CAPÍTULO 30 - O QUE ESPERAR APÓS TER ESPERADO TANTO?
Contrariando minhas expectativas, eu me sinto… simplesmente esplêndida.
Ao lado dos noivos. No altar.
Cassie está deslumbrante.
Liam, sempre contido, não consegue esconder o sorriso de triunfo ao vê-la caminhar pelo tapete vermelho… tendo nossa filha como dama de honra.
Antoine irradia.
Literalmente.
Há algo em sua aura. Algo que cresce. Algo que eu quase entendo… mas não quero tocar agora.
Não hoje.
É o dia mais feliz da vida da minha filha.
E Cassie merece ser feliz.
Ao meu lado, Vincenzo segura minha mão.
Fria.
A dor dele pulsa sob a pele… silenciosa, mas impossível de ignorar.
Não falamos sobre a noite passada.
Minto.
Não tivemos coragem.
Há coisas que, uma vez ditas, mudam tudo.
E nós ainda não estamos prontos para isso.
— Tia, eu faço questão.
— Não posso aceitar, Cassie. É muito caro. Vocês estão começando agora…
— Tia!
Ela insiste, sentada à mesa suntuosa da recepção.
— Você me levou à Itália e à Irlanda quando eu não tinha ninguém. Agora é a minha vez.
Sorri.
Teimosa.
— Liam faz questão. Eu também.
— Matteo vai nascer a qualquer momento, sua louca…
— Serão só dois dias. — Ela dá de ombros. — Eu e meu marido vamos curtir nossa lua de mel… vocês também deveriam.
Então ela se inclina.
Sussurra:
— Ele tá estranho, tia… triste. Eu nunca vi ele assim.
Antes que eu responda, sinto.
Vincenzo se aproximando.
— Agora não posso contar — murmuro.
— Contar o quê? — ele pergunta, desconfiado.
Cassie se levanta, rápida:
— Que vocês vão pra Itália com a gente!
Um sorriso tímido cruza o rosto dele.
E desaparece.
— Não dá. Sem chances. Agora somos pobres.
As palavras caem… secas.
Baixo a cabeça.
Cassie endurece.
— Pobres ou não, vocês vão.
Então sorri de novo. Brilha.
— Com licença, porque eu vou dançar com o meu maridão!
Beija Antoine.
— Daqui a alguns anos eu me vingo e te chamo de safada no seu casamento, pirralha!
— Woohoo! De volta à Itália! — Antoine vibra.
Vincenzo bebe.
E então…
— Não iremos.
A voz vem dura.
Corta o ar.
— Tira isso da cabeça. Eu não posso pagar.
— É um convite! Não seja estúpido!
— Pai…
— Não. — Ele não cede. — Isso é retribuição ao que você e Aiden deram a ela. Eu não tenho nada a ver com isso.
Silêncio.
— Esqueçam. Nada de Itália.
Antoine abaixa o olhar.
— Eu vou dançar…
Mas antes de sair, encara o pai.
— Pensa bem, papai. Eu queria tanto ir…
Ela vai.
E leva a leveza junto.
— Satisfeito? — eu corto.
Ele fecha os olhos por um segundo.
— Dess… eu não tô bem. Podemos ir embora?
Eu me sento ao lado dele.
Abraço.
— Eu sei que não tá bem. Sei da dor. Mas a Antoine não tem nada a ver com isso.
Minha voz sai baixa. Firme.
— Cassie não tá pagando nada. Ela tá agradecendo. Ela te ama. Nos ama.
Respiro fundo.
— Aceita. Por favor.
Ele balança a cabeça.
— Não é justo.
— Talvez não seja. Mas é sincero.
Seguro seu rosto.
— E eu sinto… que lá você vai melhorar.
Ele se perde por um instante.
Distante.
— Fomos felizes lá…
— Então vamos ser de novo.
Minha voz falha.
— Não se afasta de nós… por favor.
Silêncio.
Pesado.
— Eu preciso te contar uma coisa, Dess…
— Agora não.
Eu o beijo.
Quase um pedido.
— Vamos viver essa noite.
— Passa rápido demais…
— Então fica.
Antoine surge do nada.
Abraça o pai por trás.
Encosta a mão na testa dele.
— Tá doendo, né? Mas vai passar.
Os olhos dela se fecham.
Algo… muda.
Ele tenta se mover.
Não consegue.
Então ela solta.
Sorri.
— Passou?
Vincenzo a encara.
Atônito.
— …Sim.
— Eu sabia. Foi meu tio que me ensinou.
Eu me levanto, o coração disparado.
— Que tio? Ele tá aqui de novo?
Ela ri.
Leve.
— Claro que tá! Ele casou com a Cassie, mamãe!
— Liam…?
Vincenzo sorri.
Diferente.
Mais leve.
— Meu irmão… jamais será corrompido.
Eu engulo em seco.
— Liam é um anjo?
Ele não responde.
Só se levanta.
E me estende a mão.
— Dança comigo, Sra. Rossi.
Eu sorrio.
De verdade, dessa vez.
— Se a barriga deixar…
Em solo italiano, Vincenzo floresce.
Como se a dor tivesse ficado para trás.
Ele gargalha.
Corre pela relva com Antoine, leve… quase livre.
Por um instante, tudo parece normal.
Nosso quarto se abre para o infinito.
Um penhasco.
O oceano.
Sem fim.
Sou puxada pelo som das ondas quebrando contra os rochedos.
Caminho.
Devagar.
Até a beira.
Inspiro fundo.
A brisa toca meu rosto.
Fecho os olhos.
E então...
Um sussurro.
Frio.
Colado ao meu ouvido:
“Pule.”
Meu corpo trava.
Antes que eu reaja, mãos me puxam para trás.
Vincenzo.
Ele me envolve com força.
— Nunca chega tão perto, Dess! Por favor!
Sorrio, tentando acalmá-lo.
— Eu não ia pular…
Acaricio seu rosto.
— Que motivo eu teria? Eu tô feliz com você.
O vento levanta meus cabelos.
A chuva começa, fina.
Quase invisível.
— Tenho a sensação de que já estivemos aqui… — digo, mais alto, quase rindo. — Que fomos felizes aqui!
Ele não responde.
Só olha.
Para baixo.
Fixo.
Tenso.
— Por que você tá com medo?
— Eu não tô! — a resposta vem dura demais.
Ele olha ao redor.
Como se alguém estivesse ali.
— Não tenho medo de nada! — a voz sobe. — Se afasta! Nos deixa em paz! Eu ainda tenho forças!
Meu coração dispara.
— Vincenzo…
Ele grita:
— Ela não vai pular de novo!
Silêncio.
Pesado.
Então… ele volta.
Como se nada tivesse acontecido.
Debaixo do guarda-chuva, me encara.
— Desculpa, Dess… eu pensei…
— Eu sei.
Minha voz sai firme.
— Eu ouvi.
Seguro seu rosto.
— Não dá força pra isso. Lúcifer só entra quando a gente abre a porta.
Ele respira fundo.
Assente.
— Tem razão.
Ao longe, Antoine ri, cavalgando com Liam.
A vida continua.
Como se nada tivesse rachado.
— Desde quando minha esposa ficou tão sábia? — ele sorri, suave. — Você mudou… e eu te amo ainda mais.
Ergo o queixo, fingindo leveza.
— Quer me fazer chorar aqui na frente de todo mundo?
Ele me observa.
Sem disfarçar.
— Você tá linda, Dess. Linda… e irresistível.
Reviro os olhos.
— Tô parecendo uma camponesa. Uma gorda camponesa prestes a explodir.
— Exagerou no decote… — ele aproxima, a voz baixa — …mas eu gostei.
Um arrepio.
— Quer voltar pro quarto?
— Safado…
Eu rio.
E, por um segundo, esqueço.
Tudo.
Até Cassie surgir, destruindo os planos.
— Passeio! — ela anuncia.
Dentro do carro, Antoine explode:
— Aquele castelo! Vamos naquele castelo!
Vincenzo, ao meu lado, leva a mão ao peito.
Os olhos enchem.
— Mio Dio…
— Tá doendo? — pergunto, tensa.
— Não… — ele sussurra — No coração.
Ele encosta o rosto na janela.
— Como fomos felizes aqui…
Cassie se vira, curiosa.
— Já veio aqui, tio?
— Sim — Liam responde, antes dele.
Troca um olhar pelo retrovisor.
Cúmplice.
Silencioso.
— Vamos entrar? — Liam sugere.
— Vamos!!! — Antoine dispara escada acima.
O castelo nos engole.
Frio.
Antigo.
Vivo demais.
Assim que piso no salão, algo em mim… reage.
Fecho os olhos.
E ouço.
Risos.
Música.
Cavalos.
E então...
Um grito.
— Mamãe? — Antoine me chama.
Abro os olhos.
— Tô bem.
Mentira.
Quero sair correndo.
Agora.
Cassie gira pelo salão, encantada.
Vincenzo me observa.
Ele percebe.
— Algo ruim aconteceu aqui… — sussurro. — Eu quero ir embora.
Liam abaixa o olhar.
— Foi um erro trazer vocês.
— Não foi.
Vincenzo ainda olha ao redor.
Como se buscasse algo.
— Você não lembra das coisas boas?
Então...
A dor vem.
Bruta.
Violenta.
Meu corpo cede.
Caio de joelhos no chão frio.
O ar some.
Uma pressão absurda toma meu ventre.
— Vincenzo…
Minha voz falha.
Meus ossos parecem rachar.
O mundo gira.
Suor.
Dor.
E então...
As imagens vêm.
Instrumentos dourados.
O tilintar dos talheres.
Risos altos demais.
Perfume doce demais.
Tudo errado.
Tudo falso.
O salão gira.
— Dess!
— DÓI!!! — o grito rasga minha garganta quando o calor escorre entre minhas pernas. — ME TIRA DAQUI! NOSSO FILHO NÃO PODE NASCER AQUI!
O mundo se parte.
— A bolsa estourou! — Cassie grita, perdida. — Liam, o que a gente faz?!
Mas eu não estou mais ali.
Eles estão.
Os homens de batina.
Os olhos mortos.
A fogueira.
— NÃO DEIXEM LEVAREM MEU FILHO! — minhas unhas arranham o chão. — NÃO DEIXEM!
— Não tem ninguém aqui, Dess! — alguém diz. Mentira. — Vamos pro hospital!
— Não temos tempo. — Liam já arregaça as mangas.
Mãos me puxam.
Sombras me tocam.
— Eles vão matar meu bebê! — eu me encolho, protegendo a barriga. — Eles vão me queimar!
— Dess… — a voz de Vincenzo treme. — Olha pra mim…
Mas eu não consigo.
Porque eu lembro.
Do fogo.
Do cheiro.
Da dor.
Meu corpo sabe.
— É passado — ele insiste, desesperado. — Eles não podem mais te machucar!
MENTIRA.
Outra contração.
Meu corpo se dobra. Parte. Rasga.
— AAAAAAH!
O grito ecoa no salão inteiro.
— Respira, amor! — Vincenzo me prende contra ele. — Lembra… lembra de mim…
Ar.
Não entra.
Ar.
Não fica.
— Inspire… — ele sussurra contra meu ouvido. — Devagar…
Eu obedeço porque não sei mais fazer outra coisa.
Porque, se eu não fizer…
eu morro.
A voz de Liam invade o caos. Estranha. Antiga. Poderosa.
As sombras recuam.
Um pouco.
Só um pouco.
— Eles se foram… — Vincenzo mente de novo.
Mas dessa vez…
eu escolho acreditar.
Abro os olhos.
Antoine está ali.
Pequena. Firme.
— Trouxe as toalhas, mãe.
Como se isso fosse normal.
Como se EU fosse normal.
— Vai nascer… — digo, sem ar.
Outra contração.
Mais forte.
Mais funda.
Meu corpo se abre à força.
— EMPURRA! — Liam ordena.
— EU NÃO CONSIGO!
— CONSEGUE!
O mundo vira dor.
Só dor.
Nada além.
— Tô vendo! — Antoine vibra. — A cabecinha!
— PORRA!
Eu empurro.
Com tudo.
Com ódio.
Com medo.
Com amor.
E então...
Silêncio.
Um segundo inteiro de silêncio.
Até que...
O choro.
Fraco.
Mas vivo.
— Nasceu… — a voz de Vincenzo quebra. — Nosso filho…
Meu corpo desaba.
— Me dá… — eu imploro.
Quando Matteo toca meus braços…
o mundo volta.
Mas não o mesmo.
Nunca mais o mesmo.
Matteo.
Quente.
Escorregadio.
Vivo.
Contra mim.
O mundo para.
De verdade, dessa vez.
Cassie vomita em algum lugar.
Antoine ri.
Liam trabalha em silêncio.
Mas eu só vejo ele.
Meu filho.
Nosso filho.
— Ele venceu… — murmuro.
Vincenzo encosta a testa na minha.
Chorando.
Desmoronando.
— Nós vencemos.
Mentira.
Bonita.
Perfeita.
Porque no fundo…
a guerra só começou.
O choro rasga o silêncio.
Vivo. Forte.
Matteo.
O primeiro a vencer.
Liam o segura por um instante — firme, preciso — antes de romper o último elo que ainda nos ligava.
Nove meses.
Uma vida inteira.
Cassie vira o rosto.
Não aguenta.
Antoine não.
Antoine se aproxima.
Beija a cabeça do irmão sem hesitar, sem medo, como se já soubesse… como se sempre tivesse sabido.
Quando ele finalmente é colocado em meus braços…
o mundo para.
De verdade.
Vincenzo nos envolve.
Chora.
Sem vergonha.
Sem controle.
Beija minha bochecha.
Depois a testa úmida do filho.
Como se precisasse confirmar… que ele está mesmo aqui.
— Nosso filho é italiano, Dess… — a voz dele falha num riso emocionado. — Un vero italiano.
Antoine me olha, vitoriosa.
— Eu não te disse, mamãe?
Eu sorrio.
Cansada.
Inteira.
— Disse, filha… eu te amo.
— Te amo, mãe. Te amo, pai. Te amo, maninho.
Cassie abraça Liam, ainda pálida.
— “Coelhinho”… esquece esse negócio de ser pai, tá? Isso aqui foi… bizarro.
Liam solta um meio sorriso.
Exausto.
Quase… iluminado.
— Veremos.
Eu o observo.
Com mais atenção do que deveria.
— Você é um anjo, Liam…
E por um segundo...
eu vejo.
As asas.
A luz.
E entendo.
— Sem você… eu não teria conseguido.
Ficamos mais tempo do que o previsto na Itália.
Tempo suficiente para Matteo ser registrado.
Italiano.
Não por ter nascido ali.
Mas por sangue.
Por herança.
Por algo muito mais antigo do que qualquer documento.
Isso não deveria ser possível.
Anjos não nascem.
Anjos não têm registros.
Então quem…
registrou Vincenzo?
E desde quando meu marido… pertence à Terra?
Essa pergunta não me deixa.
Mas não é a única.
Finjo dormir.
Matteo ainda quente contra meu corpo.
Respiração pequena.
Frágil.
Perfeita.
E então eu ouço.
— Por que tiraram isso de você? — Liam pergunta, baixo.
Silêncio.
Pesado.
— Porque eu mereci.
A resposta de Vincenzo vem quebrada.
— Eu induzi um homem à morte.
Meu coração falha.
Uma batida.
Talvez duas.
— Isso não é justo — Liam reage, contido, mas firme. — Ele seguia Lúcifer.
— Ainda assim… — a voz de Vincenzo se desfaz — Não cabia a mim decidir.
Fecho os olhos.
Mas agora… não estou fingindo.
— Eu cometi um crime.
Cada palavra cai como pedra.
— E vou pagar por isso.
— Nosso Pai não faria isso — Liam insiste, quase ofendido.
— Fale baixo.
Sempre ele.
Sempre protegendo.
Mesmo quando está afundando.
— Ela não pode saber.
Meu peito aperta.
Tarde demais.
— Já sofreu demais por minha causa…
Queria rir.
Queria gritar.
Mas fico imóvel.
Porque agora eu entendo.
— Não sei como sustentar minha família…
Família.
Ele disse família.
— Quando voltarmos… eu luto.
Claro.
Porque se destruir… sempre foi o plano dele.
— Você não pode — Liam rebate. — Agora você é mortal.
Silêncio.
Curto.
Perigoso.
— Então que seja.
Meu estômago afunda.
— Não vou deixar que sofram por mim.
Idiota.
Maravilhoso.
Idiota.
— Eles vão sofrer muito mais sem você — Liam corta.
E dessa vez…
ele acerta.
Mas Vincenzo…
já decidiu.
Eu sinto.
— Eu já estou perdido mesmo…
E pronto.
É aqui que tudo começa a quebrar.
— Só me resta garantir que eles fiquem bem.
Um sussurro.
Uma sentença.
— Preciso lutar…
A pausa.
A dor.
— Minha cabeça…
Silêncio.
E então Liam, baixo, quase triste:
— Eu não posso te curar…
Mais um segundo.
Pesado.
Irreversível.
— Mas posso aliviar sua dor.
Um clarão corta o quarto mergulhado na penumbra.
A luz não entra.
Ela… nasce.
Dele.
De esguelha, observo.
Liam.
As asas abertas.
Brancas demais.
Perfeitas demais.
Erradas.
Vincenzo se aproxima.
E se entrega àquela luz como quem precisa… como quem já não aguenta mais carregar o próprio peso.
Meu peito aperta.
Eu vejo.
Eu entendo.
E finjo.
Bocejo.
Me movo.
— Acordada há muito tempo? — ele pergunta.
— Não. — minto.
Sempre minto quando a verdade pode destruir tudo.
Meus olhos voltam para Liam.
— Eu sempre soube que você era especial…
Especial.
Que palavra patética pra algo tão… errado.
— Cassandra tem sorte.
Ele sustenta meu olhar.
Por um segundo a mais do que deveria.
Quase como um aviso.
Ou um desafio.
A porta se abre com força.
Cassie invade o quarto como um furacão.
— Tenho sorte mesmo!
Ela pula no colo dele.
Beija.
Ri.
Viva.
Inocente.
— Mirei no padeiro e acertei no pacote completo!
Liam sorri.
Mas não responde.
Só observa.
Sempre observando.
— Não deixa ele escapar — digo.
E dessa vez… não é brincadeira.
— Ele é mais do que parece.
— Não entendi…
— Claro que não — Antoine resmunga, subindo na cama. — Você é safada.
Cassie revira os olhos.
O mundo continua girando.
Normal.
Quase.
Vincenzo entra com Matteo nos braços.
Pequeno.
Frágil.
Perfeito.
— Meu maninho… — Antoine se inclina, encantada. — Queria ter saído da sua barriga também, mãe.
Sorrio.
Cansada.
— Você já saiu do meu coração.
Ela faz careta.
— Não é a mesma coisa.
Claro que não.
Nunca é.
— Mas a minha cor é diferente…
E lá vem.
— Eu não gosto.
O ar muda.
Sempre muda quando ela fala assim.
— Deveria gostar — Liam diz, calmo demais. — Sua raça sobreviveu a tudo. Isso não é fraqueza. Gostaria de ter uma filha como você.
Antoine o encara.
Como se visse algo além.
— Mas não vai poder…
— O quê?
— Ter filhos.
Silêncio.
Pesado.
Desconfortável.
Cassie ri.
Forçado.
— Eu sou fértil, garota!
— Se tiver… vai sofrer.
Ela dá de ombros.
Como quem comenta o tempo.
Meu estômago afunda.
— Para, filha.
— Mas mãe...
— Para.
Ela hesita.
Mas ainda tenta:
— Foi o tio Miguel que...
— Cala a boca! — Vincenzo explode.
E o quarto quebra.
Antoine se encolhe contra mim.
Matteo chora.
E eu…
fico olhando.
Porque esse não é o homem que eu amo.
Ou talvez seja.
E eu só demorei pra ver.
— Chega desse “outro lado”! — ele continua, descontrolado. — Vamos viver o agora!
Agora.
A palavra mais mentirosa que existe.
— Eles podem ter filhos! — ele insiste. — Nada impede!
Ele olha pra mim.
Esperando aprovação.
Encontrando desprezo.
— Você não queria que eu agisse como um pai?
— Como um pai, sim — digo baixo. — Não como um idiota grosseiro.
Silêncio.
Corte seco.
— Sai, Vincenzo.
Ele tenta falar.
Falha.
Sai.
Liam o leva.
Cassie beija Antoine.
Sem saber o que fazer com aquilo tudo.
— Não chora… tudo muda.
Mentira número dois do dia.
A porta fecha.
Finalmente.
Só nós.
— Tem certeza que foi o tio Miguel? — pergunto.
— Não sei… — ela dá de ombros. — Era parecido.
Pausa.
— Mas as asas eram escuras.
Pronto.
Aí está.
O mundo inclina.
Devagar.
— E o que mais ele disse?
— Não vou contar.
— De dedinho?
Ela hesita.
Depois aceita.
— De dedinho.
Enroscamos os dedos.
Pacto selado.
Erro cometido.
— Ele disse que vai ficar de olho no papai…
Meu coração falha.
— E quando ele lutar de novo…
Respira.
Respira.
Respira.
— …vai tirar a alma dele.
Silêncio.
Pesado.
Final.
— Ele pode? — ela pergunta.
Eu olho para Matteo.
Depois para ela.
E minto.
De novo.
— Não pode.
Mas dessa vez…
nem eu acredito.
— Quando ele aparecer — digo, firme — Chama o tio Miguel.
Ela assente.
Confia.
Crianças sempre confiam.
Coitadas.
Mais tarde, no avião…
Vincenzo dorme ao meu lado.
Pela primeira vez em dias.
Em paz.
Eu observo.
Gravo.
Memorizo.
Porque algo em mim já sabe.
Promessas feitas em silêncio… são as que mais doem quando quebram.
“Não vou deixar que tirem você de mim.”
Dessa vez…
não é uma promessa.
É uma guerra.
Um dos momentos mais silenciosos… e mais intensos… é quando amamento meu filho.
Não permito ninguém no quarto.
Esse tempo é nosso.
Só nosso.
Enquanto Matteo mama, eu o embalo na cadeira de balanço, deixando que antigas canções escapem da minha memória como sussurros de outra vida. Canções que minhas irmãs cantavam… antes de serem queimadas por curarem quem precisava.
Às vezes, sinto como se minhas lembranças não fossem só minhas.
Como se algo em mim tivesse despertado.
Como se eu tivesse vivido… muito mais do que deveria.
Deito Matteo no berço com cuidado, passando a mão por seu rostinho sereno.
— Que o Criador te proteja…
Minha voz sai baixa. Quase uma prece. Quase um pedido desesperado.
Porque lá fora…
o mundo continua desmoronando.
Fecho a porta atrás de mim.
E caminho direto para o caos.
Vincenzo está na poltrona.
Prostrado.
Sorrindo… como se ainda fosse inteiro.
Mas eu vejo.
Os tremores.
A rigidez.
A dor escondida atrás dos olhos.
Corro até a cozinha. Minhas mãos já sabem o que fazer antes mesmo de eu pensar. As ervas. A água. O fogo.
Controle.
Eu preciso controlar alguma coisa.
— Toma.
— Não quero, Dess.
— Não estou pedindo.
Ele cede.
Sempre cede.
E isso só piora tudo.
— Hm… tá bom. O que tem aqui?
— Ervas… e o desespero de uma mulher que não aceita te perder.
Ele ri.
E eu quase quebro.
Ajoelho diante dele.
— Desiste de morrer… pelo menos por enquanto.
Minha voz falha, mas eu continuo.
— A gente precisa de você. Eu preciso.
Sento no colo dele, forçando seus olhos a encontrarem os meus.
— Esquece as lutas… ou eu vou me esquecer de você.
— Você parece minha mãe.
— Desde quando você tem mãe?
Silêncio.
Erro.
Grande erro.
— Desde que comecei a viver entre humanos… à sua procura.
Meu estômago revira.
— Tem… outra?
Ele fala como se estivesse dizendo que esqueceu de comprar pão.
E eu sinto…
o chão ceder.
— E você nunca me contou?
— Calma…
Não.
Não tem calma.
Nunca tem.
Impulsiva, apoio minhas mãos na cabeça dele e fecho os olhos.
As palavras saem de mim como se já existissem.
Antigas.
Erradas.
Poderosas.
Quando abro os olhos…
ele não sente mais dor.
E agora sou eu que estou assustada.
— Desde quando você faz isso, Dess?
— Desde quando você resolveu brincar com a minha memória?
Minha voz sai baixa.
Perigosa.
— O que aconteceu naquele castelo?
Silêncio.
— Por que eu vi você… com outra?
Ele me olha.
E, por um segundo, parece… quebrado.
— Era você.
Simples assim.
— Sempre foi você.
O ar pesa.
— Seu rosto muda… sua alma não.
Eu o beijo.
Porque é mais fácil do que pensar.
— Então não luta.
Direto.
Sem espaço pra fuga.
— Eu ouvi vocês no hospital.
Ele fecha os olhos.
E eu já sei.
— Qual foi o diagnóstico?
Silêncio.
— Vincenzo.
— Encefalopatia Traumática Crônica.
Pronto.
Agora o mundo não inclina.
Ele despenca.
— Não tem cura.
Meu peito aperta tanto que respirar vira um esforço consciente.
— Tem que ter.
— Não tem.
— TEM!
Minha voz explode antes de mim.
Levanto.
Ando.
Volto.
Perco o controle.
— E você ainda quer lutar!? Quer acelerar isso!?
Ele tenta manter a calma.
E isso me irrita ainda mais.
— Eu preciso.
— EU DOU UM JEITO!
— Eu também.
— NÃO!
Minha voz ecoa.
Alta demais.
Errada demais.
— Vai acordar nosso filho.
— EU NÃO ME IMPORTO!
E é mentira.
Mas eu tô com medo demais pra ser coerente.
Ele me segura.
Forte.
Firme.
— Nossos filhos precisam de você.
— De você também!
Agora eu caio.
De joelhos.
Sem orgulho.
Sem defesa.
— Eu amo seus sorrisos…
Minha voz quebra.
— Não me deixa sem eles…
Silêncio.
Pesado.
Final.
As mãos dele tremem quando me levantam.
— Não vou lutar.
Promessa.
E eu odeio o quanto eu quero acreditar.
— Promete?
— Prometo.
Encosto meu rosto no ombro dele.
E sussurro, derrotada:
— Você perdeu tudo por mim…
Ele responde sem hesitar:
— Eu escolheria perder de novo.
— Você perdeu tudo, Vincenzo. Tudo. Seus bens… sua saúde… suas asas… sua imortalidade. Por mim. Isso não é justo. Liam concorda comigo. Que tipo de pai faz isso com um filho?
— O Meu Pai é justo. — Ele responde calmo demais. — Não foi Ele. Fui eu. Existem leis… e eu quebrei uma.
— E agora você paga com uma doença incurável?
— O nosso Deus… — ele corrige, com paciência que me irrita — Não tem nada a ver com isso. Ele permitiu que tudo acontecesse. Assim como permitiu que eu te encontrasse… e te amasse.
Eu rio.
Seco.
Sem humor.
— Nunca. Eu nunca vou aceitar um Deus que tira você de mim.
— Eu ainda estou aqui.
Isso me quebra mais do que qualquer coisa.
— Não blasfema, Dess. Ele está ouvindo.
— Que ouça.
Minha voz falha, mas eu não recuo.
— Eu fui queimada viva… e nem assim Ele me levou. Não vai ser agora.
Silêncio.
Pesado.
Errado.
— Como você sabe disso…?
— Lembranças.
Sempre elas.
— Cadê sua mãe? Eu quero conhecer essa mulher. Talvez ela possa te curar.
— Esquece isso.
Eu encaro.
Cansada.
Vazia.
— Me faz um favor?
— Qual?
— Cala a boca… e me abraça.
Ele ri.
E, por alguns segundos…
eu consigo respirar.
— Feijão, arroz, bife e batata frita… de novo?
— De novo não. Novamente.
Minha voz já sai atravessada.
Olho pra Antoine.
E desconto nela o que não consigo segurar.
— Tem gente que não tem nem isso pra comer. Come e pronto.
— Dess…— Ela não fez por mal.
— E você? Vai começar a agir como pai quando?
O silêncio corta a mesa.
— Você educa de um jeito… eu de outro.
— Você não educa. Você distrai. Eu viro a vilã.
— O que você tem hoje?
— Nada.
Mentira.
Eu tô no limite.
— Só tô cansada.
— Matteo tá bem?
E aí…
alguma coisa em mim estoura.
— Tá ótimo! Perfeito! Mama o tempo todo, acorda de madrugada, não me deixa dormir, não me deixa respirar, não me deixa existir!
Minha voz sobe.
Eu não consigo parar.
— Todo mundo pergunta do bebê! Ninguém pergunta da mãe!
Silêncio.
Pesado.
Vergonhoso.
— Eu perguntei.
Pronto.
Agora eu quero desaparecer.
Engulo seco.
Não desce.
Nada desce.
Largo os talheres.
Levo as mãos ao rosto.
— Desculpa…
Minha voz desmonta.
— Eu não sei o que tá acontecendo comigo…
Antoine encosta em mim.
Pequena.
Doce.
— Tá tudo gostoso, mãe.
E isso piora tudo.
— Eu posso comer isso todo dia.
Eu rio.
Mas dói.
— Tá esplêndido, né, pai?
— Tá sim.
O sorriso dele…
aquele maldito sorriso…
— Vou tentar ajudar mais, Dess.
— Não precisa.
Automático.
Defensivo.
— Eu dou conta.
— Por que não me acorda de madrugada?
— Porque você não acorda.
— O remédio…
— Antoine.
— Volta a comer.
— Ela tá certa.
Ele suspira.
— Esse remédio me derruba.
— E você quer ajudar como, Vincenzo?
Agora eu já tô irritada de novo.
— Sua cabeça explode se você não dorme!
— Então eu sou inútil.
— Eu não disse isso!
— Mas pensou.
Silêncio.
Outro.
— Me deixa comer em paz…
Choro.
De novo.
Que saco.
O choro de Matteo corta o ar.
Eu levanto.
— Eu pego ele.
— Não!
Rápido demais.
Alto demais.
— Você não sabe lidar!
Pronto.
Falei.
Erro.
— Eu sou o pai.
Baixo.
Controlado.
Pior ainda.
— Ainda estou vivo.
Eu travo.
— Volta pra mesa.
— Não…
— Agora.
O grito.
Eu recuo.
Antoine segura minha mão.
— Não deixa ele nervoso, mamãe…
Eu volto.
Como uma criança.
Sentada.
Pequena.
Inútil.
Vincenzo volta com Matteo no colo.
Sorrindo.
Como se nada tivesse acontecido.
— Agora é comigo, garotão.
Eu vejo.
A cena.
A família.
O que deveria ser perfeito.
E eu…
desabo por dentro.
Antoine me abraça.
Diz que vai passar.
Vincenzo concorda.
Matteo sorri.
Como se acreditasse nisso.
Como se fosse verdade.
Mas não era.
Sou forte ao lidar com a doença de Vincenzo e seus cuidados. Vincenzo me dispensou do trabalho na academia, o que me deixou ainda mais solitária. Matteo e eu guardamos um segredo sujo que varro para debaixo do tapete todas as noites, antes de Vincenzo chegar em casa e me abraçar com ternura.
Não há vestígios de desejo em seu abraço.
Ressentida, afasto-me dele e de Matteo, que ri em seu colo como se não tivesse chorado o dia inteiro ao meu lado. Por mais que eu lhe dê o que há de melhor em mim, meu filho parece me odiar.
Gostaria de confessar alguns segredos a Vincenzo, mas ele não me compreenderia. Nem eu me entendo.
Como explicar ao pai de um filho perfeito, lindo e fofo, que sua mãe tem ímpetos de machucá-lo em seu berço?
Bebês choram. Disso eu sei. Mas meu cérebro — ou seja lá o que for — não aceita isso como verdade.
Sozinha com Matteo, recuo e imploro ao Crucificado, pregado acima do berço, que me ajude a não ceder à vontade de beliscar a pele fina e delicada do ser que mais amo no mundo.
Talvez eu esteja ficando louca.
E não posso contar nada a ninguém.
Nem mesmo a Doc, que nos visita na noite de hoje.
O que ele diria?
“Filha, machucar meu afilhado? Que diabos você tem na cabeça?”
— Adessa, meu anjo… você me parece muito cansada. Matteo tem dado trabalho?
— Não, Doc. Nenhum. — Minto. — Eu não tenho dormido muito bem. É só isso.
— Sabe que pode contar comigo, né?
— Sei sim, Doc.
Mas você jamais aceitaria o fato de eu querer machucar meu filho, ainda que o ame profundamente.
Como eu posso pedir socorro?
Eu quero gritar por socorro.
Não sei mais quem eu sou.
— Pra mim? Tem certeza que é pra mim, Doc?
— Filha…
Um choro súbito e compulsivo me toma. Agarro-me ao presente embrulhado com papel florido como quem se agarra a um bote salva-vidas.
— Adessa, não é nada demais. É só uma lembrança.
— Ela tem estado assim, Doc. Muito emotiva. — comenta Vincenzo, embalando Matteo. — Devem ser os hormônios.
— Devem ser os hormônios.
Como uma criança em dia de Natal, rasgo o papel e, exultante, comemoro:
— É pra mim! É um presente pra mim! Só pra mim!
— Dess…
— Uma caixa de sabonetes, Vincenzo! Sabonetes pra mim!
— Que bom… — diz ele, sem convicção.
— Enfim alguém se lembrou de que eu existo! Eu ainda sou Adessa! Não sou só a mãe do Matteo!
Rio. Alto demais. Estranho demais.
E me isolo no quarto do meu filho até Doc ir embora.
— São tão cheirosos… — digo, inspirando o aroma quando Vincenzo entra e se senta no tapete.
— Dess… quer conversar comigo?
— Do que você tá falando? Não me olha assim.
Com cuidado, ele se aproxima, tira a caixa das minhas mãos e me conduz até a cadeira de amamentação.
— Com quem deixou nosso filho?
— Antoine está com ele. Está tudo bem.
Ele se ajoelha à minha frente.
— Precisamos conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
Volto a chorar.
— Eu sou um monstro, Vincenzo.
— Não fala isso. Me conta.
— Eu tenho desejos… quando você não está.
— Que tipo de desejos?
— Eu… — engulo seco — Eu tenho vontade de machucar nosso filho.
O silêncio pesa.
— Continue — ele pede, calmo demais.
— Eu penso em beliscar… em xingar… e depois me odeio. Eu cuido, eu amo, eu faço tudo certo… mas isso não para. Eu estou doente.
— Você não é um monstro.
— Vai tirar ele de mim?
— Nunca.
A palavra me desmonta.
— Você é a melhor mãe que eu conheço.
— Então o que é isso?
— Pelo pouco que estudei… parece depressão.
— Não. Eu não fico na cama. Eu não quero morrer. Eu só… quero que ele pare de chorar.
— Depressão pós-parto, Dess. É mais comum do que dizem.
— Você me odeia?
Ele me puxa para o colo.
— Eu te amo por você estar lutando contra isso.
— Eu tenho medo de ficar sozinha com ele.
— Então você não vai ficar.
— Não é justo… você já está doente…
— A gente se ajuda.
Eu cedo. Porque não tenho mais força.
— Como você consegue ser assim?
— Eu não sou mais um anjo.
— Ainda é pra mim.
Aproximo meu rosto do dele.
— Eu não me apaixonei por um anjo. Eu me apaixonei por você.
— E eu ainda estou aqui.
— Você não me procura mais…
Ele me beija.
De verdade.
Como antes.
Minhas mãos se agarram nele como quem se salva de um naufrágio.
— Respira — ele sussurra.
— Não quero.
Ele ri, baixo, cansado… mas vivo.
E, pela primeira vez em dias, eu me sinto viva também.
Ele me pega no colo, me leva até o quarto, fecha a porta com o pé.
— O que você vai fazer? — pergunto, sem fôlego.
O olhar dele responde antes da boca.
— Te lembrar quem você é.
E, por alguns instantes, o mundo lá fora deixa de existir.
Meu corpo sacoleja sobre o colchão enquanto ele me toma com urgência.
Sorrindo, cravo minhas mãos nos ferros da cabeceira e procuro sua boca.
— Te amo.
— Pra sempre?
— Sempre, idiota.
— Antoine vai ouvir…
— Não me atrapalha.
— Matteo vai chorar.
— Dess, cala a…
Um gemido interrompe a frase. Ele desaba sobre mim.
Ofegante.
Quente.
Presente.
— Acabou? — pergunto, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Desculpa… — ele ri, meio sem graça. — Essa foi rápida.
— Rápida?
— Da próxima eu compenso. Hoje à noite não tomo o remédio.
Isso acende algo em mim.
— Não?
— Se prepara.
Eu rio.
De verdade.
E estranho o som do meu próprio riso, como se não me pertencesse mais.
Ele se ajoelha ao lado da cama, ainda sem fôlego.
— Eu vou cuidar de você, Dess. Aguenta firme.
— Eu tô tentando.
— A gente vai sair dessa.
— Vamos precisar de um milagre…
— Ele vem.
Ele sempre acredita.
Eu não.
— Vou tomar um banho e voltar pro trabalho.
— Posso ir com você?
O sorriso dele muda.
— Como diria Antoine…
— Safada.
Antes que eu consiga responder, a campainha toca.
Insistente.
Errada.
Vincenzo veste a calça rápido e caminha até a sala.
Eu puxo a camisa dele sobre o corpo e o sigo, já com um incômodo estranho crescendo no peito.
Antoine corre.
Rápida demais.
— Eu já te pedi pra não abrir a porta sem saber quem é!
— Mas eu sei!
Eu paro.
Ela está olhando… pra alguém.
Alguém que eu ainda não vejo.
Então vejo.
E meu corpo recua antes mesmo de eu entender por quê.
Antoine sorri.
Corre.
Se joga nos braços da mulher.
— Vovó!!!
O mundo para.
— Vovó??? — minha voz falha.
Vincenzo me segura por trás.
Firme.
Quente.
Tranquilo demais.
— Nosso milagre chegou — ele sussurra.
Milagre.
Claro.
Porque nada que entra assim… sem bater direito… pode ser simples.
Celeste trouxe alegria à nossa casa.
Alegria demais.
Vincenzo ri mais.
Dorme melhor.
Quase não reclama da dor.
Ela cozinha.
Organiza.
Ocupa espaços que não eram dela.
E ninguém parece perceber.
Ninguém além de mim.
Talvez fosse ciúme.
Seria mais fácil.
Mas não é.
Se eu não confiasse cegamente em Vincenzo, eu diria que há algo errado na forma como ela o toca.
Na forma como olha pra ele.
Na forma como ele… não percebe.
Ou finge não perceber.
Ele permanece perto de mim quando ela está por perto.
Como se soubesse.
Como se sentisse.
Ou como se quisesse me acalmar.
Não funciona.
— Não posso morar aqui — diz ela, sentada à mesa. — Seria inconveniente.
Concordo em silêncio.
Sem coragem de olhar pra ele.
A mesa.
Minha cozinha.
A comida.
Tudo feito por ela.
Antoine ri, cercada por presentes caros demais pra nossa realidade.
Matteo está em meus braços.
Seguro demais.
Perto demais.
— Você não acha, querida?
Eu demoro a entender que ela fala comigo.
— Eu?
— Não seria melhor colocar o bebê no berço? Ele dorme como um anjinho…
— Não.
A palavra sai baixa.
Mas firme.
— Prefiro ele aqui.
Algo no olhar dela muda.
Muito pouco.
Quase nada.
Mas eu vejo.
— Mães… — ela sorri — Sempre tão possessivas.
Inclino levemente o corpo.
Protegendo Matteo.
Sem perceber que faço isso.
— E depois… eles crescem. Voam.
— Vc não é a mãe de Vincenzo.
O silêncio cai pesado.
Ela ergue uma sobrancelha.
Elegante.
Controlada.
Perigosa.
— Sou, sim.
— Sempre estivemos juntos.
— Em todas as jornadas.
Eu sustento o olhar.
— Você o pariu?
— Dess! — Vincenzo me corta.
Mas eu já fui longe demais.
E Celeste…
…sorri.
— Não, mas…
— Você o amamentou?
— Para, Dess…
— Então não é mãe dele.
O silêncio pesa.
Celeste sorri.
Não é um sorriso bonito.
É calculado.
— Existem muitas formas de ser mãe — diz, tranquila demais. — Antoine não saiu de você… e ainda assim é sua filha. Estou errada?
A resposta não vem.
Fica presa na garganta.
— Não…
Ela desliza a mão sobre a de Vincenzo.
Natural demais.
Íntima demais.
— Nós sempre estivemos juntos, não é?
Vincenzo hesita.
Um segundo.
Pequeno.
Mas eu vejo.
— Sim… — responde, baixo. — Sempre pude contar com você… Suriel.
Suriel.
O nome pesa na mesa.
— Continue contando — ela diz, suave.
Eu abaixo o olhar pro prato.
— Suriel… Cassiel… Miguel…
— Pastel, papel — Antoine completa.
E eu rio.
Alto.
Fora de hora.
Forte demais.
Matteo desperta.
Vincenzo me lança um olhar estranho ao tirá-lo do meu colo.
— Deixa ele aqui — diz Antoine. — Ele tá rindo.
— Peça desculpas à sua avó.
— Por quê? — eu corto, ainda rindo. — Foi uma rima, pelo amor de Deus.
— Não é você que me pede pra educar nossa filha?
— Quando ela faz algo errado!
— Não… — ele leva a mão à cabeça.
A dor volta.
Na hora.
— Tá com dor?
Ele ignora.
— Desculpa, filha — diz pra Antoine.
Eu não aguento.
Puxo Matteo de volta.
Sem pedir.
Sem pensar.
E saio.
Tranco a porta do quarto.
O mundo fica do lado de fora.
Sentada na cadeira, amamento Matteo aos prantos.
— Deixa eu entrar — a voz de Vincenzo vem baixa, do outro lado.
— Agora não!
— Dess…
— Me deixa!
Silêncio.
Então… outra voz.
Baixa.
Suave.
Errada.
— Deixe ela, filho. São os hormônios… já passamos por isso antes.
Antes?
Meu corpo trava.
— Lembra? — ela continua.
— Sim… — ele responde.
Os passos se afastam.
E eu fico ali.
Sozinha.
Com Matteo.
E aquela frase martelando.
“Já passamos por isso.”
— O que você me diz? — olho pro Crucificado acima do berço. — Confio nela ou não?
Silêncio.
Como sempre.
— Claro… fica aí, calado.
Volto a chorar.
Baixo.
Cansado.
Perdido.
Dias depois, Vincenzo insiste.
— Ela quer ajudar.
— Eu também “quero ajudar”, Vincenzo. E nem por isso saio invadindo a casa dos outros.
— Dess…
— Quando foi que ela cuidou dos nossos filhos?
Ele trava.
De novo.
— Quando… por motivos que não vêm ao caso…
— Vêm sim.
— Eu preciso dar aula.
— Não precisa de porra nenhuma! — seguro Matteo com mais força. — Me responde!
Ele olha pro ringue.
Pros alunos.
Pra saída.
— Em casa a gente conversa.
Aproximo meu rosto do dele.
— Eu vou te esperar.
Ele sorri.
Sempre esse sorriso.
— Te amo, doida.
Como se resolvesse.
Não resolve.
Nunca resolve.
Saio da academia com Matteo no carrinho.
O sol incomoda.
As pessoas incomodam.
As mães… olhando.
Cochichando.
Sempre cochichando.
Eu vejo.
Eu sei.
Quando chego no colégio, já estou no limite.
E então vejo.
Antoine.
Cercada.
Crianças puxando sua mochila.
— Esquisita!
Ela não reage.
Só olha pro chão.
Algo em mim estoura.
Eu entrego o carrinho pra professora sem nem explicar.
— Segura ele.
E vou.
Não penso.
Não paro.
Eu avanço.
Como um animal.
— Encosta nela de novo pra ver!
Eles recuam.
Riem.
Errado.
Muito errado.
Eu grito.
Avanço.
Eles correm.
Tropeçam.
Fogem.
E eu continuo.
Até perceber que estou no meio da rua.
Descalça.
Gritando.
Parando carros.
O coração saindo pela boca.
Respiração falhando.
Pronta pra atacar de novo.
Então…
um toque leve.
Antoine.
Me entrega meus chinelos.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se fosse normal.
— Valeu…
Calço os chinelos sem tirar os olhos delas.
Dos cochichos.
Dos sorrisos tortos.
Dos julgamentos mal disfarçados.
— Se isso acontecer de novo… — minha voz sai baixa, mas firme — A porrada vai estancar.
O grupo recua.
Uma a uma.
— Entenderam ou eu preciso desenhar? — avanço um passo. — Falem de mim o quanto quiserem… mas não encostem nos meus filhos.
Um grunhido escapa.
Nem eu sabia que sabia fazer aquilo.
Antoine puxa meu braço.
— Vem, mãe… já deu.
— Seu irmão!
O mundo volta.
Errado.
Rápido demais.
Corro até o refeitório.
— Cadê ele?
A professora empalidece.
— A… a avó dele levou…
— COMO ASSIM!?
Minha cabeça explode.
O diretor tenta me segurar.
Erro.
Chuto a canela dele sem pensar.
Ele grita.
Eu nem olho.
Agarro a professora pelos braços.
Sacudo.
— EU PEDI PRA VOCÊ OLHAR MEU FILHO!
— Desculpa! — ela chora. — Ela disse que era mãe do Vincenzo… parecia…
Não escuto o resto.
Não consigo.
O mundo vira um ruído só.
Puxo Antoine.
Saio.
Volto.
Não sei nem por quê.
Só sei que volto.
Encosto minha testa na dela.
— Se acontecer alguma coisa com meu filho… eu acabo com você.
Solto.
E corro.
— MATTEO!
A rua gira.
As pessoas param.
Olham.
Julgam.
Sempre julgam.
Antoine aperta minha mão.
— OLHA ELA LÁ, MÃE!
Eu vejo.
Do outro lado.
Ela.
Curvada sobre o carrinho.
Tranquila.
Como se nada tivesse acontecido.
— VAGABUNDA!
Eu atravesso.
Carros freiam.
Buzinam.
Xingam.
Não escuto nada.
Só vejo ela.
Só vejo o carrinho.
Empurro.
Com força.
Ela bate na lateral da carrocinha.
O mundo trava.
Eu olho.
Procuro.
E então…
Matteo.
Sorrindo.
Inteiro.
Seguro.
Minhas pernas cedem.
Caio de joelhos.
— Graças a Deus… — minha voz quebra — Você tá bem…
— Você ficou louca!?
Não respondo.
Nem olho.
Só seguro meu filho.
Como se fossem arrancar ele de mim de novo.
E então ela fala.
Calma.
Suave.
Controlada.
— Não se preocupe — diz ao homem que a ajuda. — Ela anda um pouco nervosa… coisa de mãe.
Coisa de mãe.
Claro.
Ela reduz tudo a isso.
Eu me levanto.
Ainda tremendo.
Sem olhar pra trás.
— Antoine. Mochila. Agora.
— E a vovó, mãe?
Minha voz sai em forma de corte.
— Quero ela bem longe da nossa casa.
— Não quero falar com você, Vincenzo! Me deixa em paz! Estou amamentando nosso filho!
— Eu notei.
De esguelha, acompanho seus passos inquietos pelo quarto. Ele vai de um lado ao outro, como um animal preso, procurando palavras que não ferissem mais do que já ferem.
Para diante de mim. E explode.
— Dess! O que foi aquilo hoje!? Você surtou? Agrediu a minha mãe!?
— Não vou falar nada. — sussurro, amarga, sem olhar pra ele. — Eu tô amamentando meu filho que foi sequestrado hoje. Mas disso você não falou.
— Dess!
— SAI DO QUARTO! AGORA! — rosno, erguendo os olhos, tomada por um ódio que não sei mais controlar. — NÃO ESTRAGA ESSE MOMENTO!
— Não grita. Nosso filho não merece…
— O quê!? Ter a mãe que tem!? A mãe louca que surta na rua!? É isso!?
Matteo se assusta. Chora.
— Olha aí! — acuso, com a voz quebrando. — Ele tá chorando! Satisfeito!? Vai lá! Volta pra sua mãe! Aceita a versão dela e deixa a gente em paz!
O silêncio que fica quando ele sai é pior que qualquer grito.
A porta bate.
E algo em mim quebra junto.
— Shhh… amor… — beijo a testa de Matteo, tentando juntar os pedaços de mim mesma enquanto ele volta a mamar. — Não vou deixar que tirem você de mim. Não vou… não quero enlouquecer…
— Não vai.
O mundo para.
Abro os olhos devagar.
Ela está sentada diante de mim.
Celeste.
Pela primeira vez… sem o sorriso perfeito.
— Fui estúpida. — diz, simples. — Queria te ajudar. Afastar meu neto daquela confusão… e fiz tudo errado.
Fico em silêncio. Observando. Esperando.
— Eu me distraí… — continua, com uma calma que me irrita. — As árvores… o caminho… quando percebi, já estava longe demais. Sem você. Sem pensar.
Pausa.
— Egoísta. — conclui, num sussurro.
Não desvio os olhos.
Ela também não.
— Começamos mal. — sua voz suaviza. — Invadi sua casa… sua vida… sem mostrar o quanto eu quero te ajudar.
Engulo seco.
— Não posso dizer que já senti o que você sente… — inclina levemente a cabeça — Mas já te vi sentir isso.
Meu peito aperta.
— Quando?
— Em outras vidas. — responde, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Outras versões suas. Você sempre o amou. Sempre lutou por ele.
Uma pausa.
— E eu… estive lá.
Algo nela vacila.
Uma emoção quase real.
— Me deixa tentar de novo, Adessa. Eu errei com você.
Olho pra Matteo. Tão pequeno. Tão vulnerável.
— Eu perdi a cabeça… — confesso, rouca. — Quando não vi meu filho…
— Eu faria pior.
Direto. Sem hesitar.
Isso me desmonta mais do que qualquer pedido de desculpa.
— Quero ver meu Vincenzo feliz… — minha voz falha. — Ele precisa de paz… pra se curar…
— Talvez eu possa ajudar com isso.
Talvez.
Não “vou”.
Talvez.
Anotado.
— Tudo o que eu quero é que ele viva… — sussurro. — Fique com a gente. Sozinha… eu não vou conseguir.
Ela se aproxima.
Devagar.
Como quem não quer assustar um animal ferido.
Enxuga minhas lágrimas com a ponta leve de sua echarpe.
Elegante demais pra alguém tão… perigosa.
— Juntas… vamos curar Vincenzo. — diz, firme. — Eu prometo.
Promessa.
Palavra bonita. Vazia quando vem de quem sabe usá-la.
— Confia em mim?
Levanto.
Coloco Matteo no berço.
Meus olhos sobem… até o Crucificado.
E pela primeira vez…
Ele responde.
Não com voz.
Mas com um peso no peito que não é meu.
Volto pra ela.
— Você ama Vincenzo?
— Amo.
Sem piscar.
— Faria qualquer coisa por ele?
Um microsegundo.
Só um.
— Sim.
Ali.
Peguei.
— Jura por seu Deus?
Um desconforto quase imperceptível atravessa seu rosto perfeito.
Ela sorri.
Recua um passo.
— Não gosto de juramentos.
Claro que não gosta.
— Mas você tem minha palavra.
Pior ainda.
— Vou fazer tudo… pra que ele viva bem com vocês.
Seguro suas mãos.
Frias.
Não de temperatura.
De intenção.
E mesmo assim…
Eu aperto.
Porque quando o desespero chega, a gente até dá a mão pro perigo… se ele prometer salvar quem a gente ama.
Música. Tulipas. Trevos de quatro folhas. Letreiros luminosos tremulando na fachada de um bar.
Antes mesmo que eu leia o nome em neon, ela recolhe minhas mãos entre as dela.
— Em nome do nosso amor por Vincenzo… quer ser minha amiga?
Amiga.
A palavra pesa.
Forço um sorriso.
— Claro. Por ele, eu faço tudo.
Minha voz escurece sem que eu perceba.
— Por ele e pelos meus filhos… eu sou capaz de tudo.
Inclino levemente o rosto.
— Tudo mesmo. Inclusive… matar.
Ela não se assusta.
Nem um pouco.
Só sorri.
E isso me incomoda mais do que deveria.
Tendo ganhado minha confiança… ou algo muito parecido com isso, Celeste passa a viver em nossa casa.
Há um pequeno quarto onde a hospedamos.
Nossa convivência é… pacífica.
Superficialmente.
Porque dentro de mim, algo não para de gritar.
Cuidado.
— Com o quê? — pergunto a mim mesma.
Silêncio.
Sempre silêncio.
Ela cuida de Antoine e de Matteo enquanto trabalho meio período na academia.
Organizo finanças. Papéis. Recebo alunos novos.
E eles… gostam de mim.
O que é estranho.
— Você tem carisma, Adessa. — diz João, encostado na bancada da recepção, entre uma aula e outra. — Você atrai as pessoas. Encanta. Os jovens se sentem à vontade com você… principalmente as meninas.
Ele me analisa com um meio sorriso.
— Você fala como elas. Se veste como elas… e é tão bonita quanto muitas que estão aqui.
— É impressão minha ou você tá paquerando minha mulher?
A voz de Vincenzo corta o ar.
João ri, virando o rosto.
— Tá vendo? — provoca. — Quem hoje em dia fala “paquerar”? Esse cara é velho demais.
— Você nem imagina o quanto. — respondo, seca.
Evito olhar pra Vincenzo.
Desde a última discussão… não existe paz entre nós.
Ele tenta.
Eu não deixo.
Porque toda vez que ele abre a boca…
— Celeste isso… Celeste aquilo…
E eu só consigo pensar:
Você não vê?
Você não vê o que ela fez?
Mas eu fico quieta.
Porque eu também deixei.
Eu também aceitei.
E isso me irrita mais do que qualquer coisa.
— Você costumava gostar desse velho aqui. — ele murmura ao se aproximar. — Mudou de ideia?
Desvio.
Sempre desvio.
— João. Sua aluna chegou.
— Beleza. — ele responde, mas antes de sair, lança um olhar entre nós dois. — Façam logo as pazes… antes que o inimigo aproveite a brecha e… pow.
Aponta com o dedo, simulando um tiro.
— Fui.
O silêncio que sobra depois da piada é pesado.
Denso.
Cheio de coisa não dita.
E Vincenzo… ainda ali.
Esperando.
Deixando-nos a sós, organizo as fichas de inscrição sobre o balcão enquanto sinto o olhar de Vincenzo queimando em mim.
— Não tem o que fazer? — pergunto sem encará-lo.
— Pensei em levar minha esposa pra jantar… mas… — ele morde o canto da boca, segurando um sorriso — Você é tão atraente que talvez eu mude de ideia.
Prendo um riso.
— Melhor ir sozinho. Não saio com desconhecidos há anos… e não pretendo voltar a sair.
Passo pela catraca.
Não dá tempo.
Ele me alcança.
Num salto ridículo, atravessa como se fosse nada e me puxa antes da porta.
E me beija.
Sem aviso.
Sem vergonha.
Sem limite.
Ouço os assobios dos alunos.
Ele ainda tem a cara de pau de agradecer com uma reverência.
Empurro-o com o corpo, já na calçada.
— Isso foi patético! Se queria atenção, era só plantar bananeira!
— Eu não queria atenção, Dess. — ele segura meu braço, sério agora. — Eu quero você de volta. Quero a nossa vida… como era antes.
— Antes da sua mãe chegar?
Ele hesita.
— Sim. Antes dela… antes disso tudo.
Silêncio.
— Vamos jantar juntos?
— Não.
— Por quê?
— As crianças estão com Celeste.
— Justamente! — ele sorri, tentando me puxar. — Falei com Antoine. Estão vendo TV. A gente pode… existir um pouco.
— Não podemos gastar com bobagem.
— Ainda posso pagar um jantar pra minha mulher.
Aquele sorriso.
Maldito sorriso.
— Que tal um cachorro-quente na orla?
Eu reviro os olhos.
— Que orla, Vincenzo? A gente tá longe do mar.
Ele coloca o capacete.
— Não pra quem tem uma moto potente.
Recuo.
— Nem pensar. Você é um louco. Eu tenho dois filhos!
Ele me puxa de volta.
Perto demais.
— Cadê aquela mulher? — sussurra contra meus lábios. — A que fugiu do California… de biquíni, com meu casaco e bota até o joelho… e subiu na minha moto sem pensar?
Engulo seco.
— Morreu.
Baixo.
Cansado.
— Faz tempo.
Ele não responde.
Só me pega no colo.
— Vincenzo!
Tarde demais.
Quando vejo, estou sentada na moto, capacete na cabeça, coração disparado.
E, como uma idiota…
eu deixo.
Me agarro à cintura dele.
Encosto o rosto em suas costas.
O cheiro.
Maçã verde.
Sempre foi esse.
O motor ruge.
E, por alguns minutos…
eu esqueço de tudo.
A brisa muda.
Sal.
Mar.
Ele para.
Eu nem lembro do caminho.
— Quer comer ou prefere ver as estrelas primeiro?
— Ver as estrelas?
Ele ri.
— Burra.
Puxa minha mão.
A areia cede sob meus pés.
E, de repente… estamos ali.
Como antes.
Quase.
Ele me abraça por trás.
Forte.
— Não sentiu minha falta?
Olho pra ele.
Nego.
— Não.
Ele arqueia a sobrancelha.
— Sabe há quanto tempo a gente não…?
— Vinte e oito dias, doze horas e dezessete minutos.
Silêncio.
— Você contou?
— E você não?
Desvio.
— Nunca deixei de te desejar.
— E de me amar?
Respiro.
— Nunca.
O beijo vem pesado.
Cheio de coisa acumulada.
Raiva.
Saudade.
Fome.
Não é só corpo.
É reconciliação bagunçada.
Imperfeita.
Mas real.
Deitada na areia, olhando o céu, ainda tentando recuperar o fôlego, murmuro:
— Já não sou mais a mesma.
— Ainda bem. — ele responde. — Você ficou melhor.
— Essa foi velha.
Ele ri.
— João tem razão. Você tá ultrapassado.
— Ele tem razão em outra coisa também.
Viro o rosto.
— O quê?
— A gente não pode dormir brigado. Sempre tem alguém esperando a gente vacilar.
O peso volta.
— Além de Lúcifer… temos outra?
Ele senta.
Sério.
— Ela não faria isso.
— Você é inocente.
Levanto também.
— Não confio nela.
Silêncio.
— Ela não é minha mãe, Dess. Nunca foi.
— Mas esteve com você.
— Esteve.
— E isso não te preocupa?
Ele não responde.
Erro.
— Ela pode vender o castelo?
— Não. Está no meu nome. Por quê?
— Porque eu venderia tudo por você.
Ele fecha os olhos.
— Não tem cura, Dess…
— Não fala isso!
— Mas...
— Foda-se a ciência! — corto. — Você acredita em milagre ou não?
Ele me encara.
— Acredito.
— Então cala a boca.
Ele sorri.
Cansado.
— Ok.
O som das ondas preenche o silêncio.
— Fala mais dela.
— Você não mandou eu calar a boca?
— Fala, Vincenzo.
Ele suspira.
— Ela foi importante… mas tem defeitos. Como todos nós.
— Anjos têm defeitos?
— Depois da queda… sim.
Um vazio atravessa o olhar dele.
— Antes disso… eu era perfeito.
Me aproximo.
Enlaço seu pescoço.
— Ainda é. Pra mim.
Ele não responde.
Só olha o céu.
— Espero que Ele pense assim também…
— Já pensa. — sussurro. — Fica com a gente.
— Fico.
— Jura que não vai lutar?
— Juro.
Encosto minha testa na dele.
— Não machuca meu coração.
— Nunca.
Inspiro fundo antes de abrir os olhos.
Meu corpo ainda guarda o calor da noite.
Sorrio, automática, procurando por Vincenzo ao meu lado.
Vazio.
Franzo a testa.
Visto uma de suas camisas e sigo até a sala, ainda sonolenta…
Até ouvir.
— Não direi nada a ela. — a voz de Celeste é baixa, controlada. — Fique tranquilo.
Congelo no meio do caminho.
— Tente não se machucar muito, filho.
Meu estômago afunda.
— Precisamos de você… vivo.
Uma pausa.
Curta demais.
— Eileen e eu.
O mundo… inclina.
— Boa luta.
O celular vibra na mão dela.
A resposta vem alta o suficiente pra atravessar a linha.
— Não tente fazer isso, Celeste! Eu te proíbo!
A voz de Vincenzo.
Tensa.
Furiosa.
Desesperada.
Ela desliga.
Sem pressa.
Como se nada tivesse acontecido.
E quando me vê…
sorri.
Perfeito.
Irritantemente perfeito.
— Uau… — comenta, analisando meu estado — Parece que alguém aqui precisa de um bom café reforçado… ao estilo irlandês.
Ela age como se não tivesse acabado de empurrar meu marido pra um ringue.
Como se “não se machucar muito” fosse suficiente.
Como se…
ele fosse descartável.
— É… — giro o pescoço, ouvindo os estalos, tentando organizar meus pensamentos. — Um tradicional Irish Breakfast não seria má ideia.
Minha voz sai… normal demais.
Errado demais.
Antoine está na sala.
Parada.
Segurando Matteo.
Os olhos grandes.
Assustados.
Ela sentiu.
Claro que sentiu.
— Concordo, filha. — Celeste se aproxima.
Abre os braços.
Sem hesitar.
Eu entro.
O abraço é quente.
Confortável.
E, ainda assim…
alguma coisa em mim grita.
— Saudades, tia… — murmuro, sem pensar.
Ela me aperta um pouco mais.
— Eu também senti sua falta, querida.
Mentira.
Ou pior…
verdade demais, do jeito errado.
Seus dedos deslizam pelos meus cabelos.
Lentos.
Quase… possessivos.
— Vai dar tudo certo agora.
Agora.
Não antes.
Não depois.
Agora.
Porque agora… tudo está exatamente como ela quer.
Ergo o olhar.
Antoine continua imóvel.
Me encarando.
Como se quisesse me avisar de algo que não consegue dizer.
E, pela primeira vez desde que acordei…
eu entendo.
Não é sobre ajudar o Vincenzo.
Nunca foi.
É sobre mantê-lo…
vivo o suficiente.
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