CAPÍTULO 28 - CONFRONTO
Ainda acordo à noite tendo pesadelos. Vejo Antoine sendo levada por Lúcifer ao lado do juiz. Levanto apavorada e corro até o quarto, onde ela dorme tranquila, enroscada em Vincenzo.
Mesmo com outros quartos na casa, ele insiste em dormir com ela. Medo.
O mesmo medo que me impede de fazer o que eu realmente quero.
Adoraria dormir ao lado dele.
Mentira.
Eu queria mesmo era transar com ele… e depois dormir.
Mas eu tenho medo.
Medo de estragar tudo. Medo de ser expulsa da vida dele e ter que voltar pro meu apartamento.
Tenho dormido com Cassie, que se autointitula, com orgulho, uma “empata foda”.
— Tia, isso é patético. Dá pra cortar o clima entre vocês com uma faca e vocês ficam aí, perdendo tempo?
— Não é porque você já transou que entende da vida, ok?
Ela abaixa o olhar, magoada.
— Eu não perdi a virgindade com alguém que amava. Daria tudo pra voltar no tempo e consertar o que fiz.
Droga.
— Perdão, Cassie. — puxo ela pra mim, beijando sua bochecha. — Eu fui rude. Eu sei que foi difícil… e talvez você nunca esqueça. Mas vai aparecer alguém decente na sua vida. Alguém que, pelo menos, amenize isso.
Ela encara o mar, os olhos marejados.
— Não, tia. Não vai. Eu não quero mais saber de homem.
Solto uma gargalhada. Automática. Errada.
Vincenzo olha na nossa direção por um segundo, sorrindo.
Meu estômago vira.
— Tá vendo? — Cassie cutuca, animada. — Ele tá doidinho por você. Vai lá.
Ela se cala de repente.
Tarde demais.
— Nem parece que você já foi...
— Garota de programa? — dou de ombros. — Às vezes eu até esqueço.
A brisa traz o perfume cítrico dele até mim.
Ele corre com Antoine, ri, joga água, vive.
E eu fico aqui… pensando no quanto fui estúpida.
Sentada na canga, escondo meu corpo sob o vestido de malha e renda que ele me deu.
Mais um presente.
Ele pensou em tudo.
Até na porcaria da Kombi caber todo mundo.
— No que você tá pensando, tia?
— Na Kombi. Ele quis um carro onde coubesse a família inteira.
Cassie sorri.
— Eu amei. Tem um estilo meio… vintage. E o som é irado.
Hesita por um segundo.
— Será que ele me considera da família?
— Óbvio que considera.
— Considero mesmo.
A voz dele surge perto demais.
Vincenzo se agacha na nossa frente e sacode a cabeça, molhando a gente com água salgada.
— Obrigado — diz, piscando pra mim antes de olhar pra Cassie. — Você é da família, Cassie. Sempre foi.
— Como você…?
— Ele lê pensamentos. Péssimo hábito.
Ele senta ao meu lado, encostando o corpo molhado no meu.
— Melhor do que o seu. Sair tocando nos outros e invadindo memória?
— Verdade — concorda Antoine, surgindo entre a gente e nos empurrando com o corpinho cheio de areia. — Muito feio isso, mamãe.
Ela ri.
— Eu prefiro ouvir. A Dayse nem precisa de boca pra falar comigo.
Meu corpo trava.
Levanto num impulso, contando até dez antes de surtar.
— Filha… você ainda tá ouvindo essa boneca?
— Tô. Ela é minha amiga. Minha terceira melhor amiga.
Sorri.
— A primeira é você. A segunda é a Cassie.
— E eu? — Vincenzo finge indignação.
— Você é o segundo, papai. A Cassie é a terceira. A Dayse fica em quarto.
— Fui rebaixada — resmunga Cassie.
— Vem — sussurra Vincenzo no meu ouvido. — Vem se acalmar. Depois a gente resolve isso.
— Tá frio.
— Não tá.
— Vai, tia! — Cassie incentiva, segurando Antoine. — Pode ir.
— Eu quero ir também!
— Você fica — diz Cassie, cochichando algo.
Antoine arregala os olhos e começa a rir.
— Ahhh… entendi! Vocês vão namorar!
Reviro os olhos.
— Patético.
— Patético é entrar no mar vestida. Tira isso.
— Não se atreve...
Tarde demais.
Ele arranca o vestido pela minha cabeça e se afasta, me analisando.
— Uau…
E então ri. Alto. E sai correndo pro mar.
— Vem logo!
Cassie gargalha.
— Ele não pode sair daí agora, tia!
— Por quê!?
— Sério? — ela gesticula, insinuando.
Do mar, ele grita:
— Exatamente! Quer que eu vá aí te buscar assim!?
— NÃO!
Caminho até a água, morrendo de vergonha.
— Eu tô indo. Fica aí.
Mergulho.
Quando volto à superfície, ele ainda tá me olhando.
Sem disfarçar.
— Não olha muito… eu fico sem graça.
— Você tem sorte de não estarmos sozinhos.
— Por quê?
O sorriso dele muda.
— Porque eu já passei do meu limite faz tempo.
Mergulho de novo.
Quando volto, encaro ele.
— Eu também.
À noite, Vincenzo nos leva para conhecer a cidade.
Cassandra esquece a promessa em menos de cinco minutos e já está flertando com um italiano qualquer. No colo de Vincenzo, Antoine a chama de “safada”.
Nós rimos.
Rimos dos ciúmes dela… e do fato de estarmos pensando exatamente na mesma coisa.
Um jeito de ficarmos sozinhos.
— Hoje à noite — ele sussurra no meu ouvido.
Meu corpo responde antes da minha cabeça.
Excitada, me afasto e corro até o chafariz da praça.
E então…
Uma fisgada no peito.
Forte.
Paro, apoiando as mãos na pedra fria.
— O que foi? — Vincenzo já está atrás de mim. — Tá passando mal?
— Não… — levo a mão ao peito. — É só… uma lembrança estranha.
— Olha pra mim.
Ele diz baixo.
Calmo.
— Olha pra mim.
Eu olho.
Mas não estou totalmente ali.
— Não vai embora, Dess. Luta. Fica comigo. É comigo que você quer ficar.
As palavras dele me atravessam.
— Acho que sim… — murmuro, perdida. — Por que parece que eu já vivi isso?
— Porque já viveu — diz Antoine, simples.
Meu estômago revira.
— A mamãe esquece de tudo, né?
Silêncio.
— Sim — responde Vincenzo, sem tirar os olhos de mim. — Volta pro presente, Dess. Eu preciso de você aqui. Agora.
Respiro fundo.
— Tá… — passo a mão no rosto. — Eu não trouxe os remédios. Ficaram no apartamento.
— Você não precisa deles.
A firmeza na voz dele me incomoda.
— Esse corpo é seu. É a sua vez de viver.
— Isso aí! — vibra Antoine.
E, pela primeira vez…
Eu sinto medo.
Deles dois.
Juntos.
Como se compartilhassem algo que eu não alcanço.
— É a sua música, mamãe! — Antoine grita, me puxando de volta. — Você dançou ela no campeonato!
— Na audição, filha — corrijo, já sem energia. — No Conservatório… onde eu provavelmente nunca mais vou pisar.
Olho para o chão.
— Não antes de resolver a adoção.
— Ei — Vincenzo se agacha, coloca Antoine no chão e segura meu rosto. — Não desanima. A gente vai resolver isso. Juntos.
— Vamos… — respondo, sem convicção.
Porque na minha cabeça só existe uma pergunta:
Como eu vou provar que ela é minha… sem chamar a atenção do homem que quer tirá-la de mim?
Forço um sorriso.
— Vamos sim.
— Dança, mãe!
Antoine me puxa.
Eu me ajoelho e a abraço.
— Aqui não, filha. Em casa, a gente dança. Tá?
— Promete?
— Prometo.
Ela hesita.
E então…
— Promete que não vai deixar eles me levarem?
Meu corpo congela.
— Eles quem?
— Os homens maus… — a voz dela treme. — A Dayse falou que eles vão me levar… pra uma casa feia e fria.
O mundo some por um segundo.
Só fica o som do meu coração.
Forte.
Pesado.
Violento.
Aperto ela contra mim.
— Não vou deixar. Nunca.
Silêncio.
— Essa Dayse morre hoje — diz Vincenzo, ao meu lado.
Eu nem penso.
— Hoje.
Sem falta.
Após a segunda garrafa de vinho, leve como uma pluma, aceito o desafio de Cassie ao redor da fogueira.
Ela já está tão alterada quanto eu.
— Ensina o tio a dançar como você dançou ou paga prenda!
— Eu topo!
— Woohoo! — vibra Antoine, radiante. — Dança, pai! Minha mãe é uma professora simplesmente esplêndida!
— “Simplesmente esplêndida”? — arqueio a sobrancelha. — De onde você tirou isso?
— De um filme de terror e amor!
— Série da Netflix — corrijo, rindo. — Onde vivos e mortos convivem no mesmo espaço e tempo… te lembra alguma coisa?
Vincenzo revira os olhos.
— Não faço ideia do que você tá falando.
Caio na gargalhada.
E danço.
Como na audição.
Uma música leve, dessas que mentem bonito, prometendo que a vida vai dar certo.
Tropeço numa pedra.
Quase vou direto pra fogueira.
Mas ele me segura.
Forte.
As mãos firmes na minha cintura.
— Me ensina?
— Agora vai! — grita Cassie.
Aponto a garrafa na direção dela.
— Mocinha, já deu. Para de beber.
— Certamente, chefe — debocha, agarrada ao italiano.
Lanço um olhar afiado pro garoto.
— Fica longe dela. Antes de qualquer coisa, eu preciso con… conver… — fecho os olhos, irritada comigo mesma. — CONVERSAR com você!
Ele levanta as mãos, rendido.
— Não bebo álcool, senhora.
— Senhora!? — rio alto, quase dobrando. — Caramba… faz tempo que não me tratam assim. Ganhou um ponto. Mas não abusa.
Algo nele me incomoda.
Ou talvez seja só o vinho falando mais alto.
Volto minha atenção pra coisa realmente perigosa:
Vincenzo.
As mãos dele ainda na minha cintura.
Quentes.
Firmes.
O calor da fogueira mistura com o calor do corpo dele.
Quando percebo, já estou guiando seus movimentos.
Nossos corpos colados.
Uma energia absurda, pulsando entre nós.
Antoine observa.
Atenta.
Ciumenta.
E isso basta.
Paro.
— Não vai rolar. Não agora… — murmuro. — Perdão.
Ele entende.
Sempre entende.
— Mais tarde. Na Kombi.
A voz dele baixa.
Rente ao meu ouvido.
Perigo puro.
Ele pega Antoine no colo e entra, levando-a pra dormir.
Fico na areia.
O céu limpo.
Estrelas demais.
Um gole de vinho.
E então eu grito, sem filtro nenhum:
— DESISTAM DE TOMAR ANTOINE DE MIM! ELA É MINHA!
Apago ali mesmo.
Na areia.
Quando acordo, sinto um beijo na bochecha.
— Ela dormiu. Quer me ensinar a dançar?
— Se eu conseguir ficar em pé…
Ele me puxa.
E pronto.
Colada nele.
— Tô tonta.
— Bebeu todas. Queria o quê?
— Não briga comigo…
— Não vou.
Ele beija meu rosto.
Devagar.
Como quem sabe exatamente o que tá fazendo.
— Mas se você não me ensinar agora… eu te levo pra Kombi e resolvo isso de outro jeito.
— Calma aí, bonitão… — procuro meu celular, perdida.
Ele já está com ele na mão.
— Esse?
— Esse! — arranco dele.
— Foi seu marido que te deu?
Meu corpo endurece na hora.
— Eu não tenho marido. Nunca tive. Aquilo foi um pesadelo.
Procuro a música no Spotify, tentando focar.
Difícil.
O nariz dele roça meu pescoço.
— Se continuar assim, não vou conseguir te ensinar nada, idiota.
— Não me importo. Quero você.
— ACHEI! — grito no ouvido dele.
Ele faz uma careta.
Eu gargalho.
— Segura firme na minha cintura. Agora eu sou sua professora… Mr. Counter Puncher.
Ele sorri.
Aquele sorriso.
Perigoso.
— Quem diria que Adessa Love ficaria sem graça diante de um homem?
— Cala a boca e me segue.
Envolvo meus braços no pescoço dele, roçando meus lábios em sua pele quente. As mãos dele deslizam pelas minhas costas, me puxando pra perto.
— Você precisa me acompanhar, mocinho…
— Não consigo — ele ri baixo. — Não tenho o seu gingado.
— Gingado? — gargalho, guiando seus movimentos. — Presta atenção…
Nossos corpos encontram um ritmo.
Lento.
Quente.
O tipo de proximidade que não deixa espaço pra pensamento.
— Você anda gastando demais comigo… com a gente — murmuro, de repente, quebrando o clima.
— Com quem mais eu gastaria? Vocês são minha família.
Piso de leve no pé dele.
— Errou de novo.
Ele sorri.
E dessa vez… aprende.
A música desacelera.
O mundo junto.
Minha boca encontra a dele, mas ele interrompe, me segurando com firmeza.
— Fim da aula. Eu não aguento mais.
E eu sei exatamente o que ele quer dizer.
Ele me puxa pela mão até a Kombi.
Abre a porta.
E me joga, de leve, contra o banco.
Caio rindo… mas paro.
O interior iluminado.
Luzes suaves, quase íntimas.
Um espaço pequeno… mas preparado.
Pensado.
Pra nós.
Ele fica parado na entrada, me observando.
— Não gostou?
Eu me aproximo.
Puxo ele pela camisa.
— Nunca mais fala do passado.
Beijo ele.
Devagar.
Sentindo.
— Isso aqui é perfeito.
Ele corresponde, mas com calma.
Devagar demais.
— Eu esperei muito por isso — diz ele.
Reviro os olhos.
— Então para de esperar e vem logo.
O sorriso dele muda.
Fica mais sério.
Mais intenso.
Ele se aproxima.
Sem pressa.
Como se quisesse memorizar cada detalhe.
E, pela primeira vez…
Eu não fujo.
Me entrego.
— Aquela mulher… — ele começa.
— Morreu — respondo, simples.
Seguro o rosto dele.
— Só ficou o que sente por você.
O resto se dissolve.
Sem pressa.
Sem pressa nenhuma.
O toque dele é diferente agora.
Não é urgência.
É escolha.
É presença.
E isso mexe comigo de um jeito perigoso.
Quando hesito, ele para.
Só me olha.
Como se estivesse vendo além.
— O que foi?
— Eu mudei…
Ele sorri.
De verdade.
— Ainda bem.
Fecho os olhos por um segundo.
E deixo acontecer.
Sem medo.
Sem fugir.
Só… ficando.
O mundo lá fora desaparece.
Fica só o som da chuva fina.
E nós dois.
Finalmente no mesmo tempo.
Depois…
silêncio.
Respiração ainda descompassada.
Ele encosta a testa na minha.
— Eu devia ter esperado…
Sorrio.
Cansada.
Leve.
— Não precisava.
Passo a mão no rosto dele.
— Foi diferente.
Ele me encara.
— Diferente como?
— Melhor.
Uma pausa.
— O amor muda tudo.
Ele sustenta meu olhar.
— Muda?
— Muda.
Envoltos pelo silêncio da noite, ouvimos apenas nossos corações batendo no mesmo ritmo.
Suados, trocamos carícias suaves.
Tranquilas.
Diferentes de tudo que já vivemos.
Nos olhamos.
E, pela primeira vez, eu não vejo apenas o homem.
Vejo o pai da minha filha.
O anjo que caiu… por mim.
E entendo, sem medo, que o meu destino está ligado ao dele.
Um beijo leve.
Quase inocente.
E então...
— TIA! CORRE!
O grito de Cassandra rasga a noite.
Meu corpo gela.
— Meu Deus…
— Antoine! — Vincenzo já sabe.
Ele se afasta num movimento brusco, procurando as roupas, o olhar em pânico.
Faço o mesmo.
Minhas mãos tremem.
— NÃO FOI MINHA CULPA! NÃO FOI MINHA CULPA! — Cassandra repete, fora de si.
Corremos.
— O QUE HOUVE!? CADÊ A ANTOINE!?
Chuto a porta do quarto.
E o mundo para.
Antoine está deitada.
Imóvel.
Rígida.
Os olhos… virados.
Um branco vazio que não pertence a uma criança.
— Filha… — minha voz falha.
Sobre o corpo dela…
A boneca.
Dayse.
Imóvel.
Como se estivesse… esperando.
— OLHA PRA MIM! VOLTA PRA MIM! — seguro o rosto dela, desesperada, batendo de leve, depois com força.
Nada.
Vincenzo a arranca da cama e a prende contra o peito.
Senta no chão.
Começa a orar em latim, a voz firme… mas carregada de urgência.
Eu não entendo nada.
Só sei que não está funcionando.
— Ela começou a falar com outra voz! — Cassandra chora. — Eu não tive culpa!
Perco o controle.
Avanço.
— POR QUE DEIXARAM ELA COM ESSA PORCARIA!?
Minha mão acerta o rosto dela antes que eu pense.
O som ecoa.
O garoto segura Cassandra, protegendo.
Me encara.
Calmo demais.
Errado demais.
— Não foi culpa dela — diz ele. — Foi minha.
Algo no jeito dele… me incomoda.
— Eu duvidei — continua. — Mas a boneca falou.
Silêncio.
Pesado.
— O quê… — minha voz sai baixa, perigosa — …essa coisa falou?
Cassandra mal consegue respirar.
— Que… vai tirar Antoine de você.
Algo dentro de mim quebra.
— NUNCA.
Arranco a boneca da cama.
Os cabelos sintéticos se enrolam nos meus dedos.
— Isso acaba agora.
Vincenzo se levanta, Antoine ainda desacordada em seus braços.
Saímos.
A fogueira ainda arde do lado de fora.
Sem pensar...
Eu lanço a boneca nas chamas.
O fogo reage.
Alto.
Violento.
Um grito atravessa o ar.
Não humano.
Antoine se contorce.
E então...
Abre os olhos.
Ofegante.
Viva.
A fumaça sobe densa, se moldando… ganhando forma.
Grande demais.
Errada demais.
Uma presença que não deveria existir.
Ela avança.
E, antes que qualquer um de nós reaja...
Antoine se ergue nos braços de Vincenzo.
Os olhos ainda brilhando de algo que não é só dela.
E diz, firme:
— Vai embora.
Um segundo de silêncio.
— Eu não gosto mais de você.
O que aconteceu depois… eu ainda não consigo explicar.
Em questão de dias, fomos da euforia ao completo esgotamento.
Vincenzo se culpa.
Não diz com todas as letras, mas eu vejo.
Ele prometeu que aquela casa seria segura.
O único lugar onde o Mal não poderia entrar.
E o Mal entrou.
E levou com ele algo pior que a paz.
Levou a confiança dele.
Desde aquela noite, Vincenzo mudou.
Menos presente.
Mais calado.
Mais distante.
Como se estivesse sempre tentando encontrar… onde falhou.
“Por mais abençoada que seja a casa, são os moradores que dão brechas ao Mal.”
Repito isso por dias.
Obcecada.
Até decidir encontrar a brecha.
— Por que não contou antes, Cassie?
Minha voz não é agressiva.
Mas pesa.
— Eu… fiquei com medo, tia…
— Medo de quê?
Silêncio.
— De ser expulsa da família…
Ela abaixa a cabeça.
Quebrada.
— Eu nunca faria nada contra a Antoine. Nunca. Eu a amo… como se fosse minha irmã.
Vincenzo estende a mão sobre a mesa.
Segura a dela.
Firme.
— Eu sei, meu anjo. Você daria a vida por ela.
— Daria… — a voz dela falha.
Ela seca as lágrimas com o pano de prato.
— Eu só… não imaginei que aquele idiota fosse…
— Um deles? — Antoine completa.
Natural.
Como se estivesse falando do tempo.
— Eu não gostei dele assim que vi ele. — resmunga, revirando os olhos.
— “Assim que o vi”, filha — corrijo, automática.
Ela nem liga.
Está me olhando.
Séria demais.
— Você também não gostou, mãe? Então por que deixou ele entrar?
Meu sorriso morre na hora.
Vincenzo solta o ar, pesado.
As mãozinhas dela seguram meu rosto.
— Responde, mãe.
Engulo seco.
— Não, filha… — desvio o olhar. — Eu não percebi. Eu deveria ter percebido. Eu deveria ter te protegido.
— Não foi você. Fui eu — diz Vincenzo, baixo.
— Eu estava bêbada — corto, amarga. — Eu deveria ter sentido. Bastava um toque.
— Fui eu — insiste Cassandra, a voz quebrando de novo. — Eu deixei ele entrar.
Silêncio.
Pesado.
— Ele disse que conhecia o pai do Victor… — ela ri, sem humor. — Um cara vindo da Itália… justo ele… conhecendo o pai daquele monstro.
Troco um olhar rápido com Vincenzo.
A resposta está ali.
Nos dois.
A gente falhou.
Enquanto isso…
Antoine continua comendo.
Tranquila.
Como se nada pudesse tocá-la.
Eu invejo isso.
Eu odeio isso.
Eu odeio domingos.
E odeio ainda mais o jeito que Vincenzo evita olhar pra mim.
Ele me culpa?
Ele nega com um leve movimento de cabeça.
Como se tivesse ouvido.
— Tia?
— Oi?
— Você não percebeu?
— O quê?
— A tatuagem — diz Vincenzo. — No pescoço.
— E daí?
— Uma cruz invertida.
O silêncio volta.
Denso.
— Ele estava de blusa! — explodo. — A gola cobria tudo!
— Ela viu — Antoine murmura no meu ouvido. — Porque ele tirou a blusa e ficou se esfregando nela.
— EU NÃO ESTAVA ME ESFREGANDO! — Cassie rebate, indignada. — Foi um beijo!
A voz quebra de novo.
— Um beijo… e ele entrou…
Agora ninguém fala nada.
— Eu não sabia que isso de “permitir entrar” funcionava com pessoas… — ela continua, perdida. — Achei que era coisa de vampiro…
— Não era uma pessoa — diz Vincenzo.
Frio.
Direto.
— Era o quê?
— Algo pior.
Eu cubro os ouvidos de Antoine.
E falo, baixo:
— Um demônio.
Cassie encolhe.
Como se tivesse levado um soco.
— Meu Deus…
— Mais um pedaço? — pergunto, forçando normalidade.
— Manda! — Antoine vibra, feliz.
Incrível.
Ou assustador.
— Isso de consentimento… funciona com o Mal, Cassie — continuo. — Com tudo que é… de lá.
Lembro.
De Aiden.
Do dia em que eu deixei.
Do erro.
— Vampiros… — Antoine ri, de boca cheia. — Acho eles chatos.
Olha pra Vincenzo.
— Eu prefiro anjos.
Um sorriso.
— Igual ao meu pai… e ao meu tio Miguel.
Meu estômago revira.
— O que ele disse, filha?
— Que eu preciso ficar forte.
Ela levanta o garfo.
Orgulhosa.
— Por isso eu tô comendo tudo.
Meu coração dispara.
— E… o que mais ele disse?
— Que se o papai não fizer nada… eu vou morar numa casa cheia de crianças.
O mundo para.
— Lá eu vou ter vários amiguinhos.
A cadeira arrasta com força.
O som corta o ambiente.
— NUNCA!
Eu nem percebo que levantei.
— NINGUÉM VAI TE TIRAR DE MIM! NINGUÉM!
Minha mão bate na mesa.
Tudo treme.
Menos ela.
Então o mundo apaga.
Acordo sendo carregada.
Pesada.
Lenta.
— Não me deixa… — minha voz mal sai.
— Não vou — ele diz.
Mentira.
Eu sinto.
— Dorme… amanhã…
Mas eu já estou caindo.
E sei.
Quando eu acordar…
Nada vai estar melhor.
Vincenzo nos deixa novamente.
Sem cartas. Sem mensagens. Nada.
Nada que me faça entender o motivo. Nada que me dê esperança de que ele vai voltar.
A despensa está cheia. Não nos falta comida. Há dinheiro em espécie na gaveta, no armário onde suas blusas permanecem penduradas, intactas.
Puxo uma delas.
Inspiro.
O cheiro cítrico ainda está ali.
Fecho os olhos e volto àquela noite. À fogueira. À dança. À promessa silenciosa de que, daquela vez, seria diferente.
“ Ninguém vai descobrir que estão aqui. Não use seu cartão. Use essa grana.”
Abro os olhos.
Frio.
Será que ele já planejava ir embora?
Será que tudo isso… já era uma despedida?
Doc me ligou de um número confidencial.
“Disse que você está se recuperando de uma doença rara e contagiosa. Quando voltar, seu emprego ainda é seu.”
Doc… sempre tentando salvar o que dá.
Mas eu não sei se volto.
Não sem Antoine.
E, se eu voltar com ela, vou ter que enfrentar gente que joga sujo. Gente poderosa.
Fecho os olhos com força.
Eu me odeio por ter sido impulsiva.
E odeio Vincenzo por ter ido embora.
Sempre indo embora.
Sempre sumindo quando tudo desmorona.
Aiden não era assim.
— Eu te odeio, Vincenzo. — murmuro, encarando o mar.
Ao meu lado, Cassandra abraça os joelhos, tão perdida quanto eu.
— Ele vai voltar, tia. Ele sabe que a gente precisa dele.
Olho para Antoine, correndo na areia, fazendo barulho de avião.
Tão leve.
Tão longe de tudo isso.
— Por que ele não deixou nenhuma mensagem? — pergunto, sem emoção. — Por que não atende? Como eu vou contar?
— Contar o quê?
Engulo seco.
— Em algum momento, o dinheiro vai acabar. E eu não posso nem usar o meu cartão sem medo de ser encontrada.
— A gente dá um jeito, tia. A gente economiza.
Rio, sem humor.
— Ele não pensou que o Victor pode voltar? Por que ele é sempre assim?
— Assim como?
— Covarde.
O silêncio pesa entre nós.
— Foi tudo tão rápido… — murmuro.
— O quê foi rápido?
Demoro a responder.
— Se ele não voltar… como eu vou sustentar vocês três?
Cassandra franze a testa.
— Vocês três?
Viro o rosto lentamente.
Olho direto nos olhos dela.
— Eu tô grávida.
O mundo para por um segundo.
— Puta que pariu… — ela cobre o rosto, respirando fundo. Depois me encara, firme. — A gente vai dar um jeito. Amanhã eu procuro trabalho. Qualquer coisa.
Me abraça.
Forte.
— Vai ficar tudo bem.
Quase acredito.
— Você vai ser uma ótima mãe — digo, num fio de voz.
— Não vou nada! Eu quero distância de homem!
— Quer nada! Tu é safada! — resmunga Antoine, se jogando na areia.
Rimos.
Por um segundo… só por um segundo… parece normal.
Ela sobe no meu colo.
E então…
— Eu não queria me afastar do meu irmãozinho, mamãe…
Meu corpo trava.
— Não deixa o homem de vestido preto me levar.
Aperto ela contra mim.
Forte.
Forte demais.
— Ninguém vai te tirar de mim, filha. Nunca.
Mas até eu sei…
Nunca é tempo demais.
Ainda estamos ali porque não temos escolha.
Conforme prometeu, Cassandra consegue um emprego na padaria da pequena cidade onde estamos fadadas a permanecer até que eu descubra o destino do pai do meu filho. Raramente, Antoine e eu saímos de casa. Não posso ser vista. Não posso correr o risco de perdê-la.
Cassie tem nos ajudado a manter as despesas, embora ainda haja dinheiro deixado por Vincenzo. Suas roupas continuam penduradas nos cabides. Às vezes, eu as visto só para sentir seu cheiro… como se isso fosse suficiente para trazê-lo de volta.
Fecho os olhos.
— Onde quer que esteja… me ouça. Volta pra casa, por favor.
Silêncio.
Sempre o mesmo silêncio.
Aguardo alguns segundos, como em todas as outras vezes, e nada acontece. Talvez ele esteja ocupado demais para me ouvir.
Ocupado com o quê?
Sweet já está morta. Eileen, segundo ele, sou eu.
Então…
De quem eu deveria sentir ciúmes?
A resposta vem como um soco.
— DA NOVINHA! É ÓBVIO!
Viro-me na cama, enterrando o rosto no travesseiro, e grito até a voz falhar. A imagem dos dois lutando invade minha mente. A ideia de que ele nos abandonou por causa daquela adolescente atrevida me consome.
Arranco suas camisas dos cabides e as jogo no cesto de roupas sujas.
Chega.
Saio de casa e corro até o mar.
Mergulho.
A água gelada deveria acalmar, mas não acalma.
Quando volto à superfície… vejo.
Um carro.
Parado.
Perto demais da casa.
Meu coração dispara.
Corro.
Tranco Antoine dentro de casa e volto, com a camisa de Vincenzo grudada ao meu corpo molhado. Bato no vidro escuro com força, os punhos fechados.
— ABRE ESSA PORRA AGORA!
O carro dá ré.
Foge.
— VOLTA AQUI!
Pego pedras na areia e arremesso uma após a outra até o carro desaparecer.
De joelhos, sem ar, olho para o céu.
— Não tirem minha filha de mim… por favor…
Cassie me levanta e me leva para dentro. Eu tranco tudo. Porta. Janelas. Tudo.
Como um animal acuado.
— Vai fazer mal ao bebê, tia…
— Eu não vou deixar que levem minha filha.
Ando de um lado para o outro, puxando o ar pela boca, desesperada.
— Nunca! Eu salvei aquela menina! Eu dei tudo pra ela! Onde estavam quando ela vendia bala na rua!? Onde estavam!?
— Tia, eu vou fazer um chá…
— CHEGA DE CHÁ! EU PRECISO DO VINCENZO! POR QUE ELE ME DEIXOU!?
Antoine começa a chorar.
Aquilo me quebra.
Deito no chão da sala, tremendo.
— Eu tô com medo… muito medo…
Ela se ajoelha ao meu lado.
— Não precisa, mamãe. Meu tio Miguel disse...
Cubro sua boca na mesma hora.
— Não. Não me fala nada. Por favor. Mais uma dessas e eu surto de vez.
Ela cruza os braços, emburrada.
— Tá bom… mas essa você ia gostar.
Cassie tenta mudar o clima.
— Eu trouxe pão… tem salsicha. Que tal um cachorro-quente sinistro?
— Eu topo! — Antoine vibra. — Vem, mamãe!
— Depois…
Fico ali, ouvindo as duas na cozinha. As risadas. O barulho simples da vida.
E isso… me puxa de volta.
Levanto.
Vou até lá.
Mordo o cachorro-quente como se não comesse há dias.
— Tá gostoso, mãe?
— Muito.
— Come outro, tia.
Aceito.
Sento à mesa… e vejo a cadeira vazia.
A dele.
As lágrimas descem, mas continuo comendo.
Antoine ri.
— Você tá chorando e comendo ao mesmo tempo!
Cassie limpa meu rosto com um guardanapo.
Respiro fundo.
— Você gastou muito. Vou te ressarcir com o dinheiro do Vincenzo.
— “Ressa” o quê? — pergunta Antoine.
— Devolver o dinheiro, filha.
Cassie, de costas, lavando os copos, responde baixo:
— Não precisa. Foi de graça.
Pausa.
— De graça? Quem te deu?
O copo escorrega da mão dela.
— Por que você tá nervosa, Cassie?
— Algum garoto safado — Antoine dispara, de boca cheia.
— Ela nunca vai deixar de ser safada, mãe.
— Não fala assim dela. Adolescente namora, é normal…
— Deus me livre! — Antoine faz careta. — Nunca vou meter minha língua na boca de garoto nojento!
Cassie ri, sem graça.
Eu encaro.
— Quem foi?
Silêncio.
— Quer que eu descubra?
— Não precisa! — ela se apressa. — Ele é meu amigo. Trabalha na padaria.
— Aí! Outro safado! — Antoine levanta.
— Antoine! Fica quieta!
Ignoro.
— Quantos anos ele tem? Já te tocou? Ele gosta de você?
— Calma, tia…
Ela cobre o rosto, mas acaba cedendo:
— Ele é só um amigo… nem liga pra mim… mas é simpático… alto… forte…
Um suspiro.
— Um deus grego.
Outro.
— Um deus grego cego.
Fico em silêncio.
Algo dentro de mim… aperta.
Não é ciúme.
Não é raiva.
É instinto.
E ele nunca falha.
Pouso minha mão sobre o braço dela.
E vejo.
Os dois.
Ele não a toca com malícia.
Ele cuida.
Ele observa.
Ela cora.
Ele vai embora sozinho.
Sorrio.
Esperança idiota.
— Vai com calma, tá?
— Ok.
Dias depois, tento sair com Antoine.
Preciso respirar.
Preciso fingir que ainda existe vida fora do medo.
— Ele precisa ter nome de santo, mamãe.
— Claro que precisa…
— Cassandra não tem. Por isso ela é safada.
— Para com isso.
— Ela tá lá com o Liam… toda desmanchada.
— “Desmanchada”?
— Se engraçando. Daqui a pouco vai beijar de língua.
Rio.
Chamo ela de ciumenta.
Ela não nega.
— Esse é diferente…
— Como você sabe disso tudo?
Ela levanta uma sobrancelha.
— Tenho meus informantes.
Reviro os olhos.
— Seu pai falava isso…
— Ele ainda fala.
Meu corpo trava.
— Ele fala com você?
— Fala.
— O quê?
— Disse pra não te contar.
— FALA!
— Tá doendo, mamãe...
Solto.
Arrependida.
Ela me abraça.
— Ele foi matar o homem da cruz invertida.
Meu sangue esfria.
— E matou?
— Claro. Meu pai é um herói.
— Então por que não voltou?
— Surpresa.
Rio sem humor.
— Quando falar com ele… manda ele vir. Eu tenho duas surpresas pra ele.
Ela ri.
— Vamos no mercado?
— Vamos.
Chegamos.
Cassie vem correndo.
Radiante.
— Tia, esse é o Liam.
Ele estende a mão.
Educado demais.
Calmo demais.
Aperto.
E vejo.
Asas.
Gigantes.
Se movendo atrás dele.
Recuo.
O mundo gira.
— Você tá bem?
Não.
Mas eu minto.
Ele me faz sentar.
Me entrega um cappuccino.
Sorrindo.
Como se fosse humano.
“Devem ser os hormônios. Causam vertigem e… alucinações.”
— Alucinações??? Você sabe o que eu vi???
— Onde, senhora?
— Me chame de Adessa. — Dou um gole no cappuccino fumegante, ainda tentando me recompor. — Por que seu nome é irlandês?
— Porque meus pais nasceram lá.
— Simples, né. — comenta Cassie, completamente encantada. — Eu adoro a Irlanda. Já fui lá. Já te contei?
— Umas dez vezes. — responde Liam, sorrindo.
Cassie praticamente derrete na minha frente. Antoine me cutuca com o cotovelo.
— Não te disse, mãe?
Seguro o riso e volto minha atenção a ele.
— Gostaria de jantar lá em casa hoje?
— Seria uma honra.
Não desvio o olhar.
— Eu já te conheço de algum lugar?
— Dificilmente. Eu quase não saio daqui.
— Você conheceu algum Aiden?
— Não. É um nome comum na Irlanda, mas aqui… — dá de ombros — Nunca conheci nenhum. Por quê?
— Por nada.
Desço do banquinho.
— Um dia de cada vez. — sussurro no ouvido de Cassie.
— Certamente.
— Às oito? — ela pergunta, já sonhando acordada.
— Perfeito… senhora.
— Adessa. — corrijo, sem paciência.
Ao meu lado, Antoine dispara:
— Não seja safada!
Cassie cobre o rosto, derrotada.
Gargalho e puxo minha filha pela mão, saindo do mercado. Distraída, não percebo os dois vultos se aproximando.
Tarde demais.
Dois homens de terno preto.
Um deles ergue Antoine no colo. O outro me segura pelos braços. Chuto o ar, grito, me debato, mas ele aperta minha barriga com força.
— MAMÃE!!!
O mundo para.
E então...
Um impacto.
Liam.
Ele simplesmente surge no ar, derrubando o homem que levava Antoine. Ela rola pelo chão e se esconde debaixo de um carro.
Cassie aparece do nada e acerta o outro com um taco de baseball. De onde saiu isso? Nem quero saber.
Sou solta.
Corro até Antoine e a puxo para longe.
Liam ergue o sequestrador pelo pescoço, mantendo-o suspenso como se não pesasse nada. O homem se debate, sufocando.
Liam grita algo… não entendo uma palavra.
Mas eles entendem.
Os dois fogem, entram no carro e desaparecem numa nuvem de poeira.
Silêncio.
— Uau! — vibra Antoine no meu colo. — Isso foi irado, tio!
— Foi mesmo! — diz Cassie, entre chocada e apaixonada. — Você salvou a gente!
— Não precisa agradecer. Eu faria por qualquer um.
O sorriso de Cassie morre na hora.
— Ah… tá.
— Não! Quer dizer… — ele se atrapalha todo — Não por qualquer um! Eu fiz por vocês porque… vocês são importantes pra mim.
— Sim. — ela abre um sorriso enorme. — Eu entendi.
Claro que entendeu. A menina já tá casando na cabeça.
— Alguém pode me ajudar aqui? — peço, ainda no chão.
— CLARO! — os dois respondem juntos.
De pé, examino Antoine, ignorando meus próprios arranhões.
— Vocês não podem voltar sozinhas. — diz Liam, com o olho já inchando.
— Vamos ficar bem… — minto.
Ele desaparece no mercado e volta com um molho de chaves.
— Eu levo vocês.
Assim que chegamos em casa, Liam — logo atrás de mim — ajoelha-se diante do batente da porta, murmurando palavras que desconheço.
Desconfiada, lanço um olhar a Cassie e me inclino, cochichando perto dela.
— Ele sempre faz isso?
Por um instante, ao erguer os olhos, posso jurar ter visto algo pontiagudo sob a curva de suas costas.
— Não. Só quando a casa é protegida. — responde, ainda de cabeça baixa.
— Protegida por quem?
— Pelo Criador.
— Você é católico?
— Não tenho religião. Tento seguir os preceitos que Seu Filho deixou.
— Seu filho?
— O Filho do Criador. — ele se levanta, finalmente. — O Messias.
— Ah… Jesus. — solto um riso curto. — Entendi. Mas essa mesma casa foi invadida por algo ruim. Isso faz sentido pra você?
— Faz. Não são as casas que dão brechas… são as pessoas que vivem nelas. Somos humanos, Adessa. Sempre à mercê do Mal. É difícil não ceder.
— Concordo. — examino seu rosto, o corpo tenso, sujo. — Você precisa de um banho.
Conduzo-o até o banheiro. Deixo uma camisa de Vincenzo sobre o cesto de roupa suja e, antes de sair, ainda com um nó de desconfiança preso na garganta, digo:
— Fica à vontade… “Liam da Irlanda”.
Sentados à mesa, conversamos enquanto Cassandra prepara pizzas, com Antoine ao seu lado, toda compenetrada.
Cassie limpa os ferimentos de Liam com cuidado demais. Delicadeza demais. Existe algo ali. Uma conexão rápida, intensa… perigosa.
Talvez agora dê certo.
Eu gostaria disso. De verdade.
Queria ver Cassie com alguém que não a quebrasse. Alguém que lhe desse estabilidade, filhos saudáveis… lindos…
Como os que eu teria com Vincenzo.
Se ele estivesse aqui.
Se ele tivesse ficado.
— Dois meses. — respondo, automática, tentando manter a voz firme apesar do que rasga por dentro.
— E o nome?
— Nome de santo. — Antoine se antecipa.
— Já pensei em Matteo.
— Por que não “Mateus”, filha? Ele não vai nascer na Itália.
— Vai, sim. — ela afirma, envolvendo o pescoço de Liam com o bracinho.
Ela beija a bochecha dele. Liam cora.
— Matteo é lindo. Não é, Liam?
— Concordo. Nome de santo.
— De onde surgiu aquele taco de baseball, Cassie?
— É do tio Liam, mãe. Ele tem uma coleção na casa dele.
— Filha… como você sabe disso?
Ela ri, leve demais pra resposta que dá:
— Sei lá.
E lá vem de novo.
Essa sensação.
A mesma.
Incômoda.
Como se Antoine fosse… mais.
Muito mais do que uma menininha com imaginação fértil.
Enquanto saboreamos as pizzas de Cassie, algo me pega de surpresa.
Liam menciona, com naturalidade demais, que conhece Vincenzo há anos.
Fico alerta na hora.
— De onde?
— Daqui mesmo. — responde, tranquilo. — Ele nos visita há bastante tempo. Um bom homem.
— Desde quando?
— Tia! — Cassie me corta, rápido demais.
Solto o ar devagar, contendo a insistência.
— Desculpa.
Ela, sentada ao lado dele, serve mais um pedaço de pizza, como se nada tivesse acontecido.
Apoio os cotovelos na mesa, observando.
— Devem ser os hormônios. — ela brinca, apontando para mim. — Eles se gostam, se dão bem… Gostou da pizza?
— Muito. Já pode casar.
Cassie cora na hora, se encolhendo.
— Não me zoa. Acho que nunca vou me casar.
— Vai, sim. — Liam sorri.
E não é um sorriso comum.
É… luminoso demais.
O tipo que arrepia.
— Basta encontrar o homem certo.
— Faz sentido.
— Papo besta. — Antoine interrompe, de boca cheia. — A gente já sabe o que vai acontecer, tio Liam.
Liam passa a mão pelos cachos dela, divertido.
— Você é especial.
— Sou mesmo. — ela ri. — Pena que minha mãe não deixa eu falar tudo.
— E o que seria? — ele pergunta, quase inocente.
— Nada.
O olhar sapeca dela me acende um alerta imediato.
— Nem pense. — corto, firme. — Come de boca fechada e fica quieta.
Ela revira os olhos, dá de ombros… e obedece.
Fico sem apetite. Belisco a pizza enquanto organizo, em silêncio, nossa fuga.
Cassandra… me preocupa menos.
Liam deixa claro, o tempo todo, o interesse por ela.
E a aura dele…
Quase sempre luminosa.
Quase.
Vamos embora assim que todos dormirem.
Ele já deixou claro que não vai nos deixar sozinhas.
— Posso dormir no chão da sala, sem problema.
— Tem uma cama extra no meu quarto. — sugere Cassie, na camisola curta demais pra inocência que tenta sustentar. — Não precisa se sacrificar.
Sacrificar.
Engraçado.
Vincenzo não conhece essa palavra.
Engulo seco.
Se não fosse esse estranho, minha filha talvez estivesse… em mãos bem piores.
Os homens de terno preto.
O juiz.
Sempre o juiz.
A dor volta, crua.
— Ele fica na minha cama. — decido. — Eu e Antoine vamos pra sua cama extra, Cassie.
Dou um leve beliscão no braço dela e murmuro:
— Um dia de cada vez. Lembra?
— Ok… — ela cede, contrariada.
Antoine pega cobertor e travesseiro e leva até Liam.
De repente, dispara correndo antes que eu a alcance, trancando-se no quarto com Cassie:
— Liam, cuidado!
— Com o quê, querida?
— Com a Cassie!
— Por quê?
A resposta vem entre risos:
— Porque a Cassie é safada!
Cubro o rosto, rindo contra a própria vontade.
Do quarto, Cassie resmunga:
— Ninguém merece…
Ainda rindo, me deixo cair na cama improvisada.
— Calma, Cassie. — Continuo. — Vocês vão ficar juntos. Eu sei. Eu sinto.
— Sério, tia?
— Sim. — respondo, olhando fixamente para o teto.
A voz sai mais escura do que eu queria.
— Nada como um novo dia… depois de uma noite obscura.
Antoine ainda dorme em meu colo quando cruzo o umbral da sala, deixando-os para trás.
Caminho devagar até a Kombi.
Deito Antoine no banco traseiro… no mesmo lugar onde seu irmão foi concebido.
Jogo as mochilas no banco do carona. Uma cólica forte me dobra por dentro.
Acaricio a barriga.
— Vamos pra um lugar seguro, filho… Sua irmã corre perigo aqui. Vai dar tudo certo. Vai…
Procuro a chave no porta-luvas, onde Vincenzo sempre a deixava.
Nada.
Um palavrão escapa.
Antoine se remexe.
— Onde a gente tá, mãe?
— Num sonho. Dorme, filha.
Me inclino, tateando o espaço entre o banco e o painel.
Bato a lateral do corpo no câmbio.
Outra dor. Mais funda.
Seguro o grito.
— Merda…
Finalmente encontro a chave.
Giro.
Nada.
Tento de novo.
O sol nasce direto no meu rosto, queimando meus olhos.
— Anda… anda…
Nada.
— Porra de lata velha!
Antoine se senta, sonolenta.
— Isso é feio, mãe.
— Dorme!
Giro a chave de novo. E de novo.
— Culpa do seu pai… comprar esse carro velho…
— O seu também é velho, mamãe.
Respiro fundo.
— Não vai pegar.
— Tenta.
— Não vai.
— TENTA! — ela explode.
Eu paro.
Olho pra ela.
Os olhos dela… não estão normais.
— Eles estão chegando.
O sangue some do meu corpo.
— Eles quem?
— Liga o carro, mamãe… — a voz dela quebra. — Eu não quero que o homem de vestido preto me leve.
— Nunca.
Algo em mim rompe.
Bato a testa contra o volante.
Uma vez.
Outra.
— NINGUÉM VAI TE TIRAR DE MIM!
— Tá saindo sangue! — ela aponta, aflita. — Limpa!
O calor escorre pelos meus olhos.
Sangue.
Pisco, forçando a visão a voltar.
Ela me entrega a toalhinha.
— Limpa logo!
Minhas mãos tremem, mas eu limpo.
Respiro.
Forço controle.
Abraço ela.
— Mamãe tá com medo… muito medo. Mas a gente vai sair daqui. Tá?
— Não vamos… — ela chora. — Eles já estão aqui.
Os carros surgem.
Quatro.
Pretos.
Oficiais.
O motor finalmente dá sinal de vida.
Tarde demais.
Piso no acelerador, mas ainda seguro a embreagem.
Olho.
E vejo.
O juiz.
A toga preta.
“O homem de vestido preto.”
Ao lado dele…
Lúcifer.
Sorrindo.
— Põe o cinto. — minha voz sai baixa demais.
Solto a embreagem.
A Kombi dá um tranco.
Dou ré.
Bato em outro carro.
Risadas.
— Não seja patética, Adessa. — Lúcifer. — Entregue a pequena.
— Nunca.
Engato a primeira.
Vou avançar.
Vou atropelar todos.
Então ele aparece.
Liam.
Parado na frente da Kombi.
Os olhos fixos em mim.
— Para. Confia no Criador.
— ELE NÃO TÁ AQUI! — grito. — SAI DA MINHA FRENTE!
— Para, mamãe… — Antoine sussurra. — Eu tô com medo.
— Eu também!
— Por Baco… — Lúcifer ri. — Outro que caiu por nada.
— Tia! Não faz isso! — Cassie surge na janela.
Empurra Liam.
Tarde.
Piso fundo.
Lúcifer ergue a mão.
A Kombi morre.
Portas se abrem à força.
Somos arrancadas.
Antoine cospe no rosto de Lúcifer.
Eu avanço.
Um chute no homem que me segura.
Ele dobra.
Agarro sua cabeça.
Joelhadas.
Uma.
Outra.
Até ele cair.
Sangue nas minhas mãos.
Corro até Antoine.
— Isso não são modos de uma garotinha educada. — Lúcifer limpa o rosto, irritado.
— Eu não sou uma garotinha. — ela rosna. — E você sabe disso.
O juiz a toma nos braços.
— Determino que essa criança permaneça sob proteção do Conselho Tutelar até adoção legal.
— NÃO! — minha voz falha. — Ela é minha filha!
— Tem documentos?
Silêncio.
Erro fatal.
Ele a joga no carro.
Eu invado pela porta traseira.
Agarro Antoine.
— Ninguém vai separar a gente. Eu juro!
Ela me encara.
— Ele tá chegando, mamãe.
— Quem?!
Sou arrancada.
Jogada no chão.
O ar some.
Um chute no ventre.
A dor explode.
O homem se aproxima de novo.
Antes que ele me toque...
CRACK.
O taco de Liam acerta sua cabeça.
Ele cai.
Tonto.
Outro golpe.
Apaga.
Lúcifer entra no carro do juiz.
Acena.
Antoine grita no vidro.
Minhas pernas falham.
Sinto o sangue quente escorrer entre minhas coxas.
Acabou.
Não.
Ainda não.
Rastejo.
Terra.
Com o dedo, desenho.
Pentagrama.
Sigilo.
Palavras antigas.
Ódio puro.
A voz de Padre Pietro ecoa:
“Use uma única vez… ou isso vai te consumir.”
— E o que pretende com esse desenho patético? — Lúcifer se aproxima.
Eu levanto os olhos.
Ele recua.
Lento.
Cuidadoso.
— Seus olhos…
Minha visão falha.
Minha respiração quebra.
— …estão diferentes.
Prestes a arriscar a minha vida… e a do meu filho… em troca da de Antoine, agarro uma pedra.
Sem pensar, corto o pulso.
O sangue começa a brotar...
Antes que a primeira gota toque o centro do desenho, Liam avança.
O coturno apaga o símbolo.
— NUNCA MAIS FAÇA ISSO! — ele rosna. — É IRREVERSÍVEL!
— NÃO ME IMPORTO!
Minha voz sai quebrada. Desesperada.
Ele segura meu rosto, me obrigando a encará-lo.
— Ele chegou.
O som vem antes.
Motor.
Alto. Cortando o ar.
A moto surge como um rasgo no cenário.
Ele gira em círculos, levanta poeira… e então a larga no chão, sem cerimônia.
Caminha.
Direto.
Até o juiz.
Tira o capacete.
Vincenzo.
O mundo para.
Da mochila, ele retira um envelope.
A voz… firme. Fria. Carregada de algo perigoso.
— Tire a nossa filha desse carro. Agora. Ou teremos problemas.
— Não seja ridículo, Vincenzo. — o juiz retruca. — Saiba perder.
Um olhar.
Só um.
De Vincenzo para Lúcifer.
E Lúcifer… recua.
Se esconde atrás de uma árvore.
Covarde.
Vincenzo tira o casaco de couro.
Joga no chão.
E então...
As asas.
Imensas.
Irreais.
Inquestionáveis.
O ar muda.
Eu não consigo me mover.
Antoine se solta do carro e corre até mim.
— Meu pai é um anjo! Eu te disse! — ela vibra, agarrando meu corpo. — Eu te disse!
E então, sem hesitar:
— Acaba com ele, papai!
Vincenzo não responde.
Ele já está diante de Lúcifer.
Um crucifixo de madeira em mãos.
Encosta no peito dele.
Murmura algo em latim.
O som não é alto.
Mas o impacto...
É.
Uma explosão seca.
Brutal.
E então…
Nada.
Nem corpo.
Nem grito.
Só fumaça.
Silêncio.
Vincenzo se volta para o juiz.
Os olhos dele… não são humanos.
— Vejo que já leu o documento. — diz, baixo. — E então?
Um passo à frente.
— Quer ter o mesmo fim do seu amigo… ou encerramos isso aqui?
O juiz não responde.
Não consegue.
— De qualquer forma… — continua Vincenzo — Vocês vão se encontrar no inferno.
Um sorriso frio.
— Mande lembranças ao seu filho quando chegar lá. Tivemos uma conversa recente.
O juiz empalidece.
— Do que está falando?
— Uma pena ele ter exagerado na cocaína. — Vincenzo dá de ombros. — Foi mais fácil do que eu esperava.
— Maldito…
O juiz amassa o documento e o joga contra ele.
— Isso é uma cópia. — Vincenzo nem se mexe. — Vossa Excelência.
Silêncio.
Decisão tomada.
Os carros partem.
Rápidos.
Covardes.
A poeira sobe… e some.
E então...
Tudo desaba dentro de mim.
A dor volta.
Inteira.
Crua.
Me deito no chão, o sangue se misturando à terra.
— Fica com seu pai… — sussurro, empurrando Antoine de leve.
Ela não quer ir.
— Eu vou ficar bem.
Mentira.
A última coisa que vejo…
É o rosto de Vincenzo.
E então...
Nada.
Uma rápida olhada ao redor me situa.
Liam e Cassie, abraçados, comemoram.
Antoine vem como um furacão.
Pula no meu colo.
A dor explode, mas eu seguro o gemido.
Ela me enche de beijos.
— Meu pai me salvou, mamãe! Meu pai me salvou!
Beijo sua testa.
— Que bom, filha…
Sob protestos, ela se deixa levar por Vincenzo.
Eu evito olhar pra ele.
— Como está o meu filho? — cochicho ao médico.
— Perfeito. — ele responde, após me examinar. — Mas, se puder… evite encrencas por um tempo.
Assinto, com um sorriso cansado.
Vincenzo, ao pé da cama, toca minha barriga por cima do lençol.
— Deixa comigo, doutor. Agora ela sossega.
Espero a porta fechar.
Silêncio.
Levanto o tronco, com esforço.
Fecho o punho enfaixado.
E acerto um soco no rosto dele.
— DESS! — ele arregala os olhos. — O que eu fiz?!
— Essa é uma das surpresas que ela guardou pra você, papai! — Antoine gargalha.
Ele segura meus braços, firme.
— Te aquieta. Que violência é essa?
— Isso foi por nos deixar sozinhas, bastardo.
— Eu não te deixei sozinha. Liam estava aqui.
— E eu lá sabia quem era o Liam?! Meu homem era você!
Ele arqueia a sobrancelha.
— Era?
— Vai pro inferno. — resmungo, largando o corpo na cama. — Tá tudo doendo…
— Tia! — Cassie vibra. — Eu nunca vi alguém lutar daquele jeito! Foi irado!
— Foi mesmo! — Antoine entra no embalo. — Vocês viram o cuspe que eu dei no tio Lu!?
Cassie ri, sem entender.
— Aquela voz grossa foi de onde, pirralha?
— Dos filmes! — Antoine se joga no sofá. — Deu medo, né?
— Total!
Liam não ri.
Só observa.
— Que foi, tia? — Cassie estranha meu olhar.
— Nada.
Me recosto, sentindo cada músculo reclamar.
Vincenzo tenta ajeitar meu travesseiro.
Dou um tapa na mão dele.
— Assim que eu sair daqui, “Liam da Irlanda” e eu vamos conversar.
— Esquece o Liam. Ele é meu amigo.
— Duvido. Vocês têm algo em comum. Eu ouvi.
— Ouviu de quem? — ele cruza os braços. — Do pai das mentiras?
— Pai de quem?
— Depois eu te explico. — murmuro pra Cassie. — Você viu as asas?
— Asas? — ela ri. — Tá doida?
O sangue ferve.
— Você viu! Todo mundo viu!
— Não vi nada, tia…
Viro pra ele.
— Não é possível… você fez com ela também? Apagou a memória?
— Ela bateu a cabeça. — Liam interfere, calmo demais.
Erro.
Jogo a garrafa na direção dele.
Ele desvia.
— Afetou porra nenhuma! Você viu, Liam! Todo mundo viu!
Vincenzo passa a mão no rosto.
— Já chega, Dess.
— Quem é Lúcifer? — Cassie insiste.
— Cala a boca, Cassie!
— Seu equilíbrio já foi embora faz tempo… — ele retruca, jogando uma bola de papel em mim. — Lê isso quando encontrar.
— Pai… — Antoine chama, de leve.
— Foi mal. — ele suspira. — Sua mãe me deixa maluco.
— Eu sei. — ela sorri. — Meu irmão vai ter nome de santo.
Ele suaviza na hora.
— Eu sei.
— Matteo. — ele repete, baixo. — Meu filho está a caminho.
Antoine hesita.
— Você não vai deixar de me amar, né?
Ele se ajoelha diante dela.
— Nunca. Você é minha primogênita.
— Prima de quem?
Ele ri.
— A primeira filha. A primeira de muitas.
— Merda… — resmungo, me levantando e arrastando o suporte do soro. — Você e essa mania de ler pensamentos.
Ele vem até mim, me segura antes que eu caia.
— Era pra ser surpresa.
— E foi, amor. — ele sussurra, me levando de volta pra cama. — Eu quis voltar… mas não pude.
— Que objetivo, Vincenzo?
— Lê. — estendo o papel.
Ele desamassa.
Lê.
Silêncio.
As palavras se formam na minha cabeça:
adoção
juiz
concedo
Antoine…
— Conseguimos. — ele diz, por fim. — Antoine é nossa filha. Oficialmente.
O mundo para.
— Nunca vão tirá-la de nós?
— Nunca.
Nos abraçamos.
Chorando.
— Você errou o nome. — murmuro. — Era Santoro.
Ele sorri.
— Filhos levam o sobrenome do pai.
Pausa.
Olhar.
— Se você aceitar.
Arranco o acesso da veia.
O sangue jorra.
Os aparelhos apitam.
Ele se ajoelha.
Caixinha aberta.
— Casa comigo?
— SIM!
Eu nem penso.
Ele me beija, com cuidado.
Dói.
Mas eu sorrio.
— Vou chamar a enfermeira. — ele ri.
— Se encostarem outra agulha em mim, eu mato alguém.
Ele ri de verdade.
Me pega no colo.
Na Kombi, encosto a cabeça no ombro dele.
— Agora vai dar tudo certo…
Atrás, Antoine vibra.
Cassie ri.
Liam observa.
Silencioso.
Sempre.
Olho o céu.
Peço, em silêncio:
“Se isso for um sonho… não me acorda.”
Partimos da casa de praia uma semana após o confronto com Lúcifer e seus seguidores.
Ainda marcada por hematomas, abraço Liam.
Conversamos por algum tempo. Ele não me revela nada… mas não precisa.
Durante o jantar de despedida, ao vê-lo segurar o garfo, entendo.
O cuidado.
A forma como observa Cassie.
A dedicação silenciosa à nossa família.
Lúcifer estava errado.
Liam não caiu por nada.
Ele caiu por curiosidade.
Por querer entender o amor.
Por observar humanos por tanto tempo… e não compreender o que nos mantém unidos mesmo quando tudo desmorona.
— Isso é amor. — eu havia dito a ele.
Vincenzo me contou depois: não são poucos.
Há anjos entre nós.
Alguns buscam amar.
Outros… apenas ajudam.
Antes de me afastar de Liam, vozes atravessam minha mente.
Fragmentos.
Indecifráveis.
Estremeço.
— Perdão se te causo medo, Adessa.
— Não é isso… — minto. — Devo minha vida a você. Quando tudo se ajeitar… nos visite.
— Eu irei. — ele diz.
Mas seus olhos estão em Cassie.
Sempre nela.
“Anjos existem entre nós.”
A voz de Vincenzo ainda ecoa.
“Basta ouvir o silêncio.”
Naquela noite, na Kombi, nossos corpos entrelaçados, pergunto:
— E a Cassie?
— Ele sente o mesmo. — responde ele. — Só não sabe ainda.
— Melhor pra ele. — murmuro. — Porque, se fizer ela sofrer…
— Não vai. — ele ri baixo. — Ele te viu em ação.
Rimos juntos.
Ainda me surpreende a força que encontrei naquela noite.
— O amor, Dess. — ele sussurra. — O amor de mãe faz coisas que nem Deus explica.
Respiro fundo.
Concordo.
De volta à casa de praia, arrumo nossas coisas.
Vincenzo surge atrás de mim.
— O amor faz coisas curiosas… — diz, quase distraído. — Até me fazer de otário o suficiente pra comprar um vestido de noiva…
Paro.
Ele ergue o tecido.
Branco.
Rendado.
Perfeito.
— …quando a minha noiva já tinha se casado com outro.
Engulo o choro.
— É lindo…
— Veste, tia! — Cassie pede.
Eu vou.
No banheiro, me troco.
Ouço Cassie, do outro lado:
— Eu queria um desses…
— Vai ter. — a voz de Liam vem, firme.
Antoine não perde a chance:
— A safada vai casar!
— Antoine! — Cassie protesta, rindo.
Beija Liam no rosto.
— Vou mesmo?
— Vai.
— Começou… — resmunga Antoine. — Daqui a pouco tá enfiando a língua na boca dele.
— Que filha eu tenho… — Vincenzo ri, fazendo cócegas nela.
O riso ecoa.
Eu respiro fundo.
E saio.
Silêncio.
Vincenzo me vê.
E não diz nada.
Só me olha.
Antoine bate palmas.
— Minha mãe é uma princesa!
— A minha princesa. — ele corrige, estendendo a mão. — Dança comigo.
— Não tem música…
— Tem. — Liam resolve, pegando o celular.
A música começa.
— Cassie disse que você gosta dessa.
Sorrio.
— Então isso é um complô?
— Com certeza. — Vincenzo me puxa. — Fica comigo pra sempre?
— Pra sempre.
Fecho os olhos.
— O amor faz sofrer?
— Não deveria. — ele diz. — Mas, agora… acabou. Vamos viver nossos melhores dias.
— Promete?
— Prometo.
De volta ao apartamento…
Algo está errado.
— Onde estão meus móveis?
— Vendi.
Silêncio.
— Como assim?!
— Onde eu vou dormir? — Antoine pergunta, já preocupada.
— No chão. — ele responde, seco.
Eu encaro os dois.
Cassie evita meu olhar.
— O que você fez, Vincenzo?
— Vida nova. — ele sorri, me erguendo do chão e girando comigo. — Casa nova. Móveis novos.
— Me põe no chão!
Ele obedece.
— Eu queria vender depois… com calma… — resmungo.
— Somos cinco agora. — ele rebate. — Isso aqui é pequeno demais.
Frio na espinha.
— O que você fez?
— O dinheiro já está na sua conta.
Ele caminha até a porta.
Chaves na mão.
— Vai ficar aí… ou vem comigo?
Antoine se estica no colo dele.
— Vem, mãe…
Cassie segura meu braço.
— Confia em mim.
Eu olho pra sala vazia.
Depois pra eles.
E sigo.
Sem saber se tô indo pra um começo…
Ou pra mais uma queda.


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