CAPÍTULO 20 - PESADO
Vida que segue. É o que dizem.
E eu sigo.
Antoine e eu estamos juntas. É isso que importa.
Por duas vezes, o dedo dela inflamou. Por duas vezes, voltou ao normal… como se nada tivesse acontecido.
Não quero ligar isso à festa.
Não quero ouvir minha intuição.
Mas talvez devesse.
Meu apartamento está à venda.
Antoine recebeu a notícia com uma alegria inocente, dessas que só enxergam a superfície.
Eu não.
Vou trocar tudo isso por um lugar menor.
Menor… pra caber menos lembrança.
Perdi filhos.
Perdi a mim mesma.
E ainda tem Ga’al.
O demônio que quis um corpo humano.
Sumiu.
Três meses me mantendo presa naquele quarto… e depois, nada.
Desistiu?
Não parece o tipo.
E mesmo assim…
Aqui estou eu.
Me entregando aos gostos duvidosos de Aiden.
Aprendendo a gostar de um tipo de violência que eu não devia reconhecer como prazer.
Mas reconheço.
E aceito.
Porque é isso que sobrou.
Vincenzo…
Digo a mim mesma que superei.
Que ele e Sweet não importam mais.
Repito isso até parecer verdade.
Até hoje, não os vi novamente.
Até hoje.
Caminho pelas ruas tentando não pensar em Luka.
Na morte dele.
Na mãe dele.
Na corda.
Quando prometi que ele veria a mãe de novo… eu não imaginava esse fim.
Foi um espírito?
Ou foi desespero puro?
Eu não entendo.
Se fosse eu… escolheria algo rápido.
Veneno. Um tiro.
Não uma corda.
Muito esforço.
Muita dor.
E no fim…
Nada.
Ela não encontrou o filho.
Eu ainda o sinto.
Perdido.
Num lugar bonito demais pra alguém tão quebrado.
Esperando.
Sempre esperando.
Se eu pudesse…
— Pode rezar por ela.
Inferno.
— Vincenzo… — rosno, assustada.
Ele sorri. Como se tivesse surgido do nada. Como sempre.
— Fica parada na frente do meu trabalho e ainda pergunta de onde eu vim?
Idiota.
— Por onde você andou? — minha voz sai mais baixa do que eu queria. — Senti sua falta.
Ele está suado.
O torso nu sob a luz do poste.
Memória ruim.
— Tem gente te esperando lá dentro. — Ele corta. — Tira esse sorriso da cara e sai da minha frente.
— Eu não parei. Você que tá me impedindo de passar.
— Dess… você tá aqui há vinte minutos.
— Não seja ridículo.
— Saudades?
Não respondo.
Não me mexo.
— Quem te fez isso?
— O corpo é meu. A vida é minha.
Um passo atrás.
Ele baixa a voz.
— Foi Aiden.
Silêncio.
— Eu avisei pra você não dar permissão.
— Desde quando eu preciso da sua permissão pra usar meu corpo?
Não vou discutir. Estou feliz. Minha filha está feliz.
Boa noite… e sai da minha frente.
Forço a passagem.
Encosto nele.
Erro.
As imagens vêm de uma vez.
As filhas de Sweet chorando.
Sweet… aplicando algo nas veias.
Vincenzo a carregando.
Asas negras rasgando o ar.
Uma capela.
Um padre.
Uma vela se apaga.
Sweet grita.
O crucifixo.
Bento.
Guardado.
Luz contra luz.
Risos. Cabeças baixas.
Hospital.
Vincenzo dorme ao lado dela.
Um porta-retratos.
Um beijo.
Relva molhada.
Um celular.
Silêncio.
— Você venceu… acabou.
— Dess!
Ele me segura.
Estou fria.
E eu… eu só queria ficar ali.
— Outra visão? — ele sussurra. — Percebeu agora que eu não tive escolha?
— Não importa mais…
Minha voz falha contra o peito dele.
— Já fiz minha escolha quando você fez a sua.
Inspiro fundo.
Me afasto.
— Só não precisava se afastar da Antoine.
Ela ainda te chama de pai.
— Sai da frente.
— O quê?
— Eu preciso continuar.
— Procurar o quê?
— Um emprego.
Antes que tudo acabe.
— Eu posso ajudar.
— Não precisa. Já tenho onde morar.
— Onde?
— Tarde demais, padre.
— Do que você tá falando?
— Já pequei.
Silêncio.
— Voltou a se prostituir?
— Casamento.
Ele trava.
— Hein?
— Aiden e eu vamos nos casar.
Digo isso e saio.
Rápido.
Antes que ele veja a mentira.
Ele grita atrás de mim, mas não escuto.
Não quero escutar.
Aiden me pediu em casamento.
Mas eu não disse sim.
Ainda não.
Tem algo errado.
Algo… que não encaixa.
Há algo entre Antoine e ele que me deixa inquieta.
— Por quê?
— Por que o quê?
— Suas mãos… são sempre frias.
Ele sorri.
— Porque não tenho alma.
Brinca.
Sempre brinca.
— O resto de você é quente…
— Principalmente uma parte específica.
Idiota.
— Você ainda gosta dele?
— Gosto.
Mas gosto mais do seu coração.
Você nunca me deixou.
— E nunca vou deixar…
Ele me puxa.
Forte. Presente. Intenso.
— Casa comigo.
— Não é tão simples.
— Diz sim… e será só nós dois.
Pra sempre.
Pra sempre.
Essa palavra pesa.
— Eu nunca fui esposa.
Nunca fui nada estável.
— Talvez eu ainda esteja quebrada.
— Me dá a sua mão…
A voz dele muda.
Mais baixa.
Mais séria.
— E eu te devolvo o mundo.
— Em troca?
— Você me devolve à vida.
Vendo o apartamento.
Rápido demais.
Dinheiro demais.
Silêncio demais.
Algo não bate.
Levo as meninas ao cinema.
Risos.
Normalidade falsa.
— Não vou dormir sem você.
— Vai sim.
— Nem vai me chamar de “amor”?
Reviro os olhos.
— Você sabe fazer amor?
Ele ri.
— Já fiz. Me arrependi.
Ignoro.
— Hoje é noite das meninas.
— Quantos anos tem a mais velha?
— Por quê?
— Porque sou um traficante de órgãos, ué.
— Por quê? — insisto.
— Curiosidade.
Desligo.
Mentindo.
De novo.
Passo no galpão.
Claro que passo.
Antoine quer ver o “pai”.
E eu…
Também.
Ele já está lá.
Esperando.
Como se soubesse.
Sempre sabe.
Ele abraça Antoine.
Sem palavras.
Ela chama de pai.
Ele responde.
Natural.
Como se nunca tivesse ido embora.
E isso…
Isso me quebra.
Volto pro carro.
Levo as meninas pra casa.
Tento falar com Sweet.
Nada.
Silêncio.
Antoine ri no banco.
Cabeça jogada pra trás.
Livre.
Leve.
— O que foi, filha?
Meu pai tá aí faz um tempão e a senhora não viu!
— Vincenzo… — rosno, guardando o celular. — Posso ir embora ou ainda vai bancar o “bom moço”?
— O que é isso, mãe?
— Filha! — repreendo. — Lembra da parte de não se meter em assunto de adulto?
— Já sei… — resmunga, indo pro banco de trás, fone nos ouvidos.
Se ele não me impedir, vou acabar casando com Aiden.
Não por amor.
Por sobrevivência.
Quero que o imbecil à minha frente me peça pra largar tudo e fugir com ele.
Mas ele continua ali.
Parado.
Mudo.
Inútil.
— Te amo, pai — diz Antoine, já deitada. — Vou dormir.
Eu mereço…
— Você vai se casar com ele? — finalmente pergunta.
— Tenho outra opção?
— Tem.
— Qual?
— Não casa. Me dá um tempo. Eu resolvo tudo. Depois… a gente fica junto.
Solto uma risada seca.
— Depois de anos, é isso? Mais espera?
— Dess…
Saio do carro e fecho a porta.
O vento frio traz o cheiro dele. Maçã verde. Droga.
— Nem me importo com você e a Sweet. Aquilo não é amor. É pena. — engulo seco. — Mas eu não tenho tempo pra isso. Eu tenho uma filha.
— Antoine precisa de amor! — ele explode. — Eu tenho casa, trabalho, dinheiro...
— Sua presença, porra! — corto. — Você nunca fica!
O celular vibra.
Aiden.
Claro que é.
— Dess… você tá com medo.
— Tô. — admito. — E é por isso que eu preciso ficar com ele.
— Do que você tá falando?
— Tira a mão de mim. Ele pode ver.
Ele recua.
E isso… isso dói mais do que qualquer coisa.
— Se você realmente conhece ele — continuo — Então sabe que existe um motivo pra vocês se odiarem.
Silêncio.
— Se gosta de mim… — minha voz falha — Me impede de casar.
— Dess…
— Covarde.
Entro no carro.
Não olho pra trás.
Porque, se olhar, eu volto.
E eu não posso voltar.
— Filha… — sussurro, com os olhos ardendo — O que eu vou fazer é pelo seu bem.
Mentira.
Mas é a mentira que me mantém em pé.
Aiden me espera na porta do prédio.
Claro que espera.
— Onde estão as meninas?
— Sweet não tá bem. Elas ficaram.
Ele pega Antoine no colo. Silencioso. Pesado.
— Você esteve com ele?
— Estive. Antoine quis ver o pai.
— Ele não é o pai dela.
— Agora ela vai ter um de verdade.
Ele me encara.
— O que quer dizer com isso?
Engulo seco.
— Sim.
— Sim o quê?
— Eu caso com você.
A frase cai como sentença.
Ele não sorri.
— Eu queria ver você feliz.
Eu sorrio.
Falso. Bonito. Convincente.
— Tô feliz.
Mentira número dois.
— Eu me caso com você, Aiden. — Pronuncio como quem assina a própria sentença. — O que houve? Não esperava por isso?
— Esperava… — ele hesita. — Só não assim.
— Então se acostuma.
Aiden me observa por um instante, como se tentasse encontrar algo que não está mais ali.
— Não quero ser um peso. Quero ser seu marido. Estar com você… de verdade.
Não respondo. Em vez disso, o beijo. Forte. Urgente. Errado.
Ele corresponde na mesma intensidade, rasgando meu vestido, empurrando meu corpo contra o sofá. Não há carinho. Não há pausa. Só necessidade.
— Ainda quer se casar comigo? — pergunta, ofegante, jogado contra o chão. — Com alguém como eu?
— Sim… — respondo, sem pensar. — Quero.
Ele me puxa para um abraço apertado demais para ser confortável.
— Você não vai se arrepender.
Promessas quase nunca são cumpridas.
Dois dias antes da cerimônia, entro na pequena capela tentando ignorar o peso no peito. O silêncio me sufoca mais do que qualquer grito.
Encaro o Crucificado. Duas lágrimas descem sem que eu permita.
Abro a cortina do confessionário com cuidado.
— Precisei ter certeza de que não era… — hesito. — Outra coisa.
— Não sou um demônio, filha. — a voz responde, calma. — E estou longe de ser um santo.
Algo nela me prende. Familiar demais.
— Como sabe…?
— Porque já cruzamos caminhos antes. — diz ele, sem pressa. — Sente-se.
Obedeço.
— Estou prestes a casar… — começo, encarando minhas próprias mãos. — E não amo o homem com quem vou me casar.
— E o homem que ama?
— Sempre vai embora.
— Mesmo assim… você ainda o ama.
Fecho os olhos.
— Amo. E odeio por isso.
O silêncio entre nós não é vazio. Ele pesa.
— Então por que aceitar outro?
Engulo seco.
— Porque eu tenho medo.
— De quê?
— De voltar a ser quem eu era.
Minhas mãos tremem.
— Eu escapei… mas não fui longe o bastante.
— E sua filha?
— Ela merece mais do que isso. — minha voz falha. — Mesmo que eu tenha que me perder de novo pra garantir.
Do outro lado, ele respira fundo. Como se já soubesse… mas escolhesse não dizer tudo.
— O nome dele… — ele diz por fim. — Aiden, não é?
Ergo o rosto, alerta.
— O senhor conhece ele?
— Não. — responde, firme. — Mas conheço o tipo de escolha que você está fazendo.
Me inclino, tentando ver seu rosto pelas frestas da madeira.
— E o outro?
Um silêncio mais longo dessa vez.
— Esse… você conhece melhor do que imagina.
— Ele é covarde. — sussurro.
— Ou está com medo de algo que você ainda não entende.
Meu coração aperta.
— Medo de quê?
— De perder você.
A resposta me desarma.
— Ele já me perdeu.
— Tem certeza?
Não respondo. Porque não tenho.
— Filha, pensa bem. Conheço Vincenzo há anos. Ele tem motivos para se afastar, mas te ama.
— Que motivos!?
— Ele contou a você… mas você não acreditou.
— Não dá pra acreditar nessa história de Lúcifer obcecado por ele. Ele tá surtando!
— Antoine melhorou do dedo?
Sufoco um soluço.
— Viu quem era o palhaço?
— Padre, isso é absurdo! — minha voz ecoa na capela vazia. — O senhor acredita mesmo nessa história de filhos entre anjos e mulheres perseguidas por Lúcifer!?
— Acredito. — Ele não hesita. — E ela vai sofrer, filha.
— Isso é injusto! Onde está Deus que não muda isso!?
— Livre-arbítrio. Cada escolha… uma consequência.
— Eu não aceito! — a raiva me rasga por dentro. — O que eu fiz pra merecer isso? E a Antoine!?
— Ele teve escolha. — A voz do padre pesa. — E escolheu não cometer atrocidades. Se tivesse escolhido diferente… teria se unido a Lúcifer. E nós o perderíamos para sempre.
O silêncio cai como uma sentença.
Saio da capela sem olhar para trás.
Dentro do carro, grito.
Grito até minha garganta arder.
Nada faz sentido.
Fantasia e realidade se misturam. Amor e ódio se confundem.
Preciso escolher.
Entre a alma do homem que amo…
e a vida da minha filha.
Fecho os olhos.
Não há escolha.
— Eu escolho a Antoine.
Aiden se recusa a se casar em uma igreja. Diz que é previsível.
Eu deixo.
Já não tenho forças pra discutir.
Ele cuida de tudo. Inclusive do meu vestido.
Poucas horas antes da cerimônia, ainda alimento uma esperança idiota… quase infantil.
Vincenzo entrando, interrompendo tudo.
Me levando embora.
Mas não.
Só vejo meu reflexo.
O “castelo” é uma piada de mau gosto.
Pedra, mofo, sombras. Teias nos cantos.
Um cenário perfeito pra um pesadelo.
Antoine e Cassandra não desgrudam de mim.
A maquiadora — loira, perfeita, vazia — termina os retoques.
— Apesar de linda… você está triste. Algum problema?
— Nenhum. — seguro o choro. — Só não quero borrar sua maquiagem.
— Simplesmente esplêndida, mamãe. — Antoine sorri.
— Simplesmente esplêndida… — a mulher repete, inclinando-se até meu ouvido. — Ainda dá tempo de desistir.
— Oi?
— Aqui está minha futura esposa.
Aiden surge.
Impecável. Sorriso perfeito. Frio.
Ao lado dele, uma versão mal acabada de pesadelo segura uma maleta preta e me encara como se soubesse de tudo.
— Pode começar — Aiden diz. — Deixe minha esposa ainda mais linda.
— Ela já está pronta — o outro responde, entediado.
Contenho o riso. Ou o nervoso.
— Quem te maquiou, baby? — Aiden pergunta.
— Celeste… ela já foi.
Ele ergue a sobrancelha. Se aproxima. Beija minha cabeça.
E sussurra:
— Não deixe nada me impedir de casar com você.
Não é um pedido.
É um aviso.
O corredor parece infinito.
Tochas tortas. Luz tremendo nas paredes.
Seguro o vestido pra não cair.
— Posso te acompanhar?
Olho para o homem ao meu lado.
Algo nele… não é certo.
— Pode…
— Tem certeza de que quer continuar?
— Não… — sussurro.
— Adessa.
Doc.
A realidade volta.
— Você está bem?
— Não.
O salão se abre.
Vermelho. Escuro. Pesado.
Os cantos parecem respirar.
Antoine caminha à frente, jogando pétalas.
Elas caem como sangue.
“Seja forte”, Doc sussurra.
Eu caminho.
Não de felicidade.
Mas como quem vai para o abate.
Sweet está lá.
Fraca. Quase apagando.
As filhas acenam.
Inocentes.
O buquê nas minhas mãos tem cheiro… errado.
Amadeirado. Denso. Vivo demais.
Aiden me espera.
Sorrindo.
O celebrante.
O mesmo da festa.
Olhos vermelhos.
Presença que sufoca.
— Por que ele!? — rosno.
— Ele é juiz de paz. Relaxa.
— Relaxa é o inferno.
— Você está linda…
Droga.
Esse sorriso ainda me desmonta.
— Como consegue ficar mais linda zangada?
— Idiota…
— Vai passar.
— Eu estou com medo…
Sombras se movem acima de nós.
Sweet sorri… e algo nela é sugado.
Quero gritar.
Quero correr.
Quero chamar Vincenzo.
Mas a mão fria de Aiden segura meu rosto.
Me prende aqui.
— Pode repetir? — peço.
Não ouvi nada.
Ou não quis ouvir.
De mãos dadas com Antoine…
Eu hesito.
E então digo:
— Aceito.
Misturo-me aos convidados sem soltar Antoine. Vou direto até Sweet, apoiada em Doc.
— Precisamos conversar, amiga.
Ela ri, quebrada.
— Você me chamou de amiga… amiga?
— Sweet, nada de choro no meu casamento. — Forço um sorriso. — Vai passar.
Mentira.
Ela se agarra a mim como se estivesse afundando. Doc observa em silêncio, olhos pesados de compaixão.
— Ei… — cochicho no ouvido dela. — Você não está sozinha. Vamos passar por isso juntas. Onde estão as crianças, Doc?
— Jujuba está aqui, mamãe — Antoine responde, atenta demais. — A Mimi sumiu.
O ar trava na minha garganta.
Antes que eu reaja, Aiden segura minha mão.
— Não me faça de bobo, baby. São meus convidados.
— Agora não, Aiden… — peço baixo. — Eu não tô bem.
Os dedos dele apertam meu braço.
— Agora sim… esposa.
Ele me puxa.
Rodopio entre desconhecidos cobertos de ouro, diamantes e vazio. Tudo brilha demais. Tudo fede a algo podre.
Os olhos deles… não piscam.
Ergo o olhar.
As sombras se movem.
Não é impressão.
Escorrem pelas paredes como tinta viva. Grossas. Pulsantes.
Num único movimento, todas são sugadas para a escadaria.
Sobem.
Desaparecem no corredor do andar de cima.
Como se tivessem sido chamadas.
Meu estômago revira.
Aiden gira comigo mais uma vez e me solta.
— Perdão por não te fazer feliz como aquele babaca. — Há algo infantil na mágoa dele. — Pode voltar pros seus amigos.
Aquilo me corta.
— Não, Aiden… me perdoa. — seguro o rosto dele. — É o vestido. Não consigo respirar. — tentando manter o frágil equilíbrio, pergunto sorrindo. — Que diabos de música é esta, Aiden?
Ele não responde.
Só olha.
Para o decote exagerado de meu vestido.
— Deixa que todos vejam… — murmura, baixo. — Que todos te desejem.
— Safado…
Eu o beijo. Rápido. Tenso.
E então...
O grito.
Sweet.
No meio do salão.
Rodeada.
Aplaudida.
Como um espetáculo.
Ela sobe na mesa, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Os olhos… vazios.
Mãos tremendo enquanto arranca a própria roupa.
— Cacete…
Empurro gente, joias, perfumes caros.
Arranco Sweet de cima da mesa e a cubro com o terno de Doc.
Ela treme.
Como se ainda estivesse sendo tocada por algo invisível.
Jujuba chora.
Antoine não.
Antoine só me observa.
Séria demais.
— A Mimi sumiu, mamãe.
— Quem disse isso?
Ela se aproxima. Sussurra:
— O Luka… disse que ela tá morta.
O mundo inclina.
Já não estou mais no salão.
Já não estou mais inteira.
Do lado de fora, Sweet grita enquanto Doc a carrega. Como se algo ainda puxasse ela de volta.
Aiden muda.
Longe dos convidados, ele volta a ser… humano.
Organiza. Resolve. Age.
Mimi não aparece.
Aiden volta minutos depois.
— Encontraram a menina.
Meu coração dispara.
— Onde!?
— No lago.
— Ela tá bem?
— Tá viva.
Rápido demais.
Sem emoção.
— Posso ver ela?
Ele hesita.
Por um segundo só.
— Não agora.
O silêncio pesa.
— Ela tava… fazendo o quê?
— Nadando.
Nadando.
Franzo a testa.
Mimi tem medo de água.
Antes da viagem, ele olha para Antoine.
— Ela vai atrapalhar.
O olhar dele… não é só desejo.
É posse.
— Sem ela, eu não vou.
Minha voz sai dura.
Ele ri.
— Parece mesmo.
E cede.
A casa fica no alto de um penhasco.
Sozinha.
Antiga.
Esperando.
O jardim respira.
O cheiro da terra molhada sobe como memória antiga.
Algo ali me reconhece.
Algo me chama.
Antoine e Cassandra correm para a floresta atrás da casa.
Pequenas.
Vivas.
Ignorando o silêncio pesado que se instala.
Aiden me pega no colo e me leva até a porta da cabana.
— Enfim sós… — ele torce o nariz. — Ou quase.
— De quem é essa casa?
Entro.
O interior me engole.
Madeira escura. Couro gasto. Ferro frio. Velas acesas sem que ninguém as tenha acendido.
Elegante demais.
Antiga demais.
Como se o tempo tivesse sido esquecido ali dentro.
Por um segundo, penso na casa de praia de Vincenzo.
Erro.
Afasto a lembrança com violência.
Beijo Aiden assim que meus pés tocam o chão.
— Ela é linda… é de algum amigo seu?
Caminho pelo espaço, tocando os móveis como se estivesse invadindo algo que não me pertence.
O vento entra pelas janelas azuis.
Sal.
Mar.
Algo mais.
— Responde… — olho pra ele — E para de me olhar assim.
Ele não responde.
Só observa.
Esperando.
— Não se lembra?
Meu peito aperta.
— Não começa…
Um sorriso pequeno.
Errado.
— É minha. Quer dizer… nossa. Muito antiga. Fiz algumas reformas.
“Reformas.”
A palavra não encaixa naquele lugar.
— Gostou?
— Muito.
Mentira pela metade.
As perguntas gritam.
Dinheiro demais. Tempo demais. Presença de menos.
Nunca vi ele trabalhar.
Nunca vi ele viver fora de mim.
Esquece.
Se entrega.
Esquece o outro.
Ponto.
Ponto é o cacete.
— Eu?
Ele já está perto demais.
— Quem mais poderia inaugurar o quarto comigo?
— Me solta…
Empurro, brincando.
Ou tentando fingir que é brincadeira.
Ele sorri.
Satisfeito.
Como quem ganha.
— Você está voltando, esposa.
Cruzo os braços.
— Estou, marido?
O ar muda.
Pesado.
Carregado.
Como se a casa estivesse ouvindo.
Mais tarde, Cassandra e Antoine caem no sono, exaustas.
Cheiro de grama.
Infância.
Coisas que não deveriam estar ali.
Aiden fecha a porta com cuidado.
Quando se vira, o cuidado desaparece.
O que começa no corredor não termina em lugar nenhum.
A casa inteira participa.
Observa.
Respira junto.
O vento me chama.
Sal.
Liberdade.
Abismo.
Caminho até o penhasco.
Não penso.
Só vou.
Como se já conhecesse o caminho.
Como se já tivesse estado ali.
Aiden me puxa de volta.
Forte demais.
— Não fica aqui sozinha.
A voz muda.
— Entendeu?
— Por quê? É tão lindo…
— E perigoso.
Ele me deita na relva úmida.
A grama fria encosta nas minhas costas como um aviso.
O corpo dele sobre o meu é calor, peso… controle.
Meu gemido escapa, e a mão dele cobre minha boca.
— Shhh… vai acordar as crianças.
O mar ruge lá embaixo.
Impaciente.
— Você tá diferente, marido.
Ele para.
Um segundo só.
— Como?
— Não sei… parece que não existe mais ninguém além de nós dois… e da Antoine.
Os olhos dele escurecem.
— É assim que deve ser.
Uma pausa.
— Só nós três… novamente.
Novamente.
A palavra abre algo em mim que não tem nome.
Ele prefere que eu cozinhe.
— Eu amo te ver assim… — diz, encostado na porta. — Foi a última vez que te vi antes de tudo mudar.
Antes.
Sempre existe um “antes” que eu não lembro.
A casa respira.
Eu sinto.
Não é impressão.
As árvores murmuram quando o vento passa. Às vezes cantam. Às vezes… lamentam.
Dançamos sob a chuva.
A água escorre pelo meu rosto.
Riso.
Ou choro.
Já não sei mais diferenciar.
Da varanda, Antoine e Cassandra aplaudem.
E o menino italiano.
Novo demais.
Próximo demais.
Ele escolhe uma música.
Reconheço.
Meu estômago afunda.
Eu já cantei isso antes.
Sem saber por quê.
Aiden me encara.
Os olhos marejados.
— Esse é o momento mais feliz de todas as minhas vidas, baby.
Minhas vidas.
— Não deixa acabar.
— Não deixo…
Mentira que eu conto pra ele.
E pra mim.
O celular toca.
O som corta o ar.
Queima.
Meu dedo.
— Droga…
— Quer que eu atenda?
Ele surge atrás de mim.
Quente.
Presente.
Errado.
— Não.
Sorrio.
Mentindo de novo.
Ele leva meu dedo à boca.
Lento demais.
Íntimo demais.
Eu devia recuar.
Não recuo.
Eu me entrego.
Depois…
Silêncio.
A mensagem.
“Não vá à Inglaterra. Haja o que houver, não vá a Stonehenge.”
Stonehenge.
O nome não deveria significar nada.
Mas significa.
Na noite seguinte...
Acordo com minha própria voz.
Chamando.
A casa está quieta demais.
Absurda demais.
A porta já está aberta.
Claro que está.
A relva molhada nos meus pés.
A camisola arrastando na terra.
O vento tentando me puxar.
O mar.
Lá embaixo.
Faminto.
Levo a mão ao ventre.
Dói.
Falta.
Saudade de algo que ainda não aconteceu.
Ou já aconteceu.
— Pule.
A voz é doce.
Errado.
Doce demais.
Vejo a forma sobre a pedra.
Asas escuras.
Dobras perfeitas.
Esperando.
— Ele te espera.
Respiro.
Sinto o cheiro.
Cítrico.
Familiar.
Perigoso.
Abro os braços.
O vento me abraça.
As asas se abrem.
Lindas.
Terríveis.
A criatura avança.
Rápida.
Mas não me toca.
Mãos me puxam.
Fortes.
Quentes.
Humanas.
— Nunca mais faça isso.
A voz falha.
— Nunca mais.
Vincenzo.
— Fica…
Mas ele já está indo.
Sempre indo.
O outro rosna.
Baixo.
Promessa.
— Um dia… você pula.
— Acorda, mamãe!
Frio.
Relva.
Realidade.
Aiden.
Me olhando.
Sem surpresa.
Só escuridão.
— Me diz você, baby.
As mãos dele seguram meu rosto.
Frias.
Firmes.
— Não me decepcione.
Um arrepio percorre minha espinha.
Percorremos a Irlanda como turistas felizes. Falésias dramáticas, campos verdes infinitos, vilarejos de pedra onde o tempo parece ter desistido de correr.
Mas nenhuma família.
Nenhuma apresentação.
— Todos morreram — ele diz com naturalidade. — Só restou um primo distante. Meio gangster.
Ele ri.
Eu também.
Mas a ausência pesa.
No pub, o calor humano me envolve. Madeira escura, cheiro de cerveja, música ao vivo vibrando no peito. Aiden conversa animadamente em irlandês — gaélico. O som é líquido. Antigo. Quase hipnótico.
Fico inebriada ouvindo.
Antoine emburra.
— Filha, não fica assim. Ela é adolescente. Gosta de namorar.
Cassandra já trocou o rapaz de olhos verdes por outro ainda mais verde.
— Eu nunca vou namorar! — Antoine cruza os braços. — Coisa nojenta. Eca! Beijar de língua! Por que o tio Aiden tá rindo tanto!?
Olho para o balcão.
Ele ergue o caneco ao lado do primo, postura relaxada demais pra ser confiável.
— Porque tá bêbado.
Ele brinda a mim.
Sorrio, desconfiada. Talvez estejam me elogiando. Talvez rindo de mim. O idioma é lindo. E indecifrável.
Impulsiva, ergo a voz:
— Go raibh maith agat!
Silêncio.
Um segundo.
Explodem gargalhadas.
A pronúncia saiu assassinada.
Dou de ombros.
— Vamos dançar, filha!? Eu amo essa música!
— Eu também! Woohoo!
Antoine invade a roda de adultos como se sempre tivesse pertencido ali. Mãos dadas, passos sincronizados.
— Vem, mãe!
Entro no círculo. Giro. Pulo. A música me atravessa.
Meu corpo lembra.
Minha mente, não.
California.
O palco.
A dança.
A ausência dói como uma amputação invisível.
Do balcão, sinto o olhar de Aiden queimando minhas costas.
Possessivo.
Incomodado.
Quando pulo ao comando de Antoine, percebo os olhares. Vestido. Botas de cano longo. Nenhuma outra mulher está assim. Jeans, casacos, gorros.
Eu destoando.
Eu brilhando.
Eu errando.
Saio do círculo. Deixo Antoine com Cassandra, que já flerta de novo.
— Tô de olho em você — sussurro.
— O que eu fiz, tia!? — Cassandra ri. — Preciso melhorar meu irlandês. O idioma deles é tão fofinho…
— Eu sei o que é fofinho! — Antoine protesta, ofendida.
— Cassandra é safada, mãe!
Ajoelho. Beijo a testa suada de Antoine. Seco seu rosto com um guardanapo verde.
— Um dia você vai entender, filha. Um dia. Fique com Cassandra. Já volto.
— Ok.
Levanto.
Sem motivo.
Mas inquieta.
Antes que eu me afaste, Antoine segura minha mão.
Olho para ela.
— Ele levou o guardanapo.
— Oi?
— O homem do balcão… Ele pegou o guardanapo que eu usei.
Meu estômago se contrai.
Cassandra puxa Antoine de volta para a pista. A música engole tudo. Luzes pendem como pequenos sóis. Quadros, bandeiras, fotografias antigas.
Antoine já me esqueceu.
Eu não consigo esquecer.
O tilintar de talheres, o riso alto, o cheiro de cerveja e madeira me seguem enquanto caminho até o banheiro.
Aiden surge no meio do caminho.
Olhos brilhando demais. Bochechas coradas. Álcool.
— Você me assustou.
— Foi aqui que tudo começou, baby.
— Não entendi. — Minha voz sobe. — Começou o quê?
Ele ri. Baixo. Trêmulo.
— Preciso ir ao banheiro.
Ele me empurra contra a parede. O quadro atrás de mim balança.
— E eu preciso de você, baby. Não me deixa de novo. Foi aqui que comecei a te chamar assim… lembra?
Meu coração tropeça.
— Não, Aiden. Depois a gente conversa. Aqui tá cheio demais.
A mão fria dele prende meu queixo. Minha cabeça bate na parede. O quadro cai.
— Você gostava de mim… até que ele apareceu.
O “ele” fica entre nós.
Pesado.
Vivo.
— Tá me machucando.
Ele se afasta de repente. Mãos erguidas.
— Eu saio.
O primo observa tudo. Olhos estreitos. Calculando.
— Não me deixa outra vez, baby. Não quero morrer. Preciso viver. Liberta-me…
Morrer?
A palavra não combina com um bêbado.
Um déjà vu me atravessa.
A mesma frase.
O mesmo tom.
Outro tempo.
— Aiden, para de beber. Vamos embora.
— Ok…
Ele volta ao gaélico com o primo. Rápido demais. Baixo demais.
Como se escondesse.
Ou repetisse algo que eu já ouvi antes.
Eu fujo.
O banheiro é um mosaico verde e dourado. Fotos cobrindo as paredes. Bandeiras. Recortes. O vaso verde me arranca um sorriso nervoso.
— Antoine precisa ver isso.
— Você deixou ele levar o guardanapo?
O ar some dos meus pulmões.
— Puta que pariu…
Ele está ali.
Como se tivesse saído do espelho.
— De onde você surgiu? Não. Não fala nada. É impossível você estar aqui.
— Calma, Dess…
— CALMA É O CARALHO! NÃO ME TOCA!
Corro para a porta.
Clique.
Trancada.
Antes que eu bata, ele me puxa.
Abraço firme.
Familiar.
— Calma. Perdão. Eu te assustei.
— Não consigo respirar…
— Inspira em quatro. Segura em cinco. Solta em seis.
Meu corpo reconhece antes da minha mente.
Obedece.
O banheiro é lindo.
E sufocante.
— Perdão, Dess…
— Como chegou até aqui? Pra quê?
Ele se aproxima da minha nuca.
— Saudades de vocês…
Meu peito dói.
Eu ainda amo esse homem.
E me odeio por isso.
— Isso não tá certo…
— Eu sei. Você é casada.
Silêncio.
— Eu te perdi pra sempre?
— Não seja ridículo.
Ele recua.
Devagar.
— Posso te abraçar de novo.
— Você me ouviu? Tem música lá fora! Aquele papo de que você não ouve pensamentos com barulho era mentira?
Ele sorri.
Maldito sorriso.
— Você pensou alto demais.
Mordo o canto da boca.
— Para de pensar, Dess.
— Não consigo.
Água gelada no rosto. Papel áspero na pele.
No espelho, ele atrás de mim.
— Você nunca vai sair da minha vida?
— Não.
Sorrimos ao mesmo tempo.
Sincronizados.
Eu odeio isso.
— Por que não foram a Stonehenge?
O nome pesa.
— Antoine fez drama.
Ele ri.
Eu estreito os olhos.
— Você tem algo a ver com isso?
— Eu? Nunca. — levanta a mão, teatral. — Juro de dedinho.
— Vocês ainda se falam…
Ele não responde.
E isso responde tudo.
— O que tem de tão terrível em Stonehenge?
O sorriso morre.
Devagar.
Os olhos escurecem.
E, pela primeira vez naquela noite,
ele não parece um amante.
Parece um aviso.
— Poder. — Ele se senta na pia de mármore, como se fosse o único lugar capaz de sustentar o peso do que carrega. Os olhos fixos no chão. — Aiden conseguiria, enfim, voltar…
Um arrepio sobe pela minha coluna.
— De onde?
— De onde não deveria ter saído.
Ele dá de ombros, mas os olhos azuis estão longe de qualquer leveza.
— Não sou eu quem faz as regras. São eles que mandam, Dess.
— Eles?
Sigo o gesto dele em direção ao teto coberto de fotos.
— John Lennon e Liam Neeson?
Tento rir.
Ele não ri.
— Não.
O silêncio pesa.
— O que você quis dizer com o lance do guardanapo?
— Ele pegou. Agora tem o suor da Antoine… e o seu sangue também.
Meu estômago despenca.
— Não começa! Não fala daquele homem! Lúcifer não existe! Não existe!
— Shhh… — Ele me envolve. O abraço é firme. Tenso. — Isso vai acabar logo. Prometo.
Promessas.
Sempre promessas.
— Não quero que você faça algo de ruim.
— Do que está falando?
— Eu sei de tudo. Padre Pietro me contou.
O nome paira entre nós.
Encosto o rosto na nuca dele.
— Não seja mau… por favor. Não quero que você se perca.
— Eu não vou.
— Proteja a Antoine. Eu tenho uma saída.
Ele me segura pelos ombros.
— Qual?
Eu o empurro.
Se eu pensar, eu desmorono.
— Dess, fala comigo.
— Não posso.
— Não volta pra ele. Você não vai ser feliz.
— Eu sei. Agora é tarde.
— Ainda não…
— Eu esperei por você, amor…
O rosto dele se quebra em dor.
— Eu estava lá. Existem leis que me impedem.
Leis.
Sempre leis invisíveis.
— A menina, Dess…
— O que tem a Mimi?
— Ela…
— Não! — Tampo os ouvidos. — Não vou ouvir!
— Você precisa fazê-lo parar. Só você pode.
— Não!
Ele avança um passo. Eu recuo.
— Eu vou te ajudar.
— Fica longe, Vincenzo. Fica longe.
Meu corpo me trai.
Eu me aproximo.
Um beijo casto.
Curto.
Errado.
Destranco a porta.
Antes de sair:
— Eu morreria por você.
E odeio saber que é verdade.
O luxo ainda me veste mal.
Salões enormes. Lustres frios. Conversas vazias.
Aiden circula entre aristocratas com a segurança de quem pertence.
Eu observo.
Antoine tem pesadelos.
Cassandra vê vultos.
Desde a morte dos pais dela — juntos, na própria cama, “ataque cardíaco” — nada parece natural.
— Morreram juntos. Que romântico.
— Eles nunca usaram drogas! — retruco.
— Who knows?
— Eu sei! — Minha voz corta a mesa. — Eu conhecia eles.
Uma das amigas de Aiden ri.
Oca.
— Humanos fazem coisas que até Deus duvida. Você não faria qualquer coisa por sua filha?
Eu rosno.
— Não ria de quem já partiu.
— Não são mais, baby…
— Não me toca.
Levanto.
— Estou com enxaqueca.
A mão fria de Aiden segura a minha.
O olhar dele não entrega nada.
— Tem certeza que não quer ficar? Pode ser… interessante.
Vincenzo ecoa na minha cabeça:
Você não vai ser feliz.
— Não.
Subo as escadas, tirando os saltos.
— Eu odeio isso aqui, Aiden.
— É a nossa casa, baby.
Nossa.
A palavra fecha atrás de mim como uma porta.
— Não. Não é minha.
Ele me alcança antes da porta do quarto de Antoine.
E, por um instante…
lucidez.
— Por que você não volta a ser o homem que amei na Itália? — Minha voz falha. — Por que essa gente precisa estar sempre aqui? Eu tenho medo, Aiden. Antoine também.
— É o nosso lar. — Frio. — Se não estiver satisfeita, saia.
Saia.
Como ordem.
Como ameaça.
— Ainda não. Ainda tenho o que fazer aqui.
O sorriso dele muda.
— Tem? O quê?
A mão fria desliza pelo meu pescoço.
Calculada.
— O que quer descobrir sobre mim, esposa? Ainda acha que sou um demônio em busca de um corpo?
— Só estou cansada.
— Me espera na cama?
— Sim.
Ele inclina a cabeça.
— Eu te amo, baby. Por que não diz o mesmo?
Eu não consigo mentir.
Dou de ombros.
— Boa noite, Aiden.
— Te espero.
Naquela noite, ele mostra o que é quando ninguém vê.
Cruel.
Insaciável.
Aprendo rápido:
quanto mais reajo, mais ele se alimenta.
Então eu paro.
Eu aguento.
Espero ele dormir, agarrado a mim como se fosse amor.
Não é.
Dias piores vêm.
Exausta. Machucada. Vazia.
Antoine e Cassandra esperam no carro com a nova preceptora.
“Ela é de confiança”, ele disse.
“De quem?”, eu respondi.
Na igreja, finalmente respiro.
— A culpa é minha, padre.
Padre Pietro me observa.
Ele sempre vê.
— Casei por medo. Pra proteger minha filha. E só consegui feri-la.
— Calma. Ainda há saída.
— Como? — escondo os hematomas. Ele vê mesmo assim. — Eu não tenho mais nada. Nem controle.
Silêncio.
— Amanhã, traga seus documentos. Vamos proteger você.
Eu desabo.
— Não aguento mais uma noite ali.
— Vamos agir. Com calma. Mas vamos.
Assinto.
— Tem notícias de…?
— Não. Ele sumiu. Longe de você, é mais seguro.
Eu minto.
Eu preciso dele.
— Até amanhã, padre.
— Que o Criador te proteja.
No carro, Antoine acena.
Giro a chave.
Ela fala, tranquila demais:
— Cuidado. Eles vão vir atrás do senhor.
Meu coração trava.
Porque não é medo.
É certeza.
Na manhã seguinte, eu não volto à igreja.
Não troco senhas.
Não levo documentos.
Eu escolho não ver.
Aiden me convida para o mar.
Como se o oceano pudesse lavar o que aconteceu na noite anterior.
Como se bastasse mergulhar… e esquecer.
— Quero me desculpar pelo que tenho feito a você.
O iate é absurdo.
Branco. Impecável. Silencioso.
O tipo de luxo que não precisa provar nada.
Só existir… já humilha.
— Esse iate é seu também? — o vento bagunça meus cabelos. — É lindo.
Antoine e Cassandra se esticam nas cadeiras, douradas pelo sol.
O mar está liso.
Azul demais.
Quase falso.
Ele me olha como quem oferece o mundo.
Ou como quem compra silêncio.
— Eu posso viver com muito menos, Aiden. Eu ainda quero ser feliz com você.
— Eu também, baby.
Ele me envolve. Beija minha bochecha.
Suave.
Quase gentil demais.
— Eu não sou aquele. Algo toma conta de mim. Uma força que conheci faz tempo.
Sempre uma força.
Nunca responsabilidade.
— Que força?
— Algo que não consigo controlar. Eu preciso de você.
Precisa.
Ou depende?
Ou usa?
— A gente foi feliz na Itália. Vamos pra lá. Eu não quero aquela mansão. Ela me dá medo.
Ele sorri.
Devagar.
— Medo você vai ter se eu te jogar no mar agora.
Ele me pega no colo.
Eu grito.
Ele ri.
E me lança.
O choque da água é brutal.
Frio.
Violento.
Vivo.
Depois…
silêncio.
Debaixo do mar, tudo se afasta.
Som.
Peso.
Culpa.
Talvez a felicidade seja isso.
Uma pausa submersa.
— Vem! — eu grito, quando volto à superfície.
Ele mergulha elegante.
Surge na minha frente.
Beija meus lábios salgados.
— As meninas estão seguras?
— Estão. O barco está ancorado. E eu estou excitado.
Eu rio.
Porque é mais fácil rir do que pensar.
Abraçada a ele, flutuando…
quase acredito.
— Eu vou mudar, baby. Eu juro. Não me deixa.
Promessas combinam com céu azul.
O dia é perfeito demais.
E é isso que me assusta.
Almoçamos numa ilha próxima.
Antoine corre.
Aiden corre atrás dela.
Riem como pai e filha de comercial de margarina.
Perfeito demais.
Ensaiado demais.
Longe da preceptora, Cassandra relaxa.
— Ele mudou, tia.
— É… estranho.
Ela hesita.
— Tem algo errado naquela mansão.
Meu corpo enrijece antes da mente entender.
— Por que diz isso?
Ela mexe na bolsa.
Quando vejo o que ela tira…
meu sangue esfria.
Um pedaço rasgado de pano.
Sujo.
Úmido em alguns pontos.
Velho em outros.
— Onde você achou isso?
— Num dos quartos.
Ela aponta o desenho.
— É o logotipo de um jogo de RPG.
Eu reconheço na hora.
Rápido demais.
— Estava na camiseta do Luka. Eu comprei essa blusa.
O mundo perde cor por um segundo.
Curto.
Suficiente.
Eu pego o pano.
Cuidado demais para parecer descuido.
Guardo na bolsa.
Evito encostar mais do que o necessário.
Evito sentir o que já sei.
Aiden se joga na toalha.
Antoine pula em cima dele.
Gargalhadas.
Leves.
Erradas.
Cassandra me olha.
Eu sussurro:
— Depois.
Ela entende.
As duas correm para o mar.
Aiden me puxa para deitar sobre ele.
Meu corpo relaxa.
Minha cabeça não.
Nunca mais.
— Podemos morar em outro lugar, baby.
Levanto o rosto.
— Sério?
— Sério. Você escolhe. Me dá mais uma chance de te fazer feliz.
Chance.
Sempre mais uma.
Nunca a última.
Eu o beijo.
Com paixão.
Com culpa.
Com a sensação incômoda de que estou pagando uma dívida que não lembro de ter feito.
— Pode. A gente vai ser feliz, marido.
Ele sorri.
Satisfeito.
Como se tivesse fechado um negócio.
— Te amo, esposa.
O sol aquece minha pele.
Mas, dentro da bolsa…
o pano rasgado pesa.
Mais do que deveria.
Como uma prova.
Como um aviso.
De que o mar não apaga nada.
Só adia.
Num raro momento em que Aiden me deixa sozinha, vou até a casa de Sweet.
Antoine e Jujuba brincam no quarto de Mimi.
Alheias.
Ao cheiro ácido que domina o apartamento.
Sweet está largada no sofá.
Olhos fechados.
Boca entreaberta.
Respiração irregular.
Vida por um fio.
— Sweet…
Tento acordá-la.
Nada.
Nem um reflexo.
Nem um protesto.
Desisto por enquanto.
A pia está lotada.
Pratos grudados.
Restos endurecidos.
Lavo.
Recolho o lixo.
Seringas usadas enchem a lixeira.
O chão cola nos meus pés.
Doc já tinha avisado.
Antes do meu casamento.
Ela estava surtando nos shows.
Bebia demais.
Falava coisas desconexas.
Ele a protegia.
Dos homens.
Dela mesma.
Ansiedade.
Impulsividade.
Drogas.
O roteiro clássico da queda.
Eu saltei do barco.
Sweet não.
Depois de “bater o próprio recorde” com cento e um homens num dia…
ela afundou.
Um dia a conta chega.
Chegou.
Sento no sofá.
Puxo a cabeça dela para o meu colo.
Os olhos verdes se abrem.
Sem brilho.
Sem defesa.
— Sweet, eu tô aqui.
Ela começa a chorar.
Um choro infantil.
Quebrado.
Eu a abraço.
— Não precisa me contar nada. Vai passar. Eu vou te ajudar.
Ela me olha…
como quem já desistiu.
— Não vou, não. Cuida da Jujuba pra mim?
Meu estômago revira.
— Vai sim! Eu não vou deixar nada te acontecer!
Ela tenta se sentar.
Cabelos oleosos.
Corpo frágil.
Instável.
— Você tá vendo?
— Quem?
As mãos dela tateiam o ar.
Como se afastasse algo invisível.
Uma risada escapa.
Errada.
Fora de lugar.
E morre rápido demais.
Silêncio.
Um arrepio sobe pela minha nuca.
— Vamos tomar um banho. Vem.
No banheiro, tudo desanda.
— TIRA ELA DA ÁGUA! — ela grita, lutando contra algo que só ela vê.
O corpo se debate.
Braços.
Pernas.
Força que não deveria ter.
Olhos arregalados.
Pânico puro.
Eu travo.
Um segundo.
Dois.
Lembro de Vincenzo.
Dos golpes.
Do controle.
Agarro.
Imobilizo.
Seguro firme.
— Respira comigo. Inspira… solta…
Demora.
Mas ela cede.
O corpo perde força.
Desaba.
Rola de lado.
Eu também.
Sentada no chão frio.
Sem ar.
Sem saber.
Ela olha para o teto.
E sorri.
— Ele tá chegando.
O frio não vem de fora.
Vem de dentro.
— Quem?
A porta abre.
Antoine aparece primeiro.
Inocente.
Viva.
Atrás dela…
Aiden.
Meu coração falha.
— O que você faz aqui!?
Ele entra como se sempre tivesse estado ali.
— Por que não me chamou para ajudar, baby?
Ele pega Sweet.
Leve demais.
Como se conhecesse aquele corpo.
Como se já tivesse feito aquilo antes.
Deita no sofá.
Examina.
Pupilas.
Pulso.
Narinas.
Rápido.
Preciso.
Frio.
— Ela precisa de cuidados.
Eu levanto.
Devagar.
— Como sabia que eu…?
Ele me encara.
Sem paciência.
— Quer perder tempo com perguntas idiotas ou salvar sua amiga?
Culpa.
Sempre culpa.
Engulo seco.
E obedeço.
Como todo mundo acaba fazendo.
No hospital, eu vigio o sono de Sweet.
O bip constante das máquinas me irrita. Não pelo som — pelo que ele representa. Vida mantida por um fio. Controle. Sempre controle.
Aiden resolve tudo.
Médicos aparecem rápido demais. Enfermeiros obedecem sem questionar. Um quarto é liberado como se já estivesse reservado.
Como se ele soubesse que isso ia acontecer.
Como se tivesse preparado.
Fico sentada ao lado da cama, segurando a mão de Sweet. Fria. Mole. Ausente.
— Ela vai ficar bem. — A voz dele vem calma demais.
Calma ensaiada.
Olho pra ele.
— Desde quando você entende disso tudo?
Ele dá de ombros, apoiado na parede, impecável mesmo depois do caos.
— Desde sempre.
Resposta vaga. Limpa. Inútil.
— Você apareceu rápido demais.
Silêncio.
Um segundo a mais do que deveria.
— Você não me atendeu. — Ele se aproxima. — Eu fui até você.
Mentira?
Talvez.
Mas bem contada.
Desvio o olhar.
Não tenho energia pra investigar. Ainda não.
Sweet se mexe.
Um gemido fraco escapa dos lábios secos.
Eu me inclino na hora.
— Ei… eu tô aqui. — Minha voz sai mais suave do que eu esperava.
Os olhos dela abrem só um pouco.
Perdidos.
Mas, por um instante…
assustados.
Ela não olha pra mim.
Olha pra ele.
Aiden.
O corpo dela enrijece.
Quase imperceptível.
Mas eu vejo.
Eu sempre vejo.
— Sweet? — aperto a mão dela. — Sou eu.
Ela tenta falar.
Nada sai.
A garganta falha.
Os olhos voltam pra mim.
O medo… não.
O medo não veio de mim.
Um arrepio percorre minha espinha.
— Precisa descansar. — Aiden corta, firme. — Forçar agora só piora.
Ele já está ao lado da cama.
Perto demais.
Sempre perto demais.
— Eu decido isso. — rebato, sem tirar os olhos dela.
Ele sorri.
Aquele sorriso.
Bonito.
Errado.
— Claro que decide, baby.
Mas recua.
Dois passos.
Como quem permite.
Como quem sabe que não precisa insistir.
Porque já ganhou.
Sweet fecha os olhos de novo.
Apaga.
Dessa vez mais fundo.
Seguro a mão dela por mais alguns segundos… e solto.
Devagar.
— Você vai voltar pra casa? — ele pergunta.
Casa.
Aquela palavra de novo.
Como se tivesse dono.
Como se fosse uma jaula bonita.
— Não sei.
— Antoine já está com a preceptora. Está segura.
Informação demais.
Rápido demais.
— Você não precisa se preocupar com nada. — ele continua.
E é aí que eu entendo.
Esse é o problema.
— Eu preciso, Aiden. — encaro ele. — Eu ainda penso.
O olhar dele muda.
Sutil.
Perigoso.
Mas passa.
Sempre passa.
— Eu gosto disso em você. — ele diz, baixo. — Ainda.
Ainda.
Como se isso pudesse acabar.
Como se fosse… opcional.
Desvio.
Volto pra Sweet.
Mas minha cabeça já não está mais ali.
O pano rasgado.
O guardanapo.
Mimi.
A mansão.
As sombras.
Tudo começa a se alinhar.
Errado.
Muito errado.
E, pela primeira vez desde que aceitei aquele maldito “sim”…
Eu não sinto medo.
Sinto clareza.
Doc cuida das crianças.
Firme.
Presente.
Como sempre.
Cassandra finge mexer no celular.
Mas observa tudo.
Nada escapa.
Aiden está espalhado na poltrona de couro.
Confortável demais.
Como se aquele lugar também fosse dele.
— Ela está bem, baby.
— Graças ao seu heroísmo. Conveniente.
Ele inclina a cabeça.
Quase divertido.
— Ciúmes?
— Desconfiança.
Um sorriso lento.
Ensaiado.
— Se estiver insinuando algo com Sweet… mais tarde você será advertida.
Meu sangue ferve.
— Cala a boca. Respeita a Cassandra.
Ele se levanta.
Vem até mim.
Seguro.
Confiante.
Como se nada ali fosse real ameaça.
Vai me beijar.
A porta se abre.
O médico entra.
Salva.
Por enquanto.
Olhar cansado.
Rosto fechado.
Nenhuma paciência.
— Você é parente?
Aiden responde antes de mim.
Rápido demais.
— São primas.
Primas?
Desde quando?
Engulo.
— Qual o estado dela? — ele pergunta.
Como se estivesse no comando.
O médico nem olha direito pra gente.
— O que quer ouvir primeiro?
Algo em mim estala.
— Fala direito.
Ele suspira.
Entediado.
Como se estivesse lendo um cardápio.
— Sífilis. Gonorreia. Cirrose hepática. Transtornos psicóticos por uso de maconha, cocaína e outras substâncias.
O quarto encolhe.
O ar pesa.
— Que substâncias? — minha voz falha.
— Ainda não identificadas.
Ele já se vira.
Já vai embora.
— Ei! — avanço um passo. — Você não vai examinar a paciente? Ela tem nome. Sweet.
Ele para.
Lento.
Sem pressa.
Olha por cima do ombro.
— Que bom. Agora sei o nome da mãe da criança.
Silêncio.
Pesado.
Errado.
Aiden é o primeiro a reagir.
— Criança?
O médico encara Sweet.
Frio.
Distante.
— Ela está grávida.
O ar some.
Simples assim.
— Puta que pariu.
Cassandra se aproxima.
Abraça Sweet com cuidado.
Protege.
Mais do que qualquer adulto ali.
Meu celular toca.
Alto demais.
Eu atendo sem pensar.
— Alô.
— Dess?
O mundo para.
Vincenzo.
Saio para o corredor.
As pernas não pedem permissão.
— Agora não.
A voz dele…
não está certa.
— Você esteve com padre Pietro?
— Sim. Faltou pouco pra eu ir vê-lo de novo.
Silêncio.
Longo.
Pesado.
— Você não vai.
— Por quê?
Ele demora.
Tempo demais.
E eu já sei.
Antes mesmo de ouvir.
— Padre Pietro está morto.
O mundo não faz barulho quando desaba.
Não explode.
Não grita.
Ele só inclina.
Devagar.
E você entende…
que não tem mais onde segurar.
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