CAPÍTULO 19 - ESTRANHOS
— A festa acabou. Você não precisa seguir a gente até o estacionamento.
— Ele disse que vai me ajudar a carregar meus presentes, mãe.
— Não vai, não! Aiden carrega. Eu também. E para de balançar essa cabeça! — rosno para o panda, que insiste em nos acompanhar.
— Mãe! Ele é meu amigo!
— Não é, Antoine! Você nem sabe quem ele é! Já tirou essa máscara idiota?
— Não precisa, mãe… — ela responde, sorrindo, de mãos dadas com ele. — A gente conversa de outro jeito.
— Que jeito, Antoine!?
— Aqui. — ela aponta para a própria cabeça.
Alguma coisa em mim estoura.
A caixa amassa contra a cabeça redonda do panda. Ele se curva. Eu continuo. Bato. Empurro.
— Para, mãe! Ele é bom!
— Quem é você!? — grito. — Eu te proíbo de entrar na cabeça da minha filha! Eu te proíbo! Entendeu!? Fala comigo!
— Adessa. — Doc intervém, firme, arrancando a caixa das minhas mãos. — Pare. Agora. Antoine está chorando.
Eu caio de joelhos.
— Me perdoa… eu tô com medo, filha… me perdoa…
— Não fica não, mãe… — ela sussurra, me abraçando. — Ele quer me proteger. Ele é um super-herói.
— Eu sei… — minto. — Vai pro carro com o seu tio.
Ela hesita.
— Vai, Antoine. Agora.
— Não bate nele, mãe…
— Não vou. Eu juro.
Ela vai.
E eu fico.
Com ele.
— Se você for quem eu acho que é… eu te desprezo ainda mais. — minha voz falha. — Não mexe. Não ouse se mexer. Eu quero ver o seu rosto.
Ele nega com a cabeça.
Eu choro.
— É você? Por que se esconde? Tem medo do Aiden? Isso é pequeno demais. Ela merecia você.
A pata dele sobe.
— Não me toca.
Eu agarro as orelhas da fantasia e puxo.
Ele resiste.
— Por que não me deixa te ver!?
Ele me empurra.
Eu caio na grama.
— Covarde!
Ele vira as costas.
Para.
A voz vem atrás dele.
— Sempre foi. Por que mudaria?
— Aiden! — rosno. — Onde você estava!?
Ele estende a mão.
Eu ignoro.
— Você sumiu a festa inteira! O que estava fazendo!?
— Não descarrega em mim, baby. O seu foco é ele.
— Não me diz o que fazer!
— Ontem você não estava assim… não quando eu te vesti.
— Não me chama de baby! E não tivemos nada!
— Então por que está se explicando?
Engulo seco.
— Onde você estava, Aiden?
— Onde precisava estar. — ele sorri de lado. — Ou você prefere acreditar que tem problemas mentais?
— Não ri de mim!
— Não levanta a voz.
— Não encosta em mim.
Ele segura meu braço.
Forte.
Demais.
— Não me ameace.
— Solta ou eu te bato!
— Tenta.
O medo vem.
Frio.
— Me solta… tá doendo…
Ele solta.
Eu recuo.
E bato contra o panda.
Dessa vez, ele não recua.
As patas dele empurram o peito de Aiden.
— Sério isso? — Aiden sorri. — Vai brigar comigo?
O panda assente.
— Então tira a máscara.
Silêncio.
— Tira. Ou eu arranco.
Antes que ele reaja, eu arranco.
O mundo para.
— Eu sabia…
Olhos azuis.
Cansados.
Tristes.
— Por quê?
— Porque é covarde. — Aiden cospe.
— Cala a boca! — Vincenzo explode e acerta o rosto dele.
Sangue.
E Aiden sorri.
— Você sabe o que poderia acontecer se ele nos visse juntos! — Vincenzo rosna, desesperado. — Por que deixou isso acontecer!?
— Todos nós viemos do mesmo lugar…
— Por que você insiste em destruir tudo!?
— Destruir? — Aiden ri baixo. — Isso aqui já estava condenado.
— QUE MERDA VOCÊS ESTÃO ESCONDENDO DE MIM!?
— Nada, baby…
— Cala a boca!
— Ela é só uma criança! — Vincenzo avança.
Eu me meto entre os dois.
Empurro.
Falho.
O choro de Antoine corta tudo.
Eu corro.
— O que aconteceu, filha!?
— Ele apareceu… — Doc diz, pálido. — Eu não vi…
— Quem!?
— O palhaço, mamãe… — ela soluça. — Ele tinha um presente…
— Você tocou nele!?
— Toquei…
Sangue.
No dedo.
Eu levo à boca.
Instinto.
Vincenzo me olha como se doesse nele.
— Só o amor de mãe saberia o que fazer agora…
— Fazer o quê?
— Ele sumiu… — Doc murmura. — Como fumaça…
— Doc, olha pra mim!
— Me perdoa…
— Já passou, mãe! — Antoine mostra o dedo. — Eu me machuquei no presente. Foi sem querer. Ele ficou com medo… e foi embora. E levou meu presente!
— Você conhece esse palhaço?
— Conheço…
— Quem é ele?
Ela baixa a cabeça.
— É meu tio…
Silêncio.
— Que tio?
Vincenzo se aproxima.
Pálido.
Assustado de verdade.
— Era o… tio Lu?
– Foi sua culpa!
– Minha!?
– Cala a boca e me escuta!
– Vincenzo!? – Eu recuo, atordoada. – Você nunca falou assim comigo...
– Esse foi o meu erro, Dess. – A voz dele sai mais baixa agora. Mais perigosa. – Eu te tratei como alguém que não precisava entender. Como se fosse seguro te poupar.
Ele ri. Sem humor.
– Não é.
– Não diz isso...
– Você ignorou tudo. Tudo. – Ele passa a mão no rosto, suado, tremendo. – E agora a nossa filha tá em risco.
Aquilo me atravessa.
Não como grito.
Como sentença.
– Você sabia do risco... – continua ele, mais contido, o que só piora tudo. – E mesmo assim ficou me puxando, me testando, me expondo…
– Eu não sabia de nada! – Minha voz falha. – Você fala como se eu tivesse escolha!
– Tinha. Me ouvir.
– Proteger de quem!? – Eu avanço, finalmente reagindo. – Para de falar em código! Eu não entendo essa porra!
Ele me encara.
E aí vem.
Sem pressa.
– Porque você já viu.
Meu estômago vira.
– Você sugou parte do Mal, Dess. – Ele diz, baixo. – O resto… ficou na Antoine.
Silêncio.
O mundo simplesmente para de fazer sentido.
– Parte do sangue dela tá com ele. Ele matava filhos de anjos com humanas. – A voz dele quebra pela primeira vez. – Crianças.
– Olha pra mim. – Ele segura meu queixo.
Eu não quero.
Mas sei.
Eu sei.
– Ele é o Mal Encarnado, Dess.
Não é uma explicação.
É uma condenação.
– Então não põe tudo em mim! – Eu explodo, finalmente. – Se existem culpados, somos nós dois!
Ele trava.
Porque doeu.
– Eu queria que ela fosse feliz… – ele admite, quebrado. – Só isso.
– Proteja a Antoine. – Ele fecha os olhos. – Fica com o Aiden.
– Não!
– Comigo… você morre.
- Não! - Impulsivamente, eu o abraço com força. Agarro-me a ele misturando minhas lágrimas ao seu suor. - Me perdoa! Eu não sei do que tá falando, mas me perdoa! Eu não o quero! Eu te amo! Vc sabe disso! A gente vai vencer! Seja lá o que for, a gente vai vencer juntos! Me abraça...por favor. - Suas mãos retiram, friamente, meus braços de seu pescoço enquanto seu corpo se afasta do meu. Sua indiferença dói mais do que sua traição. - Não vai...
- Vc me afastou pra sempre. Mais uma vida jogada fora...- Lamenta ele antes de me dar as costas. Minhas pernas fraquejam. Aiden me ampara antes da queda.
- Covarde. - Rumina ele ao me levar em seu colo até seu carro. Vincenzo se aproxima da janela e, estendendo a mão a Cassandra, sentada no banco traseiro, murmura.
- Dê a Antoine quando ela acordar. Ela sabe para que serve.
- Ok...- Assente Cassandra, desnorteada. Sem coragem de encarar Vincenzo, ouço Aiden o insultar.
- Verme. Vc contou tudo a ela. Vc a fez se esquecer de tudo e ainda a culpa? Vc não a merece.
- Eu sei...- Admite ele, caminhando de encontro ao nevoeiro. Quero gritar e implorar que ele nos tire do carro e nos leve consigo e tudo o que ouço é sua voz triste repetir. - Eu sei. Eu nunca a mereci.
"Volta!", imploro, em pensamento...
Sem resposta.
Aiden a deita na cama e beija sua testa antes de sair do quarto.
Cassandra se cobre com o edredom e, respeitando meu silêncio dolorido, apenas sorri.
— Eu cuido dela, tia. Dorme tranquila.
Ajeito a coberta de Antoine, me inclinando.
— O que o Vincenzo te entregou?
Ela hesita, baixa ainda mais a voz.
— Tá na caixa de joias dela… depois a gente vê. Agora não dá.
Assinto.
— Descansa.
Beijo sua testa e saio antes que minha voz denuncie o caos dentro de mim.
Fecho a porta.
E desmorono.
— Eu volto outro dia, Adessa.
— Não. — Minha voz falha. — Fica comigo… eu tô com medo.
Silêncio.
— E?
— Tô arrasada. Confusa.
— Quer falar sobre isso?
— Não. — Passo a mão no rosto. — Só quero tomar um banho e deitar.
Ele me observa por um segundo a mais do que deveria.
— Eu fico até você dormir.
— Não. — Reviro os olhos, exausta. — Vai tomar banho, tirar essa maquiagem sinistra… e volta sendo menos assustador. Pode ser?
Um sorriso de canto.
— Posso tentar.
— E fica.
— Fico.
Me jogo na cama antes mesmo de pensar.
O vazio vem rápido.
Pesado.
Sem Vincenzo, tudo parece fora do lugar.
Errado.
Eu puxo o lençol até o queixo, tentando me esconder de pensamentos que não param.
Ele não pode ir embora.
Não assim.
Não deixando isso aqui comigo.
Eu não vou surtar.
Não vou acreditar naquele delírio de palhaço, sangue, maldição...
— Em que está pensando?
Eu quase grito.
— Como você tomou banho tão rápido!?
— Eu demorei. — Ele encosta na parede. — Você que ficou aí… se afogando em si mesma.
Ótimo.
Agora até ele percebe.
Quando tiro o lençol, ele já está ali.
Sem maquiagem.
Só a camisa.
E… droga.
O resto não ajuda.
Eu rio.
Sozinha.
— O que foi?
— Nada. — Levanto, ainda rindo. — Eu que penso besteira.
Besteira bem específica, inclusive.
Abro a gaveta e puxo o pijama mais infantil possível.
Defesa emocional nível máximo.
— Ainda tô tonta.
— Bebeu e não comeu.
— Comi! — grito do banheiro. — Uma empada!
— E?
— Vomitei tudo! Tá feliz!?
— Ainda não!
Idiota.
A água cai e, por alguns minutos, o mundo diminui.
Mas não some.
Nunca some.
O que eu fiz?
Por que chamei ele pra ficar?
Ele vai tentar alguma coisa?
Eu vou deixar?
Eu...
— Aiden! O que é isso!?
Saio e travo.
Bandeja na cama.
Chá.
Comida.
Cuidado.
— Pra você não desmaiar. — Ele dá de ombros. — Chá ajuda.
— Vou beber tudo.
— Eu sei.
— Posso?
— O quê?
— Seu cabelo.
Penso em dizer não.
Mas não tenho força nem pra isso.
— Pode.
Sento na cama, me cobrindo inteira.
Ele se ajoelha atrás de mim.
E começa.
Devagar.
Cuidadoso.
Humano.
Eu fecho os olhos.
— Você já fez isso antes?
— Já.
— Mulher de sorte…
Silêncio.
— Eu achava o mesmo.
Algo muda no ar.
— Mas ela me deixou.
— Idiota.
— Não. — Ele continua, firme. — Inocente.
A escova para por um segundo.
— Foi corrompida.
Isso não é só passado.
Isso ainda vive nele.
— Você tá fazendo o quê?
— Uma trança.
Eu engulo em seco.
— Eu amo.
Pausa.
Longa.
— Minha mãe fazia…
Minha voz falha.
Droga.
— Pronto. Você está linda, meu anjo… — sussurra ele.
Minha nuca arrepia.
Eu me afasto rápido demais, como se tivesse encostado em algo perigoso. Caminho até a cômoda, largo a escova com força desnecessária e jogo a toalha no cesto.
Quando me viro…
Droga.
Ele está recostado na cabeceira, me observando. Quieto. Lindo de um jeito que irrita.
— Algum problema? — pergunta, cauteloso. — Posso dormir no chão. Ou no sofá.
Reviro os olhos e pulo na cama.
— Eu te convidei pra dormir aqui, tolinho. — minha voz falha um pouco — Só… fica perto de mim.
Um sorriso pequeno.
— Nunca recusaria isso.
Silêncio.
Pesado.
Ridículo.
— Chá? — ele quebra.
— Sim! — respondo rápido demais, enchendo a boca de biscoito. — Como você sabia que eu amo isso?
Estou falando demais.
Eu sei.
Ele também sabe.
— Porque eu te observo.
Pronto.
Agora piorou.
— Eu amo seu jeito.
Eu travo por meio segundo.
— Isso é música… — canto baixo, meio sem pensar — I love your way…
— Everyday.
Eu olho pra ele.
— Você conhece?
— Nós já dançamos.
Um arrepio estranho percorre meu corpo.
— Eu não lembro…
— Eu lembro.
Claro que lembra.
Claro.
— Você é esquisito.
— Eu sei.
E ele não tá brincando.
Ele bebe o chá com calma, como se não tivesse acabado de soltar um passado inteiro em cima de mim.
— Esperei muito tempo por alguém… — diz, baixo — Tive uma família. Luz. Um filho. Outro por vir…
Minha respiração pesa.
— E perdi tudo.
Silêncio.
— Por causa de um homem… e de uma maldição.
Eu solto uma risada nervosa.
— Uau. — engulo seco — Isso não tava no roteiro da noite.
Ele me encara.
Firme.
— Foi real.
Droga.
— Desculpa… — desvio o olhar — Eu só… não sei reagir.
— Então não reage. — ele se inclina — Só seja.
Isso não ajuda em nada.
Quando ele levanta com a bandeja, eu respiro.
Quando ele sai, eu desmorono.
De novo.
Ótimo padrão de comportamento, inclusive.
Me jogo na cama, escondo o rosto, odeio tudo.
E principalmente:
odeio ainda pensar em Vincenzo.
— Eu sou infantil… — digo quando ele volta.
— Não. — responde, simples — Você sente demais.
A mão dele é fria na minha bochecha.
E isso deveria me incomodar mais do que incomoda.
— Eu sempre aceitei você assim.
Pausa.
— Mesmo quando você me deixou.
— Não começa com isso… — fecho os olhos — Não quero esse papo.
— Então o que você quer?
Ele está perto.
Muito perto.
Respiração quente.
— Me diz… e eu faço.
Eu engulo.
— Eu tô com medo.
— De quê?
— De você.
Ele para.
Só um pouco.
— De me beijar?
— Sim.
Silêncio.
E então...
— Então não beija.
Ele se afasta.
Simples assim.
E isso… me desmonta mais do que qualquer tentativa.
— Sinto muito por não ser ele. — diz, frio agora — Com ele você não teria medo.
Ah.
Pronto.
Chegamos.
— Não fala assim.
— Eu conheço ele melhor do que você imagina.
— Para… — minha voz treme — Não gosto disso.
— Vamos dormir.
— Não!
Eu levanto.
Vou até ele.
— Olha pra mim!
— Tô cansado…
— Eu preciso de você acordado!
Silêncio.
Ele abre os olhos.
Escuros.
Cansados.
— Eu sempre precisei de você acordada também.
Droga.
— Você ouve pensamentos?
— Não. — ele senta — Só sei quando você não está aqui.
Direto.
Sem anestesia.
— Então para de me puxar pra ele! — disparo — Eu não quero falar dele!
Ele olha pra varanda.
Chuva.
— Você gosta da chuva.
— Amo.
— Nós já dançamos nela.
Claro que já.
— E se dançássemos agora?
Ele me encara.
— Você perderia o medo?
Eu hesito.
— Tenho medo de me apaixonar… e você ir embora.
Ele levanta.
Me puxa.
— Eu não vou.
Aquela promessa pesada demais pra caber numa noite.
— Eu preciso de você.
Reviro os olhos.
— Você e o Vincenzo com essas frases enigmáticas…
Pronto.
Erro.
Grave.
Ele se afasta.
Frio.
— Eu vou embora.
— Não!
— Não vou ser descartado de novo.
— Eu não fiz isso!
Mas ele já está se vestindo.
— O que você colocou no chá? — solto, tonta
Ele para.
— Como é?
— Minha língua… tá estranha…
Ele suspira, irritado.
— Nada.
Eu cambaleio.
Droga.
— Espera… — puxo ele — Eu estraguei tudo.
Sim.
Você estragou.
Parabéns.
Eu sento no colo dele.
Impulsiva.
De novo.
— Não vai… — minha voz baixa — Fica comigo…
O cheiro dele me envolve.
Perigoso.
— Baby…
— Me leva pra cama…
Ele leva.
Claro que leva.
E isso não melhora nada.
Deitada, eu fecho os olhos.
— Amo o cheiro da chuva…
— Posso te tocar?
— Por que pergunta?
— Preciso saber.
Controle.
Ele quer controle.
— Faz o que quiser…
Erro número 57 da noite.
— Tem certeza?
— Cacete… — solto, nervosa — precisa de autorização pra tudo?
— Não me provoca…
— E se eu provocar?
Silêncio.
Tenso.
Perigoso.
Provo do seu beijo. Quente. Insistente. Perigoso.
Sento em seu colo, sentindo o corpo dele reagir ao meu, firme, impossível de ignorar. Suas mãos sobem pelas minhas costas, lentas, seguras, como se já soubessem cada caminho.
Por um instante, eu esqueço tudo.
Esqueço o medo. Esqueço quem fui.
Mas ele volta.
Violento.
— Desculpa… — me afasto, ofegante, ainda presa a ele por um segundo a mais do que deveria. — Eu não consigo.
Ele não me solta de imediato.
— Eu te encontro de novo — murmura, baixo, quase uma promessa. — Mesmo que você se perca.
Eu fecho os olhos.
Deixo ele me conduzir até a varanda.
A chuva cai fria sobre minha pele quente. O contraste me desperta… ou me afunda mais.
Ele me puxa para perto.
Dançamos.
Sem música.
Só o som da chuva… e do coração dele.
— Consegue ouvir? — sussurra.
— O quê?
— A mesma música de antes.
Antes.
Sempre esse “antes” que eu não lembro.
Encosto o rosto no peito dele.
— Me perdoa… seja lá pelo que eu fiz.
— Fica quieta — responde, mais suave do que nunca. — Assim já basta.
Por um segundo, eu acredito.
Mas quando ele me beija de novo…
há algo diferente.
Mais urgente.
Mais… faminto.
Meu corpo responde.
Minha mente recua.
Tarde demais.
— Não me machuca… — peço, sem saber se é medo… ou desejo.
Ele sorri.
E não responde.
O toque dele sobe pelo meu pescoço, firme o suficiente para me prender ali.
E então...
O celular toca.
Alto.
Insistente.
Quebra tudo.
— Deixa… — murmuro, tentando puxá-lo de volta.
Mas já não é o mesmo.
Ele se afasta.
E o mundo volta.
— De onde vem?
— De lugar nenhum... — respondo, confusa, prendendo Aiden ao meu corpo, as pernas cruzadas em sua lombar. — Deixa tocar. É algum idiota me ligando. Preciso mudar essa música...
— Quer atender?
— Aiden! Não para! — minha voz sai trêmula, perdida entre desejo e desespero. — Merda... espera!
Ele rola para o lado quando alcanço o celular e o arremesso contra a parede. Antes disso, vejo: várias mensagens de Vincenzo.
Ótimo. Perfeito. O caos completo.
— Parou... — murmuro, ainda ofegante.
— Meu anjo, não precisa ser hoje. Foi um dia cheio pra você.
— Foi... — deito ao lado dele, ainda segurando sua mão. — Eu não sei o que fazer, Aiden. Eu te quero… mas tô confusa.
Ele não pressiona. Não invade. Só fica.
E isso, irritantemente… me desmonta mais do que qualquer outra coisa.
Quando tiro a camisa do pijama, não é só impulso.
É fuga.
É raiva.
É vazio.
— Você é linda, baby..." — a voz dele muda. Mais baixa. Mais perigosa.
Subo sobre ele, buscando alguma coisa que nem eu sei nomear. Talvez controle. Talvez esquecimento.
Talvez só silêncio.
Mas o grito de Antoine corta tudo.
Imediato.
Brutal.
Real.
O mundo volta.
Eu desço. Corro. Respiro errado.
Porque no fim… é sempre ela.
Sempre.
Imediatamente, recuo até voltar a pôr os pés no chão e correr até seu quarto. -
— Vista-se. — aconselha-me Aiden com meu pijama em seus braços.
Recomposto.
Frio demais.
Agradeço e me cubro, aflita. Abro a porta e, desnorteada, eu a vejo chorar.
— Dói, mãe. Dói. - reclama ela mostrando-me seu dedo médio inchado e avermelhado. — Faz parar, mamãe! Faz parar!
— O que eu faço!?
— Eu faço. Se afasta. — ordena-me ele como quem sempre soube que aquilo aconteceria. Cedo meu lugar a Aiden. De joelhos, ele seca as lágrimas de Antoine com seu polegar. Um sorriso discreto e ele a beija na testa.
Então...
Olhos fechados.
Concentração.
Meu coração quer saltar pela boca. As mãos de Cassandra estão em meus ombros. Atrás de mim, ele treme. Não sei qual das duas está mais nervosa.
De repente...
Palavras antigas
Profundas
Sombrias.
O quarto parece diminuir. O ar pesa. Esfria.
De mãos dadas a Antoine, Aiden, de cabeça baixa, prossegue seu ritual enquanto sou contida por Cassandra.
Que diabos ele pensa estar fazendo com a minha filha!?
Ele ergue a cabeça. Endireita a postura. Abre um sorriso tímido. Beija o dedo de Antoine.
— Parou, mamãe!
O alívio dela me desmonta por dentro.
Aiden… não é só perigo.
E isso é o pior de tudo.
Beijos.
Abraços calorosos e eu...ali. Parada. Observando.
— Vc é o meu tio preferido! Te amo, tio Aiden! Se quiser, pode ser meu segundo pai! Eu posso ter dois pais, não é mamãe!?
— Aaaah....não sei. Falamos sobre isso depois, filha. Agora volte a dormir. Amanhã, iremos ao médico. — onde? Plano de saúde em dia? Dinheiro na conta? Cartão no limite? O que faço? — Vai dar tudo certo, filha. — Minto feio. Nada está certo. — Deve ser alguma infecção. - justamente no dedo perfurado pelo cofre do maldito palhaço? — Tá na hora de dormir, né?
— O tio Aiden vai dormir com a gente, mamãe?
— Sim. — NÃO! AIDEN! — Vamos todos dormir juntos. Que tal? — Ele me provoca. Isso me irrita, me instiga. Reviro os olhos. Ele ri.
— Uau! Vou montar minha cabana e nós quatro vamos poder dormir juntos e o tio Aiden conta histórias pra gente!
— Perfeito.
— Aiden...— passo a mão no rosto. Envergonhada, peço desculpas. — Eu não queria que fosse assim.
Antoine vibra. Seu grito quase perfura meus tímpanos.
Cassandra corre atrás dela.
Aiden me encara com seus olhos claros ao declarar num tom soturno.
— Como nos velhos tempos, baby. Onde fica a barraca?
— Que tempos, Aiden!? — perco-me entre eles, entrando e saindo dos quartos.
— A barraca! — berra Antoine.
— Não grita! Eu já ouvi, merda!
Eu deveria estar em paz. Mas não estou.
Não é normal.
Nada é normal em minha vida.
Não mesmo.
Dedo.
Sangue.
Lúcifer.
Aiden em transe no quarto da minha filha.
Droga.
A barraca cai do armário acima da minha cabeça. No chão, meu celular com a tela trincada.
Conto até dez.
Chega!
— Dez mensagens.
Maldito psicopata... — resmungo ao abrir a primeira mensagem.
"Você deu permissão para que ele te tocasse??? Não faça isso! É perigoso, Dess! Ele vai destruir sua vida!"
Fico parada alguns segundos.
O peito aperta.
Raiva.
Dor.
Saudade.
Tudo misturado.
Então digito.
Sem pensar demais. Porque pensar dói.
"Perigoso é ter você por perto. Me esquece, Vincenzo. Eu vou seguir seu conselho. Já deu. Aliás… já dei. Vou ficar com o Aiden. Tenha uma ótima noite. Se puder."
Envio.
E é isso.
O corte.
Limpo por fora.
Sangrando por dentro.
— Cacete, Aiden! Que susto!
— Perdão. Você me deu permissão para usar o seu banheiro. Não quis te acordar. Precisei de um banho frio depois de ontem.
Evito olhar. Antoine e Cassandra estão acordadas e eu… eu estraguei tudo ontem à noite. Merda.
— Você tá esquisita.
— Na-não. Impressão sua.
— Por que não olha pra mim? Não gosta do que vê?
— Puta que pariu, Aiden… como é que eu não gostaria do… do… — solto o ar, perdida. — Dá pra se cobrir com a toalha!?
Ele não se mexe. Claro que não.
Idiota. Eu que fico ali, encarando rápido demais, guardando detalhes que não devia.
— Não se move! Eu vou pegar uma toalha nova!
— Não quer tomar um banho comigo?
— Aiden… — minha voz sai baixa, traindo o corpo. — Não faz isso. A Antoine tá acordada.
Caminho até ele mesmo assim. A toalha numa mão. A outra desliza, involuntária, pela pele quente.
— Essa é a tattoo da mulher que você amou?
— Sim.
— Ela me lembra alguém.
— É óbvio.
Engulo seco.
— Sua pele é… — paro. — Esquece.
Ele prende a toalha na cintura, mas o olhar não muda. Fecha a porta com calma demais.
— Aiden… não. Ela vai sacar tudo.
— Não vai, baby.
Reviro os olhos.
— Odeio esse “baby”.
— E eu adoro você.
Rápido demais. Próximo demais. O mundo encurta.
Minhas costas encontram a parede antes que eu decida qualquer coisa. Meu corpo reage antes da minha cabeça acompanhar. Eu devia parar. Eu sei disso.
Mas não paro.
Há urgência. Falta de controle. Um tipo de fome que eu conheço bem demais.
E isso me assusta.
— Aiden… — minha voz falha. — Espera…
Ele para.
Simples assim.
O ar entre a gente pesa.
— O que foi? — a voz dele sai baixa, diferente.
Eu demoro um segundo a entender.
Sou eu.
Sou eu que estou tremendo.
— Desculpa… — me afasto, tentando recompor o mínimo de dignidade. — Eu não consigo.
Ele não avança. Não força. Só observa.
— Medo?
— De me perder de novo.
Silêncio.
Pesado.
— Eu não vou te empurrar pra isso, baby.
A forma como ele diz me desmonta mais do que qualquer toque.
Eu abaixo o olhar.
— Eu não sei quem eu sou quando começo…
— Então a gente para antes de você se perder.
Simples. Direto. Sem drama.
Droga.
Isso mexe comigo.
Ele abre a porta como se nada tivesse acontecido. Como se pudesse simplesmente ir embora depois de… tudo isso.
— Ei! — seguro seu braço. — O que eu fiz de errado?
Ele suspira, cansado.
— Nada. Eu que passei do ponto.
— Você foi ótimo lá dentro.
Um meio sorriso, sem humor.
— Não se trata disso.
Ele aperta o botão do elevador.
— É algo mais sério do que você imagina.
As portas se abrem.
— Te vejo mais tarde… baby.
— Não! — minha voz quebra.
Tarde demais.
As portas se fecham.
E eu fico ali, encarando meu reflexo distorcido no espelho do corredor, com uma sensação que conheço bem demais voltando devagar:
Perda.
— Quem é você? — murmuro pra mim mesma.
Quando volto, Cassandra já está de pé, tensa.
— Tia… aquilo voltou.
O mundo despenca de novo.
— O dedo!? — corro até o quarto. — Filha, mostra!
— Não dói, mãe.
— Tia… — Cassandra engole seco. — Ela disse que viu alguém.
— Onde!?
— Aqui. Agora.
Meu estômago revira.
— O Luka veio me visitar, mamãe… — Antoine sussurra. — Ele tá triste.
Frio.
Um frio que não vem de lugar nenhum.
Deito no chão, olhando pro teto, tentando segurar o que ainda resta de mim.
— Jesus… me ajuda.
Não vejo Aiden desde que transamos em minha suíte. Nenhum telefonema. Nenhuma mensagem.
Nada.
Eu já sabia.
Talvez não tenha gostado de mim. Do meu corpo. Dos meus beijos.
Tanto faz.
Não posso pensar nisso agora.
Estou ocupada demais tentando sobreviver.
Anuncio meu carro por um valor bem abaixo do mercado. Minutos depois, surge um comprador. Rápido demais.
E estranho demais.
"Como vou confiar na sua honestidade?", escrevo.
"Basta me passar seus dados bancários. Deposito hoje."
— Esquisito… — murmuro.
— O quê, mãe?
Antoine me observa do banco do carona.
— Nada, filha. Ele não veio de novo?
— Não…
O lábio dela treme.
— Não chora. Deve estar doente. Uma virose qualquer.
— Vamos na casa dele… — pede, baixinho. — Tô com saudade.
Enxugo suas lágrimas.
— Amanhã a gente vai. Ele deve estar comendo sorvete na frente da TV.
— Não vai, não…
O sinal fecha. Meu corpo arrepia.
— Por quê?
Ela hesita. Depois sussurra:
— Porque ele tá com fome… e com frio.
Meu estômago afunda.
— Onde?
— No mesmo lugar onde a Giulia tá.
O porteiro me indica o apartamento.
A porta está entreaberta.
Errado.
Muito errado.
— Tem alguém aí?
Entro.
Silêncio.
O lugar é pequeno. Sujo. Abandonado.
Não há nada pra roubar.
E, ainda assim… parece que já roubaram tudo.
— Pobrezinho… — murmuro ao entrar no quarto.
A foto sobre a mesa me paralisa.
Nós dois, sorrindo.
Viro.
"O melhor dia da minha vida."
Sento na cama.
Farelos de biscoito grudam na minha mão.
E então…
eu sinto.
Tristeza.
Medo.
Solidão.
Ergo o olhar.
Meu reflexo no espelho… não está sozinho.
Luka aparece atrás de mim.
Vestido com a fantasia que dei.
Sorrindo.
— Você ia pra festa… — sussurro. — Por que não foi?
— Quem é você?
Eu me viro.
E o mundo desaba.
— Como entrou!?
— A porta… tava aberta… — respondo, quase sem voz.
Ao lado dela, a coisa.
A mesma presença.
A mesma sombra.
Observando.
Esperando.
— Você é a mãe do Luka?
Ela ignora.
— Sai da minha casa!
A garrafa na mão. O olhar perdido.
Destruída.
Por fora.
E pior ainda por dentro.
— Ele não tem amigos! — rosna. — Nunca teve!
Ela bebe.
Sem parar.
— Meu filho nunca foi amado…
A voz quebra.
— Eu precisava trabalhar… dois empregos… quem consegue dar carinho assim?
O silêncio pesa.
— Olha isso… — ela aponta ao redor. — Olha o que ele virou…
— Posso ajudar. Onde ele está?
— Eu não sei!
Ela desaba na cama.
— Não vejo meu filho há uma semana!
Meu coração dispara.
— Uma semana!?
— Você é surda!?
Engulo seco.
— Calma. A gente vai encontrar ele. Eu prometo.
Ela segura minhas mãos.
Beija.
Desesperada.
— Você é da polícia? Vão procurar meu filho?
Olho pra coisa ao lado dela.
Incentivando.
Provocando.
Esperando eu errar.
— Sim — minto. — Sou detetive.
Os olhos dela brilham.
— Eu falei pra eles… ninguém me ouviu…
— Eu ouvi — respondo. — E vim.
Ela desaba de novo.
— Meu nome é Regina… meu filho é um menino de ouro…
A culpa engole as palavras.
— Eu devia ter dito isso a ele…
Eu a abraço.
E sinto.
O peso de ser mãe.
O medo de falhar.
O pavor de perder.
— Ache meu filho… — ela sussurra. — E traga ele pra mim.
Fecho os olhos.
— Eu vou.
Ela se afasta.
Evita me olhar.
E então murmura:
— Cuidado com o monstro.
Olho para o lado.
Ele ainda está lá.
Sorrindo.
Esperando.
— Eu vou ter.
Traçando um círculo de proteção com giz de cera no chão do quarto de Luka, seguro as mãos de Regina. Desenho símbolos que nem eu reconheço e invoco, com a voz firme, a proteção do Arcanjo Miguel.
— Pelo amor que nos une aos nossos filhos, eu te expulso dessa casa!
Uma risada grotesca ecoa pelo corredor.
Tento manter Regina acordada, mas ela desaba para o lado, vencida pelo álcool.
— Você precisa me ajudar a te ajudar! — grito, estapeando seu rosto. — Acorda!
— Desista.
A voz vem de lugar nenhum. Ou de todos.
— Ainda aqui, maldito? — rosno. — Some ou eu te desintegro!
— Você não tem força pra isso...
Ergo uma sobrancelha.
— Não tenha tanta certeza. Eu não sou o que pareço ser.
Faço um gesto com as mãos, encarando o vazio.
— Some.
Silêncio.
Então, ele cede.
— Você tem força... — admite a coisa, antes de desaparecer. — Use-a para salvar sua filha. O menino... você já perdeu.
O ar pesa.
E eu sei que aquilo não foi ameaça. Foi aviso.
Saio do apartamento com o peito esmagado.
Limpei o que consegui. Dei banho em Regina. Troquei sua cama. Deixei dinheiro na mesa de cabeceira, como se algumas notas pudessem segurar o mundo dela no lugar.
Ela dorme como quem desistiu.
E, pela primeira vez, eu não sei se vou conseguir cumprir uma promessa.
Aproveito os últimos momentos com meu carro recém-vendido. Engraçado como a gente só valoriza quando está indo embora.
Decido procurar Doc.
Se alguém pode me ajudar, é ele.
Estaciono atrás de um carro conhecido.
Paro.
Franzo a testa.
— Sweet???
Olho de novo.
— Que diabos ela tá fazendo aqui?
Ela não trabalha mais aqui.
Ou trabalha?
— Duvido muito...
— Do quê, meu anjo?
— Doc!
Abraço ele com força.
— Você não faz ideia do que eu descobri hoje. Eu preciso de ajuda.
— Calma. Seu coração tá disparado.
— É sobre o Luka. Eu acho que ele foi pra festa… e agora sumiu.
O rosto dele fecha.
— Isso é sério.
Antes que ele continue, vejo um vulto no bar.
— Sweet!?
Ela parece… pálida demais.
Errada.
— O que você tá fazendo aqui? Você não tinha saído daqui?
— Saí.
— Sei.
Pulo o balcão sem pedir licença.
— Então explica.
— Nada, filha — Doc tenta me puxar. — Vamos conversar lá fora.
— Não! Eu só quero saber o que ela tá escondendo!
— Você também disse que nunca mais pisaria aqui — rebate Sweet, virando as costas.
Vou atrás.
— Eu tenho motivo. E você?
— Eu… eu…
— Fala!
— Menos, Adessa — Doc alerta, tenso. — Vem comigo. Agora.
— Deixa, Doc.
A voz.
Eu travo.
— Vincenzo?
— Dess…
Meu estômago despenca.
— O que vocês dois… — olho de um para o outro — você tá abraçando ela?
— É o que casais fazem.
Silêncio.
Depois, tudo quebra.
— Casais???
Doc me segura pelo braço.
— Calma. Eu explico depois...
— Não precisa.
Minha voz sai baixa. Morta.
— Eu já entendi.
Engulo seco.
— Ele me deixou. Como disse que faria.
Rio, sem humor.
— Só não entendo por que tinha que ser com ela.
Minhas mãos tremem.
— Ele sabe. Sabe de tudo. Sabe que eu invejo ela. Que eu morro de ciúmes…
— Você é melhor que ela em tudo — diz Doc.
— Para. — balanço a cabeça. — Não piora.
Asso o nariz, irritada comigo mesma.
— Ela é mais jovem. Mais bonita. Era minha amiga, Doc. Ele levou os dois de mim.
Minha voz falha.
— Como eu vou olhar pras filhas dela agora?
Soco o banco.
De novo.
Até doer.
— Melhorou? — ele pergunta.
— Não.
Respiro fundo.
— Mas não vale a pena bater neles.
Pisco.
— Me leva até meu carro?
Ele estranha a mudança, mas assente.
— Eu vendi — solto, de repente. — Consegui uma boa grana.
Dou um sorriso torto.
— Sobrevivo mais alguns meses.
Pausa.
— Sorte no dinheiro.
Olho pela janela.
E congelo.
— PUTA QUE PARIU…
Eles estão ali.
— ADESSA, NÃO!
Tarde.
Já estou fora do carro.
Contrariando Doc, corro até Vincenzo.
Ele sorri de lado.
Errado.
Frio.
— Fica longe delas ou eu vou ser obrigado a te machucar.
Antes que eu exploda, me inclino e cochicho no ouvido de Jujuba:
— O tio Doc tem doces no carro. Vai com suas irmãs. Agora.
— Não! — ordena Sweet.
Tarde.
As meninas correm e se agarram em Doc.
Eu sorrio, venenosa.
— Isso é que é autoridade...
Sweet se cola ainda mais em Vincenzo.
Ótimo.
Agora eu quero sangue.
— Dess. Para. Vai ser pior pra você.
— Sério? — tiro o casaco e jogo na lama. — Tô tremendo de medo.
Dou um passo à frente.
— Filho da puta covarde, desleal, infiel! Vocês sempre estiveram juntos! Mentiroso de merda!
Meu chute acerta as costelas dele.
O som seco me satisfaz por meio segundo.
Sweet se revolta.
Ele não reage.
Claro que não.
Sempre o herói.
— Quer também? — aponto pra ela. — Vem. Eu acabo com essa sua carinha de porcelana.
Pulo de um lado pro outro, pronta.
Ridícula.
Eu sei.
E mesmo assim continuo.
— Chega!
Doc me puxa pela cintura, me arrastando pra trás.
E eu ainda me humilho mais um pouco.
— Fica com ela! Eu tô em outra! Aiden é muito mais homem do que você jamais foi!
Mentira.
E eu sei.
Mas falo mesmo assim.
Porque dói menos atacar do que admitir.
Engulo seco.
A frase ecoa na minha cabeça:
Quando você se entrega, você perde.
— CHEGA! — cuspo. — Olhar pra vocês me dá nojo.
Mordo o canto da boca, segurando o choro.
Mais baixo, quase quebrando:
— Você foi a pior coisa que me aconteceu… nessa e em outras vidas.
Caminho até o carro.
Cada passo pesa.
Eu queria contar pra ele.
Que vendi tudo.
Que tô tentando ser melhor.
Que ainda… acreditava.
Mas paro.
Eles entram no carro.
Insulfilm.
Fim de cena.
Covardes até nisso.
Ela beijou ele?
Ele deixou?
Óbvio que deixou.
Pra terminar de me destruir, vejo as meninas cercando ele.
Rindo.
Se agarrando.
Ele pega no colo.
Beija.
Exatamente como fazia com Antoine.
Pronto.
Acabou.
Minha filha ainda chama esse homem de pai.
Isso não se faz.
— Dess, não pensa assim...
— FODAM-SE!
Minha voz rasga.
— ACABOU, VINCENZO! SEJA FELIZ COM SUA NOVA FAMÍLIA! E NÃO CHEGA PERTO DA MINHA FILHA! NUNCA MAIS!
Ele tenta falar.
Eu não deixo.
Entro no carro, batendo a porta.
Giro a chave.
Minhas mãos tremem.
Olho pra ele uma última vez.
— Eu acreditei em você.
Pausa.
— E você me ferrou.
Engato a marcha.
— Procura outra palhaça. — seco. — Aliás… você já encontrou.
Dirijo sem rumo.
Respiração descompassada.
Decidida.
Ou fingindo estar.
Vou encontrar o comprador do carro.
Já pagou.
Nem quis me ver.
Claro.
Porque a vida não cansa de ser estranha.
Por um segundo, penso em fugir com o dinheiro e o carro.
Sumir com Antoine.
Recomeçar.
Mas não.
Nem eu desci tanto.
Ainda.
— Merda… — sussurro, apertando o volante.
E aí vem.
A imagem.
Vincenzo.
As meninas.
O jeito que ele segurava elas.
Pior que qualquer cena na cama.
— Inferno…
Minha voz falha.
— Quando isso vai acabar?
— Bom dia.
— CACETE! — quase bato no teto do carro. Subo o vidro devagar, desconfiada. — O que o senhor quer?
— As chaves do carro.
— No cu, pardal! — piso no acelerador sem pensar. — Esse carro tu não leva, mermão!
Arranco.
Alguns metros depois, diminuo.
— Acabei de vender… não vão me roubar não.
Olho pelo retrovisor.
O cara continua lá.
Braço erguido.
Não corre.
Só… acena.
— Ué…
Freio de uma vez.
— AIDEN?!
Ele apoia as mãos no capô, rindo.
— Idiota! Aquele é o dono do carro!
Bate no vidro.
— Abre, porra!
Abro, largando a testa no volante.
Meu coração tá ridículo.
Ele encosta o dorso da mão na minha bochecha.
Suave.
— Assim fica difícil vender essa carroça. Por que fugiu dele?
— Meu carro é zero. — rosno, me afastando. — E ninguém chega assim em mulher, não hoje em dia. Eu não leio mente, cacete.
— Você nem deixou o cara falar.
— E você? — viro pra ele. — O que tá fazendo aqui?
Um sorriso.
Calmo demais.
— Te salvando.
Engulo seco.
Droga.
— Você precisa de mim, baby. Ainda não percebeu?
Quase começo a discutir, mas o tal comprador se aproxima.
— Dá a chave pra ele — Aiden diz.
— NÃO.
Cruzo os braços entre os dois.
— Quero documento. Quero nome. Quero tudo.
— Ele já te pagou.
— FODA-SE! — aponto pro cara. — Ele não quis vídeo, não quis falar, depositou dinheiro sem nem me conhecer! Isso é estranho pra caralho!
O rapaz pisca, perdido.
— Eu… só quero o carro.
— Eu devolvo o dinheiro! — solto, já irritada comigo mesma.
— Baby…
— NÃO ME CHAMA ASSIM! — viro pra Aiden. — Você sumiu!
— Ele não precisa saber disso — ele murmura, segurando o riso. — Dá a chave.
— Não fala assim comigo… — minha voz falha um pouco. — Você me deixou.
Silêncio.
O cara olha pra gente como quem caiu no lugar errado da vida.
— Eu… volto depois?
— Volta — Aiden responde por mim.
O rapaz vai embora.
E eu fico ali.
Sozinha com o problema.
E com ele.
— Que porra é essa? — encaro Aiden. — Você conhece esse cara?
— É meu amigo. Eu intermediei.
Fico olhando.
Processando.
— Você… tá de sacanagem.
— Eu disse que ia te ajudar.
Ele abre a porta do passageiro.
— Entra. Eu te levo.
— Não vou roubar o carro.
— Eu sei.
Ele senta ao volante mesmo assim.
Insuportável.
Entro bufando.
— Você me deixa em casa e some de novo.
— Eu não sumi.
— Aaaah… claro. — rio seco. — Só tava organizando minha vida à distância.
Silêncio.
Aí eu não aguento.
— Não gostou?
Ele nem olha pra mim.
— Do quê?
— Para. Você sabe.
Uma pausa.
— Da nossa foda?
Quase engasgo.
Idiota.
Assinto, olhando pra janela.
— Gostei. — simples. — Muito.
Meu estômago dá um nó.
— Tanto que eu quero mais.
Droga.
Só consigo um:
— Aaaah… tá.
Ridículo.
A porta do apartamento abre.
O cheiro de casa.
De caos.
De vida.
— Filha?
Antoine tá no chão.
Brincando.
Não.
Batendo as bonecas uma na outra.
Errado.
— Mamãe…
Aiden se abaixa, beija a testa dela.
— Viu o Luka?
— Ele tá chorando.
Frio na espinha.
— Onde?
— Ele não me obedeceu! — ela bate as bonecas com mais força. — Se deu mal!
Troco um olhar com Aiden.
Ruim.
Muito ruim.
Encosto na testa dela.
— Você tá quente… cadê a Cassandra?
— Aqui! — ela aparece com remédio e água. — Ela tá estranha…
— Estranha como?
— Falando com alguém.
— Ele ligou?
— Deixa de ser burra — Antoine rosna.
Eu travo.
— Filha?
— Você não é minha mãe.
O mundo dá uma inclinada.
Aiden encosta na cabeça dela, sussurra algo.
— Para — ela rosna.
— Não vou parar.
A voz não é dela.
— Eu te conheço — ela diz.
— Antoine… sou eu — Aiden insiste.
— Eu vi você na festa… na sala vermelha.
Silêncio pesado.
— Que festa? — minha voz falha.
— Eu quero minha mãe!
O grito rasga o quarto.
Os olhos dela viram.
O corpo convulsiona.
Eu a puxo pro colo.
— Filha! FILHA!
— Me tira daqui! — a voz ecoa, distorcida.
Cassandra chora, rezando.
Aiden tenta.
Nada funciona.
E eu sinto.
Aquilo voltou.
Pior.
Muito pior.
— A caixa de joias! — grito.
Cassandra entende só pelo meu olhar. Corre até a cômoda, mãos trêmulas, puxando a gaveta.
— Toma, tia...
A caixa quase cai quando ela me entrega.
Abro.
— É um crucifixo!
— Bento... — murmura Aiden, recuando um passo.
Guardo isso.
Depois.
Agora não.
Ergo o crucifixo sobre a cabeça de Antoine. Minha mão treme, mas minha voz não pode.
Não agora.
— A Cruz Sagrada seja a minha luz. Não seja o dragão o meu guia. Retira-te, Satanás! — minha voz ecoa no quarto. — Pelo amor que sinto por minha filha… libertem-na!
O vento invade o quarto com violência.
A janela bate.
A chuva entra.
E então…
Silêncio.
Antoine para.
O corpo relaxa.
Os olhos… voltam.
— Filha? — minha voz quebra. — Você tá aqui?
Ela pisca.
Confusa.
— Ué, mãe… claro que eu tô.
Eu rio.
Chorando.
Abraço ela com força demais.
Como se alguém ainda pudesse puxar ela de mim.
O riso morre quando olho pra Aiden.
Ele tá distante.
Demais.
— Por que você se afastou da cruz?
— Porque eu sou um demônio.
Eu fecho a cara.
— Não brinca com isso.
— For God’s sake… — ele revira os olhos. — Foi o que pensou. Não foi?
— Tia… — Cassandra corta, puxando Antoine. — Ela precisa de um banho.
— Vai — digo, ainda encarando Aiden.
Elas saem.
Agora somos só nós dois.
E a pergunta que não cala.
— Por quê?
— Porque é presente dele — Aiden responde seco. — Eu vi.
Respiro fundo.
— A voz… disse que te conhecia.
Silêncio.
— Que sala vermelha era aquela?
— Eu não sei! — ele explode.
— Não grita comigo.
Ele passa a mão no rosto.
Cansado.
— Desculpa… você só… — ele me olha. — Sempre acha o pior de mim.
— Eu não acho…
— Ainda guarda coisas dele.
— E por que não guardaria? — cruzo os braços. — Ninguém me quer mesmo.
Erro.
Grande.
Ele me puxa de repente.
Meu corpo bate no dele.
Quente.
Vivo.
Perigoso.
— Eu te quero — ele sussurra. — Eu sinto sua falta.
Droga.
Eu também.
— O que aconteceu aqui, Aiden? — minha testa encosta na dele. — Aquela língua… aquelas palavras…
— Gaélico. — ele respira fundo. — Uma oração. Só isso.
Só isso.
Claro.
Porque nada na minha vida é “só isso”.
Beijo ele de leve.
Erro número dois.
— Não me provoca.
— Por quê? Não me quer?
Ele fecha os olhos.
Se segura.
— Não agora.
E pela primeira vez…
Ele recua.
Não avança.
Isso pesa mais que qualquer toque.
Mais tarde, já na sala, o cansaço cobra.
Antoine encostada em mim.
Quieta demais.
— Tio… — ela murmura pra Aiden. — Você pode me defender do palhaço?
Meu sangue gela.
— Que palhaço?
— Ele disse que eu vou… defi… — ela trava na palavra — definhar… até morrer.
Pronto.
A paz durou o quê?
Cinco minutos?
Seguro o rosto dela.
— Mentira. — firme. — Aquele lixo não tem poder nenhum sobre você.
Mas por dentro…
Eu sei.
Isso tá longe de acabar.
— Se ele aparecer — digo baixo, quase rosnando — me chama.
Me levanto.
Devagar.
Algo dentro de mim muda de lugar.
— Já chega.
Aiden me observa.
Atento.
— Agora… — continuo — é a minha vez.
Naquela noite, Aiden me tomou com uma intensidade que ainda reverbera em minha pele.
Não foi carinho.
Não foi leve.
E, ainda assim… eu não o afastei.
Pior: meu corpo respondeu.
Estou começando a reconhecer esse caminho.
E isso me assusta.
Levanto da cama com cuidado para não acordá-lo.
Aiden dorme pesado.
Tranquilo demais para alguém como ele.
Caminho até a sala.
A casa está em silêncio.
Pesado.
Diante da lareira, ajoelho-me.
As doze badaladas ecoam pelo relógio.
Uma.
Duas.
Até doze.
Cada uma atravessando meu peito.
Traço o círculo no chão, escondido sob o tapete.
Minhas mãos se unem.
Minha cabeça se curva.
— Você tá aqui, Luka?
Silêncio.
Então...
— Onde eu tô? Tia Adessa?
Fecho os olhos por um segundo.
Segura.
Agora não é hora de desabar.
— Sou eu, querido… vem até mim.
Ele surge das sombras.
E o ar some dos meus pulmões.
Rasgado.
Machucado.
Marcado.
Cada corte conta uma história que eu não quero ouvir.
Mas preciso.
— Meu anjo… — minha mão treme ao tocar seu rosto. — O que fizeram com você?
— Não lembro… — a voz é pequena. — Posso ir pra casa?
Meu coração quebra.
— Pode… — minto, porque é a única forma de ajudá-lo. — Uma casa melhor.
— E minha mãe?
Droga.
Sempre a mãe.
— Ela vai te encontrar lá.
Minha voz falha.
Mas eu sustento.
— Enquanto isso, você vai brincar. Vai ter outras crianças. Ninguém vai te machucar de novo.
Ele hesita.
Criança ainda.
Mesmo assim.
— Vai ter doce?
Quase sorrio.
Quase.
— Vai ter tudo.
Ele dá um passo.
Vejo a fantasia.
A mesma que eu dei.
Ele foi.
E eu não estava lá.
Engulo a culpa.
Depois eu lido com isso.
Agora não.
— Qual o nome do seu amigo, tia?
— Miguel.
Ajoelho.
Ele me imita.
Repetimos juntos.
Sinto antes de ver.
A presença.
Luz.
Peso.
Silêncio que acalma.
Não olho diretamente.
Não tenho coragem.
Mas sinto.
E isso basta.
Luka corre.
Abraça.
E some.
Simples assim.
Como se nunca tivesse pertencido a esse mundo.
— Que cheiro é esse?
Eu me viro.
Aiden.
Rápido demais.
Sempre.
— Não tem cheiro nenhum.
Ele me observa.
Mais atento do que deveria.
— Você tá estranha.
— Tô fazendo magia.
Ele sorri de lado.
— Pra mim?
— Pra você gostar de mim.
Ele se aproxima.
Sem hesitar.
— Não precisa.
O beijo no topo da minha cabeça é quase… humano.
— Eu te amo.
Meu peito aperta.
Não pelo que ele disse.
Mas pelo que veio depois.
— E vou fazer você me amar… até me libertar.
Congelo.
— Libertar de quê?
Ele me encara.
Por um segundo…
Não é brincadeira.
— Da maldição.
Silêncio.
Então ele sorri.
Como se fosse nada.
— Tô brincando.
Claro.
Porque nada aqui é sério.
Nada.
Abro a geladeira só pra fazer alguma coisa.
Qualquer coisa.
— Tá com fome?
— Sempre.
Faço comida.
Mecânico.
Automático.
Minha cabeça ainda está no Luka.
Naquilo.
No que eu fiz.
Ou no que fui obrigada a fazer.
Mais tarde, voltamos pro quarto.
Ele me puxa.
Meu corpo responde.
De novo.
Errado.
Familiar.
Perigoso.
Deitada ao lado dele, encarando o teto, eu sei.
Sem romantizar.
Sem mentir pra mim mesma.
Estou voltando.
Pro mesmo lugar.
Pro mesmo vício.
E dessa vez…
talvez eu não consiga sair.
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