CAPÍTULO 31 - LUTAR OU MORRER
Estou vivendo meus melhores momentos ao lado da minha tia, minha amiga, minha cúmplice… enquanto o meu homem luta pelo nosso sustento, longe daqui.
Mesmo com Antoine tentando me manter afastada, ela não pode me impedir de cuidar de Matteo como se fosse meu.
Porque, no fundo, ele é meu.
Meu Enzo.
Meu filho… que voltou dos mortos por amor a mim.
Tia Celeste, contrariando minha vontade, parece gostar de Antoine — e a protege dos meus impulsos.
Isso me irrita.
Mais ainda quando o bebê recusa meu peito.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até que eu o deixo chorando no berço.
— Que chore! Não quer meu leite? Então fique com fome!
— Filha, não é assim que se cuida de um bebê… — Celeste diz, cautelosa. — Não lembra do nosso bambino? Enzo também era assim.
Algo dentro de mim se rompe.
— No, nay, never! Meu filho era calmo! Ele me amava! O meu Enzo me amava!
— Esse NÃO é seu filho, vaca! — Antoine explode. — Ele é da minha mãe! O nome dele é Matteo! Filho da Adessa e do Vincenzo!
— Antoine! Não fale assim!
— Vovó, ela não é minha mãe e a senhora sabe disso! — ela implora, ajoelhando-se. — Me ajuda… traz minha mãe de volta…
Por um segundo, vejo os olhos de Celeste vacilarem.
E então...
A campainha.
Estridente.
Insistente.
— For Pete’s sake… quem aparece a essa hora? — resmungo, marchando até a porta. — Isso aqui não é um pub!
— Sou eu, tia!
Cassie.
A mesma que me esqueceu.
Claro. Vincenzo deve ter mexido na cabeça dela.
Ele adora fazer isso.
— Cassie!!! — Antoine grita. — ME AJUDA!!!
— Cala a boca ou vai sentir minha mão!
— Trouxe sua torta preferida! Pavlova de morango!
— Não estou com fome. Volte amanhã.
— Abra, Celeste. — uma voz masculina corta o ar. — Ou posso esperar até o amanhecer.
Algo muda.
Celeste endurece.
— Abra. — ela sussurra, tensa.
— Não quero...
A mão dela aperta a minha.
— Agora.
Eu abro.
Erro meu.
Cassie entra como se fosse dona da casa, me empurra com delicadeza irritante e abraça Antoine.
Matteo continua chorando.
Liam passa direto por mim.
Nem me olha.
Vai até o berço, pega o bebê e murmura algo em gaélico.
Como se tivesse direito.
Idiota.
— O que querem aqui?
— Mentira! — Antoine grita. — Ajuda meu pai e minha mãe!
— Calma, pirralha...
— Ele sabe! — ela insiste. — O tio Liam sabe!
Liam se aproxima, calmo demais.
Sempre calmo demais.
— Vai pro quarto com a Cassie, Antoine.
— Ela não é minha mãe!
Ele se ajoelha, cochicha algo.
E pronto.
A menina vai.
Mas não sem antes me lançar um olhar cheio de ódio.
— Pode rir… — ela diz. — Porque quando ele terminar… minha mãe vai voltar.
A porta fecha.
Silêncio.
Pesado.
— Preparei chá — Celeste tenta. — Quer uma xícara?
— Não vim em paz. — Liam corta.
O ar muda.
— Um amigo está morrendo. — ele continua. — Por negligência.
— Que comunidade é essa? — rio, sem humor. — Desde quando você faz parte de alguma coisa, tia?
— Fique calada, Eileen. — ela ordena, baixa.
Algo está errado.
Muito errado.
— Resolva isso. — Liam diz. — Ou eu chamo Enrico.
O nome cai como uma lâmina.
— Não… — Celeste sussurra. — Ele não pode saber…
— Que você está repetindo os mesmos erros?
Ela quebra.
De verdade.
— Eu não sou má… eu a amo…
— Então faça ela dormir. Agora. Vincenzo precisa da esposa dele.
— EU SOU A ESPOSA DELE!
— EILEEN!
— O que você tem medo de enfrentar, tia? — avanço. — Você sempre esteve comigo!
— Decida, Celeste. — Liam pressiona. — Ela dorme… ou Enrico acorda.
O silêncio pesa.
Ela anda.
Respira.
Pensa.
E falha.
— Eu não consigo…
Erro.
Grave erro.
— Tempo suficiente pra ele morrer? — Liam avança. — Pra Adessa sofrer? Pra tudo ruir?
— QUEM ELE PENSA QUE É?!
— Alguém que você jamais vai entender…
Celeste desaba.
— Não… por favor… Enrico não pode ver isso…
Tarde demais.
A luz invade o teto.
Branca. Viva. Implacável.
E então...
Ele chega.
— De novo, Celeste…? — lamenta o homem que ri com os olhos. — Controle nossa sobrinha e liberte quem realmente pertence a esse corpo. Vincenzo precisa da esposa dele.
— Tio…? — o nome escapa num sussurro.
Eu corro.
O abraço vem primeiro.
O choro depois.
— Senti sua falta…
— Eu também, filha. — Ele segura meu rosto com delicadeza. — Mas você sabe que precisa partir.
— Quem disse isso? Aquele ali? — aponto para Liam. — Esse farsante?
— Liam é nosso amigo.
— É amigo da outra! — rosno. — Ele não gosta de mim!
— Do que está falando?
— Eu não confio nele! — avanço. — Ele não tem verdade nos olhos!
— Chega, Eileen. — a voz de Enrico não sobe… mas cala.
— NÃO! Vocês estão cegos! Ele não é quem diz ser!
— Basta. — agora, sim, firme.
Celeste treme.
— Eu não sei mais o que fazer…
Dou dois passos em direção a Liam.
— Então diz. Diz pra eles quem você é de verdade. Vai.
Liam cruza os braços, frio.
— Eu sequer te conheço.
— Falso. — sorrio, amarga. — Você não me engana.
— Talvez seja melhor você partir.
— Eu não vou! Tenho direito de estar aqui!
— Filha… — Celeste vacila. — Talvez seja melhor—
— Celeste! — Enrico corta, desapontado. — Quantas vezes ainda?
O silêncio pesa.
— Ela não é nossa sobrinha. — ele continua, agora mais duro. — E você sabe disso.
Celeste abaixa o olhar.
— Somos auxiliares dos humanos. Só isso. — ele se aproxima. — E ainda assim você insiste em brincar de destino.
— Eu a amo…
— Amor não é desculpa pra erro repetido.
Aquilo dói.
Nela.
Em mim.
— Vincenzo já pagou por você. — ele diz, baixo.
Eu travo.
— O quê?
— Nada. — rápido demais. — Esqueça.
— Não. — avanço. — O que ele fez por ela?
— Isso foi antes de você existir.
— For Pete’s sake, alguém pode falar claro?!
— Eileen… — Celeste implora.
Enrico a abraça.
— Não chore…
Ele sussurra algo.
E ela empalidece.
— Não… por favor… meu filho… ele não pode morrer…
— Ele não é mais como nós, Celeste.
O ar muda.
— Ele tem um filho humano agora. Você lembra das regras.
Ela leva as mãos ao rosto.
— Meu Deus… eu… eu esqueci…
— Esqueceu… ou fingiu esquecer?
Do sofá, reviro os olhos.
— Que drama ridículo. Meu Vincenzo tá lutando, só isso.
Liam se aproxima.
Ajoelha na minha frente.
— Se você realmente o amasse… saberia que ele está doente.
— Cala a boca.
— Um golpe errado — ele continua — E ele pode perder tudo. Função cognitiva. Movimento. Fala.
O mundo gira.
— Para.
— Ele pode virar alguém que você não reconhece.
— CHEGA!
— Ou morrer.
Silêncio.
Frio.
— Não… — minha voz falha. — Ele é meu. Ninguém vai tirar ele de mim.
— Então salva ele. — Liam se levanta.
Se volta pra Celeste.
— Onde ele está?
— Eu…
— Agora. — Enrico ordena.
Ela entrega o papel.
Ele lê.
— “Clube da Luta”…?
— Eu não sei onde fica…
Liam já está no celular.
— Achei.
— Ainda dá tempo?
— Se a gente correr.
Antoine abraça Enrico como se o conhecesse desde sempre.
Criança estranha.
Quando ela abraça Liam, cochicha:
— Só ele pode fazer isso.
Liam assente.
— Eu entendi.
— E minha mãe? — ela pergunta.
Enrico me encara.
Sem raiva.
Sem pressa.
— Também.
— Veremos… — rosno, indo pro quarto.
Mas paro.
Volto.
— Se eu não for, ninguém vai.
Silêncio.
— Ele é meu marido.
Olhares trocados.
Um canto de sorriso em Liam.
— Pela primeira vez… você faz sentido.
Droga.
— Então vamos.
— Me solta, verme…
Eu o encontro em um quarto de hotel barato, impregnado por um cheiro pesado de derrota e suor antigo.
João fala algo com Liam e Enrico na sala, tentando justificar o injustificável: ele tentou impedir.
Ninguém conseguiu.
Deitado na cama estreita, Vincenzo repousa com os olhos fechados, o rosto marcado, o corpo exausto após a penúltima luta.
Mesmo assim… ainda é ele.
Sempre será.
Eu me aproximo devagar.
Deito ao seu lado.
— Vc venceu… amor?
— O que faz aqui? — ele resmunga, sem abrir os olhos. — Eu pedi pra não virem… Voltem. Eu não vou desistir. A gente precisa da grana.
Ignoro.
Toco seu rosto.
Beijo sua testa. Seus lábios.
— Dói?
Silêncio.
— Dói muito?
— Um pouco… — ele suspira. — Não. Não abre a cortina.
— Eu só queria que você respirasse… esse lugar sufoca.
Olho ao redor.
Quarto pequeno. Feio. Indigno.
— Isso não combina com você…
— Eileen… — agora ele abre os olhos — Você ainda não entendeu? Essa é a nossa realidade agora.
Nossa.
Quase rio.
Deito novamente ao lado dele.
— Eu te amo. E é por isso que isso não pode ser o nosso fim. Mais uma luta… só mais uma… e tudo volta ao normal.
Ele me encara.
Por um segundo… ele acredita.
— Faz sentido… — murmura.
E então sorri.
Mas não é um sorriso feliz.
É um adeus disfarçado.
— Você sempre gostou de conforto… — ele diz baixo — Talvez por isso tenha ficado comigo.
— Eu te amo, Vincenzo.
— A minha Dess… — ele fecha os olhos por um instante — Nunca deixaria isso acontecer.
Aquilo corta.
Fundo.
Preciso reagir.
— Eu estou aqui. Eu sou a mulher certa pra você!
— Não… — ele sussurra, me puxando para perto — Você é a mulher que precisa que eu seja algo que eu não sou mais.
Seu braço desliza pelo meu pescoço.
Forte.
Firme demais.
— Eu te amo… — ele diz, quase sem voz — Mas não gosto de quem você se tornou.
— Me solta…
Não solta.
A música.
De novo aquela maldita música.
Baixa. Antiga. Irritante.
— Para com isso… — minha voz falha — Eu não vou embora!
— Dessa vez… — ele murmura no meu ouvido — Eu não posso fazer isso sozinho.
E então...
Eu sinto.
Antes mesmo de ver.
Liam.
Enrico.
Ao redor da cama.
As mãos erguidas.
A luz.
Me prende.
Me queima.
— NÃO…!
Meu corpo não responde.
Minhas pernas tremem.
Minhas mãos não são minhas.
— Tio… — imploro — Me deixa ficar…
Os olhos de Enrico estão cheios.
Isso é pior.
Muito pior.
— Sinto muito, minha menina…
Ele não me chama de sobrinha.
Ele me chama de menina.
— Você já teve a sua vida… deixa ela ter a dela.
— NÃO…!
Minha voz quebra.
Meu corpo também.
— Esse corpo não é seu.
— EU NÃO VOU!
Ele se aproxima.
Devagar.
Como se cada passo doesse nele também.
O dedo toca minha testa.
Entre os olhos.
E tudo fica frio.
— Vá…
Minha respiração falha.
— …e não volte mais.
O mundo começa a se desfazer.
Eu olho pra ele.
Desesperada.
Sozinha.
— Mo chuisle…
E acabou.
Desnorteada, caio no chão.
O impacto não dói.
O que dói é não entender.
Me levanto rápido, em posição de ataque. Meu corpo reage antes da minha mente.
— Professor Enrico!? — semicerro os olhos, tentando focar. — Que porra é essa!? Onde eu tô!? Cadê meus filhos!?
— Dess…?
A voz.
Eu travo.
Viro devagar.
— Vincenzo…?
— DESS!
Ele vem até mim como se estivesse voltando à vida.
Errado.
Tudo errado.
Minha mão se move antes de qualquer pensamento.
Estapeio.
O som ecoa no quarto.
Ele ri.
Ri.
— Dess!!!
— NÃO fala meu nome! — recuo, o coração disparado — Você tá me assustando!
Ele me puxa.
Me abraça como se fosse me perder de novo.
— Você voltou… — sussurra no meu ouvido — Você voltou, amor…
Voltei… de onde?
Me afasto bruscamente.
Olho ao redor.
Liam.
João.
Enrico.
Todos ali.
— QUE MERDA É ESSA!? — minha voz falha — Liam!? João!? O que tá acontecendo!?
— Eu explico… — diz Vincenzo.
— Não! — corto, apontando para Enrico — Eu conheço você! Da faculdade!
— Sim — ele responde, tranquilo demais.
— SIM??? — avanço um passo — EU SUMO, VOLTO PRA ESSA LOUCURA E VOCÊ SÓ DIZ “SIM”???
— Se você baixar o tom, talvez eu consiga explicar…
— EU NÃO VOU BAIXAR NADA!
Meu peito aperta.
Algo não encaixa.
Nada encaixa.
— Você disse que não conhecia ele! — aponto para Vincenzo — Você mentiu!
— Você concluiu isso sozinha… meu anjo.
— NÃO ME CHAMA ASSIM!
— Dess…
— NÃO ME TOCA!
Me afasto de Vincenzo como se ele queimasse.
— Cadê meus filhos!?
— Estão com a Cassie — diz Liam — Estão seguros.
— TRANQUILA??? — rio, sem humor nenhum — Você acha que eu tô tranquila!?
— Dess…
— SE FALAR MEU NOME DE NOVO EU TE QUEBRO!
Silêncio.
Pesado.
Então eu vejo.
O rosto dele.
Hematomas.
Olho roxo.
Corpo quebrado.
Minha raiva falha.
Só um segundo.
— O que você fez…? — minha voz baixa — Você voltou a lutar…
— Eu precisei!
Seguro os braços dele pra não cair.
Ele tá pior do que quer admitir.
— Você prometeu… — sinto o peito apertar — Você prometeu que não ia se destruir…
Mordo a mão dele.
Ele ri.
Idiota.
— Era pra ser um soco — resmungo — Mas você já tá ferrado o suficiente…
Olho pra ele.
Furiosa.
Assustada.
— Quer morrer!? Quer deixar a gente!?
O mundo começa a girar.
As vozes se embaralham.
Pedido de desculpa.
Preocupação.
Mentiras.
Sempre mentiras.
Olho pra ele uma última vez.
— Você vai lutar de novo… — sussurro, sentindo tudo apagar — Eu te odeio, Vincenzo…
E o escuro me leva.
— João! Abre essa porta e me leva pro ginásio!
— Não posso! — ele rebate, tenso — Vincenzo mandou te manter aqui!
— Foda-se o que ele mandou! — avanço — Você é amigo dele! Sabe que, se ele apanhar mais, ele pode morrer!
— Não! — ele explode — Eu vim justamente pra impedir isso!
O silêncio pesa.
Eu desabo por um segundo… mas não posso.
Calço o tênis com mãos trêmulas, sentada no colchão ainda quente do corpo dele.
— Eu sei… — minha voz falha — Eu sei…
Dou um nó no cadarço com força.
— Então me ajuda.
Olho pra ele.
Agora não é ordem.
É súplica.
— Me leva até lá, João. Você é o único amigo de verdade que ele tem.
— Não entendi…
— Esquece! — corto, já sem paciência — Só me leva!
Chego perto demais. Olho no olho.
— Eu vi ele no ringue. Ele não vai parar. Não antes da última luta.
João abaixa a cabeça.
— Não vai mesmo… eu tentei…
Toco a mão dele.
E vejo.
Não deveria ver… mas vejo.
A esposa.
Grávida.
Sozinha.
Esperando.
Engulo seco.
— Então volta pra casa depois disso — digo baixo — Você já fez o que tinha que fazer.
— Co-como você sabe disso?
— Não sei. Só sei.
Pego as chaves da mão dele, abro a porta e saio disparada.
Desço as escadas pulando degraus.
O ar da noite me acerta como um tapa.
O carro apita no estacionamento.
Eu paro.
Respiro.
Olho pra chave.
— Odeio carro.
Jogo de volta pra ele.
— Vou correndo. É perto.
— Adessa… você tá bem?
— Não.
Começo a andar de costas.
— Pra onde?
Ele aponta, ainda confuso.
— No fim da avenida… esquerda…
Sorrio.
Um sorriso meio insano.
— Sabia.
Abraço ele forte.
— Volta pra casa. Vocês vão ser felizes.
— Vocês?
— Quatro — sussurro — Confia.
— Quatro!? — ele grita — É o primeiro filho!
Já estou me afastando.
— O segundo vem rápido! Economiza!
E então eu corro.
A chuva começa.
Claro que começa.
Sempre começa.
Cinco quilômetros.
Dor nas pernas.
Ar faltando.
Mas eu não paro.
Não hoje.
Não ele.
Não assim.
O ginásio surge iluminado, vivo, faminto.
Gente gritando.
Querendo sangue.
Perfeito.
— SAI DA FRENTE! — grito, empurrando quem estiver no caminho.
Chego ao portão.
O segurança nem pisca.
— Ingresso.
— Não tenho.
— Fila.
Respiro fundo.
Tento ser civilizada.
Erro clássico.
— Olha… meu marido vai lutar hoje. Ele tá doente. Ele pode morrer. Eu preciso entrar.
— Fila.
Algo quebra.
— VOCÊ TEM ALGUÉM!? — avanço — Alguém que você não quer ver morrer!?
— Fila.
— INFERNO!
Eu soco.
Erro estratégico.
Ele nem se mexe.
Só me empurra de volta.
— Fila.
— EU NÃO VOU! — grito, já chorando — Ele pode morrer!
Recuo.
Perdida.
Sem saída.
Sem tempo.
Esbarro em alguém.
— NÃO ENCOSTA EM MIM!
Levanto o olhar.
Ela.
E então...
— Quer meu ingresso?
Silêncio.
Por um segundo… o mundo para.
— Eu tenho outro compromisso.
— Eu te conheço? — pergunto, ainda emocionada, encarando a mulher de olhos azuis e sorriso calmo demais pra esse mundo. — De onde você vem?
— De longe. — ela sorri — Se quiser entrar, aproveite agora. Sou a próxima da fila.
Algo nela me acalma.
Algo antigo.
Abraço forte.
— Que o Criador te abençoe…
— Já abençoou, Adessa… — ela sussurra — Nunca esqueça quem você é. Nem do que é capaz. Somos irmãs.
Meu peito aperta.
— Blessed be.
Subo os degraus.
Antes de desaparecer, repito, quase sem voz:
— Blessed be…
— INGRESSO!
A realidade me acerta como um soco.
Enfio o papel contra o peito do segurança.
— Aqui, seu filho da...
Ele segura meu pulso.
Liam surge.
Um gesto simples.
O homem me solta.
Como se nada tivesse acontecido.
— Por que não deixou eu quebrar a cara dele!? — rosno.
— Menos, Adessa.
— Onde ele tá!?
Liam não hesita.
— No ringue.
Silêncio.
Um segundo.
Só um.
— MERDA!
Eu corro.
O ginásio pulsa.
Gente gritando.
Sangue no ar antes mesmo da luta começar.
E lá está ele.
Sentado.
Cabeça baixa.
Esperando.
— VINCENZO!
Nada.
Som alto demais.
Pensamento não alcança.
Empurro quem estiver na frente.
Cotovelo.
Ombro.
Sem desculpa.
Sem freio.
Até que...
Frio.
Dedos longos seguram meu braço.
A voz arranha meu ouvido:
— Veio assistir ao fim dele?
Viro.
Lento.
Errado.
Perigoso.
Antes que ele termine o sorriso...
BATO minha cabeça contra a dele.
O estalo ecoa.
Sangue escuro escorre.
— Quem você pensa que é...?
— Anahita. — rosno — Esqueceu de mim… ou tá fingindo, Lúcifer?
Silêncio.
Pesado.
Corto.
— Ou prefere que eu te chame de… pai?
Um passo.
Ele vacila.
Liam se aproxima.
— Espera...
— Fica onde tá. — corto, sem olhar — Nem respira.
Volto pro ringue.
Subo.
A multidão vibra.
Idiotas.
Achando que isso é espetáculo.
Minha mão ainda sangra.
Ergo.
Gritos.
Urros.
Como guerra antiga.
Mas isso aqui não é show.
É escolha.
— Não chega perto! — aviso Vincenzo, sem olhar pra ele.
Vou até o banco do oponente.
Vazio.
Melhor assim.
Ajoelho.
Passo a mão no sangue.
Desenho.
Devagar.
Um círculo.
Perfeito.
Fechado.
O árbitro vem.
Tarde demais.
Sou puxada pra fora.
Mas termino.
Olho pro centro.
E digo.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Eu te impeço de ferir teu adversário…
— E a ti mesmo…
— Eu te impeço.
— Tirem ela daqui! — grita Vincenzo após o segundo round, visivelmente desequilibrado.
Filetes de sangue escorrem de sua boca antes de ele cuspir no balde. Meu estômago revira.
— Volta pra casa, Dess! Cuida dos nossos filhos!
— Não se atreva a me dar ordens sobre os meus filhos! — grito, entre as cadeiras e o ringue. — Eles estão com a Cassie e, se não estivessem, estariam em perigo por sua causa, seu filho da puta! Você os deixou com a sua mãe! Aquela vaca traiçoeira que trouxe a outra!
— Eu não queria, Dess…
— Me solta! — rosno para Enrico, que me prende pela cintura. — Sai daí ou eu invado essa merda!
Mordo seu braço.
O sino toca. Terceiro round.
— Me perdoa… — diz Liam, antes de tocar minha testa.
— Se acalma.
Meu corpo congela. Presa dentro de mim mesma, sou obrigada a assistir.
O campeão avança com tudo. Vincenzo desvia… até não desviar.
O golpe baixo o atinge em cheio.
Ele cai.
O grito que escapa dele atravessa meu peito.
O sorriso do adversário é grotesco.
Algo em mim rompe.
Eu me solto.
Volto para o ringue.
Engatinho até ele.
Seu olho esquerdo está fechado. O direito… quase não vê.
Sangue e suor misturados.
— Dess… volta… — ele murmura.
Seco seu rosto com a toalha.
— Nunca. Desiste. Por favor. Vamos embora.
— Agora não.
— Vincenzo!
— Falta pouco… — ele força um sorriso. — Falta pouco, Dess.
— Pra morrer?
Silêncio.
Me levanto.
— Se você não parar agora… eu e nossos filhos vamos desaparecer da sua vida.
O sino corta o ar.
Ele se levanta.
O juiz marca a falta.
Vincenzo me encara.
Raiva pura.
Eu viro as costas.
Saio.
Enrico pede fé. Liam nem tenta mais.
Caminho.
Escuto o mundo explodir atrás de mim.
Gritos. Palmas. O nome dele sendo devorado pela multidão.
Então…
— Nocaute!
Paro.
Meu coração trava.
Eu volto.
E vejo.
Vincenzo.
De pé.
O cinturão erguido.
“Isso é por você, Dess! A mulher que eu sempre amei… e sempre vou amar!”
A voz de Vincenzo ecoa pelo ginásio antes de seu corpo ceder.
Ele tomba.
Inerte.
Sua cabeça quica duas vezes contra o tatame.
O mundo vibra ao redor. Gritos. Palmas. Euforia.
Eu não ouço nada.
Abraçada ao seu corpo, choro.
Diante de mim, de cócoras, Lúcifer sorri.
— Daqui a quantas horas devo retornar… para levá-lo comigo?
Tremendo de frio, aguardo ao lado de Enrico e Liam a saída de Vincenzo do Centro de Ressonância Magnética de um hospital caro demais até para existir.
Meu moletom úmido gruda na pele. Ridículo. Pequeno. Deslocado.
Nada aqui me pertence.
Entrei na ambulância de mãos dadas com ele.
E, agora… só me resta esperar.
Enrico me envolve com cuidado.
— Vai dar tudo certo, meu anjo. Acredite.
— Acredito.
Mentira.
Como alguém sai de uma luta daquelas… inteiro?
— Ele tem…
— ETC. Eu sei. — Enrico responde baixo. — Ele me contou.
Viro o rosto, desconfiada.
— Quando vocês conversaram?
— Pode-se dizer que somos… próximos.
Reviro os olhos. Sem força pra discutir, me encolho ainda mais.
Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa.
— No que pensa, Adessa? — ele pergunta.
— Em sair daqui com ele. Vivo. Inteiro… — engulo seco — …e em um café quente.
— Isso eu consigo resolver.
Liam se afasta, confiante demais para alguém que claramente não sabe usar uma máquina de café.
Observo de longe.
Ele aperta botões errados.
A máquina trava.
Ele encara.
E chuta.
Sem paciência. Zero elegância.
Apesar de tudo… eu rio.
Levanto, vou até ele e, sem cerimônia, acerto um chute leve na lateral.
A máquina cede.
O café desce.
Perfeito.
Ergo o copo como se fosse uma vitória absurda.
Pequena. Ridícula. Necessária.
Antoine ia amar isso.
Meu peito aperta.
Quero meus filhos.
Quero minha casa.
Quero a minha vida de volta.
Bebo o café de uma vez só.
Quente demais. Forte demais.
Não importa.
— Está ruim? — Liam pergunta.
— Não… — minha voz falha — Está ótimo.
Arremesso o copo na lixeira.
Ele comemora como uma criança.
— Yes!
Solto um riso fraco, quebrado.
— Gosto de você, Liam… — começo, mas a voz se desfaz — Você já provou ser um bom homem… um bom amigo…
Não consigo terminar.
Ele me guia de volta ao sofá.
Meu corpo não para de tremer.
— Você está com febre, Adessa.
— Bobagem… isso passa.
Enrico se inclina, sério agora.
— Filha… talvez seja melhor...
A porta se abre.
O médico surge.
O mundo para.
— Quem é o responsável por Vincenzo?
Meu coração despenca.
Num salto, alcanço a mão de Vincenzo.
Deitado na maca, limpo, sonolento… ele sorri.
Alívio puro.
Eu sorrio de volta.
Até lembrar.
— Não vai não, Dess. Eu não vou morrer. Não agora.
— Cala a boca. — resmungo, andando ao lado da maca. — Larga a minha mão, covarde.
Entramos no quarto.
Grande. Limpo. Silencioso.
Caro demais.
— Dess, fica aqui… — ele pede, já sendo acomodado. — Ainda preciso de cuidados.
— Bastardo.
Sento ao seu lado, analisando.
— Seu rosto virou um experimento de surrealismo. Não tem mais forma.
Ele ri. Se arrepende na mesma hora.
— Você vai deixar de me amar por isso?
Inclino, bem perto.
— Não me apaixonei pelo seu rostinho… foi pelo seu pau perfeito.
Ele gargalha.
Geme.
— Para… dói tudo.
— Bem feito. Eu mandei parar…
Espirro.
Uma vez.
Duas.
Quatro.
Merda.
O corpo pesa.
— Tô bem. — minto, já indo atrás da poltrona.
— Não parece.
O médico se aproxima.
Frio. Eficiente. Zero drama.
Mão na testa.
Pressão.
Pulmão.
Pausa.
— Pneumonia.
— OI???
— Ou algo caminhando pra isso.
— COMO???
— Corrida na chuva por cinco quilômetros… talvez? — Liam entra, seco.
Traidor.
— Foi por um bom motivo! — rebato, irritada. — Qual o problema!?
— Nenhum. — diz o médico. — Dois ou três dias internada resolvem.
— NUNCA! ISSO AQUI DEVE CUSTAR UM RIM!
— DESS! — Enrico ri no canto, claramente se divertindo com o caos.
Liam, mais baixo:
— Ela faz tudo por amor.
— Bobagem. — retruco. — Alguém tinha que impedir esse idiota.
— Vá com ele. — Vincenzo corta, firme. — Faz os exames.
— Você tá me ouvindo!? — explodo. — Quem vai pagar essa conta!?
A enfermeira entra no meio.
Mão firme no meu braço.
— Senhora, afaste-se.
— Tira a mão de mim! Ele é meu marido!
— Se chegar perto… contamina ele. E essa conversa vira sessão espírita.
…
Tá.
Justo.
— Cadeira de rodas? Sério isso??? O problema é no pulmão!
— Sente.
Sem energia pra brigar, cedo.
Sou empurrada pelo corredor.
Jogo o tênis.
Quase acerto a cabeça dele.
Quase.
— Ciumenta, hein. — a enfermeira ri.
Inclina, conspiratória:
— Eu também sou. Ninguém chega perto do meu marido.
Olho pra ela.
Avalio.
— Gostei de você.
Pneumonia bacteriana.
Genial.
Claro que é.
Liam e Enrico se revezam entre meu quarto e o de Vincenzo enquanto eu atormento o médico.
— Eu posso me cuidar sozinha. Meu marido tem alta amanhã. Eu não vou… eu não admito ficar aqui por causa de uma bactéria.
— Legionella pneumophila.
— Quem???
Meu peito ronca.
Cada respiração pesa.
Antibióticos correm nas minhas veias enquanto ele continua, didático demais pra minha paciência.
— Uma bactéria rara e perigosa. Não posso liberá-la sem melhora significativa.
Já puxo o acesso do braço.
— Bobagem! Eu não fico doente! De onde isso vem!?
— Solo. Água. Sistemas úmidos. Lugares fechados…
— Profundezas da crosta da Terra… — repito, tossindo.
Olho pra Liam.
— Pode ter vindo… de sangue?
— Não. Mas de alguém contaminado. Muito próximo. Tossindo… falando…
Congelo.
— Ou cochichando no meu ouvido…
Lúcifer.
Claro.
— Maldito… — murmuro.
— Quem, senhora?
— Ninguém.
Sempre ninguém.
— Me deixa sair. Meu marido e meus filhos precisam de mim.
— Quer contaminá-los?
Silêncio.
— Nunca.
Liam entra.
— Podemos tratá-la em casa?
Eu olho pra ele como se tivesse inventado a cura da morte.
— Isolada, medicada…
O médico nem pisca.
— Vai custar caro.
— Mais caro que isso aqui!? — quase rio.
— Sim.
…
— Puta que pariu.
Liam, firme:
— Se pudermos pagar… ela sai?
— Se houver melhora… talvez.
Milagre, basicamente.
A porta abre.
Vincenzo.
De pé.
Muletas.
Sorrindo.
Pronto.
Acabou.
Eu levanto.
Arrasto o suporte.
Quase desmaio.
— NÃO DEIXA ELE CHEGAR PERTO!
Tarde demais.
Ele encosta.
Beija minha testa.
Máscara no rosto.
— Tenho uma surpresa.
— Qual?
— Alta amanhã.
Respiro.
Choro.
Rindo.
Tudo junto.
— Eu sabia… — beijo sua mão — Você é forte.
— Chega de luta.
— Chega de luta.
Ele deita ao meu lado.
Como se fosse normal.
Como se a gente não tivesse quase morrido há algumas horas.
— O prêmio paga tudo.
— Grande merda. — resmungo. — Sofrer tudo isso pra pagar hospital?
— Vai sobrar um pouco. Confia.
— Seu Deus não me protegeu de um filho caído…
Ele me olha.
— Como assim?
— Lúcifer me infectou.
Falo baixo.
Sério.
— “Doença do Legionário”… vive nas profundezas… coincidência?
Ele suspira.
— Deixa esse otário pra lá. Eu tô aqui.
Simples.
Direto.
E funciona.
— Logo a gente volta pra casa.
— E sua mãe.
— Ela não é minha mãe. — ele ri — Ela se acha.
O celular toca.
Ele atende.
— Filha!!!
Viva-voz.
— “Agora não, papai. Depois.”
Corte seco.
— Poxa…
— “Não dá tempo! Meu tio disse que tem que ser agora!”
Silêncio.
— Que tio?
— “Se não fizer o que eu mandar, a mamãe não sai daí.”
Pronto.
Lá vem.
Milagre versão infantil.
Eu já tô chorando antes de começar.
Latim.
Fluindo.
Limpo.
Forte.
Respiração abre.
O peso no peito… diminui.
Eu sinto.
De verdade.
Quando termina:
— Onde você aprendeu isso?
— “Meu tio Miguel falou. Eu repeti.”
Natural.
Como pedir suco.
— “Os bichinhos morreram.”
Perfeito.
Simples.
E mais poderoso que qualquer discurso.
— “Se não matasse, iam ter filhinhos.”
— Iriam.
— “Isso! Espero vocês amanhã!”
— “Burra! Estragou a surpresa!” — Cassie ao fundo.
— “Burra é você! Amo vocês! Fui!”
Linha cai.
Silêncio.
Eu respiro.
Sem dor.
Sem peso.
Só…
alívio.
No dia seguinte, sem conseguir explicar minha súbita melhora — e claramente cansado de me ouvir implorar — o médico me dá alta após eu assinar um termo de responsabilidade.
Não acredita no que viu.
Nem eu.
Como diria Antoine:
“Todos os bichinhos morreram.”
Saímos juntos.
Vivos.
Inteiros.
Milagre suficiente por um dia.
No banco traseiro do carro de Liam, Vincenzo segura minha mão.
— Na saúde e na doença. Juntos. Pra sempre.
— Pra sempre.
Liam sorri ao volante.
Enrico, ao lado, disfarça uma lágrima.
Mas os olhos… os olhos dele riem.
E observam.
Pelo retrovisor.
Reconheço aquele olhar.
Já vi antes.
No dia do acidente.
Antes de tudo dar errado.
Antes de tudo começar.
Me inclino até Vincenzo.
— Depois você vai ter que me explicar essa história bizarra de acidente, pacto com Lúcifer e sua família completamente surtada.
— Dess… — ele ri, cansado — Olha lá fora.
Árvores.
Sol.
Vida normal.
Quase irritante.
— Estamos voltando pra casa.
— Não me importa. — rosno. — Tem uma mulher estranha cuidando dos nossos filhos. Um anjo possuído, uma traidora, um caos instalado… e você quer que eu admire árvore?
Silêncio curto.
Enrico se vira.
— Você tem razão, filha. Não faz sentido mesmo. Quando chegarmos, eu explico tudo.
Olho desconfiada.
— Ok.
— Agora tenta descansar. — diz Vincenzo.
— Para de pensar.
— Não consigo!
Me afasto.
— Quanto sobrou do prêmio?
Ele suspira.
— O suficiente.
— Isso não responde.
— Em casa a gente fala disso.
Cruzo os braços.
Encaro meu reflexo na janela.
Peço, em silêncio:
Outro milagre.
— Sério? — Vincenzo murmura. — Mais um?
Reviro os olhos.
— Para de invadir minha cabeça!
— Decide uma coisa. — ele provoca. — “Seu Deus” ou “Meu Criador”?
Aponto pra ele.
— O seu Deus é seu. O meu Criador é outra história.
— É o mesmo. — Liam entra, tranquilo. — Só muda o nome.
— Claro. — rio, sem humor. — Todo mundo se desviou… menos você, né?
— Já me desviei bastante. — ele responde. — Se não fossem eles… eu não estaria aqui.
Cassie.
Claro.
— Ela teve sorte.
— E você não? — Vincenzo retruca.
Paro.
Volto pra perto dele.
Beijo leve.
— Eu tô com medo. Só isso.
Enrico enfia a cabeça pra fora da janela, rindo com o vento no rosto.
— Milagres acontecem!
Repete como quem acredita mesmo.
Olho pra Vincenzo.
Sussurro:
— Tua mãe é uma vaca e teu pai é completamente surtado.
— Ela não é uma vaca.
— É sim.
Cruzo os braços de novo.
— E outra coisa… você entrar no ringue sem música foi ridículo.
A porta se abre.
E, por um segundo, eu acredito que tudo voltou ao normal.
Luz.
Vozes.
Risos.
Uma festa.
Somos recebidos como se tivéssemos voltado de uma guerra que ninguém ali ousa mencionar em voz alta. Doc, Adele e João se aproximam primeiro, calorosos, aliviados, como se a simples visão de nós dois inteiros já fosse motivo suficiente para celebrar.
Cassie não espera.
Corre.
Se joga nos braços de Liam como se o mundo dependesse disso — e talvez dependa mesmo.
— Safada! — Antoine grita, pela enésima vez, com aquela indignação dramática que só ela consegue sustentar.
Ignoram.
Todos ignoram.
Menos eu.
Porque eu observo.
Sempre observo.
Enrico envolve Celeste em um abraço longo demais.
Íntimo demais.
E, quando ela se afasta, seus olhos encontram os meus.
Sombrio.
Breve.
Mas suficiente.
Meu corpo responde antes da minha mente.
Meus seios latejam.
Doloridos.
Urgentes.
Algo está errado.
Não digo nada.
Não ainda.
Desvio deles.
Do barulho.
Da festa.
De tudo.
E caminho direto para o quarto.
Porque existe uma única coisa que importa.
Uma única certeza que eu preciso confirmar com os próprios olhos.
Meu filho.
— Dorme como um anjinho. — Diz ela recostada à porta. — Não o acorde, querida. Ele já está bem alimentado.
— Impossível! — Rosno. — Eu não o amamento há dois dias!
— Eu mesma dei seu leite, tia! — Cassie surge, rápida demais. — Aquele que você deixou nas mamadeiras.
Ela fala.
Mas não olha pra mim.
— Ninguém além de mim tocou nele. Fica tranquila.
Tranquila.
Engraçado.
Porque não é isso que eu sinto.
Pego Matteo no colo. Beijo sua testa.
E então...
Uma imagem.
Rápida.
Errada.
Fria.
Levanto os olhos devagar.
Encaro Celeste.
Ela sorri.
Como se já soubesse.
— O que foi, tia?
— Nada.
Mentira.
Eu vi alguma coisa.
— Vamos pra sala.
— Podem ir. Eu fico com ele.
Erro.
Grave.
Empurro Celeste contra a parede, sem força… mas com intenção suficiente.
— Vamos pra sala. Todos nós. Entendeu?
Por um segundo...
só um...
o sorriso dela falha.
— Claro, meu bem.
Agora sim.
Agora ela está fingindo.
A vida segue, aparentemente normal, como antes da luta de Vincenzo e de suas graves consequências. Liam e Cassie retornam ao seu lar. Enrico viaja para a Itália por motivos que desconheço, levando consigo Celeste, que promete voltar em breve com ótimas notícias.
Aliviada, observo enquanto ela entra em um táxi rumo ao aeroporto.
— Vá… e não volte mais. — murmuro, com Matteo em meu colo.
Vincenzo nos envolve em um abraço e, apesar de todo o seu esforço em me manter firme, eu afundo outra vez. A depressão pós-parto retorna com novos sintomas. O pior deles: o pânico constante de perder meu filho.
— Ele não quer o meu leite… — reclamo entre soluços, embalando Matteo contra o peito. A voz falha, desesperada. — Ele amava mamar em mim, Vincenzo. Bastaram dois dias de ausência… dois dias… e agora, mesmo depois de uma semana desde que eles foram embora, ele ainda não quer meu peito!
Ergo os olhos, tomada por uma certeza incômoda, quase sufocante.
— Alguma coisa aconteceu na nossa ausência. Eu sei. Eu sinto… — minha voz baixa, trêmula. — Eu vi alguma coisa naquela noite… na festa surpresa.
— Dess! Não viaja! — Vincenzo perde a paciência. — O que você viu? O que acha que a Celeste faria contra o meu filho? Ela me ama!
Matteo chora em meu colo.
Alto.
Inconsolável.
E aquilo só piora tudo.
— Eu vi alguma coisa! — Minha voz falha, mas eu não paro. — Foi rápido! Uma lembrança! Eu não sei o que é, mas não é bom! Não é amor! Nosso filho tá com fome e eu não consigo alimentar ele!
— Calma, porra! Ele tá nervoso!
— E eu também! — explodo, mais alto que ele.
O silêncio na sala não é completo.
A TV continua ligada.
Mas Antoine…
Antoine já não está mais assistindo.
Ela se levanta devagar.
Séria demais pra idade.
Estica os bracinhos na minha direção.
— Me dá ele, mamãe.
— Não, filha…
— Agora.
Não é birra.
Não é pedido.
É ordem.
E, contra toda lógica, eu obedeço.
Assim que Matteo encosta nela, o choro cessa.
Como se nunca tivesse existido.
Ele sorri.
Gargalha.
Aquele som leve, puro… quase cruel, depois de tudo.
Antoine o leva de volta ao quarto como se soubesse exatamente o que está fazendo.
Eu vou atrás.
Porque, claramente, eu não sei.
Sinto Vincenzo atrás de mim, murmurando desculpas que eu não quero ouvir.
— Fica quieto. — sussurro. — Ele dormiu.
Antoine passa por nós.
Cabeça baixa.
Silenciosa.
Mas, antes de sair do quarto, ela para.
Sem olhar pra mim.
Olha pra ele.
E diz, com uma calma que não pertence a uma criança:
— Explica pra minha mãe quem é a vovó de verdade, pai.
Uma pausa.
Curta.
Pesada.
— Fala tudo. Ela precisa saber.
— Por que as velas acesas?
— Porque me acalma. — Ele responde, sentado no chão.
Claro.
O homem acabou de sair de uma luta quase mortal, tá envolvido com anjos caídos, demônios e uma sogra possivelmente psicótica… e o problema são velas.
— Tá nervoso?
Ele solta um riso curto, sem humor.
— O que você acha, Dess?
Sento na frente dele, no tapete, cercada por sombras que dançam nas paredes.
— Não sei. Quem viu sua mãe tentando amamentar o meu filho fui eu. Teoricamente, quem devia estar surtando sou eu. Não acha?
O olhar dele muda.
Endurece.
— Ela fez isso?
— Eu vi.
A palavra pesa.
Fica entre nós.
— Mas não quero falar disso. Vai te destruir. Você já tá ferrado o suficiente.
Ele segura minhas mãos.
Forte.
Quente.
Real.
— Você não me faz sofrer. — A voz dele baixa. — É por você que eu existo aqui. Você me fez cair… e querer ficar. Me deu motivo pra ser humano.
Droga.
Ele fala assim e eu quase esqueço que quero matar alguém.
— Eu te amo, Dess. Nunca duvide disso.
Engulo seco.
— Então me conta tudo. Agora.
Ele respira fundo.
— Se puder… tenta perdoar a Celeste.
— Tá pedindo demais.
— Ela não é como nós.
Inclino a cabeça.
— “Nós” quem? Casal disfuncional ou clube dos anjos problemáticos?
Um quase sorriso.
— Anjos. Os que caíram… e os que fugiram da Legião.
— Oi???
Minha reação sai automática.
Ele cobre minha boca.
— Se quiser a verdade, escuta até o final. Sem interromper.
Reluto.
Mas cedo.
— Ok.
A chuva começa a bater na janela.
Como se o mundo lá fora tivesse resolvido assistir também.
— Celeste fazia parte do exército de Lúcifer — ele começa — Até conhecer Enrico. Um arcanjo. Um dos escolhidos do Criador.
Já começa leve. Ótimo.
— Ele quis salvá-la. Ela… quis ele.
Reviro os olhos.
Clássico.
— Ele via uma irmã perdida. Ela via um homem.
— E deu ruim, imagino.
— Deu. — Ele continua. — Lúcifer ensinou a ela formas… mundanas de sedução.
— Mundanas?
— Humanas. Mulheres que destruíam vidas por moedas.
— Sério? — murmuro, travando por um segundo. — Continua.
Ele não responde de imediato.
Só me observa.
— Tem algo a me dizer, Dess?
— Não.
Minha resposta sai rápida demais.
E ele percebe.
— Perfeito. Tá ficando cada vez melhor.
— Enrico cedeu. Se apaixonou. Se afastou do Criador por vergonha.
Silêncio.
— E aí Lúcifer cobrou.
A voz de Vincenzo fica mais baixa.
Mais escura.
— “Traga Enrico para o meu lado.”
— E ela tentou?
— Tentou. Falhou. Escolheu Enrico.
Eu cruzo os braços.
— Finalmente uma decisão decente.
— Eles fugiram. Viveram na Terra… tentando paz.
— E você entra quando nessa novela?
— Quando tudo deu errado.
Claro que sim.
— Lúcifer não perdoou. Entregou Celeste aos próprios seguidores.
Sinto um frio subir pela espinha.
— Eles… fizeram dela um alvo.
Ele evita meus olhos.
— O corpo dela virou… algo irreconhecível.
Engulo seco.
Agora eu não quero mais brincar.
— Enrico tentou salvar. Falhou. Então… Lúcifer propôs uma troca.
Meu estômago afunda.
Já sei.
Mas não quero saber.
— Uma troca? — minha voz sai mais baixa do que eu gostaria.
Ele me encara.
Direto.
Sem fuga.
— Eu pela liberdade dela.
Silêncio.
Pesado.
Denso.
Raivoso.
— Filho da puta… — rosno.
Me inclino pra frente.
— Por que você?
Agora sim.
Agora a história começa a doer de verdade.
— Você em troca da liberdade da vaca.
— Sim.
— Por que você???
— Não sei.
Uma pontada atravessa meu peito.
Forte.
Errada.
Como se não fosse só raiva.
Como se fosse… reconhecimento.
— Claro que sabe. — rebato, irritada demais com algo que nem consigo nomear. — Ele não escolhe qualquer um.
Vincenzo franze o cenho.
— Do que você tá falando, Dess?
Abro a boca.
Nada sai.
Por um segundo, vejo algo.
Um vislumbre.
Sombras. Vozes. Um medo antigo que não cabe em mim.
Pisco.
Sumiu.
— De nada. — corto, rápido demais. — Esquece.
Ele continua me encarando.
Não comprou.
Óbvio que não.
Desvio o olhar, cruzando os braços.
— Desculpa. Vou ficar calada. Juro.
Mentira.
Nem eu sei mais o que tá tentando sair de dentro de mim.
— Enrico, enfim, se entregou a Celeste e, por ela, se afastou do Criador. — diz Vincenzo, num tom mais baixo, como se cada palavra pesasse. — Não por maldade. Por vergonha. Eles viveram… bem, por um tempo. Do jeito deles. Até que Lúcifer veio cobrar.
Sinto um arrepio subir pela minha nuca.
— “Traga Enrico para o meu exército.” — continuo por ele, sem perceber.
Vincenzo me encara.
Eu travo.
— Continua. — corto, rápido.
Ele demora um segundo.
Mas continua.
— Celeste tentou convencê-lo. Tentou de verdade. Mas Enrico nunca cederia. Então ele tentou ir embora… se afastar dela… só que… — ele ri sem humor — Eles se amavam demais pra isso.
Reviro os olhos, impaciente.
— Amor sempre complica tudo. Já entendi. E depois?
— Depois, eles fugiram. Deram as costas a Lúcifer. Vagaram pela Terra, procurando paz… — ele pausa — Como se isso fosse possível.
— E você? — disparo. — Quando entra nessa história? Por que eu te vi naquele carro? Você era um garoto, Vincenzo! Você me disse que não mudava de aparência! Você pode ou não pode voltar a ser criança?
— Eu pedi pra você ficar calada, porra…
— Eu tô tentando acompanhar essa novela do inferno! — rebato, já sem paciência. — Minha família tá no meio disso! Responde!
Ele passa a mão pelo rosto, irritado.
— Agora eu não posso porra nenhuma. Sou mortal. Lembra disso?
— Então fala direito comigo. — minha voz falha. — Aquela desgraçada encostou o peito dela na boca do meu filho…
— Do nosso filho. — ele corta, firme. — Nosso. E isso nunca mais vai acontecer.
Quero acreditar.
Não consigo.
— Mas, naquela época, eu podia agir. — continua ele, mais calmo. — Foi por isso que você me viu. Eu não tinha… uma forma fixa. Eu assumia o que fosse necessário. Um homem. Um jovem. O que fosse preciso pra me aproximar… pra interferir.
Engulo seco.
Isso faz sentido.
Droga.
— Celeste já estava comprometida. — ele segue. — Não com Enrico. Com algo pior. Ela foi possuída, Dess. Um anjo… tomado por outro que já não era mais anjo. — sua voz endurece — A Legião cresceu assim. Alimentada pelos humanos. Pela fé distorcida, pelos pedidos errados… pela adoração ao que não deveria ser adorado.
— “Legião”? Não era “exército”? — implico, tentando não demonstrar o desconforto que cresce dentro de mim.
— No início, sim. — ele suspira. — Depois da ruptura, virou outra coisa. Mais… organizada. Mais perigosa.
— Tipo seguidores? — solto, debochada. — Cem mil? Duzentos?
Ele me lança um olhar sério.
— Milhões, Dess. E não são só números.
Certo. Parei de rir.
— Quem faz parte disso?
— Isso não importa agora. — ele corta. — Foca.
Cruzo os braços.
— Tô focando.
— Quando Celeste se recusou a trair Enrico… Lúcifer resolveu puni-la. — a voz dele fica mais baixa. — Ele a entregou.
Sinto meu estômago revirar.
— Aos outros.
Silêncio.
— Ela já não era pura. Ainda carregava… inclinações. Isso a tornou vulnerável. — ele desvia o olhar — Eles se aproveitaram disso. Por muito tempo.
Fecho os olhos.
Vejo flashes.
Chagas.
Gritos.
Não sei de onde vem isso.
— Enrico tentou salvá-la. De todas as formas possíveis. — continua ele. — Ele praticamente se destruiu tentando trazê-la de volta.
— E conseguiu?
— Não. — resposta seca. — Não sozinho.
Meu coração aperta.
— Então Lúcifer apareceu de novo.
— Claro que apareceu… — murmuro, amarga.
— E propôs uma troca. — diz ele, finalmente, me encarando de novo.
O ar pesa.
— Você, né?
Ele não responde de imediato.
Só confirma com um olhar.
— Sim.
— Eu sei! — me revolto, encarando as chamas trêmulas das velas. Algo nelas me puxa… como se já tivesse estado ali antes. — Eu o conheço há tempos… — deixo escapar, sem querer. — Ele escondia isso. Sempre escondeu.
Vincenzo endurece.
— Do que você tá falando, Dess?
Abro a boca.
Tarde demais.
— De nada. — minto, rápido. De novo. Sempre. — Esquece. Eu… me confundi.
Ele não compra.
Claro que não.
— Vai guardar o quê, Dess?
— Nada. — insisto. — Coisa minha.
— Que coisa?
Reviro os olhos, irritada comigo mesma.
— As “preferências”. Pronto. Era isso.
— Que preferências?
Sustento o olhar dele.
— Você.
Silêncio.
— Ele te quer, Vincenzo. — cuspo, amarga. — Sempre quis. Só você nunca percebeu.
O riso dele morre antes de nascer.
— Para, Dess. Tá viajando.
— Não tô. — dou um passo à frente. — Ele já esteve com mulheres, sim… mas não é isso que ele prefere. Nunca foi.
O ar pesa.
Ele me encara.
Agora sério.
— Como você sabe disso?
Merda.
— Eu vi quando toquei nele. — respondo, rápido demais.
Mentira.
Ou não.
Já nem sei.
Fecho os olhos por um segundo, esperando que tudo isso suma junto com o ar nos meus pulmões.
Não some.
Forço um sorriso.
— Continua.
Ele ainda me observa.
Desconfiado.
Mas continua.
— Eu me ofereci. — diz, por fim. — Em troca da liberdade deles. De uma vida em paz.
Engulo seco.
— Vivemos juntos por um tempo. Como uma família… doente, mas funcional. — ele solta uma risada sem graça. — Até o acidente.
O carro.
O impacto.
A lembrança me atravessa como um soco.
— Enrico e Celeste morreram. — continua ele.
— Desde quando anjo morre? — corto, na hora. — E não revira os olhos. É uma pergunta válida.
— Não morrem. — ele responde, impaciente. — Desaparecem. Se perdem.
— Conveniente.
— Real.
Cruzo os braços.
— Continua.
— Quando encontramos Celeste de novo… ela não era mais a mesma. — a voz dele baixa. — Estava nas mãos da Legião.
— Mas… — franzo o cenho — Não era o exército de Lúcifer?
— Era pra ser. — ele solta, irritado. — Mas não era. Já entendeu agora que ela não segue regra nenhuma?
— Não! — explodo. — E isso só piora tudo!
Ele perde a paciência.
— Ao Mal, Dess! Ela pertence ao Mal! É isso que você quer ouvir!?
Silêncio.
Meu peito sobe e desce rápido demais.
— Eu não quero ouvir porra nenhuma. — rosno. — Eu quero ela longe da minha casa.
— Ela mudou.
— Mudou o caralho!
Dou um passo pra trás, tremendo.
— Na primeira chance que teve, invocou aquela coisa! Me prendeu dentro do meu próprio corpo! Você faz ideia do que é isso!?
Ele tenta me tocar.
Eu afasto.
— EU NÃO QUERO ESSA MULHER PERTO DOS MEUS FILHOS!
— Dess...
— NÃO! — grito. — Se ele não puder te levar, vai levar quem você ama! Você sempre soube disso!
Ele trava.
Por um segundo.
Só um.
— Antoine não. — diz, baixo.
— Como assim “não”!? — sinto o pânico subir. — Por quê?
Ele me encara.
E aí vem.
— Porque ela não é como nós.
O mundo gira.
— O que você tá falando…?
— Ela é um querubim.
Silêncio.
Um daqueles que engole tudo.
— Não. — balanço a cabeça. — Não mesmo. Chega. Chega dessa merda toda.
Vou até a pia, bebo água direto da torneira.
— Minha filha é normal. Eu encontrei ela na rua, vendendo bala de menta! NORMAL!
— Ela nunca foi normal. — ele diz, mais suave agora. — E isso é o que a protege.
— E o Matteo?
— Humano.
Isso me quebra.
Ele me abraça.
Dessa vez, eu deixo.
— Eu vou proteger vocês. — sussurra. — Custe o que custar.
Aperto sua camisa com força.
— Não deixa aquela mulher voltar pra nossa casa.
— Não vou.
— Se ela tentar alguma coisa…
— Eu sei.
Respiro fundo.
Tarde demais.
Vejo o gesto.
O dedo dele.
— Não, Vincenzo…
Ele encosta na minha testa.
— Me perdoa.
— NÃO DE NOVO...
O sopro vem suave.
As velas se apagam.
E eu vou junto.
Apesar de tentar disfarçar, Vincenzo ainda sente dores na cabeça e tremores nas mãos. Não preciso de meu dom para imaginar o esforço que faz ao dar aulas durante horas na academia. João se reveza com ele quando a exaustão toma conta de seu corpo.
Gostaria de ser a mulher que já fui. A guerreira destemida. Ajudá-lo. Mas, agora, eu me sinto um nada… à espera de que meu filho volte a aceitar meu leite.
— Ele tá mamando, Dess! — exulta Vincenzo num sussurro.
Emocionada, com os olhos marejados, eu o vejo sorrir ao meu lado. Aconchegando-se a mim, ele me incentiva:
— Nosso filho te ama, Dess. Não duvide disso. Nunca. Vamos passar por tudo isso juntos e, um dia, vamos rir de tudo.
— Espero que sim, amor. A dor passou? Já tomou seu remédio?
Um olhar lascivo aos meus seios expostos e ele cochicha:
— Tenho planos pra essa noite…
Prendo o riso enquanto ele continua:
— Gostaria de levar minha esposa pra jantar fora.
— Melhor não, amor. Precisamos economizar.
— Perdão por não te dar o que merece, Dess.
Cobrindo meus seios com a camisola, eu o repreendo com um selinho:
— Tenho tudo o que desejo. Tudo mesmo. Não fala assim. Me deixa triste.
— Há um mês que não faço amor com minha esposa. Sabia?
— Nossa. Que absurdo. Ela deve ser intragável.
— Não é não. A culpa é minha.
Matteo adormece em meu colo enquanto Vincenzo, assanhado, se aproxima do meu ouvido:
— Se ela não me quiser hoje… posso te convencer com jeitinho?
Afoita, acomodo Matteo no berço. Vincenzo, logo atrás de mim, beija minha nuca, acendendo algo que eu já estava tentando ignorar.
Como adolescentes, encostamos a porta do quarto, trocando beijos apressados, urgentes. As roupas vão ao chão sem cerimônia. Ele me ergue, me prende contra a madeira do guarda-roupa. A chave cai. A madeira range. Eu gargalho.
Com um beijo, ele me cala.
O resto é saudade sendo resolvida sem palavras.
Quando ele finalmente desacelera, encosta a testa na minha e sorri, ainda sem fôlego:
— Calma… ainda não acabou. Agora é a sua vez.
Antes de me puxar de novo, ele para.
A campainha.
— Quem pode ser, porra!? — reclama, irritado. — Já é tarde!
— Deixa tocar… — murmuro, beijando sua bochecha. — Antoine tá dormindo. Liam e Cassie viajaram. Deixa tocar.
A campainha insiste.
Irritante.
Insistente.
Estraga tudo.
De volta ao chão, visto minha camisola. Descalça, sigo até o corredor, apontando pra ele:
— Vai tomar um banho.
— Eu cuido disso — aviso, antes de abrir a porta. — Esteja pronto quando eu voltar, gostosão.
— Voltar de onde? Vocês pretendem sair?
Um súbito horror me atravessa. Levo a mão ao peito, sentindo o coração bater descompassado. O sorriso falso dela me desequilibra, me obriga a ser grosseira.
— O que faz aqui, Celeste!? As crianças estão dormindo! Seu filho e eu já vamos nos deitar!
Empurro a porta contra ela, mas ela entra mesmo assim, rindo, eufórica, olhando ao redor como se procurasse alguém.
— Celeste!
— Calma, meu bem. Viemos trazer ótimas notícias. Onde está Vincenzo?
— Aqui. — diz ele, visivelmente incomodado. — É tarde, Celeste.
Por quê? Ela o deixa desconfortável?
— Perdão, meu filho. — Enrico se adianta, envergonhado. — Ela estava incontrolável, Adessa. Eu disse pra esperarmos até amanhã, mas…
— Conta logo, Enrico! Conta!
— Ela é surtada assim mesmo ou é cocaína?
— Dess!
— Foi mal… — rosno, sem paciência. — Entra, Enrico. Fica à vontade. Você. — aponto pra ele. — Ela não.
Bato a porta com força, ainda ouvindo o risinho dela. Já peguei ranço. Não sei por quê. Não me lembro.
E isso me irrita mais ainda.
Aquela sensação de que tem alguma coisa ali… alguma coisa que eu deveria lembrar.
— Vou ao banheiro e já volto. — aviso, lançando um olhar atravessado pra Vincenzo. — Celeste, tenta rir menos. E mais baixo. As crianças estão dormindo. Obrigada. De nada.
Me tranco no banheiro.
Abro o chuveiro.
Abafando o grito.
— Empata-foda do caralho…
Encaro meu reflexo no espelho, sem entender por que essa mulher me tira do sério desse jeito.
Lavo o rosto. Me recomponho. Ou pelo menos finjo.
Enxugo com a toalha de Vincenzo.
Por um segundo, imagens distorcidas passam pela minha cabeça. O rosto dele… dor… alguma coisa errada.
Jogo a toalha na cesta.
Saio.
Instintivamente, passo pelo quarto de Matteo.
Paro.
Respiro.
Ele dorme.
Tranquilo. Como um anjo.
Alívio.
Cato nossas roupas do chão, jogo tudo no cesto, visto meu pijama e sigo pelo corredor.
O som das palmas histéricas de Celeste me irrita antes mesmo de eu chegar na sala.
Mas, assim que entro…
Silêncio.
Total.
Todos me olham.
Parados.
— O que houve? — pergunto, desconfiada. — Algum problema?
Enrico sorri.
Isso não é um bom sinal.
Vincenzo se aproxima de mim devagar, os olhos arregalados. Na mão direita, um papel A4.
Meu estômago afunda.
— Que porra de papel é esse, Vincenzo!? Fala!
Ele solta o ar com força.
Olha pra mim como se estivesse tentando decidir por onde começar.
— Você não vai acreditar, Dess.



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