CAPÍTULO 34 - IMPIEDOSO
De volta ao quarto do hospital, encontro Antoine dormindo no sofá. Vincenzo, sonolento, me avisa que nossa filha se recusou a ir embora com Cassie e Liam.
— Por quê?
— Disse que seria perigoso… algo assim. Não entendi.
Penso em discutir. Em exigir. Em corrigir. Desisto.
Cubro Antoine com o edredom que trouxe de casa. Amanhã eu tiro ela daqui. De qualquer jeito.
Exausta, deito ao lado de Vincenzo. Beijo sua boca. Engulo o que vi na capela.
— Amanhã você vai me contar tudo — ele murmura, já vencido pelo sono.
— Se eu sobreviver até lá.
— Não brinca com isso.
— Nós vamos sair dessa. Juntos. Eu prometo.
Ele abre os olhos. Úmidos.
— Eu duvido.
Meu peito aperta.
— Eu nunca vou me arrepender de ter “caído”, amor. Nunca. Você foi a melhor escolha da minha vida. Se eu pudesse voltar…
— Para de falar merda, Vincenzo.
Silêncio.
— Vincenzo?
Olho para o monitor.
As linhas… retas.
O mundo some.
Antes do alarme gritar, eu já estou em cima dele.
— NÃO. NÃO. NÃO!
Minhas mãos batem no peito dele, desajeitadas, desesperadas, inúteis. Pressiono, golpeio, imploro. Nada responde.
— ACORDA, PAI! — Antoine grita, atordoada.
Eu arranco o lençol, monto sobre ele, pressiono seu tórax como se força resolvesse morte.
Nada.
Nada.
Nada.
— A PORTA! EU TENHO QUE ABRIR A PORTA!
Não entendo. Não consigo pensar.
Desabo sobre o corpo dele, tentando ouvir algo — qualquer coisa — mas o alarme me rasga por dentro.
Num impulso cego, chuto o monitor. Ele cai. Arranco o acesso do braço de Vincenzo.
O sangue jorra.
Vermelho vivo.
Real.
Enrolo o braço dele no lençol, tremendo.
— Abre os olhos… por favor… por favor…
Repito o nome dele como se isso tivesse algum poder.
Não tem.
— Feche a porta.
A voz vem de trás.
Grave. Fria.
Antoine obedece.
Tranca.
Meu corpo trava quando vejo o faxineiro.
Rafael.
Ele me ergue como se eu não pesasse nada e me joga contra a parede.
— Não se mova. Fique em silêncio.
Eu vou avançar. Vou quebrar ele. Vou...
— Senta.
Antoine me puxa.
Eu caio no sofá.
Fico.
Presa.
Murros explodem contra a porta. Gritos no corredor.
As paredes… respiram.
Luzes escapam delas. Escorrem. Correm até ele.
Rafael se inclina sobre Vincenzo.
E o beija.
Meu cérebro falha.
Ele vai ao banheiro. Volta com um copo.
Água.
Fecha os olhos.
A mão sobre o copo.
Luz.
Dessa vez, viva. Pulsante. Quase… consciente.
Ele ajoelha diante de Antoine.
— Quando seu pai acordar, dê isso a ele. Entendeu?
Antoine assente.
Ele se vira para sair, mas pausa na porta.
— Sua escolha já foi feita. Não há retorno.
— Eu sei, tio… eu sei.
Ele abre a porta.
O caos entra.
Antoine leva o copo aos lábios de Vincenzo.
Eu vejo.
Eu juro que vejo.
O Pomo-de-Adão se mover.
Um engolir mínimo.
Impossível.
A porta é arrombada. Gente invade. Vozes. Ordens. Correria.
Eu não saio do lugar.
Só olho.
Só vejo.
Só espero.
Mãos pequenas seguram as minhas.
— Ele vai viver, mamãe.
Eu não respiro.
— Uma vida pela outra.
Repito, sem entender:
— Uma vida… pela outra…
E então...
Os olhos dele abrem.
Azuis.
Vivos.
De volta.
Ouço, calada, as repreensões do médico e das enfermeiras a cada nova entrada no quarto. Deitada ao lado do homem que amo, me contenho. Ele está vivo. Isso basta.
Posso ouvir tudo… e ainda sorrir.
— Ele poderia ter morrido! — dispara uma das enfermeiras enquanto acessa, com facilidade irritante, a veia no antebraço de Vincenzo.
Poderia?
Engulo a resposta.
— Da próxima vez, deixe a porta aberta. E, por favor, tente se controlar. Esses aparelhos custam caro.
— Jura? — zombo. — Com o que vocês cobram, já devem ter pago o hospital inteiro umas três vezes.
— Isso não lhe dá o direito de danificar nada aqui.
Vincenzo segura meu braço antes que eu levante.
— Tente descansar — diz ela, abrindo um sorriso açucarado demais para ele. — Volto logo.
Eu conto até dez.
Devagar.
Muito devagar.
— Sério que você voltou do mundo dos mortos pra flertar com enfermeira? — murmuro assim que ela sai.
Ele ri, tranquilo demais pra quem acabou de morrer.
— Nada a ver, Dess. Elas só estão sendo atenciosas.
— Maliciosas. Querem o que é meu.
Belisco a orelha dele.
— Entendeu? Meu.
Ele assente, rindo.
Antoine, abatida, se aninha com cuidado ao lado dele.
— Cansei de ver sangue…
Um beijo na bochecha do pai.
— Agora eu tô feliz. Meu pai voltou. Pra sempre.
Vincenzo troca um olhar comigo antes de perguntar:
— Filha… o que você quis dizer com “uma vida pela outra”?
Ela fecha os olhos.
— Eu tenho o direito de permanecer calada.
— Tem — ele responde, divertido.
Eu não insisto.
Não hoje.
— Fica quietinha, Dess — ele provoca. — Você já estourou sua cota mensal de barracos.
— Se não fosse meu “barraco”, você tava morto.
— E eu não teria duas costelas quebradas.
— Mamãe é forte, pai! — Antoine entra, animada. — Eu ouvi tudo quebrando!
Eu rio, sem culpa nenhuma.
— Exagerei. Mas funcionou.
— Funcionou mesmo — ele diz, antes de me beijar. — Se não fosse por você…
— Começou a safadeza… — resmunga Antoine, descendo da cama. — Melhor parar. Ele não gosta.
— Ele quem?
Silêncio.
— Rafael… — murmura Vincenzo, inclinando a cabeça.
A porta se abre.
Ele entra.
Frio. Limpo. Intocável.
Rafael.
— Não precisa dizer nada — fala, sem olhar para Vincenzo. — O que fiz não foi por você. Nem por ela.
Seus olhos pousam em mim.
E eu travo.
— Foi pela pequena.
— Antoine? — minha voz falha. — Você salvou ele por causa dela?
— Não preciso responder.
— Nossa. Simpático você, hein?
— Dess. Cala a boca. — A voz de Vincenzo sai baixa. Tensa. — E não pensa.
Eu nem sabia que dava pra sentir medo… daquele jeito.
— Você caiu sem permissão, Vincenzo — continua Rafael. — Deveria arcar com isso. Não esqueci. Não te perdoei.
— Eu sei.
— Ainda assim… — ele pausa — Nosso Pai é misericordioso.
O ar pesa.
— Você recebeu outra chance.
— Gratidão — diz Vincenzo, quase reverente. — Não vou desperdiçar.
— É bom que não.
Os olhos dele voltam pra mim.
Gelados.
— Cuida do teu filho.
— Nosso! — corto na hora. — Matteo é nosso!
— Dess… — Vincenzo rosna, baixo.
— Cuida de Matteo — repete Rafael, ignorando. — O sangue dele não é comum. Vigia o caminho dele.
Um frio sobe pela minha espinha.
— Que caminho?
— O que leva ao Pai — responde Antoine, já ao lado dele, segurando sua mão sem medo. — Ele só quer ajudar, mãe.
Eu avanço um passo.
Vincenzo me puxa.
— Não.
— Eu não vou tocar nele! — explodo. — Eu só quero saber se meu filho corre perigo!
— Ainda não — diz Rafael. — Mas você sabe do que estou falando.
Eu sei.
Droga.
Eu sei.
— Cuida antes que o Mal encontre espaço.
— Espera! — avanço. — Volta aqui!
— Dess. Para.
Ele ignora.
Beija a testa de Antoine.
E vai embora.
Simples assim.
Desaparece no corredor como se nunca tivesse estado ali.
Corro até a porta.
Nada.
Vazio.
Volto pro quarto com o coração disparado.
— Que anjo é esse?
Antoine, mais quieta, volta pra cama.
Vincenzo solta o ar.
— Isso porque você ainda não conheceu o Gabriel.
— Um milagre.
A enfermeira-chefe diz isso como quem não acredita no que vê.
Depois de exames e mais exames, a junta médica conclui: a anemia severa… sumiu.
Como?
Ninguém sabe.
— Seu exame de sangue está perfeito — informa o médico, olhos grudados no tablet. — Hematócrito e hemoglobina em níveis normais.
Ele franze a testa.
Como se o próprio resultado o incomodasse.
— Podemos ir, doutor? — pergunto.
— Sim. Podem.
— Não vai olhar o paciente nos olhos?
— Dess! — rosna Vincenzo, já livre de fios, sentado na cadeira de rodas. — Não começa.
— Ué… não fiz nada. Só acho que ele devia olhar pra você. Depois a gente some daqui.
O médico ergue os olhos, finalmente.
Frio.
— Você é um homem forte. Muito forte. Nunca vi recuperação assim. Provavelmente os medicamentos tiveram efeito tardio.
— Pode ser — responde Vincenzo, tranquilo. — Os remédios… e Deus.
— E o tio Rafael! — completa Antoine.
O médico franze o cenho.
— Rafael? Quem é?
— O faxineiro — respondo, já empurrando a cadeira. — Foi ele que curou meu marido. Agora, dá licença?
Quero sair daqui.
Pra nunca mais voltar.
— Claro — diz o médico, abrindo caminho. — Com imenso prazer.
No saguão, a felicidade quase me derruba.
Empurro a cadeira enquanto Antoine vibra no colo de Vincenzo.
As portas se abrem.
Lá fora, Liam e Cassie comemoram como se o mundo tivesse sido devolvido pra gente.
Beijo os dois, rápido.
— Me esperem! Já volto!
Corro.
A capela está silenciosa.
E lá está ele.
De volta ao lugar.
Ao lado do Crucificado.
— Você voltou…
Ajoelho.
Toco as asas de gesso.
Frias.
— Claro. Por isso é assim. Frio.
Sorrio, cansada.
— Obrigada. De verdade. Por salvar a vida do homem que eu amo.
Respiro fundo.
— Mas… se não for pedir muito… eu espero não te ver de novo.
Me levanto.
Faço o sinal da cruz.
Beijo os pés de Cristo.
— Cuida do meu filho. Por favor. Me ajuda a manter ele no caminho certo.
Silêncio.
Então...
Um sussurro.
Atrás de mim.
Colado na minha pele.
— Vai ser difícil, meu bem… ele tem o meu sangue.
Eu corro.
Doc e Adele já estão em casa quando chegamos.
Assim que vejo Matteo, tudo para.
Eu corro.
Pego ele no colo.
Beijo.
Cheiro.
Rio.
Ele gargalha, mostrando os dentinhos.
— Que saudade, meu amor…
Dói.
Dói de tão forte.
Levo ele até Vincenzo.
Eles se abraçam.
Eu observo.
E guardo.
Nunca vou contar.
Nunca.
— Tá de sacanagem! Ele te chamou de quê!?
— “Papá”! — vibra Vincenzo. — Ganhei!
Reviro os olhos.
— Perdi. Mas você merece.
Risos.
Gente.
Calor.
Vida.
Olho ao redor.
E quase não me reconheço.
Quem diria que eu, um dia, estaria aqui?
Não aquela mulher de antes.
Não aquela vida.
Aquilo morreu.
Eu sobrevivi.
— Dess?
— Oi.
— Para de viajar e come.
— Você me ouviu?
— Não. Tem música, lembra?
Eu sorrio.
— Lembro.
— Você cozinha muito bem, Cassie! — elogia Adele.
— Não fui eu — Cassie ri. — Foi o Coelhinho.
Liam engasga.
Antoine ri.
Doc abaixa a cabeça, sorrindo.
— “Coelhinho”? — Adele se diverte. — Que fofo!
— E eu chamo ele de “parrudinho” — ela solta, já meio alegre demais.
A mesa explode em risadas.
Doc quase morre de vergonha.
— Não liga, meu anjo… ela bebeu demais.
— Só paro se me chamar de “meu bebê”…
Mais risadas.
Eu choro.
— É só emoção… — tento explicar.
Enxugo o rosto.
— Vocês são os melhores amigos que eu poderia ter.
— Tia, não chora! — protesta Cassie.
— Parei!
Olho pra Cassie.
Linda.
Radiante.
— Você tá linda. Nunca vi uma grávida tão bonita.
E, por um segundo…
Tudo fica em paz.
Mesmo sabendo que não vai durar.
— É felicidade, tia! — diz ela, sorrindo. — Eu nunca pensei que pudesse ser tão feliz na vida!
De repente, Antoine larga os talheres e corre para o banheiro.
— O que deu nela?
— Não sei… — minto, já me levantando. — Vou ver.
— Quer ajuda?
— Não, amor. Fica com Matteo. — sorrio de lado. — Eu resolvo isso, tigrão.
— Já fui — provoca Vincenzo, com aquele olhar indecente. — Agora sou um gatinho… e olhe lá.
— A gente confere mais tarde.
— Wooohooo!!! — Cassie e Adele comemoram, bêbadas e felizes.
Guardo a imagem de Vincenzo com Matteo no colo como uma foto antiga.
Daquelas que a gente não quer perder nunca.
Os risos ainda ecoam quando bato na porta do banheiro.
— Antoine?
— Tô ocupada. Já vou, mamãe.
— Abre a porta. Não tô pedindo.
— Não posso.
— Antoine Rossi. Abre essa porta.
— Repetiu! — ela ri, abrindo.
O rosto ainda molhado.
Metade criança.
Metade algo que já não é mais.
— Vai me contar aquele papo de “uma vida pela outra”?
— Agora?
— Agora.
Ela hesita.
— Você não precisa carregar isso sozinha. Eu sou sua mãe… e sua melhor amiga.
Ela me abraça.
Forte.
Quando se afasta, o que ela diz… me atravessa.
Lavo o rosto na pia.
Respiro.
— Isso fica entre nós. Só nós duas. Entendeu?
— E o papai?
— Nunca.
— Nunca?
— Nunca.
Ela abaixa os olhos.
— Ok.
Um segundo de silêncio.
Então ela muda.
— Enxuga o rosto. Tem novidade.
A campainha toca.
Ela sorri.
— Não te falei?
— Você é estranha, sabia?
— O homem do Pix! — grita Cassie da sala.
Eu fecho os olhos por meio segundo.
Claro.
Só podia ser.
— Entra, tio!
— Enrico!
— Trouxe ótimas notícias! Vocês vão viralizar!
— Claro que vão… — murmuro, já caminhando de volta.
Ele entra com aquele brilho nos olhos.
Vivo.
Presente.
Vincenzo se levanta e o abraça.
Demorado.
Pesado de emoção.
Eu vou até a cozinha.
Pego o pudim.
Respiro.
Volto.
E paro.
O prato escorrega das minhas mãos.
Se espatifa no chão.
Porque o que Enrico diz em seguida…
muda tudo.
De novo.
— Fiz o tal do pix pra vocês!
— Conseguiu!?
— Sim, Cassandra! — diz Enrico, exultante. — Consegui! O dinheiro da venda do castelo está na conta corrente de Vincenzo! — Arregalando os olhos, Vincenzo emudece. — Ele era seu, filho! Nada mais justo do que voltar a ser!
— Uau… — suspiro.
Cassie se apressa em me ajudar a limpar o chão com folhas de papel-toalha, lamentando a perda do pudim, sua sobremesa predileta. Um gemido de dor me faz voltar a atenção a ela, ainda tentando processar o fato de sermos os mais novos milionários da rua.
— Eu faço outro, Cassie. Cassie!? O que é isso no chão!?
Agachada ao seu lado, encontro pavor em seu olhar quando ela responde, num cochicho:
— Sangue, tia. Não diz nada pro “Coelhinho”. Ele vai ficar triste.
— Não direi — prometo, ajudando-a a se reerguer, limpando os resquícios no piso.
Liam nos observa, ainda sentado à mesa. Temendo que ele ouça meus pensamentos, peço:
— Aumenta o volume do som, filha!
Retornando do banheiro, Cassie esconde o que sente e exclama ao arrastar Liam pelos braços até o centro da sala:
— Nossa canção!
Cantarolando, eufórica, seu refrão, ela me faz arfar. Minha Cassie não faz ideia de que, talvez, ela tenha razão.
— Os anjos nas nuvens estão com inveja sabendo que nos encontramos, “Coelhinho”!!! — Um aperto toma meu peito ao ouvi-la declarar, já nos braços dele. — Nada vai nos separar, amor! Nada!
Lavando a louça na pia da cozinha, ainda choro.
Enrico foi o único a permanecer. Todos partiram. Inclusive, Cassie — levando consigo o nosso segredo sem conhecer o meu.
Vincenzo e Enrico conversam animadamente na sala. É a segunda garrafa de vinho que eles detonam. A voz de Vincenzo ecoa pela casa como se quisesse alcançar a rua inteira.
Nunca o vi tão leve.
Ainda não tive tempo de absorver a ideia de que ele recebeu de volta tudo o que tinha antes de ser punido por me amar.
— Eu não fui punido por isso, Dess!
— Cacete! De novo!? — Com o dorso da mão molhada, enxugo o rosto.
Deixo mais dois pratos na pia quando ele beija minha bochecha.
— Odeio esse seu dom!
— Mentira. Você sentiu a minha falta. — Ronrona, abraçando-me por trás. — Confessa.
— Confesso. — Sorrio de olhos fechados. — Eu senti tanta falta que chegava a doer o peito.
— Vão doer outras partes daqui a pouco…
— Devasso! — gargalho, empurrando-o com o corpo. — Vai conversar com seu pai! Ele tá doidão!
— Doidão estou eu, Dess. — Ele puxa o ar entre os dentes. — Sabe há quanto tempo a gente não transa?
— Sei. E sei que hoje, como diria Pitty, essa abstinência uma hora vai passar.
— E depois você vai me contar tudo o que tá escondendo nessa cabecinha de melão. Ok?
— Ok. — minto. — Vai e me deixa terminar isso aqui.
— Não mente, porra.
— Para de ler a porra dos meus pensamentos, cacete!
Ele surge com outra garrafa de vinho na mão e rebate:
— São baratos, mas são bons! Você bebeu deles até agora!
— Cala a boca, idiota… — sussurro, rindo sozinha enquanto limpo a pia e tento imaginar como esconder tanta coisa dele.
— NÃO VAI!
Irritada, caminho até a TV e aumento o volume.
— Não adianta. — Vincenzo cruza as mãos na nuca, ainda sentado à mesa. — Sabe que não pode me esconder nada por muito tempo, né?
— Sei! — Piso no pé dele. Ele reclama. — Bem feito! Deveria ser no peito.
— Você já quebrou o que tinha que quebrar, né?
— É!
— O que a Cassie tem, Adessa?
— Não entendi, Enrico! — Engulo em seco antes de me sentar à mesa e secar as mãos na toalha. — Ela tá grávida e feliz. Só isso. — Minto. — Por que essa pergunta!?
— Nada — responde ele, mas há tristeza em seu semblante. — Bebi demais. Velhos não podem beber demais. Falam bobagens. Veem demais…
— O que viu, pai!?
— Nada!
Fixando meus olhos nele, sinto que há informação demais ali. Coisa que ele não disse.
— Dess!
— Ele já falou que bebeu demais, amor. Acho melhor você dormir aqui, Enrico. Não pode sair por aí assim.
— Não posso. — Ele concorda. — Talvez seja uma boa ideia dormir aqui. Um pouco de calor humano não faz mal a ninguém. Não é mesmo?
— Por que ficou triste de repente, pai?
— Você não me chamava de “pai” há tantos anos… — revela Enrico, nostálgico. — Eu estive ausente por muito tempo, filho. Agora, não vou deixar que nada de mau aconteça a vocês.
— Tá me escondendo algo. — Cisma Vincenzo, tomando um gole de vinho direto do gargalo. — Sabe que não consigo ler seus pensamentos. Isso não é justo.
— Sério??? — deixo escapar um riso nervoso. Enrico me observa como se atravessasse minha cabeça. — Você não pode ler a mente de outro anjo!?
— Não… — resmunga Vincenzo, largando o peso do corpo contra a mesa. — Não tem graça.
— Tem muita! — Outro riso, mais tenso. — Por que tá me olhando desse jeito, Enrico!? Fiz alguma coisa errada!?
— Você não. Eles fizeram. — A voz dele pesa. — Não é justo. Uma vida pela outra? Não faz sentido.
— Concordo.
— Que porra é essa? Uma vida pela… — interrompo com um tapa leve em seu rosto.
— Para de beber! Você não é bom nisso!
— E você é perfeita… — boceja Vincenzo.
— Acho que o seu “tigrão” não vai rugir hoje… — comenta Enrico, me ajudando a erguer Vincenzo da cadeira.
— Não me importo. — Arrastando-o pelas axilas até o quarto, concluo: — Ter seu filho aqui em casa e saudável já é um milagre. Muito mais do que eu mereço.
Deitamos Vincenzo na cama.
— Ele é pesado pra cacete.
— Pesado é o fardo que você tem carregado. — diz Enrico, baixo. — Quer aliviar seu coração compartilhando seu segredo comigo?
— Eu ouvi! — resmunga Vincenzo, sonolento. — Conta pra mim, Dess…
— Vou contar. — minto. — Durma com Jesus, amor.
Inclino-me e beijo sua testa. Ainda não consigo aceitar que tudo passou. Nem quero pensar no preço disso.
— Mais tarde eu volto. Não pensa que escapou de mim, “tigrão”.
— Caraca, mãe! Mais safadeza!? — Antoine surge, engatinhando na cama, beijando o rosto do pai adormecido.
Reparo melhor nela.
Mais pálida. Mais fraca.
— Deixa meu pai descansar.
— E você também precisa descansar, filha.
— Ela está bem fraca. — observa Enrico.
— Mais um pouco e ela…
— O quê!? Fala, Enrico!
— Melhor fazer do que falar, meu anjo. Venham.
Saímos do quarto.
No quarto de Antoine, Matteo se apoia nas grades do berço, rindo ao nos ver. Enrico o beija no topo da cabeça e faz o sinal da cruz.
Estranho.
Coisa de avô.
— Não quero me deitar. — reclama Antoine. — Vamos brincar, vovô!
— Depois, meu anjo. Depois.
— Depois de quê? — pergunto, já tensa. — O que você vai fazer com ela!? Por que precisa fazer alguma coisa!?
— Fique calma. — A voz dele vem firme. — Ou espere do lado de fora. Precisamos de paz.
Engulo seco. Me controlo.
— Eu fico. Prometo.
— Claro. Vou precisar de ajuda. Felizmente, posso fazer algo por Antoine. Já por Cassie, infelizmente…
Não deixo ele terminar.
Abraço-o com força.
— Não fala nada. Por favor.
Antoine, revitalizada, retorna ao colégio.
Vincenzo, saudável, volta ao ringue — agora como instrutor. Finalmente desistiu da vida de pugilista profissional.
Enrico se instala em nossa nova casa. Maior. Mais aconchegante. Perto do colégio de Antoine e do trabalho de Vincenzo.
Nossa rotina não mudou.
Quase nada.
Levamos meses decorando cada canto da casa dos nossos sonhos, buscando conforto e praticidade para, enfim, viver em paz.
Cassie, com sua barriga já arredondada, me ajuda a escolher móveis e cores para os quartos das crianças.
— Cada um tem o seu quarto! Não é fantástico, Cassie!?
— Como diria Antoine, é simplesmente esplêndido que vocês possam viver com mais tranquilidade agora. — Ela ri. — O dinheiro, quando usado de maneira correta, é uma energia divina.
Faço uma careta.
— Foi o Liam quem disse isso! — completa, entre risos. — Eu amo o dinheiro, com ou sem sabedoria!
— E se Liam perdesse tudo?
— Eu grudava nele e me enfiava em qualquer canto desse mundo, tia. — Ela dá de ombros. — Liam é muito mais do que eu imaginei. Ele é… é…
Joga a cabeça para trás, rindo, gesticulando sem conseguir terminar.
— Ah, deixa pra lá. Você não vai acreditar.
— Vou sim. Fala. O que o Liam é?
— Alguém mais do que especial. — Ela baixa a voz, quase confidencial. — Às vezes, eu acho que ele é algum tipo de anjo… ou coisa parecida.
— Por quê? — sorrio, me divertindo com sua inocência enquanto estamos sentadas à mesa de uma cafeteria no shopping. — Me conta.
— Ele sabe tudo o que eu gosto. Faz tudo antes mesmo de eu pedir. — Ela respira fundo, emocionada. — Pede desculpa por coisas que eu nem cheguei a falar.
Pausa.
Um gole de cappuccino.
— Ele é perfeito, tia. Eu nem acredito que mereço isso.
Olho pra ela.
E dói.
— Merece, meu anjo. — Seguro sua mão. — Você merece. E eu não vou deixar que nada afaste vocês. Prometo.
Ela franze a testa.
— Do que você tá falando, tia? Por que você tá chorando?
— Porque eu sou uma besta. — fungo, limpando o rosto. — Uma besta quadrada que continua chorando à toa mesmo depois de ter um filho de um ano.
— Pelos deuses do Olimpo! — Ela se anima de repente. — A gente precisa comemorar o aniversário de um aninho do Matteo, tia!
— Já passou.
— E daí!? — Amo sua alegria contagiante, seus dentes perfeitamente tortos, iguais aos de Vincenzo quando sorri. — É super cool comemorar depois! Vamos organizar essa festa!
— Não! Você está quase parindo!
— E daí!? — rebate, animada. — A gente ainda nem fez o chá de revelação! Vai ser perfeito juntar o aniversário do Matteo com a festinha da nossa filha!
— Que chá é esse se você já sabe o sexo do bebê? — retruco. — Melhor fazer a ultra antes. Vai que…
— Confio em você, tia! Você não erra uma!
— Melhor confirmar… — insisto, incomodada.
— Ok! — cede, rápido demais. — Mas a festa do Matteo tá de pé! Lembra de como foi a sua gravidez? Tudo aquilo acontecendo ao mesmo tempo…
— Lembro… — Minha voz falha. — Foi uma época sombria. Graças a vocês, meu filho nasceu bem longe daqui. Na Itália.
— Então pronto! — Ela bate a mão na mesa, decidida. — Daqui a uma semana, tem festa! Não é, Niamh?
Acaricia a própria barriga, sorrindo como se o mundo fosse simples.
— Seu primo já tem um aninho… — continua, encantada. — E seu pai vai saber que você é uma menininha linda!
Levo a mão à boca.
Depois ao estômago.
A lembrança vem como um golpe seco.
O banheiro.
A voz de Antoine.
A escolha.
Engulo o choro à força. Mordo o canto da boca e viro a garrafa de água de uma vez, como se isso pudesse apagar alguma coisa.
Não apaga.
Penso no que minha filha carregou.
No que fizeram com ela.
No que eu deixei que fizessem.
Enrico fez Antoine esquecer.
Mas eu não esqueci.
Ele não esqueceu.
E a pior parte…
É saber que a escolha final foi minha.
De uma mulher adulta.
Sobre a de uma criança de nove anos.
Cruel nem começa a descrever.
Cassie…
O que eu fiz… foi por você. Por vocês dois.
Me perdoa.
— Chorando de novo, tia? — A voz dela me puxa de volta. — Aconteceu alguma coisa?
Forço um sorriso.
— Nada. — seco o rosto rápido. — Só não consigo decidir a cor do quarto da Antoine. Lilás ou violeta. Isso tá me enlouquecendo.
Ela ri.
Leve.
— Púrpura! — declara, animada. — Com borboletinhas por todo lado! A cara dela!
Olho pra Cassie.
Tão inteira.
Tão feliz.
— É… — suspiro. — É a cara dela.
Empolgada com a festa de Matteo — e com a noite passada, em que Vincenzo e eu finalmente nos encontramos depois de uma eternidade — aguardo Antoine sair do colégio.
Matteo, dentro da Kombi, ri das minhas caretas.
Do outro lado da rua, Antoine me vê. Cercada pelos amigos — agora não mais juízes, mas súditos — ela acena.
Antes de buscá-la, ajeito Matteo na cadeirinha. A fivela emperra.
— Droga...
Com metade do corpo dentro do carro, forço o encaixe. Matteo resmunga.
Então...
— MÃE!
O grito rasga o ar.
O som de pneus cantando no asfalto me congela.
Ergo a cabeça.
Vejo.
Antoine, no meio da rua.
E a Range Rover avançando.
Meu corpo não reage.
Só os olhos.
Só o pavor.
Os dedos dela se estendem...
E tocam o vidro.
O carro para. Seco. Imediato.
Silêncio.
Antoine ri, como se fosse um jogo, e atravessa correndo.
— Viu, mamãe!? O tio parou!
— Entra. Agora.
Minha voz sai baixa, dura.
Ela obedece. Senta ao lado do irmão, instintiva, protegendo-o.
Eu não tiro os olhos dele.
— Não vai me agradecer?
— Nunca. — cuspo. — Você pode ter provocado tudo isso.
Ele sorri.
Devagar.
— Então aquele ali é o meu... tatataraneto?
Se inclina, curioso, como quem observa um brinquedo.
— Tem os meus olhos.
Empurro-o pelo peito. Frio. Sólido demais.
— Fica longe da minha família.
— O tempo costuma discordar de você.
O sorriso cresce, torto.
— Dê lembranças ao homem que quase morreu. Uma pena a intervenção de Rafael... sempre tão desagradável.
Engulo seco.
— Cuidado com ele — continua. — Ele não gosta de interferências.
Meu estômago afunda.
— Já fizeram a escolha?
Silêncio.
Ele inclina a cabeça, como se escutasse algo que eu não ouço.
— Ainda não... — murmura. — Ela precisa terminar.
— Para de falar, tio. — Antoine se inclina na janela. — A gente tá cansado.
Ele ri.
Baixo.
— E eu acabei de salvar a sua vida, pequena ingrata.
Travo as portas.
Dou a volta.
Entro.
Chave.
Motor.
— Não vai me convidar para a festa? — a voz dele desliza pela janela. — Somos família.
Não respondo.
Acelero.
No retrovisor, ele acena.
E some.
Fumaça.
Vazio.
Respiro.
Olho para trás.
Antoine segura Matteo.
Protege.
Sempre protege.
Freio de repente.
— O que ele disse?
Minha voz falha.
— O Matteo. O que ele disse?
Antoine me encara.
Olhos arregalados.
— “Bo... bô”.
Atormentada, aceito o convite de Cassie e deixo as crianças em sua casa. Preciso sair. Preciso respirar. Voltar ao Just Dance parece uma tentativa desesperada de me lembrar quem eu era antes de tudo desmoronar.
Aninha me recebe com carinho. Dessa vez, retribuo. Faço um esforço quase comovente para parecer… normal. Ou pelo menos menos quebrada do que da última vez.
— Há aulas de hora em hora. Qual seria seu nível?
— Nível!?
— Iniciante, Intermediário ou Avançado? — pergunta ela, sorrindo. — Seu marido comentou que você dança muito bem. Quer tentar o intermediário?
— Calma aí, eu… eu… — Insegura, deixo que ela me conduza até a sala. — Eu nem tenho roupa pra isso, Aninha. Olha como eu vim…
— Perfeita. — Ela me mede dos pés à cabeça, decidida. — Tira o tênis, enrola essa camisa e pronto. Essa calça tá ótima. Vai lá.
Ótima.
Claro.
Sob o olhar curioso — e levemente julgador — da turma, faço exatamente o que ela disse. Sento-me em um canto do salão, cruzo as pernas e alongo as costas, tentando ignorar o nó no estômago.
Cabeça baixa. Respiração curta.
Até que...
A voz.
Meu corpo reage antes da minha mente.
Levanto os olhos.
E o ar simplesmente desaparece dos meus pulmões.
Por um segundo… não. Não pode ser.
Mas é.
Ou parece ser.
O mesmo sorriso contido. A mesma forma de inclinar a cabeça. A mesma presença que invade sem pedir licença.
Aiden.
Não.
Não é possível.
Eu me levanto rápido demais. O mundo inclina junto. Dou um passo para trás, esbarro em alguém, perco o equilíbrio e caio sentada no chão, num impacto seco que ecoa mais alto do que deveria.
— Desculpa… — murmuro, atordoada.
O rapaz que derrubei ri baixo e me estende a mão.
— Relaxa. Isso acontece.
Seguro sua mão, mas meu olhar já voltou.
Para ele.
O professor.
De pé no centro da sala.
Me observando.
Não com surpresa.
Mas com reconhecimento.
E isso… isso é o que mais me apavora.
Levo a mão ao peito, tentando controlar o disparo do meu coração.
Não. Não é ele.
Não pode ser.
Mas então...
Por que parece que ele sempre esteve me esperando?
— Oi???
— Sou Sebastian.
Tremo. Dos pés à cabeça.
— Adessa… — Minha voz falha. Engulo seco. — Adessa Rossi. Rossi por parte do meu marido. Vincenzo. Vincenzo Rossi é o meu marido.
Por que eu estou falando tudo isso?
— Te conheço de algum lugar? — pergunta ele, com uma calma que me irrita. Como se já soubesse a resposta. — Eu acho que sim.
— Impossível. Eu nunca dancei… — Minha língua trava. — Em um lugar como esse. Nunca tive aulas.
Mentira pela metade.
Ele sorri.
E esse é o problema.
Não é o Aiden.
Não pode ser.
Mas aquele sorriso…
— Quer me mostrar o que sabe fazer?
— Aqui!?
— Parece que sim…
Meu estômago revira. O passado encosta na minha nuca como um sopro frio. Tudo o que vivi. Tudo o que sobrevivi.
— Adessa?
Pego meus tênis e a mochila, quase fugindo.
— Foi um erro. Eu não devia ter vindo. — Respiro fundo. — Já passou da minha hora de recomeçar.
— Você ainda é nova. — Ele segura meus tênis antes que eu consiga escapar. — E talento não tem idade.
Claro.
Agora ele resolveu ser inspirador.
— Meus filhos estão me esperando.
— E nós também. — resmunga uma das alunas.
Viro o rosto.
A garota está apoiada na barra, postura perfeita, olhar afiado. Ela levanta a perna acima da cabeça como se fosse nada.
Eu devia estar em casa.
Não aqui.
— Pode ser ainda hoje? — insiste ela, com um sorriso que não tem nada de gentil.
Sebastian não perde o controle.
— Bianca, seja mais gentil. Ou pode voltar outro dia.
Silêncio.
Ela não gosta.
Ótimo.
Pior pra mim.
— Por que ela precisa de uma audição especial? — continua Bianca. — A gente não teve isso.
Eu também não pedi.
Nunca peço.
— Acorda! — ela grita, invadindo meu espaço. — Qual a música?
O mundo volta num tranco.
— Desculpa…
Pego o celular de Sebastian com dedos que ainda não me obedecem. Escolho a música quase no automático.
— Quando estiver pronta — diz ele, mais baixo agora — é só me avisar.
— Ok.
— Gente velha gosta de música velha.
Idiota.
Por que eu disse isso?
Caminho até o centro da sala sob o peso de todos os olhares. O espelho me devolve uma versão minha que eu quase não reconheço.
Cansada.
Mas viva.
Posiciono os pés. Endireito a coluna.
Respiro.
Levanto o olhar.
— Estou pronta.
E, pela primeira vez desde que entrei ali…
Eu não fujo.
Não é o Aiden.
É parecido demais. Isso é o problema.
Mais novo. Muito mais novo. Sem o sotaque. Sem aquele peso nos olhos. Sem… tudo.
Então não pode ser.
Não deveria.
Já não sei mais o que “não deveria” significa.
Quando um arcanjo coloca uma criança contra a parede e chama isso de escolha, as regras deixam de fazer sentido.
— Pode ser ainda hoje?
A piscadela dele me atinge como um soco.
Raiva resolve o que o medo não resolve.
— Tá bom.
Se é pra cair, eu caio em pé.
Caminho até o centro.
Espelho na frente.
Gente demais atrás.
Respira.
Só mais uma vez.
— Estou pronta.
Mentira.
Mas nunca estive.
Os primeiros acordes da canção soam assustadores — como os dias que tenho vivido. Assustador como estar diante de um homem que me arrasta de volta a um mundo que custei a deixar.
Entre saltos, piruetas e movimentos de braços e pernas, tento traduzir desespero. Percorro toda a sala. Vivo a agonia da cantora, revivendo o amor pelo homem que quase perdi.
Incorporo a bailarina que perdeu sua chance de brilhar no instante em que engravidei.
Arrisco um giro difícil.
Desisto.
— Vai. — A voz de Sebastian me alcança.
Fecho os olhos.
Lembro de Lúcifer.
De Matteo chamando-o de “vovô”.
Algo em mim quebra.
Deixo a raiva assumir.
Num fouetté, giro uma vez… duas… três…
Oito.
Paro ofegante, ouvindo as palmas ao redor. Um sorriso escapa, involuntário. Nunca tinha feito isso antes.
A música cresce.
Cassie invade meus pensamentos — seu sorriso doce, o futuro que eu sei que vai doer.
Corro.
Salto.
Giro.
Paro.
Respiro.
Me preparo.
Um demi-plié.
Impulso.
Grand jeté.
Por um segundo, eu voo.
Quando meus pés tocam o chão, tudo desaba.
O ar some.
As lágrimas vêm.
Curvo o corpo para frente. Meus cabelos escondem meu rosto.
Não olho para ninguém.
Porque sei.
Acabei de mexer em algo que não deveria.
— Por que o choro? — pergunta Sebastian, agachado à minha frente.
Ele me dá tempo. Tempo de respirar. De não desmoronar de vez.
— A música mexe com a gente. Você emocionou alguns alunos. Sua apresentação foi perfeita. — Um breve sorriso. — Tem certeza de que nunca dançou profissionalmente?
Assinto, ainda limpando o rosto com as mãos.
— Nunca. Mas esse sempre foi o meu sonho.
Ele recolhe meu cabelo com cuidado, prendendo-o em um rabo de cavalo com o elástico do próprio punho. Um gesto simples. Íntimo demais.
Olho ao redor.
Duas alunas choram.
Então não fui só eu.
— Gostaria de se juntar à nossa turma?
— Adoraria.
Ele se levanta e me puxa pela mão.
— Seja bem-vinda, Adessa… esposa de Vincenzo.
Há algo ali. Uma pausa. Uma escolha.
— Ainda se lembram da coreografia da semana passada? — pergunta à turma.
Saio da Just Dance quase correndo.
A chuva cai forte, mas não me importo. Pela primeira vez em dias, eu respiro.
Quase canto “Singin' in the rain”.
Quase.
Sebastian me ofereceu uma vaga como professora dos iniciantes.
Eu.
Professora.
Faço planos enquanto corro até o apartamento de Cassie, com o coração leve demais pra alguém que devia estar com medo.
Devia.
Mas não estou.
Cassie abre a porta e já vem com uma toalha.
— Seca esse cabelo, tia! Quer pegar outra pneumonia!?
— O que você tá fazendo aqui, amor? — pergunto a Vincenzo, enrolando a toalha na cabeça. — Onde tá o Matteo?
— Tá de boas — responde Cassie. — Na sala de vídeo com Antoine. Ela tá assistindo a um filme. Ou melhor… tentando.
— Ele tá impossível — comento, mas paro.
Vincenzo me encara.
Errado.
Frio.
— O que você tá fazendo aqui?
— Fiquei preocupado com minha família. Não posso?
— Pode.
Mas não é isso.
— O clima pesou ou é impressão minha, tia? — Cassie corta, olhando de um pro outro.
— Pesou.
Beijo sua testa.
— Vou pegar as crianças. Obrigada.
— Depois você me conta da aula! — ela insiste.
— Depois.
Não agora.
Na sala, viro de frente pra ele.
— Qual é o problema?
— Impressão sua.
— Não faz essa cara pra mim, Vincenzo. Eu sei quando você tá puto.
Silêncio.
— Eu tava feliz — continuo. — Muito.
— Eu sei.
— Sabe?
— Eu estava lá, Dess.
O chão some por um segundo.
— Nunca te vi dançar assim.
Um sorriso escapa.
Idiota.
— Por que não falou comigo?
— Preferi sair antes do professor te beijar.
Pronto.
A felicidade morre ali.
— Isso é patético.
Aponto o dedo pra ele.
— Você não vai estragar isso pra mim. Não vai.
Dou as costas.
Abro os braços.
Matteo se joga em mim, rindo.
Antoine seca meu cabelo com força demais.
— Eu amo ele, mãe, mas tá impossível!
— A gente vê filme em casa, filha.
— Tá doendo?
— Um pouquinho.
Mentira.
— Vamos?
— Vamos!
Ela sai correndo atrás do irmão.
E eu sei.
Não vai ser tão simples.
— Não vai falar comigo? — ele insiste.
— Falar o quê? Que eu tenho um caso com o professor?
— Quem sabe começa com o que ouvi da Antoine hoje.
Agora dói de verdade.
— Por que você me escondeu isso, Dess?
— Aqui não.
— Vai me contar tudo?
— Vou.
Mentira mal ensaiada.
— Vamos embora.
Cassie surge com a mesa posta.
Claro que surge.
— Ninguém sai daqui sem fazer as pazes.
Liam concorda, já rendido.
— Com uma mulher eu já não tinha moral. Imagina duas.
— Um capacho feliz — diz Cassie, beijando ele.
O mundo deles é leve.
O meu não.
— Vai se vestir, tia. Chega de tristeza e doença por aqui. De agora em diante, ninguém morre. De acordo, Liam?
— Totalmente, amor.
Meu corpo inteiro arrepia.
Eles se beijam, demorados, como se o mundo fosse simples.
Vincenzo me encara.
Sério.
Silencioso.
Pesado.
Antes que eu sustente aquilo por muito tempo, Antoine revira os olhos e resmunga:
— Que nojo. Começou.
— Vincenzo, me deixa em paz! Eu já amamentei seu filho até os nove meses sem tomar meus remédios, sem nada que me fizesse esquecer dessa merda toda! Será que eu não tenho o direito de fumar em paz!?
— Não aqui. Na nossa casa, não.
— Não seja por isso. — Trago o beck e solto a fumaça devagar, em círculos. — Posso fumar lá fora.
Abro a porta e piso descalça na grama molhada do quintal. Debaixo da bougainville, deixo a chuva fina tocar minha pele enquanto tento, inutilmente, me desligar.
Ele vem atrás.
Claro que vem.
— Porque a gente precisa conversar, imbecil.
Ele arranca o cigarro da minha mão e apaga no chão.
— Olha pra mim, Dess. Para de fugir.
— Eu não tô fugindo! — viro, já fervendo. — Eu só queria um minuto de paz!
— Tá infeliz?
— Idiota! — avanço, mas ele segura meus punhos antes que eu acerte suas costelas. — Você que tá cavando problema! Eu só quero paz! Só isso!
— Então fala a verdade. — Ele aperta mais forte. — Por que deixou a Antoine escolher entre a minha vida e a da Cassie?
Aquilo me atravessa.
— O que o seu arcanjo fez!? — explodo. — Essa é a pergunta! Desde quando ser celestial faz barganha com criança!?
— Dess…
— Não manda eu me acalmar! Eu estava calma! Agora aguenta!
— Vai acordar a vizinhança!
— Foda-se! — rio, histérica. — Que conheçam logo! O marido bonzinho e a mulher que fez a escolha errada! Eu devia ter deixado você morrer!
Silêncio.
Pesado.
— Me solta!
— Calma.
— Calma é o caralho! — puxo o braço, mas não adianta. — Ela não merece! E foi por isso que eu escolhi diferente da Antoine!
— Do que você tá falando?
Agora não tem mais volta.
— Não disseram qual vida! — minha voz falha. — Eu não escolhi entre você e a Cassie… eu nem sabia disso! Eu escolhi poupar ela e…
Eu quebro.
Caio de joelhos.
— Eu implorei pra Antoine escolher a Cassie… — confesso, chorando. — Ela é jovem, saudável… ainda pode ter uma vida inteira. Se ela morre, o Liam morre. O bebê morre. Todo mundo se destrói…
Ele solta meus braços.
— Quem te pediu isso, Dess?
— O seu arcanjo não pediu! — levanto o rosto, tomada pela revolta. — Ele colocou isso nas mãos de uma criança de nove anos! Isso é cruel! Eles são cruéis!? Anjos são cruéis!?
Minha voz treme.
— Você vai ser também?
O céu responde por ele.
Um relâmpago corta a escuridão.
O trovão vem logo depois.
— Nossa filha chorou! — minha voz rasga. — Sofreu por ter que escolher entre a melhor amiga e o próprio pai pra te salvar, Vincenzo! Por quê!? Por que os dois não podem existir ao mesmo tempo!? Que porra de escolha é essa!?
A chuva engrossa.
— Eu me meti! — aponto pra mim mesma. — Eu mudei tudo! Não vou perder a Cassie! Não vou perder você! Ela não vai suportar!
Ele tenta manter a razão. Claro que tenta.
— Escuta, Dess… isso não faz sentido. Rafael jamais faria algo assim. Ele segue ordens do nosso Pai. O Criador não destruiria a vida de Liam e Cassie por capricho. Tem certeza que foi ele?
— Tenho! — corto, sob a chuva agora pesada. — Eu vi! Ele falou com a Antoine enquanto você voltava dos mortos! “Você fez sua escolha. Lembre-se disso.”
Silêncio curto.
— Que escolha? — ele insiste. — A gente não sabe!
— A Antoine sabe! — avanço um passo. — Para de ser ingênuo! Tem algo errado com o Rafael! Ele é frio… calculista… Não tem nada a ver com o Miguel!
Eu o encaro.
— Tem certeza que ele joga no mesmo time do seu Deus?
— Nosso Deus! — ele explode. — Não distorce isso! Deus não tá nisso! Antoine é um querubim! Ela tem poder pra salvar todo mundo! Tem algo estranho aqui, mas não é isso que você tá dizendo!
— Tem sim! — aponto pra ele. — Sua negação!
— Chega!
O tapa vem seco.
O mundo para por um segundo.
Ele recua na mesma hora.
— Perdão, Dess…
Levo a mão ao rosto, sentindo o calor subir pela pele.
— Fica longe.
Minha voz sai baixa. Mais perigosa que antes.
— Enquanto você tava deitado, quase morto, eu e seu pai seguramos essa merda toda. A Antoine tava se apagando… sem força… sem vida.
Engulo o choro.
— Eu tomei isso pra mim. A culpa. A decisão. O castigo.
Levanto o olhar pra ele.
— Nunca mais toca nesse assunto com ela. Nunca.
A chuva escorre pelo meu rosto, misturada com lágrimas.
— Ela pode ser o que você quiser acreditar… mas pra mim, ela é uma criança de nove anos.
Um passo atrás.
— E se alguém tiver que pagar por isso… sou eu.
Respiro fundo.
— E não finge que não percebeu. O Rafael não gosta de você. Ele disse isso.
Pausa.
— E eu não quero saber o motivo. Não agora.
Ele me olha, perdido de verdade pela primeira vez.
— Dess… eu tô confuso…
— Eu também estive, Vincenzo… — minha voz sai mais baixa agora. — Enquanto você ia e voltava da morte, eu fiquei aqui. Sozinha. Fazendo escolhas que vão me assombrar pelo resto da vida.
Desvio o olhar.
— Então me deixa em paz… só por um momento.
Ele não vai.
Claro que não.
— Não quero. — Ele se senta ao meu lado, na grama molhada. — Eu não sei viver sem você.
Pausa.
— Me perdoa.
Acende outro cigarro, traga, tosse.
— Eu sou um bosta. Te deixei sozinha…
— Não teve culpa. — tomo o cigarro da mão dele, puxo a fumaça devagar, fecho os olhos por um segundo. — A gente tá no meio de uma guerra onde ninguém mais sabe quem é o quê.
Solto o ar.
— Eu não vou deixar a Cassie morrer.
— Nem eu. — ele responde, firme. — E o Matteo? O sangue dele…?
Silêncio curto.
— Deixa comigo. — digo, sem encarar. — Já pensei em tudo.
Mentira.
— Tenho tudo sob controle.
Ele se joga na grama, me olhando de lado.
— Tem mesmo?
— Claro que tenho. — Minto de novo.
Avanço sobre ele antes que ele continue.
Minhas mãos no rosto dele. Um tapa leve. Mais desespero do que raiva.
Depois o beijo.
Forte.
Quase violento.
— Eu vou dar um jeito em tudo… — sussurro contra a boca dele. — Em tudo.
— É por isso que eu gosto de você… — ele respira contra meu pescoço. — Mesmo mentindo, você me faz acreditar.
— Idiota… — murmuro. — Eu te amo.
Ele me olha como se estivesse vendo algo que pode desaparecer.
— Você é real mesmo… ou eu tô sonhando?
A chuva cai mais forte.
Me inclino sobre ele, sentindo o corpo dele sob o meu, quente apesar do frio.
— Se for sonho… — sussurro — Aproveita.
Ele fecha os olhos, puxando meu corpo contra o dele.
— Então não para.
— Não quero festa, Cassie. Uma reunião entre amigos já tá ótimo.
— Eu quero festa! — ela dispara, animada demais. Forçada demais. — A gente precisa aproveitar cada minuto, tia!
Ela estica o braço tentando alcançar a cortina.
— Essa aqui… com borboletas… é simplesmente esplêndida! Pena que eu não alcanço…
— Para, Cassie. — seguro o varão antes que ela se machuque. — O que tá acontecendo?
— Nada… — ela sorri. Mal.
Olha pro teto.
— O Liam alcançaria…
Aperto a cortina entre os dedos.
— Quer que eu descubra sozinha ou vai me contar?
Ela cede.
Senta no tapete, pequena de repente.
— Eu tô sangrando, tia… quase toda noite.
O mundo dá uma leve inclinada.
— E você não me falou nada!? Vamos agora pro seu obstetra!
— Calma… eu já fui… — ela fala baixo, olhando pro chão. — Ele disse que acontece… em vinte por cento dos casos.
— “Acontece” não é tranquilizador, Cassie. — minha voz sai mais dura do que eu queria. — Você contou pro Liam?
— Não… são os hormônios… vai passar…
Me ajoelho na frente dela.
— Não é só isso.
Ela demora.
Respira.
— Eu tenho sonhado com a Sweet…
Frio.
— Ela aparece… molhada… procurando um filho.
— Sweet não teve filho. — corto, rápido demais. — Só filhas.
— Eu sei… — ela sussurra, já tremendo. — É isso que me assusta.
Ela cobre o rosto.
— Eu tô com medo, tia… mas eu não quero chorar… e não quero que o Liam saiba. Ele não merece isso.
Quase rio.
Não de graça.
De nervoso.
— Ele já sabe.
Ela me encara.
— Como?
— Porque ele te ama. — seguro o olhar dela. — E gente que ama percebe quando algo tá errado… mesmo quando a outra pessoa finge bem.
Pausa.
— Ele só tá esperando você falar.
Silêncio.
Ela assente, devagar.
— Eu vou contar…
As mãos dela encontram as minhas.
Quentes. Frágeis.
— Você sempre cuida de mim…
Engulo.
— Não sei como te agradecer.
Aperto os dedos dela.
Mais forte do que devia.
— Sendo feliz.
Minha voz falha só um pouco.
— Fazendo ele feliz.
Sorrio.
Mentira bonita.
— Eu faço qualquer coisa por vocês.
— Ok.
Matteo chora em seu quarto.
Ergo-me e, num impulso bobo, jogo a cortina sobre a cabeça de Cassie. O pano branco e fino cobre seu corpo por inteiro.
Ela gargalha.
— Sou um fantasma. Vim do mundo dos mortos. Cuidado comigo.
— Engraçadinha. — reviro os olhos, já me afastando — Fica aí quietinha. Já volto.
O riso dela ainda ecoa quando entro no quarto de Matteo.
Ele está em prantos.
Não é manha. Não é birra.
É medo.
Pego meu filho no colo imediatamente, apertando-o contra o peito, beijando seu rosto molhado.
— Ei, ei… calma… — sussurro, tentando controlar o meu próprio coração acelerado — O que foi, meu amor? Fala pra mamãe. Eu tô aqui… eu tô aqui…
Repito mais pra mim do que pra ele.
Os pelinhos da minha nuca se eriçam.
Algo está errado.
Muito errado.
Matteo engole o choro, soluçando, e aponta com a mãozinha trêmula para a parede.
— Dodói…
Congelo.
— Dodói?
Olho ao redor, forçando lógica onde só tem sensação ruim.
Então lembro.
Antoine. O filme. “Monstros S.A.”.
“Monstros fazem dodói.”
Meu estômago afunda.
— Não tem monstro aqui não… — digo rápido demais, sem convicção nenhuma — Não tem…
Repito.
E dessa vez nem eu acredito.
Aperto Matteo contra mim e saio do quarto.
O silêncio da casa pesa.
Denso. Errado.
Antes mesmo de chegar ao quarto de Antoine...
— CASSIE!
O grito rasga o ar.
Meu corpo reage antes da mente.
Corro.
Matteo se assusta com o meu movimento brusco e volta a chorar, agarrando minha blusa.
Meu coração dispara.
— ALGUÉM ME AJUDA! — grito, já sabendo.
Sabendo que não estamos sozinhas.
Sabendo que cheguei tarde.
Sento Matteo ao lado do corpo de Cassie, caída no chão, encolhida em posição fetal.
Logo adiante, um banquinho de madeira tombado denuncia o que aconteceu.
Ela subiu.
Ela caiu.
Mas não foi só isso.
— Foi ela! — geme Cassie, entre lágrimas e dor — Eu vi, tia! Foi ela quem me empurrou!
— Quem!? — tento erguê-la, desesperada, mas paro no meio do movimento.
A cena se reconstrói na minha mente.
Errada.
Fria.
Impossível.
— Foi Celeste… — ela insiste, tremendo — Ela apareceu do nada… e me empurrou! Me empurrou!
Engulo o choro e a puxo com cuidado contra mim.
— Tá tudo bem… eu tô aqui…
Mentira.
O chão está manchado de sangue.
Muito sangue.
Matteo começa a chorar mais alto.
— Dodói… dodói…
Meu instinto entra em curto.
Olho pra ele.
Olho pra Cassie.
Não dá pra salvar todo mundo ao mesmo tempo.
Antes que eu precise escolher, Enrico surge.
Do nada.
Como sempre.
Ele pega Matteo no colo com firmeza, protegendo-o contra o peito. Seus olhos… quebrados. Fixos em algum ponto que eu não alcanço.
Celeste.
Ele murmura algo baixo. Antigo. Pesado.
E ela some.
Simples assim.
Como se nunca tivesse estado ali.
Mas o estrago ficou.
Ele me encara.
— Precisamos ser rápidos.
— Sim. — minha voz falha, mas eu sigo — Sim.
Cassie grita.
Um som cru. Animal.
Enrico a ergue no colo e a leva até a sala.
— Não temos tempo.
— Como assim!?
— O bebê quer nascer agora.
Claro.
Porque um parto de emergência no meio de um ataque sobrenatural é exatamente o que faltava.
— Como sabe!? — pergunto, perdida.
Ele só me olha.
E eu desisto de perguntar.
— Ok… ok… o que a gente faz!?
— Liam! — Cassie grita, desesperada, se contorcendo no tapete já encharcado de sangue — Eu quero o Liam! Ele precisa salvar o bebê!
A campainha toca.
Perfeito.
Entre o caos, o sangue e o desespero… alguém resolveu visitar.
Abro a porta sem pensar.
— Não era pra ser assim… — Antoine entra chorando, largando tudo pelo caminho — Ainda não tá na hora… meu tio falou…
Meu estômago vira.
— O mesmo tio de “uma vida pela outra”!?
Ela não responde.
Nem precisa.
Volto correndo pra Cassie, me ajoelhando ao lado dela.
— Calma… calma… vai dar tudo certo…
— NÃO VAI! — ela grita, me agarrando — Salva o meu bebê!
O peso da escolha me esmaga.
Eu escolhi você.
Não ele.
Não agora.
— Pegue toalhas limpas, álcool e uma tesoura, Antoine! — ordeno, sem espaço pra hesitação.
— De novo!? — ela grita, entrando em pânico — Ai meu Deus! Cadê ele que não aparece!?
Ela corre pela casa, perdida.
Volta.
Sai.
Volta.
Criança tentando ser adulta no meio do inferno.
— Calma, Cassie… — Antoine sussurra, ajoelhando-se atrás dela, apoiando sua cabeça — Sua filha vai nascer igual ao meu maninho… lembra do castelo? Vai dar tudo certo… confia…
Cassie para.
Congela.
Os olhos se arregalam.
Fixos.
Acima da minha cabeça.
O ar muda.
— VÁ PRO INFERNO, SWEET!
Meu corpo inteiro trava.
Viro devagar.
E lá está ela.
Molhada.
Coberta de algas.
Errada.
— Sweet…? — minha voz sai baixa, carregada de ódio — Que diabos você tá fazendo aqui?
Dou um passo à frente.
Entre ela e Cassie.
— Você não é bem-vinda.
— Eu quero meu filho de volta… — a voz dela sai arrastada, distante, como se viesse de dentro d’água.
Me coloco imediatamente à frente de Cassie.
Instinto puro.
Proteção.
Pânico.
Sem pensar, pego a garrafa de álcool e jogo sobre ela.
Patético.
— EM NOME DE CRISTO, SOME!
Nada.
Nem um tremor.
Nem um recuo.
Fico ali, encarando.
— Dess…? — a voz de Vincenzo chega atrás de mim.
— Me ajuda!
Ele entra na sala… e para.
— O que ela faz aqui…?
Sweet ergue os braços lentamente, como se estivesse afundando em algo invisível.
— Nosso filho… — ela murmura — Ele se perdeu…
Aquilo não é pra gente.
É pra alguém que já morreu.
Antes que eu perca o controle, Vincenzo estala os dedos.
Seco.
Direto.
Ela some.
Simples assim.
Mas o ar não limpa.
Fica pesado.
Errado.
Eu sei que ela não foi embora de verdade.
Vincenzo me encara.
Silencioso.
Tenso.
Então me afasta de Cassie e se ajoelha, fechando os olhos.
— PRECISAMOS AGIR, NÃO REZAR! — explodo.
— LIAM! — Cassie grita, antes de desmaiar.
Finalmente.
A porta escancara.
Liam entra como um animal ferido.
Olhos vermelhos. Perdido.
Ele cai ao lado dela, puxando seu corpo contra o peito.
— Fica comigo… fica comigo, amor…
Não dá tempo pra isso.
— Faz alguma coisa ou sai da frente. — rosno, empurrando Vincenzo.
Rasgo a roupa de Cassie sem cerimônia.
Sangue.
Calor.
Urgência.
Minhas mãos tremem por meio segundo.
Depois… não mais.
Algo em mim assume.
Frio.
Antigo.
Seguro.
— Já fiz isso antes. Fica tranquilo.
— Dess…? — Vincenzo sussurra.
Sorrio.
Mas não sou eu.
— Não. Mas você me conhece.
Ergo o olhar.
— Enrico, tira ele daqui. E volta. Vou precisar de você.
Pausa.
Respiro fundo.
Meto as mãos.
Sinto.
Errado.
— O bebê não está na posição correta.
Retiro as mãos, sujas, e olho direto pra Vincenzo.
Ele ainda tá tentando entender.
Tarde demais.
— Dess?
— Sou a versão mais antiga, querido. Agora vai. Leva o Matteo.
Liam me encara, quebrado.
— Salva nossa filha… — a voz falha — Ela não vai aguentar…
Ele beija a testa de Cassie como se fosse a última vez.
E pode ser.
Volto.
Concentro.
Mãos firmes.
Entro de novo.
Procuro girar o bebê.
Cassie desperta num grito.
Um grito que rasga tudo.
Ela se agarra a Liam como se estivesse caindo.
— Salva nossa filha… — ela implora — Esse foi o combinado…
O combinado.
Aquilo me atinge.
Mas continuo.
Movimento.
Forço.
Tento encaixar.
Errado.
De novo.
Cassie perde o ar.
O corpo relaxa.
A cabeça cai pra trás.
Por um segundo…
silêncio.
Eu paro.
— Ela é muito jovem… e frágil. Não vai conseguir. — digo baixo, quase pra mim mesma.
Enrico me ajuda, passando toalhas mornas, mãos firmes apesar do olhar pesado.
Vincenzo surge com um balde de água.
Evitando meus olhos.
— É pra limpar tudo.
Eu sorrio.
Triste.
Cansada.
— Você não se lembra de mim.
Ele se ajoelha ao meu lado.
— Lembro. — sussurra — Mas prefiro que a minha Dess volte.
— Ela vai voltar…
Antes que eu termine, mãos geladas tocam meu rosto.
Cassie.
Os olhos perdidos, a dor rasgando tudo.
— Tira ela… da minha barriga… com vida… — ela implora — Não me importo com nada… tira ela com vida…
Enrico trava.
— Como…? O bebê não vai sair a menos que...
— Abre a minha barriga, tia! — ela grita — Eu escolho a minha filha!
De algum lugar distante… eu ouço tudo.
Mas não sou eu quem responde.
— Nem nos tempos mais selvagens em que vivi fiz algo assim, meu anjo… — minha voz sai calma. Antiga. — Daqui por diante… deixo nas mãos do Criador.
Pausa.
Respiro.
— Adeus, Vincenzo.
O olhar dele…
quebra.
E some.
Eu volto.
Violento.
Cru.
— O que eu fiz!?
— Você tentou virar o bebê, mamãe… — Antoine responde, tremendo — Mas não conseguiu…
O chão.
O sangue.
Cassie.
Errado.
— Ela tá perdendo muito sangue… — minha voz falha — Não vai chegar ao hospital…
Liam me agarra.
Desesperado.
Ou fingindo muito bem.
— Faz alguma coisa! Não deixa minha Cassie morrer!
Claro.
Agora é comigo.
— Ele chegou! — Antoine grita.
O ar muda.
Frio.
Pesado.
E então…
silêncio.
Total.
Olho ao redor.
Vincenzo.
Liam.
Cassie.
Enrico.
Matteo.
Todos… imóveis.
Estátuas.
O tempo parou.
Claro que parou.
Porque ainda não tava ruim o suficiente.
Ele atravessa a porta.
Sem pressa.
Sem emoção.
— Vocês, humanos… estragam tudo. — diz, entediado — Ela vai morrer a qualquer momento.
Meu sangue ferve.
— Culpa sua!
— Mamãe! — Antoine me repreende, assustada — Ele veio ajudar!
— A matar a nossa Cassie!? — cuspo — Não precisa! Mais um pouco e você consegue a sua troca!
Erro.
Grave.
A mão dele vem no meu pescoço.
Rápida.
Forte.
Me ergue.
— Eu jamais faria esse tipo de coisa, humana imbecil! — a voz dele vibra, pesada — A troca se tratava de Antoine e Vincenzo!
Arremessada contra o sofá, tento puxar ar.
— Ela precisa retornar ao nosso mundo antes que sucumba no seu! — ele continua — De onde você tirou essa ideia absurda de que o Meu Pai trocaria a vida de uma criança pela vida da própria mãe!? Ele não barganha!
Tusso.
O peito ardendo.
— Foi… Antoine…
Silêncio.
— Perdão, tio… — Antoine diz, cabisbaixa — Eu me enganei…
Ele ergue o queixo dela com o dedo.
Sem raiva.
Sem pressa.
— Você ocupa o corpo de uma criança… — diz, quase suave — portanto, pensa como uma.
Os olhos dele deslizam até Cassie.
Calculando.
Pesando.
Decidindo.
Eu puxo Antoine pra perto.
Tentando respirar.
Tentando entender.
Tentando, inutilmente, recuperar o controle de uma situação que já foi pro inferno faz tempo.
— O que pretende fazer, Rafael?
— Arcanjo, por favor.
Reviro os olhos.
— O que pretende fazer, grande e magnânimo Arcanjo Rafael? Ela vai morrer se continuar pensando.
Ele não se vira.
— Ela deve morrer para que a criança viva.
O mundo para um segundo.
De novo.
Levanto do sofá, mãos cobertas de sangue.
— Não é justo. Cassie é uma menina exemplar. Pode ter outros filhos. Poupe a vida dela. Leve a criança.
— Cassie já viveu o que tinha para viver. — diz, frio — A criança pode e deve ser feliz ao lado do pai.
— O pai não vai viver sem a Cassie!
Agora ele vira.
Devagar.
— Por que não viveria? — pergunta, como se fosse óbvio — Ele não caiu por ela. Pode encontrar outra humana e recomeçar.
Aquilo me atravessa.
— Não é assim que funciona aqui! — minha voz quebra — O amor que o Seu Pai nos ensinou… é o que nos mantém vivos! Você pode não entender… mas é isso! — aponto pra tudo — Tire a Cassie do Liam e ele não sobrevive! Tire a Cassie de mim… e parte de mim morre com ela! Antoine ama a Cassie como uma irmã!
Minha voz falha.
— Por favor… deixa ela viver… se precisar levar alguém… leva a mim.
— MAMÃE!!!
Antoine se agarra em mim.
— Antoine e Matteo têm um ótimo pai. Eles vão ficar bem.
— NÃO FAZ ISSO! — ela grita, desesperada — Você é minha mãe! Eu não vou ficar sem você!
— Filha… é pela Cassie…
— Então eu vou! — ela dispara — Eu vou no lugar dela!
— NUNCA!
Eu a puxo com força.
Nós duas choramos.
Grudadas.
Como se isso pudesse impedir alguma coisa.
Rafael observa.
Sem pressa.
Balança a cabeça.
Leve reprovação.
— Vocês humanos… são complicados. — diz, quase cansado — Eu não sou a Morte. Não me confundam. Não vim buscar ninguém. Miguel me pediu um favor… e, apenas por ele, estou aqui.
Pausa.
— Eu promovo a Cura.
Engulo seco.
— Por favor…
— Cale-se. — ele corta — Estou ouvindo o Meu Pai.
O silêncio pesa.
Eu travo.
Não consigo respirar direito.
Nem pensar.
Só esperar.
Então…
algo muda no olhar dele.
Quase imperceptível.
— Cassie fica.
O ar volta.
Violento.
Dolorido.
— E quem vai no lugar dela? — minha voz sai trêmula
Ele me encara.
Sem paciência.
— Você é extremamente irritante.
— Por favor! Quem vai embora no lugar dela!?
Um sorriso frio.
E ele some.
Luz.
Pontinhos no ar.
Nada mais.
— NÃO! — Antoine se agarra em mim — Não me deixa!
Eu puxo ela.
Arrasto até a cozinha.
Preciso respirar.
Preciso de água.
Abro a torneira e bebo direto.
Ela faz o mesmo.
Tremendo.
Nunca vi ela assim.
Nunca.
Eu junto o que sobrou de mim.
Forço a voz a sair estável.
— Filha… vai dar tudo certo… eu vou partir agora… mas um dia a gente vai se encontrar e...
Um grito corta tudo.
Da sala.
Cru.
Desesperado.
— TRAGAM ELA DE VOLTA!
Congelo.
O coração falha uma batida.
Demoro.
Mas volto.
Porque não tem mais pra onde fugir.
.jpg)


.jpg)




.jpg)



.jpg)

.jpg)




.jpg)
.jpg)
Comentários
Postar um comentário