CAPÍTULO 18 - AOS SETE



— Sweet tinha cauda e chifres?

— Tinha. E o Vincenzo, asas enormes grudadas nas costas. Não ri.

— Perdão. — Aiden sorri. — É que a sua versão dos fatos é… interessante.

Meu estômago afunda. O peito aperta.

— O que tem de interessante em saber que fui traída pela minha melhor amiga e pelo homem que amo?

— Você ainda o ama?

— Sim. — Baixo a cabeça. — Mas vai passar. Tudo passa.

— Espero que sim.

— Por quê?

— Porque agora eu…

— Fala! — Minha garganta seca. — Você o quê?

— Você e eu…

— Você é tímido. — Sorrio, apesar do frio na barriga. — Que fofo.

— Não é timidez. É medo de ser rejeitado de novo.

— Eu nunca te rejeitei.

— Mas não me ama.

— Isso leva tempo e convivência, né?

— Desde quando você conviveu com o Vincenzo pra amar daquele jeito?

— Eu não sei… — Suspiro, me jogando no sofá. — É estranho.

— Ele some. E quando você quase segue em frente, ele volta e te enche de esperança.

— Eu sei… — Exalo devagar. — Eu vou mudar. Eu preciso.

— Eu te ajudo.

— Como?

— Calma. Não vou te tocar. Prometo. — Ele inclina a cabeça. — Quer dar uma volta comigo?

— Volta? Aonde? Eu tô de pijama!

— Tá bonitinha. — O olhar dele pesa. — Mas pode se trocar, se quiser.

— Não quero sair. Antoine tá dormindo.

— Eu só queria ajudar.

— Não faz essa cara de coitado. — Me estico no sofá. — Quanto você acha que custa essa poltrona onde tá sentado?

Ele ri.

Hold your horses, baby.

— Oi? Não entendi!

— Gíria irlandesa. Tipo “vai com calma”.

— Ah… — Deito de bruços, levantando as pernas. — Gostei. Mas entregou a idade.

— Eu não preciso esconder minha idade.

— Não? Quantos anos você tem?

— Mais do que você pode imaginar…

Engulo seco. O tom dele muda o ar da sala.

— Tá. — Pigarreio. — E o cavalo?

Hold your horses?

— Isso. Já te disse que gosto do seu sotaque?

— Já.

— Diz.

Ele me encara, sério.

— Você não vai precisar vender nada aqui. Entendeu?

— Sério? — Ironizo. — E como eu pago as contas? Qual parte de “fui demitida do California” você não entendeu?

— A parte em que você pode contar comigo pra tudo daqui pra frente.

Mordo o canto da boca. O calor sobe.

— É sério. Você ainda não entendeu o que eu sinto por você?

— Por que você tá rindo?

— Você tá corando. E isso é… fofo.

Cubro o rosto com a almofada, rindo sem controle.

— Adessa. Olha pra mim.

— Não quero. — Minha voz sai abafada. — Eu não aguento mais lutar.

— Então não luta. — Ele se aproxima. — Se entrega.

Sento de repente, arfando.

— Não posso. Eu tenho uma doença. E não tô tratando.

Ele se senta no tapete, atento.

— Que doença?

— Não! — Rio, nervosa. — Você só pioraria tudo.

— Como?

— Não sorri assim. — Sussurro. — Piora tudo.

— Tudo o quê?

— Se afasta, Aiden. Chega por hoje. Eu quero dormir.

— Não seja estúpida.

— Perdão… — O peso volta ao peito. — Tem coisa demais na minha cabeça. Coisas que eu nem lembro.

— Imagino. — Ele volta pra poltrona. — E a festa da Antoine?

— Um desastre. — Cruzo as pernas. — Peguei dinheiro achando que era da Sweet. Era do Vincenzo. Vou devolver.

— O que falta?

— Você parar de me chamar de “baby”.

— Sempre foi assim…

— Aiden.

— Ok. Amanhã eu passo aqui. Levo você e a Antoine às compras.

— Que compras?

— Da festa.

— Não. Se eu não posso pagar, não tem festa.

— E ela vai pagar por isso?

— Não… — Minha voz falha. — Ela fala dessa festa o tempo todo…

— Já pensou em voltar a…?

— Nunca! — Explodo. — Minha vida como garota de programa acabou! Eu preciso me curar!

Ele observa, calmo demais.

— Então sua doença tem a ver com sexo.

— Ninfomania.

— Transtorno de Desejo Sexual Hiperativo.

— Isso. — Desvio o olhar. — Eu não tô curada. Só parei… por causa da Antoine.

— E agora?

— Agora eu não me sinto forte.

Ele se aproxima, devagar. Meu corpo reage antes de mim.

— Tudo isso te faz querer fugir… do jeito que você sabe.

Assinto, em silêncio.

A voz dele roça meu ouvido.

— E você acha que vai perder o controle?

— Sim.

— Você tem dormido bem?

— Dormido…?

As mãos dele deslizam pelos meus ombros. Eu cedo.

— Tem sentido prazer nos sonhos?

— Sim… — Minha voz quebra. — Na noite em que…

— Continua.

— Eu desliguei o celular…

— E me deixou falando sozinho.

— Não… — Um sorriso escapa. — Eu não lembro direito…

Os dedos dele prendem meus cabelos. A boca roça meu pescoço.

— Você gostou?

— Sim…

— Sonhou com alguém?

— Não foi sonho. Foi… real.

— Ele te perturba?

— Sim. Não posso deixar ele voltar.

— Ele tem nome?

— Tem.

— Diz.

— Não! — Desperto, tremendo. — Não posso falar. É como invocar.

Ele recua, me estudando.

— De onde você conhece esse… alguém?

— Não sei.

— O homem que te tocou.

— Não era um homem.

— Um íncubo?

— Você é direto.

— Sou.

Me encolho.

— Parecia… um demônio. Eu não quero lembrar. Acabou. Vincenzo expulsou.

— Tem certeza?

— Acho que sim.

— Ele não voltou?

Silêncio.

— De quem estamos falando?

— De um demônio… — Minha voz some. — Um demônio devasso.

Ele inclina a cabeça.

— Devasso… ou familiar?

— Aiden!

— Adessa… — Os olhos dele não me deixam mentir.

Engulo seco. Vergonha e excitação se misturam.

— Gostava.

— Você sentia prazer com ele?

— Acho que sim. — Desvio o olhar. — Teve uma época em que éramos só eu e ele. Não existia Vincenzo. Nem Antoine. — Pauso. — Você acredita em demônios?

— Sim. E você?

— Eu vi. Ele é real. — Minha voz falha. — Não lembro como me conectei a ele. Lembro de um grupo de mulheres… diziam que iam me ajudar. Não ajudaram. Fiquei presa por meses. Meses horríveis.

Respiro fundo.

— Vincenzo me encontrou. Me libertou. Talvez seja por isso que eu ame tanto aquele idiota.

— Entendo. — Ele não parece entender nada. — Sempre Vincenzo.

Silêncio.

— Você aceitaria ele de volta?

— Vincenzo?

— Não. O demônio.

— Nunca. — Minha resposta sai imediata. — Ele me destruiu. Eu perdi o controle. Virei outra pessoa. Eu não quero aquilo de volta. Eu quero paz.

— E dizer o nome dele… chama ele.

— Isso.

Ele sorri. E isso me dá mais medo do que qualquer outra coisa.

— Entendi.

Se levanta, beija minha testa e vai embora como se nada tivesse acontecido.

Eu corro até o elevador.

Vazio.

Frio.

Silencioso.

— Aiden!

Só o eco.

O celular toca dentro do apartamento. Volto correndo.

Mensagem.

"Tenha bons sonhos, baby… e, neles, se deixe levar."

Um arrepio sobe pela minha espinha.


Deito ao lado da Antoine.

Tento ler. Não consigo.

Aiden. Sweet. Vincenzo.

Tudo misturado.

Um sopro quente invade o quarto. A cortina dança devagar.

O cheiro dele.

Forte.

Pesado.

Quase sufocante.

— Não me toca… — sussurro.

Abraço Antoine com força.

O cheiro some.

Talvez ela me proteja.

Talvez seja por isso que ela é especial.



De manhã, antes dela acordar, entro na banheira.

Meses.

Meses sem me permitir sentir.

E aí… eu cedo.

Meu corpo responde como se estivesse esperando por isso.

Quando termina, vem o vazio.

E logo depois… a culpa.

Pego o celular.

Gravo.

Mando.

Impulsiva. Idiota.

A resposta vem rápida demais:

"Obrigado. Gosto de te ver assim… livre, leve, solta."

Frio.

Distante.

Como se eu fosse… nada.

Apago a mensagem que eu ia mandar.

Qualquer passo errado… e eu caio de novo.

Abro o site antigo.

“A Rainha da Putaria”.

Meus dedos tremem.

Quase posto.

Quase volto.

Quase me perco.

Antoine.

Paro.

Apago tudo.

— Quando isso vai passar?

Fecho os olhos.

— Eu só quero ser normal.



Dentro do carro, espero.

Impaciente.

Os dedos batem no volante.

Meu maxilar dói.

As crianças saem da escola.

Barulho.

Risos.

Gritos.

Quero silêncio.

Quero paz.

Quero que tudo cale.

Então eu vejo ela.

Antoine.

Sorrindo.

Correndo.

Meu mundo volta pro lugar.

Abro a porta.

— Vem, filha.

Puxo pela mochila, rindo com ela.

— Quem é? É aquele menino?

— Acertou!!! — ela vibra. — Como sabia?

— Intuição…

Mas não é intuição.

É outra coisa.

Algo mais escuro.

Eu sigo o menino com o carro.

Devagar.

Muito devagar.

E então eu vejo.

Cabeça baixa.

Sozinho.

Pequeno demais pra carregar aquilo tudo.

— “Moby Dick.”

Eles empurram.

Ele bate no muro.

O som ecoa dentro de mim.

Algo estala.

O mundo inclina.

Eu freio.

Desço do carro.

— Fica aí, Antoine.

Minha voz não parece minha.

Minha respiração queima.

Volto até o carro.

— Me empresta sua mochila.

— Pra quê, mãe?

— Me empresta!

Arranco das mãos dela.

Agora eu sei exatamente o que vou fazer.

O grito ainda vibra no ar quando o arrependimento vem.

A culpa me corta por dentro.

Com a mochila na mão, beijo a testa de Antoine, tentando consertar o excesso.

— Já volto. Te amo.

— Eu sei. — Ela sorri. — Vai com calma, mãe!

Calma?

Algo antigo desperta.

Não é só proteção.

É fúria.

É instinto.

É… prazer.

Ignoro o aviso.

Corro.



A mochila com as Princesas da Disney acerta um deles nas costas com força. O impacto sobe pelo meu braço, seco, sólido.

Satisfatório demais.

Eles tropeçam, se assustam, fogem.

Eu grito atrás deles, xingando, ameaçando, sem nem saber direito o quê.

Minha voz sai mais grave.

Errada.

O vento levanta meu cabelo, meu corpo inteiro vibra.

Por um segundo… eu gosto.

A gargalhada quase escapa.

Quase.

Antoine bate palmas dentro do carro.

Quando olho pra ela, orgulhosa…

algo em mim se aquieta.

Se for pra ser chamada de louca…

que seja.

Mas ninguém encosta nos meus.

— Fica aqui!

Ordeno ao menino.

Minha voz ainda treme de fúria.

Volto pro carro, mas Antoine já tá abrindo a porta.

— Fica!

Inútil.

Ela corre.

E abraça ele.

Eu travo.

— Filha… não é ele que te chama de “neguinha”?

— Sim.

— Não era pra eu resolver isso?

— Era… — os olhos dela enchem d’água — mas ele tá chorando, mamãe.



O chão inclina.

Ela vê.

Ela sempre vê.

Eu não.

Engulo seco.

Perco.

De novo.

Ajoelho.

— Qual o seu nome?

— Luka. — Ele me olha com medo. — Você vai me bater?

Meu peito quebra em silêncio.

— Nunca.

Toco o rosto dele.

Erro.

Grave erro.

O mundo desaparece.

Não é lembrança.

Não é imaginação.

É invasão.

Eu estou lá.

O apartamento apertado.

A mãe gritando.

“Burro. Inútil.”

A voz entra na minha cabeça como se fosse minha.

Ele se veste devagar.

Se odeia no espelho.

Roupa apertada.

Corpo errado.

Vergonha grudada na pele.

Sinto tudo.

Tudo.

Sozinho, ele liga o computador.

No jogo, ele é outro.

Forte.

Respeitado.

Intocável.

Aqui… ele é alvo.

A geladeira vazia.

O cheiro de óleo velho.

Nuggets fritando.

Tristeza fritando junto.

Mensagens no celular.

“Se mata.”

“Some.”

Meu peito fecha.

Eu não consigo respirar.

A porta abre.

A mãe volta.

Mais gritos.

Mais peso.

Mais abandono.

E então…

a ideia.

O Outro Lado.

A palavra não é pensamento.

É chamada.

Ecoa.

Funda.

Errada.

Dias repetidos.

Ofensas.

Solidão.

Cortes escondidos.

A água do chuveiro levando sangue.

E vergonha.

Eu vejo.

Eu sinto.

Eu quase desmaio.

E então…

ele aparece.

Atrás dele.

Uma sombra.

Densa.

Viva.

Raivosa.

Inclinada.

Sussurrando.

— Corta mais fundo.

Meu corpo congela.

Isso não é da cabeça dele.

É real.



— SAI!

A voz explode.

Gutural.

Violenta.

Algo me atinge.

Sou arremessada.

O asfalto me recebe sem piedade.

O ar some dos meus pulmões.


— Mamãe!!!

A voz de Antoine me puxa de volta.

O mundo volta em pedaços.

Céu claro demais.

Chão duro.

O rosto de Luka.

Assustado.

Real.

— Eu tô bem, filha. — minto, erguendo-me do chão.

Minhas pernas tremem. Enxugo as lágrimas com a barra da camisa e forço firmeza na voz.

— Quer tomar um suco com a gente?

— Pode ser Coca-Cola, tia?

Quase sorrio. Quase desabo.

— Pode. — consinto, com a voz embargando. — Claro que pode.

Observo os traços finos de Luka enquanto ele se diverte ao lado de Antoine. Sentados à minha frente, os dois devoram uma pizza tamanho família, de muçarela.

A cena é comum.

Mas eu não consigo esquecer.

A sombra.
O sussurro.

Meu coração ainda bate irregular.

— O Luka pode ir à minha festa, mamãe!?

Respondo antes de pensar. Antes de calcular. Antes de temer.

— Claro! — apoio os cotovelos sobre a mesa, forçando um sorriso. — Claro que pode!

— Já temos muitos convidados, Luka!

— Temos??? — pergunto, arregalando os olhos. A realidade financeira me acerta como um soco invisível. — Quem???

A cada um dos trinta nomes que Antoine enumera, eu desmorono um pouco mais.

Espanto.
Desânimo.
Desespero.

A conta cresce na minha cabeça como um monstro.

— Tem certeza de que todos irão?

— Sim! E ainda tem a tia Sweet, o tio Doc e o meu pai.

O ar pesa.

— Não mesmo! — protesto.

— Você tem pai? — pergunta Luka, sugando o refrigerante pelo canudo. — Eu não.

Meu coração se parte outra vez.

— Tadinho... — suspira Antoine. — Eu perguntei ao meu tio se ele queria ser meu pai e ele aceitou. Você tem um tio legal?

Observo os dois.

Uma menina que quer salvar o mundo.
Um menino que só quer sobreviver a ele.

E eu…

Eu sei que a sombra ainda está por perto.

— Não tenho, não. Só tenho a minha mãe. — responde ele, amuado.

O jeito como ele diz “minha mãe” me incomoda.

Não é carinho.
É sentença.

— Seu pai morreu? — pergunto, tentando mudar o rumo.

— Não. — ele empurra o copo. — Ele abandonou a gente. Disse que eu não era o filho que ele queria. Minha mãe fala isso todos os dias.

O barulho da pizzaria continua.

Talheres. Risadas. Copos.

Mas eu só ouço aquilo ecoando.

Não era o filho que ele queria.

Engulo seco.

— Sua mãe não sabe o que diz. E seu pai é um idiota. — inclino-me levemente. — Olha pra mim, Luka.

Ele demora.

Quando levanta o rosto, parece esperar outro golpe.

— Você é um bom menino. — digo, firme. — Estudioso. Gentil… bonito.

— Bonito!? — ele solta um riso nervoso. — Eu sou gordo, sem jeito…

As palavras saem prontas. Decoradas.

Velhas.

— Coisas da puberdade. — respondo, mais suave. — É fase. Vai passar.

Aponto para o peito dele. Depois, para a cabeça.

— O que importa tá aqui. E aqui.

Pausa.

— E, enquanto não passa… reage. Não deixa te destruírem.

Minha voz endurece sem que eu perceba.

— Se precisar, luta.

Enquanto falo, flashes me atravessam.

O banheiro.
O vapor.
A lâmina.
A coisa atrás dele… sorrindo sem boca.

— Eles são muitos, tia…

— Nós também. — corto, firme. — Você não tá sozinho.

Pego o celular dele e digito meu número.

— Qualquer problema, me liga.

Digito como se estivesse assinando um pacto.

— Duvido muito! — ele ri, animado. — Depois do que você fez, tia? Foi incrível! Parecia uma deusa de jogo!

O garçom passa. Me olha estranho.

Talvez eu ainda esteja pálida.

— Minha mãe é uma feiticeira do bem! — Antoine anuncia, orgulhosa. — Ela luta contra coisas ruins o tempo todo!

Meu coração falha uma batida.

— Exagero… — murmuro. — Eu só detesto covardia.

Volto a encarar Luka.

— E cuidado com o homem do banheiro.

O nome não é dito.

Mas ele está ali.

Entre nós.

O ar esfria.

— Você… viu ele?

— Vi.

A mão dele treme em volta do copo.

— Ele é meu amigo.

Meu maxilar trava.

— Não é. — digo, firme. — Ele não é um cara legal. Não chama ele de novo.

Minha voz sai mais dura do que eu queria.

— Por favor.

Agora não é pedido.

É ordem.

— Melhor ouvir ela. — diz Antoine, tranquila. — Minha mãe é uma bruxa poderosa…

Luka ri.

Mas é um riso nervoso.

— Tá bom… eu não falo mais com ele.

Brincar, ele chama.

Sinto um aperto no peito.



— Eu me preocupo com você.

— Mas eu xinguei sua filha…

— Sei que não foi por mal. Foi?

— Não… eu só queria ser amigo dela.

Olho para Antoine.

— Eu sei. — digo, com um sorriso cansado. — Ela é um anjo.

— Sou?

— É.

E é mesmo.

Um anjo abraçando um menino quebrado no meio de uma pizzaria barulhenta.

Volto minha atenção pra ele.

— Não dá ouvidos ao que falam na internet.

Ele me encara.

O medo volta.

— Como você sabe?

O ar pesa.

A coisa rosna na minha memória.

— Não importa. — minha mão cobre a dele. — E, principalmente…

Mostro meu pulso.

— Para de falar com aquela coisa que manda você se machucar no banho.

Silêncio.

— Entendeu?

Os olhos dele se arregalam.

O sangue some do rosto.

— …Sim.

Antoine o abraça.

Agora ele chora de verdade.

Sem filtro. Sem defesa.

Enxugo suas lágrimas com um guardanapo.

E sinto vontade de destruir o mundo.

— Nunca me trataram assim… — ele soluça.

Aquilo me corta.

— Porque são uns babacas. — respondo, baixo. — Agora você é nosso amigo.

Pausa.

— Aparece lá em casa.

Enquanto eu ainda posso sustentar isso.

— Vai ser legal.

— Vai sim! Mas antes vai ter a festa!

Meu estômago afunda de novo.

— Você vai, né?

— Claro!!!

Eles riem.

Eu também.

Porque, se eu parar, eu começo a tremer.

Ainda rindo, recebo a conta do garçom. Ele sorri, mas o sorriso não chega aos olhos.

O pensamento vem na mesma hora:

menos dinheiro.

Procuro a carteira na bolsa.

Não encontro.

O chão inclina.

— Um momento, por favor… — peço, já derrubando tudo sobre a mesa. — Ela estava aqui…

Chaves. Batom. Papéis.

Nada.

— Calma, tia. Você vai achar.

— Vou sim, Luka. — respondo, rápida demais.

O garçom já não sorri.

— Posso ir até o carro? Acho que deixei lá.

— Não pode, senhora.

A palavra vem seca.

— Daqui a senhora só sai depois de pagar.

Senhora.

Não é respeito.

É acusação.

Endireito a postura.

— Vocês me tratavam muito bem quando eu trazia clientes pra cá. O que mudou?

Ele cruza os braços.

— Nada. Quem não paga, não sai.

Meu peito aperta.

Antoine está olhando.

Luka também.

— Não fale assim comigo na frente da minha filha.

Minha voz baixa.

— Você já foi mais educado.

Pausa.

— Ou eram as gorjetas?

O ar muda.

Tem algo errado.

De novo.

— Senhora… — ele revira os olhos. — Tenho mais o que fazer.

Agora vem com desprezo puro.

Engulo o choro.

Pego a identidade.

— Meu carro está aqui na frente. Eu volto.

— Não insista. Vou chamar o gerente.

E então…

o ar cede.

Ele surge.

Não entra.

Surge.

Minha respiração trava quando vejo sua mão no pescoço do garçom.

Não é força bruta.

É controle.

— Você vai pedir desculpas. — a voz sai baixa, quase educada. — Antes de perder o emprego.

O garçom empalidece.

— Sem esse salário… — continua ele — Você não sustenta sua mulher.

Pausa mínima.

— Aquela que dorme com seu melhor amigo.

O impacto é imediato.

— Se correr, ainda pega os dois na cama. Vai. Mas primeiro… pede desculpas.

O garçom treme.

Literalmente.

— Me desculpe, senhora.

A bandeja cai.

Ele some.

Correndo.

— Gente doida, né?

Aiden ajeita o punho da camisa.

Como se tivesse espantado poeira.

Eu ainda estou congelada.

— Por que disse aquilo?

— Porque é verdade.

— Como você sabe disso!?

Ele me encara.

— Intuição, baby.

Senta ao meu lado. Pega a conta da minha mão.

— Eu pago.

Pausa.

— Detesto gente mal-educada.

Olha pra Antoine.

— E você?

— Eu também, tio!

Ela pula no colo dele.

Natural.

Fácil demais.

— Ele também vai na minha festa!

— Que bom.

Então ele me olha.

E mede.

— Por que fugiu do nosso compromisso?

Meu estômago aperta.

— Vamos às compras. Falta pouco tempo.

Antoine vibra.

Eu ainda tentando entender o que aconteceu.



No shopping, Aiden muda.

Se ajoelha pra falar com Luka.

Escuta.

Ri baixo.

Toca o ombro dele.

Sem malícia.

Mas com intensidade.

E isso me incomoda.

Eles somem entre as lojas.

Meu coração acelera.

Quando voltam…

Luka está diferente.

Não triste.

Não assustado.

Só…

quieto demais.

— Sobre o que conversaram?

— Nada. Coisa de adolescente.

— Aiden…

Minha voz endurece.

— Não me faz de boba.

— Não estou.

— O que você fez com ele?

Ele para.

Me olha.

Frio.

— Eu não sou pedófilo.

A palavra cai como pedra.

— Se é isso que você está insinuando.

O ar pesa.

— Você não me conhece.

A culpa me atravessa.

— Eu nunca pensaria isso de você…

Penso.

Droga.

— Eu só tô confusa.

— Pensou, sim.

Silêncio.

Semáforo vermelho.

Ele aperta o volante.

Demais.

— Posso abrir a sua porta ou vai brigar comigo por isso também?

Ele desce.

Eu observo.

Carro absurdo.

Luxo silencioso.

Roupas impecáveis.

Coreógrafo.

Juilliard.

Claro.

Ele abre a porta.

Me puxa.

— Nunca mais pense isso de mim.

Os olhos dele queimam.

— Eu nunca faria mal a uma criança.

Pausa.

— Isso é doentio.

Não é culpa.

É indignação.

Antoine quebra o momento.

— Tô com fome!

Ele muda na mesma hora.

— Isso não é problema, meu anjo.

Na praia, ele carrega hot dogs como se fosse um banquete real.

— Assim está bom?

— Supimpa, tio!

Molho pra todo lado.

Ele ri.

Leve.

— Por que o Luka não veio?

— Precisava chegar antes da mãe.

Simples.

Prático.

— Por que ele ficou com medo de você?

O sorriso de Aiden congela.

— Medo?

Lento.

Controlado.

— De onde você tirou isso, Antoine?


O vento da praia sopra.

A areia dança no chão.

Observo o maxilar dele travar.

Um segundo.

Tempo suficiente.

Criança não inventa esse tipo de coisa.

E você sabe disso.

E ele sabe que você sabe.

No meio de cachorro-quente e mar ao fundo, algo invisível começa a se mover de novo.

— Eu ouvi, mãe...

Aiden empalidece.

Não é susto.

É cálculo.

Ele apoia os cotovelos na mesa frágil, inclina o corpo e encara Antoine com atenção demais para uma conversa banal.

— Ouviu como? Estávamos longe de você.

Antoine mastiga, tranquila.

Como quem comenta o clima.

— Eu ouço de longe, tio. Meu pai me ensinou.

Silêncio.

Denso.

— Que pai?

Ele não pisca.

Isso me arrepia.

— Calma, Aiden. Ela é só uma criança.

— Estou calmo, baby.

Não está.

Ele continua olhando para ela.

Medindo.

— Eu não sabia que Antoine tinha um pai.

— Tecnicamente, não tem. Coisa de criança.

Mas algo nele muda.

Não é ciúme.

É interesse.

— Você não vai comer o seu? Aiden?

Ele pisca.

Volta.

— Não. Pode comer o meu.

Antoine aceita sem pensar.

— Tio, você pode trazer o Luka outro dia?

— Posso. Claro.

Sorriso fácil.

Promessa vazia.

— Da próxima vez, ele vem com a gente.

Mentira limpa.

Promessa que jamais seria cumprida.



No carro.

— Por que fez questão de deixá-lo na porta do prédio? Eu poderia ir.

— Sua… e de Vincenzo, suponho.

O nome sai baixo.

Ácido.

— Não fica assim. Foi bobagem.

— Antoine não é uma criança comum.

Ele diz como quem descreve um experimento.

— E daí? Quem escolhe o pai dela sou eu.

— E você já escolheu?

— Não. Minha filha não precisa de pai.

— Preciso sim.

Silêncio.

Cortante.

— Meu tio Vincenzo é meu pai.

Aiden endurece.

Não levanta a voz.

Pior.

— Antoine. O que eu te ensinei sobre não se meter em conversa de adultos?

Ela se encolhe.

Ele não.

— Eu te amo. Você é meu segundo pai. Tá bom assim?

Os olhos dele brilham.

Por um instante, isso me desarma.

— Dá pra comer sem falar!?

Descarrego nela.

Porque não sei o que fazer com dois homens disputando um lugar que nunca existiu.

Aiden cobre o rosto com as mãos.

Respira.

— Vincenzo...

— Não. Ele não está aqui, baby. Sou eu.

Não é sobre a praia.

Nunca foi.

— Você sempre me machuca e depois pede perdão.

— Pior se não pedisse.

Um riso curto.

Vazio.

— Por que esse interesse no menino?

Erro.

Eu sinto na hora.

— Porque ele precisa! — a voz dele sobe um tom. — Meninos assim precisam de alguém que os escute. For God’s sake... tudo o que eu faço é errado pra você?

Orgulho ferido.

Perigoso.

— Eu vou te ajudar. Não tenha medo.

Deveria acalmar.

Não acalma.

— Além disso… tenho certeza de que algo muito bom vai acontecer na vida de Luka.

Certeza demais.

— Ele é o tipo de criança que nos interessa.

Algo trava dentro de mim.

— Interessa a quem?

Ele sustenta meu olhar.

Tempo demais.

— Aos meus amigos psiquiatras.

Resposta limpa demais.

— Vai dar tudo certo, baby.

Claro.

Sempre “vai dar tudo certo”.

— Vamos dar um passeio?


Ele desconversa.

E eu deixo.

Cansaço… ou medo.

Na areia, tudo parece mais simples. O mar tem essa arrogância de fingir que resolve o que é humano demais.

Aiden brinca. Ri. Chama Antoine de “My Irish Angel”.

Esse apelido me incomoda.

Ele escolhe palavras com intenção.

Sempre.

Corro com Antoine até a água. A areia cede sob meus pés. O vento puxa minha saia.

Aiden fica para trás.

Observando.

Eu me viro e o chamo.

Ele corre.

Por um segundo… quase abro os braços.

Quase.

E é esse quase que me mantém lúcida.


A brisa morre quando eu os vejo.

Ao meu lado, Aiden pergunta se estou bem. Levo a mão ao peito.

— O que foi? Olha pra mim.

— Não… isso não…

— Não vai mergulhar?

— São eles…

Aponto discretamente.

Antoine corre da água. Aiden percebe. Me puxa.

— Fica calma. Neutralidade.

— Eu não vou conseguir…

— Adessa. Eu tô com você.

Respiro.

— Não me deixa perder o controle.

— Confia em mim.

Confio.

Ou tento.

Dói.

Vincenzo e Sweet vêm pela orla. Rindo.

Quero fugir.

Não consigo.

— Merda.

— Calma — Aiden sussurra.

Antes que ela me toque, eu viro.

— O que você faz aqui?

Ela mede Aiden.

— Desde quando vocês dois…?

— Somos amigos — ele responde, firme. — Ainda.

A gargalhada dela me atravessa.

Antoine joga areia nela.

Eu quase sorrio.


— Odeio areia! — ela reclama.

— Você é cheia de frescura! — Antoine rebate.

— Antoine… — repreendo, mas por dentro eu vibro.

— A senhora que falou, mãe!

Seguro o choro. Não desminto.

Vincenzo me olha.

Azul.

Culpa.

Sempre culpa.



— Eu ia te ver, mas…

— Não foi! — retruco. — Você vive indo, mas nunca chega. Um homem cheio de atitudes… — ironizo.

Aiden aperta minha mão. Aviso claro.

Respiro.

— Um homem e tanto — completo, fria. — É desse tipo que você merece, Sweet. Parabéns.

— Não é o que você pensa — ele se defende.

— Eu não penso nada. Faça da sua vida o que quiser.

— Dess…

— Boa noite pra você também, Vincenzo.

— Aiden… — ele rosna. — Você não desiste, né?

— Nunca. E você?

— Nunca.

— Que medo — provoco. — Daqui até parece verdade.

— Adessa — Aiden murmura no meu ouvido. — Não vale a pena.

O lampejo de ira nos olhos de Vincenzo me cutuca.

Infantil.

Beijo a bochecha de Aiden.

Forço um sorriso.

— Tem razão. Vamos mergulhar?

— Quando eles forem embora.

— Vocês dois estão…?

— Juntos? — corto. — Imagina.

A risada sai alta demais.

Falsa demais.

Não sustento.

Corro até a água e mergulho.

Lá embaixo, o mundo some.

Só o som abafado.

Por alguns segundos, deixo a dor me atravessar inteira.

Quando volto, o céu estrelado me encara.

Duas lágrimas se misturam ao sal.

— Merda.

O vestido cola no corpo.

Transparente.

Tudo visível.

Até a etiqueta da lingerie.

— Não estava quente. Tá gelada — comento, evitando o olhar de Vincenzo. — Vem, Aiden.

— Posso ir, mãe? — Antoine pergunta, ainda no colo dele.

Estico os braços.

Vincenzo não solta.

— Ela quer se molhar — rosno.

— Está frio. Ela vai se resfriar.

— Agora você se preocupa? Tarde demais.

— Por quê?

Eu encaro.

— Sério?

— Deixa a menina, Vincenzo — Aiden provoca.

— Não estou falando com você.

Rio.

Não consigo evitar.

A fúria de Vincenzo.

O riso contido de Aiden.

E então Antoine solta:

— Por que você tá com a tia, pai?

Silêncio.

— Pai? — Sweet repete, venenosa. — Desde quando ele é teu pai, fedelha?

— Desde sempre. Eu a amo.

O impacto é físico.

Algo vibra dentro de mim.

O rosto de Sweet endurece.

— Ela tem nome — Vincenzo continua, firme. — Antoine. Não “fedelha”.

— Nossa, eu só queria…

— Não queira.

Gargalho.

Histérica.

Ele repetiu exatamente o que me disse.

Ele sabe.

Eu sei que ele sabe.

Ele me encara.

E, pra piorar, sorri.

— Não é o que você pensa, Dess.

— Você já disse isso.

— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?

— Posso.

Aiden se posiciona atrás de mim.

Braços na minha cintura.

O queixo roça meu pescoço.

Meu corpo enrijece.

Antes que eu decida se gosto.

— Adessa, Antoine e eu estávamos tendo uma noite extremamente agradável até vocês chegarem. Não é, baby?

Eu odeio quando ele me chama assim.

Mesmo assim…

assinto.

E vejo a tristeza nos olhos de Vincenzo.

Isso me satisfaz mais do que deveria.

— Por que não voltam a passear e nos deixam em paz?

— Concordo.

— Dess… você deixou ele entrar na sua vida de novo?

— É o que parece — Aiden responde por mim. — Ela me convidou. Eu entrei.

— Pai, vamos mergulhar?

— Agora não, filha.

— Vocês adultos são estranhos.

— Somos — digo, abrindo os braços.

Então ela aponta, inocente e cruel:

— Mãe, dá pra ver sua calcinha daqui. E o sutiã também.

Curvo o tronco, cruzando os braços sobre o peito.

— Eu devia ter pensado melhor antes de mergulhar.

— Discordo — Aiden murmura. — Você está estonteante. Instigante.

Sweet franze o nariz.

— Você não era gay?

— Nunca fui. E não serei. Não agora que encontrei a mulher certa.

— Quem? Adessa?

— Algum problema nisso, idiota?

— Nenhum, amiga. “Seje” feliz.

Reviro os olhos.

— “Seja”. E eu vou tentar.

Vincenzo me encara. A voz sai baixa, pesada.

— Com ele? Não faz isso, Dess. Você não o conhece.

— Eu vou ter tempo pra descobrir. Ele não foge quando eu preciso. Saca?

Vincenzo baixa a cabeça.

— Não é verdade. Ele é do tipo que se vinga quando não consegue o que quer. Mas você se esqueceu…

Uma pressão estranha aperta minha têmpora. Um ruído distante. Madeira estalando no fogo.

— Melhor do que fingir ser santo depois de fazer um monte de merda.

— Tio! — Antoine protesta.

Aiden se ajoelha.

— Tem razão, meu anjo. Me perdoa.

— Perdoado. Você é legal, tio. Por que você e meu pai não podem ser amigos?

— Não sei.

— Eu conheço os amigos dele — diz Vincenzo.

Aiden se levanta devagar.

— E eu conheço os seus. Por que não se escondeu debaixo da batina do seu amigo padre? Lá o outro não te alcança.

O ar pesa.

— Que outro? — pergunto.

— Não escuta ele, Dess.

— Que outro, Vincenzo? Do que você deveria se esconder?

— Ele não te contou? Deveria.

— Cala a boca, Aiden — rosna Vincenzo. — Ou prefere que eu te chame de Ragnar? Qual você prefere? O nome antigo combina mais.

O nome atravessa meu peito.

Ragnar.

Por um segundo, o cheiro de fumaça invade minhas narinas. Fumaça grossa. Gente gritando. Céu escuro.

— Para! — grito. — Do que vocês estão falando?

— De nada — ele recua. — Você não precisa saber.

— Precisa sim — Aiden rebate, agora sem disfarce. — Quer saber por que não se lembra de muita coisa, baby? Talvez alguém tenha feito você esquecer.

A pressão na minha cabeça aumenta. Imagens falham. Calor nas mãos. Labaredas onde só existe mar.

— Cala a boca! — explode Vincenzo.

— Pai! Que feio!

Vincenzo me empurra para o lado.

— Não se meta com a minha filha. Eu sei do que você é capaz.

— Ela não é só sua — Aiden devolve, frio.

— Se tocar nela, eu te mato — Vincenzo sussurra.

Aiden ri, sem humor.

— Pode tentar. The dead don’t die.

A frase vibra dentro de mim como memória antiga.

Eu me coloco entre os dois.

— Que merda está acontecendo aqui?

— Isso é nome de filme? — Sweet pergunta.

— Não — Aiden responde. — É só um aviso.

— Estamos longe do fim — diz Vincenzo, inseguro. — Eu não vou desistir.

— O velho discurso de que você não “caiu” por acaso?

— Exatamente. E eu sempre venço no final.

Aiden inclina a cabeça.

— Eu te vi vencer da última vez.

Ele sorri de leve.

— Ainda sinto o cheiro de churrasco.

O mundo inclina.

Por um instante, quase vejo fogo refletido nos olhos dele.

— Porra! Que papo esquisito, mermão! — Sweet resmunga, arrancando as botas. — Eu não fico aqui nem mais um minuto! Saí de casa à toa! Bando de malucos!

— E por que saiu de casa? — retruco. — Não podiam fazer o que fizeram no seu quarto?

Ela avança, gesticulando.

— Eu saí pra escolher a roupa da tua filha, maluca!

— Minha roupa? É pra festa, tia? Tem asas?

— Tem, sim! — Sweet responde, irritada.

Antoine vibra e volta a correr pela areia.

Sweet se aproxima de mim.

— A gente tá andando há horas pra escolher a fantasia dela. E você surtando aqui.

— Do que estão falando?

— Da verdade, Dess — diz Vincenzo. — Nem tudo que você pensa que vê é real.

O sangue sobe.

— Um minuto — digo, indo até ele e cutucando seu peito. — Você quer que eu acredite nisso? Eu vi vocês dois. Na cama. Eu sei o que fizeram. E o que ainda fazem.

Sweet recua.

— Ih, fui! Você vem, Vincenzo? Ou vai ficar ouvindo merda?

— Me espera no carro.

— Que romântico.

Chuto areia no rosto dele. Ele fecha os olhos. Sorri.

Ainda odeio o quanto amo esse sorriso.

Abaixo a voz.

— Foi no carro que ela te pagou aquele “boque…”? Eu vi. Você gostou muito. Ou deveria dizer… gozou?

Ele me segura pelo braço.

— Você acha que viu, Dess. Você tem um problema. Um transtorno. Vê coisas que não existem. Ouve vozes. Já pensou nisso?

O mundo inclina.

— Pai!

Minha respiração falha.

Transtorno?

Sempre achei que fosse um dom.

— Pensa comigo — ele insiste, baixo. — Não deixa ele te manipular. Olha pra mim.

— Não quero.

— Vem, Adessa — Aiden me puxa. — Já deu.

— Deixa ela em paz! — Vincenzo explode. — Você é perverso!

Aiden volta, olhos escuros.

— Vai me impedir? Vai pedir ajuda aos seus amiguinhos alados?

Meu estômago afunda.

— Alados?

— O que é isso, mãe?

— Antoine, vai brincar! — ordeno, perdida.

Ela se agarra às minhas pernas.

— Não gosto de briga.

— Eu vou fazer por ela o que você nunca fez — Aiden afirma, puxando meu punho.

— Dess, não vai.

— Pai…

— Filha, fica.

— Para! — grito. — Você só aparece quando sua presa começa a escapar! Típico de narcisista!

— Me escuta…

— Não consigo mais!

Ele caminha ao meu lado enquanto Aiden me puxa na direção oposta.

— Ele vai te usar. De todas as formas.

— Você já fez isso — respondo, sem encará-lo.

Antoine chora no meu colo.

Então Vincenzo lança a última cartada:

— Lembra do que eu te falei na sala do teu apartamento? Lembra do que fizemos juntos com aquela cruz?

Um estalo.

Madeira.
Fogo.
Metal quente contra a pele.

— Não! — Aiden rosna, parando. — Você não tem permissão pra falar de mim ou do meu passado. Não estraga tudo de novo.

Permissão.

A palavra pesa.

— Você também não tem permissão pra se meter nas nossas vidas — Vincenzo rebate. — Se ama Antoine, não deixe que ele saiba que estou por perto. Você sabe do que ele é capaz.

Ele.

O ar esfria.

— Talvez eu faça o que você pede — Aiden responde. — Talvez.

— Larga meu braço! — exijo. — Ele quem? Eu tô com medo!

Vincenzo estende a mão.

— Vem comigo. Eu protejo você e Antoine.

— Eu quero ficar com o papai! — Antoine chora.

— Ele não é seu pai…

— É sim! Ele aceitou!

Aquilo me atravessa.

— Isso não é justo, mãe… Quero ir pra casa…

— Para, Vincenzo — peço. — Você tá fazendo ela chorar.

Ele recua.

— Tem razão. Desculpa.

Aiden se aproxima.

— Vá embora. Comigo elas estão seguras. Ele não tem poder sobre mim. Eu posso ser mais útil que você.

Silêncio.

Vincenzo me olha.

E, contra tudo, concorda.

— Sim.

— Sério? Vai desistir assim?

— Dess…

— Ele é fraco — Aiden diz, abrindo a porta do carro. — Vem.

Vincenzo não responde. Só me olha.

Isso dói mais do que qualquer grito.

Antoine acena antes de entrar no banco de trás. Eu entro na frente.

— Molhei seu banco.

— Não se preocupa. Vai dar tudo certo. Dessa vez, vai dar.

Dessa vez.

Ele vai mesmo me deixar ir?

— Baby, você está bem?

— Sim. — Minto.

— Dess! — a voz de Vincenzo ecoa da areia. — Eu não desisti! Eu não desisti!

Fecho os olhos.

— Faz ele calar aquela boca… eu só quero ir pra casa.

— Eu te levo. Não chora por ele. Ele não merece.

— Não fala assim do meu pai, tio — Antoine diz pelo retrovisor. — Meu tio Miguel disse que tá de olho em você.

Aiden resmunga algo em irlandês.

Eu me viro.

— Quando você falou com ele?

— Agora. Na praia. Vocês brigavam e ele falava comigo. Disse que eu não posso falar com meu “tio Lu”.


Meu coração dispara.

— Porque ele não existe, Antoine! Chega de tanto tio!

Ela murcha.

O arrependimento vem na mesma hora.

Pulo para o banco de trás.

— Me perdoa. A mamãe tá nervosa.

— A gente ainda vai ter festa?

— Vai sim — Aiden responde, com uma confiança que me irrita e acalma ao mesmo tempo. — Uma festa incrível.

Volto para o banco da frente.

Encosto a testa no vidro. Meu reflexo parece… errado.

Vincenzo estava sofrendo.

Eu senti.

Mas eu sinto coisas que não são reais?

VOCÊ NÃO É DOENTE.

Fecho os olhos com força.

Não começa.

NÃO DEIXE QUE ELE TE CONVENÇA DISSO.

— Eu não quero te ouvir — murmuro.

— Baby?

— Oi.

— Eu disse pra não chorar.

— Você ouviu?

— O quê?

— A voz.

Ele sorri de lado.

— Não. Mas isso não significa que você esteja louca.

— Então o quê?

— Nem todo mundo ouve. Nem todo mundo vê. Talvez você tenha um dom.

Dom.

Ou maldição.

— Talvez você tenha também.

— Qual?

— O de me irritar com esse “baby”.

Ele ri alto demais.

— Me acordou, tio… — Antoine resmunga.

— Foi mal, meu anjo.

Silêncio.

— Eu não vou sumir — ele diz, depois de um tempo. — Relaxa.

— Você não é nada meu. Não faz sentido gastar dinheiro com a gente.

— Não é com você. É com a pequena ali atrás. Ela merece. É… especial.

— Especial como?

— Especial.

Ele corta a frase.

Isso me arrepia.

— Chega de seres estranhos na minha vida.

— Eu sou estranho?

— Um pouco. Mas bonito.

Ele cora.

E isso me pega desprevenida.

Rimos.

Por um instante… parece normal.

— Melhor esquecer essa noite — ele diz. — Foca na festa.

— Me chama de “baby” de novo e eu te dou um soco no pescoço.

— Eu luto bem.

Ele me encara no semáforo.

Desafio.

Eu prendo a respiração.

— Quer provar?

Abro a janela. O ar frio bate no meu rosto.

Preciso pensar.

Preciso não pensar.

— Eu preciso de vinho.

— Seu desejo é uma ordem.

— Você é fofo.

— E você é perigosa.

Sorrio.

Mesmo quebrada.

Mesmo sabendo.

Estou estupidamente atraída por ele.

E isso pode ser o meu maior erro.



— Toma comigo?

— Sem dúvida.

Ele encosta ao meu lado na pia.

Encho as taças até a borda. Entrego uma a ele. Bebo metade da minha antes mesmo de brindar.

— À festa de Antoine.

— À festa. — Ele ergue a taça. — E ao que vier depois.

Viro o resto. Estendo a taça.

— Ao que vier depois.



Antoine e eu já comemoramos ontem.

Há um ano eu a encontrei na praça.

Desde então… ela nasceu pra mim.

Disse que tinha seis anos. Ou menos.

Ontem eu decidi: sete.

Sete anos de magia.

Sem ela… eu morro.



Dividimos uma lasanha. Depois, ela devorou um pacote inteiro de pipoca amanteigada assistindo, pela décima quinta vez, Valente.

Nunca me canso.

— A senhora é a Merida — ela diz, lambendo os dedos.

— É ruivo, filha.

Ela dá de ombros.

— Não importa. A senhora é a Merida e pronto.

O celular vibra várias vezes.

Eu ignoro.

Vincenzo está fora dos meus planos.

Que seja feliz com a Sweet.

Bem longe de mim.

Eu vou tentar ser feliz sem ele.

Tentar.


A campainha toca.

— Justo agora, mãe!?

Dou pause.

— Já volto.

Vou até a porta resmungando:

— Pra que serve interfone se ninguém avisa que tem gente subindo? Quem é!?

— Entrega expressa!

Abro.

— Aiden!? O que faz aqui?

Ele revira os olhos.

— Difícil. O que será que eu vim fazer na casa de duas mocinhas lindas sem roupa pra festa?

— FESTA??? — Antoine grita.

Em dois segundos ela surge e o derruba.

Pego as bolsas antes que amassem.

Ele ri, rendido.

Por um segundo…

penso que ele seria um bom pai.

E isso é perigosíssimo.

— Tio, o que tem aí!? É pra mim!?

— É sim. — Ele cora. — Me ajuda?

Seguro o braço dele. Puxo.

Nossos corpos encostam.

Uma corrente elétrica sobe pela minha coluna.

Eu me afasto.

— As bolsas…

— Ah.

Entrego.

Me olho no espelho do hall.

Cabelo bagunçado. Camisola velha. Cara de cansaço.

Um desastre.

— Já volto. Não sai daí!

Corro pro quarto.

Desde quando eu fico nervosa por causa de um homem que não seja Vincenzo?

Desde hoje.

Banho rápido. Coque improvisado. Hidratante. Batom vermelho.

O vestido curto.

Eu usei tanto esse vestido…

quando vendia meu corpo.

Agora ele pesa diferente.

— JÁ VOU!

— MÃE! MINHA ROUPA É DE FADA!

Ela gira pela sala.

— EU SOU UMA FADA!

Aiden se ajoelha.

— Além de fada, você é um anjo. Um anjo fada.

— Sério?

— Anjos têm mais poder.

— Então eu sou mais poderosa?

— Muito mais.

Ela vem até mim, sussurrando:

— Eu sou um anjo fada borboleta, mamãe.

— Eu sei… mais poderosa do que eu gostaria.

Ela sai correndo.

Eu volto pra ele.

— Você tá gastando dinheiro com a gente.

— Já disse pra não se preocupar.

— Que história é essa de festa à fantasia?

— Não leu o convite?

— Que convite, Aiden!?

— Você é a mãe da aniversariante.

— E os convidados!?

— Relaxa. Experimenta a sua.

— A minha o quê?

— Fantasia.

Rasgo o papel.

— Jesus…

— Não. Errou.

— Aiden… que tipo de fantasia é essa?

— Camponesa.

— Eu amei.

— Não parece.

— Eu… eu me sinto…

— Não gostou?

— É linda. Tem espartilho e tudo!

— Uma camponesa que casou bem.

— Já volto!

— Aonde vai?

— Vestir!

Ele segura meu braço.

— Aqui.

— Não posso…

— Lavanderia. Eu tranco a porta.

Meu coração dispara.

— Não dá.

— Dá sim.

Ele me puxa.

Fecha a porta.

Encosta nela.

— Tira a roupa.

— Apaga a luz.

— Vergonha?

— Não de você.

Ele sorri.

— Eu pagaria pra ver isso.

— APAGA A LUZ!

Clique.

Escuro.

Tiro o vestido. Visto o espartilho.

Culpa.

Excitação.

Saudade de algo que eu nem vivi.

— Você tá chorando, Adessa?

— Acende.

Luz.



— Uau…

— Me ajuda.

Ele puxa os cordões.

Devagar.

Firme.

— Sempre achei isso injusto.

— O quê?

— Ricas usam espartilho nas costas porque têm quem ajude. Pobres amarram na frente.

— Então eu sou rica?

Ele aperta mais.

Eu me curvo, mãos na máquina.

— E você?

Ele não responde.

Só sorri.

— Por que comprou isso pra mim?

Silêncio.

— Eu sou uma camponesa… ou uma dama?

Ele se inclina sobre mim.

— Uma camponesa.

A voz dele roça minha pele.

— Uma camponesa ambiciosa, linda… e teimosa.

O corpo dele encosta no meu.

E não é só o espartilho que aperta.

— Aaaah… tá.

Minha voz falha.

Não é por causa do vestido.

— Vire-se.

Dou um passo para trás. Ele me observa como se eu fosse uma pintura recém-descoberta.

Ajeito os seios que quase escapam do decote. Aliso a saia. Respiro fundo.

— Não precisava. Deve ter custado caro.

— Você merece muito mais… meu anjo.

Ele se aproxima.

Eu puxo sua gola.

Nossos lábios quase se tocam quando pergunto:

— Qual é a sua fantasia?

— Surpresa — sussurra, perto demais da minha boca.

— Por que está rindo?

— Pensando em te pedir algo…

— Peça.

— Posso te beijar?

— Deve…

— MÃE!!!

A descarga é imediata.

Nos afastamos como se alguém tivesse puxado o fio errado.

Ele vai para o canto da lavanderia, recomposto demais pra quem estava prestes a perder o controle.

Abro a porta.

— O que eu disse sobre bater antes de entrar?

— Mas eu bati, mamãe…

— Ela bateu — Aiden diz, beijando a testa dela.

Depois beija minha bochecha.

— Depois da festa. Te pego às sete.

Ainda sem ar, concordo:

— Me pega…

Ele sorri daquele jeito que promete coisa demais.



— Antoine, você precisa se acalmar!

— NÃO CONSIGO!!! EU TÔ LINDA!!! EU VOU VOAR!!!

Cassandra e eu rimos no meio da sala.

— Tia, dá Rivotril pra ela — Cassandra solta, espada cenográfica balançando.

Eu sorrio.

Mas meu peito aperta.

Luka.

Quem vai buscá-lo?

— Não grita, Antoine. Vai ficar rouca antes da festa.

Ela para.

Milagre.

— Mãe… quem vai pegar o Luka?

— Não sei…

Pego o celular.

Ligo.

Nada.

De novo.

Nada.

Um frio sobe pela minha espinha.

Para.

Não estraga a noite com isso.

O interfone toca.

— MEU TIO CHEGOU!!!

No elevador, retoco o batom. Cassandra segura Antoine como dá.

Lá fora, Antoine se joga nos braços de Aiden.

— Meu anjo, você está espetacular!

— O que é espetacular?



Eu observo.

Capa preta. Smoking impecável. Mais pálido… ou mais vivo. Difícil dizer.

E a cicatriz.

Algo nele está… diferente.

Entramos no carro.

— Tio, você é o conde Drácula?

— Não.

Rimos.

Eu demoro um segundo a mais.

— Não gostou? — ele pergunta.

— Da fantasia?

— Sim. Eu te assusto?

Olho para o para-brisa.



— Um pouco.

Viro o rosto.

— O que você é? Um vampiro? Um demônio?

Ele não olha pra mim.

— Um ser sombrio à procura de luz.

Silêncio.

E, pela primeira vez, não parece brincadeira.

— Tá… — aponto para a cicatriz. — Isso também é fantasia?

— É maquiagem. Posso tirar, se te incomoda.

— Não. Eu gosto.

— Sério?

Engulo em seco.

— Fica… sexy.

Ele sustenta meu olhar.

— Segura isso.

Me entrega o chapéu.

Apoio no colo.

Algo ali vibra errado.

Jogo para trás. Cassandra pega.

Aiden percebe.

Não comenta.

— Só quero que essa noite seja memorável pra você e Antoine.

Inclino e beijo o rosto dele.

— Obrigada.

Ele não desvia.

— Não vai esquecer.

Freia.

— Chegamos.

Olho para fora.

E perco o ar.



Luzes douradas. Música suave. Um jardim que parece cenário.

— Aiden… isso é uma mansão.

— É a casa de um amigo.

— Amigo tipo… Elon Musk?

Ele ri.

— Nem tanto.

Saio do carro devagar.

— Isso é absurdo…

Ele surge atrás de mim.

— Lá dentro é melhor.

— Vamos — Cassandra puxa.

— Antoine? …Antoine?

Silêncio.

— AQUI, MÃE!!!

O grito vem do alto.

Antoine está no último degrau.

Braços abertos.

Asas erguidas.

— EU POSSO VOAR!!!

O mundo trava.

— NÃO!

Corro.

O vestido pesa. A escada parece infinita.

Ela fecha os olhos.

Sorri.

E salta.



Meu coração para.

Por um segundo impossível…

ela não cai.

Eu me lanço.

Bato contra algo sólido.

Sou jogada de lado.

O corrimão atinge minhas costas.

Ar some.

Ar volta.

Levanto o rosto.

Braços enormes seguram minha filha.

Antes da queda.

Antes do impacto.

Corro até ela.

Abraço com força.

— NUNCA MAIS FAZ ISSO! NUNCA!

Ela chora.

Eu tremo mais.

— Me desculpa, mamãe…

Enterro o rosto no cabelo dela.

Viva.

Viva.

Olho para quem salvou.

— Eu… eu nem sei como agradecer…

Ele não responde.

Só se senta ao nosso lado.

Patas amarelas. Corpo gigante.

Fantasia.

Eu começo a rir.

Ainda chorando.

— Obrigada…

Antoine limpa o rosto.

Os olhos brilham.

— KUNG FU PANDA!!! É VOCÊ!?

Levanto o olhar.

O panda se ergue.

Exagera nos movimentos.

Antoine gargalha.

— Você vai ficar na minha festa???

A cabeça balança: sim.

Ele sobe alguns degraus.

Aiden endurece.

— Quem é você?

— Alguém que salvou a minha filha — corto.

Aiden me olha.

Contrariado.

— Tire a máscara.

O panda faz gestos absurdos.

Antoine ri mais.

— Quero te recompensar — Aiden insiste.

O panda faz uma reverência.

E vai embora.

Some pela lateral.

Como se nunca tivesse estado ali.

Eu ainda estou tremendo.


— TIO! EU QUASE VOEI!

Aiden se senta ao lado dela. Acaricia o rostinho suado com calma demais.

— Você é um anjo novo. Anjos novos não voam, Antoine. Nunca mais faz isso, ok? Sua mãe se assustou.

— Desculpa, mamãe…

Ela pega a mão de Cassandra.

— Vem! Vamos dançar com o Kung Fu Panda!

— Vamos… — Cassandra resmunga. — Um dia ela me mata, tia.

— Eu já vou.

Eu me levanto.

Minhas pernas falham.

— Eu tô nervosa…

— Eu te levo, baby.

Sem esforço, ele me pega no colo e sobe os degraus iluminados.

Sob a lua, tudo parece antigo demais.

Meu peito dói por algo que não lembro.

— Me deixa te fazer feliz — ele sussurra no meu ouvido. — Dessa vez eu não vou errar.

— Jura?

— Sim.

Eu sorrio.

Finjo não ver o panda parado na sacada.

Imóvel.

Observando.

Fofo demais para ser inocente.



Demoro a me recompor.

Seguro a mão de Antoine enquanto atravessamos o salão.

É excesso em cada centímetro.

Lustres com luzes coloridas. Cogumelos luminosos. Fadas suspensas. Borboletas mecânicas. Estrelas piscando no teto.

Grande demais.

Perfeito demais.

Aiden entrelaça os dedos nos meus.

— Nada de ruim vai acontecer com ela. Eu prometo.

— Aiden… ela poderia…

— Mas não aconteceu. Vem.

Ele me puxa para dançar.

Garçons passam com bandejas impecáveis. Mesas exibem doces simples e caviar.

— Do que você tem medo?

— Do quanto eu vou ter que pagar por esse escândalo. Isso era pra ser uma festa de criança. Não um baile de Harvard.

Ele ri.

Entrega chapéu e casaca a uma jovem que some rápido demais.

Arruma meu vestido. Toca meu cabelo.

— O que foi?

— Você tá linda.

— Linda e desmontada. O que é isso, Aiden?

Ele faz uma reverência exagerada e me conduz ao centro.

— Onde estão os convidados?

— Chegando.

A luz bate na cicatriz.

Meu estômago revira.

— Eu já te vi antes… no teatro.

— Eu sei.


Ele gira comigo como se fosse nada.

Procuro Antoine.

Sala azul.

Jogos.

Cassandra.

Risos.

Luka.

Silêncio.

— Você é o homem do quadro, Aiden.

Ele para.

O salão continua, mas não continua.



— Sou. Algum problema? Ele te fez mal? Vai me julgar por viver uma personagem?

— Não… eu só achei…

— Estranho?

— Sim.

Ele sorri.

— Você nunca fingiu ser outra pessoa? Por que eu não posso brincar?

Roubo uma taça.

Viro inteira.

— Tem razão. Quero mais.

Ele segura meu braço.

Eu me solto.

Outro garçom se aproxima.

Sorriso perfeito.

Vazio.

Pego outra taça.

Bebo.

— Vai devagar — Aiden diz.

O vinho queima mais do que deveria.

— Por que você tá nervosa?

E então eu percebo.

A música é linda.

Mas não é alegre.

Não confia.

A voz vem baixa.

Perto demais.

Errada.

Eu fecho os olhos.

Não agora.



— Adessa?

— Tô bem.

Mentira.

— Vai devagar. Por que você tá nervosa?

— Você viu aquele garçom?

— Vi. São conhecidos de amigos meus. O que tem?

— Não gostei.

Vou até Antoine.

Decidida a ir embora.

Um abraço me atinge.

— Doc…

Eu quase desabo.

— E por que não viria, meu anjo? Parece que você precisa de ajuda. Que lugar é esse?

— Tem alguma coisa errada. Fica de olho na Antoine.

Ele ri baixo.

— Já estivemos em lugares piores.

Ele tem razão.

Mas meu peito não concorda.

Sweet aparece.

Meu coração desacelera um pouco.



— Que porra de fantasia é essa, amiga!?

— Chegou lá em casa sem remetente! Eu vesti e gostei! Não é lindo?

O vestido quase transparente.

Musgo.

Orelhas de elfo.

Meu peito aperta.

Eu me afasto.

Rápido.

Corredor.

Porta errada.

Sala verde.

Musgo nas paredes.

Fios ruivos se prendem às minhas botas.

— ME DEIXA EM PAZ!

Eu corro.

Terraço.

Lua cheia.

Ligo para Luka.

— ATENDE!

— Ele já não está aqui.

A voz.

Errada.

— Quem é?

— Um amigo.

— Eu quero falar com o Luka!

— Que pena… ela ainda não sabe.

— De quê!?

Silêncio.

Eu desabo.

Jogo o celular longe.

— MERDA!

Desço as escadas.

Pensamento venenoso:

Sweet é mais bonita.

Mais fácil.

Mais suficiente.

Eu odeio isso.

Mas penso mesmo assim.


— Essa porcaria de saia…

Passos atrás de mim.

Eu viro.

— Karatê Kid…?

O panda.

Ele se curva.

Mãos na barriga.

Rindo.

— Você tá rindo de mim!?

Eu chuto.


— SEU URSO DE MERDA! EU ATÉ CHEGUEI A GOSTAR DE VOCÊ!

Ele cai.

Eu me arrependo na mesma hora.

Tento ajudar.

Caio junto.

Rimos.

Eu, montada na barriga fofa do panda.

— Eu sou um pouco impulsiva… você me entende? Obrigada por ter salvado minha filha. Me dá sua mão… ou sua pata.

Ele rola.

Se levanta de quatro.

— Espera… qual é o seu nome?

Ele manda um beijo.

E desaparece.

— Filho da puta… covarde.

— Você está bêbada.

Viro.

— Aiden! Que susto!

Ele me puxa da grama com facilidade demais.

Firme demais.

— Como caiu?

— Eu… queria entrar no rio… e escorreguei. Essa saia pesa.

Mentira ruim.

Ele percebe.



— Você costumava gostar dela…

Eu travo.

— Costumava? Quando, Aiden? Eu nunca usei uma dessas.

Ele sustenta meu olhar.

— Usou, sim.

Nostálgico.

Seguro.

Como se a memória fosse dele.

Não minha.

A maquiagem pesada.

A cicatriz falsa.

O olhar escuro.

Meu estômago fecha.

— Vamos entrar. Está frio.

— Eu tô com medo. Não gosto dessa mansão. Tem coisa errada aqui. Luka não tá bem… eu liguei e…

Ele segura meu queixo.

Calmo demais.

— Impressão sua. Quando sairmos daqui, vamos até ele. Com quem você falava?

Sempre a segunda pergunta.

Nunca a primeira.

— Com o “Karatê Kid”.

— O Kung Fu Panda — ele corrige, quase rindo. — Ele te seguiu?

— Não. Eu chamei. Acho que ele é surdo… ou mudo… sei lá. Pode ser uma menina. Uma menina maluca.

Eu soluço.

Ele sorri.

Me envolve pela cintura.

Ele gosta disso.

De quando eu pareço perdida.

— Vem. A Antoine quer você.

— Espera! Preciso achar o celular da Cassandra!

— Depois.

— Aiden. Não me irrita.

Empurro ele com o quadril.

Ele ri.

Leve demais.

— Você é maluco.

— E você está bêbada…

— Me põe no chão.

— Vou lavar sua boca com sabão.

Não é brincadeira.

É promessa.

Eu gargalho.

Jogo a cabeça para trás.

Porque é isso ou quebrar.



De volta à mansão, duas taças viram três.

O vinho não esquenta mais.

Anestesia.

Antoine pega o microfone.

— SOLTA O SOM!

Aiden sussurra no meu ouvido:

— Tenta não cair…

Eu ignoro.

Abraço minha filha.

Se dançar é técnica, eu erro.

Se dançar é sobreviver, eu acerto.

Braços.

Pernas.

Cabelo.

Riso.

Antoine me copia.

Torta.

Perfeita.

Esse é o melhor momento da festa.



Eu empurro tudo pra longe:

as contas
o desemprego
a sala vermelha
os rostos atrás de Aiden
Luka
o telefone

Chega.

— TE AMO!

— EU TAMBÉM TE AMO, MÃE!

Mais alto que a música.

Mais alto que o medo.

Somos duas loucas girando no centro do caos.

Doc aplaude.

Sweet vibra.

As crianças gritam.

Aiden conversa com um senhor vestido de Drácula.

Eu desvio.



O panda.

Na pista.

Braços abertos.

Como se estivesse em um estádio.

Eu quase caio rodopiando com Antoine.

Aceno.

Nem sei se é pra mim.

Suada.

Tonta.

Viva.

Beijo a testa dela.

Me jogo numa poltrona.

Fecho os olhos.

Erro.

Aiden aparece com outra taça.

— Está se divertindo?

— Siiiim… muito!

Dou um selinho nele.

Ele cora.

Isso me diverte mais do que deveria.

— Você é fofo…

Eu rio.

Microfonia.

Grito.

Caos.

— ESSA EU QUERO DANÇAR COM MEU CONVIDADO ESPECIAL! O KUNG FU PANDA!

As crianças explodem.

O panda entra.

E dança.

Sem vergonha.

Sem medo.

Como se o mundo fosse simples.



Aiden endurece.

Começa a ir até a pista.

Eu intercepto.

— Deixa ela.

Seguro o braço dele.

Tenso.

— Não sei…

Ele nunca “não sabe”.

Empurro ele na poltrona.

Sento no colo dele antes que ele faça alguma besteira.

Sussurro no ouvido dele:

— Ainda me espera depois?

— Sempre…

A mão dele sobe.

Meu corpo responde.

Eu odeio isso.

Ele para.

— Te espero lá fora.

E sai.

Sem olhar pra trás.


Fico ali.

Observando.

O panda e Antoine dançam quase sincronizados.

Ele a levanta.

Meu coração dispara.

— Cuidado!

Levanto cambaleando.

— Ei! Dá pra não girar minha filha assim!?

Ele a coloca no chão.

Cruza os braços.

Imóvel.

— Ele tá zangado, mãe.

Silêncio.

— Disse que você bebeu demais… e não comeu nada.

Silêncio maior.

Isso entra como faca.

— Tem razão...

Doc me segura.

Eu soluço.

Mas algo em mim não aceita.

Eu me solto.

Vou até o panda.

— FILHA! COMO SABE O QUE ELE PENSA SE ELE NÃO FALA!?

— Sei lá!

Ela corre.

Eu fico.

Sozinha com ele.

— Não vai falar nada?

Ele dá de ombros.

Isso me enlouquece.

— Não me irrita ou eu arranco a tua cabeça!

Ele se curva. Parece rir.

Eu agarro as orelhas dele.

Dessa vez, ele ri de verdade.

Abafado. Quente.

Humano.

E eu cuspo.

— Seu merda! Fala comigo ou vai se arrepender!

Doc me puxa.

— Adessa, se controla. O rapaz está trabalhando...

— Ele me irrita, Doc! Olha! Ele não para de me encarar!

Doc segura meu rosto.

— Não faz isso. Imagina o quanto ele deve estar suando aí dentro.

Aquilo me quebra.

Eu choro.

— Eu sou um monstro...

Mas dura pouco.

— Doc, eu conheço esse cara! Ele pode estar atrás da minha filha! Eu vou até lá!

— Adessa, não!

Outro chute.

— Ele é meu amigo, mamãe! — Antoine grita.

A vergonha vem.

Pesada.

— Desculpa, filha... Eu não vou mais brigar com ele. Juro.

Doc me arrasta.

— VÁ PRO INFERNO! E NÃO CHEGA PERTO DA MINHA FILHA!

E então vem o fundo.

Vômito.

Gente limpando.

Olhares desviando.

Silêncio constrangedor.

Doc me encara.

— O que houve, filha? A festa está linda. Antoine está feliz. Por quê?

Eu tremo.

— Luka não tá bem, Doc... Eu preciso falar com ele. Eu preciso. Eu perdi o celular da Cassandra. Tá lá fora. Eu vou buscar!

Antes que eu saia, o panda surge.

— Sai da minha frente, idiota. Eu ainda tô com raiva de você.

Ele me entrega o celular.

E vai embora.

Sem olhar pra trás.



Eu fico parada.

— Como ele sabia...

— Não sei... — Doc responde.

Procuro.

Nada.

Volto o olhar.

Antoine ri, girando numa roda improvisada. Doc ao lado. Vigilante.

Tudo errado.

Tudo bonito demais.

Então eu vejo.

A porta.

Vermelha.


— O que tem ali?

— Eu não tentaria descobrir.

Eu me viro.

O palhaço.

Imóvel.

Sorriso largo demais.



— Quem é você?

— Ora... você me conhece. Só não se lembra.

Meu estômago afunda.

— Fica longe de mim.

— Sempre impulsiva... Já pensou por que essa porta não abre?

— Não. É a única que não abre.

— Curioso, não?

O vinho pesa.

— Tem coisa ruim aí dentro?

— Se eu disser que sim... você acredita?

— Sim.

Eu toco o braço dele.

E tudo explode.

Asas.

Queda.

Fogo.

— QUE PORRA É VOCÊ!?

Os olhos dele queimam.

— Pergunte ao homem que você ama.

— Espera!

— A gente se vê...

Ele some.

Eu encosto na porta.



Sou arremessada.

Parede.

Escuridão.

Capuzes vermelhos.

Gritos.

Sangue.

Uma lâmina.

Eu volto puxando cabelo.

— Me solta!

É ele.

— Me ajuda. Eu preciso encontrar o amigo da minha filha!

— Luka?

— Sim!

Chuva.

Do nada.

Violenta.

— Não... e sim.

— Fala direito!

— Solta meu cabelo, ridícula.

— Perdão.

Ele sorri.

Lento.

— Não conheço. Mas sei onde ele deve estar.

— Me leva!

— Não posso. Ainda não.

Ele se inclina.

— Mas logo... a gente se encontra lá.

— ONDE!?

Eu avanço.

Ele some.

— Volta!

— Claro.

A voz ecoa.

— Não saio da festa antes de dar meu presente à aniversariante.

Meu sangue congela.

Eu corro.

Empurro gente.

Risos.

Ou coisa pior.

Vejo Antoine.

Num puff rosa.

Rindo.

Ao lado dela...

O panda.

De guarda.

Ele acena.

— FILHA! LEVANTA!

— Por quê, mãe? Agora que eu vou começar a comer!


— Come em casa. A gente precisa sair daqui.

— Mas, mãe! Ainda não cantaram o “parabéns”! Eu quero o bolo!





Ela tem razão.

Eu ajoelho.

— Filha… me perdoa. Mas a gente precisa ir agora.

— Não vou! É a minha festa, tio!

Ela se agarra ao panda.

— Ela tem razão.

Eu desabo no puff.

O mal nos cerca.

Ou eu estou louca.

— NÃO CHEGA PERTO DE MIM!

O panda levanta as patas.

Calma.

— O quê? Resolveu falar?

— Ele disse que você não tá louca, mamãe.

O tempo para.

— Como você sabe disso?

Eu a puxo.

Encaro o panda.

— O que você quer com a minha filha?

— Algum problema?

A voz atrás de mim.

Aiden.

— Onde você estava? Sumiu e me deixou sozinha!

Um segundo de hesitação.

Pequeno.

Mas eu vejo.

— Estava resolvendo negócios.

— “Baby” é o cacete. Eu quero ir embora.

— Ainda não, mamãe…

— Antoine, não começa.

— Meu tio disse que vai me proteger!

Silêncio.

— Que tio?

Aiden encara o panda.

O panda encara Aiden.

Guerra.

Sem som.

— De mim. É claro.

O palhaço.

Antoine vibra.

— Pennywise! É você!? Mãe! É o palhaço do filme!

Ele se abaixa.

— Quer mesmo saber, linda menina?

Antes que encoste nela...

o panda a ergue.

Coloca no ombro.

Protege.

— Tira esse palhaço daqui, Aiden! Eu não confio nele!

— Ele é esquisito mesmo… meu tio disse pra gente ir embora.

— Não diga… — o palhaço inclina a cabeça — E o que mais seu tio panda tem a me dizer? Ou ele só se esconde atrás de uma máscara?

— Tira a máscara.

Aiden rosna.

O panda nega.

— Tire… ou eu arranco.

— Não se eu puder evitar.



A voz corta o ar.

O garçom.

Alto.

Negro.

Olhos metálicos.

Ele entra entre os dois.

Limpo.

Preciso.

Tira Antoine dali.

Leva até o bolo.

O panda vai junto.

— Covarde…

Aiden não responde.

Mas sente.

A fissura abriu.

O palhaço acena ao fundo.

— Entrego meu presente depois…

Velas.

Prata caindo.

Parabéns.

E eu sorrio.

Não para Aiden.

Para o panda.















Comentários