CAPÍTULO 39 - TRÁGICO
— Tem muita comida aqui e eu me recuso a ouvir um “não” como resposta, tia! Vamos esquecer o que aconteceu ontem à noite! Hoje é Natal! Meu Sean merece um dia feliz como eu nunca tive! E os presentes? Ainda estão aqui! Além disso, Antoine saiu daqui com fome, eu sei!
— Tem razão, querida… tem razão. — digo, com o peito apertado.
Desligo o celular.
No quarto, Vincenzo está sentado na beira da cama, curvado, cabeça baixa, como se o peso do mundo tivesse decidido morar nas costas dele.
Eu sinto.
Mesmo quando ele tenta esconder, eu sinto.
— Você não sente nada, Dess. — ele corta, seco. — Eu só não quero ir. Quero ficar aqui. Com a nossa família. Não tô com cabeça pra conversar, rir…
— E se eu te implorar? — ajoelho entre suas pernas, segurando seu rosto. — Não me deixa sozinha, amor… eu também tô sofrendo.
— Eu não tô sofrendo, porra. Para de tentar ler a minha mente.
Aquilo me atravessa.
— Estúpido… — levanto rápido, ferida.
Sou eu.
Sempre eu tentando segurar tudo.
Sou eu que vi.
Sou eu que sei.
— Fica longe, Vincenzo! E não se atreva a entrar na minha cabeça! — minha voz falha enquanto tento fugir do abraço que vem logo em seguida.
Ele me prende pela cintura, firme.
— Então me conta. — a voz dele baixa, mas não cede. — Conta tudo o que você viu ontem. Eu sou o pai. Eu aguento. E com você… eu aguento mais.
— Eu não quero…
— Não chora… — ele encosta a testa na minha. — A gente enfrenta junto.
Eu desmorono.
— É coisa demais… — minha voz sai quebrada. — Gente demais pra proteger… pra salvar…
Respiro, falho.
— O Doc… — engasgo — Ele tá morrendo, Vincenzo… e antes de morrer… ele vai esquecer da gente… vai esquecer dele… — o choro vem forte — Vai esquecer até de respirar…
Meu corpo cede.
Ele me leva de volta pra cama, me cobre com cuidado, como se eu fosse quebrar.
Fica ali.
Me olhando.
Em silêncio.
Esperando.
Até que o choro seca, não porque passou… mas porque não sobra mais nada.
Abro os olhos, exausta.
— Para de me olhar, idiota.
— Não dá… — ele murmura. — Eu não me canso de te olhar. De admirar sua força… sua compaixão.
— Para com essa merda.
— Você se preocupa com todo mundo… menos com você.
— Eu me cuido muito bem, canalha.
— Já tomou seus remédios hoje?
Reviro os olhos.
— Não. E não preciso. As vozes se calaram… ou pior… — solto um riso sem humor — Tem tanta gente na minha cabeça que já não sei mais o que é meu e o que é delas.
— Dess…
— Doc não pode morrer. — atropelo. — Eu preciso correr com ele. Prometi. Exercício retarda essa doença maldita. Ele já se aposentou… deve estar dormindo melhor… é só isso… só correr…
— Dess!
— O quê?!
— Para de fugir do que tá te machucando.
— Não sei do que você tá falando.
Silêncio.
— Quem matou o gatinho ontem?
Meu corpo encolhe sozinho.
— Não sei… Doc confessou.
— Você tocou no Matteo. — a voz dele baixa. firme. — Você sabe.
Eu não respondo.
Ele me puxa, me prende contra o peito.
— Nada do que você disser vai mudar o que eu sinto pelo nosso filho. Entendeu?
— Uhum…
— Foi ele… não foi?
— Opa! Opa! Opa!
A porta escancara.
— Não tinha aviso de “não entre”! — Antoine invade o quarto. — Meu maninho tá com fome e eu não sei o que dar pra ele!
Enrico surge atrás, constrangido.
— Eu tentei impedir… mas Antoine sendo Antoine é… inevitável.
— Filha — digo, puxando o lençol — Porta fechada se bate antes.
— Pra eu não pegar vocês fazendo safadeza?
O riso de Enrico escapa.
— Seu pai está certo.
— Tanto faz. Eu tô morrendo de fome. — cruza os braços. — Posso comer ou o drama de vocês é prioridade?
Vincenzo se levanta.
— É prioridade, filha.
Sorrio, quase aliviada. Finalmente ele impõe limite.
— Você não dorme, Antoine?
— Quase nunca. — dá de ombros. — Ontem foi… interessante. Já contei tudo pro vovô.
— Que tipo de coisa? — ironizo.
Vincenzo ri, caindo na cama.
— Quero lutar. — ela solta, simples. — Combater o Mal. Vocês não enxergam, mas ele tá chegando. Quero treinar com você, pai.
— Você é pequena demais.
— Eu falei isso. — Enrico levanta a mão. — Ela não escuta.
— Vovô… eu te amo. — ela olha sério. — Mas você já tá contaminado. Se eu não lutar… eles te levam.
— Para! — caminho até ela e a abraço. — Você tá… acelerada demais.
— Faminta.
— Elétrica.
— Eu tô respirando, mãe. Relaxa.
— Senta.
Ela se joga na poltrona.
— O que você tem hoje?
— Fome… e raiva.
— Raiva de quê?
— De ser pequena. De não saber lutar como você. De não conseguir proteger meu irmão.
Vincenzo intervém:
— Proteger de quem?
— De ninguém. — ela levanta, irritada. — Vou me arrumar. Vou correr com o tio Doc antes que ele morra.
— Não fala isso! — levo a mão à boca.
— Você sabe que é verdade.
Ela já está na porta.
— Vou comer e o vovô me leva. A gente não tem tempo.
— Eu??? — Enrico trava.
— Vai amarelar?
— “Amarelar”? — ele olha perdido.
— Desistir, pai — explica Vincenzo, rindo.
— Nunca! — Enrico estufa o peito. — Um soldado não foge!
— Então vem, soldado. E faz dois mistos.
Eles saem.
Silêncio.
— Como você consegue rir? — pergunto.
— Foi engraçado… meio perturbador… mas engraçado.
— E vamos deixar isso crescer?
— Não.
— Não me toca.
Viro as costas e sigo pro quarto de Matteo.
— Não me segue!
— Eu faço o que eu quiser! — ele vem atrás. — A casa é minha, o filho é meu… e você também.
— Idiota…
Matteo está de pé no berço. Sorrindo.
E pronto.
Tudo dentro de mim desarma.
— Vem com a mamãe…
— Vai me responder? — Vincenzo insiste. — Ou eu vou entrar na sua cabeça?
— Me deixa em paz. — sento com Matteo no colo. — Ele tá nervoso.
— Não. Você tá.
Ele não solta.
— Você viu. Como ele fez?
Levanto.
Fugindo.
Cozinha.
— Agora não, Vincenzo. Ele precisa comer. — jogo as bananas contra ele. — Amassa duas.
Antoine e Enrico param, observando.
— E coloca aveia.
— Ela tá virada no Jiraiya, vovô — murmura Antoine, de boca cheia.
Vincenzo volta a rir enquanto descasca as bananas.
— “Virada no Jiraiya”? Seu avô não entendeu, filha. Explica!
— Tá surtando… — responde Antoine, sem me olhar. — Copiou?
— Copiei — diz Enrico, inseguro.
— Vincenzo, para de rir e amassa essas bananas!
— Eu posso amassar e rir ao mesmo tempo, idiota. Viu como seu escravo é eficiente?
Enrico se encolhe na banqueta.
— Antoine, termine seu café. Estamos atrasados.
— Não estamos, vovô. — ela ri. — Tio Doc nem sabe que a gente vai. E, se souber, já esqueceu.
— Vincenzo, não ria disso!
— Dess… isso foi bom demais. — ele se apoia na pia, rindo. — Filha, você tá esquisita hoje.
Antoine passa por ele, beija sua bochecha, larga o prato sujo na pia. Beija Matteo. Me beija.
— Você não viu nada, inocente.
Enrico vai atrás, ainda perdido.
— Hoje teremos um dia… agitado. Como vocês dizem… fui.
Sou obrigada a rir.
Vincenzo, enfim, me entrega o prato.
— Um toque de aveia e voilà.
— Gracinha… — resmungo, sentando com Matteo no colo. — Não gostei disso. Tem algo errado com a Antoine.
— Eu senti também. — ele se inclina sobre a bancada. — Um filho de cada vez, Dess. Agora me conta.
— Abre a boquinha, meu amor…
Matteo engole, abre a boca de novo.
Silêncio.
— Não vou falar. Não agora. Respeita. Tô alimentando nosso filho.
— Então ninguém sai dessa casa até você falar tudo, imbecil.
— Aonde você vai?
— Tomar banho.
— Não antes de lavar a louça.
— Se pedir com educação…
— Não precisa. Eu faço depois.
— Porra…
Ele se joga na bancada, segura meu rosto e me beija.
— Você me deixa louco com esse teu jeito insuportável.
Eu rio. Matteo ri junto.
Levanto, deixo o prato na pia e começo a sair.
— Não foge, Dess! — ele grita.
— Nunca!
Corro. Porta. Fecho.
Dois segundos.
Ele empurra.
— Sério? Isso aqui era pra me segurar?
Ele pega Matteo, senta o menino no tapete e me puxa.
— Agora chega.
Sento. Cruzo as pernas. Respiro.
— Ele…
O ar some.
— Respira comigo. — Vincenzo segura meu rosto. — Quatro… segura… solta. Isso.
— Tô bem.
— Eu sei que foi ele. Só me diz como.
— A culpa foi minha. Eu deixei ele sozinho.
— Para com isso. Continua.
— A casinha da Medusa tava aberta. Ele quis brincar. Ela arranhou. Ele chorou… sentou ali… — minha voz falha — O filhote já tava fraco… rejeitado…
Engulo seco.
— Ele pegou… rindo… e colocou na meia…
Silêncio.
— Enquanto o bichinho… — minha voz quebra — Se debatia…
Eu cubro o rosto.
— Calma… — ele me puxa pro colo. — Ele tentou com outros?
— Não. Depois ele brigou com a Medusa. Achou que era culpa dela. Por isso ele dizia “miau dodói mau”.
Me agarro nele.
— Eu tô com medo, Vincenzo… e se isso…
— Psicopatia? — ele corta. — Não. Calma. A gente observa.
— E se for?
— A gente cuida.
— Não tem cura!
— Dess. — ele me encara firme. — Nosso filho é saudável.
Silêncio.
— Vamos dar banho nele.
— Tenho medo de todo mundo perceber…
— Se alguém pensar isso, vai ouvir de mim. Nosso filho é um bom menino. — ele respira fundo. — E sangue não define caráter. Olha você.
— Para… — fico vermelha. — Já fiz muita merda.
— Mas nunca foi cruel.
Ele sorri. Eu beijo.
Matteo sobe no sofá com ajuda dele. Fica entre nós.
Me olha sério.
— Merda. Mamãe merda. Ai ai ai.
A gente desaba a rir.
Apesar do olhar indecifrável de Liam cravado em Matteo, à mesa, conseguimos rir. Cassie, com seu coração absurdo de tão puro, nos arrasta com facilidade para seus planos de futuro.
— Eles vão ser melhores amigos! — diz, radiante. — Mesmo colégio, mesma turma!
— Meu maninho vai estar sempre um ano à frente. — corta Antoine, com a boca cheia.
— Antoine… — aviso, baixo. — Desnecessário.
— Mas é verdade. — Ela nem me olha. — E o tio Liam tá desconfiando dele.
— Jesus! — Cassie se assusta. — Desconfiando de quê?
— Da morte do gato.
— Antoine!
— Mãe, eu preciso falar a verdade. A verdade une a gente pro momento de ação. — Ela mastiga, tranquila. — O tio Liam vai fazer parte do nosso exército. Ou não?
— Que exército, pirralha? — Cassie ri, nervosa. — Tá me assustando.
— Relaxa, ‘Little Princess’. — diz Liam, calmo demais. — Ela é só uma criança.
— Não sou. — rebate Antoine, seca. — E tu sabe disso.
Ela arranca outra coxa do peru como se estivesse em guerra.
— Hmmm… Isso aqui tá simplesmente esplêndido. — Fecha os olhos, saboreando. — Responde, tio Liam. De que lado você tá?
— Antoine! — rosno. — Cala a boca.
— Ela acordou esquisita. — comenta Vincenzo, rindo. — Culpa da Marvel. Tá se achando heroína. Já fez o Doc correr hoje cedo. Arrastou meu pai junto.
— Que fofo… — murmura Cassie, sem entender nada.
— Ele não soube correr. — Antoine limpa a boca com o dorso da mão. — Esqueceu. Eu ensinei ele a andar.
O sorriso de Cassie vacila.
— Por quê?
— Porque ele tá doente. — Antoine dá de ombros. — Vai morrer.
— Antoine, come e fica quieta. — minha voz sai mais baixa do que eu queria. — É uma ordem.
— Certo, chefe. — Ela bate continência, debochada. — Mas é melhor explicar logo o gato. O tio Liam ainda acha que foi acidente.
— Já deu, Shrek. Já deu. — resmunga Vincenzo.
— Eu amo Shrek. — solta Cassie, completamente perdida.
— Eu não duvido, Antoine. — Liam finalmente entra. — O gatinho já estava morto quando Matteo pegou. Criança não entende. Ele achou que era um brinquedo.
Silêncio.
Antoine sorri. Um sorriso que não combina com a idade.
— Perfeito, tio Liam. Posso pegar a outra coxa?
— Você já pegou.
— Eu sei… — ela inclina a cabeça. — Mas você ainda não disse de que lado tá.
— Rebelados? Não entendi, pirralha.
— Então fica de fora, Cassie.
— Filha! — corto, agora olhando direto pra Liam. — Chega.
— Pode comer. — diz Cassie, atordoada. — Você tomou energético?
— Não. Eu só acordei assim.
E então ela solta, como quem comenta o clima:
— Tio Doc bateu na tia Adele de novo.
O ar da sala morre.
— Chega! — levanto, o coração disparado. — Vai comer na cozinha. E, em casa, você vai ficar de castigo!
— Por falar a verdade?
— Dess, calma… — Vincenzo tenta.
— A tia Adele tá pensando em fazer besteira. — Antoine continua, como se não existisse consequência. — Eu só quero ajudar.
Cassie perde a cor.
— Meu Deus…
— Você tá ardendo! — encosto nela. — Febre alta.
— É normal. — diz Liam.
Normal.
Claro.
— Ela acordou. — completa ele, com aquele tom que não explica nada.
— Por que você falou assim? — Cassie pergunta, insegura.
— Nada. — ele sorri. — Nada. Me passa mais um pedaço?
— Depois do remédio dela.
— Eu tenho, Cassie. — já puxo da bolsa de Matteo. — Cuida do seu marido.
Coloco o comprimido na boca de Antoine. Ela me olha… e por um segundo, não é minha filha ali.
— Vai passar. — sussurro, beijando sua testa. — Descansa.
— Eu cuido dela. — diz Enrico, firme, já segurando sua mão. — Não tá sendo fácil pra ela também.
Ele nos olha, quase pedindo desculpa por algo que ninguém nomeou.
Eles saem.
Do corredor, a voz dela vem leve demais:
— Vovô… a gente pode ver “A Paixão de Cristo”? Aquilo me inspira.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Quando abro, Liam está me observando.
— Não se desculpe, Adessa. — ele diz. — Eu entendo mais do que você imagina.
— Desde quando, ‘Coelhinho’? — tento rir. — Já teve uma filha e esqueceu de me contar?
Debaixo da mesa, Vincenzo segura minha mão.
Fria.
Liam beija Cassie, com uma calma que me dá raiva.
— Meu único filho está aqui. — ele diz. — E eu vou amar a mãe dele pela eternidade.
Sensibilizada, Cassie brinca, limpando o rosto ainda úmido:
— Aimeudeus… dá pra não amar esse homem?
— Não. Impossível. — concordo, mas algo em mim trava. — Se eu não amasse o meu, eu queria o seu.
— Nem vem, tia! Esse é meu! Só meu! — Ela ri e aponta pra Vincenzo. — Olha a cara dele!
— Tô achando muita graça. Ha. Ha. Ha.
— Idiota. — beijo sua bochecha e sussurro: — Eu te amo mais do que a mim mesma.
Cassie desaba num choro repentino, como se algo tivesse rasgado por dentro.
— Vamos abrir os presentes, pelo amor de Jesus!
Ergo a taça de vinho, enxugando o rosto, tentando acompanhar o clima que não volta.
— Vamos.
Sob o olhar silencioso de Liam.
Sempre ele.
Observando.
Dias depois.
Véspera de Ano Novo.
Meu celular vibra.
Fotos.
Cassie, Liam e Sean em Nova York. Neve. Sorrisos. Um tipo de felicidade limpa que não cabe mais em mim.
“Sinto sua falta, tia. Espero que Antoine esteja melhor. Voltaremos em breve.”
Respiro fundo antes de responder.
“Aproveitem. Ano que vem estaremos aí.”
Mentira.
Guardo o celular e desligo o motor.
Estou diante da casa de Doc e Adele.
Tudo parece mais velho.
Mais cansado.
Como se o tempo tivesse decidido morar ali.
Toco a campainha.
A porta range.
E ele aparece.
Doc.
Curvado. Apoiado numa bengala. Uns dez anos mais velho em dias.
— O que quer?
O ar some dos meus pulmões.
— Doc… sou eu. A gente combinou de correr. Lembra?
— Não. — ele responde, seco. — Mas lembro de você.
Um segundo.
Dois.
— Adessa Love. — ele cospe o nome. — A puta do ‘California’. Deu sorte de um idiota te assumir.
Cada palavra é um golpe.
— Um bobão que acreditava em tudo que você dizia.
Fico de pé.
Mas por dentro, caio.
Adele surge atrás dele, tentando segurá-lo.
— Vem, amor… vem.
Ela o leva pra dentro.
E quando volta…
Eu não reconheço ela também.
Rosto marcado.
Olhos vazios.
Pele sem vida.
— Perdão… — a voz dela falha. — Ele não sabe o que diz. A doença… tá levando tudo.
Seguro seu corpo antes que ela caia.
Levo até a cadeira da varanda.
Tudo nela está quebrando.
— Já não reconheço mais ele. — ela sussurra. — Meu grande amor se foi… e eu não vou ficar aqui sem ele.
— Não fala isso.
Ajoelho.
Encosto a cabeça nas pernas dela.
— Eu vou trazer ele de volta. Custe o que custar.
Ela não reage.
— Não há mais o que fazer…
— Tem sim. — ergo o rosto. — Vai pra minha casa. Você e ele. No Ano Novo. Não fica aqui sozinha.
Silêncio.
— Lá… ele pode ouvir música. Pode ficar com a gente. Antoine ainda consegue alcançar ele.
Nada.
— Adele… essa casa tá doente. Vocês estão sendo engolidos aqui. Vem comigo.
O vento entra.
Frio.
Cortante.
A gente entra junto com ele.
Doc está no sofá.
Parado.
Mas não ausente.
Ele me olha.
Como se eu fosse um inimigo.
Ignoro.
Vou direto à estante.
Discos.
Muitos.
Escolho um.
Coloco pra tocar.
A agulha desce.
A música começa.
E alguma coisa muda.
Devagar.
Os olhos dele enchem d’água.
Adele senta ao lado dele, como se tivesse medo de que ele desapareça de novo.
— Eu te amo…
Ele demora.
Muito.
Mas responde:
— Eu também te amo, minha velha…
Um fio de vida.
— O que aconteceu com seu rosto?
— Eu caí, amor…
Minto junto com ela, em silêncio.
Me encolho num canto.
Assistindo.
Torcendo.
Implorando.
— Eu tenho que ser eu… — ele murmura, perdido dentro da própria voz.
A música segura ele ali.
Por enquanto.
Só por enquanto.
— Por que está chorando, meu anjo? Aconteceu alguma coisa com as crianças?
— Não, Doc. Nada. — respondo, me aproximando para cobri-lo com o casaco de couro. — Eles estão te esperando lá em casa. Vamos?
Os olhos dele acendem, como se alguém tivesse acendido uma luz antiga dentro dele.
— Vai ter festa?
— Vai.
Ele sorri. De verdade.
— Vai ter música como essa? Eu amo essa música… Papai tocava no Natal. A gente não tinha nada… só feijão e arroz… mas tinha tanto amor…
Engulo o choro.
Guio Doc até o carro. Acomodo ele no banco de trás, ao lado de Adele. No som, a mesma canção se repete, como um fio frágil segurando tudo.
Quando chegamos, o portão se abre.
Vincenzo já está lá.
Ele não fala nada no começo. Só puxa Doc para um abraço apertado.
— Saudades, meu chapa… saudades.
Doc hesita… mas não recua.
— Antoine está em casa?
— Tá sim. — Vincenzo segura o braço dele com cuidado. — Vem. Ela tá te esperando.
Atrás deles, eu ajudo Adele a sair do carro. Ela está leve demais.
— Obrigada… — ela sussurra. — Aqui… ele se sente bem.
— E você vai descansar. — respondo, firme. — Sem discussão.
Levo Adele até o quarto de hóspedes.
Preparo o banho. Sais. Água quente. Silêncio.
Entrego toalhas, roupas.
— Fica o tempo que quiser. Depois dorme. Hoje, eu cuido dele.
Ela me olha como se não entendesse como alguém ainda consegue cuidar de alguma coisa.
— Eu não sei como te agradecer…
— Não agradece. Descansa.
Fecho a porta.
E deixo ela ali.
Sozinha.
—
Na varanda, Antoine conversa com Doc.
Ele ri.
Responde.
Por alguns minutos…
ele volta.
Volta mesmo.
E isso dói mais do que quando ele some.
Caminho pela casa devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar o pouco de equilíbrio que sobrou.
Na brinquedoteca, Matteo gargalha montado nas costas de Vincenzo.
— Anda, cavalinho!
Vincenzo relincha. Idiota.
Eu quase sorrio.
Quase.
Na sala, Enrico lê… ou finge.
De vez em quando, olha pro nada.
Celeste mora ali, nos silêncios dele.
Nada está no lugar.
E, ao mesmo tempo, tudo está exatamente onde deveria estar antes de desabar.
Volto ao quarto.
A porta está entreaberta.
Adele está sentada na beira da cama.
Cabelos úmidos.
Vestindo minhas roupas.
Como se já não fosse mais ela.
Como se já estivesse indo.
Ela pega minhas mãos.
Beija.
Devagar.
— Obrigada por cuidar dele.
— Descansa, Adele. — digo, mas não acredito em uma palavra. — A gente vai vencer isso.
Mentira mal construída.
Ela olha pro teto.
— Eu tenho fé…
Silêncio.
— Ele disse que vai me ajudar.
Meu corpo inteiro trava.
— Em Deus?
Ela fecha os olhos.
Não responde.
Mas responde.
Um frio sobe pela minha coluna como se alguém tivesse encostado em mim por dentro.
Eu recuo.
Saio.
Fecho a porta.
E sigo.
Como se não tivesse ouvido.
Como se não tivesse entendido.
Erro.
—
— Ela tá bem? — pergunta Vincenzo, quando me alcança no corredor.
— Dormiu. Tá exausta.
Ele me olha.
Mais do que deveria.
— Você tá exausta, Dess. O que eu posso fazer?
A voz falha.
E eu odeio isso.
— Me abraça.
Ele não fala.
Só vem.
E, por alguns segundos…
o mundo para de desabar.
Vincenzo pede comida pelo celular.
— Fica com a gente, Dess. Você não tá bem.
— Eu preciso preparar o peru. Antoine me pediu tanto…
— Ela não vai morrer sem peru hoje. — ele segura meu rosto. — Eu quero você aqui. Agora. Com a gente.
O céu começa a estourar em luz.
Fogos.
Ano novo chegando.
— Quero você no primeiro segundo — ele completa.
Eu sorrio, mas já estou quebrada por dentro.
— Eu também.
Estamos todos de pijama.
Ridículo.
Perfeito.
Errado.
Abraço Antoine. Matteo no meu colo. Enrico ao nosso lado.
E eu choro.
Por todos.
Por tudo.
Doc se encolhe com o barulho.
— Cadê a Adele?
— Ela tá dormindo — diz Vincenzo. — Já te levo até ela.
Mentira piedosa.
O céu explode em cores.
“Feliz Ano Novo!”, Antoine grita, vibrando como se fosse invencível.
Matteo bate palminhas.
E, por um segundo, parece que dá.
Que a gente vai sobreviver.
O silêncio depois dos fogos é pior.
Eu olho ao redor.
Doc não está mais ali.
Meu coração erra o ritmo.
— Vincenzo…
Eu já estou correndo.
Desço as escadas pulando degraus.
Ele vem atrás.
— Espera!
Não espero.
O grito corta a casa antes de chegarmos.
Um urro.
Cru.
Animal.
Paro.
Vincenzo para comigo.
A gente se olha.
Já sabe.
Mesmo assim, vamos.
A porta está aberta.
Doc está sobre o corpo de Adele.
Sacudindo.
Desesperado.
— Acorda! Acorda!
— Doc! — minha voz falha. — Ela vai acordar!
— Não! Ela tá fria! Ela tá fria!
Vincenzo e Enrico o puxam.
Ele não reage.
Só… esvazia.
Antoine entra.
— Fica calmo! E se afasta!
E ele obedece.
Como se ela fosse a única coisa que ainda faz sentido.
Eu me aproximo.
Tremendo.
Procuro pulso.
Nada.
Recuo.
Não aceito.
Rasgo o vestido.
Começo as compressões.
Uma.
Duas.
Três...
— Respira! — Vincenzo já está ali, tentando trazer ar de volta pra ela.
Nada.
— Ela partiu sem mim… — Doc murmura.
Continuo.
Mais forte.
Mais rápido.
O estalo das costelas.
Eu não paro.
— Dess… — Vincenzo.
Eu ignoro.
— Dess, chega!
— NÃO!
Ele me arranca de cima dela.
— Ela tá morta!
O mundo trava.
—
— Ele ainda tá aqui.
A voz de Antoine corta o ar.
Eu olho pra ela.
Os olhos dela não são mais de criança.
— Maldito.
Ela ergue a mão.
E o ar responde.
Um chicote de fogo se forma.
Eu nem tenho tempo de reagir.
Ela já está correndo.
Vincenzo e eu vamos atrás.
Sem pensar.
Nunca pensamos.
Na sala.
Ele está lá.
Esperando.
Um corpo que não devia existir.
Água.
Lodo.
Podre.
Se movendo como gente.
Sorrindo como coisa morta.
E, pela primeira vez…
eu entendo o que é medo de verdade.
Antoine não hesita.
O chicote de fogo corta o ar.
Uma vez.
Duas.
Três.
O som é seco. Antinatural.
A criatura se contorce, como se estivesse sendo arrancada da própria existência.
Ela fala.
Um idioma que não é deste mundo.
E ele… desaparece.
Silêncio.
Pesado.
Irreal.
Antoine cai nos meus braços.
— Foi ele, mamãe… — sua voz é um sopro. — A Legião…
Apaga.
— ANTOINE!
Eu a aperto contra mim, sem saber o que fazer, quando um movimento me paralisa.
Doc.
De pé.
Adele nos braços.
Sem vida.
— Precisamos ir pra casa — ele diz, calmo demais. — Ela está cansada.
— DOC, NÃO! FICA!
Tarde demais.
Vincenzo já está em movimento.
Abre a gaveta.
Seringa.
Rápido.
Preciso.
O líquido entra.
Doc para.
Vacila.
Os olhos se apagam.
O corpo despenca.
O som da cabeça contra o chão ecoa pela casa.
Seco.
Definitivo.
— Não… — minha voz some.
Vincenzo se ajoelha.
Procura o pulso.
Segundos que não passam.
— Ele ainda tá vivo.
Enrico chora em silêncio, apertando Matteo contra o peito.
Eu não consigo me mover.
Só aperto Antoine.
Como se ela fosse desaparecer também.
—
Eu esqueci.
A verdade me atravessa como faca.
Eu esqueci.
Os remédios.
Deixei Adele sozinha.
Com dor.
Com medo.
Com aquilo… rondando.
Eu deveria ter escondido.
Eu deveria ter ficado.
Eu deveria...
Os primeiros dias do ano chegam mortos.
Pesados.
Sem ar.
Antoine se recupera.
O corpo, pelo menos.
Mas algo nela mudou.
Raiva.
Fome de luta.
Ela não desiste.
Quer aprender.
Quer combater.
Quer estar pronta.
O enterro de Adele passa como um borrão.
Terra.
Silêncio.
Fim.
No hospital, o mundo faz menos sentido ainda.
Doc respira por máquinas.
Imóvel.
Preso entre dois lugares.
Vincenzo não se perdoa.
— Eu derrubei ele, Dess…
— Você salvou ele — eu corto, firme. — Ou tentou.
Ele ri sem humor.
— Olha pra ele.
— E se você não tivesse feito nada? — eu encaro. — Ele teria saído na rua com o corpo dela nos braços. Você acha que aquilo ia terminar melhor?
Silêncio.
Pesado.
Necessário.
— Ninguém ali tava lúcido, Vincenzo. Ninguém.
Ele abaixa a cabeça.
— Se eu ainda fosse um anjo…
— Faria o quê? — eu não alivio. — Manteria ele preso num corpo sem vida? Longe dela?
Ele não responde.
Não precisa.
Eu me aproximo.
Beijo a testa de Doc.
Fria.
Estranha.
Distante.
— Descansa, meu amigo…
Minha voz quebra.
Mas eu termino.
— Vai ficar tudo bem.
Mentira.
A maior de todas.
Eu me afasto.
Sem olhar pra trás.
Porque eu sei.
Se eu olhar…
eu não vou conseguir ir embora.
Dois enterros em menos de uma semana.
Terra ainda úmida.
Cheiro de fim.
Isso não é normal.
Não desse jeito.
— Brechas.
A palavra sai da boca de Antoine como sentença.
— É por onde eles entram.
O silêncio pesa.
— Querem enfraquecer a gente… — ela continua — …pra chegar até mim.
Meu estômago vira.
— Como isso é possível? — minha voz falha. — Como eles entram aqui? Aqui dentro?
Olho para Vincenzo.
— Um anjo. Um arcanjo. Um querubim… e mesmo assim?
— Mesmo assim — ele responde, baixo.
Eu rio.
Sem humor.
— Que proteção incrível.
— Dess…
— Não. Eu quero entender. Onde está Deus nisso tudo?
— Nosso Deus — ele corrige, firme.
— Nosso Deus deixou uma mulher se matar dentro da minha casa!
Silêncio.
Cortante.
— Como você sabe disso? — ele pergunta.
— Eu a toquei.
Ele fecha os olhos por um segundo.
Absorvendo.
— Dess! Para de gritar!
— Você tá gritando!
Silêncio.
Eu avanço.
Ele confronta.
— Se quiser permanecer aqui, controlada, tudo bem. Se não quiser, eu juro que saio dessa casa e levo Antoine comigo. Ela me conta tudo no shopping e, quando eu voltar, não conto nada pra você. Entendeu ou quer que eu desenhe?
Entendi.
Claro que entendi.
Com tanta delicadeza.
Isso foi... sexy.
— Caraca. Papai pegou pesado.
— Perdão... — peço, tentando me conter. — Fiquem aqui. Eu vou ouvir tudo.
Sento no tapete do quarto de Antoine, cruzando as pernas, Matteo grudado em mim como se entendesse que alguma coisa estava muito errada.
— E se Enrico chegar de repente?
— Vou saber. — responde Vincenzo, sério. — Agora entendo por que tenho ouvido pensamentos. Ele já não é mais… intocável.
— Deixou de ser um arcanjo?
— Ainda não. Mas está enfraquecendo.
— Por quê?
Antoine responde antes dele:
— Ele fez safadeza com a vovó.
— VOCÊ VIU?! — quase engasgo. — Como assim!? Enrico enlouqueceu!?
— Dess!
— Ué! Sexo ao ar livre agora virou terapia?!
— DESS.
— Não vi, mãe. — Antoine ri. — Mas eu vi o beijo.
Silêncio.
Pronto. A merda ganhou forma.
— Ele achou que eu tava dormindo. Foi até a acácia… aquela de folhas amarelas.
— Eu sei qual é. — murmuro. — E aí?
— Ele esperou.
A voz dela muda.
Menos criança.
Mais… alguma outra coisa.
— Esperou até ela aparecer.
Meu estômago afunda.
— Sozinho?
— Não.
Claro que não.
— Tinha mais gente. Muitos. Da Legião.
— Lúcifer?
— Não. — ela faz careta. — Tio Lu tá puto com eles.
— Ele não é seu tio — corrijo, automática. — E sua avó não é sua avó. Aquela mulher é uma traidora.
— Então como eu chamo?
— Escolhe: vaca, traidora, desgraçada…
— MAMÃE.
— Tá. Continua.
— Ele não teve culpa. — Antoine fala mais baixo. — Ela veio pra cima dele. Ele recuava… pedia pra ela não tocar.
Engulo seco.
— E ela?
— Disse que amava ele.
Claro. Sempre começa assim.
— Ele disse que não ia trair a gente. Que o papel dele era proteger a família.
Vincenzo fecha os olhos por um segundo.
Orgulho e desespero brigando ali dentro.
— Ela parecia linda… de longe. — Antoine continua. — Mas não era.
Meu corpo arrepia.
— Como?
Ela sorri.
E eu odeio quando ela sorri assim.
— Cabelo esticado pra cima… como se não obedecesse à gravidade. Olhos… de crocodilo. Frio. Parado. E o sorriso…
Ela inclina a cabeça.
— Igual ao do palhaço do “It”.
Perfeito. Agora eu nunca mais durmo.
— E eles te viram?
— Não. — ela dá de ombros. — Eu tava invisível.
— Claro que tava. — murmuro, olhando pra Vincenzo. Ele não ri. Ótimo. Estamos todos fingindo normalidade juntos.
— Ele chamou por Jesus. — Antoine continua. — Foi aí que ele viu o que ela era de verdade.
Silêncio.
— E eles cercaram.
Meu coração dispara.
— E fizeram o quê?
Ela hesita.
Pela primeira vez.
— A Legião não conseguiu tocar nele.
— Porque ele ainda tem força — completa Vincenzo.
— Mas ela conseguiu. — Antoine continua.
— Como?
Minha voz sai baixa.
Errada.
— Ela enfiou a mão no peito dele.
Silêncio.
— Enfiou como, Antoine?
— Como eu tô falando, mãe. — irritada. — A mão atravessou. Pele, músculo… tudo.
Meu estômago vira.
— E o coração?
— Ela pegou.
Pronto.
Agora acabou.
— Isso não é normal!
— No nosso mundo é.
E isso é o que mais me assusta.
— Nunca faça isso de novo. — Vincenzo a puxa pra perto. — Nunca fica sozinha perto deles.
— Pode deixar. — rosno. — Se aparecerem de novo, me chama. Quero ver se sangram.
— Eles sangram. — ele responde, seco. — Mas não como você gostaria.
— Eles não são do Lúcifer? — pergunto.
— Não exatamente. — Vincenzo corrige. — Eles vieram da mesma queda… mas não seguem mais as regras dele.
— Regras? Do capeta? Agora tem código de conduta no inferno?
— Tem hierarquia. — ele insiste. — Lúcifer caiu por insubordinação. Mas manteve limites. Não queria mistura.
— Mistura?
— Humanos com os caídos.
— Ah… — reviro os olhos. — racista celestial. Perfeito.
— Não é isso. — ele suspira. — Ele queria domínio. Não extinção.
— E esses daí? — aponto pro nada, já irritada.
— Esses quiseram ir além. — diz ele. — Se misturaram. Corromperam. Tentaram transformar a humanidade em algo… inviável.
— Vírus?
— Exatamente.
— Tá. — cruzo os braços. — Então por que a gente ainda tá aqui, respirando e pagando boleto?
Ele me encara.
Sério.
— Porque ele não deixou.
Silêncio.
— Não… — balanço a cabeça. — Não me vem com essa.
— Ele impede. — Vincenzo repete. — Do jeito dele. Pelos motivos errados… mas impede.
Eu rio.
Porque se eu não rir, eu surto.
— O diabo virou fiscal da humanidade agora? Que fase.
— Ele não protege por bondade. — explica. — Protege por interesse.
— Óbvio. Nada vem de graça.
— Então deixa eu ver se entendi… — inclino a cabeça. — O cara que odeia a gente… tá salvando a gente… de outros piores que ele?
— Basicamente.
— Eu tô passada. — murmuro. — O inferno virou zona.
— Dess… — ele tenta.
— Não, pera. — levanto a mão. — Deus deixa ele solto porque ele é útil?
— Talvez.
Eu solto o ar.
Lento.
— Isso é a coisa mais errada que já fez sentido na minha vida.
— Ele escreve certo. — Vincenzo diz, baixo.
— Não. — nego, encarando ele. — A gente que bagunça tudo.
Um silêncio mais leve.
Quase humano.
— Isso foi… estranhamente bonito. — murmuro.
— Eu tenho meus momentos. — ele responde, meio sem graça.
— Pateta.
Matteo escolhe esse exato momento pra escalar o pai.
— Babalo, papai. Babalo…
Pronto.
Realidade restaurada.
— Agora não, campeão… — Vincenzo ri, cansado.
— Posso terminar ou vocês vão abrir um culto aqui no meio? — Antoine cruza os braços, indignada.
Olho pra ela.
Sorrio de canto.
— Anda, profeta do caos. Termina.
— Ele foi infectado.
— Chega. — sussurro. — Chega, Antoine…
— Mãe...
— NÃO! — corto. — Você não vai se meter nisso!
— Mãe!
— Isso é coisa de adulto!
— Dess… — Vincenzo tenta.
— Não! — levanto, Matteo no colo. — Eu não vou perder minha filha pra essa loucura!
Silêncio pesado.
— Ela já sabe quem é — ele diz, baixo.
— E eu sei quem ela É PRA MIM! — rebato.
Eu saio.
Ou tento.
— O vovô vai morrer se ninguém fizer nada.
A frase me atinge nas costas.
Mesmo assim, eu continuo.
— Ele que tome vitamina!
Sim. Ridículo.
Sim. proposital.
É tudo que eu consigo fazer pra não desmoronar.
— E você — aponto pra Antoine — Fica longe disso ou vai ficar de castigo!
— Mas...
— SEM MAS!
Minha voz quebra.
— Você vai crescer… vai fazer quinze anos… eu vou te vestir de princesa…
Droga.
Erro.
Erro gigante.
Eu lembro do que ela disse.
Do que ela não vai viver.
Minha garganta fecha.
— Eu tapo o sol com o que eu quiser,Vincenzo! O sol é meu! A filha é minha! Vai todo mundo tomar no cu! Chega desse assunto!
Pronto.
Agora eu tô gritando com o universo.
Ótimo.
— Que assunto?
Enrico.
Claro.
Na pior hora possível.
Ele parece menor.
Mais velho.
Mais… gasto.
Matteo se joga nele.
— Babalo, vovô…
Pronto.
O golpe final.
Porque ainda é família.
Ainda é casa.
Ainda é amor.
Eu chego perto.
Sem pensar.
Encosto a mão no peito dele.
E vejo.
Tudo.
A árvore.
A noite.
Ela.
O braço entrando.
Rasgando.
Sem pressa.
Como se pudesse.
Porque pode.
O coração.
Vivo.
Pulsando.
E ela… tocando.
Marcando.
Eu puxo a mão de volta.
Sem ar.
— Isso não vai ficar assim.
Minha voz sai baixa.
Perigosa.
Beijo a testa dele.
Ele nem entende.
Melhor assim.
Vou embora com Matteo.
Cantando.
Porque se eu parar de cantar…
eu começo a gritar.
No espelho, eu encaro.
Não a mim.
A outra.
— Posso contar com você?
— Sempre.
Matteo aponta.
— Mamãe não…
Eu sorrio.
Cansada.
Errada.
— Não mesmo, meu anjo.
Contamos tudo a Cassie e Liam, recém-chegados de Nova York, ainda com cheiro de neve e distância.
Distância da nossa realidade.
Cassie não compra minha versão “Pixar” nem por um segundo.
— Duas mortes em uma noite, tia!?
— Isso acontece. — murmuro, sem sustentar o olhar. — Ela, por ingestão de ansiolíticos. Ele… aneurisma. Nunca soubemos.
— Conta outra. — ela rebate, seca. — Nessa família, nada “acontece”. Tudo desaba.
— Não duvide dela. — intervém Liam, calmo demais, os olhos frios em mim. — Se ela disse que foi assim…
— ‘Coelhinho’, eu vivi com eles. — corta Cassie, irritada. — Você não. Eu sei como funciona aqui.
— Não se exalte. — ele segura a mão dela. — Lembra do que o médico disse?
Travou.
Pronto.
— Que médico? — olho direto pra ele. — O que a Cassie tem?
— Calma, Dess.
— Você vive pedindo calma. — encaro Vincenzo. — Um dia eu paro de ignorar.
— Eu paro de pedir quando você começar a obedecer.
— Então nunca.
Volto pra Cassie.
— Fala.
— É bobagem, tia. — ela desvia, olhando Sean no berço. — Ele exagera.
— Somos família. — encaro Liam, sem piscar. — Vai falar ou quer que eu descubra sozinha?
— Isso é ameaça?
— Não. É promessa.
— Liam… — Vincenzo tenta aliviar. — Ela quer ajudar.
— Ele não gosta de mim. — corto. — Me culpa por tudo que aconteceu com ela.
— Dess…
— É verdade! Desde que… — travo.
Erro.
Grande.
— Desde sempre.
Silêncio pesado.
Cassie segura minha mão.
— Foi por sua causa que a gente se encontrou. Ele te ama também.
Eu sorrio.
Minto.
— Eu sei. Do jeitinho estranho dele.
E então vem.
Sem aviso.
Um choque.
Recuo.
Esbarro em Liam.
Quase caio.
— Dess! — Vincenzo me segura. — Você tá bem?
— O que você viu? — Liam pergunta rápido demais. — Me fala.
— Ela não te contou? — sorrio torto. — Não confia em você, ‘Coelhinho’?
— Dess! Aonde você vai!?
— Preciso de ar!
Saio descalça pro jardim.
Grama gelada.
Cabeça pior ainda.
— Depois você xinga! — Vincenzo vem atrás. — Agora fala!
— Eu quero um segundo de silêncio!
— Me conta. — Liam também vem. — Por favor.
Droga.
Ele tá com medo de verdade.
— Eu não te culpo. — ele continua. — Eu só… não sei lidar com isso. Ela confia em você. Você já ajudou antes.
— Eu???
— Que fase é essa? — explode Vincenzo. — Vocês dois pensando ao mesmo tempo, eu fico perdido!
— Bem feito. — solto.
— Cassie tá com depressão pós-parto. — Liam finalmente diz. — Ela rejeita o Sean. Já tentamos tudo.
Silêncio.
— Ela vê coisas. — ele completa.
— Monstros. — digo baixo. — No rosto dele.
Liam fecha os olhos.
Confirmando.
— Por isso ela se afasta. — continuo. — Ela tem medo de ficar sozinha com ele.
— Porra… — Vincenzo passa a mão no rosto. — Dess teve isso, mas…
— Não. — corto. — Não assim.
Levanto o olhar.
— Ela não tá só doente.
Silêncio.
— Tá sendo atacada.
— Por quem? — ele já sabe, mas pergunta.
— Adivinha.
— CARALHO! — Vincenzo explode. — Ela também!?
— Não somos especiais. — respondo, seca. — Onde tem brecha… eles entram.
— Do que vocês estão falando? — Liam pergunta.
Olho pra ele.
Cansada.
— Tá atrasado, hein. — sorrio sem humor. — A guerra já começou faz tempo.
Ele não ri.
Ninguém ri.
— Não me culpa. — continuo. — Talvez eu ainda seja útil.
— Dess!
— Eu vou ficar com ela.
Recuo.
— Cuida do teu filho. — falo pra ele. — Eu cuido da minha amiga.
Entro no jardim lateral.
Arranco algumas folhas, quase sem pensar.
Velho hábito.
Velha coisa.
Cantarolo.
Porque, aparentemente, essa é minha forma de não enlouquecer.
Subo a varanda.
Chuva fina começando.
Vincenzo me observa.
Liam também.
— O que você vai fazer, Dess?
Paro.
Olho direto.
Mas não pra ele.
— Tá me confundindo de novo, Cassiel?
Silêncio.
Porque agora não é mais só sobre Cassie.
— Confia em mim?
— Sempre, tia. — ela ri, nervosa. — Você tá esquisita.
— Fecha os olhos. Abraça seu filho… e não solta por nada.
Ela obedece.
Ainda confia.
Ainda.
— Por que você trancou a porta?
— Homem sempre atrapalha. — rosno, já me afastando.
Pego a cubeta, macero alecrim e arruda com força demais, como se estivesse esmagando algo que não tem corpo. A faca fica ao lado. Presente. Possível.
Escolho a música no celular. Dou play.
O ar muda.
— Tia… posso abrir os olhos?
— Não. — minha voz sai mais baixa. — Confia em mim. Eles vão embora.
— Como você sabe?
— Shhh. Inspira… sente a sálvia.
A fumaça sobe devagar.
E eu vejo.
Grudados no teto.
Espremidos nos cantos.
Próximos demais do berço.
Observando.
Esperando.
Cassie aperta Sean contra o peito.
— Vai funcionar?
Não respondo.
Não sou eu.
— Tia!?
— Concentra. — digo… ou ela diz através de mim. — Pensa no Crucificado.
— Jesus?
— Sim.
BATIDAS NA PORTA.
— Dess! Abre!
Vincenzo.
Claro.
Sempre na hora.
Fecho os olhos por um segundo.
“Fica quieto.”
Penso.
Empurro.
Silêncio.
Funcionou.
Liam ainda grita.
Vincenzo manda calar.
Melhor assim.
Meus pés se movem sozinhos.
Devagar.
Rodeando Cassie.
Rodeando a criança.
Marcando espaço.
— Em nome do Criador…
A voz não é minha.
Nunca foi.
— Eu expulso vocês.
A fumaça se adensa.
Uma coisa não recua.
Fica.
Encarando.
Erro.
Pego a faca.
Sem hesitar.
— Tia, não… — Cassie sussurra, olhos fechados, mas sentindo.
Corto.
Palma aberta.
Sem teatro.
Sem delicadeza.
O sangue cai.
Uma gota.
Só uma.
Silêncio.
Eles recuam.
Como se queimassem.
Como se reconhecessem.
E aí vem o pensamento errado.
Meu sangue… ou de quem?
— Recuem. — a voz ordena. — E não voltem.
A janela aberta puxa a fumaça.
Leva junto o que não devia estar ali.
Acabou.
Por enquanto.
— Pode abrir os olhos.
Cassie respira fundo.
— Cheiro de… rosas?
Sorrio.
Cansada.
— Funcionou.
Entrego o pequeno saco de tecido.
Amarrado.
Simples.
Antigo.
— Coloca debaixo do colchão dele.
— Isso afasta…?
— Afasta.
Seguro o queixo dela.
Mais firme.
— E joga fora aquela tábua maldita.
Ela trava.
— Não conta pro Liam… eu só queria falar com meus pais…
Claro.
Sempre começa assim.
— Queima. — repito. — Lá fora. Sem olhar pra trás.
— São brechas.
Ela assente.
Agora entende.
Meu corpo cede.
Tarde demais.
Caio.
A porta arrebenta.
Vincenzo.
Sempre.
— Dess! Fala comigo! É você?
Abro um olho.
— Não. Sou Madre Teresa. — murmuro.
Ele ri.
Aliviado.
Idiota.
Me beija.
— Eu te amo tanto…
Fecho os olhos.
Porque se eu ficar acordada…
eu penso demais.
E hoje já foi longe demais.
Ao volante, ele tem uma crise de riso.
— O que foi, palhaço? — pergunto, estreitando os olhos.
Com um olhar cafajeste, ele provoca:
— Curandeira, Dess!?
Saio do carro batendo a porta com força.
— Ah! Vai pro inferno!
— Os lanches!!! — grita ele do banco do motorista, sacudindo os pacotes de delivery. — Esqueceu???
— Dá pra trazer ou tá difícil!? — berro da varanda. — Vincenzo! Não me irrita! Eu tô morrendo de fome!
— Vem pegar...
— Filho da puta!
Avanço sobre ele, abro a porta e me estico toda pra alcançar os pacotes. Ele ri. Ri de verdade. E isso me faz rir também.
— Me dá, idiota!
Os dedos dele se perdem nos meus cabelos molhados e, antes que eu consiga xingar de novo, ele me puxa e me beija com fome.
— O que seria da minha vida sem você?
— Nada.
Arranco os pacotes das mãos dele e saio correndo, rindo, enquanto ele vem atrás. Na varanda, a gente se agarra como dois adolescentes sem juízo.
— Quando pararem com a safadeza, a gente pode comer? Eu tô varada de fome.
Antoine.
Claro.
— Eu tentei impedir — diz Enrico, surgindo com Matteo no colo. — Mas ela parece adivinhar os passos de vocês.
Ele me olha melhor.
— Você me parece exausta, filha.
— Eu tô… — admito, sem força pra fingir. — Depois de comer, tudo o que eu quero é dormir...
Vincenzo ri, baixo, malicioso.
— Sabe de nada, inocente...
— Mais safadeza, vovô — resmunga Antoine, já pegando os lanches e indo pra cozinha como se fosse dona da casa.
Observo Enrico.
O cansaço nele não é só físico. É fundo. É antigo. É errado.
Respiro uma vez.
Decido.
— Por seu pai, amor.
Vincenzo fica sério na hora.
— E se ela não quiser partir?
— Você me resgata.
Ele nem hesita.
— Sem dúvida alguma.
O Tempo passa. Ele nunca para.
Cassie voltou a cuidar de Sean com o amor de sempre e Liam, irritantemente, me envia buquês de flores todas as semanas. Eu o entendo… embora não confie tanto nele. Introvertido, foi a única maneira que encontrou de agradecer. Pelo que fiz.
Pelo que Anahita fez.
Desde aquela noite, sinto-me fraca… mas não permito que Vincenzo perceba. Continuo cuidando da casa, das crianças, dele… e voltei às aulas na Just Dance depois do longo e terrível feriado de fim de ano.
Doc e Adele ainda estão vivos.
Na minha mente. No meu coração.
E, infelizmente… nos meus sonhos.
Doc, consciente e paciente, insiste em tentar se fazer visível do “Outro Lado” para Adele… que se recusa a acreditar que está morta.
Mais um problema.
Só mais um.
Pra minha lista interminável de problemas que nunca acabam.
— Posso marcar, Adessa?
— Oiiii???
— Uma nova aluna. Posso marcar uma audição com ela? Já te perguntei três vezes.
— Perdão, Aninha… — passo a mão no rosto. — Tô voltando ao normal agora.
— As festas de fim de ano devem ter sido um badalo!
— Super. — minto, sem piscar. — Badalo em cima de badalo. Você nem imagina...
— Tenho uma surpresa! — ela praticamente vibra.
Apoio na bancada, sem muita fé.
— Qual?
— Seu nome tá entre os inscritos no concurso de dança!
Dou um sorrisinho triste.
— Sem chances… Impossível. A menos que aceitem um casal com uma pessoa só.
— Reconhece esse nome aqui???
Ela gira a tela pra mim.
Eu olho.
Congelo.
Nego com a cabeça, automático.
— Impossível.
— O impossível é impossível até alguém ir lá e fazer! — ela ri. — E, pelo que eu tô vendo aqui… um tal de Vincenzo Rossi apareceu na academia, se inscreveu no concurso… e escolheu você como parceira!
Meu coração dá um salto idiota.
— Meu Deus...
— Aonde vai!?
Nem respondo.
Já tô indo.
— Encher de beijos o meu novo parceiro!!! Já volto!!!
Pulando a catraca da academia de boxe, beijo o rosto de Leo que, numa demonstração nada sutil de repulsa, limpa a pele com o dorso da mão.
Estou tão feliz que até peço desculpas.
— Eu preciso falar com ele. Sabe onde ele tá?
Leo me lança um olhar malicioso.
— No ringue, não. Aliás… ele anda trancado no escritório por horas. Sabe Deus fazendo o quê lá dentro…
Engulo seco.
Claro. Perfeito. Era só o que me faltava.
Agradeço e sigo rápido até o escritório. Paro diante da porta.
Minha mão hesita.
Porque abrir aquela porta pode acabar com a melhor parte do meu dia.
— Entra, Dess! — a voz dele vem lá de dentro.
Respiro.
Abro.
Vincenzo, sentado, sorrindo como se fosse a pessoa mais inofensiva do planeta.
— Idiota. — ele ri. — Achou que eu tava trepando com a ruiva aqui?
— Sei lá! Fiquei com medo!
Caminho até ele e me jogo no seu colo. A cadeira gira e eu gargalho, leve, finalmente leve.
— Você foi na academia onde eu trabalho!?
— Fui, imbecil. — ele dá de ombros. — Já preparou a coreografia? Porque, se for pra competir, eu quero ganhar.
Seguro o rosto dele e começo a distribuir beijos, um por um, como se fosse urgente.
— Para, Dess… tá maluca?
— Por você, amor. Obrigada… eu nem sei o que dizer…
— Não diz nada. — ele sorri. — Só me ensina a dançar. Você sabe que eu sou um desastre.
— Eu resolvo isso.
Um beijo rápido.
— O que você tá fazendo aqui nesse horário?
— Troquei com o João. Ele vai pra casa mais cedo cuidar dos filhos… e eu fico livre da ruiva e das suas crises de ciúme dela.
Paro.
— Não.
— Sim.
— Você fez isso por mim!?
— Não. Foi pelo Nelson Mandela.
Eu rio.
Alto.
E puxo ele pra outro beijo, sem paciência nenhuma pra ironia.
Sem ar, ele me afasta, rindo.
— Se eu soubesse que ia ter esse efeito, tinha mudado tudo antes.
— Eu te amo, Vincenzo… você mudou sua vida por mim.
Ele me olha diferente agora. Mais fundo.
— E você deu sentido à minha, Dess. Eu faria o quê, além disso?
O coração dá aquela vacilada idiota.
Então eu faço o que sei fazer: desvio.
— Ensaiar?
Ele já faz uma careta.
— Não queria na Just Dance… todo mundo vai ver. Eu vou travar.
— Tá. — corto, sem drama. — A gente ensaia aqui. No tatame. Depois das aulas.
Ele pensa meio segundo.
— Fechou.
Batemos as mãos no alto, rindo.
Como se fosse só isso.
Como se fosse simples.
Após o nosso primeiro e exaustivo ensaio, sozinhos no ringue, deitados no tatame, encaro o teto, de mãos dadas a Vincenzo.
— Fala, Dess. O que quer saber?
— Você me disse que viveu com Eileen… que Celeste a amava como uma filha. — viro o rosto pra ele. — Como um ser assim vira isso? Ela amava o Enrico. Eu tenho essas memórias.
Ele suspira, cansado.
— Não entendo, Dess. — confessa. — Já vivi muitas vidas com ela. Sempre foi… mãe. Cuidado. Amor. Quando ela se perdeu… eu não sei. E nem por quê.
Fecho os olhos.
— Mais um item na minha lista…
— Que lista?
— Aquela que nunca acaba. — corto. — Vamos pra casa? Tô com saudade dos nossos filhos.
— Somos dois.
Leo se despede de Vincenzo com admiração nos olhos cor de mel.
De mim… nada.
Deixo Vincenzo seguir e puxo Leo pela gola da camisa.
— Já queimou a porcaria daquela tábua Ouija ou vai esperar morrer mais alguém?
Ele trava.
— Como você sabe disso?
— Sabendo. — encaro. — Quer ajuda ou vai continuar brincando de invocar desgraça?
A máscara dele cai.
— Eu tô com medo… — admite, baixo. — A gente abriu uma coisa que não consegue fechar.
Abraço rápido. Firme.
— Vamos fechar. Reúne seus amigos. Lua cheia. Última sessão.
— Última?
— Ou você prefere várias mortes? Decide.
Ele engole seco.
— Ok…
— Sabe rezar?
— Sei… mas não curto.
— Vai começar a curtir. — envio a oração. — Reza com sua mãe. Hoje.
Ele segura minha mão, quase reverente.
— Obrigado.
— Ainda nem comecei.
— Dess!!! — Vincenzo grita do carro.
— Fui!
Chegamos em casa e encontramos Antoine no portão.
Chorando.
Matteo ao lado dela.
Esperando.
Meu coração despenca.
Saio do carro antes mesmo de Vincenzo parar direito.
— O que aconteceu!?
Pego Matteo. Frio normal. Respira. Tá bem.
— Não é o maninho… — soluça Antoine. — É o vovô.
— Onde ele tá!? — Vincenzo já tá pálido.
— Lá dentro.
A gente corre.
Sem pensar.
Sem respirar.
Abrimos a porta do quarto.
E o mundo acaba.
Enrico na cama.
Celeste sobre ele.
Sugando.
Puxando algo invisível direto do peito dele.
O ar some.
— Desculpa… — murmura Enrico, de olhos fechados. — Eu falhei…
— NUNCA! — eu grito.
— Pai! — Vincenzo avança.
Celeste levanta um braço.
Só isso.
E arremessa ele contra a parede como se fosse nada.
Algo em mim quebra.
Eu vou.
— VAGABUNDA!
Pulo nela, travo o pescoço com o antebraço, puxo pra trás com tudo.
Não adianta.
Ela nem sente.
Ou finge que não sente.
Quase.
O estalo do chicote corta o ar.
Antoine.
O fogo acerta o rosto de Celeste.
Ela urra.
A pele abre.
O cheiro de queimado invade tudo.
Outro estalo.
Dessa vez em mim.
Minha pele arde. Rasga. Sangra.
Nem sinto direito.
Vincenzo puxa Enrico pra longe.
Eu e ela caímos no chão.
Rosto a rosto.
E então…
ela vê.
Meu sangue.
O pavor nos olhos dela é real.
Finalmente.
Lembro quem eu sou.
Ou o que carrego.
— Volta pro inferno. — rosno. — Agora.
Ela sorri.
Dentes demais.
Errados demais.
Então eu desenho.
Uma cruz.
Com o meu sangue.
Na testa dela.
O grito rasga o quarto.
O corpo dela começa a murchar.
Como se algo estivesse sugando de volta.
Ela tenta ficar.
Não consegue.
E some.
Silêncio.
Eu caio de lado.
Sem força.
O teto gira.
“Obrigada”, penso.
Pro Crucificado.
Pra quem estiver ouvindo.
Vincenzo me pega.
Me leva.
— Como tá o Enrico? — forço.
— Vivo… — ele hesita.
— “Vivo” como!?
Levanto.
Cambaleando.
Corro.
Enrico sorri.
Quase sem vida.
— Seja forte, pai… — me agarro nele. — Não vai embora. Não agora. Não assim!
— Ele chegou! — Antoine vibra, chorando e sorrindo ao mesmo tempo. — Eu chamei! Ele veio!
— Quem!?
Eu viro.
Devagar.
Porque eu já sei que não vou gostar da resposta.
A voz vem atrás de mim.
Fria.
Cansada.
Irritada.
— O que vocês têm de tão especial… — ele diz. — que me fazem vir até aqui, com tanta gente pra curar?
Vincenzo cai de joelhos.
E eu…
Eu só respiro.
Porque a noite ainda não acabou.
Com a voz trêmula, digo seu nome:
— Rafael...
Ele nem pisca.
— Arcanjo Rafael. — corrige, frio. — Poderia se afastar e me dar espaço para trabalhar?
Inclino a cabeça, amarga.
— Pedindo com tanta delicadeza...
— Dess!
Antoine me puxa antes que eu fale mais alguma merda.
— Vovô vai viver, mamãe! — ela vibra, os olhos brilhando. — Ele vai viver!
Meu peito aperta.
Forte.
Forte demais.
Ajoelho na frente dela, segurando seus ombros.
— O que você prometeu… dessa vez, Antoine?
Minha voz sai mais baixa do que eu queria.
Mais quebrada.
— Foi outra troca?
Ela não responde.
Só me olha.
E ajoelha ao lado de Vincenzo.
Silêncio.
É resposta suficiente.
Algo dentro de mim desaba.
Eu levanto.
Saio.
Não peço licença.
Não olho pra trás.
O quintal me recebe com chuva.
Fria.
Pesada.
Honesta.
Respiro.
Ou tento.
— Não tira ela de mim… — sussurro, sem força. — Por favor… não tira ela de mim.
O mundo aperta ao redor.
Um vazio abre no peito.
Ar falta.
Visão falha.
Um último suspiro…
E tudo apaga.
.jpg)





















Comentários
Postar um comentário