CAPÍTULO 22 - DESTRUÍDA





“Um dia a conta chega.”


Eu achei que tinha escapado.

Não escapei.

Minto.

Eu não lutei.

Cedi.

Compaixão.

Necessidade.

Desespero disfarçado de escolha.

Eu precisava que tudo desse certo.

Precisava manter Antoine longe de qualquer risco.

Mesmo que isso significasse me perder no processo.

Aiden…

Eu quis acreditar que ainda havia algo humano nele.

Algo bom.

Algo que me salvasse daquilo que eu já conhecia tão bem.

Talvez eu tenha me afastado de todos.

Talvez tenha sido mais fácil acreditar nele…

do que encarar a verdade.

Eu precisava dele.

Mais do que deveria.

Porque agora…

era ele quem me sustentava no vício.

Meus únicos momentos de paz eram ao lado de Antoine e Cassandra.

Cassandra não dizia nada…

mas via tudo.

Os moletons largos.

Os hematomas escondidos.

O silêncio pesado das manhãs…

depois da euforia doentia das noites.

Aiden chamou de “volta ao passado”.

Eu chamo de queda.

Mil vezes estar de volta ao set.

Com homens pagos para fingir desejo…

mas que ainda sabiam respeitar limites.

Daquela noite…

eu não lembro.

Não quero.

Prefiro esquecer até o momento em que ele me carregou.

Como se pudesse consertar depois.

Como se fosse possível apagar o que já estava feito.

Ele chorava.

E eu…

calei.

Desde então, eu me calo.

Entre a culpa e o prazer…

eu voltei.

E dessa vez…

sem controle.

Meu vício é invisível.

Não aparece em exame.

Não deixa prova.

Só destrói… em silêncio.


Um estupro coletivo.

Planejado.

Assistido.

Consentido… por quem dizia me proteger.

Eu vou me vingar.

De todos.



Agora, dormimos em quartos separados.

Como estranhos…

dividindo o mesmo inferno.

— Não fui eu!

Ele diz.

Com um desespero que quase convence.

Quase.

Daquela noite…

eu não lembro.

Não quero.



Gravo.

Posto.

Me assisto…

como se fosse outra pessoa.

Entre a culpa e o prazer…

eu me afundo.

Frequentei festas.

Corpos trocados como roupas.

Promessas de liberdade…

que só me prenderam mais.

Aquele que deveria me proteger…

deu início ao meu fim.

Aiden observa.

Sofre.

E permanece.

Eu sofro por ele.

Por mim.

Por Vincenzo…

que ainda tenta me alcançar.

Em ligações ignoradas.

Em encontros raros.

Em silêncios que dizem tudo.

A vida é irônica.

Eu deveria estar no lugar de Sweet.

Internada.

Tratada.

Visível.

Mas o meu vício…

não aparece em exame.

Não deixa rastro.

Só destrói… em silêncio.

Vincenzo corrigiria.

“Transtorno do Desejo Sexual Hiperativo.”

Nome bonito.

Pra algo que me consome.

Estou doente.

E afundando…

um pouco mais a cada dia.



— Amiga! Você tá triste?

— Não tô, não.

Forço um sorriso.

— Você é que tá eufórica demais. É por causa da alta amanhã?


— Siiim! Tomara que chegue logo!

Sweet vibra.

Leve.

Limpa.

Viva… de um jeito que eu já não sei mais ser.

Dois meses.

Dois meses longe do inferno.

Eu sorrio.

Ou tento.

Ela segura minhas mãos.

As minhas… impuras.

— Eu não tenho como te agradecer… você cuidou da minha filha… pagou tudo isso…

— Não fui eu.

Ela franze a testa.

— Não?

— Não.

Silêncio.

— Foi o Vincenzo?

— Também não.

Um silêncio curto.

— Ele tem vindo sempre… — ela sorri — Quase todos os dias.

A fisgada vem rápido.

Suja.

Injusta.

— Que coisa fofa…

— Para de ser louca.

Ela ri.

— Ele é meu amigo. Só isso.

Amigo.

Palavra estranha.

— Minha vida vai mudar, Adessa… eu sinto isso.

Ela aperta minhas mãos com mais força.

— Vou encontrar a Mimi. Eu sonhei com ela. Ela tá bem… eu sei que tá.

Eu engulo o nó.

— Eu também sinto isso.

Mentira suave.

— Eu vou encontrar ela. Prometo.

Os olhos dela brilham.

— Amiga… me perdoa. Eu tinha inveja de você.

Eu solto uma risada fraca.

— E eu de você.

A gente ri.

E chora.

Como duas idiotas tentando se salvar.

O silêncio… dura pouco.

— Posso falar com ela?

A voz dele atrás de mim.

Vincenzo.

Sweet nem hesita.

— Claro.

Ela se levanta, beija o rosto dele e vai embora.

Leve.

Livre.

Eu não me viro.

Não ainda.

Ele puxa a cadeira.

Senta.

Perto demais.

O perfume…

maldição.

— Mais uma queda, né?

— Se vier me julgar, pode ir embora.

— Eu não vim pra isso.

Silêncio incômodo.

— Eu estive lá, Dess.

Eu travo.

— E por que não me tirou de lá?

— Eu tentei.

A voz falha.

— Não me deixaram entrar. Eu te ouvi…

Silêncio.

— Pedindo ajuda.

Eu desvio o olhar.

— Não quero falar disso.

— Você precisa saber.

— Não preciso.

— Asmodeus.

O nome pesa no ar.

— O quê?

— Era ele.

Silêncio.

— O “A”…

Eu sussurro.

— Na parede…

— Eles cultuam ele.

— Malditos…

Eu fecho os olhos.

— Você podia ter me tirado de lá.

— Eu tentei! Eu lutei!

— Você sempre tenta.

Sempre.

Nunca consegue.

Ele respira fundo.

— Eu sofri também.

— Sério?

Eu rio.

Seco.

— Eu nem percebi.

— Me escuta.

Eu cruzo os braços.

— Fala.

— Eu voltei no tempo…

Eu reviro os olhos.


— Dess… não faz isso.

A voz dele endurece.

— Se você ainda acha que isso é normal… eu vou embora.

O silêncio pesa.

— Fica.

Minha voz sai mais baixa do que deveria.

— Eu vi…

Engulo seco.

— Esse tal de Asmodeus.

— Ele foi invocado.

— Por Aiden.

— Sim.

— Mas ele não controla aquilo.

— E você ainda defende ele?

— Não.

Pausa.

— Eu odeio ele.

Outra pausa.

— Mas ainda tem algo ali…nele...

Eu solto o ar, amarga.

— Onde? Na Irlanda?


— Vincenzo.

Eu levanto o olhar.

Fria.

— Não começa.

Ele se levanta.

Tenso.

— Se for pra defender aquele covarde filho da puta...então eu vou embora!



— Pai!

Antoine o repreende.

Ele arregala os olhos, teatral.

— Eu falei palavrão?

— Falou sim!

Ela gargalha.

Ele se ajoelha, pede desculpa entre cócegas.

Jujuba sobe em suas costas.

Antoine fecha a cara.

— Sai daí! Esse lugar é meu!

— Calma… — ele ri — Minhas costas são grandes. Cabem duas.

As duas vibram.

Eu… desmancho na cadeira.

Olho pra Sweet.

Ela suspira.

Demais.

Aquilo me incomoda.

— Dess, para de pensar merda.

— Pai!!!

— Foi mal…

Ele beija a testa de Antoine.

— Aonde você vai?

— Pra casa.

— Não vai.

Hesito.

— A gente precisa conversar.

— Não quero.

— Eu não tô pedindo…

A voz pesa.

— Eu tô mandando, porra!

— PAI!

Ele revira os olhos.

— Tá. Foi mal.

De novo.

Eu travo.

Ele beija Sweet.

Sem pensar.

Sem pedir.

Eu viro.

— Antoine, te espero lá fora.

— Amiga!

— Depois!

Minha voz falha.

— Eu preciso respirar.

Saio antes que alguém me segure.

Escadas.

Rápido demais.

Porta.

Ar.

Jardim.

Eu caio na grama.

Encosto na árvore.

Respiro.

De olhos fechados.

Quando abro…

ele já está ali.

— Impossível…

— Não é.

— Você não desceu tão rápido.

— Posso fazer mais do que isso.

— Já fez o suficiente.

Eu rio, amarga.

— Parabéns.

— É por causa do beijo?

— Não se faz de idiota comigo.

— Você ainda acha que eu tenho algo com a Sweet?

Eu cubro o rosto.

Cansada.

— Dess…

— Como você chegou aqui?

— Pulei.

— A janela?

— Sim.

— Para de me zoar.

— Não tô zoando.

Eu olho.

De verdade.

— Você pulou…

— Pulei.

— Não.

— Quer ver de novo?

— NÃO!

Eu acerto o abdômen dele.

Ele se curva, surpreso.

Eu levanto.

Caminho.

Lago.

Água gelada.

Silêncio.


— Não adianta fugir.

— Eu não tô fugindo.

— Então olha pra mim.

— Não quero.

— Ele te machucou…

Eu fecho os olhos.

— Por que você ainda fica com ele?

Eu viro.

Direto.

— Porque você não me quis.

O silêncio corta.

— Dess…

— Cala a boca.

Eu avanço.

— Você ofereceu trabalho pra Sweet.

Pra ela.

— Não começa…

— Eu tava perdida naquela noite!

Minha voz falha.

— Você podia ter mudado tudo…

Silêncio.

— E não mudou.

Ele respira fundo.

— Eu te ofereci mais do que isso.

— Não ofereceu.

— Ofereci minha vida.

Meu amor.

— E você escolheu outra coisa.

Eu abaixo o olhar.

Sento.

Água nos pés.

Peixes distraídos.

— Antoine vai gostar disso…

Eu sorrio, vazio.

— Eu não consigo sair disso sozinha. Eu me odeio depois.

Ele se aproxima.

Mais baixo agora.

— Eu não consigo te ver assim de novo.

— Eu saí sozinha da outra vez, idiota.

— Não é disso que eu tô falando.

— Ah, não…

Eu rio.

Cansada.

— Lá vem você.

— Eu não quero desistir de você.

Silêncio.

— Mas eu posso desistir de mim.

Eu encosto minha mão na dele.

Sem olhar.

— Não desiste.

Minha voz falha.

— Eu preciso ficar lá…

— Lá?

— Tem algo que eu preciso descobrir.

— Quem te pediu isso?

— Giulia.

Ele trava.

— Sua amiga morta?

— Sim.

Eu mexo a água.

— Os mortos me seguem.

Ele observa.

— Mortos… e demônios.

— Vincenzo…

— Me escuta.

— Fala.

— Não é sobre o demônio. É sobre o Aiden.

— Eu já sei.

— Não sabe tudo.

Ele se aproxima.

— Ele se fortalece…

Uma pausa.

— A cada criança morta.

O ar some.

— Quer mais?

Eu olho.

Finalmente.

— Fala.


— Não é nada certo ainda…

Ele hesita.

— Mas tem gente investigando isso. Gente grande.

— Que tipo de gente?

— Alta sociedade.

Porra.

— Gente que paga fortunas por uma substância…

Ele engole seco.

— Que dizem retardar o envelhecimento.

— Adrenocromo.

O nome escapa da minha boca.

Baixo.

Errado.

Ele confirma com um leve movimento de cabeça.

— Existem estudos. É real. Pode ser produzido em laboratório… usado na medicina…

— Então por que pagar tanto?

Eu já sei a resposta.

Mas preciso ouvir.

— Porque não é sobre a substância.

A voz dele muda.

— É sobre o ritual.

O mundo fica menor.

— Crianças…

Ele para.

— São torturadas…

— Para.

— Violadas…

Tapo os ouvidos com as mãos.

— Para!

— Mortas.

— Chega.

Minha voz falha.

— Eu já vi.

Luka.

Eu ainda vejo.

— E você não faz nada?

O desprezo vem seco.

Direto.

Eu travo.

— O que você quer que eu faça?

— Você conhece eles.

— Não conheço!

— Conhece sim!

Agora ele grita.

— Você dorme com o líder, Dess!

— Cala a boca!

— Você tá lá toda noite!

Silêncio constrangedor.

— Você se entrega pra ele!

O golpe acerta.

Não tem defesa.

Eu levanto.

— Cretino.

Ele levanta também.

— Eu tô tentando te salvar!

— Me salvou muito bem até agora.

Eu caminho.

Porta.

Vidro.

Reflexo.

Ele atrás de mim.

Sempre atrás.

— Já falou tudo?

Minha voz sai baixa.

— Então vai embora.

— Não.

Ele segura meu braço.

— Nossa filha tá lá dentro.

— Antoine corre perigo de qualquer forma!




— Afaste-se da porta, por favor.

A recepcionista corta o momento.

Frio.

Ridículo.

Como se aquilo fosse normal.

Ele me puxa.

Eu continuo.

Sem freio.

— Ela corre perigo com você…com esse seu inferno pessoal. Com seu amiguinho diabólico cheio de tesão por você e ódio por minha filha.


— Com você também!

Eu rio.

Descontrolada.

— Meu marido é um líder de seita…

— Dess…

— Um bando de doentes que usa ritual pra justificar pedofilia e assassinato?! Sério?!

Ele me encara.

Quieto.

Assustador.

— O que você quer que eu faça?

Eu avanço.

— Fala! Quem eu escolho?

— Dess…

— Lúcifer ou Asmodeus!?

O silêncio vem pesado.

Então ele fala.

Baixo demais.

— Quanto mais nova… melhor.

O ar some.

— Quanto mais pura…

— Para!

Eu puxo o braço.

— Você tá doente!

— Não.

Ele solta.

— Você que tá.


— Você se vendeu.

Aquilo…

entra fundo.

— Não é a minha Dess.

— Eu sou.

Eu sussurro.

E bato.

Em seu rosto.

O som ecoa seco.

Eu não fico.

Fujo.

Corredor.

Quarto.

Antoine.



O único lugar onde o ar ainda não me sufoca.

A cruz acima da porta me observa.

Padre Pietro.

“Onde Ele estiver, o Mal não entra.”

Eu rio.

Fraco.

— Então por que você morreu?

Talvez não seja a cruz.

Talvez seja fé.

Ou…

talvez seja ela.

Antoine.

Luz onde não devia existir luz.

— Mãe…

A voz sonolenta corta meus pensamentos.

— Não pensa tanto…

Eu sorrio.

Me aproximo.

Beijo sua cabeça.

— Dorme.

— Eu quero…

Ela boceja.

— Só dormir.

— Dorme com os anjos.

Eu sussurro.

— Mãe…

Eu paro.

— Meu pai pediu desculpa.

O mundo trava.

— Quando?

— Agora.

Eu fecho os olhos.

— Sem telepatia… você é muito nova…

— Tenho prova amanhã…

Eu rio.

Baixo.

Quase normal.

Vou sair.

Mas ela me chama de novo.

— Não sai hoje.

Eu travo.

— Eles são maus.

Ela boceja.

— Vão te machucar.

Corredor.

Ele já está lá.

Aiden.

Sorrindo.

— “Sha na na na na…”

A voz dele ecoa.

Errada.

— “It’ll be all right.”

Tudo apaga.

— Não quero que faça isso, esposa.

— Faço questão, marido. Estou bonita?

Pergunto diante do espelho.

O vestido longo, preto, colado ao corpo.

Eu observo o reflexo dele, esperando.

— Não gostou?

— Muito.

Aiden me abraça pela cintura.

O queixo repousa no meu ombro.

— Você é linda de qualquer jeito, esposa. Tem sido fiel a mim… e isso não tem preço.

— Como sabe?

— Tenho informantes em todos os lugares, baby.

— Inclusive na clínica de reabilitação?

— Ovviamente. — Ele sorri. Aquele sorriso indecifrável. — Gostei do tapa. Eu não teria dado melhor.

Sento na beira da cama, calçando os scarpins.

— Por que não me disse que paga a internação da Sweet?

— Porque você não gostaria de saber o motivo.

— Qual é o motivo? — ergo os olhos. — Vocês têm um caso?

Ele ri. Mas há repulsa ali. Clara.

— For Pete’s sake! Ela não faz o meu tipo, baby. Você sabe disso.

Se aproxima. Ajusta a gravata borboleta.

— Meu tipo é você. Sempre foi você.

Pausa.

— Não precisa ir hoje. Vamos ficar em casa.

— Essa não é a minha casa… baby.

Levanto.

A saia arrasta pelo chão enquanto desço a escada.

Ele vem atrás.

— Qual o motivo?

— De quê?

— De pagar pela internação de alguém que te causa repulsa.

Silêncio breve.

— As filhas. — ele responde. — Elas não têm culpa das loucuras da mãe.

Eu paro.

Devagar.

— Qual o seu interesse nas filhas da Sweet?

Viro o rosto, fria.

— Mimi já morreu. O que você quer com a Juju?

Ele trava.

Por um segundo.

Só um.

— Nada. — rápido demais. — Por mais que você pense o contrário, eu quero elas longe do perigo.

— E a Antoine?

— Faço o que for preciso pra proteger Antoine.

— Do quê? — encaro. — Asmodeus?

— Não.

Ele abaixa a cabeça.

E isso… isso me incomoda mais do que qualquer resposta.

— Existem coisas piores que ele. — murmura. — A humanidade consegue ser mais cruel que muito demônio.

— Concordo.

Entro no carro.

— Todos vão estar lá?

— Todos? — ele liga o motor. — De quem você tá falando, baby?

— Dos seus amigos… — faço aspas no ar — Da minha “volta ao passado”.

Ele suspira.

Pesado.

— Sim.

Pausa.

— Eu não queria aquilo. Você precisa acreditar. Não fui eu.

— Fica quieto.

Retoco o batom.

Fria.

— Não estraga isso. Não agora que voltamos a nos falar.

Uma mentira bem colocada.

— Eu acredito em você.

Ele me observa de lado.

— Você tá estranha.

— Bobagem. Só não tô eufórica como antes.

— Pela última vez… — a voz dele muda — Eu não quero ir. Vamos pra qualquer outro lugar. Só nós dois.

— E perder a grande festa em sua homenagem?

Sorrio.

Lento.

— Jamais. Algo me diz que hoje vai ser… memorável.

— Você tá esquisita.

— Com medo, marido?

Viro o rosto.

Sorrio.

— Não precisa. Eu vou te poupar.

Silêncio.

Pesado.

Então...

— Posso saber o seu nome?

Eu pisco.

Um segundo só.

E sorrio.

— No way, baby.

Inclino a cabeça.

— Mas eu já sei o seu.





Eu os levei até o limite.

Um por um.

Sem pressa.

Sem culpa.

Até que não restasse nada.

Aiden sai antes do fim.

Inteligente.

Os gritos começam depois.

Eu escuto.


De onde estou, aprecio cada som de seus gritos por socorro. 

Idiotas. 

Estamos a dezenas de distância da mansão mais próxima. Quem os ouvirá além de mim?

Aiden? Asmodeus? Lúcifer?

Queimem no inferno, vermes!

Sem mover um músculo.

— Isso é por Luka.

O fogo responde por mim.



Minha cabeça lateja. Meu corpo inteiro dói.

Estirada na cama, tateio a mesinha de olhos fechados, procurando o celular que berra… só pra arremessar na parede.

Abro um olho.

Visão embaçada.

É ele.

— Merda… — sussurro. — Você não dorme? Me deixa em paz.

— Leu o link que te enviei?

— Vincenzo, eu nem abri os olhos! Como você quer que eu leia alguma coisa a essa hora da madrugada!?

— São onze da manhã, Dess! Eu te mandei há duas horas! Lê!

— Não vou me submeter às suas ordens, idiota. Boa tarde.

— Não ouse desligar! É pro seu bem… e pro da Antoine!

Eu travo.

— O que a Antoine tem a ver com a porra de um link!?

— Algum problema, baby?

A voz de Aiden corta o ar.

— Alguém te importuna?

— Não. — reviro os olhos. — É o Vincenzo tendo um ataque de pelanca.

— Dess!

— Buona notte, stupido.

Desligo.

O nó vem na garganta.

Ele tava estranho.

Descontrolado.

E isso não é comum.

— Não me beija. Não escovei os dentes.

— Whatever…

Aiden se joga ao meu lado, tranquilo demais.

Eu viro o celular, escondendo a tela no peito.

Ainda não.

— Quero te mostrar uma coisa.

— O quê? Outra festa maravilhosa?

— Não vai ter mais festa, baby. Prometo.

Eu encaro pelo espelho.

— Jura?

— Cross my heart.

— Em português.

Ele ri.

— Juro.

— Daqui pra frente, só nós três.


— E a Cassandra.

Eu sorrio.

Idiota.

Eu sorrio mesmo assim.

Pulo nele, abraço, beijo.

— Nunca mais vão te machucar.

Eu acredito.

Eu quero acreditar.

— A gente pode voltar pra Itália?

— Pode.

— Antes disso… quero te levar num lugar.

O sorriso dele não combina com a frase.

— Você vai gostar.





No banco de trás, finjo ver vídeo.

Mas clico no link.

Erro.

— Que porra é essa…

— “In-cên-di-o mis-te-ri-o-so…”

Antoine lê em voz alta.

Claro que lê.

Justo isso.

— O que é isso, mãe?

— Nada.

Cassandra ri baixo.

Aiden observa pelo retrovisor.

Esperando.

Eu falo.

Sem pensar.

— Incêndio é quando alguém pega fogo…

Pauso.

— Tipo quando eu encho garrafas, coloco fogo…

Sorrio.

— E jogo em gente nojenta até virar cinza.

Silêncio.

— Uau…

— Você tá bem, baby?

— Tô.

— Tem certeza?

— Eu falei alguma coisa?

Antoine me puxa.

— Deita aqui.

Eu obedeço.

E escrevo.

"Vai tomar no cu, Vincenzo."

A conversa vira guerra.

Como sempre.


"O que você fez, Dess?"

Eu travo.

"Fiz o quê?"

"Leu a matéria?"


"Me deixa em paz. Vá atrás de Sweet e de seu filho!"

"Já estou aqui, idiota. O que fez, Dess? Eu sei que foi você."

"Fiz o que e quando?"

"Leu a porra da matéria!?" 

Leio.

Me fodo.

 "Dess!?"

"Li. Satisfeito? Falei merda e nem sei o que falei. Fica longe de mim e de Antoine. 

Mentira.

Eu nunca o quis longe.

"Vai ter que encontrar tempo pra cuidar de seu filho de verdade. Fruto da foda entre você e Sweet. Sejam felizes! #sqnunca".


"Imbecil! Em minha vida só existe uma mulher e se eu não a tiver, prefiro sucumbir."

Idiota

"Pois então, sucumba! Eu estou casada. Aiden, meu marido, está me levando pra conhecer nossa nova casa. Eu sinto que tudo vai mudar pra melhor porque, ao contrário de você, ele não promete. Ele faz."

"Dess, não me provoca. Estou por um fio..."

Idiota

"Espero que esse fio enrosque em seu pau e o decepe."

"Preocupada com meu pau?" 

Riso.

Alto.

Inconveniente.

"Vá pro inferno!"

"Eu já estou nele sem vc. E, se não conseguir ficar com você nessa vida, eu, literalmente, voltarei a ele."

Digito.
Ligeira.
Descontrolada.

"Foda-se! Desliga! Aiden tá desconfiado!"

"Foda-se! Que ele saiba que eu sei quem ele é e o quanto ele mente pra te enganar e te manter presa a ele!"

"Me deixa...por favor. Eu tô confusa." 

"Eu sei, amor. Eu estarei aqui por você."

"COM SWEET???"

Pausa. 

Meu coração aquece enquanto os três pontinhos no visor se movem como ondas.

"Responde!"

"Sim! Sweet, Jujuba e, em breve, Mimi!"

"VOCÊS A ENCONTRARAM???"

"Ainda não. Mas estamos quase lá, Dess. Ela foi salva por algum morador próximo à mansão carbonizada. Vc estava certa, Dess. Vc é melhor do que imagina." 

Eu engulo seco. 

Prendo o choro.

"Não seja patético".

"Dess...espera!"

"Boa sorte. Ache Mimi e tente fazer Sweet feliz. Ela merece."

"Sem chances. Eu não caí por ela."

"Se caiu por mim, levante-se e faça algo que mude o curso de nossas vidas. Até lá, vou tentar ser feliz com o que tenho e não com o que você nunca pôde me dar, infeliz."

"Dess, não a deixe voltar! Ela é perigosa!"

Eu franzo a testa.

"Quem?"

"Eileen".

Eu rio.

Alto demais.

Antoine ri junto.

— Boa, mãe!

Eu continuo.

"Boa tentativa, idiota. Eu amo essa música. Nós dançamos em nossa lua-de-mel na Irlanda. Aiden e eu."

Provoco.

Cantarolo.

"Come on, Eileen!"

Mas algo…

não encaixa.

"Mais uma pra lista dos 'mais perigosos do ano'!?"

"Você não se lembra, né? Nem poderia. Eu te fiz esquecer. Eu a fiz voltar a dormir".

"Eu não me lembro de nada, Vincenzo. Me esquece."

"Não foi nessa vida, burra! Foi na anterior!"

"Aaah! Vá à merda! Chega dessa história! Volta pro céu e me esquece!"

"Não enquanto ela quiser voltar!"

"Chega!"


"Ele sabe como acordar ela".

Eu olho pro retrovisor.

Aiden sorri.

Calmo.

Demais.

"Pergunta das mãos dele".

Eu engulo seco.

Mãos frias.

Sempre.

Eu finjo tédio.

— Sweet não cala a boca.

Mentira.

Eu volto a digitar.

"Por que as mãos dele são frias?"

A resposta vem rápido.

"Ele já te disse, Dess".

Errado demais.


Eu fecho os olhos.


"Se eu não te amasse tanto, eu te largaria agora!"

"Tu já me largou tantas vezes! Que diferença vai fazer!?"

"Vai sentir a diferença quando ela quiser retornar e quando ele te largar!" 

"Tá me deixando confusa e irritada. Aiden tá percebendo!"

"Haja o que houver, não a deixe retornar à superfície. Antoine depende de sua sanidade ou do pouco que ainda lhe restou, maluca!"

"Não me diga!? Então eu devo não deixar voltar à superfície algo do qual eu me esqueci porque você me fez esquecer!? Otário! Tu é que é maluco! Agora eu saquei tudo! Agora eu sei que fiz a escolha certa! Aiden é o meu homem! O melhor para mim! Some!

"Ele sabe como acordar a 'outra', Dess! Ele estava presente quando eu a fiz dormir! Morávamos na Irlanda! Isso não faz muito tempo! 

"Eu amei a Irlanda...". 

Suspiro.

"Claro! Seus tios eram de lá! Sua única família! Eles sumiram graças..."

"PARA TUDO!!! EU QUERO DESCER!!! CHEGA DESSE PAPO!!!"

Hesito antes de perguntar pela última vez.

"As mãos frias. Por quê?"


"Ele parecia brincar e vc preferiu acreditar que era brincadeira. Mas ele disse. Pergunte a ele novamente. Ele não pode mentir sobre isso. Eles o proibiram de esconder a verdade quando questionado por você."

"Eles quem???"

"Aqueles que nos fazem cumprir as Leis Supremas!"

"Aaaaah...tá! Não entendi porra nenhuma! Eu já perguntei coisas sobre ele e ele não respondeu! Logo, sua teoria sobre meu poder não vale nada!"

"Pergunte novamente, Dess! Pergunte! Quando vai acordar desse sonho!? Quando a 'outra' tomar conta de tudo!? Dess, a gente precisa se encontrar!?"

"Quem precisa, imediatamente, encontrar um psiquiatra é você, Vincenzo! Fica longe da minha filha e da minha vida! Talvez eu te envie alguma mensagem de meu novo apartamento! Fui!"

Que porra é essa "Eileen"?



Estamos de volta ao meu antigo apartamento.
Aiden o comprou de mim em segredo. Assim como fez com o meu carro.

— Por que fez isso?

— Porque você precisava — responde, simples. Como se fosse nada.

E eu acredito.

Entusiasmada com esse altruísmo repentino, passo a enxergá-lo com outros olhos.

Longe da mansão, nossas vidas parecem… mais leves. Mais normais.
Expulsei a preceptora infernal sem pensar duas vezes. Eu mesma a demiti. Com desprezo.

Um desprezo desnecessário.
Um erro que, cedo ou tarde, ela vai cobrar.

Aiden observa tudo em silêncio enquanto eu redecoro o apartamento inteiro, mesmo não havendo necessidade alguma. Já estava perfeito antes. Continuava perfeito.

Mas eu precisava mexer. Controlar alguma coisa.

Troco a luxúria pela vaidade e gasto uma pequena fortuna em cada detalhe.

O quarto de Antoine vira uma floresta mágica.
Às vezes, juro que vejo sombras pequenas se movendo pelas paredes.

Duendes. Fadas. Elfos.

Com Antoine… nunca dá pra duvidar.

O que sobra de luz no quarto dela, falta no nosso.


Preto. Vermelho.
Aiden fez questão.

No começo, hesitei.
Depois… gostei.

Da janela, vejo a cidade inteira acesa. Pequena. Frágil.

Tenho a estranha sensação de estar acima de tudo.

E, ao mesmo tempo, à beira de cair.

Como se algo estivesse me empurrando… devagar… pra um lugar do qual eu não volto.

E a pergunta continua ali, me corroendo:

De onde ele tira tanto dinheiro?

Em pouco tempo, meu corpo volta ao normal. Até melhor.

Academia cara. Treino pesado. Disciplina.

Do carro, estacionada em frente ao galpão de boxe, vejo Sweet atrás do balcão, sorrindo.

Plena.

Viva.

— Eu deveria estar ali. Não ela.

Inveja.

Mais um pecado pra coleção.

Parabéns, Dess.

Engulo isso seco.

Sweet perdeu o bebê. Continua de pé. Trabalhando. Cuidando da Jujuba.
Acreditando que Mimi está viva.

Ela tem esperança.

Eu tenho… isso aqui.



— NÃO! — rosno quando Antoine grita pela janela.

— Ué, mãe! — ela ri. — Foi pra isso que eu chamei!

Reviro os olhos, tranco o carro e vou até a recepção.

— Por que não foi lá em casa?

— Tô sem tempo.

— Mentira. O que tá rolando?

Ela hesita.

— Tô mal, amiga. Eu perdi meu…

— Eu sei. — corto. — Aiden me contou. Você ainda é jovem.

Engulo o resto com gosto amargo.

— Vincenzo também. Ainda podem tentar.

Ela me encara, irritada.

— Para com isso. Eu não sei quem era o pai. E nem quero saber.

Pausa.

— Mas sei quem não era.

Meu estômago revira.

— Vincenzo não era.

Claro.

Isso não impede vocês de estarem se pegando, né?

— Que cara é essa? — ela estranha.

— Nenhuma. — seco. — Antoine, já falou com a tia? Vamos.

— Não! Eu quero ver meu pai!

— Você não tem pai! Só mãe!

Silêncio.

Merda.

Os olhos dela enchem de água na hora.

Atrás de mim, alguém a ergue.

— Mamãe disse que você não é meu pai, pai…



Eu fecho os olhos.

Claro que ele estava ali.

— Eu sou seu pai — diz Vincenzo, calmo. Frio. — Não liga pra isso, filha.

Nem olha pra mim.

Nem precisa.

— Quando quiser me ver, a gente se encontra. Tá bom?

— Pode me levar ao cinema?

— NÃO!

Meu grito corta o lugar.

Gente olhando. Alunos parando.

Foda-se.

— Ele não tem minha permissão pra nada.

Vincenzo ignora.

Beija a bochecha dela.

— Depois a gente se fala.

— Te amo, pai.

Ele pega o beijo no ar.

Antoine vibra.

E eu… fico ali. Parada. Invisível.

Sweet começa a chorar.

Ótimo. Mais culpa pra mim.

Abraço ela rápido.

— Eu vou encontrar a Mimi. Aguenta firme.

Saio antes de desabar.

— Filha… me ajuda…

Minha voz quebra.

E então…

Ele fala.

— Não sobrou nada da mulher por quem eu caí.

Eu travo.

Viro devagar.

Os olhos dele… vazios.

Gelados.

— A única coisa que me prende aqui é a Antoine.

Cada palavra é uma lâmina.

— Se algo acontecer com ela… eu sumo.


Minha respiração falha.


— Mas antes… eu acabo com você.





Não faço ideia de como cheguei em casa.
Nem de onde tirei forças pra dar banho em Antoine e colocar comida no prato dela.

Cassandra percebe.

Claro que percebe.

Leva Antoine pro quarto, conta histórias, inventa mundos melhores… enquanto eu me afundo na minha nova “jacuzzi”.

E grito.

Grito até a garganta arder.
Até não sair mais som nenhum.

Quando volto à superfície, ofegante, olho ao redor.

Luxo.

Excesso.

Ridículo.

Quem, em sã consciência, assiste a uma TV de oitenta e cinco polegadas dentro de um banheiro?


Eu.

Do celular, espelho a foto de Vincenzo na tela gigante.

Nós dois.

Antes de tudo dar errado.

Antes de Antoine.
Antes de Aiden.
Antes de eu me perder.

“Não se esqueça de mim. Haja o que houver, estarei contigo.”

Mentira.

Ele mentiu.

Ou talvez eu tenha destruído tudo que ele prometeu ser.

— Meu anjo… — sussurro, engasgando. — Eu não consigo tirar você de mim.

Solto o celular no chão frio e mergulho.

Silêncio.

Só água.

Só pressão.

Só um segundo de paz.

Meu corpo relaxa sob os jatos fortes. Quase dói… mas é um tipo de dor que limpa.

E aí vem o pensamento.

Luka.

— Eu não tive tempo… — minha voz falha quando volto à superfície. — Eu não tive tempo de me aproximar dele…

A culpa vem inteira.

Pesada.

Sufocante.

Levo a mão à boca pra abafar o choro. Aiden não pode ouvir.

Desligo a TV.

Mas a foto continua ali. No celular. Me encarando.

Salvo na nuvem.

Como se isso fosse impedir de perder o resto.

— O que eu faço pra me redimir?

O teto estrelado me observa de volta.

Falso. Bonito. Silencioso.

Apago as luzes com a voz.

Escuro.

Encosto a cabeça e finjo.

Praia.
Antoine rindo.
Vincenzo ao meu lado.

Paz.


Idiota.

Eles devem estar juntos agora.

Sweet. Vincenzo. Jujuba.

Rindo. Bebendo. Vivendo.

E depois…

— INFERNO!

Afundo a cabeça com raiva.

Se eu segurar tempo suficiente… talvez apague.

Talvez pare.

Talvez suma.

“Se esqueceu de mim, tia?”

Minha mente estilhaça.

“Mimi sofre.”

Abro os olhos. Água. Escuro.



— Giulia… — minha voz sai fraca dentro da minha própria cabeça. — Me dá uma pista. Eu quero ajudar…

“Siga o monstro.”

Meu coração dispara.

“Siga o monstro.”

— Que monstro!?

Silêncio.

Eu volto à superfície puxando ar como se fosse a primeira vez.

— Siga o monstro… — repito, tremendo.

E então...

LEVANTA. AGORA.

Eu travo.

Essa voz…

Não é a de Giulia.

Não é a de Lúcifer.

E pior:

Eu obedeço.



Deixo Antoine com Cassandra.

Não explico nada.

Cabelo molhado. Corpo ainda quente da água.

E já estou no carro.

Escondida do outro lado da rua.

Esperando.

Observando.

Até ele sair.

Aiden.

Calmo. Seguro. Intocável.

Mentiroso.

Eu sigo.

Distância segura.

Sem farol alto. Sem pressa.

A cidade vai ficando pra trás.

Asfalto vira terra.
Terra vira lama.
O carro reclama.

Eu não paro.

Giulia está comigo.

Eu sinto.

Uma hora.

Talvez mais.

Até ele frear.

Sozinho.

Diante de um casebre no meio do nada.

E eu… finalmente entendo.


— É isso aí, tia! — diz Giulia, antes de desaparecer.

Fico sozinha.

Estaciono longe o suficiente e observo com o binóculo lilás de Antoine.
Ridículo. Funcional.

Aiden entra na casa simples.
Uma senhora… grande demais praquele lugar… o recebe com um sorriso estranho.

Porta fechada.

Fim da fachada.

Desço do carro.

O sol tá se pondo, bonito demais pra cena errada que se desenha. Azul, rosa… perfeito.

Mentira.

Encosto na madeira da casa, me agacho… e um cachorro surge.

Raivoso.

Rosno de volta.

E ele… recua.


Tá.

Isso não é normal.

Debaixo da janela, prendo a respiração.

Vozes.

— Tem alimentado a menina?

Meu coração para.

— Como o senhor mandou, patrão.

Patrão.

Patrão???

— Ela ainda chora muito? — a voz dele vem fria.

Fria como sempre foi… e eu não quis ver.

— Agora não. Acho que cansou. Quer ver?

— Por que acha que eu vim aqui, estúpida? Pra te ver?

Meu mundo desmonta em silêncio.

Eu não penso. Não consigo.

Me arrasto pela lateral da casa até uma janela suja.

Subo devagar.

Espio.

Uma criança.

Sentada no chão.

Cabelos cor de mel, embaraçados… uma boneca tão acabada quanto ela.

Sem brilho.

Sem força.

— Mimi… — sussurro, tremendo. — É a Mimi…

Meu cérebro trava.

Confronto?

Espero?

Levo ela e corro?

Tarde.

A porta abre.

Eu me escondo.

— Tio… — Ela chama.

Tio?

Meu estômago revira.

Eles conversam baixo demais. Não ouço.

E então...

Frio na testa.

Paro.

Uma espingarda encostada na minha cabeça.

A mulher me encara com desprezo.

— Atira… e eu te mato — rosno.

Idiota.

Mas funciona.

Ela hesita.

Erro.

Chuto o cano da arma.
Desvio.

Punho no pescoço.

Seco.

Ela cai.

E eu… continuo.

Chuto.

De novo.

De novo.

Até faltar ar.

Até sobrar ódio.

Pego a espingarda.

Viro.

Aiden segura o cano.

Calmo.

Sempre calmo.

— Por que me seguiu, baby? — decepção na voz. — Você acabou de colocar a vida da Mimi em risco.

— OIII???



Abraço Mimi.

Ela treme.

Eu também.

Aiden fala.

Eu só ouço metade.

— Eles iam matar ela naquela noite…

— Como você sabe disso? — corto. — Você faz parte disso, caralho!?

— Não. Eu tô infiltrado.

Eu encaro.

Sério mesmo?

— Você me entregou pra eles! — avanço. — Isso também era infiltração!? Me usar como carne!?

— Shhh. Vai assustar ela.

— NÃO SE FAÇA DE IDIOTA!

Eu me levanto, protejo Mimi com o corpo.

— Quem hospeda demônio não salva ninguém!

Ele perde a paciência.

Finalmente.

— EU SALVEI! — grita. — Eu mergulhei naquele rio! Eles jogaram ela pra morrer!

Silêncio.

— Eu salvei… por você.

— Por quê!?

— Porque você disse que era madrinha delas!


Droga.

— E o Luka!? — eu ataco. — Por que não salvou!?

— PORQUE EU SOU UM SÓ, PORRA!

A cabana parece pequena demais pra isso tudo.

— ELE MORREU ANTES! — eu grito.

— EU NÃO SOU DEUS!


Eu travo.

Não sei mais onde pisa verdade.

Me sento.

Abraço Mimi.

— Quero minha mãe…

— Eu vou te levar — sussurro. — Eu vou tirar você daqui.

— Não faz isso — Aiden fala baixo.

Perigo.

— Se descobrirem que ela tá viva… Antoine é a próxima.

O mundo para.

— O QUÊ?

Eu avanço.

Sem pensar.

Derrubo ele no chão.

Subo.

Bato.

Bato.

Bato.

Até minha mão sangrar.

Ele não reage.

Não se defende.

Só… olha.

— Acabou?

— NINGUÉM ENCOSTA NA MINHA FILHA!

Eu levanto, tremendo.

Aponto pra velha.

— FALA PRO SEU MESTRE DESISTIR!

Nada.

Só aquele olhar morto.

Eu quebro.

Ele me segura por trás.

Forte.

— Calma… — sussurra. — Eu resolvo isso. Confia em mim?

Confiança.

Que piada.

— …sim.

Mentira.

Levo Mimi pro carro.

Deito ela no banco de trás.

Aiden vem atrás.

Sempre perto demais.

— Deixa ela comigo — pede. — É mais seguro.

Eu rio.

Chorando.

— Tenta.

Ele para.

— Foi pela Antoine…

— Não existe desculpa pra isso!

— E se foi pra salvar?


Eu entro no carro.

Tranco.

Ele bate no vidro.

— Não me deixa!

— POR QUÊ!?

— Porque ela é o alvo!

Silêncio.

— Ela é pura… e tem poder.

Minha cabeça gira.

Minhas mãos travam no volante.

— ME DEIXEM EM PAZ!

— Abre a porta…

Eu não abro.

Não confio.

Não mais.

Baixo o vidro só o suficiente.

— Se eu descobrir que você tá metido nisso… eu te mato.

Ele solta um riso triste.

— Não pode.

— Por quê?

Ele me encara.

Frio.

Cansado.

— Mortos… não morrem.


Eu acelero.

Não olho pra trás.

Nem quero saber se ele ainda tá lá.

O ódio fica.

O medo também.

E, pela primeira vez…

Eu sei que não tô no controle de nada.



Subo as escadas até o terceiro andar com Mimi adormecida em meu colo. Meu corpo pesa toneladas, minha cabeça lateja, mas, ainda assim… eu sorrio.

Ela está viva.

Bato à porta três vezes. Demora um segundo, dois… três… até que ela se abre num rompante.

— MIMI!!! — grita Jujuba, pulando, elétrica.

Sweet cai de joelhos.

Não diz nada.

Não consegue.

Chora.

Chora como se estivesse se despedaçando por dentro… mas não vem até a filha.

Sou eu quem caminho até o centro da sala.

Com cuidado, deito Mimi no sofá.

E desabo ao lado dela.

Minhas mãos cobrem meu rosto antes que eu perceba. O choro vem pesado, sem controle. Não é só cansaço.

É tudo.

— Você conseguiu… — diz ele.

A voz.

Sempre ela.

— Obrigado, Dess.

Vincenzo se senta ao meu lado.

Erro dele.

Eu me levanto.

Não olho.

Não respondo.

Nada.

Beijo Jujuba.

Beijo Sweet.

E antes que qualquer um tente me segurar, eu aviso:

— Cuidem dela. Ela perdeu peso… mas ninguém tocou nela. Eu garanto.

Uma pausa.

Respiração falha.

— Adeus.

— Dess!

Paro no corredor.

Não viro.

— Fica longe. — Minha voz sai quebrada, mas firme. — Da mulher que você conheceu… não sobrou nada.



Aiden e eu não trocamos uma palavra desde que encontrei Mimi.

Ele… ressentido.

Eu… quebrada demais pra confiar.

Sweet faz uma festa. Claro que faz. Mimi voltou dos mortos, basicamente. O mundo dela girou de novo.

Deixo Antoine lá.

Erro número um.

— Mamãe te busca mais tarde, ok? Me liga.

— Meu pai me leva, mãe.

Engulo o “não”.

Com força.

— Vou de moto! Vai ser legal!

— Não, filha. É perigoso.

Ela revira os olhos.

Emburrada.

Silêncio.

— Quando quiser voltar, me liga. — beijo sua bochecha — Te amo.

— Te amo, mamãe.

Ela me puxa pelo braço.

Sussurra:

— A Giulia disse que ainda não acabou.

Claro que não acabou.

Nada nunca acaba nessa porcaria de vida.

Desço as escadas.

Cada passo mais pesado que o outro.

Até que...

— Como chegou até aqui se não foi pela escada?

Fecho os olhos.

Respiro.

— Quer mesmo saber? Eu já te falei antes.

— Pulando a janela?

— Sim.

Reviro os olhos.

— Grande coisa. Já vi coisa pior. Posso passar?

Ele não sai do caminho.

— Não… até você me perdoar.

Eu rio.

Sem humor nenhum.

— Vincenzo… eu não quero brigar. Não quero discutir. Eu só… — minha voz falha — Eu só quero dormir. Pra sempre. E acordar quando isso acabar.

Silêncio.

— Isso é depressão, Dess.

— Não me diga. — seco. — Minha vida é um spa, né?

Ele tenta falar.

Eu corto.

— Passado. Morreu. Me deixa passar.

— Se quisesse passar, já tinha me quebrado no meio.

Ele me conhece.

Infelizmente.

— Não sou mais a mesma.

— É sim. Só tá cansada.

O toque dele no meu rosto quase me destrói.

Quase.

— Me deixa passar.

— Me escuta…

— Fala.

— Eu não sinto nada pela Sweet. Nada além de amizade.

— Já não me importo.

Mentira.

Mas agora não importa mesmo.

— Descobre quem o Aiden é. Você sabe que tem algo errado. Liberta ele… ou destrói. Pela Antoine.

Eu rio.

Frio.

— Você falando de lutar é engraçado, sabia?

Ele trava.

Eu continuo.

Sem dó.

— Você, o anjo que foge de Lúcifer. Você, que largou a gente. Você, que se escondeu atrás de padre enquanto eu me afundava. Agora banca o pai das filhas dos outros pra não encarar o que fez.

Cada palavra… um golpe.

— Quer continuar com seus conselhos… ou já posso ir?

Silêncio.

Ele recua.

— Você tem razão.

Claro que tenho.

Sempre tive.

— Eu sei.

Dou as costas.

E morro um pouco por dentro ao dizer:

— E eu que faria de tudo por você…




Entro em casa.

Aiden no sofá.

Assistindo.

Ou fingindo.

Tanto faz.

Passo direto.

Sem olhar.

Sem falar.

O estúdio de dança me engole.

Espelhos.

Reflexos.

Versões minhas que eu não reconheço.

Tento alongar.

Meu corpo obedece.

Minha alma não.

Coloco uma música.

Triste.

Ridiculamente perfeita pro momento.

Dou dois passos.

Paro.

Acabou.

Eu não sou mais aquela mulher.

O brilho… morreu.

O amor… apodreceu.

O que sobrou…

é raiva.

E sombra.

Só sombra.



Escolho outra canção.

Algo mais atual. Uma das muitas da playlist de Cassandra, sempre grudada nos fones.

Arrisco dois saltos.

Desisto.

Rodopio pela sala e, ao me encarar no espelho, encolho como um pássaro sob tempestade.

Caminho na ponta dos pés até a barra.

Choro.

Recuo, saltitando, numa tentativa ridícula de alçar voo.

Falho.

Caio contra o piso frio.

O impacto ecoa pelo meu corpo.

Choro convulsivamente, as costas tremendo enquanto escondo o rosto entre as pernas esticadas. Meus cabelos caem como uma cortina sobre mim.

Então...

— Deixa eu te ajudar…

A voz dele.

Sempre no pior… ou melhor momento.

— Em quê? — choramingo, mexendo os dedos dos pés. — Eu não consigo mais.

— Consegue sim. — Aiden se agacha ao meu lado. — Só precisa de alguém que te mantenha focada. Lembra de como nos conhecemos?

— No teatro… — suspiro, e um sorriso escapa sem permissão. — Onde tudo começou.

— Ainda não acabou, baby. Vem.

— Aiden, não…

Ele estende a mão.

— Vem. Eu te guio. Confia em mim.

Hesito.

— Essa música não é sua.

— Nem sua.

Mesmo assim…

eu vou.

E ele me guia.

No começo, travo.

Depois… cedo.

Ensaiamos.

Dançamos.

As mãos dele na minha cintura. Os braços sustentando os meus. O olhar preso ao meu através do espelho.

Eu coraria.

Ainda coro.

A insistência dele quebra minha resistência, pouco a pouco. Diferente de Vincenzo, Aiden não desiste.

Ele toma.

Ele molda.

E eu deixo.

A música cresce.

A raiva também.

Meu corpo responde.

Por instantes, volto ao palco do California.

Cabelos soltos.

Punhos cerrados.

Saltos, giros, quedas.

Um grito rasga minha garganta quando ele me ergue, orgulhoso, girando meu corpo como naquele primeiro dia.

Abro os braços.

Fecho os olhos.

E volto.

Volto a um tempo em que eu era livre.

Indomável.

Perigosa.

Feliz.

Crua.

Selvagem.

Impiedosa.

…de onde veio essa memória?

Gargalho ao tocar o chão novamente.

Ele faz uma reverência elegante.

— Você sabe dançar. Gosto disso.

— Você me ensinou, baby. Não faz muito tempo.

— Você e suas esquisitices…

— Ainda não acabou. — ele exige mais.

E, pela primeira vez em muito tempo…

eu quero dar mais.

Saltos.

Piruetas.

Giros.

E termino em um arabesque perfeito.


Ele aplaude, encantado.

— A bailarina ainda está aí. — diz, tocando meu peito. — Nunca deixa ela morrer.

— Você me ajudou… — ofego, sorrindo de verdade. — Obrigada.

Ele se apoia na barra.

Aquele sorriso.

O mesmo de antes.

— Proponho uma trégua.

Fico em silêncio por um segundo.

Maldito.

Ainda sabe me desmontar.

— Proposta aceita.


Dessa vez…

não estou sozinha na jacuzzi.

Aiden está comigo.

E, de um jeito estranho… perigoso…

fizemos as pazes.

A boca dele percorre meu corpo sem pressa. Quando chega à minha, o beijo tira o ar.

— Shhh… — sussurro contra seus lábios. — Agora não. Vamos fingir que nada aconteceu.

Ele sorri.

Como se tivesse vencido.

E me beija de novo.

Dessa vez… diferente.

Mais lento.

Mais cuidadoso.

Pela primeira vez…

ele faz amor comigo.

Sem pressa.

Sem violência.

Sem monstros.

Por alguns minutos, eu esqueço.

Esqueço quem ele pode ser.

O que ele pode ter feito.

O que ele ainda esconde.

Esqueço o dinheiro.

As mentiras.

O medo.

Depois de dias…

eu o abraço.

De verdade.

Sinto sua respiração falha contra meu pescoço. Suas mãos percorrem minhas costas como se tentassem me decorar.

Os olhos dele me procuram.

Quase desesperados.

— Responde, esposa.

Estou sentada em seu colo.

Sinto ele dentro de mim.

Seguro seus cabelos.

Me movo.

Devagar.

Depois mais rápido.

Até perder o controle.

— Não vou deixar… — gemo, sem fôlego — Marido.




— De onde vem?

Surpreso, ele sorri. Tenta escapar.

— Estamos tão bem agora, baby… por que tocar nisso?

— Porque eu quero saber mais sobre o homem que amo. Não posso?

Os olhos claros dele brilham. De verdade.

Ele se ergue um pouco, apoiado no cotovelo, e arqueja:

— O que você disse? Repete.

— Qual parte? — provoco.

Ele ri como um garoto, escondendo o rosto no travesseiro.

E é exatamente isso que me desmonta.

Mas eu não esqueço.

— De onde você veio, amor? — insisto, mais baixo. — Sei que não pode mentir pra mim.

O corpo dele enrijece.

— Foi ele quem te disse isso… — rosna contra o tecido. — Aquele escroto metido a anjo. Eu odeio ele.

— Por quê? O que ele te fez? — respiro fundo. — Não tô defendendo ninguém. Eu quero te conhecer, Aiden.

Silêncio.

— O que quis dizer com “mortos não morrem”?

Ele vira o rosto.

— Exatamente isso. Mortos não morrem… porque já estão mortos, baby.

— Não acho graça.

Me cubro com o lençol. Dou as costas.

— Tô esperando.

Ele encosta em mim.

Hesita.

— Vai continuar me amando… se souber da verdade?

Os braços dele me envolvem. As mãos frias na minha barriga.

Sempre frias.

— Fala, esposa… vai continuar me amando se eu não for… normal?

Fecho os olhos.

— Sim. A menos que você seja um deles.

— Deles quem?

— Os que mataram Luka.

Ele me vira de frente.

— Olha pra mim.

Eu olho.

E erro.

Porque quando ele entra debaixo do lençol, quando o corpo dele encosta no meu…

eu esqueço.

Por segundos.

— Por que suas mãos são frias, Aiden? — sussurro. — Me diz a verdade.

— Eu sei que você é forte… — a voz dele baixa. — Você me afastou uma vez.

— Quando?

— Não lembra?

— Outra vida?

— Não. Essa.

Um arrepio.

Ele se aproxima mais.

Minha respiração falha.

A lareira dança atrás dele.

Tudo fica quente.

Menos ele.

— Você me expulsou… — ele murmura. — Eu não sabia lidar com o que sentia. Virei… outra coisa.

— Sai de mim, Aiden…

Tarde demais.

Meu corpo responde antes da minha cabeça.

Sempre responde.

Ele para de repente.

Me encara.

— Você sentiu minha falta. Me chamou de volta. Você não faz ideia do que pode fazer…

Um estalo dentro de mim.

Empurro ele.

Ele cai ao lado.

Eu fujo.

Lençol enrolado no corpo, coração disparado.

— Me diz quem você é. Agora.

Ele se levanta devagar.

E aí…

eu vejo.

Aquela coisa ao redor dele.

Escura. Viva.

Respira junto com ele.



— Não chega perto!

— Eu não vou te machucar.

Mentira bonita.

— Eu prometi a eles… — ele fala, distante. — Eles me deram outra chance.

— Eles quem, Aiden!?

— Agora é tarde.

Ele me olha.

E tem medo.

Medo de verdade.

— Se você não me aceitar… eu vou ter que ir.

Um urro preso na garganta dele.

— Eu não quero ir. Não agora…

Meu peito aperta.

Mesmo assim.

Mesmo sabendo.

Eu ainda me aproximo.

Erro número dois.

— Quem é você?

A voz que responde…

não é dele.

— Uma alma sem rumo… procurando a mulher que ama.

Meu sangue gela.

— Para…

Ele não para.

— Eu fui humano. Eu tive um nome. Eu escolhi o erro. Escolhi o inferno…

Minha respiração trava.

— Preso à escuridão… me chamaram de demônio. Mas eu só estava… te procurando.

E então eu vejo.

De verdade.

— Ga’al…?

Ele recua.

Como se tivesse vergonha.

— Não precisa me aceitar… — a voz falha. — Posso continuar sendo Aiden. Se você quiser.

— Ou?

— Ou me liberta… e eu desapareço.

— Que maldição?

— Não importa.

Sempre essa porra de “não importa”.

— Eles precisam de uma resposta.

— Eles quem!?

Ele ignora.

— Você ainda me quer?

Silêncio.

Meu instinto grita.

Minha cabeça grita.

Meu coração…

esse idiota…

escolhe.

— Não vai tocar na Antoine?

— Nunca.

— Não vai me machucar?

— Não.

Pausa.

Respiração presa.

Erro número três.

— Então fica.

Ele para.

Como se o mundo tivesse parado junto.

— Fica como Aiden.

Um sorriso.

Pequeno.

Vitorioso.

— Está feito.

A escuridão recua.

O rosto volta.

O mesmo.

O que eu escolhi.

— Esse corpo não é meu…

— De alguém morto?

Ele dá de ombros.

— Sim.

Claro que sim.

— Por isso suas mãos são frias?

— É a única parte que não consigo aquecer.

Eu seguro as mãos dele.

Sopro.

Ridículo.

Humano.

Ele sorri.

— Não vou te decepcionar.

Promessas.

Sempre promessas.

E, ainda assim…

eu acredito.

Idiota.

Aiden me cura…

com pequenas doses do veneno que ele mesmo colocou em mim.

Meu corpo cede.

Minha mente… se cala.

Mas minha alma...

essa não dorme.

Ela espera.

Observa.

E sabe…

isso ainda vai piorar.

Perdida, aguardo o momento certo de agir.



De volta à capela, hesito antes de entrar.

O Crucificado me encara.

Ou eu imagino.

“O que fizeste da tua vida, filha?”

— Não sei… — murmuro.

Me ajoelho diante do altar onde o corpo de padre Pietro foi velado.

Uno as mãos.

Imploro.

— Me ajuda… eu tô perdida. Eu tenho medo dele. Sei do que ele é capaz se for contrariado. Protege a minha filha… por favor. Eu mereço sofrer. Ela, não.

— Discordo.

Abro os olhos, assustada.

A voz é calma.

Erradamente calma.

— Você não merece sofrer.

Ela está ali.

Sentada.

Como se sempre tivesse estado.

— O Crucificado, como você O chama… não condena. Ele entende. Conhece o teu medo, filha.

— Você!? De novo!? O que faz aqui!?


— Rezando… — responde, com um sorriso suave. — Todos precisamos de ajuda. Não é?

— Você tava no meu casamento… — estreito os olhos. — E eu já te vi antes.

— Certamente. Estamos sempre indo… e vindo.

Isso não ajuda em nada.

— De onde eu te conheço?

Me inclino.

Toco sua pele.

Perfeita demais.

Fria demais.

Nada.

Nenhuma lembrança.

— Eu não tenho memórias, filha.

— Como assim não tem?

— Estão no meu corpo de carne.

Eu travo.

— Você tá… morta?

Ela ri. Baixo.

Olha pro teto abobadado.

— Digamos que eu esteja viva… em outro lugar.

— Claro. — recuo, me arrastando pelo chão frio. — Óbvio. Por que eu teria uma vida normal? Só gente normal, rotina normal…

Reviro os olhos.

— Mortos, anjos, demônios… eu mereço.

— Você é divertida. Sempre foi.

Sempre foi.

Aquilo me pega.

— O que você quis dizer com isso?

Ela suspira.

Os dedos deslizam pelo próprio pescoço.

Triste.

De verdade.

— Eu tentei…

— Tentou o quê!?

— Te afastar.

O ar some.

— De quem!? Do Aiden!?

— Não.

— Do Vincenzo!?

— Não importa. Ainda não acabou.

Ela toca meu rosto.

De leve.

Quase dói.

— Não tenha medo. Nós estaremos ao seu lado.

Nós.

Sempre tem um “nós”.

— Impeça-o de continuar.

— Quem!?

— Ele está vindo… — sussurra, agora tensa. — Não deixe. Mais uma criança… e perdemos o controle.

— De quê!?

Minha voz explode na capela.

Ecoa.

Vazia.

Eu olho ao redor.

Nada.

Sumiu.

— Volta… — sussurro, sentando no banco. — Por favor… eu preciso de ajuda.

— Eu te ajudo.

Meu corpo inteiro trava.

— Aiden…?

Eu me levanto.

Devagar.

— Você!? Aqui!?

Ele sorri.

Calmo demais.

— Desde quando você entra em igreja?

— Desde que você me aceitou. — ele inclina a cabeça. — Você me deu força, baby.

Os olhos dele passam pela cruz.

Desprezo puro.

— Muita força.

Um arrepio sobe pela minha espinha.

— Agora eu tenho tudo o que preciso…

Ele me encara.

Diferente.

Errado.

— Eileen.

O nome me corta.

Mas eu não recuo.

Não mais.

Ergo o queixo.

Seguro o olhar.

— É o que a gente vai ver…

Um passo à frente.

— Mr. Byrne.
















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