CAPÍTULO 23 - EILEEN - VOLUME I







ANOS 70

Acostumada a ter o que quero, quando quero, não aceito um “não” como resposta. Entristeço meus tios com minha atitude, eu sei… mas não consigo ser diferente.

E por quê seria?

Consigo tudo sendo assim.

Não faz sentido mudar só pra agradá-los.

Eu os amo. São mais do que tios. São meus pais.

Foram eles que me acolheram quando minha mãe biológica me largou na porta do pub.

Devo agradecer por ter sido de manhã?

Se aquela vagabunda tivesse me abandonado à noite, eu teria sido pisoteada por esse bando de bêbados barulhentos que frequentam o “Eileen Pub”.


E, claro… deram meu nome ao lugar.

Agora todo mundo me conhece.

Estupidez.

Dar meu nome a um lugar de onde eu só quero fugir.

Eu não fui salva da morte à toa.

Não mesmo.

Não foi pra ficar atrás de um balcão servindo “Baby Guinness” sem parar.

Eu amo meus tios.

Mas odeio esse bar.

Eu nasci pra dançar.

Será que ninguém entende isso?

Hoje é dia de Trad Sessions.

Pela enésima vez, o povo se junta aos músicos e canta The Wild Rover.


Meus tios vão junto, aos gritos, dançando como se o mundo fosse perfeito.

Vieram da Itália. Foram acolhidos aqui. São gratos.

Sempre felizes.

Sempre juntos.

Eles são lindos.

E eu…

eu nunca vou ser amada assim.

— No, nay, never… — murmuro, sem esperança.

A canção é linda.

Às vezes, me toca.

Hoje não.

Hoje eu odeio cada palma, cada voz, cada nota.





— The Black Stuff!

— Já ouvi! Não precisa gritar! — rosno. — Uma “Baby Guinness” saindo!

De costas pro balcão, observo a cerveja escorrer, ocupando o copo inclinado.

Espero o ponto certo.

Erro.

De novo.

— Cacete!

A espuma transborda.

Molha minha mão.

Sujando tudo.

Eu nunca aprendo?

— Na próxima, você acerta.

— Duvido muito. — resmungo, limpando a bagunça. — Já tento há séculos. Não sirvo pra servir.

— Não fica assim, “Baby Guinness”.

Ergo os olhos.


— Se me chamar assim de novo… vai se arrepender.

— Agora fiquei com medo.

Aquele sorriso irritante.

Aquele tipo de homem.

Ajeito o decote só pra provocá-lo.

Ele olha.

Claro que olha.

— Você é brava. Gosto disso, baby.

— Vai se ferrar.

— “Baby” é carinho.

— É falta de respeito.

— Você é linda, jovem, inteligente… combina.

Encho outra tulipa.

Sem pensar.

Jogo nele.

— Isso combina mais com você.

Silêncio?

Não.

O pub continua um caos.

Ninguém liga.

Meu tio vem correndo.

— O que ele fez com você, filha?

O homem… nem reage.

Só me observa.

Como se eu fosse interessante.

Isso me irrita.

E me prende.

Desvio.

Olho pro meu tio Enrico.

Seguro. Calmo.

— Você tá bem?

— Tô.

— Foi ela! — grita uma bêbada qualquer. — Ela se acha melhor!

Eu sorrio.

Frio.

— Porque eu sou.

— EILEEN!


Celeste.

Minha mãe.

A única.

Aperta meu braço.

Forte.

— Me perdoa — ela diz ao homem. — Ela é jovem…

— Gosto disso — ele responde. — Gente de verdade.

— Pede desculpa.

— No, nay, never.

Subo no balcão.

Sapateio.

Provoco.

O pub vibra.

Eu pulo.

Escorrego.

E ele me segura.

De novo.

— Me solta.

— Você dança.

— Eu sei.

— Eu sabia.

— Sabia o quê?

— Que você não pertence a esse lugar.

Silêncio.

Por um segundo…

ele acerta.

— Vamos lá fora?

Talvez.

Talvez ele tenha dinheiro.

Talvez eu consiga alguma coisa.

Talvez eu só esteja entediada.

Meus tios odiariam.

Mas todos aqui já foram estranhos um dia.

E metade deles…

eu já conheci bem demais.

Os outros ainda tentam.

Idiotas.

Eu escolho.

Sempre escolhi.

Eu transo com quem eu quiser. Sou jovem. Bela.

Desistam… 

ou paguem pelos meus serviços!

Shhh!
Meus tios não podem conhecer esse meu lado.

Eu preciso de dinheiro.
Para comprar minhas roupas, minhas botas de couro… minhas sapatilhas, collants, meias-calças, saias. Isso custa caro. Com o que ganho aqui, eu não conseguiria nem metade.

Qual é o problema em usar o que é meu para me sustentar?

Deixo que falem.
Quanto mais falam… mais clientes aparecem.

Mas eles não podem saber. Nunca.

Eu os amo. Amo o amor que existe entre eles.
Por que eu não posso ter o mesmo?

Eu quero aquilo. Um amor de verdade.
Algo que não precise ser comprado. Nem fingido.

Procuro por alguém que me tire dessa escuridão.

Talvez seja esse cara… me olhando como se já tivesse decidido que eu sou dele.

Ele é interessante.

— Já tem uma resposta? Sim ou não?

— Não entendi.

— Vou repetir! — ele grita. — Quer conversar lá fora?

Reviro os olhos, incomodada com aquele jeito invasivo.

— Você gosta de gritar, né?

— Dentre outras coisas, baby…

— Idiota.

Ele sorri. Como se já tivesse ganhado alguma coisa.

— Vamos?





E foi assim que eu o conheci.

Mr. Byrne.

Aiden Byrne.
O irlandês mais contraditório que já cruzou o meu caminho.

Fogoso. Rude. Selvagem.
E, quando quer… violento.

Ele me quer só pra ele.
Mas finge não se importar com o fato de eu me vender… desde que eu não me apaixone.

Engraçado.

Ele aceita o meu corpo sendo de outros…
Mas não admite dividir o que nem eu sei se tenho: sentimento.

Gosto do ciúme dele. Do jeito que aparece do nada no pub… ou na faculdade, no meio das minhas aulas de Psicologia.

Isso me dá status.

Inveja.

Olhares atravessados.

Quase todas me odeiam.

Exceto Antoine.

Minha melhor amiga.
Minto. Minha única amiga.


Não sou fácil. Eu sei.

As únicas pessoas que realmente me aceitam como eu sou são Antoine… e meu tio Enrico.

Tia Celeste me ama.
Mas me enxerga demais.

Ela diz que eu tenho dois lados.

E que, um dia… o meu melhor lado vai vencer.

— Não faço ideia — respondo.

— Eu imagino — diz Antoine.

— Você imagina demais. Esse é o seu problema… — solto, sem pensar. — Além da sua perna manca.

Silêncio.

Droga.

— Eu não queria…

— Mas disse.

Ela sorri. Triste. Como sempre faz quando me perdoa rápido demais.

— Não tem problema. Todo mundo vê… e ri. Você só é a única que fala.

Isso não ajuda. Só piora.

— É por isso que eu te amo, Eileen. Você é sincera.

— Sincera demais.

Eu a abraço com força.

— Desculpa… eu não mereço você.

— Não chora — ela pede, limpando minhas lágrimas com cuidado. — Seu coração é maior do que você pensa.

— Não é.

Minha voz sai baixa. amarga.

— Eu sou egoísta. Ruim. Minha tia disse isso ontem.

Por quê?

Porque eu falo o que penso?
Porque eu não finjo ser santa?

Sentada na grama do campus, observo os outros alunos.

Rindo.
Vivendo leve.

Eu invejo todos eles.

Invejo o dinheiro fácil.
Invejo os pais presentes.
Invejo quem não foi largado na porta de um pub como se fosse lixo.

Invejo até Antoine.

Sim. Até ela.

Mesmo com a perna defeituosa… ela é feliz.

E isso me irrita.

— Tá vendo aquelas ali? — aponto para um grupo mais afastado. — Traem os namorados toda semana… mas a fama é minha.

Antoine ri.

— Não liga. Um dia você vai encontrar alguém que te ame de verdade.

— Duvido…

Deito na grama, encarando o céu cinza.

— Eu não nasci pra ser amada. Nem minha mãe me quis…

— Talvez ela não tenha te abandonado.

— Nunca!

— Deveria. — diz Antoine, erguendo os braços, balançando-os no ritmo da música que ecoa pelos alto-falantes.


Eu a imito, encaixando palmas.
Estamos rindo quando ela divaga:

— Nem tudo o que nos falam é real.

— Quer dizer que minha tia mentiu?

Palmas. Risos.

— Não. Tia Celeste não faria isso.

Erguemos as pernas ao mesmo tempo. Em movimento, o defeito na perna dela desaparece.
Sua alegria me contagia. Ao lado dela… eu esqueço.

Sou melhor ao lado dela.

Ela arregala os olhos, animada:

— Vai ver você é uma fada!

Reviro os olhos.

— De onde você tirou isso?

— Da aula de Mitologia! Os Changelings!

Encosto minha cabeça na dela, gargalhando.

— Para de ser burra! Changelings são criaturas horríveis que as fadas deixam no lugar de crianças bonitas. Eu não sou feia!

— Não mesmo! — vibra ela. — Você é a garota mais linda do campus! Da Irlanda inteira!

Ainda rindo, nego com a cabeça.

— Posso ser bonita… mas já deixei de ser “moça” há muito tempo.

Ela não ri.

— Isso não importa. Não pra mim.

Engulo em seco.

— O que você faz com seu corpo não muda o que eu sinto por você.

Minha voz falha quando ela completa:

— Eileen… você é e sempre será minha melhor amiga. Eu te amo.

— Te amo…

Fecho os olhos. As lágrimas vêm sem pedir licença.
Ela as limpa com o polegar, com cuidado demais.

Se ela soubesse o quanto eu a invejo…

— Amigas pra sempre?

— Pra sempre.

Nossos dedos se entrelaçam no ar, selando algo que eu finjo acreditar que é eterno.

Antes de entrar no carro de Aiden, que me espera — e vigia — do lado de fora da faculdade, pergunto:

— Vai na festa de São Patrício amanhã no pub, né?

— For Pete’s sake! Perder a melhor festa do ano? Nem morta!

Do banco do carona, aceno enquanto ela se afasta, mancando até virar a esquina.

Eu poderia oferecer carona.
Mas Antoine não gosta de Aiden.

E ele… detesta ela.

Diz que Antoine é boa demais pro gosto dele.

Ela nunca falou nada… mas evita.

Por quê?

— Esquisita essa garota — resmunga Aiden. — E ainda manca.

— Não fala assim dela — rosno.

— Você fala.

— Eu posso! Ela é minha amiga! Você não!

— Combinado, baby… — ele murmura perto do meu ouvido.

Puxo o ar entre os dentes quando ele completa:

— Tô louco pra ficar sozinho com você.

— Que novidade… — zombo, retocando o batom borrado.

Na cama dele, ele me joga contra o colchão sem cerimônia.

Meu vestido voa contra a parede coberta de pôsteres do U2.

No meio deles… um símbolo desenhado a giz vermelho.

Um pentagrama invertido.



Meu corpo reage antes da minha cabeça entender.

— Você podia… não me marcar dessa vez?

Ele para por um segundo.

— Amanhã é a festa. Quero usar meu vestido novo.

Os olhos dele escurecem.

— Sem marcas… — diz, quase divertido.

E então, mais baixo:

— Só hoje.

Um arrepio percorre minha espinha quando ele completa:

— Você sabe que eu gosto de te fazer sofrer.

Silêncio.

— Só hoje, baby.



Acabo de pendurar a última fileira de trevos na parede do pub.
As luzes piscam como estrelas improvisadas.

Do alto da escada, respiro fundo.

Antoine, vestida de duende, segura a base enquanto eu me equilibro com minhas botas de cano longo e minha fantasia de fada — para completo desgosto de tia Celeste.

— Está frio, Eileen! Vai pegar uma gripe com essas pernas de fora!

— Eu sou uma fada, cacete! Quer que eu use o quê? Uma burca!?

— Eu quero que você cubra esse decote! — rebate ela. — O que vão pensar do nosso pub!?

Desço a escada, revirando os olhos.

— O que já pensam. Que o Eileen Pub tem a garçonete mais gostosa da Irlanda.

Deixo Antoine desenhar trevos no meu rosto.

— É por isso que eles vêm aqui.

— Não seja convencida! — repreende Celeste. — A vida ainda vai te ensinar a baixar a cabeça!

— Até lá… eu me divirto.

— EILEEN!

Desvio dos tapas e me escondo atrás de Antoine, que ri.

— Bobagem — intervém tio Enrico. — Ela é jovem. Saudável. Eu adorava ver suas pernas quando éramos mais novos.

— Enrico!

— E ainda adoro — ele completa, provocando. — Continuam sendo um espetáculo.

Celeste cora. Sempre cora.

Ele a beija como se ninguém existisse.

— Elas estão olhando! — reclama ela.

— Que olhem. — Ele sorri. — Que tenham a mesma sorte que tivemos.

Então, olhando para nós duas:

— Quem sabe hoje não é o dia de vocês encontrarem o amor?

Cruzo os braços.

— Só se for a Antoine. Eu já tenho namorado.

Ele balança a cabeça, com aquele olhar que enxerga mais do que devia.

— Eu não disse namorado, filha…

Pausa.

— Eu disse amor.



Do balcão, vejo Aiden chegar com seu chapéu de Saint Patrick, destoando da jaqueta de couro.

Ao lado dele… o primo.

Repulsivo.

Com uma ficha mais suja que o chão do pub em noite de festa.

O olhar de Aiden percorre meu corpo como se tivesse direito.

Sinto-me nua.

Puxo a casaca verde do meu tio e me cubro.

Antoine já está ao meu lado, enchendo tulipas com precisão irritante.
Ela fecha no tempo exato. Sempre.

Percebendo minha cara, ela se apressa:

— Foi sem querer!

— Esquece. Me ajuda a servir.

Ela sorri, animada demais para um lugar desses.

— Hoje vai ser especial. Eu sinto.

Reviro os olhos, limpando o balcão.

— Pra você tudo é mágico, Antoine. Nem parece que temos a mesma idade.

— Exatamente! — ela ri. — Você tem dezessete anos, Eileen. Devia sorrir mais. Ter esperança. Vai encontrar alguém.

— Melhor do que eu? — a voz de Aiden corta o ar.

Ele já está bêbado.

Debruçado no balcão, ele olha pra Antoine com desprezo.

— Melhor seria você parar de mancar.

— Estúpido! — explodo. — Nunca mais fala assim com ela!

— Deixa pra lá… — Antoine murmura, já recuando. — Vou ajudar a tia Celeste.

— Não! Fica! Ele vai pedir desculpa!

— Nunca. — Aiden ri, brindando com o primo. — No, nay, never!

A cerveja escorre pelo balcão que eu acabei de limpar.

Alguma coisa em mim muda.

Talvez ele não saiba com quem está lidando.

Talvez… eu também não saiba até onde posso ir.

Puxo Aiden pela gola, aproximando seu rosto do meu.

— Fica longe de mim… ou eu acabo com a sua noite.





Corro até o banheiro atrás de Antoine.

Ela está chorando.

Seco suas lágrimas com papel toalha.

Ela ainda tenta sorrir.

Ainda perdoa.

Sempre perdoa.

Isso me irrita.

Isso me dói.

Penteio seus cabelos com os dedos.

— Fica longe daquele idiota. Ele não vale nada.

— Então por que você fica com ele?

Boa pergunta.

— Porque eu quero dinheiro. — minto, encarando o espelho. — Amor não paga minhas coisas.

Ela me olha. Sério demais.

— Você é melhor do que isso.

— Quando eu tiver grana suficiente, eu sumo daqui. Vou dançar em outro lugar. Bem longe.

— E me deixar?

Ela parece… assustada de verdade.

— Não pode. Seus tios… eu…

— Eles ficam bem. — minto de novo. — E você tem dinheiro. Vai casar, viver a vida perfeita de sempre.

— Não vou.

Ela se aproxima.

— Eu não vim pra isso.

Pausa.

— Eu não vou sair do seu lado… até tudo se cumprir.

— Do que você tá falando, maluca?

Ela só ri.

— De nada. Vem! O show vai começar!

[…]

Atravessamos o pub empurrando gente.

Rostos pintados. Chapéus gigantes. Gente demais.

Mãos demais.

Puxões de cabelo.

Tentativas de beijo.

Piso em pés. Sem culpa.

Antoine ri. Me puxa.

No palco, a voz de tio Enrico ecoa anunciando o início.

Palmas. Gritos.

Música.

Chegamos ao balcão.

Aiden me encara.

Mas não faz nada.

Bêbado demais.

Cansada de tudo, pego uma tulipa de Baby Guinness… e viro de uma vez.

Arroto.

Sem elegância nenhuma.

Antoine ri. Me imita.

— Não! — seguro o copo dela. — Você não tá acostumada!

Ela sobe no balcão, vibrando.

— O show vai começar! Você precisa ver!

— Por quê? É só mais um bêbado cantando.

— Não é.

Ela me encara de um jeito… estranho.

— Vem.

Subo no balcão.

E então eu vejo.

Pela primeira vez.

A luz fraca cai sobre os cabelos claros dele.

O sorriso é tímido.

Mas… alguma coisa encaixa.

Meu coração dispara sem pedir permissão.

Antoine me observa.

— O que foi? — reclamo. — Nunca me viu?

Ela suspira.

— Já.




— Acho que agora vai.

— O quê? Você tá muito esquisita hoje!

Ela pula do balcão.

— Cuidado! — desço atrás dela, preocupada. — Machucou a perna?

Mas ela já está de pé.

E me puxa.

Eu travo.

Olho de novo pro palco.

Pro garoto.

— Me deixa, Antoine… eu não quero ir.

— Você precisa ir! — Antoine afirma, num frenesi. — Ele é meu amigo! Quero que o conheça!

Empaco.

Um pavor súbito me atravessa.

Há tanta dor na voz dele que chega a doer em mim.

— VEM! — ela insiste, puxando meu braço.

Mancando, abre caminho entre as pessoas, empurrando quem for preciso.

Eu vou.

Sem querer ir.

Sentado em um banco de madeira, ele canta de olhos fechados.

A guitarra vibra.

E alguma coisa dentro de mim responde.

— Ele é lindo, não é!? — Antoine sussurra, encantada.

— Já vi melhores.

Minto.

Não tiro os olhos dele.

Seu rosto carrega uma tristeza que prende.

Então ele abre os olhos.

Azuis.

Profundos.

Errados.

Minha mão vai ao peito.

Meu coração aperta a cada passo que dou.

Ele nos vê.

Eu recuo.

Porque vejo.

A forma como ele olha para Antoine.

A ternura.

A entrega.



As últimas palavras da música são pra ela.

Só pra ela.

"Please. Stay. I want you. I need you. Oh God. Don't take this beautiful things that I've got".

Merda.

Seguro o impulso de atravessar o palco e quebrar aquela guitarra na cabeça dele.

Como ele ousa?

Como ousa olhar pra ela… e não pra mim?

Eu estou aqui.

Muito mais bonita.

Muito mais provocante.

Muito mais...

Nada.

Ele não olha.

— Foi incrível! — Antoine vibra, já nos braços dele.

Eles se abraçam.

Forte demais.

Longo demais.

Quero puxá-la pelos cabelos.

Quero separá-los à força.

De onde vem tudo isso?

Por que ele chora?

Por que ele toca ela… e não a mim?

Chega.

Eu vou embora.

— Te aquieta, filha.

A voz de tio Enrico me ancora.

— Eles não se largam… — rosno, agarrada a ele. — Me tira daqui.

— Calma. Você está tremendo.

— Frio — minto.

— Deve ser — diz ele.

A voz dele.

Perto demais.

— Você está quase nua.

Viro na hora.

— Idiota. Desde quando eu te dei liberdade pra falar comigo assim?

— Se depender de mim, você nunca vai dar.

Direto.

Frio.

E ainda assim… abraçado nela.

— O erro foi meu — Antoine intervém, leve como sempre.

Beija o rosto dele.

Claro que beija.

Claro.

Meu tio me segura mais firme.

Sábio.

Ele sabe.

Ele sempre sabe.

O estranho sorri pra ele.

Pra ele.

Não pra mim.

Nunca pra mim.

E volta os olhos pra Antoine.

— Essa é minha melhor amiga, Vincenzo.

Finalmente.

Finalmente ele vai olhar pra mim.

Não?

Sério?




— Eileen é a melhor bailarina que eu conheço. Linda, inteligente…

— Não exagera — corto, sem graça pela primeira vez na vida. — Você é tão boa quanto eu.

Mentira.

Ela é melhor.

Porque ele olha pra ela.

— As duas são fantásticas — diz meu tio, apertando a mão dele. — Seja bem-vindo.

— Grazie mille.

— Italiano!? — os olhos de Enrico brilham. — La mia Italia!?

Vincenzo assente.

E meu tio o abraça.

Como se já o conhecesse.

Como se reconhecesse algo.

Fico parada.

Observando.

Cada detalhe.

Os braços dele.

As costas curvando no abraço.

O sorriso.

Luz.

Tem luz nele.

Nunca vi meu tio fazer isso com Aiden.

Nunca.

Agora entendo.

Aiden não suporta luz.

E talvez…

Nem eu.

— Não é, filha?

— O quê?


— Ela pensa demais. — brinca tio Enrico, antes de repetir: — Você adoraria conhecer a Itália, não é?

— Sim. — respondo, seca. — Um dia largo tudo e vou pra lá.

— Tão nova… e tão amarga.

Reviro os olhos.

Mas não respondo.

Ainda estou tentando entender a intimidade entre ele e Antoine, quando Vincenzo resolve falar… o que eu não perguntei.

— Antoine e eu nos conhecemos há anos. Nossos pais eram amigos. Quando eles partiram, ela ainda era criança… e eu, um adolescente. Foi quando ela me conquistou. Astuta. Doce. Sensata.

Ele a puxa de volta para um abraço.

Beija sua bochecha.

Meu estômago revira.

Inveja.

Ciúme.

Raiva.

Ele não me olha.

Não como os outros.

Não com desejo.

Quase não me olha.

Prefere meu tio.

Sempre meu tio.

E, ainda assim, Enrico não solta minha mão.

Como se soubesse que eu vou fugir.

Talvez eu vá mesmo.

Amo Antoine.

Mas agora…

eu a odeio.

— O amor que me une a Antoine é de irmãos — diz ele, como se tivesse ouvido meus pensamentos.

Solto uma gargalhada curta.

— Claro. Conta outra.

— Não tenho interesse em te contar nada da minha vida — ele corta, frio. — Somos amigos. Só isso importa.

— Pra você, talvez. Eu tenho receio pela minha amiga. Ela é pura. Inocente. O tipo perfeito pra cair na conversa de lobo em pele de cordeiro.

— Filha… — alerta meu tio. — Já chega.

— Não! — retruco. — Ele chega aqui e vocês tratam como um santo!

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

Então ele inclina a cabeça, quase entediado.

— Quer mesmo falar de santidade, Eileen? — a voz dele baixa. — Quer que eu conte o que você faz nas tardes de sábado?

Meu sangue gela.

— O que tem sábado? — pergunta Enrico, confuso.

— Nada.

— Tem certeza? — insiste Vincenzo.

— Verme.

A palavra escapa.

Errada.

Fraca.

Ele acertou.

Direto.

— Como você sabe disso?

— Eu não sei de nada…

Dou um passo à frente.

Sou contida.

Sempre contida.



— Por favor — Antoine intervém, aflita. — Não briga com ele. Eu só queria que vocês se conhecessem.

— Então errou feio — digo, sem tirar os olhos dele. — Já ouviu falar em ódio à primeira vista?

Volto pra ele.

Agora sem filtro.

— Fica longe de mim. Se eu estiver numa calçada, atravessa.

Ele sorri.

Finalmente.

— Então atravessa você. Os incomodados que se mudem.

— Crianças! — tia Celeste surge, tensa. — O que está acontecendo aqui?



— Já não estou mais aqui.

Viro as costas.

— Eileen! — Antoine chama.

Não paro.

Não consigo.

Preciso sair dali.

Preciso respirar.

Preciso parar de sentir.

E então…

Aiden.

Claro.

Sempre ele.

A mão no meu braço.

Forte.

Possessiva.

— Não quero você falando com aquele escroto.

— Não que eu queira — rebato, irritada — Mas por quê, exatamente?

Ele me encara.

Escuro.

Fechado.

— Ele não.

Silêncio.

— Qualquer um… menos ele.



Eu a afastei por inveja. Por ciúmes.
Durante uma discussão idiota na sala de aula, empurrei Antoine para longe de mim.

Ciúmes dela com Vincenzo.
E, estranhamente… dele com ela.

Eu sequer o conheço — e o odeio.

Ele passou a frequentar o pub com certa regularidade. E, sempre que aparece, me ignora como se eu fosse invisível.
Humilhada, continuo servindo os clientes, fingindo não ouvir suas gargalhadas enquanto conversa com meu tio.

— Não se deixe abater. — diz tia Celeste, ao meu lado. — O que Deus uniu, o homem não separa.

— Não mesmo! — retruco, amarga. — Antoine e ele nasceram um para o outro. Dois babacas.

— Não fala assim, filha. Antoine sente sua falta. Façam as pazes.

— Não consigo. — admito, seca. — Não sou do tipo que volta atrás.

— E parece muito feliz assim…

— Não zomba de mim, tia. Eu não tô bem. Tem alguma coisa aqui dentro… que dói.

— É o coração, filha. Ele está, enfim, se abrindo para o amor.

Solto uma risada curta, quase cruel.

— Amor de quem? De uma falsa amiga que escolheu ficar do lado daquele imbecil?

— Não. — ela responde, calma demais. — De um homem de verdade. Um que despertou o melhor em você.

— Quem? Que lado, tia?

Esfrego o balcão com força, como se pudesse arrancar aquilo de mim.

— Eu tô com ódio. Muito ódio. Nunca senti isso antes.

— Não é ódio. É mágoa.

— Mágoa pelo quê? Isso não faz sentido!

Ela segura meu queixo e me obriga a encará-la.

— Mágoa por ter sido preterida. Pelo único homem que tocou seu coração.
Mágoa por não tê-lo conquistado com o corpo… nem com o rosto.

Ela sorri, quase em segredo.

— Conquiste com o coração, filha. Deixe o seu melhor lado aparecer.

Baixo o olhar.

— Eu não tenho um lado bom. Eu sou treva.

— De onde tirou isso? Você ainda pode mudar tudo.

— Não posso mais…

— Filha… o que o Aiden fez?

Engulo seco.

— Já estragou. Já estragou tudo.



Vinte e dois dias antes.
Dois dias antes de conhecer Vincenzo.

— O filho é seu.

— Como vou saber, baby? Você trepa com metade da cidade.

— Ele é seu! — rosno. — Eu não fiquei com ninguém desde aquela noite. Há três meses, só você. O bebê tem dois meses. Faz as contas!

— Não me lembro… — ele debocha, largado na cama ao lado do maldito cachorro. — Eu? Louco? Você sonhou.

Avanço.

Ele solta a coleira.

O cão rosna. Avança.

Eu paro.

Ergo a mão.

— Recua.

Minha própria voz me assusta.

O animal recua. Se deita. Submisso.

Aiden aplaude, rindo.

— Eu sabia… que você voltaria, minha pequena bruxa.

— Você não faz ideia do que eu sou capaz de fazer. Não me testa.

Minha voz sai baixa. Perigosa.

— Acredite ou não, esse filho é seu. E ele vai nascer.

— Nem ferrando, baby. Não nasci pra ser pai.

— Então eu arrumo outro. — cuspo. — Um que preste.

Ele sorri.

Eu olho pro cão.

— Morde.

Os gritos dele ecoam quando eu saio.

O vento corta meu rosto lá fora.
Minha cabeça gira.

Grávida. Sozinha. Sem dinheiro.

Perfeita combinação.

Esbarro em alguém.

Sigo andando.

Paro.

Tem algo errado.

— Tantas coisas na cabeça… que esqueceu de pedir desculpas?

Tiro os fones.

Viro.



— Bela pirueta, bailarina.

Ele bate palmas.

Os olhos… brilham demais.

— Como sabe?

— Seu corpo denuncia. Você dança até andando.

— Também sei odiar. Não falo com estranhos.

— Paz. — ele ri. — É exatamente o que você não tem.

Reviro os olhos.

— Vai pro inferno.

— Acabei de sair de lá. — ele responde, tranquilo. — E preciso da sua ajuda.

Eu já devia ter ido embora.

Mas fico.

Erro clássico.

— Estou procurando alguém. Um amigo… que vai te procurar.

— Por que ele faria isso?

Ele sorri.

— Você sempre pergunta “por que diabos”. Séculos passam… você não muda.

Um arrepio sobe pela minha espinha.

— Você é maluco.

Dou as costas.

— Posso te ajudar com a criança.

Paro.

— Como sabe disso?

— Sei de muitas coisas. Inclusive… que você não quer esse bebê.

Meu estômago vira.

— Foi o Aiden?

— Não. — ele se aproxima. — Seu filho foi… oferecido.

— O quê?

— Na noite da concepção. Seu namorado não estava só bêbado. Nem só drogado.
Ele chamou algo.

Minha respiração falha.

— Você dormia. Mas… outra parte sua estava acordada.

— Cala a boca…

O vento levanta folhas ao nosso redor.

— Posso te livrar disso. — ele sussurra. — Mas você precisa me ajudar a encontrar o “bonitão”.

— Não sei do que você tá falando.

— Vai saber. Quando o vir.

Ele chega perto demais.

— E quando encontrar… diga que eu voltei.

— Você é doente.

— Ele vai tentar te conquistar. Depois… te destruir.

— Chega!

— Junte-se a mim.

— Nunca.

— Você me conhece.

— Não conheço e não quero conhecer.

Ele sorri. Aquela coisa errada.

— Ele apagou suas memórias, não foi?

Meu coração dispara.

— Fica longe de mim.

— Fico… se entregar o recado.

Eu recuo.

Depois corro.

A voz dele ecoa atrás de mim:

— NÃO CORRE! VAI FAZER MAL AO BEBÊ!

E então, mais baixo:

— E FIQUE LONGE DO BONITÃO.



— Um copo d’água.

— Não sou sua escrava. Peça “por favor”.

— Por favor… um copo d’água. — ele revira os olhos. — Milady.

Seguro o riso.

— Não vendemos água aqui. Só cerveja.

— Não bebo cerveja.

— Então bebe a da chuva lá fora. É de graça.

Ele me encara.

— Tão pura quanto você?

Tudo em mim apaga.

E explode.

Num impulso cego, salto sobre o balcão. Os copos caem e se estilhaçam no chão. Em um segundo, estou diante dele, com a mão cravada em seu pescoço.

— Para, filha! — grita tio Enrico.

Os dedos de Vincenzo apertam meu braço.

— Larga… o meu pescoço.

Obedeço.

Na mesma hora.

Recuo. Olho pro chão coberto de vidro.

E começo a chorar.

— O que houve? — minha voz sai fraca.

— Você tentou me estrangular. Só isso.

— Não brinca, Vincenzo… — repreende meu tio, tentando aliviar. — Ela tem um probleminha…

Escondo o rosto no pano.

— Tio… não…

Ele me abraça.

— Ele é nosso amigo. E é psiquiatra. Pode te ajudar.

— Eu não sou louca. Tenho lapsos. Só isso.

— Louca? — Vincenzo sorri de leve. — Relaxa. Nunca mais peço água.

Escapa um riso idiota de mim.

— Eu fui grosseiro. — ele continua. — Me desculpa.

— Não importa. Meu tio sabe que eu não sou pura.

— Não diga isso. — a voz de Enrico quebra. — Você é pura como no dia em que te encontramos.

— Onde?

O calor volta.

Subindo. Rápido.

— Não te interessa! — rosno. — Você não é meu amigo. Nunca vai ser.

— Alguém deixou você na nossa porta. — diz Enrico, emocionado. — Um bebê… o nosso bebê…

Afundo a cabeça entre as pernas, tentando conter o choro.

Uma mão toca minha cabeça.

— O que está fazendo? — pergunta meu tio.

— Técnica de relaxamento.

— TIRA A MÃO DE MIM, SEU PORCO!


Minha voz rasga o ar.

Não sou eu.

— Acho que não funcionou… — murmura Enrico.

Meu corpo trava.

Algo toma conta.

— Ela está possuída!? — ele se desespera.

— Não exatamente. — responde Vincenzo, calmo demais. — Eileen… olha pra mim.

— NUNCA! PORCO IMUNDO! VOCÊ ME FEZ QUEIMAR!

— Do que ela tá falando!?

— Calma.

A voz dele… me irrita.

Me provoca.

— ESSE NÃO É O MEU NOME, CAZZO!

— E qual é o seu nome?

— VOCÊ SABE!

Me debato.

— Me solta e eu te digo! Tu me deixaste na cela imunda!

Silêncio.

E então:

— Não foi assim… Morgana.

O mundo para.

— MORGANA!? — grita Enrico.

— Mentiram pra você. — diz Vincenzo, firme. — Eu fiquei até o fim. Olha pro lado. O que você vê?

— NÃO QUERO!

— O QUE VOCÊ VÊ!?

— FOGO! STUPIDO!

Minha garganta queima.

Minha visão arde.

— Eileen… — a voz de Enrico quebra.

— EU NÃO SOU SUA FILHA!

— Olha pra mim.

— EU NÃO TE OBEDEÇO MAIS!

Meu corpo se contorce.

— Desde que você me deixou… eu nunca mais te obedeci!

Chuto uma cadeira. Ela voa.

Alguém grita.

— Segura ela! — implora Enrico.

— Vai dar certo. — diz Vincenzo, me segurando com força. — Morgana… olha.

— NÃO!

— OLHA!

Algo dentro de mim… cede.

Por um segundo.

Vejo.

Chamas. Pedra. Escuridão.

E ele.

— EU ESTAVA DO SEU LADO!

O ar volta aos meus pulmões como uma pancada.

Desabo.

Os rostos deles surgem.

O bar. O chão. O presente.

Mas meu corpo ainda luta.

Ainda grita.

Ainda xinga.

Sou arremessada contra as mesas.

Até que braços me envolvem.

Fortes.

Quentes.

— Volta pra mim, Eileen.

Silêncio.

Cansaço.

— O que você quer? — murmuro. — Dá pra me largar?

— Ela voltou… — sussurra Celeste, tocando meu rosto. — Como você fez isso?

— Não sou tão bom assim…

Olho ao redor.

Vidro. cadeiras. caos.

— Que bagunça… vou levar horas pra limpar isso.

— Eu ajudo. — ele sorri.

Reviro os olhos.

— Dou conta sozinha.

— Aceita ajuda. — insiste meu tio.

— Tio… — suspiro. — Quem te fez chorar?

— Ninguém, filha.

— Você precisa descansar.

— Não posso. O pub vai abrir.

— Eu ajudo.



— Antoine? — me viro. — O que você tá fazendo aqui?

— Somos amigas. Não somos?

Respiro fundo.

— Somos…

Ela me abraça.

E eu… desmorono de novo.

Vincenzo me entrega uma vassoura.

— Começa logo. O tempo tá passando.

— Você… — hesito — Vai ajudar mesmo?

— No que for preciso. Se você deixar.

— Quem sabe…

Dou as costas.

Escondo o sorriso.

Idiota.

Por que… isso aqui dentro… parece diferente?


Por que sinto borboletas batendo suas asinhas em meu estômago?



Limpamos o salão juntos e, juntos, recebemos os clientes do pub.
Antoine e eu voltamos a rir das piadas sem graça de Vincenzo, que, agora, me parece… menos irritante.

Menos.

Passando pela cozinha, diminuo o passo ao ouvir meu tio:

— Como ele sabia de tudo aquilo? Quem é Morgana? Ele falava com ela como se a conhecesse, Celeste.

— Enrico, meu amor… há coisas entre o Céu e a Terra que não nos convém entender. — Ela pausa. — Talvez ele tenha vindo para curar nossa filha.

Filha.

Engulo seco.

— Traga o outro prato de boxty, por favor.

— Sinto que, dessa vez, vai dar certo — diz meu tio, emocionado.

Não vai.

Algo aconteceu comigo no salão.

Eu sei.

Eu senti.

E o pior… eu gostei de não estar no controle.

Vincenzo tem poder sobre mim.

E isso me apavora.

Talvez aquele homem sombrio esteja certo.

Talvez eu deva me afastar do “bonitão”.

Talvez...

A porta do pub se abre.

Aiden.

Olhos insanos.

Os mesmos da noite em que tudo começou.

— Ele tocou em você?

— Boa noite pra você também.

— Ele tá aqui!? — rosna, apertando meu braço.

Olho direto nos olhos dele.

— Tira a mão de mim.

Aponto discretamente pra parede.

— A espingarda não é decoração.

Ele hesita.

— Não tenho medo da morte.

— Devia ter.

Minha voz sai… errada.

Mais fria.

Mais antiga.

Ele recua.

— Baby… com quem eu tô falando?

Pisca.

Confuso.

Ótimo.

— Com a mãe do teu filho.

Cochicho no ouvido dele:

— Agora tira essa mão imunda de mim antes que eu arranque.

Ele solta.

Antoine aparece.

— Algum problema?

— Nenhum. Ele já vai embora.

— Não vou — Aiden rosna. — Se eu for, você vem comigo.

— Eu tô com nojo de você.


— Você é minha.

— Já fui.

E então...

— Vincenzo!?

Eu nem vi ele chegar.

— Eu não cheguei — diz, calmo. — Eu já estava.


Claro que estava.

Como uma sombra.

— Você de novo? — Aiden cospe.

— Sempre um prazer — Vincenzo responde, sentando-se, relaxado demais pra alguém prestes a arrumar briga.

Eles se encaram.

Aquilo não é só rivalidade.

É história.

— De onde vocês se conhecem?

— Do inferno — Aiden rosna.

Vincenzo ri.

E isso me irrita.

Porque ele não leva Aiden a sério.

Porque ele não leva nada a sério.

— Seu amigo tem bom humor.

— Ele não é meu amigo!

— Eu sou teu homem! — Aiden insiste.

— Já foi.

Antoine surge, afogada em pedidos.

— Me ajuda, Eileen!

— Já vou!

Mas não vou.

Não ainda.

— De onde vocês se conhecem? — insisto.

— Já nos vimos antes.

— Isso não responde nada!

— Antoine precisa de você.

Ele me corta.

Como se tivesse… prioridade.

Quem ele pensa que é?

— Vem comigo — Aiden sussurra no meu ouvido.

— Não.

— Eu preciso de você.

— Problema seu.

— Pobrezinho — murmura Vincenzo.

Levanto os olhos.

Droga.

As covinhas.

— Seu amigo tá carente.

— Ele não é meu amigo!

— Todos aqui sabem o que você é — Aiden cospe.

Silêncio.

Pesado.

E então...

Antoine joga cerveja nele.

— Nunca mais fala assim dela!

Eu travo.

Ela nunca fez isso antes.

Aiden avança.

Mas não chega.

O soco de Vincenzo é rápido.

Limpo.

Final.

O bar inteiro recua.

Dois cliques.

Viro o rosto.

Meu tio.

Espingarda apontada.

Olhos firmes.

— Sai. Agora.

Sem grito.

Sem teatro.

Só verdade.

Aiden recua.

Sorri.

— Isso não acabou.

— Não mesmo — diz tia Celeste. — No fim… o amor vence.

Mentira.

Ou talvez não.

Eu deveria ter ido com ele.

Talvez isso mudasse tudo.

Talvez eu não perdesse tudo outra vez.

Ou talvez…

eu só chegasse mais rápido ao mesmo fim.




— Ele fez tudo aquilo por você, idiota.

— Não foi! Foi por você, Eileen! Você é cega!?

— Não. — murmuro, seca. — Eu enxergo muito bem. Você que é burra. Fica com ele. Por mim, tanto faz.

— Eileen!

— Se alonga, Antoine. A aula já começou.

A aula termina.

E eu odeio admitir: Antoine dança melhor.

Mais leve. Mais… limpa.

Tia Celeste vive dizendo que eu preciso mudar o que sinto por ela.

Eu tento.

Mas aí eu vejo os dois juntos…

E pronto.

Tudo volta.

— Você não tem o que fazer? — disparo.

— Não entendi.

— Não trabalha? Ou sua função é seguir a Antoine o tempo todo?

Ele sorri.

Calmo demais.

— Diz a garota que expulsou o próprio namorado do pub.

— Ele não é meu namorado. — corto. — E eles não são meus tios. São meus pais.

— Na verdade… são meus.

Travo.

— Fala mais alto.

— Antoine e eu não somos um casal.

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

Seguro o sorriso.

— E o que vocês são?

— Amigos.

Pausa.

— Amigos que se amam.

Reviro os olhos.

— Ah, entendi. Isso tem outro nome.

— Qual?

— Putaria.

Ele ri.

E isso me irrita mais do que devia.

Vai até a jukebox, escolhe uma música.

Eu observo.

Contra minha vontade.

Cada detalhe.

Droga.

— Devia pedir ela em namoro — solto, fingindo desinteresse.

— Você acha?

Ele volta.

No ritmo da música.

Confiante.

Solto demais.

Perigoso.



— Você pensa demais — diz.

— E você de menos.

Aperto o cabo da vassoura.

Chove lá fora.

Eu queria estar naquela chuva.

Apagar isso.

Esse calor.

— Não gosto que me encarem.

— Não estou te encarando. — ele se aproxima. — Estou te convidando pra dançar.

— Não quero.

Mentira ruim.

— Não sou o tipo que trai amiga.

Ele segura a vassoura.

Devagar.

Tira da minha mão.

— Eu não sei quem você pensa que é. — a voz dele baixa. — Eu sei quem você é pra mim.

Meu corpo trava.

— Para de pensar. Você me deixa tonto.

— Não entendi...

A mão dele na minha cintura.

Quente.

Firme.

Errado.

Muito errado.

— Eu não vou dançar com você — digo, sem força nenhuma.

— Não.

Simples assim.

Me puxa.

— Antoine pode chegar...

— Que bom. Agora cala a boca e dança.

— Você é péssimo.

— Eu sei. — ele encosta o rosto no meu pescoço. — Me ensina?

Fecho os olhos.

Idiota.

— Talvez… — deixo escapar. — O que você quer de mim?

— Agora?

— Sim.


Um segundo de expectativa.

— Que você cale a boca e dance.


Sério?

Respiro fundo.

— Faz tempo que não danço com um homem.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. Eu não sou como a Antoine.

— Eu sei.

— Ela é pura. Eu...

— Para de falar. Vai estragar.

Me puxa mais.

— Tenho pouco tempo.

— Pra quê?

— Pra isso.

— Desde quando vocês são amigos?

— Desde sempre.

— Mentira.

Ele para.

Se afasta.

Cruza os braços.

— Eu conheço ela desde pequena. Você nunca esteve lá. De onde você saiu?

— Não te devo satisfação.

— Deve sim!

— Não é por amizade que você tá fazendo isso.

Silêncio.

Ele acerta.

Droga.

— Ridículo. Eu tô protegendo ela.

— Você ama ela… e inveja.

Aquilo entra como faca.

— Vocês já transaram?

Ele congela.

Por um segundo.

Repulsa clara.

— Eu nunca tocaria na Antoine como homem.

Aquilo…

machuca mais do que qualquer resposta.

— Ela é a criatura mais bonita que eu já vi.

Pronto.

Acabou.

Ele vira.

Vai embora.

— Não se atreve a sair assim!

A porta fecha.

E eu fico.

Sozinha.

Ridícula.

Debaixo da chuva.

Esperando.

Como uma idiota.



Ele voltou.

Mas não foi por mim.

Sem opções — e estupidamente desiludida — eu aceito Aiden de volta.

O apartamento mudou.

Mais limpo. Mais caro. Mais… errado.

Móveis novos. Cheiro de dinheiro.

E o quadro.



Pintado a óleo, bem diante da cama.

Eu reconheço.

Reconheceria em qualquer vida.

Asmodeus.

Ele observa.

Sempre observa.

E Aiden…

Aiden faz o que sempre fez.

Nunca foi amor.

Nunca foi sequer próximo disso.

— Vai devagar… tá doendo.

— Você gostava da dor, baby — ele rosna. — O que mudou?

— O filho que eu carrego. O teu filho. Para.

— Agora não.

— Vai machucar ele!

— Ele não é meu.

Aquilo corta mais do que o resto.

— Então é meu! Sai de cima de mim!

— Ele não deve nascer. A alma já tem dono.

O mundo para.

— Não tem, não! Ele é dele mesmo!

— Cala a boca.

A dor aumenta.

— Tá sangrando! Para!

— Ainda não acabei.

Não.

Dessa vez, não.

Eu ergo a cabeça.

E acerto.

Ele recua, tonto.

Tempo suficiente.

Levanto.

Rápido.

Calça. Tênis. Mochila.

— Volta!

Ignoro.

Porta.

Corredor.

Escadas.

Cada passo… um risco.

Cada segundo… ele atrás de mim.

Ou pior.

Eles.

Chego na rua.

Misturo-me à multidão.

Respiro.

Não.

Não respiro.

Corro.

Sangrando.

Segurando a barriga.

— Eu vou te proteger — sussurro. — Custe o que custar.

O pub.

A porta.

Luz.

Salvação.

— Vem, filha. Eu cuido de você.

— Tia… eu errei…

Tudo escurece.



O sangramento para.

Ele vive.

Meu filho vive.

Em segredo.

Imploro silêncio.

E, em troca, faço uma promessa:

Nunca mais Aiden.

Nunca mais.

“No, nay, never…”

Cantarolo.

Mas dói.

Porque, aos poucos…

eu me apego.

Penso em nomes.

E só um vem.

Vincenzo.

Claro.

Óbvio.

Maldito.

Eu odeio aquele homem.

Odeio o jeito que ele me ignora.

Odeio o jeito que isso me afeta.

Talvez sejam os hormônios.

Talvez eu esteja só ficando fraca.

Ou talvez…

seja outra coisa.

Porque lá está ele.

De novo.

No meu pub.

No palco.

Cantando.

Como se pertencesse ali.

Antoine ao lado dele.

Os dois dividindo o mesmo microfone.

Rindo.

Em perfeita sintonia.

E eu aqui.

Servindo.

Assistindo.

Engolindo.

— Babaca… — murmuro.

Se eu disser que ele é italiano…

Será que ainda aplaudem?

Provavelmente.

Claro que aplaudem.

Ele brilha.

E eu…

eu que lute.



E eu, atrás do balcão, servindo cerveja.

Nesses momentos, tenho vontade de saltar por cima dele, arrancar os cabelos de Antoine e chutar os bagos de Vincenzo.

E faria.

Se não fosse pela intervenção imediata de tio Enrico, sempre atento às minhas mudanças de humor.

Na semana passada, vi os dois em frente ao cinema. Fiquei escondida atrás de uma banca de jornal por minutos, até ela se soltar do abraço dele, rindo.

É óbvio que estão transando.

Qualquer um percebe.

Menos meus tios, que insistem em me convencer do contrário.

— Não me importo. — minto. — Que sejam felizes… longe daqui.

— Ciumenta. — diz tia Celeste, sorrindo. — Acostumada a ter todos aos seus pés. Quando um homem de verdade te recusa, você recua.

— Homem de verdade? — zombo. — Tá bom.

— Ele não gosta de mulher? — brinca tio Enrico, coberto de farinha da cabeça aos pés.

Segunda-feira. Segundas na Itália. Pizza, música, e os dois se olhando como se o mundo fosse só deles.

É ridículo.

E bonito.

— Ele gosta, sim. — respondo, seca. — Só não gosta de mim. Ponto. Final.

— Quem não gosta de quem, tia!?

— Antoine! — vibra meu tio, abrindo os braços. — È un piacere vederti qui!

— O prazer é meu! — ela responde, já abraçando ele, coberta de farinha.

Sentada à mesa, observo o rosto dela sujo e… rio por dentro.

— Eileen! — grita, me assustando. — Fala comigo ou eu jogo essa torta na tua cara!

— Não se atreva...

Tarde demais.

O gosto de morango invade minha boca.

Todos riem.

Menos eu.

Enraivecida, humilhada, miro nela e revido.

Acerto em cheio.

Ela ri mais ainda.

Claro que ri.


Tia Celeste quase cai de tanto rir, enquanto eu reclamo que ficaremos sem sobremesa.

— Vamos ter, sim. — diz Antoine, se aproximando.

Ela me abraça.

E eu… deixo.

Mesmo com massa grudada no cabelo.

Mesmo querendo odiar.

Com cuidado, ela limpa meu rosto.

— Não se afasta de mim. Eu sinto sua falta.

Droga.

— Eu também…

O riso vira choro. Tia Celeste chora. Tio Enrico chora junto. Nós rimos deles.

Até eu ouvir aquela voz.

Meu coração dispara.

Viro devagar.

— Quem te convidou?

— Eu… — admite tio Enrico, limpando o rosto no avental. — Esqueci de te avisar.

Claro que esqueceu.

— Trouxe o bolo, Vincenzo?

— Sim.

Ele sorri.

E, pela primeira vez…

pra mim.

Só pra mim.

Ele se aproxima.

Toca meu rosto.

O dedo desliza na minha bochecha, pegando um resto de torta.

Leva à boca.

— Deliciosa…

Quem?

Eu ou a torta?

— Ambas.

Ótimo.

Agora ele lê pensamentos.

Respiro errado.

Ele passa por mim carregando o bolo com meu nome escrito em glacê rosa.

— Obrigado pelo convite. Eu amo massas.

— Eu também… — murmuro, ridícula. — Por que um bolo?

— Bobinha… — ele pisca.

Meu coração praticamente explode.

Antoine me segura pelo braço:

— Se controla. Ele vai perceber.

Volto pra mesa tentando parecer normal.

Falho miseravelmente.

— O que tá acontecendo aqui?

— Tão nova… e já esquecendo coisas importantes… — diz ele, sentando ao meu lado.

Se inclina.

Sussurra no meu ouvido:

— Hoje é seu aniversário. Esqueceu?

Eu travo.

Ele lambe um resto de torta no meu pescoço.

Pronto.

Acabou comigo.

Saio correndo pro banheiro.

Tranco a porta.

Debaixo do chuveiro, rio.

Choro.

Pulo igual uma idiota.

— Ele gosta de mim… ele gosta de mim…

Repito até acreditar.



Stupida.




Ainda guardo as emoções do melhor dia da minha vida.

Aos dezoito anos, tive a melhor festa de todas. Quatro convidados e eu dançamos, rimos, vivemos. Por algumas horas, tudo pareceu… certo.

Antoine e eu ensaiávamos os passos da coreografia sob os olhares atentos de todos. Em um momento — rápido demais — juro que Vincenzo me olhou.

Só para mim.

— Quando será o concurso?

— Daqui a dois meses. — responde Antoine. — Eileen e eu precisamos vencer. O prêmio é muito bom.

— Deixa de ser boba… — resmungo. — Você é rica. Quem precisa vencer sou eu.

— Já venceram! — grita tio Enrico, embriagado. — Elas dançam muito bem! Não é, Vincenzo?

— Muito… — diz ele, largado na cadeira, com aquele olhar que eu nunca sei decifrar. — Mas de formas diferentes. Uma tem técnica perfeita. A outra… tem técnica e amor.

O impacto vem antes do pensamento.

O cinzeiro voa.

Ele desvia.

Sorri.

— Tenha modos, Eileen! — repreende tia Celeste.

— Deveria ter acertado! — cuspo, com ódio. — Fique com a bailarina perfeita!

A festa acaba ali.



No dia seguinte, peço desculpas. Como sempre.

E, como sempre, nada muda.

Todas as tardes, ele a espera na faculdade.

Antoine oferece carona.

Ele não olha para mim.

— Não, obrigada. Prefiro ir a pé.

Mentira.

— É longe, amiga!

— Eu gosto.

Mais uma mentira.

O motor ronca. Impaciente.

Seguro os livros contra o peito e me obrigo a olhar.

Nada.

Invisível.

— Vai! — ordeno. — O que estão esperando?

Eles não vão.

Aiden vem.

Eu sinto antes de ver.

A moto surge. O ronco rasga o ar. E aquela sombra… tremulando ao redor dele.

— Entra no carro! — grita Antoine.

— Eu sei lidar com ele.

Outra mentira.

— Vai embora! Agora!

— Entra! — insiste Vincenzo.

— Não aceito ordens de estranhos.

— Eileen!

— Esse é o meu nome.

O carro me acompanha.

Lento.

Insistente.

— Aiden não está sozinho! — grita ele.

Congelo.

Como ele sabe?

Aproximo-me da janela. Beijo Antoine.

— Você viu a sombra?

— Entra… por favor.

Quase cedo.

Quase.

Vejo a moto.

O pneu.

A luva.

O impacto.

O mundo some.

Sou arremessada.

Poste.

Capô.

Chão.

Um estalo seco.

Silêncio.

Sem dor.

Só medo.

Os pneus do carro de Vincenzo param perto da minha mão.

Antoine grita.

Muito longe.

Muito distante.

— Salvem… meu filho…

Escuridão.



















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