CAPÍTULO 33 - MEU SANGUE. TEU SANGUE.


 


Recuperando-me da segunda pneumonia em menos de dois meses, observo Cassie vibrar enquanto me mostra cada detalhe do quarto do bebê.


Tudo perfeito. Planejado. Seguro.


Liam acaricia a barriga dela.


Do mesmo jeito que Vincenzo fazia comigo.


Antes de tudo desandar.


— Nada mudou, Dess.


— Cacete! — me viro — Para de fazer isso!


— Eu tô aqui faz tempo. Você que não me vê.


Matteo engatinha até nós. Vincenzo o ergue.


Quatro dentinhos. Riso fácil.


A gente sorri de volta.


Automático.


— Tudo melhorou — ele diz, baixo. — Nosso filho é saudável. Antoine tá bem. Feliz.


Uma pausa.


— A única coisa que piorou foi a nossa conta.


Reviro os olhos.


— Eu tô falando da tua doença. E desse teu vício idiota de tentar me comprar com luxo.


Aponto o dedo.


— E eu odeio quando você entra na minha cabeça. Odeio.


— Fica — ele segura minha mão.


— Me solta.


Vou pra cozinha.


— Vou ver a lasanha. Pelo menos isso eu não estrago… já que estraguei a tua vida.


— Quem disse isso?


— Vai pro inferno.



A cozinha de Cassie é perfeita.


Ampla. Quente. Acolhedora.


Eu caberia dentro do forno.


Talvez devesse.


— De novo?


— Porra, Vincenzo!


— Deixa eu ajudar.


— Não.


Me apoio na pia.


— Ainda tá cedo.


— Eu tô com fome.


Sorriso leve.


Errado.


— Você não manda aqui.


Ele me prende contra a parede.


— Eu queria ter uma casa assim. Pra te fazer feliz.


Algo estoura.


— Você é surdo? Eu NÃO quero isso!


Empurro ele.


— Eu já tenho tudo!


Os olhos dele escurecem.


— Então por que devolveu o dinheiro das aulas?


— Fala baixo.


— A nossa casa é menor que essa.


— Tá com inveja?


— Não. Eu não sinto isso… não aqui.


Travo.


— O que você é, então?


— Me diz você.


Encosto a cabeça no peito dele.


— Meu anjo idiota.


Respiro.


— Idiota pra caralho.


Silêncio curto.


— Por que você fez aquilo?


— Eu te pedi?


— Você não aguenta mais cuidar deles!


— Não inventa!


— Eu te ouço chorar!


— Porque nem água quente a gente tem!


— Eu vou resolver!


— Quando? Quando a Antoine tiver quinze?!


Silêncio.


Frio.


— Eu não vou chegar aos quinze, mamãe.


O mundo para.


Viro.


Ela tá ali.


Pequena.


Séria demais.


— Parem de brigar… — a voz falha — Papai fica com dor. Você não respira direito… o Matteo fica nervoso…


Meu corpo cede.


Caio de joelhos.


Abraço ela.


— De onde você tirou isso?


Olho pra Vincenzo.


— Fala que ela tá errada.


Ele não fala.


Ele sabe.


A conexão entre eles me atravessa.


De novo, eu fico de fora.


— Fala, Vincenzo!


A tosse vem forte.


Me afasto.


Parede fria.


Ar curto.


Cassie aparece com o xarope.


— Toma, tia. Relaxa. Ninguém vai morrer.


Engulo.


Mentira doce.


— Essa menina sempre foi estranha — ela ri. — Falou que eu não teria filho.


Pega minha mão.


Coloca na barriga.


— E olha aqui.


Sufoco.


Levanto.


— Desculpa…


— Para com isso — ela sorri — A gente também briga.


Ela pula em Liam.


— Nosso filho veio depois de uma briga boa, né, coelhinho?


Eles riem.


Leves.


Como se o mundo não tivesse rachado.





— Sim. — ele concorda, encantado.


Reviro os olhos.


— Aaah tá… — resmungo — Deixa eu adivinhar. Ela queria rosa. Você disse não. Depois voltou atrás. Aí ela mudou pra azul só pra te irritar, enquanto você defendia amarelo.


Cruzo os braços.


— “Quem manda nessa casa, coelhinho?”

— “Você, amor.”


Bufada.


— Grande briga. Quase separaram.


Vincenzo ri.


Eu não.


— Conta outra, Cassie.


Abro o forno.


O calor bate no rosto.


— Tá no ponto. Vamos comer?


— Vamos! — Antoine surge, animada demais. — Tô varada de fome, mãe!


Sorrio.


Forçado.


Decido.


Esquecer.


O que ela disse.


O que eu senti.


E, principalmente…


o que eu vi.


Quando toquei na Cassie.


Na barriga.


Não.


Eu não vi nada.


É o xarope.


Só pode ser.


Coloco o refratário na ilha.


Pesado.


Quente.


Levanto o olhar.


Liam.


Vincenzo.


Os dois me encarando.


Errado.


— Não tem música nessa casa, não?


Minha voz sai mais alta do que devia.


— Ou vocês preferem continuar invadindo a cabeça dos outros? Um bando de fofoqueiros do inferno.


Pego a lasanha.


Caminho.


Rápido demais.


— Sai da frente, Liam.


Ele não sai.


— Não vi nada. Relaxa.


Seguro.


Firme.


Mentira.


Ele segura meu pulso.


Forte.


— Se você viu alguma coisa… me conta.


O tom muda.


Agora é medo.


Não curiosidade.


Medo.


Inclino o rosto.


Sorrio de lado.


Frio.


— Eu contaria… se tivesse visto.


Solto meu braço.


— Como diria sua princesinha… fica “de boas”.




— Agora quem não pode é você, Cassie! — gargalho, já na terceira taça de vinho caro. — O mundo gira, meu bem!


— E você vai tombar se não parar de beber.


— Ah, cala a boca, Vincenzo! Bebe um pouco e relaxa!


— E quem vai dirigir a Kombi?


— Antoine.


Outra gargalhada.


— Ela dá conta. Todo mundo aqui sabe.


— Dess…


— Para de ser chato!


Cassie ri.


— Eu não ligo, tia. Não bebo faz tempo.


— Faz bem… — minha voz já arrasta — Vai ter que ficar sem por muito tempo mesmo. Pra dar leite pro bebê… rimou.


— Isso não foi rima — Vincenzo diz, jogado no tapete — Foi uma repetição patética.


Viro pra ele.


— Patético é você esquecendo que eu fiquei sem beber e sem fumar pra amamentar teu filho!


— Nosso filho.


Ele nem me olha.


— Devia ter continuado sem beber.


— O que é “beck”, mãe?


Silêncio.


— Beck? — repito.


Cassie se mete:


— “Beck Street Boys”, pirralha.


Eu rio.


— Eu era criança, tá?


Ela pisca.


— O que acontece em Vegas…


— Fica em Vegas.


— Você também, Cassie!? — Vincenzo levanta o rosto.


— Também o quê, coelhinho?


— Vai sair por aí “dando beck”?


— Eu dou o meu beck pra quem eu quiser.


— Opa! — Vincenzo ergue a mão — Esse beck é meu!


Eu caio do sofá rindo.


Rindo demais.


Rindo alto.


Cassie tira minha taça.


Eu puxo de volta, engatinhando.


— Não vou sujar teu tapete. Juro.


— Se sujar, limpa.


Ela fala tranquila.


Encostada em Liam.


Tudo fácil.


Tudo resolvido.


Eu encosto na parede quente da lareira.


— Gosto disso… “sujou, limpa”. Vida simples. Gente rica vive assim. Quebrou? Conserta. Comprou? Instala.


Olho pra ele.


— Comprou o chuveiro? Instala.


— Lá vem… — Vincenzo cobre o rosto — Eu mereço.


— Papai — Antoine deita ao lado dele.


Matteo tá sentado, me encarando.


Quase andando.


Por um segundo…


dá vontade de congelar isso aqui.


Pra sempre.


Antes de tudo dar errado.


— Ouviu, mamãe?


— Oi?


— Tá vendo? — Vincenzo resmunga — Nem ouviu.


— Cara, você é chato pra cacete!


— Mãe!


— Ai, desculpa! Mas teu pai tá insuportável. Velho e insuportável!


— Velho!?


— Se somar tua idade com a do Liam, dá pra ressuscitar um Tiranossauro.


Cassie ri sem entender.


— Deixa meu coelhinho fora disso!


— Velha! — Vincenzo rola no chão rindo — Ela te chamou de velha!


Bebo direto da garrafa.


Aliviada.


Ele não tá com dor.


Olho pro fogo.


— Talvez eu seja mais velha que você…


Silêncio.


— Não lembro.


Cassie inclina.


Curiosa.


— Vidas passadas?


Eu volto.


— Você não era corajosa assim lá em casa. Morria de medo dos vultos… das visões…


Parei tarde demais.


O clima quebra.


— Eu ainda tenho pesadelos… — a voz dela falha — Ela querendo o sangue da Antoine…


Merda.


— Desculpa, Cassie...


Ela se encolhe contra Liam.


— Ela apareceu… e…


— O que ela disse?


— Nada.


A mão dela vai pra barriga.


— Só sorria.


Frio.


Levanto.


Vou até ela.


— Esquece isso. Sweet não vai tocar em você.


Mentira.


— Então quem era?


Olho molhado.


Engulo.


— Sua imaginação, meu anjo.


Liam aperta ela mais forte.


— Você passou coisa demais com a gente…


Minha voz falha.


— Me perdoa.


Ela balança a cabeça.


— Você me salvou, tia.


Isso corta.


Fundo.


— Sem você, eu não sei onde estaria.


Caio no tapete.


— Porra…


Rio chorando.


— Para com isso, Cassie. Segunda mãe? Agora eu me sinto uma anciã do caralho!


— MAMÃE!


— Deixa ela — Vincenzo diz baixo — Ela se perde nessas músicas velhas.


Olho pra ele.


Ele me olha de volta.


E sorri.


Como se nada tivesse quebrado.





Me distraio com Matteo enquanto o resto da casa volta ao normal.


Risos. Conversas. Música.


Perfeito.


Então eu posso pensar.


No que vi.


Em quem vi.


No quarto de Cassie.


Esperando pelas filhas.


Com a garrafa vazia na mão, finjo cambalear.


Vincenzo não precisa saber.


Caminho descalça até a suíte.


Ela está lá.


— Por que ainda está aqui, Sweet?


Minha voz sai baixa.


— Eu vi o Arcanjo te levar.


Um passo.


— Você fugiu?


Os olhos dela brilham.


Tristes.


— Não.


Silêncio.


— Ele ainda quer uma vida, amiga. Eu vim impedir.


Frio.


— Não precisa. — avanço — Eu cuido disso.


Toco o rosto dela.


Gelado.


Errado.


— Vai descansar. Suas filhas te esperam.


Ela segura meu olhar.


— Não quero que você sofra.


Engulo seco.


— Não vou.


Dou um passo atrás.


— Volta.


Mais firme.


— Em nome do Criador… volta pro teu lugar e deixa ela em paz.


Silêncio.


Ela some.


Como se nunca tivesse estado ali.


— Dess? Com quem você tava falando?


Vincenzo.


Na porta.


— Sei lá.


Procuro.


Nada.


— Tava procurando o banheiro.


— Dess.


— Sério.


Sorrio.


Mentira mal feita.


— Achei.


Entro.


— Esse aqui tem quatro temperaturas diferentes.


— Puta que pariu…


Eu puxo ele.


Sem delicadeza nenhuma.


— Vem.


— Dess...


— Agora.


Olho no olho.


— Me fode com força.


Silêncio curto.


Respiração pesada.


— Rapidinho?


— Rapidinho.


Sorrio.


Errado.



Finalmente…


Vincenzo decide instalar o chuveiro.


Nosso banheiro pequeno.


A vida real.


Antoine na escola.


Matteo no cercadinho.


Rindo pra TV.


Quase andando.


Quase falando.


— Fala “mamãe” — eu gravo — Mamãe. Não “papai”. Mamãe.


Rio sozinha.


Idiota.


Dou um passo pra trás.


Outro.


O banheiro.


Vincenzo no banco.


Chuveiro aberto.


Faísca.


Um estalo seco.


Ele se assusta.


Eu rio.


Um segundo.


Só um.


O corpo dele despenca.


O som da cabeça no piso molhado engole o riso.


— VINCENZO!


O celular voa.


O corpo dele treme.


Forte.


Violento.


Errado.


Não é choque.


Eu sei.


Eu já vi.


— Não…


O ar some.


— Não. Não. Não.


Arrasto ele.


Pelas axilas.


Peso morto.


— Aguenta! Aguenta!


A banheira.


Água fria.


Mão tremendo no ralo.


— Fica comigo!


Metade do corpo dentro.


A outra não responde.


Sangue.


Pouco.


Mas suficiente.


Mistura na água.


Marrom.


— Não me deixa!


Empurro as pernas.


Com força.


Ele vira.


De bruços.


Afunda.


— MERDA!


Puxo.


Giro.


Desespero puro.


Ele volta.


Por um segundo.


Olhos abrem.


Dor.


Só dor.


— Volta… — minha voz quebra — Volta, amor… volta.


— Matteo…


Uma palavra.


E tudo volta.


O corpo dele trava nas minhas mãos.


Contrações.


Fortes.


Violentas.


Perco ele de novo.


A água se move ao redor.


Sangue na minha mão.


Quente.


Errado.


Eu abraço.


Com força.


Como se desse pra segurar a alma dele no lugar.


— Matteo… — a voz falha — Na sala…


— Não me deixa — eu imploro — Fica comigo.


Ele some.


De novo.


Olhos revirados.


Corpo em guerra.


— VOLTA!


O choro corta o ar.


Matteo.


Na sala.


Alto.


Assustado.


Meu corpo trava.


Escolha.


Agora.


Ele pode se afogar.


Meu filho pode estar sozinho.


Mas ele não está.


Eu sinto.


Tem algo lá.


Algo pior.


Muito pior.


Solto o ralo.


A água desce.


Rápido.


Frio.


Arrasto Vincenzo.


Deito.


Toalha sob a cabeça.


Mãos tremendo.


— NÃO SE ATREVA A MORRER!


Escorrego.


Caio.


A dor sobe pela coluna.


Apaga tudo por um segundo.


Respiro.


Volto.


Levanto.


Corro.


Paro na sala.


E ele está lá.


Segurando meu filho.


— MALDITO!


Avanço.


Lúcifer sorri.


As unhas dele tocam a pele do Matteo.


Leve.


Devagar.


Ameaça pura.


Minha visão falha.


Dobra.


Eu cedo.


Deixo ela vir.


O estilete já está na minha mão.


— TE AFASTA. EM NOME DO CRIADOR.


A voz não é minha.


Ele ri.


— E seus desenhos inúteis? Cadê o sal?


Minha mão abre a pele do pulso.


Sangue.


Quente.


Real.


O círculo se fecha ao meu redor.


— Louca… — ele observa — Que sujeira.


— Devolve a criança.


Calma.


Fria.


Ele inclina a cabeça.


— Não é ele que você quer.


— É.


Um passo.


Ele aperta Matteo.


— Seu marido está morrendo.


Cada palavra pesa.


— Mais alguns minutos… e acabou.


Silêncio.


Respiração.


Eu não penso.


Eu ajo.


Rasgo o próprio pulso.


O sangue dele escorre.


Dentro do círculo.


Junto ao meu.


— Meu sangue é o teu sangue.


A voz cresce.


— Retrocede.


Ele hesita.


Pela primeira vez.


— Quem é você?


Um passo atrás.


Sombra falha.


— Sangue do teu sangue.


Pausa.


— Mas nunca teu.


Os olhos dele mudam.


Raiva.


— Pai?


Desprezo.


— Impossível.


— SOME.


A ordem corta o ar.


— Em nome do Criador… SOME.


Ele vacila.


Confuso.


— O que você fez…?


O corpo dele falha.


Desmancha.


Como fumaça.



A campainha explode.


— MÃE!


A voz da Antoine.


A porta cede.


Enrico entra.


Lúcifer já não está.


Eu caio de volta.


No meu corpo.


Dor.


Cansaço.


Sangue.


Matteo.


Intacto.


Como se nada tivesse acontecido.


Enrico prende meus pulsos com o que encontra.


— No banheiro… — eu sussurro.


Homens invadem.


Branco.


Pressa.


Vozes.


Vincenzo passa por mim.


Inerte.


Levado.


— Volta pra mim…


A voz some.


— Ele vai voltar — Antoine segura minha mão — Descansa.


Um beijo.


Nos pulsos.


Fecho os olhos.


E cedo.


Eles me esquecem.


Por tempo suficiente.


Tempo pra ela me levar.


Tempo pra eu ver.


A verdade.



Anahita

Século VI A.C.


“Seannachie”.


Era assim que a chamavam.


Uma contadora de histórias.


Histórias de magia, amor e guerra… passadas de geração em geração.


Viemos de terras distantes, fugindo de guerras e da escravidão.


Minha avó e eu encontramos paz entre o povo pagão que, mesmo convivendo com fadas, duendes e faunos… nos temia.


Temiam a luz que emanava dela.


Foi ela quem me ensinou tudo.


Terra.


Vento.


Água.


Fogo.


Mares, rios, árvores.


Tudo tinha voz.


Tudo tinha força.


E eu precisava aprender.



— Você vai lutar — ela dizia.


— Contra o quê?


Eu ainda era criança.


Ainda acreditava que o mundo explicava as coisas.


Ela sorria.


Sempre sorria.


— Tudo no tempo certo.



Ela quase nunca falava da minha mãe.


E eu aprendi a não perguntar.


Porque, quando perguntava… ela chorava.



Minha mãe morreu dias depois do meu nascimento.


Lenta.


Dolorosamente.


Por causa de um homem…


que eu aprendi a temer antes mesmo de conhecer.



Cresci entre eles.


Aprendi seus rituais.


Suas crenças na terra.


Na alma.


Naquilo que nunca morre… só muda de forma.


Com o tempo, deixei de temer as mulheres do nosso povo.


Selvagens.


Belas.


Livres demais.



Participei de quase todas as celebrações.


Quase.



Nunca das que exigiam sangue.



Os gritos…


Os urros…


A forma como perdiam o controle…


Aquilo não era devoção.


Era outra coisa.


Algo que eu não entendia.


Mas sentia.



Minha avó sabia.


Sempre soube.


E me tirava de lá antes que eu visse demais.


Antes que eu aprendesse o que não devia.



Fomos para o alto de um penhasco.


Longe.


Só nós duas.


Construímos nossa casa com barro, madeira e silêncio.


E, por um tempo…


houve paz.



Tempo suficiente pra eu vê-la envelhecer.


Tempo suficiente pra segurá-la enquanto partia.



Ela morreu em meus braços.


Sem medo.


Sem dor.


Como quem já sabia o caminho.



Antes de fechar os olhos, ela me disse:


— Siga o seu coração.


Sua mão tremia na minha.


— Você é uma alma limpa.


Uma pausa.


Um peso.


— Não importa quem seja o seu pai.



Mas importava.


Sempre importou.



E eu ainda iria descobrir o porquê.




Sozinha.


Segui o conselho dela.


E aprendi a ouvir.



Minha intuição falava baixo.


Mas nunca mentia.



Ao meu redor, ergui barreiras.


Não de pedra.


Nem de madeira.


De magia.


Muros invisíveis aos olhos humanos.


Fortes o suficiente para manter afastados os homens.


Nem todos.


Mas a maioria.



Eles haviam se tornado outra coisa.


Selvagens.


Famintos.



As mulheres ainda vinham.


Sempre vinham.


Feridas.


Doentes.


Quebradas por dentro.


Minha fama se espalhou rápido.


Curandeira.


Bruxa.


Salvação.


Ou maldição.


Dependia de quem perguntava.



A tribo crescia.


E piorava.



Do alto do penhasco, eu ouvia.


Os uivos.


As vozes.


Os corpos se perdendo em noites de lua cheia.



Sacrifícios.


Sempre sangue.


Sempre gritos.



Para um deus…


que não era o meu.



Recusava-me a acreditar que o mesmo Criador que moldara o mar, o vento, a vida…


aceitaria aquilo.



Sentada à beira do abismo, eu chorava.


Não de medo.


De saudade.



Do som da voz dela.


Do calor de suas mãos.


Da paz que morreu com ela.



Mas a paz não alimenta.



Pela manhã, eu descia.



E trabalhava.



Ervas.


Raízes.


Misturas.


Unguentos que curavam.


E outros…


que não.



Em troca, recebia comida.


Silêncio.


E, um dia…


uma lâmina.



Forjada no coração de um vulcão.


Pesada.


Quente mesmo depois de fria.


Viva.



Uma espada.



Não apenas para homens.


Nem apenas para monstros.



Para o que viesse.



Eu a aceitei sem hesitar.


Porque, no fundo…


eu já sabia.



Aquela lâmina não era proteção.



Era destino.



E eu a guardei.



Não por necessidade.



Mas porque sabia…


que um dia…


eu a usaria.




À noite, à beira do penhasco, eu pedia perdão.


— Eu me desviei, vó… — sussurrava. — Eu me sinto tão só. Fala comigo… por favor.


O silêncio respondia.


Até que, numa dessas noites…


eu o vi.



As nuvens se moveram.


Não como vento.


Como presença.


Algo desceu.


Lento.


Seguro.


Asas imensas cortando o céu.



Afastei-me.


Mão firme na espada.


— De onde veio? — indaguei. — E qual a natureza dos teus sentimentos?


Ele parou.


Calmo demais.


— Meu coração é bom. Não precisa da espada.


— Não me diga o que fazer. Eu não te conheço.


A lua surgiu entre as nuvens.


E iluminou seu rosto.


Perfeito.


Errado.


Bonito demais pra ser seguro.




Recuo.


Cravo a lâmina na terra.


— Já ouvi histórias sobre vocês… — alerto. — Descendem dos céus e fazem mal às mulheres.


Ele franze levemente o cenho.


— Não faço parte dessas histórias, Anahita.


Meu corpo enrijece.


— Como sabe o meu nome?


— Eu ouvi.


Simples assim.


Como se isso explicasse tudo.



Ele hesita.


Olha para a espada.


— Pode afastá-la? Ela me assusta.


— Assusta? — rio, descrente.


— Não sou afeito à violência. — um leve sorriso — É a minha primeira vez aqui.


Primeira vez.


Mentira… ou ingenuidade demais.



— Você conhecia minha avó? — dou um passo à frente — A viu? Ela falou de mim?


Os olhos dele brilham.


— Ela está bem. Em um lugar… melhor. Ao lado do Nosso Pai.


— Pai? — a palavra me corta — Eu não sei quem é o meu.


— O Criador.


Silêncio.


Ele se senta ao meu lado.


As asas se recolhem.


Naturais.


Como se sempre tivessem pertencido ali.


— Sabe que, se cair daqui, o estrago é grande… — comenta, olhando o abismo.


Um riso escapa.


Curto.


— Não precisa me temer.


— Eu não confio em homens.


— Ainda bem que não sou um.


Os olhos dele encontram os meus.


Firmes.


Curiosos.


— Sou um anjo.


— Com defeitos?


— Alguns.


— Que defeitos?


Ele inclina a cabeça.


— Se eu contar… você me expulsa?


— Talvez.


— Então prefiro que descubra.



Não lembro da última vez que ri assim.


Ou se já ri.



— Por Deus… eu não sou um homem — ele resmunga, divertido — Eu desci por curiosidade. Muitos falam de vocês.


— Vocês quem?


— As mulheres da Terra.


Reviro os olhos.


— Não sou uma delas.


— Não?


— Moro sozinha. Não tenho ninguém.


Ele estende a mão.


— Agora tem.


Hesito.


Aceito.


— Cassiel.


O nome pesa.


Estranho.


Antigo.



— Anahita… — ele repete — Não é um nome celta.


— Não sei de onde veio.


— É o nome de uma de nossas irmãs.


— Irmã?


— Os humanos a chamam de deusa.


Solto um riso triste.


— Então estou no lugar errado.



— Você ainda vai viver muito aqui — ele diz.


— Não quero.


— O que você faz?


— Coisas que nem sempre servem para o bem.


Ele não recua.


— Entendo.


— Não. Não entende.


— Não te condeno.


— Todos condenam.


— Eu não sou todos.



— Esse lugar é pesado — digo.


— Pesado?


— Sufocante.


Ele franze o cenho.


— Difícil, então.


Reviro os olhos.


— Todos os anjos são assim… ou você é um caso raro?


Ele ri.


E o som me desarma.



— Dizem que vocês descem e engravidam mulheres… — provoco.


— Se eu fizesse isso… não abandonaria.


— Duvido.


— Nunca fiz.


Ele sorri, quase envergonhado.


— Nem saberia como.



— Como atravessou meus muros?


— Talvez porque eu não seja o que você teme.



Silêncio.



— Posso saber se você mente — digo.


— Como?


— Tocando você.


Ele recua.


— Não.


— Medo?


— Talvez você veja coisas que eu ainda não entendo.


— Tipo?


Ele me observa.


Demais.


— Que gosto de você.


O ar muda.


— Não me olhe assim.


— Não tenha medo.


— Eu nunca fui tocada.


A confissão pesa.


— Nem por homens. Nem por anjos.


— Então eu devo me sentir honrado… ou perigoso?


— Os dois.



— Esse seu sorriso… — murmuro — Me dá medo.


— Medo?


— Arrepia minha nuca.


Ele sorri mais.


Idiota.


— Isso tem outro nome.


— Qual?


— Se eu disser… você me expulsa.



Rimos.


E o riso morre devagar.


Olhares presos.


Respiração errada.



Ele se afasta.


As asas se abrem.



— Vai voltar? — pergunto, antes que suma.


Silêncio.


Então a voz dele…


dentro da minha cabeça:


“Sim.”


Uma pausa.


“Por você.”





E ele retornou.


Por mim, ele retornou.


Ríamos juntos. Conversávamos do anoitecer ao nascer do sol, quando ele, contra a própria vontade, alçava voo de volta ao céu. Um céu cada vez mais azul, mais vivo… quase injusto.


Eu o esperava todas as noites.


Vestia o que tinha de melhor — ainda que fosse pouco. Farrapos remendados inúmeras vezes. Antes, não me importava. Agora… tudo era diferente.


Eu queria… não.


Eu precisava estar bonita quando ele me visse.


Uma vontade nova crescia dentro de mim a cada toque seu. Quente. Estranha. Impura.


Pensava em mostrar meu corpo a ele. Em entrar no lago. Em deixá-lo me ver.


Queria vê-lo também.


Seu corpo. Suas asas. Seu rosto perfeito. Seus dentes sempre brancos… tão diferentes dos homens da aldeia — homens que eu já não procurava desde que ele surgira em minha vida.


Ele me ensinava sobre seu mundo. Sobre seu Deus.


Eu o ensinava a dançar. A plantar. A colher.


— Aceito — disse certa noite, deitada ao seu lado sobre a relva úmida. — Aceito o seu Deus como o meu.


Virei o rosto em sua direção.


— O que sente quando está comigo?


Ele demorou.


— Não sei… é forte. Forte demais. Me assusta. Quando estou com você, só penso em não perder esse momento. E, quando vou embora… só penso em voltar. Dói. O que é isso?


Soltei um riso baixo.


— Não faço ideia.


E, pela primeira vez… era verdade.


— Sinto o mesmo — confessei. — Quero você aqui o tempo todo. Não tenho medo quando estou com você. Confio… e quero me entregar.


Ele franziu o cenho.


— Entregar?


Arrependi-me no mesmo instante.


— Esquece. Eu… falei demais.


— O que isso significa?


Hesitei.


— Aprendi com as mulheres da aldeia. Elas… se entregam aos homens. Dentro das cabanas. Há sons… estranhos.


Ele pareceu genuinamente curioso.


— Se você se entregar a mim… faremos esses sons?


Ri, sem conseguir evitar.


— Eu não sei.


Baixei o olhar, envergonhada.


— Perdão.


Ele limpou minhas lágrimas com uma delicadeza que quase doía.


E então me puxou para dançar.


— Não há música — murmurei.


— Há, sim — respondeu, fechando os olhos. — Sempre há. Ouça.


Fiquei em silêncio.


— Consegue ouvir?


Balancei a cabeça.


— Ainda não.


Ele se aproximou mais, trançando meus cabelos devagar.


— Feche os olhos.


Obedeci.


Respirei.


E então…


— Eu ouço — sussurrei. — Eu… te sinto.


Houve um silêncio.


Denso.


— Eu quero me entregar a você, Anahita — disse ele, a voz mais baixa do que nunca. — Você pode me ensinar?


Abri os olhos devagar.


— Tem certeza de que não sabe?


— Nunca fiz isso antes.


Claro.


Um anjo.


Puro.


Inexperiente.


Perigoso.


— Então vamos aprender juntos.





Minha avó jamais me falara sobre o amor entre um homem e uma mulher.

Talvez soubesse… que eu não amaria um homem.


Mas um anjo.


Em seus braços, aprendi a ser mulher.

Nos meus, ele se tornava homem — ainda que por poucas horas.


Horas preciosas. Eternas.


Eu levaria aquela noite comigo até o fim dos meus dias.


A noite em que um anjo deixou sua semente dentro de mim.


Ela crescia.


A cada dia.


Sozinha.


“Eu te amo. Volto em breve.”

Foram suas últimas palavras.


Antes da Escuridão chegar.


Isolada. Amaldiçoada pelo mesmo povo que um dia me acolheu, conto as luas à sua espera.


Nosso filho cresce dentro de mim enquanto imploro ao Deus dele — agora também meu — que o traga de volta.


— Você o conhece?


A voz me faz erguer o olhar.


— Sim. — responde o outro anjo. — Ele é meu melhor amigo.


Seu sorriso… me arrepia.


— Posso me aproximar?


— Pode.


Ele tenta.


E falha.


— Não consigo.


Inclino a cabeça, desconfiada.


— Estranho… ele atravessou meu muro sem esforço.


Silêncio.


— Deixa-me passar.


— Onde está Cassiel?


— Preso.


Meu corpo trava.


— Preso? Por quem?


— Pelo Criador.


— Por quê!?


— Insubordinação.


Uma pausa.


— Talvez… você tenha culpa nisso.


— Eu!?


Ele não responde direto. Me entrega uma história. Uma versão.


Diz que ele voltará.


Eu escolho acreditar.


Porque a solidão… dói.


Dói mais do que a dúvida.


Os dias se arrastam.


As noites se repetem.


E então… ele volta.


Não o meu anjo.


O outro.


— Houve uma rebelião no Céu — diz ele, quase satisfeito. — Cassiel liderou.


O mundo perde o eixo.


— Ele foi punido.


Minha mão encontra o cabo da espada.


— Extinto.


Silêncio.


— Para sempre.


O ar desaparece dos meus pulmões.


— Isso é mentira…


— É o Deus dele quem o tirou de você.


A lâmina treme em minha mão.


— Meu Cassiel jamais faria isso.


— “Seu” Cassiel? — ele ri, ácido. — Que intimidade.


Dou um passo à frente.


— Ele me ama.


A gargalhada dele corta como lâmina.


— Assim como amou todas as outras.


O chão some sob meus pés.


— Você acreditou nisso?


— Eu fui a primeira.


— Claro que foi. — veneno puro. — Todas acham que são.


Meu peito aperta.


— Ele não mentiria…


— Ele já mentiu.


Silêncio.


Então ele vai mais fundo.


Muito mais fundo.


— Sua mãe também acreditou.


Meu sangue esfria.


— Não…


— Eu a quis.


O mundo para.


— Eu a toquei.


— Para…


— Eu a fecundei.


Minhas pernas falham.


— Eu a fiz sofrer.


— PARA!


— E eu a matei.


O silêncio que vem depois… é vazio.


— Quem é você…?


— Seu pior erro.


Um sorriso.


— Seu pai.


O abismo está atrás de mim.


A multidão à frente.


E dentro de mim… vida.


— Pule — ele diz, suave.


Olho para o vazio.


— Cassiel não iria querer isso…


— Ele te espera do outro lado.


Meu coração vacila.


— Tem certeza?


— Absoluta.


Um sopro frio.


— Ou prefere terminar como sua mãe?


Minhas mãos tremem.


— Minha mãe está em paz…


— Por enquanto.


Ergo a espada.


Pesada.


Quase impossível.


— Você é maligno.


— Finalmente percebeu.


O chão racha aos seus pés quando a lâmina toca a terra.


Ele sorri.


— Pena que não importa mais.


O cheiro de fumaça chega primeiro.


Depois… os gritos.


Minha casa.


Meu refúgio.


Tudo queimando.


— Eles são fáceis de manipular — ele diz. — Assim como você.


A multidão se aproxima.


Olhos vazios.


Bocas abertas.


Fome.


Violência.


— Pule.


Levo a mão ao ventre.


— Vai doer?


— Muito.


Fecho os olhos.


Abro.


E escolho.


Com o resto de força que ainda existe em mim… ergo a espada.


E ataco.


A lâmina atravessa seu peito.


Sangue escuro.


Podre.


Ele grita.


Eu solto a espada.


Ela cai.


Desaparece no abismo.


Erro.


Grave erro.


Ele avança.


As asas batem.


O mundo gira.


— PULE!


Perco o equilíbrio.


O corpo cede.


E então…


— ANAHITA!


A voz.


A dele.


Tarde demais.


Nossos dedos se tocam.


Por um segundo.


Só um.


E eu caio.


O impacto nunca chega.


Não há dor.


Apenas…


silêncio.


E saudade.


Dele.


Do meu filho.


Da vida que nunca aconteceu.


E então… sobra apenas uma coisa.


Vingança.




Dias Atuais


— Foi um sonho. — afirma Liam.


— Foi muito real, Liam! Eu senti seu toque, seu cheiro!


— Há sonhos que parecem reais, Adessa. Não se deixe abater por isso. Não há nada de maldito em você ou em seu filho. Você é uma alma bondosa.


Faço uma careta.


— Eu não tenho nada de bom, Liam. Mas isso não me preocupa. — Diante da máquina de cappuccino, arquejo, dolorida. — Temo pelo nosso filho. Se for real, ele carrega o sangue daquele verme.


Liam toma o copo da minha mão.


— Não há nada de real em um sonho. Por isso são chamados de sonhos. Ok?


— O que vocês tanto cochicham? Vou ficar com ciúmes!


Cassie surge, tomando o copo das mãos de Liam. Reviro os olhos.


— Era o que me faltava… você com ciúmes de mim.


Caminho de volta ao quarto.


Antes de entrar, paro.


Vincenzo está deitado, olhando o céu pela janela.


Levo a mão à boca, tentando conter o choro.


Por que a gente faz isso? As lágrimas saem dos olhos.


Inútil.


Enxugo o rosto com o dorso da mão e entro com um sorriso falso.


— Não adiantou nada, Dess. — diz ele, recostado, a cabeça enfaixada. — Eu ouvi tudo.


— Tudo o quê, idiota?


Não quero que ele saiba.


— Sua cabeça ainda dói?


— Não desconversa, pateta. — Ele bate no colchão. — Senta aqui e me conta essa porra de sonho.


— Nunca. Eu não sonhei, palerma.


— Então conta o que viveu, cretina. — O olhar desce pros meus pulsos. — Já renovou esse curativo? O que você fez, Dess?


— Sei lá. Abriram.


— Pulsos suturados não se abrem, cacete.


— Os meus abriram.


— Você cortou isso há séculos!


— OS MEUS ABRIRAM!


— Não precisa gritar. Eu ainda ouço bem. — Ele estreita os olhos. — O que Lúcifer tem a ver com isso?


Congelo.


— Quem falou dele?


— Você pensou, ridícula.


Ele ri… e leva a mão à cabeça.


— Porra… não posso rir.


— Apesar de parecer, você não é pai-de-santo, Vincenzo. Para de me irritar!


O sorriso some.


— Você tentou se matar?


Silêncio.


— Não me deixa, Dess… — a voz falha — Eu vou melhorar, cachorra.


— Desde quando eu sou mulher de largar marido e filhos? Foi um acidente!


— Uau. Um acidente. — Ele ergue a sobrancelha. — Escorregou, cortou os dois pulsos… coincidência linda.


— Não vou te explicar nada, bastardo!


— Nem precisa. Já sei que fez merda.


— Merda pra salvar nosso filho, imbecil! E ainda me olham como se eu fosse uma suicida!


— O que eu mais gosto em vocês — diz Cassie, entrando — É o carinho. Tão delicados…


— Liga não, Cassie. — responde, seco. — Ela quer coisa que eu não posso dar agora.


— Copiei, “chefe”. — Cassie pisca.


— Melhor que “Coelhinho” — solta Antoine. — “Little Princess” é ridículo.


— Ridícula vai ser tua saída desse quarto se continuar se metendo em assunto de adulto.


— Ela defendeu a gente, Dess.


— Cala a boca, Vincenzo! — rosno. — Antoine é criança. E nós somos os pais. Se você continuar passando a mão na cabeça dela, vamos criar um monstro.


— Nunca… — Ele olha pra filha, completamente rendido. — Antoine é um anjo.


— Gostei, pai!


— Shhh! — corto. — Vão descobrir você aqui.


— Vou ficar quietinha. Debaixo da cama.


— Não precisa disso, querida. — diz Liam. — Ninguém vai tirar você daqui.


— Você tem poderes igual ao meu pai?


— Não, filha. — suspira Vincenzo. — Seu pai já foi herói. Hoje tá no bagaço. Tio Liam que tá com tudo.


Ela ri e se joga nas pernas dele.


— Te amo, pai.


— Te amo, filha… Você vai ver. Eu saio daqui rapidinho.


— Podes crer.


A gente ri.


Por alguns segundos, tudo parece normal.


Até não parecer.


— Bebe esse café, Dess — ele diz. — Tá segurando isso há séculos.


— Tá frio. — faço careta. — Cadê o médico?


— Só amanhã.


— Não mesmo.


Viro na porta.


— Aonde vai?


— Falar com ele. Você já não era bom da cabeça antes. Agora piorou. Perguntou quando vai ter alta?


Silêncio.


Olho ao redor.


Todos evitam meus olhos.


O ar pesa.


— Ei… o que tá acontecendo?


— Calma, Dess…


— Calma é o cacete!


Avanço até a cama.


— Tá escondendo o quê de mim?


— Não…


— Mamãe… — Antoine segura minha mão. — Papai não pode falar muito.


— Você estava aqui quando o médico veio?


Ela assente, tranquila demais.


— Eu me escondi no banheiro.


A abraço com força.


— Conta pra mamãe o que ele disse. Tudo.


— Não, filha — diz Vincenzo, tenso.


— Eu vou. Ela precisa saber.


Ela me encara.


Séria.


— Promete que vai ficar calma?


Mentira fácil.


— Prometo. Conta tudo.




Invado a enfermaria à procura de respostas. Discuto com uma ou duas enfermeiras até que uma terceira, mais velha, me retira da sala com uma calma irritante.


No corredor da ala onde Vincenzo está internado, eu disparo:


— Preciso de notícias sobre o meu marido e ninguém aqui sabe quando o médico vai voltar.


— Peço que se acalme, senhora.


— Você se acalmaria se o homem da sua vida estivesse prestes a morrer? — Minha voz falha. — Eu só quero saber o que ele tem e o que pode ser feito pra que ele saia daqui saudável. Ele era o homem mais saudável da Terra antes de se casar comigo… — rio, sem humor. — Eu estraguei a vida dele. Você consegue entender isso?


— Tente respirar só um pouco.


Obedeço. Mais por exaustão do que por escolha.


Ela me conduz até a capela. Pequena. Silenciosa. Aconchegante demais pra alguém prestes a desmoronar. Sussurros de oração escapam das paredes. No altar, um anjo que não reconheço. Acima dele, o Crucificado.


— Perdão… — digo, sentando ao lado dela. — Eu tô perdida. Tem acontecido tanta coisa… eu não consigo respirar. Eu só queria viver em paz com meus filhos… com o homem que amo…


— Bem-vinda à vida na Terra, filha. — Ela sorri com uma serenidade que me irrita. — Momentos felizes são raros. Por isso, quando vêm, devemos nos entregar a eles.


— Me deixa falar com o médico dele.


— Não precisa. Eu acompanho o caso do seu marido.


— Ótimo. Então seja direta. Força e fé não vão curar uma anemia que causa convulsões.


— Força e fé levam você até as respostas.


Reviro os olhos.


— E a resposta?


— Uma transfusão. Grande.


— Então façam!


— Dificilmente farão.


— Por quê?!


— Ele pode morrer durante o processo. E o doador também.


— Eu posso doar. Nosso sangue é compatível.


Ela sorri. Aquilo me dá um arrepio.


— Não é. O sangue dele… é diferente.


— Como você sabe?


— Sou eu quem colhe.


— E o meu não serve por quê?


— Você sabe.


— NÃO SEI!


Minha paciência acaba ali.


— Se a senhora não me disser algo concreto agora, eu juro que...


— As convulsões podem ter outra origem.


— Qual?


— Posso especular.


— ESPECULA!


Ela me encara, calma demais.


— Você acredita em ataques espirituais?


O silêncio pesa.


— Isso não faz sentido. Você é da área da saúde.


— Não falei de religião. Falei de espiritualidade.


— É a mesma merda!


— Tudo está ligado, querida. Você… Vincenzo… sua filha…


Meu corpo trava.


— Como você sabe o nome dela?


O sorriso muda.


E fica errado.


— Nós sabemos de muita coisa.


Meu estômago afunda.


— Melhor cooperar. Deixar que Vincenzo siga o caminho dele. Você mesma disse… faz mal a ele.


O golpe vem seco:


— Você não passa de uma puta com quem ele teve um filho por acidente.


Silêncio.


Frio.


— Vai pro inferno. — minha voz sai baixa. — Fica longe da minha família.


— Estamos juntos há séculos.


— Nome. Agora.


— No nay never, vagabunda.


Levanto num impulso e corro até o altar.


Quando olho de volta…


Ela não é mais ela.


— O filho é meu. O homem também.


— Celeste…


— Não vou desistir dele. Nem do sangue que vai nos libertar.


— Você enlouqueceu!


— Não tenho escolha.


— TEM! SEGUE A PORRA DA LUZ! O ENRICO TE AMA!


Um sorriso vazio.


— Não o suficiente.


— Desgraçada…


Caio de joelhos.


Fecho os olhos.


— Sai daqui. Em nome do Criador… sai da nossa vida.


Uma mão toca meu ombro.


Eu surto.


— NÃO ME TOCA!


— Adessa… — a voz suave me atravessa. — Você está bem?


Enrico.


Eu olho. Ainda desconfiada.


— Como eu sei que é você?


Ele sorri, triste.


— Boa pergunta.


Suspira.


— Vamos ver meu filho.


Eu desabo no abraço.


— Eu tô com medo…


Por um segundo, vejo um jardim. Um castelo. Celeste sorrindo para ele como se nada estivesse errado.


— Ela sempre foi assim? — pergunto.


— Sempre foi instável. — ele responde baixo. — Eu a amava.


As portas do elevador se abrem.


— Amava?


Ele me encara.


Cansado.


— Tudo tem limite… até o amor.


Silêncio.


Dois segundos depois, ele muda completamente de expressão:


— Por que você nunca me falou desse tal de “Pix”?


— …o quê?


— Teria me poupado muito tempo.


Saio atrás dele pelo corredor.


— ENRICO!




Assim que Enrico faz sua entrada triunfal no quarto de Vincenzo, Antoine se joga sobre ele, enchendo suas bochechas rosadas de beijinhos. Sou obrigada a recorrer à elegância de Liam, que a resgata antes que o homem perca o fôlego.


Recuperando-se, Enrico começa seu relato, dramático como a própria neta.


Conta que quase perdeu as esperanças ao ver Celeste rasgar o cheque da venda do castelo na Itália. Passou dias tentando encontrar uma forma de recuperar o dinheiro, enquanto ela o provocava, dizendo que nunca conseguiria.


— O dinheiro estava na conta. Em algum banco. — observa Liam.


— Exatamente! — exulta Enrico, os olhos brilhando. — Foi isso que pensei depois de dias de sofrimento! Voltei ao banco onde nos deram o cheque!


— Por que pediu um cheque, Enrico? — pergunto, ainda com a imagem de Celeste na cabeça. — Além de arcaico, é perigoso…


— Foi exatamente o que pensei depois! — continua ele, ignorando meu julgamento com elegância. — Voltei ao banco e descobri que o dinheiro ainda estava lá!


Silêncio.


Olhares.


Cassie segura o riso.


— Você achou… que o cheque era o dinheiro? Tipo… o dinheiro de verdade?


— Foi o que o simpático gerente me explicou! — diz ele, animado. — Eu quase o beijei de tanta felicidade! O dinheiro estava intacto! Celeste tentou retirá-lo, mas sem minha assinatura, não conseguiu. Foi então que ele mencionou um tal de… “pix”.


Cassie desaba no sofá, gargalhando. Antoine acompanha, orgulhosa.


— Meu avô é simplesmente esplêndido!


— Continua, tio! — incentiva Cassie, enxugando as lágrimas.


— O gerente disse que eu poderia fazer um “pix”. — Ele suspira. — Levantei-me, agradeci… e saí sem a menor ideia do que aquilo significava.


— VOCÊ NÃO FEZ O PIX!? — explodo.


— E como se faz um “pix”!? — rebate ele, indignado. — Que material se usa!? É preciso algum instrumento!?


— Você não perguntou!?


— Não quis parecer ignorante…


— Cacete, Enrico!


— Calma, Dess… — ri Vincenzo, pressionando a nuca. — Ele é de outra época.


— Um pouco desatualizado… — admite Enrico, com dignidade.


— “Um pouco”!? — encaro os dois. — O dinheiro ainda tá lá!? Qualquer um pode...


— Como!?


— COM UM PIX, ENRICO!


— Dess. — Vincenzo ri. — Menos.


— Menos nada! Tem uma maluca atrás desse dinheiro!


— Não fale assim dela.


Isso me acende.


— Você não viu o que ela fez comigo na capela! Não defende aquela vaca na minha frente!


— Mãe!


— Ela é perigosa! — volto para Enrico. — Vai dar um jeito de tirar isso de você! Quer que eu vá ao banco contigo?


— Eu vou. — Liam intervém, firme. — Você não está em condições.


Abro a boca pra retrucar.


Fecho.


— …tá. — cedo, contrariada. — Não quero sair daqui.


Me viro para Enrico.


Abraço ele.


Forte.


— Fico feliz que tenha recuperado isso. De verdade.


Ele me envolve com cuidado.


— Eu farei bom uso, meu anjo.


Antes de sair, cochicha algo no ouvido de Antoine. Ela sorri. Ele parte.


Silêncio.


— Que figura… — comenta Cassie.


— Ele sofre. — digo baixo. — E ainda assim faz a gente rir.


— Tenho sorte, né? — murmura Vincenzo.


— Tem. — deito ao lado dele. — E eu também.


— Então para de esconder as coisas de mim. — ele rebate, mais sério. — O que aconteceu na capela?


— Nunca vou te deixar. — corto, firme. — Na saúde e na doença.


— Na riqueza e na pobreza… — suspira ele.


— Não se preocupem com o hospital. — diz Cassie. — Liam e eu cuidamos disso.


— Isso tá errado. — retruco. — Vocês precisam pensar na filha de vocês.


Ela congela.


— Filha?


Merda.


Silêncio.


— É… uma menina?


Reviro os olhos.


Ela grita.


— É UMA MENINA!?


Me abraça como se eu tivesse salvado o mundo.


— Vai se chamar Niamh!


— Nome do pai!? — Antoine protesta. — Patético!


— Significa “cheia de alegria”! — rebate Cassie. — E é isso que ela vai trazer!


Antoine sobe no sofá, chorando e sorrindo ao mesmo tempo.


— Eu vou ser tia?


— Vai!


Cassie sai correndo, já ligando pra Liam no corredor.


— Ela precisa gritar tanto? — resmungo.


— Deixa. — diz Vincenzo. — Ela tá feliz.


Ele olha pra Antoine.


— Por que você ainda tá chorando?


— Não tô…


— Tá sim.


Silêncio.


Ela se encolhe nos braços dele.


— É triste.


Ele me olha.


Sabe.


— Você ainda vê a mesma coisa, Dess?





Acalmo Matteo assim que chego à casa de Doc. Adele me conta o que aconteceu na noite passada enquanto eu estava fora.


Sentado em meu colo, tomando suco de laranja como se nada tivesse acontecido, ele até sorri entre um gole e outro.


Mas o que ela descreve não combina com esse sorriso.


— Doc e eu não sabíamos mais o que fazer. — diz Adele, ainda abalada. — Ele chorava… apontava pra um canto do quarto. Um choro de pavor. Não era fome, nem sono. Era medo. Eu reconheço.


Seguro Matteo com mais força.


— Por que você rezou, Adele?


Ela hesita.


— Não vi nada.


— Não mente pra mim. — corto, baixa. — Você sentiu.


Silêncio.


Ela cede.


— Tinha algo atrás de mim. — diz, devagar. — Eu não via… mas sabia que estava lá. Como se… mesmo de costas, eu enxergasse. — ela engole seco. — Me deu um mal-estar… um arrepio… e um cheiro.


Meu corpo reage antes da minha cabeça.


— Que cheiro?


— Doce. — ela fecha os olhos por um segundo. — Enjoativo.


— Chega. — Doc interrompe, firme. — Já passou. Não precisa trazer isso de volta agora.


Ele me encara.


— Você já tem coisa demais na cabeça. Deixa o menino aqui. A gente cuida.


Adele levanta as mãos, defensiva.


— Ela perguntou.


Eu abraço Matteo, escondendo meu rosto por um segundo nos cachinhos dele.


O cheiro volta na memória.


Doce.


Enjoativo.


Forço um sorriso.


— Tá tudo bem, Doc. Obrigada… de verdade. Eu não conseguiria passar por isso sozinha.


— Criança não pode entrar em hospital mesmo. — ele resmunga. — É perigoso.


— Nem deveriam. — concordo. — Antoine só tá lá porque a gente escondeu.


Adele arregala os olhos.


— Vocês fizeram o quê?


— O quarto é enorme. — dou de ombros. — Luxuoso… e caro.


Doc cruza os braços.


— E quem tá pagando isso tudo?


— Liam.


— Ele é rico? — Adele dispara. — Ele não era padeiro?


— Adele… — Doc corta, já cansado.


— Era padeiro. — respondo. — E dono da padaria. E de outras coisas que eu nem sei explicar.


Penso um segundo.


— Como a Cassie diz… ela mirou no padeiro e acertou num milionário.


Adele sorri, mas Doc não.


— Não fica assim, filha. — ele diz, mais baixo. — Vincenzo vai sair dessa.


Engulo seco.


— Ele precisa de uma transfusão. Grande.


Doc franze a testa.


— Então fazem.


— Se fizerem. — corrijo.


Silêncio.


— O hospital deve ter o sangue dele. — insiste ele, tentando manter a lógica.


Olho pra Matteo.


Depois pra eles.


— Pode ser.


Uma pausa.


— Quem sabe?


Acaricio o rosto do meu filho.


— Eu ainda acredito em milagres.



Ainda pensando em como proteger meu filho de uma futura visita indesejável de Celeste, esbarro no médico de Vincenzo no corredor do andar onde ele está internado. Educado, ele pede desculpas. Eu o agarro pelo jaleco antes que siga.


— O que vocês vão fazer com o meu marido?


— Amanhã, após a visita, eu comunico. — Ele tenta se soltar, incomodado.


Não largo. Arranco o estetoscópio do pescoço dele.


— Não. Você vai me dizer agora.


— Tranquilize-se. E me devolva isso.


— NÃO VOU ME TRANQUILIZAR!


Outro escândalo. Óbvio. Vincenzo ia me dar um sermão… se conseguisse sair da cama.


— Eu posso. — A voz dele vem atrás de mim. — Devolve o estetoscópio, Dess.


Viro, irritada.


— O que você tá fazendo de pé?


— Evitando mais um barraco. Tá difícil.


Aponto pro médico.


— Esse aí já te disse o que vai fazer com você?


— Dess… para.


— Senhora, amanhã eu estarei...


— Amanhã, não! Hoje! Qual o problema!?


— Regras. São onze da noite.


— Eu não quero sua visita! Quero resposta!


O corredor inteiro olhando. Dane-se.


Liam encosta a mão no ombro do médico.


— Ela não pede muito. Pede?


O médico hesita. Pisca. Vacila.


— Que tal conversarmos no quarto?


— …Ok.


Claro que ele aceita.


Jogo o estetoscópio de volta nele e saio andando rápido.


Assim que entro:


— Se esconde, Antoine!


Ela rola pro chão e desaparece debaixo da cama.


— Ninguém vai me ver, mamãe!


— Shhh!


Sento na poltrona. Vincenzo me olha com aquele sorriso incrédulo.


— Você é patética.


— Cala a boca.


O médico entra, ainda meio perdido.


— O paciente...


— Tem nome. Vincenzo Rossi.


Ele respira, contrariado.


— Vincenzo apresenta um quadro grave de anemia. Não respondeu aos medicamentos. Indicamos transfusão de glóbulos vermelhos.


— Total? — pergunto.


— Sim. Precisamos de doadores. Urgente.


— Por quê? — Vincenzo pergunta baixo.


Ele mesmo responde:


— Outra convulsão e eu posso morrer.


— NÃO PODE! — Antoine surge debaixo da cama.


— O que essa criança...


— Que criança, doutor? — Liam corta, calmo.


Antoine some de novo.


Liam toca a testa do médico.


— Do que estava falando?


— Da… transfusão. Sim. Precisamos realizá-la.


Cassie ri, sem entender nada.


O médico vai até a porta, depois volta.


— Tipo sanguíneo?


— RH nulo.


Silêncio.


— “Sangue dourado”… — o médico murmura. — Raríssimo.


— Eu sei. — Vincenzo fecha os olhos. — É a minha única chance?


O médico só confirma com a cabeça e sai.


A porta fecha.


— Não chora, Dess… eu vou conseguir.


Deito ao lado dele.


— Vai sim.


— Por que seu sangue tinha que ser assim? — Cassie sussurra.


— Eu sou igual a ele. — Minha voz falha. — E nosso filho também.


Silêncio.


— Eu vou te curar. — Eu beijo ele. — Não sei como… mas vou.


Levanto num impulso.


— Aonde você vai?


Não respondo.


Corro.


Escada. Degrau. Mais rápido. Mais rápido.


Capela.


Vazia.


Eu me ajoelho diante do Crucificado.


— Salva ele… por favor… eu não sei rezar… mas eu acredito… ele te ama…


Beijo os pés frios da imagem.


— Por que você não fala comigo?


— Porque estátuas não costumam falar.


Meu corpo trava.


Viro devagar.


Ele está ajoelhado ao meu lado.


— Não se assuste. Eu não sou mau.


A voz é baixa. Sem calor.


Ele usa um macacão cinza. Simples. Limpo demais pra alguém que diz que estava limpando.


O rosto… bonito demais. Mas não gentil.


— Eu te vi entrar.


O cheiro chega antes da razão perceber. Fresco. Frio.


— Qual seu nome?


— Rafael.


Ele me conduz até um banco como se já soubesse que eu ia aceitar.


E eu aceito.


Claro que aceito.


— Meu marido vai morrer… — as palavras saem quebradas. — Eu posso salvar… mas meu sangue vai destruir ele… ele é diferente… nosso filho também… eu… eu não posso contar isso pra ele…


Eu tremo.


— Você acredita em mim?


Ele não hesita.


— Acredito.


Sem emoção. Sem surpresa. Como se já soubesse.


Isso devia me assustar mais do que assusta.


— Me ajuda…


— Vou tentar.


Ele se levanta antes de mim.


Eu olho em volta.


— A estátua do anjo… sumiu.


— Talvez tenha sido quebrada.


— Você sabe o nome dele?


Ele me olha.


Dessa vez, direto.


— Rafael.


Engulo seco.


— Igual ao seu?


— Coincidência… de mãe.


Pausa.


— Já ouviu falar do Arcanjo Rafael?


— Não. Só Miguel.


— Miguel luta.


Ele dá de ombros.


— Rafael cura.


Silêncio.


Frio.



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