Sweet some de nossas vidas, mas sua sombra permanece grudada em cada canto da casa.
Sinto que o confronto final se aproxima. Só que não posso viver apenas à mercê do mundo dos Imortais. As contas continuam chegando e Antoine… Antoine está abatida. Talvez só agora tenha entendido que perdeu suas amiguinhas de forma brutal.
Cassie se esforça para animá-la, mas eu vejo. Vejo o medo constante nos olhos dela. O medo de Sweet voltar. De aparecer do nada. De surtar outra vez.
No meu único dia de folga, levo as duas a uma pizzaria perto do prédio. Enquanto esperamos pela pizza de muçarela, meus olhos varrem o ambiente.
Eu finjo normalidade.
Mas não estou.
Desde o atentado contra Doc, tenho a sensação de nunca estar sozinha. Como se algo… ou alguém… me observasse o tempo todo.
Evito pensar em Aiden.
Inútil.
Sua presença me invade.
Ao lado dele, eu não sentia medo.
Claro.
Eu dormia com o próprio medo.
Com o mal.
Por que diabos eu não aceitei Vincenzo de volta?
Ele enfrentou Lúcifer por mim. Por nós.
Estamos livres… e eu o afasto de novo.
Burra.
Muito burra.
Eu me odeio.
Eu também.
JAMAIS o afastaria se ele me amasse.
— Você deveria estar dormindo.
"No nay never."
Vou ficar. Observando. Esperando.
— Não vai ter brecha nenhuma, sua desgraçada. Dorme.
— Que cara é essa, tia?
— De arrependimento. — respondo, seca. — Preciso voltar com meus remédios. Mas sem psiquiatra, sem receita. Sem receita… sem remédio.
Cassie se inclina sobre a mesa, baixando a voz:
— Desde quando você precisa de receita pra conseguir tarja preta?
— Cassie! — encaro. — O que você tá insinuando?
— Não tô insinuando. Tô resolvendo. Me passa os nomes que eu consigo.
— E eu pago com o quê?
— Lutando, ué.
Olho pra Antoine, surpresa.
— Como é?
— Por que tá me olhando assim, mãe? — ela cruza os braços. — Eu não gosto disso. Eu não sou esquisita.
Respiro fundo. Forço um sorriso.
— Que luta, filha?
— Ai, meu Deus… — ela revira os olhos.
Cassie ri.
— Fala, vai.
— Campeonato de boxe! — Antoine se anima. — Meu pai disse que vai ser o maior do ano! Tem prêmio!
Claro.
Tinha que ter dedo dele.
— Boxe? — repito, incrédula.
— A gente precisa de dinheiro — ela continua. — Você luta, ganha e pronto.
— Sim. Fácil. — ironizo. — Anos de treinamento invisível, né?
— Papai te treina!
Péssima ideia.
Por um segundo… eu me vejo no ringue.
Vincenzo à minha frente. Suado. Focado. Perfeito.
Meus dedos fecham no pescoço dele.
— Não. — solto o ar. — Treinar com seu pai é a última coisa que eu quero.
— Por quê!? — Antoine protesta. — Ele luta muito!
— Vai ter um infarto antes da luta — Cassie provoca.
— A pizza chegou! — ela muda de assunto, animada.
— Espera! — digo, rápido demais.
O garçom congela, confuso.
Seguro seu braço.
Fecho os olhos.
Silêncio.
— Que bizarro… — Cassie murmura.
Ignoro.
E mergulho.
O garçom paralisa, confuso, ainda segurando a bandeja. Seguro seu antebraço e fecho os olhos.
— Lá vem… — Cassie resmunga. — Bizarro.
Ignoro.
E mergulho.
Ele está em casa.
Abraça a filha enquanto lê um livro infantil. A menina boceja, tranquila, aninhada na cama. A porta se abre. A esposa surge, sorrindo, com a barriga avançada. Eles se beijam. Falam do futuro como se ele fosse garantido.
Sorrio, aliviada.
Ele é um bom homem.
Por um segundo, algo escuro se move atrás dele… mas desaparece antes que eu consiga focar.
Abro os olhos.
O silêncio à mesa pesa.
— Desculpa… — solto o braço dele. — Eu… eu…
— Ela faz isso às vezes, amigo — diz Vincenzo, surgindo como se sempre estivesse ali. — Probleminha na cabeça. Normal. Pode ir.
O garçom ri, meio sem graça, e se afasta.
Vincenzo se senta.
— Cheguei na hora certa.
— Papai! — Antoine pula no colo dele. — Eu sabia que você vinha!
— “Viria” — corrijo, já pegando um pedaço de pizza.
Mordo.
Espero.
Nada.
Doc tomou o café. O veneno demorou.
E se…?
— O que foi? Por que tá me olhando assim?
— Relaxa, Dess. Já passou. Lembra? “Já deu, burro. Já deu.”
Antoine gargalha.
— Não entendi.
— É do Shrek, mãe! — ela explica, grudada nele. — E ela vai lutar, pai! Vai ganhar dinheiro pros remédios!
Fecho os olhos.
— Filha… para.
— Mas...
— Remédios? — Vincenzo me encara. — As vozes voltaram?
Assinto.
Sirvo pizza pra Cassie e Antoine.
— Ela quer voltar? — ele insiste.
— Sim. — minha voz falha. — E não pode.
— Ela quem? — Antoine pergunta, de boca cheia. — Tia Sweet? Essa não volta, não!
— Como você sabe disso? — Cassie trava. — Tenho pesadelos com ela toda noite…
— Ela já encontrou outro lugar pra ficar — Antoine diz, simples.
Meu estômago afunda.
— Filha… você falou com ela?
— Não. — ela dá de ombros. — Foi aquele tio que você não gosta que falou comigo.
Meu sangue ferve.
— Eu já disse pra não falar com ele! — minha voz sobe. — Ele ainda vai lá em casa!?
Vincenzo me puxa.
— Calma. Você vai assustar ela.
— EU JÁ ESTOU ATERRORIZADA!
Ele me segura firme.
— Quanto mais a gente souber, mais perto de acabar com isso.
Engulo o choro.
— Eu só queria… um dia normal. Um.
— Não somos normais, Dess.
Eu encaro aqueles olhos absurdamente calmos.
E, contra tudo, me acalmo.
— Vai dar certo. Eu cuido de tudo.
— Você sempre diz isso. E sempre dá merda.
— Mamãe! — Antoine protesta. — Merda é palavrão!
Ela troca de lugar com Cassie de repente.
— Sai da janela.
Cassie congela.
— Por quê?
Não dá tempo.
Sweet aparece do outro lado do vidro.
Cassie grita e cai da cadeira, se arrastando pelo chão.
Sweet sorri.
E atrás dela…
Lúcifer.
Sweet sorri.
E atrás dela…
Lúcifer.
Os braços dele a envolvem como se ela fosse dele.
Ele acena.
A imagem some.
Vincenzo já está de pé, indo pra porta.
— SWEET!
As pessoas olham. Murmuram.
Mas já não tem nada lá fora.
— Ele quer Antoine… — sussurro, tremendo. — Eu ouvi.
— Desde quando você ouve pensamentos?
— Eu não sei! Eu ouvi!
— Nela ele não toca! — Vincenzo rosna.
A porta do apartamento fecha entre nós.
— Fica longe. — minha voz sai baixa. — Você é um risco.
— Eu não volto pra eles — ele rebate. — Nem pro exército. Nem pra Legião.
Ele segura a porta.
— Me deixa ficar. Só hoje. Eu não vou dormir em paz longe de vocês.
— Deixa, tia… — Cassie pede.
— Deixa! Deixa! Deixa! — Antoine insiste, sem parar.
Olho pra elas.
Medo. Desespero. Cansaço.
E cedo.
— Só hoje.
Não tivemos tempo para conversar.
E, talvez, nem precisássemos.
Ele sabe.
Eu sei.
Enquanto Lúcifer existir em nossas vidas… não existe “nós”.
Talvez eu devesse contar.
O segredo que carrego há séculos.
A espada.
Preciso encontrá-la.
Não faço ideia de como.
Por enquanto…
Durmo com as meninas no quarto.
E escuto.
O ranger do sofá.
O peso do corpo dele virando na sala.
Tão perto.
Tão distante.
Será que um dia vamos ter uma vida normal?
“Sem dúvida.”
A voz dele atravessa minha mente.
Fecho os olhos.
— Pelo bem de Antoine… — sussurro — Até lá… some da nossa vida.
Silêncio.
Então:
“Ok.
Doc me consegue um trabalho na casa de shows de um amigo.
O salário é melhor. O ambiente também.
Luzes, música, gente.
Barulho suficiente pra calar o que grita dentro de mim.
Sirvo mesas. Ando pelo salão. Finjo normalidade.
Funciona… às vezes.
Nos dias de folga, treino boxe com João.
Sócio de Vincenzo.
Amigo.
O saco de pancadas não revida.
Isso ajuda.
Socar até os braços doerem.
Até o corpo cansar.
Até a cabeça… parar.
Mas não para.
Nunca para.
Como ele pôde?
Transar com aquela vagabunda.
A mesma que tentou matar minha filha.
— Slugger! — João grita, desviando dos meus golpes.
— O quê?
Vacilo.
O soco vem.
Caio no tatame, rindo sem graça.
— Fala direito. O que é isso?
Ele me puxa de volta.
— Um estilo de luta. Forte, agressivo. Você não para. Aguenta porrada e devolve.
Pego a garrafa. Bebo tudo.
— Então sou eu mesmo.
Ele sorri.
— É.
— Ai de quem mexer com a minha filha.
— Eu sei. — ele fica sério. — Dá pra ver.
Deito de novo no tatame.
Olho pro teto.
— Eu mato por ela.
Silêncio.
Ele não ri.
Nem discute.
Só aceita.
Porque sabe que é verdade.
— Que tipo de lutador é o Vincenzo?
— Counter puncher.
— Traduz.
— Ele espera. Observa. E bate na hora certa.
Claro.
Até lutando ele é irritante.
João se afasta.
— Levanta. Acabou.
Fico ali mais um pouco.
Cansada demais pra fingir que não tô esperando ele ir embora.
Ou chegar.
— João disse que você vinha daqui a duas horas…
— Cheguei antes.
A voz dele.
Perto demais.
Sento devagar.
Vincenzo já está ali.
Enfaixando as mãos.
Calmo.
Como se nada tivesse quebrado entre a gente.
— Algum problema?
— Nenhum. — respondo, levantando diante dele.
De perto… é um erro.
O sorriso torto no canto da boca.
Os olhos fixos em mim.
E eu, idiota, sentindo o rosto esquentar.
— Idiota. Você ouviu?
— Fazer o quê? Ser gostoso é uma merda.
Prendo o ar.
Tento sair. Não consigo.
Ele estala os dedos diante dos meus olhos.
— Sua aula acabou. Minha aluna tá chegando.
— Aluna?
A palavra sai amarga.
Ele ri.
E aquilo me irrita mais do que deveria.
Meu corpo reage antes da cabeça.
Um chute rápido.
Seco.
Acerto as costas dele.
O gemido vem baixo.
— Sou uma slugger. — aviso, me aproximando. — Melhor começar a me respeitar.
— Que medo…
— Eu vou. — paro a centímetros da boca dele, sentindo o perfume cítrico invadir meus sentidos. — Mas eu volto.
Mais perto.
— E vou acabar com essa tua aluna… e qualquer outra que encostar em você.
Ele passa a língua pelos lábios.
Provocando.
— Disso eu não duvido. O prêmio é seu.
— Professor?
A voz corta o momento.
— Diana.
Viro devagar.
Jovem. Bonita. Confiante.
Claro.
Reviro os olhos.
— Ela vai ficar aqui? — a garota pergunta.
Avanço um passo.
— Nem em outra vida.
Ela recua.
Eu saio.
A chuva fina me encontra na calçada.
Não ajuda.
Só piora tudo.
— Dess!
Ele me alcança.
— Tem tomado seus remédios?
Puxo o capuz.
Frio. Cansaço. Confusão.
— Não sei. Eu… esqueço de lembrar. Acho que sim. Por quê?
— Porque eu não quero te perder.
Ele já está voltando.
Como se nada fosse suficiente pra fazê-lo ficar.
— Vou te ligar todas as noites até você lembrar sozinha, idiota!
Reviro os olhos, mas… sorrio.
— O que é um counter puncher, imbecil!?
Ele responde sem nem olhar pra trás:
— Um lutador rápido, técnico… paciente o bastante pra te aguentar.
Pausa.
— E gostoso.
Uma piscadela.
Ridículo.
E funciona.
Caminho até o prédio ainda sorrindo.
Mas o sorriso morre assim que entro.
O ar muda.
Pesado.
Parado.
Errado.
Ela está ali.
— O que faz aqui? — minha voz sai baixa. — Você não é mais bem-vinda, Sweet.
Ela ergue o rosto.
Pálido. Afundado. Quebrado.
— Eu sei… — a voz falha. — Só queria ver a Antoine. Um segundinho.
Dou um passo à frente.
Toco seu rosto.
Frio.
Vazio.
E então eu vejo.
— Não.
Me afasto.
— Eu sei o que você quer.
O olhar dela muda.
Escurece.
— Sabe?
— Falta sangue. — digo, seca. — É isso, né?
Ela desaba.
De joelhos.
— Só uma gota… — implora. — Uma gotinha e elas voltam pra mim…
Meu estômago revira.
Dou um passo atrás.
Outro.
A escada encosta nas minhas costas.
— Amiga… — ela começa a rastejar.
Devagar.
Errado.
— Amiga… só uma gotinha…
Subo um degrau.
O coração disparado.
— Para.
Ela não para.
Vem.
Arrastando.
Sorrindo.
Um chute.
Direto no queixo.
O corpo dela gira no chão.
O impacto ecoa.
Ela geme.
Pisca.
Por um segundo… volta.
Só um segundo.
— Eu tô no inferno… — a voz sai fraca. — Me tira daqui… por favor…
E apaga.
Num piscar de olhos, seu corpo desaparece.
Mas suas palavras — sofridas, cruas, sinceras — permanecem cravadas em mim.
Para sempre.
Temendo pela vida de Antoine e Cassie, deixo as duas, por um tempo, na casa de Doc e Adele, que as acolhem com um amor que chega a doer em mim.
Ver Antoine chorar na despedida parte meu coração em pedaços pequenos demais para serem recolhidos.
— Vai ser por pouco tempo, filha. Eu juro.
— Não vai, mamãe… — ela rebate, já nervosa, esfregando as mãos na cabeça. — Agora a tia Sweet é o monstro… e você vai ter que matar esse monstro. Tudo de novo… tudo de novo… — repete, chorando. — Isso não é justo. Eu odeio meu tio Lu!
Ajoelho-me diante dela e seguro seu rosto.
— Ele não é… e nunca será seu tio. Nunca mais fale com ele. Entendeu?
Mamãe vai precisar lutar, sim. Vou vencer o campeonato… e, com o dinheiro, vamos sair daqui. Pra bem longe. Prometo.
— Mimi e Juju estão chorando, mamãe…
Engulo em seco.
— Elas estão com saudade da mãe. Logo… logo tudo vai ficar bem. Elas vão parar de chorar.
— Tem certeza?
Lembro, com precisão assustadora, de cada passo do meu plano.
— Tenho.
Não sei se é o nervosismo por mais um problema infernal…
ou a saudade do cheiro de Antoine dormindo ao meu lado…
ou a raiva de imaginar Vincenzo rindo com uma garota jovem demais, viva demais, disposta demais…
Talvez seja tudo isso junto.
O fato é que, naquela noite, enquanto servia as mesas da casa noturna, eu simplesmente… parei de lutar contra mim mesma.
Equilibrei a bandeja com garrafas de cerveja… e dancei.
Sem medo. Sem peso.
Por alguns segundos, o caos me esqueceu.
O DJ percebe.
Aumenta o som.
Me chama.
Eu hesito… mas subo no balcão.
E danço.
Como nunca me permitiram dançar no California.
Como sempre quiseram que eu parasse de dançar.
Quando a música termina, o silêncio vem primeiro.
Depois… as palmas.
Sorrio, sem graça, faço uma breve reverência e desço rápido, certa de que acabei de perder o emprego.
— Em uma companhia de dança… de verdade? Eu?
— Sim. E por que não? — diz o homem à minha frente, elegante, seguro. — Você dança muito bem. Por que se esconder aqui? Já estudou dança?
A imagem de Aiden invade minha mente.
O teatro. A música. Nós dois.
— Você está bem?
— Estou… — respondo, ainda meio perdida.
Ele aperta minha mão.
— Você tem talento. E eu sei reconhecer isso de longe.
Me entrega um cartão.
— Pense. Estarei esperando sua resposta. Bom trabalho.
— Obrigada…
Suspiro.
Talvez… só talvez… exista algo além desse inferno.
Talvez eu ainda possa ter uma vida normal.
Talvez.
Doc confirma que o homem é confiável.
Fica feliz por mim.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu comemoro.
De verdade.
— Onde você vai dançar, mamãe!? Eu quero ir! — Antoine diz, pulando ao meu lado.
Abraço minha filha com força.
— Ainda é cedo, filha… ainda é cedo.
Cedo demais.
Cedo demais para comemorar…
quando a guerra mal começou.
Meu último treino com João é cancelado em cima da hora.
Irritada com a ausência dele por conta da lesão, enfaixo punhos e dedos e fico à espera de um substituto qualquer da academia.
O campeonato é amador.
Mas o dinheiro… é real.
E eu preciso dele.
Sentada no tatame, cruzo as mãos na nuca, baixo a cabeça e repito como um mantra:
— Eu vou conseguir. Eu vou conseguir.
— Eu acredito em você.
Levanto o rosto.
E, contra a minha própria vontade… sorrio.
Por segundos.
Levanto num salto rápido.
— Hoje quem manda você vazar sou eu. Meu professor tá chegando. Cadê sua “novinha”?
— Aqui. Morrendo de ciúmes. Na minha frente.
Reviro os olhos.
— Não seja ridículo. O João não faria…
— Faria. — ele corta, com aquele sorriso cafajeste irritante. — Eu pedi. Você não pode lutar sem um mestre te orientando.
— Convencido.
Bato de leve com o corpo no dele e desço do ringue, já irritada de novo.
— Isso não é justo! Eu preciso treinar! O campeonato é amanhã, porra!
— Tá com medo, covarde? — provoca, lá de cima. — Vem me encarar.
Giro nos calcanhares.
Subo de volta.
— Não é medo. É pena. De você.
Chego perto.
Perto demais.
— Tô com tanto ranço que sou capaz de te matar, velho babão.
Ele ri.
E eu… sorrio também.
Idiota.
Por um segundo, queria congelar esse momento.
Só nós dois.
Brincando de brigar.
— O tempo não para, panaca. — ele encosta a luva de leve no meu rosto. — Da próxima vez, vai doer.
— Duvido.
Parto pra cima.
Rápida. Forte. Sem freio.
Ele se fecha, espera.
Eu exagero.
Chuto sua lateral. Golpe proibido.
Outro.
E outro.
Erro.
Um segundo.
É tudo que ele precisa.
O uppercut acerta meu queixo.
Apago.
— Dess! — a voz dele vem longe. — Foi sem querer! Porra, você me irrita! Acorda!
Abro os olhos, lenta.
— Não grita… — rosno, mexendo o maxilar. — Não sou surda… mas posso ter perdido um dente. Covarde.
— Perdão…
— Não sorri assim pra mim. — deixo ele me levantar. — Eu te proíbo.
Ele me ajuda a sentar.
Silêncio curto.
Pesado.
— Se eu te pedir pra não lutar… você aceita?
Solto um riso seco.
— Nunca. Por que eu desistiria agora? Acha que luto mal?
Ele segura minha mão.
Beija.
— Não. Eu só tenho medo de te machucarem. Nossa filha precisa de você.
Encosto nele.
Droga.
Isso ainda funciona.
— E de você também, bastardo.
— Eu sou o pai dela.
— É. Não esqueço.
Ele ajeita minha franja.
Sério demais.
— Tivemos uma filha… muito antes disso tudo. Uma linhagem inteira veio dela. Sangue de anjo… e humano.
Recuo.
— Para. — passo a mão no rosto. — Isso já é demais pra minha cabeça.
Levanto, meio tonta.
Ele me segura.
Me leva até o vestiário.
Braços no pescoço dele.
Olho direto.
— Vai entrar?
Ele não hesita.
— Se você trancar a porta…
— E fazer o quê?
— Te foder.
Reviro os olhos.
— Devasso.
— Te amo.
Droga.
— Eu também.
Beijo.
Longo.
Errado.
Perfeito.
Me afasto primeiro.
— Me põe no chão.
Ele obedece, ainda sem fôlego.
E eu volto ao normal.
Raiva. Defesa. Muro.
— Não vai dar aula pra sua “novinha”?
— Dess… você não precisa desse prêmio. Vem comigo. Na minha casa vocês ficam seguras.
— Por que esse medo?
Silêncio.
— Você conhece minha adversária?
— Dess…
— Fala!
— Ela é uma out-boxer.
Paro.
Abro a torneira.
Jogo água no rosto.
Olho ele pelo espelho.
— Desenvolve.
— Ela vai te cansar. Esperar. E bater na hora certa. Muito mais forte do que eu bati agora.
Respiro fundo.
Seco o rosto.
— Você não acredita em mim?
— Você começou agora! Ela não!
Viro de costas.
Ando até a saída.
— Eu sou uma slugger. — olho por cima do ombro. — Fica a dica.
— Dess! — ele grita. — Não luta!
Continuo andando.
— Me ouve!
Chego na calçada.
E explodo.
— PARABÉNS, VINCENZO! — berro. — AGORA EU TÔ COM MEDO! SATISFEITO!? SE EU PERDER, A CULPA É SUA!
O som alto vibra no meu peito enquanto tento me acalmar.
Não funciona.
Vincenzo se aproxima.
Eu me afasto.
Aqueço sozinha, ignorando sua presença, enquanto o público vibra com a luta anterior. Palmas, gritos, impacto.
Minha vez está chegando.
E eu não faço ideia de quem vou enfrentar.
— Vai se cansar antes da luta. — ele avisa, tentando manter a calma. — Para de se aquecer um pouco.
— Vai pro inferno, Vincenzo. — resmungo, a voz falhando. — Eu tô com medo por sua causa. Eu tava confiante e agora…
— Amor…
— SAI!
Subo no ringue no exato momento em que as luzes se apagam.
O grave explode nos alto-falantes.
Reconheço o hip-hop.
Meu corpo reage antes da minha cabeça.
Mas então eu vejo.
Ela.
Capuz vermelho de seda.
Passos lentos.
Segura.
Dominando o espaço como se já tivesse vencido.
Um corredor se abre para ela.
— Que porra é essa, Vincenzo!? — grito, indignada. — Ela tem música e eu não!?
— Foca na porra da luta, Dess!
Desço do ringue, tomada pela irritação.
— Por que ela tem música e eu não!? Eu sou a porra de uma bailarina! Eu merecia música!
Ele me segura pelos braços.
Forte.
Sério.
E… com medo.
— Ela pagou pela música. Foca na luta ou você vai perder.
— Ela pagou!? — rio, nervosa. — Ela pode e eu não!? Eu, que sou a mãe da sua filha, a mulher que você diz amar, não mereço uma musiquinha!?
— PORRA, DESS! SOBE!
— NÃO GRITA COMIGO!
Volto pro ringue.
Mas não volto inteira.
Começo a dançar.
Provocando.
Descarregando.
Me sabotando.
O público reage.
Eu também.
Até que ela tira o manto.
E tudo para.
Gigante.
Musculosa.
Fria.
Real.
O pensamento vem seco, sem filtro:
Que porra eu tô fazendo aqui?
Aponto pro juiz.
— Ela não tem o mesmo peso que eu. Cancela isso agora!
— Tá com medo, mosquinha? — ela debocha, esbarrando em mim de propósito.
Por um segundo…
Eu vejo Sweet.
Pisco rápido.
A visão some.
— Vai começar ou não?
— Dess… — Vincenzo suplica, já descendo do ringue. — Foca. Foge dos jabs. Foge dos jabs!
Jabs?
Que porra é jab?
O som do público some.
Meu cérebro trava.
— CADÊ O JOÃO!? — grito, me pendurando nas cordas. — ELE NÃO VAI SER MEU CORNER!?
O gongo corta o ar.
Primeiro round.
— Eu sou seu corner! — grita Vincenzo, tentando se controlar. — Agora vai e luta! Você consegue!
Olho pra frente.
Pra ela.
Pra mim.
Pro caos.
Talvez eu consiga.
Talvez eu apanhe.
Mas sair dali…
Não é mais uma opção.
Após quatro rounds, meu corpo já não me pertence.
Olho inchado.
Cabeça latejando.
Braços pesados.
Costas em chamas.
Nunca apanhei tanto.
Ela não é só forte.
Ela é paciente.
E eu… sou previsível.
— ESQUIVA, DESS! ESQUIVA!
— Não grita comigo… — choramingo, sentada no banco.
Vincenzo pressiona gelo contra meu supercílio aberto.
Na nuca.
No rosto.
A dor me mantém acordada.
Com ele ali…
eu não entro em pânico.
— Ela é forte demais… — murmuro. — Não vou conseguir.
Ele se inclina.
Baixo. Firme.
— Você é mais esperta. Faz ela esperar. Cansa ela. Dança, provoca… mas foge do jab. Quando ela quebrar, você termina.
Assinto.
Mesmo sem acreditar.
Oitavo round.
A torcida está com ela.
Óbvio.
Sigo as instruções.
Danço.
Provoco.
Espero.
Os olhos dela mudam.
Irritação.
Ela vem.
Rápida.
Me prende nas cordas.
O juiz apita.
Ela recua.
Mas eu não enxergo direito.
Pulo no centro do ringue, tentando manter distância.
Erro.
Um impacto seco nas costas.
Forte demais.
Ar.
Some.
Ossos estalam.
Chão.
— Golpe baixo! — ouço Vincenzo, distante.
Cuspo sangue.
O juiz começa a contagem.
Um… dois…
Tento me mexer.
Nada.
Antoine.
Se ela estiver vendo isso…
Vai sentir vergonha.
— Me dá a mão… e talvez eu te ajude.
A voz vem rasteira.
Errada.
Viro o rosto, com dificuldade.
Um vulto ao meu lado.
— Vai deixar ela te vencer? — sussurra. — E ficar com o seu treinador?
Meu estômago vira.
— Do que… você tá falando…
— Quem você acha que treinou ela?
Silêncio.
— Dá uma olhada.
Forço o corpo.
Arrasto.
Subo pelas cordas.
O público reage.
Eu só sinto ódio.
— Quem treinou essa vagabunda, Vincenzo!? — grito, quase cega.
— Dess, senta! Você tá sangrando!
— Cretino… — rosno. — Aquela é a Sweet?
— Não! — ele perde a paciência. — Foca em mim!
Mas não dá.
A voz volta.
Mais perto.
Mais clara.
— Reage… ou eu mesmo vou cuidar da sua filha hoje.
Meu sangue congela.
— Ela vai me dar só uma gotinha… lembra?
— NUNCA! — berro, me erguendo. — NINGUÉM TOCA NA MINHA FILHA!
Levanto.
Sem equilíbrio.
Sem visão.
Mas com ódio suficiente pra incendiar o ringue.
Ela sorri.
Ou eu acho que sorri.
Por um segundo…
é Sweet.
— Perdeu, piranha.
Não.
Eu avanço.
Rápida.
Cega.
Violenta.
Os golpes saem antes do pensamento.
Uma sequência brutal.
Rosto.
Rosto.
Rosto.
E então...
Uppercut.
Seco.
Final.
Ela cai.
Pesada.
Imóvel.
Silêncio.
Depois…
explosão.
Monto sobre ela.
Sem ver.
Sem pensar.
— Fica longe da minha filha…
Minhas mãos tremem.
Meu corpo todo treme.
Alguém me puxa.
Vincenzo.
— Dess…?
— No… nay… never… collach…
Nem eu sei o que estou dizendo.
O juiz levanta meu braço.
Nocaute.
Eu ganhei.
Acho.
O mundo gira.
Procuro por Antoine.
Por ar.
Por sentido.
Encontro Vincenzo.
E atrás dele…
Ele.
Sorrindo.
Como se tudo fosse um jogo.
Lúcifer.
Cuspo.
No rosto de Vincenzo.
— Porco… covarde… te odeio…
Ele me segura.
Forte.
Desesperado.
— Dess, volta…
Minha visão escurece.
Sua voz vira eco.
— Durma, Eileen…
A canção.
Aquela maldita canção.
E então…
nada.
— Venci?
— Venceu, amor.
A voz dele chega antes da dor.
Deitada na maca do vestiário, sinto suas mãos cuidadosas nos meus ferimentos.
— Eu não vou te deixar sozinha de novo, Dess. Chega. Agora eu vou cuidar de vocês.
Fecho os olhos.
E, como sempre…
eu acredito.
Mais tarde, ainda dolorida, ainda marcada, subo até a cabine do DJ.
Meu coração erra o ritmo.
— Algum problema, Adessa? — Hunter pergunta, tirando os fones.
— Nenhum… — respondo, sem convicção. — Achei que tinha visto alguém. Alguém que conheci… há muito tempo.
Ele me observa, curioso.
— Estranho.
— Por quê?
— Um cara passou aqui agora há pouco. Pediu uma música… pra você.
Meu estômago aperta.
— Pra mim? Como ele era?
— Alto. Bonito. — ele dá de ombros. — Simpático… mas meio triste.
Respiro fundo.
— E…?
— Pediu pra tocar quando você estivesse distraída lá embaixo.
O mundo inclina.
Aiden.
O nome ecoa antes de eu admitir.
Hunter continua:
— Ele falou uma coisa meio esquisita… disse que “teve permissão pra isso”.
Silêncio.
— Isso faz sentido pra você?
Engulo seco.
— Faz.
Desço.
Sirvo mesas.
Finjo normalidade.
Mas não estou.
O cheiro de sândalo me encontra antes que eu encontre ele.
Suave.
Familiar.
Doloroso.
Quando percebo, o salão já está vazio.
Lá fora, a madrugada me engole.
Caminho até o Chevette.
O vento frio traz o cheiro dele de novo.
Mais forte.
Paro.
— Não me faz mal… — sussurro, imóvel.
Nada.
Só o vento.
Só o silêncio.
Abro a porta.
Ou tento.
A maçaneta trava, como sempre.
E então...
Frio.
Metal.
Encostado no meu rosto.
— É um assalto. Perdeu. Passa tudo.
O tempo trava.
Eu não reajo.
Nem penso.
Só olho.
O corpo dele voa.
Literalmente.
Arremessado como se não pesasse nada.
O ladrão cai, engatinha, desesperado.
Tenta levantar.
Outro impacto invisível o dobra ao meio.
Ele grita.
Corre.
Desaparece na esquina.
Silêncio de novo.
Meu coração dispara.
Mas não é só medo.
É ele.
O cheiro.
Mais perto.
Mais quente.
— Obrigada… — sussurro, quase sorrindo.
Entro no carro.
As mãos tremem.
Mas eu sei.
Eu sei que não estou sozinha.
A voz vem baixa.
Dentro da minha cabeça.
Como antes.
Como sempre.
“Por nada, baby.”
Aplico o dinheiro do prêmio em um RDB enquanto tento vender o apartamento. A ideia é simples: sair daqui. Ir para um lugar onde Sweet nunca nos encontre.
Era o plano.
Até outra tempestade cair sobre nós.
— Grávida!?
Cassie abaixa a cabeça.
— Foi mal, tia… vou dar um jeito. Não quero ser mais um peso.
Abraço ela antes que termine.
— Nunca mais fala isso. Você nunca foi um peso. Nunca. — Seguro seu rosto. — Você é parte da nossa família. E agora… ela cresceu.
Ela tenta sorrir, mas falha.
— Vou ajudar nas despesas.
— Vamos viver um dia de cada vez, Cassie. Só isso.
— Foi a primeira vez… muito azar.
— Não fala assim. Um filho é uma bênção.
As palavras saem, mas doem. Lembranças atravessam minha mente sem pedir licença.
Respiro fundo.
— Quem é o pai?
— Só pode ser o Victor!
— Antoine! — corto, seca. — Conversa de adulto.
— Ela nem é adulta!
— Sou sim!
— Não é! Tu é safada!
— ANTOINE!
Ela faz beicinho.
— Eu sei como se faz filho…
Cassie começa a rir.
Eu erro feio.
— Sabe? Então me explica.
Antoine infla o peito, orgulhosa.
— Eles escorregam por um tubo.
Silêncio.
— Um… tubo? — Cassie perde o controle.
— Da cabeça até a barriga! — Antoine insiste, irritada.
Cassie se joga no tapete, rindo.
Eu devia parar.
Não paro.
— E o bebê? Qual o tamanho?
— Pequenininho. Deus coloca no tubo… depois cresce.
Eu rio. Não devia, mas rio.
— Quem te ensinou isso?
— Meu pai, ué.
Reviro os olhos.
— Claro. Só podia ser ele.
Cassie ri… até parar.
O riso quebra.
Vira choro.
E aí tudo muda.
Ajoelho ao lado dela.
— Tá doendo?
— Não…
— Respira. Devagar.
Seguro suas mãos.
Frio.
E então eu vejo.
Solto.
Recuo.
— Cassie… isso é verdade?
Ela confirma.
Pronto.
Acabou a leveza.
Levo Antoine até o quarto.
— Fica aqui até eu chamar.
— Eu não sou mais criança!
Sorrio, cansada.
— Pra mim, sempre vai ser.
Fecho a porta.
Volto.
Sento na frente de Cassie.
— Onde ele mora?
— Tia, não…
— Você disse não.
Silêncio.
— Eu fui até a casa dele… sabia que ele estava sozinho… — ela desaba. — Dei mole…
O ar pesa.
— Eles são ricos, tia. Poderosos.
— Foda-se.
— Olha o palavrão! — Antoine grita do quarto.
— FEIO É OUVIR CONVERSA! LIGA A TV!
A campainha toca.
Claro que toca.
Sempre toca.
— Espera!
Aponto pra Cassie.
— Não sai daqui.
Abro a porta.
— Não é um bom momento...
Ele entra.
Sem pedir.
— Por que minha filha tá trancada?
— PAI! — Antoine explode, feliz. — OLHA O PALAVRÃO!
Perfeito. Circo armado.
Vincenzo ignora tudo e vai direto até Cassie.
— Você tá bem?
— NÃO! — corto, na frente dele. — Quem resolve isso sou eu.
Cassie ri.
Ótimo. Virou piada.
— Guarda teu “tubo” e vaza.
— Meu quê?
— Some daqui, Vincenzo.
— Somos uma família.
— Agora lembrou?
— Ele precisa saber! — Antoine grita.
Minha cabeça lateja.
— Fica. Quieta.
— O que você ouviu, filha? — ele insiste.
— Nada… foi a Dayse que falou.
Silêncio.
— DAYSE?
Nós dois falamos juntos.
Antoine assusta.
Chora.
Eu afundo no sofá.
Vincenzo distrai ela como se fosse fácil.
Cassie segura minha mão.
— Eu resolvo, tia.
— Não resolve nada. — minha voz sai baixa, mas firme. — Se alguém fizer alguma coisa… sou eu.
— Nós — corrige ele.
Olho.
Cansada demais pra discutir.
— Tá.
Ele pede pizza.
Porque claro.
Sempre pizza no meio do caos.
Vou até o quarto.
Pego a boneca.
Dayse.
Fecho os olhos.
Quase vejo.
Quase entendo.
— A pizza chegou, mamãe!
Antoine.
Sempre na hora errada.
Abro os olhos.
A boneca me encara.
Ou eu imagino.
— Eu volto.
Mas sei que não vou voltar a mesma.
— Isso é verdade?
— Tô comendo.
— Tia, calma…
— Eu tô calma. Só quero terminar essa pizza em paz, sem discutir com esse homem.
— Esse homem é o papai, mamãe.
— E eu já te pedi pra não se meter em conversa de adulto.
— Mas eu tô na mesa!
— Sentada à mesa — rosno. — E quieta.
— Não é justo — Vincenzo intervém. — Ela entende. Quer participar.
— Quer, mas não deve.
Largo os talheres e pego a pizza com a mão.
— Antoine não tem que sair contando tudo!
Ele me encara, atento.
— Então é isso. Você tá assim por causa do assalto.
— EU NÃO TÔ NERVOSA!
Levanto, levo o prato pra cozinha.
Dois passos.
Ele me alcança.
— Agora ele é seu herói? — sussurra, raivoso. — Um demônio de merda vira herói porque te salvou?
Viro na mesma altura.
— Melhor que um mentiroso covarde que treinou amante pra me ferrar!
Ele recua, incrédulo.
— Que porra é essa? Quem eu treinei?
— Ai, ai… — Antoine resmunga com os pratos no colo. — Vou brigar com vocês dois…
Cassie fica quieta.
Eu cubro o riso.
Vincenzo ri também.
E isso me quebra um pouco.
Idiota.
— MENTIRA! EU TE AMO!
— Que lindo… — Cassie murmura.
— Guarda esse teatro — corto. — Esse homem é falso pra cacete.
O sorriso dele morre.
Ele vai pra sala.
— Essa cozinha é claustrofóbica.
— Me dá outra maior.
— Não fala assim com ele — Antoine diz, indo atrás.
— Meu pai não é imbecil. O tio Aiden era.
— Boa — ele ri, puxando ela pro colo. — Sua mãe tem memória seletiva.
Cruzo os braços.
— Não poderia ser diferente. Você vive mexendo nela.
Silêncio.
— Mas você lembra bem de quem não devia — ele dispara.
— Não grita.
— EU NÃO TÔ GRITANDO!
— TÁ SIM! — explodo. — Você mexe na minha cabeça e depois reclama do que sobrou!
— Gente… — Cassie empalidece. — Eu acho que vou...
Ela corre.
Vômito.
Fim da discussão.
Vincenzo passa por mim.
Eu odeio isso.
Ele cuida dela.
Com calma.
Com cuidado.
Como deveria ter feito comigo.
Anos atrás.
— Vai dar tudo certo — Antoine segura minha mão.
E eu quebro.
Choro.
Em silêncio.
— Chega… vou tomar um calmante.
Na cozinha, procuro qualquer coisa que apague o mundo.
— Chá? — ele surge.
— Fica longe.
— Eu não treinei ninguém, Dess.
— E a novinha?
— Não era ela no ringue.
— Então quem era?
Silêncio.
— Com quem você falava lá? — ele insiste.
Engulo o remédio seco.
A água desce rasgando.
— Não quero falar.
— Não precisa. Eu ouvi. — pausa. — E você acreditou nele.
O pingar da torneira ecoa.
Ping.
Ping.
Ping.
— Vou consertar isso — ele diz.
— Para de ser bom comigo.
Ele me puxa.
Forte.
Forte demais.
Eu aperto de volta.
Por um segundo, tudo para.
Quase.
— O tempo não para, Dess — ele sussurra. — Por que ainda fala com ele?
— Eu não falo. Ele apareceu.
Ele se afasta.
Pronto.
Acabou a paz.
— E você sorriu.
— Você tava lá?
— Tenho informantes.
O copo cai.
Estilhaça.
Eu nem sinto o corte.
— EU NÃO FIZ NADA! — grito. — ELE NEM APARECEU! EU SÓ AGRADECI!
— Fala baixo, mamãe…
— Desculpa…
Caio de joelhos.
— Só quero dormir.
— Vou cuidar do seu pé.
— Não precisa.
— Deita.
— Não.
— DEITA! — Antoine ordena.
Obedeço.
Porque, claro, ela manda.
Vincenzo limpa o sangue.
Com cuidado.
Sempre com cuidado.
— Doeu.
— Em mim também.
Silêncio.
— Eu te amo.
— Não parece.
— A gente briga porque importa.
— Isso é importar?
— Você acha que eu te ver com ele é nada?
Solto um riso fraco.
— Você tá ficando humano.
Ele olha.
— Isso é bom?
— Não sei. Você era mais doce.
— Mais idiota.
— Continua sendo.
— Um idiota que te ama.
— Nunca foi me buscar no trabalho.
Erro.
Grande erro.
Ele levanta.
Explode.
— ENTÃO É ISSO!? — ri, sem humor. — Ele te salva e vira melhor que eu!?
— Não foi isso...
— ELE NEM TEM VIDA! — cospe. — E você prefere ele!
O silêncio pesa.
— Me dá as chaves.
Ele procura, nervoso.
— Papai…
Ele para.
Respira.
— Desculpa, filha.
Antoine entrega.
Abraça.
Ele desmorona ali.
No colo dela.
Cassie chora comigo.
Eu fico parada.
Sem saber o que fazer.
— Pra que as chaves? — minha voz sai baixa.
— Da minha casa.
Não me olha.
— Quando precisarem… me chamem.
— E a mamãe? — Antoine pergunta.
Ele finalmente me encara.
E dói.
— Ela já tem quem proteja.
Ele vira.
— Espera!
Corro, mancando.
Seguro ele.
— Seu nariz… você tá sangrando.
— Não é nada.
— Não mente pra mim.
Ele limpa com a camisa.
Cansado.
— Tenho lutado muito.
Pausa.
— Só isso.
— NÃO É! — agarro seu pescoço, a voz falhando — Não se atreva a morrer e me deixar aqui… sozinha.
— Nunca. — ele me pega nos braços, como se eu fosse leve, e me leva de volta ao sofá. Beija minha boca, lento, firme. — Eu nunca vou conseguir te deixar, palhaça.
Sorrio, ainda tonta, e me deito ao lado de Antoine. O gosto dele ainda está na minha boca quando Cassie solta:
— Tia… com todo respeito… vocês deviam resolver esse barraco na cama.
— Quem me dera…
Suspiro.
Distraída, pensando na coreografia da apresentação no Conservatório, esbarro em um cliente ao voltar para o bar.
— Desculpa!
Ele nem olha. Some na penumbra.
— Gente esquisita… — resmungo pro barman, lembrando de outro sorriso torto, outro homem errado. — Duas cervejas e duas tequilas.
— Ok. — Ele prepara os pedidos, mas me encara. — Não vai beber o seu?
— Meu?
Ele aponta pro balcão. Um Sex on the Beach, perfeito, com gelo brilhando sob a luz âmbar.
— Aquele cara pagou pra você. Disse que é o seu favorito.
O estômago revira.
Só três pessoas sabem disso.
Doc… e os outros dois.
Doc não está aqui.
Então…
— Obrigada. Não posso beber trabalhando.
Minha voz sai mais fria do que eu queria. Me afasto.
Isso não pode estar acontecendo de novo.
Olho o salão. Nada. Nenhum sinal de Vincenzo.
Então só sobra uma opção.
Droga.
— Essa é pra você, bailarina! — a voz de Hunter explode nas caixas de som.
As luzes mudam. Gente se afasta. Eu tento fugir, mas ele segura minha bandeja e a deixa sobre a mesa.
E então sinto.
A mão quente.
A outra segurando a minha.
Um cheiro que não devia mais existir.
— Dança comigo? — ele murmura, perto demais. — Eu preciso disso pra partir em paz, baby.
Fecho os olhos.
— Aiden…
— Nossa primeira música nessa vida. Antes de você fugir pra outra. Lembra?
— Aiden, não…
Mas meu corpo já traiu.
A música começa.
E eu danço.
Como antes.
Como sempre.
Como se nada tivesse sido destruído.
Quando a música termina, eu me afasto, ofegante.
— Você precisa ir embora. Não pertence mais a esse mundo.
— Gosto de te ver assim… — ele sorri, triste — Como antes. Quando você ainda era minha.
— Eu sempre fui sua enquanto estive com você. Nunca te traí.
Meu peito aperta.
— Agora vai embora.
— Me deixaram ter esse momento.
— Quem?
— Os Superiores.
Ele olha pro teto. Eu sigo o olhar, mas não vejo nada.
— A morte não é o fim. A gente se encontra de novo… em outra vida.
— Você vai voltar?
— Não. — ele me abraça forte — Não nessa.
Silêncio.
— Me perdoa?
Fecho os olhos.
— Já passou. Vai em paz.
Ele me beija.
Forte. Demorado.
Errado.
— Agora sim… — ele recua — Posso ir.
Dou um passo atrás.
— Duvido que você seja útil algum dia…
Ele ri baixo.
E desaparece.
Sem drama.
Sem luz.
Só… some.
Fico parada.
Sozinha.
Eu espero que seja pra sempre.
O vento frio bate quando saio da boate.
E lá está ele.
Vincenzo.
Encostado na moto.
Me esperando.
Claro que está.
Olho pra cara dele e já sei: viu o suficiente.
— Eu não tive culpa!
— Não vi nada. — ele cruza os braços — Só você se entregando. Bonito. Quase chorei.
— Para com isso!
— Poderia ter evitado.
A culpa me dá um soco.
Eu agarro a camisa dele.
— Ele foi embora. Pra sempre.
— Então agora eu posso dormir tranquilo?
Empurro ele.
— Vai pro inferno!
Entro no carro.
— Dançou bastante, né? — ele provoca.
— NÃO! EU TENHO UM SONHO PRA REALIZAR!
— PARA DE GRITAR!
— FODA-SE! SAI DA FRENTE!
Ele liga a moto… e não sai.
Claro que não.
— O que você quer?
— Nada. — ele dá de ombros — Só garantir que você chegue viva.
— Antoine e Cassie estão sozinhas!
— Estavam.
Ele acelera.
Vai embora.
Sem olhar pra trás.
— Idiota… — murmuro.
A neblina engole ele.
E eu fico ali, com o volante nas mãos, cansada demais pra brigar.
— Eu só queria você… — sussurro — Só queria paz.
Mas pedir paz, na minha vida, é tipo pedir silêncio no inferno.
Saio do Conservatório de Dança com a certeza de que uma das vagas é minha. Foi a melhor apresentação da minha vida.
Ainda sorrindo, leio a mensagem de Vincenzo:
"Corre pra casa. Temos problemas."
O sorriso morre.
— O que foi? — digito, andando rápido até o carro.
Visualizado.
Sem resposta.
Ótimo. Porque claro que não podia ser algo simples.
Dirijo acima do limite, ignorando sinais, buzinas, qualquer noção de prudência. Meu coração chega antes de mim.
Na garagem, minhas mãos tremem tanto que o controle do portão escapa.
— Merda!
Me inclino, quase enfiando a cabeça debaixo do banco.
— Vai… vai…
Encontro.
— Yes!
O portão sobe. Devagar demais.
Acelero antes mesmo de abrir por completo.
O impacto vem seco.
Um baque surdo.
Errado.
Muito errado.
— Deus… não…
Saio do carro cambaleando.
Não olho de imediato.
Não quero ver.
Mas o som… um gemido baixo… me obriga.
— Ei… — me aproximo, o corpo gelando — Qual o seu nome? Você tá…?
Viro o corpo.
E o mundo quebra.
— SWEET!?
Ela está ensanguentada. Pálida. Quebrada.
— Meu Deus… o que você tá fazendo aqui!?
— Dess…? — a voz sai em pedaços.
— VINCENZO! — grito — ME AJUDA!
Ele surge ao meu lado. Olha. E não esconde o ódio.
— Você a encontrou…
— Me ajuda, porra!
Sweet tosse. Sangue escorre pelo canto da boca.
— Acaba com isso… — ela sussurra — Antes que eu machuque sua filha…
Congelo.
— Me liberta… — ela implora — Daquele homem…
— De quem, Sweet!?
— Ela tentou machucar a Antoine — rosna Vincenzo — Só não conseguiu porque eu cheguei.
O chão some sob meus pés.
— Por quê…? — minha voz falha — Por quê, Sweet?
Ela tenta rir. Falha.
— Antes que eu perca o controle…
Um espasmo.
Mais sangue.
Tento erguê-la. Ela grita.
Então eu vejo.
O punhal cravado no abdômen.
— Meu Deus… o que você fez!?
— Termina… — ela pede.
Minha mão vai até a lâmina.
— Vai piorar — corta Vincenzo.
— Perdão… — ela chora — Eu sempre te amei… nunca quis ele… era você…
— Cala a boca! — pressiono a ferida com o moletom — Cala a boca!
Um carro entra na garagem.
Luzes.
Tempo acabando.
— E agora!? — olho pra Vincenzo
— A gente não pode ser visto.
Ele a pega nos braços.
Subimos correndo.
— Antoine não pode ver isso!
— Não vai.
Eu espero que ele esteja certo.
Cassie abre a porta.
Olhos arregalados.
— Ela não… tia…
— Pro quarto! Agora! E não deixa Antoine sair!
— Sim!
Os protestos começam do outro lado da porta.
Sweet é colocada no chão da sala.
Fria.
Fraca.
Quase indo.
— Você vai ficar bem… — minto, acariciando seu rosto.
Ela segura minha mão.
— Você é um anjo…
— Cala a boca antes que eu te dê um tapa.
Ela sorri.
Triste.
— Vou ver minhas filhas?
E eu quebro.
Desabo contra a parede.
Choro sem controle.
Então...
— ME TIRA DAQUI! — Antoine grita — EU PRECISO FALAR COM A TIA SWEET!
Meu coração para.
Corro.
A porta abre.
— Tenho uma surpresa — ela cochicha, beijando meu rosto.
— Não…
Tarde demais.
Ela já está na sala.
Vincenzo não a impede.
Ninguém impede.
— Tia… adivinha quem veio te ver?
A luz explode.
Branca.
Cega.
Cassie cai.
Eu agarro Antoine.
— Elas estavam com saudade — ela sorri.
E então eu vejo.
Mimi.
Juju.
Vivas.
Não.
Melhor que isso.
Em paz.
Elas caminham até Sweet.
Ela chora como nunca.
— Mãe… — Mimi deita ao lado dela — Você vem com a gente.
Juju segura sua mão.
O punhal sai.
Sem dor.
Sem sangue.
Antoine sopra.
E o ferimento fecha.
Silêncio absoluto.
— Bom trabalho… — uma voz rasteira corta o momento.
Meu estômago revira.
Lúcifer.
Agachado.
Esperando.
— Agora eu levo.
— Eu te repreendo! — Vincenzo avança — Em nome do Criador...
— Você não pode. — Lúcifer sorri — Você tá sujo também.
— Talvez… — Vincenzo aponta — Mas ele não.
O ar muda.
Pesado.
Antoine segura a mão dele.
— Meu tio.
E ele aparece.
Miguel.
A presença dele é… impossível de ignorar.
— Ela é minha — rosna Lúcifer — Ela se matou!
— Deus julga intenção. — Miguel é calmo — Ela só queria ver as filhas.
Silêncio.
— Você a quebrou — ele continua — Ela salvou uma vida.
Ele a toma nos braços.
— Ela vem comigo.
— Perdeu — diz, antes de desaparecer com as meninas.
Lúcifer me encara.
Fogo puro.
— Isso não acabou.
— Nem começou direito — rosno.
Ele some.
Como sempre.
— Quero dormir… — murmura Antoine.
— Ela gastou muita energia — diz Vincenzo.
— Eu sei.
Cuido dela.
Banho.
Cama.
Fico até ela dormir.
Cassie apaga junto.
Volto pra sala.
Vincenzo limpa o chão.
Sangue.
Restos.
Como se nada tivesse acontecido.
Me ajoelho ao lado dele.
Beijo sua bochecha.
— Fez tudo sozinho?
— Não tinha tempo. O corpo precisava sumir.
Engulo seco.
— Quem levou?
Ele me encara.
— Quer mesmo saber?
— Não.
Chega.
Já deu.
— Deita comigo?
Ele sorri.
Cansado.
— Sempre.
Dou a mão.
Ele levanta.
— O que você quis dizer com “vou guardar o melhor pro fim”?
— Nada.
Mentira óbvia.
— Sei… — ele suspira — Vou fingir que acredito.
No chão do quarto de Antoine, deitados juntos, exaustos…
A gente dorme.
Pela primeira vez em muito tempo…
em paz.
No meu dia de folga, Vincenzo nos leva à praia.
O sol é suave. O vento, leve. Por alguns minutos, a vida parece… normal.
Eu e Antoine construímos um castelo de areia. Torres tortas, muralhas frágeis.
Uma onda vem.
Leva tudo.
— A gente faz outro, mamãe. — ela sorri, como se fosse simples assim.
Castelos de areia sempre voltam.
Sonhos… nem sempre.
Vincenzo sorri daquele jeito dele. Idiota. Lindo.
E, por um segundo ridículo, eu acredito que a felicidade chegou.
— Tô com dor na cabeça, papai.
O sorriso morre.
— Ela tá febril. — ele toca a testa dela — Vamos embora.
No colo dele, Antoine ainda fala sem parar:
— Papai devia morar com a gente. Ele já fica lá o tempo todo mesmo.
Eu rio, carregando o mundo nas mãos: bolsas, cadeiras, barraca.
— Papai vende a moto — ela continua — Dá o dinheiro pra mamãe e a gente vai morar na casa dele!
— Ótima ideia. — diz Vincenzo, abrindo o porta-malas.
Ele me puxa de leve. Um selinho roubado.
— Quer morar comigo?
Desvio.
— Quero um beijo de verdade.
Erro.
Grande erro.
Beijo ele como se o mundo não estivesse prestes a acabar de novo.
— Salgado… — murmuro — Gosto disso.
— Tô vendo tudo! — grita Antoine.
A gente se afasta como dois adolescentes idiotas.
— Aceita a poposta do papai!
— Proposta, filha. E por quê?
— Porque a Dayse disse que a gente vai ter que fugir.
Silêncio.
— ANTOINE!
— É coisa de criança — diz Vincenzo, baixo, tentando me acalmar.
Mas não é.
Nunca é.
Ele beija minha bochecha antes de subir na moto.
— Te encontro lá?
— Com certeza.
Eu sorrio.
Porque sou burra.
— Mamãe! O celular!
Cassie.
Meu estômago despenca.
Atendo.
— Tia… me ajuda…
Pronto.
Acabou a paz.
Invado a festa arrastando Cassie comigo.
Erro número um.
Levar Antoine.
Erro número dois.
Eu não penso.
Nunca penso.
— OLHA O QUE O SEU FILHO FEZ! — minha voz corta o salão.
Roupas caras.
Olhares nojentos.
Gente que nunca ouviu um “não” na vida.
Aponto pra Cassie.
— Ela tava grávida! Do seu neto!
Silêncio pesado.
— Uma gravidez forçada.
O menino se esconde atrás da mãe.
Covarde.
— SAI DAÍ! — avanço — Gosta de bater em mulher?
— Segurança! — alguém grita.
Um deles vem.
Erro dele.
Meu punho acerta a garganta.
Ele cai.
— NÃO ENCOSTA EM MIM!
Protejo Antoine e Cassie atrás de mim.
— Se chegar perto dela de novo, eu acabo com você!
Viro pra sair.
Então vem a pergunta.
Fria.
Podre.
— A criança negra é sua filha biológica?
O mundo para.
Viro devagar.
— Racista.
— Responda.
Eu travo.
Erro.
— É… sim.
Mentira fraca.
Ele vê.
Claro que vê.
— Quero os papéis de adoção amanhã.
Meu coração dispara.
Então...
— Não é o que aquele cavalheiro disse…
Eu já sei.
Nem preciso olhar.
Mas olho.
E lá está ele.
— Você de novo… — sussurro.
Lúcifer sorri.
Como sempre.
Como um câncer elegante.
— O juiz quer os papéis… lembra onde deixou?
Eu não consigo me mexer.
Ele abre os braços.
— Me dá a menina. Eu cuido dela.
— CORRE, MAMÃE!
O ar some.
Claustrofobia.
Pânico puro.
Cassie me empurra pra fora.
Antoine chora agarrada a mim.
Eu vou cair.
Eu sei que vou...
BUZINA.
Forte.
Violenta.
Vincenzo.
Ele salta de uma Kombi ridícula e joga água em Lúcifer.
— Água benta? — ele ri — Previsível.
— ENTRA!
Eu entro.
Sem pensar.
A Kombi arranca.
Atrás, o juiz grita:
— EU VOU TE ENCONTRAR!
Claro que vai.
Porque nada na minha vida é simples.
Na estrada, o silêncio pesa.
Até que eu estrago tudo.
— Por que não chegou antes?
Ele explode.
— POR QUE VOCÊ NUNCA PENSA, DESS!?
Silêncio.
Ele tá certo.
Droga.
— Calma, papai… — Antoine murmura.
Ele respira.
— Desculpa, filha.
Olha pra mim pelo retrovisor.
— Você não vai perder nossa filha.
Eu queria acreditar.
— Tô com medo.
— Eu sei.
Pausa.
— Mas a gente tá junto.
E isso… às vezes basta.
— Pra onde vamos?
— Pra onde ninguém encosta na gente.
— PRA CASA DE PRAIA!!! — Antoine vibra.
Claro.
A fantasia continua.
— De onde veio essa Kombi horrível?
— Vendi a moto. Comprei ela… e um vestido.
Eu viro devagar.
— Vestido?
Ele para no acostamento.
Olha direto pra mim.
Calmo demais.
— Noivas usam vestido. Não usam?
Silêncio.
Eu travo.
Cassie e Antoine surtam atrás.
— ELES VÃO CASAR!!!
Eu rio.
Claro que eu rio.
Porque é isso que eu faço quando tô prestes a desmoronar.
Mas por dentro…
Eu já sinto.
A onda vindo.
E dessa vez…
não é um castelo de areia que vai cair.
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