
Aiden.
Claro.
— Deus te ouça.
— Deus não está aqui.
O arrepio vem forte.
Instantâneo.
— Sai daqui, porra.
— Calma, amiga…
— SAI!
Empurro a porta do quarto, tranco.
Mãos tremendo.
Olho pro crucifixo.
— Salva minha filha… por favor.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Então...
O grito.
Corro.
Ainda de lingerie, porta aberta com violência.
E vejo.
Cassie e Antoine encurraladas.
Sweet no outro canto.
Tesoura na mão.
Sorriso errado.
— ELA CORTOU O CABELO DA ANTOINE! — grita Cassie. — EU TE DISSE!
Antoine corre pra mim.
Eu abraço.
Forte demais.
Tarde demais.
— Ele pediu — diz Sweet, como se fosse nada. — Foi só um cachinho.
Meu sangue ferve.
Mas não posso explodir.
Ainda não.
— Larga a tesoura — digo, controlando a voz. — Me dá isso. Somos amigas, não somos?
— Siiim! — ela vibra. — Amiga!
Olhos brilhando.
Doente.
— Se eu conseguir mais… ele traz minhas filhas de volta. Ele prometeu.
Ali.
Pronto.
Tá feito.
— Mais o quê, Sweet?
— Só um pouquinho do cabelo dela… — ri. — Troca justa, né?
Não respondo.
Não dá tempo.
Avanço.
Golpe seco.
Ela cai.
Tesoura longe.
Eu em cima.
Prendendo.
Respiração pesada.
Raiva misturada com pena.
Pior combinação possível.
— Qual o nome dele?
— Não sei… — ela ri, tonta. — Só sei que preciso dar algo da Antoine…
Olhos dela vão pra minha filha.
Aquilo me quebra por dentro.
— Doeu, meu bem? Quer brincar com a Mimi?
— OS DENTES, TIA! — grita Cassie. — ELA PEGOU OS DENTES!
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Agora sim eu entendo.
Não é loucura.
É ritual.
— Que tipo de coisa ele tá montando com a minha filha, Sweet?
Nada.
Só aquele sorriso.
Eu perco o controle.
Bato a cabeça dela no chão.
Uma vez.
Duas.
— O NOME!
Sangue.
Respiração falhando.
— Não tem nome…
Pausa.
— Tem apelido.
Eu já sei que não vou gostar.
— Qual?
Ela sorri.
Lento.
Errado.
— Tio Lu.


.jpeg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)




.jpg)
.jpg)

.jpg)



.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpeg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)
Comentários
Postar um comentário