CAPÍTULO 21 - MERGULHANDO NA ESCURIDÃO
Lágrimas escorrem dos meus olhos sem que eu tenha controle. A cada passo em sua direção, sinto meu coração se comprimir.
Ergo o olhar.
Anjos pintados no teto abobadado me observam em silêncio. No altar, o Crucificado parece compreender meus anseios. Pequenos pontos de luz branca escapam de Seu corpo pregado na cruz.
Esbarro em um jovem de túnica preta e capuz. Peço desculpas num sussurro.
Penso em Antoine.
Deixei-a com Cassandra… e com Aiden, que, estranhamente, não quis me acompanhar. Talvez, se eu pensar mais um pouco, encontre a resposta.
Mas não quero.
Eu o vejo.
A dor me dobra ao meio. Levo a mão ao peito, curvando o corpo, deixando escapar um lamento baixo. Os monges abrem espaço em silêncio.
A capela está quase vazia.
Seis monges.
E eu.
Ele tinha poucos amigos. Bons… e poucos.
Eles oram.
Eu paro.
Mortos ainda contam histórias?
— Venha — diz um deles, estendendo a mão. — Eu te levo.
— Eu o conheço?
— Não.
Seguro sua mão.
E então...
Relva.
Sol filtrado por folhas.
Risos.
Promessas.
Velas.
Abraços.
Depois… dor.
Castigo.
Silêncio.
Separação.
Inspiro fundo.
— Você está bem?
Estou de volta.
— Sim.
À minha frente, ele.
Inerte.
Não sorri como da última vez.
Toco a madeira. Ajusto as flores. Minha visão embaça. Fecho os olhos. Seco o rosto com o dorso da mão.
— Padre Pietro me contou. Vocês eram amigos.
— Sim. — A voz falha. — Muito mais do que amigos. Ele me ensinou a ter fé… a perseverar, mesmo em pecado. Mostrou o caminho.
Seguro sua mão trêmula.
— Tem coisas que não podemos ter… né?
Ele me encara, surpreso.
— Sim.
Silêncio.
— O que ele te contou?
— Nada. — Minto. — Só disse que tinha um grande amigo… por quem nutria um grande amor. Um amor que liberta. Ele libertou esse amigo… e o viu partir.
As palavras pesam entre nós.
— Você voltou… por quê?
Ele ergue os olhos para Cristo.
— Perdi minha família em um acidente. — A voz é baixa, firme. — Tentei tirar minha própria vida. Padre Pietro me encontrou. Me fez enxergar que ainda havia motivos para viver. Voltei ao mosteiro… e tento seguir o Mestre.
— Sinto muito.
— Não lamente. Deus sabe de todas as coisas. Minha esposa e meu filho estão com o Criador. Padre Pietro também estará. Não havia coração como o dele.
Uma pausa.
— Ainda não entendo como ele morreu de infarto fulminante.
— Infarto?
— Foi o que o legista disse.
— Havia algo no sangue? Alguma substância?
— Não sei. Havia adrenalina… talvez um susto.
— Susto? — Minha voz falha. — Pode-se morrer de susto?
— Não sei. Padre Pietro era corajoso.
— Eu sei. — Engulo seco. — Ele me livrou de um demônio. Não era do tipo que se assustava.
— Não.
Ele me abraça.
— A paz de Cristo.
Fico sozinha.
Meus olhos se fixam nos chumaços de algodão nas narinas de padre Pietro.
Por um instante, quero arrancá-los.
Deixá-lo respirar.
Mas a música…
Ela começa.
Suave.
Errada.
Olho ao redor.
Não há alto-falantes.
— Me perdoa… — sussurro, inclinando-me sobre ele.
Retiro o véu.
Rosto frio.
Sem vida.
— De onde está… consegue me ouvir? Padre… me perdoa. Eu fui a culpada. Não deveria ter vindo. Não deveria ter falado com o senhor. Eu tenho medo… não me deixa sozinha.
Minha voz treme.
— Eu fui a culpada pela sua morte?
— Não há culpados.
A voz surge.
Sem rosto.
Ergo o olhar.
Algo nele… não encaixa.
A túnica é mais longa.
O capuz, mais escuro.
E ainda assim… brilha.
— A morte chega para todos — continua. — Deus o chamou. Ele ouviu… e partiu. Simples assim.
— Ele era meu amigo. — Minha voz falha. — Ele me ouviu… sem me julgar. Isso não faz sentido. Morrer de susto?
Um riso leve.
Fino.
Errado.
— Quem vai saber o que ele viu… não é mesmo?
O desconforto cresce.
— Não fale assim dele.
— Perdão. — diz ele, ajustando o capuz com dedos longos, finos demais. — Não foi minha intenção te irritar.
— Você o conhece? De onde?
— Aaah… meu bem. Faz tempo.
— Eu te conheço? Por que não me deixa ver seu rosto?
Um sorriso lento se insinua sob o tecido.
— Já te disseram que você é chata? Vele o corpo do homem… e fique calada.
— Olha pra mim. — ordeno, entre irritada e assustada. — Eu sinto que te conheço.
— Shhh… fale baixo. Tem gente rezando.
— Por que não me olha?
O sorriso cresce.
Errado.
— Por que não o toca? — a voz desliza, suave demais. — Talvez me reconheça. Talvez entenda o que desejo… e o poder que possuo.
O arrepio vem violento.
Frio.
— Talvez, enfim, compreenda que aquele que te ama não é quem você pensa… e aquele por quem é apaixonada… pertence a mim.
Ele recua.
Cabeça baixa.
Mas a presença fica.
— Dê lembranças a Antoine. — quase um sussurro. — Sou apaixonado por aquela doce criança. O sangue e o suor dela são preciosos… eu os guardo com carinho.
O ar some dos meus pulmões.
— Maldito…
Viro de súbito.
Só encontro os monges.
Cabeças baixas.
Silêncio.
— Vocês não o viram!?
Nada.
Olho de volta para o corpo.
— Lúcifer pode entrar em igrejas, padre Pietro? — sussurro. — Eu preciso de ajuda… estou sozinha.
— Não está.
Meu corpo trava.
— Não me toque. — fecho os olhos. — Se tocar na minha filha… eu te mato.
— Dess…
A voz muda tudo.
Abro os olhos.
Vincenzo.
Sem capuz.
Sem máscara.
Só tristeza.
Ele se ajoelha ao lado do caixão. Ajusta a barba do amigo com cuidado. Eu seco as lágrimas dele com o polegar.
— Eu estou aqui. — diz, baixo. — Por que tem medo?
— Você não viu?
— Quem?
As palavras do padre ecoam.
O riso.
A ameaça.
Eu engulo tudo.
— Nada…
Esfrego o rosto.
— Eu não tô bem. Só isso. Sinto muito, Vincenzo. Sei o quanto vocês eram amigos.
— Ainda somos. — ele murmura, tocando a testa pálida do padre. — Ele só está… em outro plano.
Me afasto.
Um passo.
Dois.
— Não vai. Fica.
— Não posso. Antoine pediu pra eu voltar.
— Ela está bem.
Os olhos dele encontram os meus.
— Eu não.
Isso quase me quebra.
— Por que você ainda não tocou nele?
— Medo.
— De ver algo?
— Sim.
— Desconfia de alguma coisa?
— Não. — minto. — Só… não quero ver. Não há nada de bonito nos últimos momentos de quem a gente ama.
— Imagino… meu anjo.
— Não sorri assim pra mim. — minha voz falha. — Você sabe que consegue qualquer coisa quando sorri assim.
— Eu sei.
Eu odeio que ele saiba.
— Ele me espera.
— Aiden?
— Sim. Ele não quis vir.
— Por quê?
— Dor de cabeça.
Vincenzo solta um sopro impaciente.
— Não te parece estranho que ele não entre em igrejas?
— É a primeira vez.
— Não é. — ele corta. — Ele também se recusou a casar com você em uma igreja. Esqueceu?
— Como você sabe disso?
Ele revira os olhos.
Eu também já sei.
— Claro… você e Antoine.
— Dess…
— Eu preciso ir.
— Toque nele.
— Não.
— Dess...
— Eu não quero ver! — minha voz quebra. — Não posso!
Ele se aproxima.
Rápido demais.
Me empurra até a parede.
O corpo dele me prende.
Os olhos… desesperados.
— Eu preciso saber. — a voz sai baixa, quase quebrada. — Ele não estava sozinho. Eu ouvi. Ele me chamou… pediu ajuda… e eu não estava aqui.
Arquejo.
As velas tremulam.
A luz invade o caixão.
Vincenzo recua.
Passa a mão no rosto.
— Eu não devia te pedir isso… é cruel. Eu vou descobrir sozinho.
— Ele morreu de infarto! — rebato rápido demais. — O que há pra descobrir?
Ele me encara.
E vê.
— Dess… você não é burra. Sabe que tem algo errado. Com ele… com tudo. Com a Mimi.
Meu mundo inclina.
— Mimi foi encontrada. No lago. Viva.
Silêncio.
— Não, Dess.
— Eu fui na casa da Sweet!
— E viu a Mimi?
— Não… mas...
— Sweet não vê a filha há dias. — a voz dele endurece. — Enquanto vocês viajavam… nós dois procuramos por ela.
Nós dois.
Claro.
Sinto a pontada.
— Eu estava lá quando ela surtou… anteontem. Você não.
— E viu a Mimi?
O chão some.
— Não… não vi. Mas…
— Ela não falaria nada, Dess. Já não estava bem antes do seu casamento. Depois… só piorou.
— Como você sabe disso tudo? — rosno. — Passaram muito tempo juntos?
— Ciúmes agora? — ele rebate, impaciente. — Não é o melhor momento.
— Não é mesmo. Vou pra casa.
Ele me segura pelo braço.
— Espera! Eu não sei o que fazer!
O olhar dos monges pesa nas minhas costas quando sigo até a porta da capela.
— Vai atrás dela. — viro só o rosto. — Aproveita e vê como anda a gestação do seu filho. Parabéns. E cuidado. Agora você já pode morrer. Ah… leva flores.
— Para!
Vincenzo surge ao meu lado, já fora, arrancando a chave da ignição antes que eu consiga sair.
Encosto a testa no volante. Solto o ar devagar.
— Do que você tá falando? — a voz dele quebra. — Gravidez? Sweet tá grávida?
— Me poupa… — resmungo. — É o que acontece quando duas pessoas transam sem camisinha.
— Eu nunca estive com ela, Dess. Você sabe disso. Você viu.
— Eu não vi porra nenhuma! — avanço na chave. Ele desvia fácil.
Ele sorri.
Maldito sorriso.
E eu sorrio de volta.
Idiota.
Prendo o cabelo num coque desajeitado, tentando me recompor.
— Me dá a chave. Eu preciso ir.
Ele se inclina pela janela.
— Não precisa. Antoine está bem com Cassandra… embora odeiem aquela casa. Por que vocês ainda não se mudaram?
— Caralho… — solto, rindo sem humor. — Você sabe mais da minha vida do que eu.
Ele finalmente devolve a chave.
Mas segura minha mão junto.
Aperta.
E, por um segundo, tudo desacelera.
— Não tem a menor chance daquele filho ser meu. — ele diz, firme. — Eu juro. O que quis dizer com “posso morrer”?
— Você me contou. Não lembra?
Ele estreita os olhos.
— Você lembra disso?
— Lembro… de pedaços. — dou de ombros. — Você disse que, se tivesse um filho com uma mulher, perderia a imortalidade. Isso se eu acreditar nessa história de você ser um anjo.
— Não vou perder. Não ainda. — ele se aproxima um pouco mais. — Não antes de ter um filho seu.
O calor sobe pelo meu rosto.
— Para… — desvio. — Não promete o que não pode cumprir.
— Não é promessa. É fato. — ele sustenta. — O tempo vai te mostrar. A gente vai ficar junto.
Perigoso.
Ridículo.
E eu quero acreditar.
— Agora temos problemas. — ele muda, seco.
— Temos?
— Mimi desaparecida. Padre Pietro morto. E essa criança. Precisamos saber de quem é.
Solto uma risada curta, amarga.
— Boa sorte. Sweet transou com cento e um homens antes de desmoronar. Vai gastar fortuna com DNA?
Ele abaixa o olhar.
A chuva começa a cair.
Fina.
— Eu não fazia ideia de que ela estava tão mal.
— Foi disso que eu fugi.
Ele levanta o rosto.
— Eu me orgulho de você.
— Não fala isso. — reviro os olhos. — Não fiz por virtude. Fiz porque não sou burra. Tenho uma filha.
— Mesmo assim… — ele hesita. — Aiden sustenta vocês.
A verdade bate.
— Por enquanto. — olho a chuva escorrendo no vidro. — Isso vai mudar. Só preciso de tempo. Até lá… fico naquela mansão.
— Deixa a Antoine comigo. — ele tenta. — Ela não está segura lá.
— Está sim. — corto. — Estamos sempre juntas. E Cassandra ajuda.
— Entendo…
Ele apoia o braço na janela, já molhado.
— Dess…
— Não insiste.
— Por ele.
— Não faz isso…
— Ele te salvou. — a voz dele aperta. — Te protegeu. Me acolheu. Tentou te impedir de casar. Ele—
— Chega!
Puxo o capuz.
Pego a mochila.
Saio do carro.
A chuva me atinge inteira.
— Sei que vou me arrepender… — resmungo. — Me leva de volta. Tô com vergonha dos seus amigos eunucos.
Ele ri.
— Eles não são eunucos.
— Tanto faz.
Caminho até a capela.
Antes de entrar, paro.
Abro os braços.
Deixo a chuva cair no rosto.
— Irmã chuva… me limpa.
— Minha bruxinha está de volta…
Meu corpo endurece.
— Sai.
Entro.
Mais devagar agora.
Os monges já se dispersaram.
O silêncio voltou.
— Me dá sua mão. — estendo a minha. — Sem você, eu não consigo.
Ele segura.
Firme.
A outra mão toca a testa fria de padre Pietro.
Respiro.
Espero.
Nada.
— Não funciona com mortos.
— Tenta de novo.
— Isso me enfraquece.
— Perdão… amor.
A palavra me atravessa.
Amor?
Idiota.
E ainda assim…
Tento de novo.
Olho para o Crucificado.
— Me ajuda.
E dessa vez…
não são as memórias que vêm até mim.
Sou eu
que caio dentro delas.
Estou diante dele.
Deitado na cama, pijama listrado, tenta ler um livro. A luz do abajur recorta seu rosto envelhecido.
Ele cochila.
Acorda num sobressalto.
Passa por mim.
Não me vê.
— Padre Pietro…
Nada.
Eu o sigo.
A casa, anexa à capela, é pequena. Aconchegante. Um crucifixo acima da porta observa tudo em silêncio.
Na cozinha, ele bebe água. Engole um comprimido.
Reconheço o nome na caixa.
Eu tomo o mesmo.
Ansiedade. Insônia.
A mão dele treme.
O medo já estava ali antes da morte.
De volta ao quarto, ele se senta à escrivaninha.
Eu me inclino sobre seus ombros.
Leio.
“Caro Vincenzo,
urge que se prepare para a luta.
O inimigo se uniu a outras forças tão malignas quanto ele.
Salva aqueles a quem ama.
Eles a querem.
As outras crianças não passam de…”
A frase morre antes dele.
A mão vai ao peito.
A caneta cai.
A respiração falha.
Eu esqueço por um segundo que estou no passado.
Quero ajudá-lo.
Não posso.
De joelhos, ele vai até o oratório.
Faz o sinal da cruz.
Reza.
Em latim.
O corpo transpira.
A fé resiste.
Ele se levanta, vai ao banheiro.
Lava o rosto.
O espelho devolve o medo.
Ao lado dele, tento tocar sua mão.
Nada.
Mas eu sinto.
O pavor.
Ele sussurra palavras em aramaico para algo que está ali.
Algo que eu não vejo.
O ar pesa.
Um cheiro metálico invade o ambiente.
Sangue.
Ferrugem.
Morte.
De volta à cama, ele abandona o livro.
Olhos no teto.
O terço entre os dedos.
Procuro.
Nada.
Só o vazio.
Então...
batidas.
Na porta.
Secas.
Erradas.
Ele se levanta num salto.
Eu vou atrás.
— Não abre! — grito.
Inútil.
Ele abre.
— Vincenzo…?
Do lado de fora…
só a noite.
Chuva.
Escuridão.
E então...
algo entra.
Rápido.
Invisível.
Pesado.
Ele corre.
Eu corro.
Já não estamos sozinhos.
Ele puxa a estola roxa do armário.
Beija.
Veste.
Os óculos falham no rosto trêmulo.
Abre a gaveta.
Pega o livro negro.
Ora alto.
Desesperado.
— Eu não vou permitir!
Ergue a cruz.
— Tu foste expulso do paraíso! Ele não! Tu invejavas o Filho de Deus!
Silêncio.
Resposta nenhuma.
Mas a presença cresce.
Sufoca.
O coração dele dispara.
Eu sinto cada batida.
— Padre Pietro!
Nada.
Eu estendo a mão.
Toco o que não vejo.
E então...
dor.
Aguda.
Viva.
Um grito rasga minha garganta.
Puxo a mão de volta.
Marcas.
Dentes.
Afiados.
Impossíveis.
Sangue.
Meu.
Raiva sobe no lugar do medo.
Avanço.
A coisa me vê.
E reage.
Sou arremessada contra a parede.
O ar foge dos meus pulmões.
Fico ali.
Obrigada a assistir.
— Para! — eu grito. — Deixa ele!
A resposta vem em forma de riso.
Baixo.
Antigo.
Doente.
E então...
as garras surgem.
Negras.
Longas.
Irreais.
Atravessam o peito dele.
Direto.
Sem esforço.
Padre Pietro grita.
As mãos tentam impedir o impossível.
Sangue.
Dor.
Olhos abertos demais.
— Perdoa-me, Senhor… — ele sussurra. — Tende piedade de mim…
As mãos caem.
O corpo cede.
O último suspiro escapa.
E some.
As garras desaparecem como se nunca tivessem existido.
Mas eu vi.
Eu senti.
Eu sei.
O corpo fica.
A vida não.
E então...
ele está ali.
De pé.
Fora do corpo.
Confuso.
— Padre?
— Filha… — os olhos dele me encontram. Perdidos. — Eu…?
— Sim… — minha voz quebra. — Eu não consegui… me perdoa…
Ele sorri.
Mesmo assim.
Me abençoa.
Como sempre fez.
— Para onde o senhor vai?
— Não sei…
Luz invade o quarto.
De todos os lados.
Atravessa o teto.
Perfura o peito dele.
Como flechas.
Mas não dói.
Ele se ergue.
Flutua.
Os olhos mudam.
Paz.
— Eu não estou só…
A voz dele se dissolve em algo maior.
— É maravilhoso…
Eu esqueço de respirar.
Porque nada nisso é humano.
Nada nisso é simples.
Nada nisso é leve.
— Filha…
A voz dele me chama de volta.
— Faça-o parar.
— NÃO ME TOCA! — grito, de volta ao velório.
Vincenzo se afasta na hora. Me observa, tenso, enquanto eu me agarro ao corpo de padre Pietro.
Eu choro.
Sem freio.
Leva tempo até meu corpo parar de formigar. Até meu coração desacelerar.
Me deixo cair no banco de madeira diante do altar.
Ele senta ao meu lado.
Quieto.
Esperando.
— Ele foi morto por algo… — murmuro.
Vincenzo se aproxima devagar. O braço dele encosta nas minhas costas.
Ele não pergunta.
Espera.
Quando o choro vira só respiração falha, eu assoo o nariz.
Ele me entrega uma garrafa d’água.
Eu bebo tudo.
Tudo.
E arremesso a garrafa contra o caixão.
— Eu não me lembro do que estava escrito no papel.
— Que papel?
— Ele tava escrevendo pra você.
— Um pedido de socorro?
— Não sei! — corto, irritada. — Eu disse que esqueci!
Silêncio.
— Perdão…
Droga.
— Desculpa… — passo a mão no rosto. — Eu não tô bem. As paredes estão se mexendo ou eu tô ficando louca?
— Pode ser pânico. — ele fala baixo. — Quer sair daqui?
— Quero.
Ele não hesita.
Me pega no colo.
Lá fora, a chuva me acerta como um choque.
Ar.
Frio.
Real.
Eu volto.
Respiro fundo.
E mostro a mão.
A marca dos dentes.
Sumindo.
Como se nunca tivesse existido.
— Dói? — ele pergunta, com culpa nos olhos.
— Mas fez. — corto. — Me põe no chão.
— Dess…
— Mais um favor?
Ele trava.
— Não. — diz, firme. — Você jura que não lembra de nada?
Entro no carro.
Ele vai pro banco do carona.
— Eu sinto que vocês estão em perigo.
Reviro os olhos.
Cansada até os ossos.
— Eu já te contei tudo. Menos o papel. E não vou surtar por algo que pode nem ter sido real. Sai do carro.
— Imagino.
— Não. Não imagina. — viro pra ele. — Você não viu. Não foi mordido. Não sentiu aquelas garras. Não viu a alma do seu amigo sair do corpo.
Silêncio.
— Calma, Dess.
— Eu tô calma. Calma e puta da vida. Sai.
Ligo o som.
No máximo.
Alto o suficiente pra abafar qualquer pensamento.
Ele não pode saber.
Ele não pode entrar nisso.
Padre Pietro morreu por isso.
Ele vai ser o próximo.
“Faça-o parar.”
Como, porra?
— VINCENZO! SAI DA FRENTE!
Ele está no capô.
— ABAIXA ESSA MERDA!
— NUNCA!
Giro a chave.
Se alguém tiver que se ferrar, sou eu.
Ele não.
— Por que desligou!?
Ele levanta a chave na minha frente.
Sorriso irritante.
— Eu ouvi, Dess.
— Não ouviu…
— Ouvi o suficiente.
Ele abre a porta, me puxa pra fora.
Me prensa contra o carro.
Os olhos dele…
calmos demais.
— Quando você vai entender que eu caí por você?
Meu corpo trai.
Relaxa.
— Eu não vou desistir da minha família. Nem nesse mundo, nem em outro.
Droga.
— Eu te amo.
Baixo.
Direto.
Sem defesa.
— E quando eu penso em você com aquele merda… — ele encosta na minha boca — Eu surto.
Minha respiração falha.
— Eu te odeio nesses momentos. E te amo nos outros.
— Vincenzo…
— Cala a boca.
E me beija.
Sem espaço pra pensar.
Sem espaço pra fugir.
Eu me perco.
Completamente.
Como uma idiota.
Rindo.
Respirando ele.
Sentindo.
Errando.
Minhas mãos tremem no volante quando volto.
Ele já não está lá.
Só o retrovisor.
E o vazio.
“Espera por mim.”
Claro.
Como se fosse simples.
Eu entro na mansão.
O salão me engole.
E a voz vem.
Fria.
Cirúrgica.
— Gostou do beijo?
E então, a escuridão se fez.
Aiden me mantém presa.
Longe de tudo.
De todos.
Exceto Antoine.
Ela… exerce algo sobre ele. Algo que nem ele entende.
No quarto, eu deixo.
Deixo acontecer.
Horas.
Intermináveis.
Brutais.
Não por desejo.
Por estratégia.
Eu preciso saber o que aconteceu com Luka.
Com Mimi.
Às vezes… ele volta.
O homem que dançou comigo na Itália.
Só às vezes.
Naquela noite, a tempestade rasgava o céu.
Eu fingia dormir.
Vi.
Diante da janela, braços abertos, ele se oferecia ao trovão.
Não era entrega.
Era invocação.
Eu não me movi.
Não respirei.
Na varanda, sob a chuva, ele gritava contra Deus.
Blasfemava.
Aquilo não era Aiden.
Era algo… maior.
Antigo.
Faminto.
Ele volta.
Encharcado.
Violento.
Arranca o lençol.
Os olhos…
negros demais.
— Nunca mais se aproxime daquele verme… ou mato você e sua filha.
— Tenta.
Erro.
Grave.
O resto… eu suporto.
Até ele dormir.
Os dois.
Hospedeiro e coisa.
Eu me arrasto até a banheira.
Meu corpo dói.
Marcado.
Mordidas.
Chupões.
Violência travestida de desejo.
Entro na água.
Afundo.
E penso…
em não voltar.
‘Não pode, tia.’
A voz.
Debaixo d’água.
Eu abro os olhos.
Giulia.
‘Antoine precisa de você. Eu também.’
‘Você ainda não descansou?’
‘Não. O Mal ainda me quer.’
O mesmo.
Sempre o mesmo.
‘Reage.’
— ANTOINE!
Eu volto à superfície.
Ofegante.
Aiden está ali.
Nu.
Observando.
Inclina a cabeça.
Curioso.
Eu me levanto.
Sem pudor.
Sem força pra isso.
Ele me cobre.
Me abraça.
— Quem fez isso com você?
Eu rio por dentro.
— Você.
Silêncio.
— Me deixa ver minha filha.
— Me perdoa… — ele falha. — Eu não sei quem eu sou.
— Eu vou te libertar.
Mentira.
Ou promessa.
Nem eu sei mais.
Antoine ri.
Cassandra ao lado.
Normalidade falsa.
Frágil.
Eu olho ao redor.
Brinquedos.
Bonecas.
Mas ela segura o ursinho.
O do Vincenzo.
Sempre ele.
Sempre um fio puxando tudo de volta.
— Eu escondi aqui. — Cassandra me entrega o pano.
O retalho.
Dentro do saco plástico.
— Cuidado, tia.
— Eu sei.
Eu não sei.
Tranco a porta.
Sento no chão da varanda.
O jardim é bonito demais.
Quase irritante.
A preceptora me observa.
Eu sorrio.
Ela lembra.
Do que eu sei.
Ela recua.
Ótimo.
Agora… silêncio.
Tiro o pano.
Respiro fundo.
— Me mostra.
Minha mão fecha no tecido.
E o mundo…
some.
Chuva.
Fraca.
Fria.
Meus pés…
não são meus.
Botas.
Pesadas.
Minhas mãos…
luvas pretas.
Braços curtos.
Armadura.
Eu… não estou vendo.
Eu estou vivendo.
Eu sou Luka.
Eu tento parar.
Não consigo.
Meu corpo não obedece.
“Quero ficar na festa!”
Minha voz.
Mas não sou eu.
O homem de cabelos brancos me guia.
Olhos de predador.
“Ela vai até você.”
Mentira.
Eu sinto.
Mesmo sendo criança.
“Eu quero a Antoine!”
A porta vermelha.
Errada.
Muito errada.
Ela abre.
“Espera aqui.”
Tranca.
Sozinho.
Silêncio.
Sofá.
Luz.
Um quadro.
Um rosto infantil… destruído por vermelho.
Meu coração aperta.
Mas eu não entendo.
Não ainda.
A letra.
“A”.
Eu toco.
Clique.
A parede se abre.
Como um segredo vivo.
O cheiro…
podre.
Errado.
Mas eu sorrio.
“Sou um guerreiro!”
A espada erguida.
Ingênuo.
Idiota.
Corajoso.
Eu entro.
Escadas.
Parede viscosa.
Uma lâmpada.
Puxo.
Luz.
— Garotos intrometidos vão para o inferno.
A voz atrás.
Eu me viro.
Tarde demais.
O pano no rosto.
O cheiro.
Forte.
Químico.
Escuro.
Eu acordo.
Frio.
Pedra.
Dura.
— Cadê a Antoine…?
Minha voz falha.
Máscaras.
Rostos escondidos.
Música.
Errada.
Distorcida.
— Eu quero minha mãe…
Ninguém responde.
— Ela já vai chegar… — diz a mulher.
Os olhos dela…
errados.
Escuros demais.
Sem branco.
— Fica quietinho. O mestre já vem.
— Mestre? Tipo… um “Danger Master”? — eu sorrio. — De verdade?
— Shhh… ele chegou.
O homem entra.
Toga vermelha.
Capuz.
Eu procuro Antoine.
Não vejo.
Tento mexer as mãos.
Não consigo.
Estão presas.
— Quer brincar?
— Quero! — respondo rápido. — A Antoine vem também?
— Não. — ele inclina a cabeça. — Hoje… é só você.
O cálice.
Dourado.
Brilhando.
Eu bebo.
É estranho.
— Eu… tô meio tonto…
— Melhor assim. — a voz sorri. — Vamos começar.
Quando eu abro os olhos…
o mundo mudou.
Fogo.
Por todos os lados.
Mas ninguém se queima.
Só eu sinto.
— Mãe…?
Eles me olham.
Parados.
Esperando.
O homem…
não é mais um homem.
Algo nele cresce.
Distorce.
Errado.
Muito errado.
Eu grito.
Ninguém vem.
A lâmina encosta no meu peito.
Gelada.
— Ele está com medo.
— Ótimo. — outra voz responde. — Quanto mais… melhor.
— Tio… me tira daqui…
— O jogo não acabou, Moby Dick.
Eles riem.
Até aqui.
Até aqui eles riem.
Eu fecho os olhos.
Se eu não ver…
não é real.
Não é real.
Não é real.
—
Mas é.
—
A dor vem.
Confusa.
Errada.
Meu corpo não entende.
Minha cabeça não acompanha.
— NÃO!
Eu grito.
Até a voz quebrar.
Escuro.
Eu volto.
Arde.
Tudo.
— Mãe…?
Nada.
— Tio… eu não quero brincar mais…
Risadas.
Sempre as risadas.
— Eu sou homem… — minha voz treme — Minha mãe disse que homem não faz isso…
Eles riem mais.
Mais alto.
— MÃE!!!
Apago de novo.
Água gelada.
Eu acordo tossindo.
Respiração falha.
Agora…
eu sei.
Não é jogo.
— Não… tio… não…
— Eu preciso. — ele diz.
Como se fosse normal.
Como se fosse certo.
Eu tento lutar.
Meu corpo não responde.
Só dói.
Tudo dói.
— O que eu fiz…?
Ninguém responde.
Minha cabeça gira.
O mundo vira de cabeça pra baixo.
Balança.
Devagar.
Pingos.
Caindo.
Num balde.
Vermelho.
—
Meu sangue.
—
— Tio… me ajuda…
Minha voz quase não sai.
— Chama minha mãe…
— Eu vou chamar.
Mentira.
Eu sinto.
Algo rasga.
Eu grito.
Mas não sai som.
Se eu rezar…
Jesus vem?
Ou isso aqui já é… outro lugar?
Eles falam uma língua estranha.
Eu não entendo.
Eu só sinto.
—
Cansaço.
—
Minha boca seca.
Minha visão falha.
—
Eu quero dormir.
—
Mas não posso.
Eu penso na escola.
No recreio.
No lanche.
Na minha mãe.
Ela nunca disse que me ama.
Mas…
ela vai vir.
Ela tem que vir.
Algo encosta no meu rosto.
Eu tremo.
Não quero mais abrir os olhos.
Meu corpo cai.
Fraco.
Pesado.
—
Mas eu ainda tento.
—
Como um verme.
Eu me arrasto.
Devagar.
Arrasto.
Arrasto.
Arrasto.
—
A porta vermelha.
—
Quase.
—
Eu escuto música.
Lá fora.
A festa.
Antoine.
Eu choro.
—
Eu perdi.
—
A festa.
—
Ela vai ficar triste.
Eu vou lutar, Antoine. Vou matar o monstro e escapar.
— Tio, não! Volta!
Arrastam-me de volta à mesa enorme. Deitam-me sobre sangue.
De quem é esse sangue?
— Eu tenho poderes... — aviso, sem esperança.
O demônio urra antes de enfiar o punhal em meu peito.
Isso só pode ser um jogo.
Onde estão meus amigos?
Off-line?
Não consigo respirar.
Mãe?
Só quero dormir… e acordar com minha mãe ao meu lado.
— Eu te levo comigo e deixo o teu sangue na Terra! — grita o demônio, erguendo algo em suas garras.
Estou tossindo.
Um líquido quente escorre pela minha boca.
Tem gosto de ferro.
Já não sinto tanta dor.
O jogo deve estar acabando.
Preciso ser forte.
Minha mãe vai se orgulhar de mim quando tudo acabar.
O que o monstro está segurando?
Bate… como um relógio.
Eu vi isso na aula de Biologia.
Um coração?
Tenho medo do sorriso dos monstros ao meu redor.
— Chega… — imploro.
— Acabou.
— Você voltou, tio?
— Sim.
Reúno todas as forças que ainda restam em mim.
— Você pode chamar minha mãe?
De volta ao meu corpo, ouço Cassandra esmurrar a porta.
— Tia! Abre!
— Mamãe!?
Em convulsão, meu corpo enfraquecido permanece na varanda.
Abro os olhos.
Ele está ajoelhado ao meu lado.
Em pânico, meu corpo volta a tremer.
— Baby!? Acorda!
— MONSTRO!!!
— Baseada em quê você afirma que eu matei o menino? Em suas visões? — a voz dele vem carregada de irritação. — Você sabe que podem ser fruto da sua doença, né?
— Não! — retruco, firme. — Eu não vi. Eu vivi. Eu senti tudo. O pobre menino não teve paz nem na morte!
— Baby, não seja louca — murmura Aiden, já perdendo o controle. — Não me acuse de algo tão brutal.
— Ele te chamou de “tio”.
— Idiota… — ele passa a mão no rosto, nervoso. — Crianças chamam qualquer adulto de tio!
— Você estava lá?
— Você viu meu rosto!? — ele rebate, incisivo.
O silêncio pesa.
— Não… — admito, perdida.
Ele respira fundo, como se se agarrasse a isso.
— Então não me acusa.
Eu abaixo os olhos… mas a dúvida continua ali.
— Como não pensar!? — explodo, arrancando a blusa e mostrando os hematomas. — Quem fez isso comigo, Aiden? Um fantasma?
Ele trava por um segundo.
— Isso não tem nada a ver com matar uma criança.
— Tem a ver com o quê? Sadismo? Possessão?
Agora ele me olha.
De verdade.
— Eu te vi… — minha voz falha. — Eu vi tudo. Por que você invoca aquilo?
Ele desvia o olhar.
— Eu não invoquei.
— Então o quê?
— Ele veio… quando eu estava quebrado.
Silêncio.
— E você deixou.
Ele não responde.
— Aiden… — me aproximo, mais baixa, mais cansada do que furiosa. — A gente pode sair disso. Volta pra mim.
Ele me veste de novo. Devagar.
Como se tivesse vergonha do que fez.
Beija minha testa.
Trança meu cabelo.
E por um instante…
eu reconheço o homem que amei.
— Eu só quero paz — ele sussurra.
— Então fica… — peço.
Ele deita ao meu lado.
Não me toca.
Só me abraça.
E chora.
Como uma criança.
Eu acaricio seus cabelos.
Beijo seu rosto.
Tento acreditar.
— Por que seus olhos mudam?
— Não mudam…
— Mudam, sim. E eu tenho medo quando escurecem.
Ele fecha os olhos.
— Eu estou tentando segurar.
— Então segura.
— Eu vou tentar.
— Não procura mais o Vincenzo… — ele sussurra, quase suplicando.
— Não vou…
Minto.
Porque eu preciso da verdade.
Mesmo que ela me destrua.
Se não foi Aiden…
quem Luka chamou de “tio”?
Aiden montou um estúdio de dança em um dos quartos da mansão só para mim assim que nos mudamos para cá.
Eu nunca usei.
Até hoje.
Depois de tanta dor, eu preciso de descanso.
E nada me conecta tanto com o Alto quanto a dança.
Diante dos espelhos que cobrem todas as paredes, me alongo na barra. Escolho uma música na playlist.
Ela começa.
Instigante. Alegre.
Esperançosa demais pra quem sou agora.
Ainda assim… eu deixo.
Meu corpo se move antes mesmo de eu pensar.
Salto. Giro. Me solto.
Por alguns segundos… eu esqueço.
Esqueço Luka.
Esqueço o horror.
Fecho os olhos e me entrego.
Antoine está na escola. Segura.
Cassandra está no quarto, estudando.
Aiden…
Aiden voltou a ser gentil.
Ontem planejamos uma viagem pra Itália.
Ontem ele disse que vamos sair da mansão fria.
Ontem…
— Estou feliz… leve… — sussurro para o espelho, suada, forçando um sorriso. — Sou um trovão...poderoso e assustador.
Mentira.
— Aiden pode ser violento… mas não faria aquilo… — continuo, tentando acreditar. — Eu sinto. Ele cuida da Antoine…
— Tem certeza, meu bem?
Meu corpo trava.
Giro na ponta dos pés.
Tropeço.
Caio.
— Quem tá aí!?
— Ainda não adivinhou?
— Sua voz falsa eu reconheceria em qualquer lugar — rosno, me arrastando pelo chão. — Fica longe da minha família.
— É uma ameaça?
— Sim.
O silêncio pesa.
— Ora, ora… estamos progredindo… — a voz ri. — A mocinha quer sujar as mãos.
— Deixa minha família em paz. E deixa o Vincenzo em paz… ou eu mesma vou falar com você.
— Até ele descobrir o que você é…
Silêncio.
— Cobra.
E some.
Eu desabo no chão.
Em posição fetal.
Chorando.
Eu só queria paz.
Só isso.
— Porra!
O celular toca.
— Fala!
— Bom dia pra você também.
— Desculpa… — esfrego o rosto com a toalha. — O que foi?
— Ele estava aí.
Eu travo.
— O que você ouviu?
— Nada claro. Mas eu sei.
Claro que sabe.
— Precisamos nos encontrar.
Me arrasto até a janela e me escondo atrás da cortina.
— Vincenzo… me deixa viver…
— Talvez você não queira depois de me ouvir.
— Fala logo.
Silêncio.
— Adrenocromo.
— O quê?
— Já ouviu falar?
— Parece nome de creme caro.
— Sangue, Dess.
Meu estômago revira.
— Sangue de crianças. Torturadas. Até a morte.
Silêncio.
Ele conseguiu.
Minha atenção inteira.
— Tem bebido?
— Não.
— Fumado?
— Não.
— Transado?
— NÃO! VIREI UM ZUMBI!
Sweet me encara.
— Eu tô preocupada com você.
Eu respiro fundo.
— Sabe quem é o pai?
— Não.
Puta merda.
— Sweet… você lembra de alguma coisa?
— Não exatamente… — ela leva a mão à cabeça. — Rostos… vários… como um pesadelo.
Eu travo.
— Ok… deve ter sido cliente.
Mentira mal costurada.
— Eu uso camisinha.
Claro que usa.
— Eu só tô preocupada com o bebê…
Pausa.
— Tem alguma chance de ser do Vincenzo?
Olhar direto.
— Nenhuma.
Respiro.
Finalmente.
— Eu não gosto de homens, amiga.
— Imagine se gostasse… — murmuro, quase rindo.
Mudo de assunto rápido.
— A gente precisa começar o pré-natal.
— Eu sei…
— Sweet… reage.
Ela quebra.
Desaba no meu colo.
— Eu não consigo nem cuidar da Jujuba…
Engulo seco.
— Quer que ela fique comigo?
— Não! Eu preciso dela…
Pausa.
— Ela sente falta da irmã…
Merda.
— Onde tá a Mimi?
Eu não tenho resposta.
Mesmo assim…
— Eu vou encontrar.
Mentira.
— Viva?
Droga.
— Sim.
Outra mentira.
— Ela só… se perdeu… alguém ajudou…
Eu quase acredito.
Quase.
— Você sente isso?
— Eu… sinto.
Não sinto porra nenhuma.
Só medo.
— E se eu te der algo dela?
— Sweet, não...
Ela já foi.
Eu sei o que vem.
E não quero.
Nem um pouco.
— Pelo amor de Deus… me ajuda…
Eu a levanto.
— Não é assim que funciona.
— É sim!
— Não é!
— Vem quando você quer!
— Não vem!
— Vem sim, mamãe.
Eu congelo.
Antoine.
— Tenta.
As duas me olham.
Esperando.
Confiando.
E eu?
Ferrada.
MERDA.
— Pega!
— Sweet…
— Vai dar certo, amiga! Vai dar certo!
À beira de um colapso, aceito os sapatos de sua mão.
Sapatilhas brancas.
Novas.
Compradas no dia anterior à festa.
Fecho os olhos.
Respiro.
E mergulho.
O sorriso de Mimi surge diante de mim.
Dessa vez… é diferente.
Não estou dentro dela.
Mas eu sinto.
Ouço.
Penso com ela.
Mimi abraça Antoine…
e se afasta.
Ressentida.
Jujuba ocupa seu lugar.
Antoine ri.
Brinca.
Feliz.
E Mimi… quebra.
Ela se isola dentro da mansão.
Chora.
Encostada na varanda, olha para baixo.
Pensa em pular.
Meu coração dispara.
De novo, eu não posso fazer nada.
Que tipo de dom é esse?
Só assistir?
“Ninguém vai sentir minha falta…”
Ela desce as escadas.
Caminha pela grama molhada.
Vai até o lago.
Tem alguém atrás dela.
Mas ela não olha.
E eu… não vejo.
Algo está errado.
Dessa vez, tem uma barreira.
Uma força puxando minha energia.
Me drenando.
Eu deveria parar.
Mas não paro.
Mimi arranca os sapatos e os joga contra a árvore.
— Falando palavrão?
A voz.
Feminina.
Suave demais.
Errada demais.
Mimi abaixa a cabeça.
Envergonhada.
Senta na beira do rio.
— Entra. Eu cuido de você.
Mimi acredita.
Mergulha os pés.
Sorri.
— Não é fundo, tia!
— Mergulha.
O empurrão.
A água engole tudo.
Bolhas.
Desespero.
— Mãe!
Ela emerge.
Se debate.
A corrente puxa.
Não há onde segurar.
Não há ninguém.
Eu não aguento mais.
Eu preciso sair disso.
Eu...
Alguém mergulha.
Segura Mimi.
Arranca ela da água.
— Ela tá viva… — sussurro…
…antes de tudo apagar.
Acordo caindo em outro inferno.
— Foi ela quem insistiu! — rosno, me levantando da cama de Jujuba.
O mundo gira.
Vincenzo me segura.
— Me solta! Eu nem queria!
Eu me afasto.
Ando pela casa.
— Cadê a Sweet?
— Internada.
Meu corpo trava.
— Onde?
— Clínica de reabilitação.
Silêncio.
— Ela teve outra crise… — ele baixa a voz. — Eu cheguei a tempo.
— Que crise?
— Cocaína.
O chão some.
— Eu não queria… — minha voz quebra. — Eu só quis ajudar…
Eu desabo nele.
— Tô exausta… só quero ir pra casa…
— Eu te segui.
— Porra…
Eu já sei.
Isso vai dar merda.
— Aiden tem olhos em todo lugar.
— Eu sei. E a gente precisa falar sobre ele...
— NÃO!
Chego à porta.
— Eu não quero falar de nada!
— Dess...
— Eu só queria ser normal!
Silêncio.
Ele segura meu rosto.
— Você tá com febre.
— Eu fico assim quando uso…
O mundo escurece.
Colo.
Céu nublado.
— O bebê vai morrer… — murmuro.
— Não fala isso!
Vozes.
Movimento.
— Cuida da mamãe…
Mãos pequenas.
— Volta, mamãe…
Um choque atravessa meu corpo.
Eu volto.
— Ela acordou, papai.
Eu sento.
— Sai do carro, Vincenzo. Ele tá vindo.
Troco de lugar.
Empurro ele.
— Não irrita o Aiden!
— Eu sei o que ele é.
— Não sabe!
— Vou tirar vocês de lá.
— Não vai.
A voz.
No meu ouvido.
— É melhor vir por bem, baby.
Vincenzo segura minha mão.
— Fica. Confia em mim.
Eu fecho os olhos.
Confio.
Mas…
— Obrigada… mas eu fico.
Mentira que dói.
“Ele não está só. Você me ouve?”
Ele ouve.
— Sai do meu carro…
engulo seco
— …e da minha vida também.
O golpe.
— Vamos pra minha casa na praia. Lá ele não entra.
“Para…”
— Eu sou casada!
— E eu sou o marido.
Aiden.
Sorrindo.
— Eu nunca vou esquecer o que você fez com ela — diz Vincenzo.
— PAROU!
As crianças riem.
Não entendem.
Promessas quebradas no ar.
— Eu venho te buscar, Ju…
— Ela fica comigo.
A ameaça fica.
Suspensa.
— Ainda não acabou.
— Nem começou — Aiden ri.
— Tio, palavrão é feio!
Ele sorri.
Mas os olhos…
Não.
— Vamos pra casa, baby?
Eu só assinto.
O carro arranca.
— Perdeu…
Silêncio.
“Me espera.”
Eu peço.
Mesmo sabendo…
que talvez já seja tarde.
Dias se passaram sem notícias de Sweet, Jujuba ou Vincenzo.
Talvez estejam bem. Juntos. Talvez acreditar nisso seja a única coisa me mantendo de pé.
Eu preciso acreditar que algo vai mudar.
— Por que esse vestido, Aiden? É tão decotado…
— Você sempre usou esse tipo de vestido, baby. Esqueceu de quem já foi?
— Não. — encaro meu reflexo, amarga. — Nunca vou esquecer.
— Tenho certeza. — Ele sorri, beijando meu pescoço. — Principalmente depois de hoje.
Meu estômago revira.
— Do que você tá rindo?
— Não estou rindo. Estou sorrindo. — corrige, com calma irritante. — Você está linda.
— E cheia de hematomas. — rebato, seca. — Eles vão notar.
Ele ri baixo.
— Meus amigos? Não se preocupe. Eles… apreciam esse tipo de detalhe.
Um frio percorre minha espinha.
— Não gostei disso. Eu não quero ir.
A mão dele aperta meu braço com força.
— Gostando ou não… você vai.
Antes de sair do carro, ele venda meus olhos.
O mundo desaparece.
Sou guiada como um objeto enquanto ele descreve o lugar com entusiasmo. Cada palavra dele me afasta mais da realidade. O medo aperta meu peito, a respiração falha.
Eu devia prestar atenção.
Devia guardar detalhes.
Mas o pânico toma tudo.
— Chegamos.
A venda é retirada.
A luz baixa demora a fazer sentido. Formas surgem. Silhuetas. Olhares.
Muitos olhares.
— Bem-vinda ao passado, baby.
— Do que você tá falando…?
O salão é amplo. Antigo. Gente espalhada, observando. Esperando.
Esperando o quê?
Aiden me conduz até o centro.
A mesa.
As algemas.
Meu coração dispara.
— Eu quero ir embora.
— Agora não. — ele sussurra, quase gentil.
Eu corro.
Não chego longe.
A porta se fecha.
Mãos me seguram.
Muitas mãos.
Sou arrastada de volta.
— NÃO! — grito, me debatendo.
Inútil.
Me prendem.
Frio do metal nos pulsos.
O som do tecido rasgando.
Meu corpo exposto.
Minha dignidade também.
— Aiden… — minha voz falha. — Por favor…
Ele se inclina, próximo ao meu ouvido.
E sussurra:
— Eles pagaram caro por você, baby.
E então ele se afasta.
E assiste.
O que deveria ter sido o fim…
Foi só o começo da minha queda.




























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