CAPÍTULO 40 - TEMPO DE ESCURIDÃO
— O que ela prometeu a você!?
— Saia da minha frente. Tenho muito o que fazer.
— Dess, deixe o Arcanjo passar!
— O que ela te prometeu!? — insisto. — Outra troca!?
— NÃO! NÃO TOQUE NELE! — grita Vincenzo, desesperado, ao me ver avançar.
— Mãe, se acalma. — Antoine segura meu braço. — Ele precisa partir. Vovô vai viver.
— Isso teve um preço!? — encaro o arcanjo, fria. — Me leva. Deixa minha filha e me leva.
Um sorriso torto, quase entediado.
— Você não vale um centésimo do valor de Antoine, querida.
Algo em mim cede. Ele continua, como quem descreve um objeto curioso:
— Você é... interessante. Se acha invencível. Se superestima. E, ainda assim, vive cercada por seres que realmente importam.
— Tio... — Antoine murmura, abatida.
— Sua prepotência vai te levar ao fundo do poço. Mas não se preocupe... — um quase sorriso — Sempre haverá alguém para te puxar de volta. Miguel é... excessivamente bondoso. Não enxerga maldade onde ela existe.
— Por que você não gosta de mim?
— Não gosto de humanos. — seco. — Não se sinta especial.
— Você é o Arcanjo da Cura. Deveria ser mais... humano.
Ele ri. Sem humor.
— Pra quê? — inclina a cabeça. — O Messias veio com todo o amor que vocês dizem admirar. E o que fizeram com ele?
Silêncio.
— A doçura dele o salvou da cruz? Ou vocês riram enquanto ele sangrava pelas ruas imundas que vocês mesmos criaram?
Engulo seco. Mesmo assim, avanço.
— Você faz parte da Legião.
— Dess! — Vincenzo explode. — Pede perdão!
— Nunca. — rosno. — Um arcanjo não pode ser assim. Por que você tem tanto medo dele, Vincenzo?
— Fica quieta! — ele rosna, acuado. — Você passou do limite!
— Nós somos superiores a vocês. — o arcanjo corta, impassível. — Ao contrário daquele que se rebelou, eu me submeto ao Criador. Não por amor a vocês. Por obediência. Por Ele.
Ele se aproxima. Aspira meu cabelo.
Nojo.
— Seu sangue fede, mulher. — murmura. — E quando a sua verdadeira natureza vier à tona... espero que os seus não paguem por isso.
Vincenzo se ajoelha.
— Perdoe minha esposa. Ela é impulsiva, mas tem um bom coração.
— E você é cego. — resposta imediata. — E eu ainda não te perdoei.
Ele se afasta.
— Dias piores virão. Estejam prontos. Adeus, Antoine.
— Tchau, tio... — a voz dela quebra.
O silêncio pesa.
Ela se senta ao meu lado no chão.
— Ele é esquisito mesmo, mãe... não fica assim.
— Eu tô bem. — minto.
Beijo a testa de Enrico. Ele sorri, fraco.
— Que bom que voltou, pai. Sem você...
— Foi você que me salvou, filha. — ele sussurra. — Não esquece disso.
Não consigo responder.
Corro pro quarto. Tranco a porta.
— Dess! — Vincenzo bate. — Eu não podia deixar você continuar! Ele tem o poder da Ira!
— Foda-se! — grito. — Some da minha vida!
— Agora não, pai... — Antoine intervém do outro lado. — Amanhã vocês conversam.
— Você sabe do que ele é capaz! — Vincenzo insiste. — Eu só queria proteger sua mãe!
— Ela sabe. — pausa. — Vem.
Silêncio.
Deitada, o travesseiro encharcado, pesquiso:
“Ira dos Arcanjos”.
Erro.
Imagens. Sangue. Lâminas. Corpos partidos.
Arquejo.
— Ele só quis me proteger...
Debaixo do chuveiro, a água quente não resolve nada.
— Por que eu sou tão impulsiva?
Quando saio, a porta ainda está destrancada.
E ele está lá.
Deitado no chão frio.
Dormindo.
Idiota.
— Ei. — chuto de leve. — Acorda. Pode entrar... se quiser.
Viro de costas, escondendo o sorriso.
Ele levanta.
— Também te amo, imbecil. — abre a gaveta como se nada tivesse acontecido. — Gostou da pesquisa? Bonita, né?
— Vai pro inferno.
— Tô indo. — responde, já a caminho do banheiro. — Amanhã tem ensaio.
Deito.
Sorrindo.
— Obrigado. — ele diz, antes de abrir o chuveiro. — E nem fica acordada. Hoje você tá de castigo.
Gargalho.
Após o treino de Antoine, que nos convenceu a aprender boxe, Vincenzo e eu ensaiamos nossa coreografia até a exaustão no tatame, enquanto ela conversa animadamente com Leo.
Ele se apaixonou por ela.
E quem não se apaixonaria?
Ela tem lutado com perfeição e, estranhamente, parece maior… mais astuta a cada dia.
— Literalmente, ela está maior a cada dia, Vincenzo! — digo, sentada no tatame, sem fôlego. — Parece ter treze anos e só tem nove! Tá mais alta! Menos franzina!
— Não sabemos com quantos anos ela estava quando você a encontrou naquela praça. Talvez...
— Não me faça de boba! — corto. — Os seios estão crescendo! Os pensamentos… tortos! Só fala em vingança! A gente precisa salvar nossa filha!
Ele se deita, mãos na nuca, olhando o teto como quem já cansou de brigar com o inevitável.
— Você ainda não entendeu, Dess. Não quer enxergar. Nossa filha tem uma missão aqui na Terra e nós...
Beijo.
Calo ele.
Sem ar, ele arregala os olhos e me afasta.
— Não tenha medo. — diz, mais baixo. — Enquanto estivermos juntos, nada vai acontecer.
— E por que essa música triste? — muda de assunto. — Eu pensei que podia requebrar um pouco… mostrar serviço.
— Você só requebra comigo. — sorrio. — Na cama ou nesse tatame. Exclusivo.
— Não há outra na minha vida além de você. Nunca vai haver. — pausa. — Mas por que a música?
— Porque ela me lembra você. — seguro o olhar. — Eu ouvia essa música chorando, toda noite.
— Quando?
— Não se faz de idiota. — seco. — Quando você me abandonou depois de me dar umas porradas.
Ele trava.
— Não me lembra disso…
— Lembro sim. — dou de ombros. — Doeu mais ficar sozinha do que apanhar.
Silêncio.
— Aliás...
— O quê?
— Não me olha assim… — sorrio, já sabendo o efeito.
— Assim como?
— Com essa cara de safado. — sussurro. — Você sabe que eu posso te atacar aqui, né?
— Antoine e o Leo estão aqui. — ele ri. — Tô protegido, tarada.
Me deito sobre ele mesmo assim.
— Se quiser repetir aquela experiência...
— Nunca. — sério agora. — Eu não quero te machucar.
— E se eu quiser?
Prendo seus braços. Beijo.
— A gente não vai mais se separar, Dess. — ele sussurra.
— Espero que não, gostoso...
— PUTA QUE PARIU! — Antoine grita, agarrada às cordas.
Leo quase cai de tanto rir.
— É só eu virar as costas que vocês viram animais!? Leo, seus pais são assim!?
— Não… — ele ri. — Nem tenho pai. E minha mãe desistiu de homem faz tempo.
— Gostei dela. Sem safadeza!
Levanto rápido, dando tempo pra Vincenzo… resolver a situação.
— Ué? Pararam por quê? Foi por minha causa?
— Não, mocinha. — pulo do ringue e beijo sua cabeça. — Quanto mais você cresce, mais chata fica. Vamos. Seu avô ainda tá fraco pra ficar com o Matteo sozinho.
— E o papai?
— Tô indo! — ele pula do tatame tentando disfarçar. — Eu ouvi, Dess. Isso foi humilhante.
Rindo, empurro os dois pra saída.
— Não tem medo de fechar isso aqui sozinho, Leo?
— Não. Aqui eu me sinto seguro.
— O problema tá na sua casa, né?
— Antoine...
— Ué! Eu sei de tudo! A gente é BFF agora!
— BFF? — Vincenzo franze a testa.
— Best Friends Forever, pai. — ela revira os olhos. — Básico.
— Desculpa aí!
A gente ri.
— Estamos rindo de você tentando ser jovem. — beijo o rosto dele.
— Eu sou jovem! — protesta. — Trinta e quatro anos!
— Jovenzinho…
Leo ri. Antoine ri. E ele… muda ao lado dela. Leve. Quase outro garoto.
— Leo, quer lanchar lá em casa?
— Não sei se posso…sua mãe...minha mãe.
— Nossas mães. Desenvolve. — corta Antoine.
— Essa frase é minha, filha. — aponto. — Arrumem as suas, geração TikTok.
— Ok, mamãe. — Antoine debocha. — Vamos ou não?
— Vamos. — decido. — A gente precisa conversar.
Ele entende.
Vincenzo percebe.
E fica vermelho.
Fofo.
— Isso não tem cabimento. — ele sussurra no carro. — Não é paixão. É admiração. Por favor, não confunda.
— “Cu com bunda”. — Antoine solta do banco de trás.
Os dois explodem de rir.
— Desde quando você fala palavrão!?
— Tô crescendo, mamãe. — ela dá de ombros. — Me preparando pra grande batalha.
Leo trava.
— Que batalha?
— Uma onde quem perde… morre.
— Antoine… — minha voz falha.
— Ok, parei! — ela vibra. — Para ali, pai! Melhor sanduba do mundo!
Nem espera o carro parar. Salta. Puxa Leo.
— O que ela tem!? — disparo.
— Não é ela. — Vincenzo fica sério. — É o que tá chegando.
A palavra não precisa ser dita.
— Não fala disso comigo. — saio do carro. — Por favor.
— Isso não vai impedir. — ele diz, baixo.
— CASSIE!?
— Tia!? Que coincidência!
— O tio tá no carro. Antoine fugiu e eu fui atrás, como sempre. — observo melhor. — Você tá bem?
— Tô, sim.
— Não mente pra mim. Eu te amo.
— Tô bem! — insiste. — Nunca mais vi aquelas coisas.
Beija minhas mãos.
— Se não fosse por você…
— Não foi por mim. — corto. — Foi pelo Criador. Cadê o Sean?
Olho ao redor.
Antoine e Leo enfiados num brinquedo nojento.
— Cassie… cadê o Sean?
— Com o Liam. — responde rápido demais. — Eu vim pegar lanche pra galera.
— Galera?
O sorriso dela… não bate com os olhos.
Problema.
De novo.
— Liam tem chamado os amigos pra se reunirem lá em casa. Eles adoram o Sean.
— Liam!? Com amigos!? Desde quando Liam tem amigos, Cassie!? Ele sempre foi solitário!
— Pois é... — dá de ombros. — Sei lá. Eles se conheceram num clube ou coisa parecida.
— Clube???
— Chega, Dess. Deixa a Cassie respirar.
— Tio! — Ela o abraça forte, os olhos marejados. — Apareçam lá em casa. Por favor. Tenho saudades. Não quer me abraçar, tia?
Ela estende os braços.
Eu travo.
Tenho medo do que posso ver.
Beijo seu rosto.
— Preciso tirar a Antoine daquele tubo nojento antes que ela volte com tuberculose. Já volto.
— Tia...
O pedido de socorro vem baixo. Disfarçado. E acerta em cheio.
Meu peito aperta.
E eu fujo.
Se eu for uma farsa?
Se Rafael estiver certo?
Se eu não passar de alguém que se acha forte, mas só tá se enganando?
Meu sangue fede.
Ele disse isso.
Meu sangue fede.
Não chora agora.
Não aqui.
— Mãe?
— Por que tá chorando, Adessa?
— Por nada, querido. Eu sou esquisita mesmo.
Leo me abraça.
Do nada.
E eu desabo.
Sento no banco de cimento do pátio do Burger King como se minhas pernas simplesmente desistissem.
— O que eu fiz!? — pergunta ele, assustado.
— Nada. — respiro fundo. — Você só me salvou por uns segundos.
— Vamos! Todo mundo pro carro! — Vincenzo surge tentando aliviar. — Me esperem lá dentro.
Eles vão.
Ele fica.
Senta ao meu lado, com calma.
— Dess... você pensa demais. Imagina demais. Me perdoa por aquilo. Você é humana. Não precisa carregar esse peso.
Seguro as mãos dele.
Firmo.
Preciso ouvir.
— Eu caí pra viver ao teu lado — continua ele — Não pra te ver morrer nele. Rafael é duro. Sempre foi. Ele cumpre ordens. Não é bom, não é mau. Só... é.
Engulo seco.
— Não deixa isso mudar você. Não deixa nada mudar você.
Silêncio.
— O que ele quis dizer com “eu ainda não te perdoei”?
— Sei lá. — Ele evita. — Ele se acha superior a todo mundo.
Claro que acha.
Arcanjos. Ego celestial incluso no pacote.
— Vamos?
Assinto.
Mas antes:
— Não me deixa mudar. — Minha voz falha. — Me ajuda a ser melhor, Vincenzo. Eu não quero me perder.
Ele aperta minha mão.
Forte.
Antes que a cena afunde de vez...
BEEEEEEEEEEP.
— MEU SANDUBA TÁ ESFRIANDO! VAMBORA!
Antoine, a entidade do caos, salva o dia.
Ou destrói. Difícil saber.
Dentro do carro, enxugo o rosto com um guardanapo.
— Você tá ficando insuportável, Antoine. Isso é adolescência?
— Tipo isso, tia. Tá ligada?
"Tia".
Eu sorrio.
Droga.
Isso foi fofo.
Encantado com a nossa casa, Leo a compara com a sua e confessa seus planos.
— Quero tirar minha mãe daquela vida. Ela faz faxina desde que meu pai foi embora, quando eu ainda era um bebê. Ela rala pra caraca...
Lamenta, abocanhando o sanduíche, enfiando batatas na boca cheia. Vincenzo e eu nos entreolhamos, satisfeitos. Enfim, Leo saiu da concha. Enfim.
— Isso aqui tá muito bom, tia!
— Irado! — exulta Antoine ao seu lado.
Enrico franze a testa.
— O que a ira tem a ver com o sanduíche?
Todos gargalham. Até Matteo, que o chama de “bobô”.
— Nada, Enrico. É gíria. ‘Irado’ é tipo… muito bom. Tipo ‘supimpa’. Sacou?
— Supimpa!? — Antoine se engasga de rir. — Isso é simplesmente patético!
— Patético vão ser seus dias de castigo sem celular. Não é mesmo?
— Nada a ver, mãe… — rebate, entredentes. — Não sabe brincar, não desce pro play.
— Antoine! Me respeita!
— Relaxa, Dess — corta Vincenzo. — Eles estão se divertindo. Eu nunca te vi assim, Leo.
— Perdão — diz ele, engolindo a seco. — Eu me deixei levar pelo ambiente. Desculpa.
— Cara, você tá em casa! — Vincenzo ri. — Fica à vontade!
Ele cora. Eu vejo.
— Dess, come as batatas. Come. Só assim você não pensa.
— Eu já te mandei tomar…?
Ele me cala com um selinho.
— Já. Mas eu não vou.
— Aí, Leo! Mais safadeza! — Antoine vibra.
Leo ri, mais solto agora.
— Quem me dera ter pais assim, Antoine. Que se amam… e te amam.
Antoine beija a bochecha dele e, pela primeira vez, fica quieta.
— Agora você tem a gente — diz Enrico, tocando sua mão.
Os olhos dele descem, inevitáveis, para as cicatrizes no braço de Leo.
— Sempre cabe mais um nessa família. Seja bem-vindo. Você ainda vai ser muito feliz.
— E minha mãe?
Um silêncio curto. Enrico respira.
— Também. Vocês dois.
— Wooohooo! — Antoine explode. — Se meu avô falou, já era! Quer ver um filme comigo? Você vai pirar na sala de vídeo!
— Não, mocinha — corto. — Agora não.
— Por que não!? Ainda tá cedo!
— Cedo pra aula amanhã, né?
— Ah, mãe! Deixa ele dormir aqui! Ele quer ver filme!
— Prefiro anime — diz Leo.
— Eu também! — mente Antoine sem piscar. — Qual o seu preferido?
— Death Note. Clássico.
— Uau… eu amo anime — mente de novo, com convicção impressionante. — Esse eu ainda não vi. A gente pode maratonar. Irado, né?
Ele ri, meio sem saber se acredita.
— Vai levar muito tempo… e já tá tarde. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.
Enrico solta uma gargalhada.
— Isso é música do meu tempo… — balança a cabeça, rindo de si mesmo. — Foi mal.
— Vovô, você é hilário!
— Leo, você pode dormir aqui — digo. — Eu ligo pra sua mãe.
Antoine praticamente levita e me beija com a boca suja de ketchup.
— Você é demais, mãe!
— Sei… agora eu sou demais, né?
— Total! — ela já puxa Leo pelo braço. — Vambora!
O casaco sobe. As cicatrizes aparecem. Eu vejo. Finjo que não.
— Antoine — corta Enrico — Deixa o menino terminar de comer. Vem me ajudar na cozinha.
— Ah, vovô…
— Depois você manda. — cochicha ele.
— Tá… — resmunga, obedecendo.
— E depois a gente vê desenho! — completa ele.
— Anime, tio — corrige Leo, rindo. — É tipo desenho… só que melhor. Você devia ver com a gente.
— Eu topo! — diz Enrico, já puxando Antoine pelo braço em direção à cozinha.
— Por que eu tenho que ir? — resmunga ela.
— Depois explico — cochicha ele. — Obedece seu avô.
— Ok... — rosna, arrastando os pés.
Vincenzo percebe minha intenção na hora. Levanta, Matteo no colo.
— Vou dar um banho nesse meninão, Leo. Se eu não der, depois apanho.
Leo sorri, tímido. Cora de novo.
— Dess...
— Oi?
— Como diria Antoine: você é patética.
— Vai à merda.
— Perdão, Leo. Ela tem a boca suja.
— Sem problemas. Eu também tenho.
— Pode ir, Vincenzo — digo, forçando um sorriso. — Já deu, burro. Já deu.
Ele ri, leva Matteo e, antes de sair, diminui a luz pelo celular. A sala afunda numa penumbra confortável.
Agora somos só eu e Leo.
Ele puxa a manga do casaco, cobrindo os braços, e olha em volta.
— Eu nunca vi uma lareira de verdade. Só em filme.
— A gente já foi pobre, Leo. Depois teve dinheiro. Depois perdeu tudo. Agora tá bem de novo. Tudo muda.
— Não comigo, tia — diz baixo. — Eu não consigo sair da escuridão. Como você conseguiu suas marcas?
— Essas?
Mostro os pulsos.
— Você não vai acreditar. É uma história… complicada. Mas nunca foi pra me matar.
— Pode tentar explicar.
Ele arregaça a manga. As marcas aparecem.
— Eu também não quis me matar. Só queria parar de sentir. Só que quanto mais eu me corto… mais parece que nada muda.
— Isso começou naquela noite. Não foi?
— Que noite?
— Você e seus dois amigos. No seu quarto. Bebida, maconha, velas… a tábua Ouija.
Ele empalidece.
— Como você sabe disso?
— Eu vi. Depois eu te explico como. Mas o que importa é: vocês abriram uma porta e não fecharam.
— Eles dormiram — sussurra. — Eu fiquei sozinho. Guardei a tábua e nunca mais toquei nela.
— Por que não chamou eles pra terminar?
Ele cobre o rosto com as mãos.
— Porque eles estão mortos.
Silêncio.
— Como?
— Marcos foi atropelado. Thiago… se enforcou.
O choro vem de uma vez. Sem filtro. Eu puxo ele pra mim, firme. Espero. Não apresso.
— A gente vai dar um jeito — digo, quando ele consegue respirar.
— Eu tenho medo, tia. Muito medo de ficar no meu quarto.
— Eu sei.
— Foi pra isso que eu pedi pra você dormir aqui, Leo!?
Antoine surge, mãos na cintura, energia de furacão.
— Levanta dessa cadeira! Vamos fazer alguma coisa que preste!
— Antoine...
Eu suspiro, me recompondo.
— Vai. Vê algo leve. Os dois.
— Vou pensar no seu caso, mamãe — diz ela, já se jogando no sofá.
Leo me olha, ainda com os olhos molhados.
— Valeu, tia.
Assinto e saio.
No corredor, Vincenzo encosta na parede.
— Vai dar tudo certo, Dess. Não se mete nisso.
— Como não? Ele vai morrer se eu não fizer nada.
— Dess...
— Eu sei — corto, cansada. — Eu não sou quem eu acho que sou. E, pelo visto… meu sangue fede.
— Dess!
Não olho pra ele.
— Me deixa dormir em paz.
Leo não aparece no trabalho há dois dias.
Sem resposta. Nem mensagem. Nem ligação.
Eu falto às aulas da Just Dance. Deixo Matteo com Vincenzo e aviso que vou atrás dele.
Antoine não pensa duas vezes.
— Eu vou com vocês.
— Não. — olho firme. — Fica.
— Ele não tá bem, mãe. Eu sinto isso.
Ela já tá pegando a jaqueta.
— Eu vou com vocês.
Vincenzo levanta as chaves.
— Eu vou dirigir.
— Vincenzo, não. — corto na hora. — Enrico não pode ficar sozinho com Matteo.
Ele suspira, ofendido de leve.
— Vocês ainda não confiam em mim…
— Meu querido pai… — vou até ele e beijo sua bochecha. — Eu confio em você. Mas ainda temo a Legião. E a Celeste. Ela já entrou aqui uma vez. Eu não vou arriscar.
Silêncio curto.
— Prometo que vou dar um jeito nisso tudo. Em breve. E vou tentar trazer sua esposa de volta.
Enrico arregala os olhos.
— Jura? Como?
— Depois eu explico.
Não tenho resposta. Só pressa.
— Agora o Leo precisa da gente.
Viro pro Vincenzo.
— Cuida do nosso filho?
Ele assente.
— Sempre.
Me puxa pela nuca e me beija rápido, como quem tenta me ancorar no mundo real.
— Vai com Deus.
Antoine me abraça forte antes de entrar no carro.
— Tá tudo bem, mãe. Eu tô contigo.
Vincenzo alcança a gente na calçada e me entrega o crucifixo bento pelo Padre Pietro.
— Só por precaução.
Seguro.
— Valeu.
Mais um beijo.
Antoine resmunga do banco do carona:
— Tá atrapalhando, pai.
E eu arranco com o carro, indo atrás de um silêncio que já tá gritando.
Estaciono em frente à casa de Leo, num bairro humilde, longe da academia.
Descemos já chamando seu nome.
O portão antigo está encostado.
Antoine não espera.
Ela invade.
— Antoine! Espera!
— Tem alguma coisa errada aqui, mãe!
— Não abre essa porta!
— Ele tá lá dentro. E não tá sozinho.
Um chute no coturno dela e a porta do quarto se escancara.
O cheiro vem antes da visão.
Podre. Doente. Parado há dias.
Eu puxo Antoine pelo braço.
— Você fica. Eu entro primeiro.
— Ele é meu amigo!
Ignoro.
Entro.
E o quarto me engole.
Restos de comida no chão, pratos esquecidos, baratas correndo entre eles.
Um computador ligado ainda exibe um jogo aberto, uma criatura grotesca congelada na tela.
Na cama, lençóis encharcados de sujeira, sangue antigo e recente, cheiro de urina e abandono.
Engulo a ânsia.
Seguro o braço de Antoine atrás de mim.
E aponto para o teto.
— Consegue ver?
— Sim… as manchas.
Ela engole seco.
— Parasitas do Outro Lado. Eles estão sugando ele.
— Antoine… não toca em nada.
— Eu preciso encontrar ele.
— Banheiro.
Corro na frente.
— Não entra sem mim!
Tarde.
Ela entra.
E o encontra primeiro.
— Leo!
Ele está na banheira.
Corpo afundado na água suja.
Braço esquerdo pendendo para fora.
Sangue escuro diluído escorre pelo piso.
— Acorda, Leo! Acorda!
Ela o agarra antes de mim.
Os seres reagem.
O teto se move.
Som de arranhões secos.
Eles descem pelas paredes.
— Antoine, para!
Tarde demais.
O quarto desperta.
Eu avanço e puxo Leo da banheira.
Ele está gelado.
Fraco.
Sem resposta.
Arrasto ele pelas axilas.
Deixo um rastro vermelho no piso até o quarto.
— Ele cortou os pulsos há pouco tempo.
Minha voz falha, mas continua.
Antoine treme.
E então algo muda nela.
O ar fica mais denso.
As sombras se comprimem.
Ela levanta as mãos.
E o fogo aparece.
Púrpura.
Instável.
Vivo.
— Saiam dele!
As chamas explodem contra o teto.
Os seres recuam, se contorcem, gritam sem som.
O quarto inteiro parece respirar errado.
Gritos estridentes escapam das bocas descomunais das criaturas enquanto o fogo púrpura as dissolve no ar.
Com o corpo de Leo no meu braço, eu não sei se olho pra destruição ao redor ou se tento manter ele vivo.
O fogo não nos queima.
Só abre caminho.
— Ele vai morrer, mãe! Não deixa! — Antoine grita, voltando por um segundo ao que é.
— O quê!?
— O crucifixo do papai!
— Mas ele não tá possuído!
As chamas se espalham pelo quarto, expulsando sombras de dentro dos armários, debaixo da cama, dos cantos onde a luz não alcança.
Leo abre os olhos.
Quase nada.
— Me… perdoa…
— Não dorme, Leo. Fica comigo.
Eu o seguro mais forte.
Rasgo o lençol limpo que ainda resta e pressiono contra os pulsos dele.
Ele treme. Fraco. Perdendo.
E aponta.
Debaixo da cama.
Antoine se joga no chão sem pensar.
— Achei!
Ela puxa uma tábua.
— Que porra é essa, Leo!?
O ar pesa.
O nome não precisava ser dito.
— Uma tábua Ouija — minha voz sai mais baixa do que deveria.
Olho ao redor.
E vejo.
Eles.
Os mortos.
Os restos daquilo que ele chamou de “amigos”.
Um deles sorri sem rosto.
Outro apenas observa.
— Sem tempo pra explicação — digo, puxando a realidade de volta pra mim. — Vamos sair daqui.
Coloco Leo nas costas de Antoine.
Ela quase cai.
Mas segura.
E nós corremos.
O corredor parece crescer.
Alongar.
Como se o lugar não quisesse nos deixar ir.
No fim dele, sombras bloqueiam a passagem.
— Daqui ninguém passa — a voz não vem de um corpo. Vem do ambiente.
Leo ainda respira.
Antoine treme.
Eu levanto o crucifixo de Vincenzo.
E não peço.
Eu decreto.
— Príncipe das Milícias, defendei-nos no combate.
O ar quebra.
As sombras recuam.
— Deu certo, mãe! — Antoine grita, quase sem voz. — Me ajuda!
Arrastamos Leo até a saída.
Ele pesa mais agora.
Ou talvez seja o mundo tentando segurar ele lá dentro.
O carro.
A porta.
O banco traseiro.
Antoine ao lado dele.
Ela fala com ele como se ele já estivesse voltando.
Eu acelero.
As mãos dela começam a brilhar de novo.
Luz entra em Leo pela boca, fraca, instável.
— Filha… não…
— É preciso, mãe.
— Não posso ficar aqui, tia. Minha mãe...
— Leo, sua mãe está em outra casa bem melhor do que a antiga. Pra lá, vocês não retornam mais. Ok?
— Eu preciso voltar a trabalhar. — Diz ele, desorientado, deitado na cama de nosso quarto de hóspedes. — Não é justo ocupar o tempo de vocês. O dinheiro...
— Leo, seu trabalho na academia não vai fugir de você. Ok? — Brinca Vincenzo sentado à sua frente. — Você precisa se recuperar e, quando estiver 'de boas', você volta ao trabalho.
— Vincenzo. — Resmungo. — Por favor. Certas palavras já não combinam com você.
— E com você, 'novinha'!? Você pode falar tudo e eu nada!? Tu só tem quatro anos a menos do que eu!
— Vocês vão discutir na frente do Leo? — Pergunta Antoine, abatida, mas feliz. — Os dois estão velhos. Velhos e lindos. — Um repentino abraço nos une quando ela se declara. — Eu amo vocês.
— Porra. Não me faça chorar, Antoine.
— Começou, Leo. Agora não para mais. — Zomba Vincenzo. — Isso é um saco.
— Vá pro inferno, Vincenzo... — Enxugando minhas lágrimas com a manga de meu casaco, defendo-me. — Sou emotiva. Eu sinto as coisas. Não sou fria como você. — Abraçando-me, Vincenzo me pede desculpas.
— Eu sei, amor. Tô brincando. Quero descontrair nosso hóspede.
— Meu hóspede, papai. — Corrige-o Antoine. — Leo é o meu 'Best Friend Forever'... — Diz ela, exalando um longo suspiro. — Não vou sair daqui até você ficar 'novinho em folha', Leo. Enquanto isso, a gente pode assistir ao 'Death Note'. O que acha?
— Ótima ideia. — Responde ele, abrindo um lindo sorriso. Vincenzo e eu nos entreolhamos e, em silêncio, saímos do quarto enquanto eles continuam a conversar animadamente.
No corredor, choro no ombro de Vincenzo que, compreendendo meus receios, sussurra.
— Deixe isso nas mãos de Deus, amor. Não podemos interferir em nada.
— Ela tá fraca, Vincenzo. Perdeu muita energia salvando o Leo. — Alego num tom baixo. — Você viu os olhares que eles trocaram? Tá sentindo o clima? Ela já não é a criança que dançou com o 'Thor'. Ela é uma moça. Não me pergunte como, mas agora, em menos de um ano, ela é uma moça que sente algo forte por esse menino que tem quase o dobro da sua idade seja lá quantos anos ela tenha!
— Calma, Dess. Isso vai te fazer mal.
— O que me faz mal é ver você sempre calmo! Que ódio!
— Acordou nosso filho. Parabéns.
— Vá pro inferno.
— De novo?
— Não me segue.
— Não estou te seguindo. Estou indo ver meu filho que, por acaso, é o seu também.
— Vc é ridículo. Te odeio. — Minto retirando Matteo de seu berço. — O que você tem, meu filho? Fala pra mamãe. Fala.
— Ele tá febril, Dess.
— Eu senti. O que a gente faz?
— Dá um antitérmico e deixa o corpo dele combater o vírus ou sei lá o quê? — Um olhar enfurecido e rosno.
— Eu tô com ranço de sua calma, Vincenzo.
— E eu tô preocupado com o nosso concurso. Até hoje, a gente não ensaiou novamente.
— Nosso filho tá febril e você pensando em concurso de dança!?
— Posso pensar em outras coisas... — Um olhar desafiador e entendo sua intenção em me irritar.
— Empurrando-o com a lateral do meu corpo, sigo até a cozinha. Procuro por algum antitérmico. Ele o alcança no armário acima da minha cabeça, antes de mim, enquanto me observa.
— Me dá essa merda, Vincenzo. Não brinca comigo. — Ameaço sacudindo Matteo no meu colo. — Nunca mais insinue algo com aquela vaca ruiva ou eu te mato. Eu tô falando sério.
— Desculpa. Eu queria te provocar ciúmes. — Administrando a dose correta do remédio na boquinha aberta de Matteo, ele volta a me pedir desculpas. — Fala comigo.
— Não quero. Tô nervosa.
— Com uma febrícula, Dess?
— Com tudo, porra! — Tomando Matteo do meu colo, ele me ouve. — Você não viu o que nós vimos! Foi horrível! Antoine vai ficar traumatizada pelo resto da vida! E você ainda vem com brincadeiras envolvendo aquela ruiva que ainda não saiu da tua vida que eu sei!?
— Eu nunca mais a vi, Dess!
— Mas o João vê!
— Foda-se o João! Foda-se a ruiva!
— Foi você quem começou! — Acuso. — Agora aguenta, seu filho da puta!
— “Puta”. Mamãe “puta”. — Balbucia Matteo. Rindo, Vincenzo me parabeniza.
— Mais um palavrão aprendido com você. — Alterada, abro uma garrafa de vinho e tomo duas taças. Uma atrás da outra. — Dess! Para! Tá passando dos limites!
— Você não viu nada. — Rosno bem próxima ao seu rosto. — Se eu te encontrar com aquela mulher, eu sumo da tua vida. Mas, antes, eu mato aquela piranha!
— Para, amor...
— Cambaleando, volto ao quarto de Matteo. Um grito de horror e pergunto.
— Que faca é essa na tua mão, Antoine!?
— Eu que pergunto, mãe!
— De onde isso surgiu, filha?
— Sei lá, pai! Eu vim ver se o maninho estava bem e vi o berço vazio. Tinha alguma coisa brilhando debaixo do travesseiro. Eu levantei e vi isso!
— Chega!!! Eu não aguento mais!!! Chega!!! Chega!!!
— Berro antes de tocar na adaga e, exaurida, apagar.
— Eu não consigo te ver. Onde você tá?
— Bem pertinho de você, meu bem. Só não quero ser visto. Não estou nos meus melhores dias.
— Deixa meu filho em paz, por favor.
— Mas eu não fiz nada contra ele, sua louca. — Defende-se Lúcifer. — Tudo o que fiz foi deixar um presentinho pra você, mas Antoine, “abelhuda”, o encontrou antes.
— Um punhal no berço do meu filho, maldito!?
— Um punhal que vai ser útil daqui a algum tempo.
— Do que tá falando!? Aparece, merda! Acende a luz!
— Prefiro assim. Não quero te assustar. O presente foi dado. Se quiser aceitar, aceite. Se não o quiser, jogue fora, mas, lembre-se: você vai precisar dele. Mais cedo ou mais tarde.
— Por que me ajuda?
— Porque não tenho com quem contar nessa porcaria de mundinho cheio de humanos burros. Você é uma das poucas criaturas que não tem medo do perigo. Deve estar no sangue.
— Não brinca com isso. Não tenho o seu sangue. Ninguém pode provar.
— Ninguém além de Anahita e de mim. Óbvio.
— “Pai da Mentira”! Aparece!
— Ai... por San Juan Diego. Chega desses títulos antiquados. Inventem outros.
— O que tá acontecendo!? Eu tô caindo!?
— Sim, meu bem. Lembre-se de guardar o meu presente em um lugar seguro. Você vai precisar usar.
— Só se for em você, verme!
— Pode ser. Quem sabe? Agora, acorda.
— Você acordou. Graças a Deus.
— Por quantas horas eu dormi, Vincenzo?
— Quarenta e oito horas e trinta minutos.
— Meu Deus! — Ergo o tronco da cama. Minha cabeça gira. Meu estômago ronca. — Cadê meu filho!?
— Ele tá bem, Dess. Eu cuidei de todos. Ok? Antoine está mais forte. Leo já foi trabalhar e está super contente com sua nova casa e com o novo emprego de sua mãe. Ele pediu pra te dar um beijão. É o que eu pretendo fazer assim que você escovar os dentes. — De olhos fechados, volto ao travesseiro. Vincenzo beija minha boca e graceja. — Eu já te beijei. Agora é a sua vez de acordar e voltar às nossas vidas, Dess. Ela não tem graça sem você.
— Por que dormi tanto?
— O médico disse que foi um “burnout”. Chique, né? Um jeito fresco de dizer que você teve uma crise de extrema exaustão.
— Exaustão. É. É isso. Exaustão.
— Quer tentar levantar? Nosso filho tá morrendo de saudades de você.
— Meu filho! A adaga!
— Ei! Devagar! — Alerta Vincenzo impedindo que eu caia contra o chão de nosso quarto. Apoiando-me nele, peço.
— Me leva até o nosso filho. Por favor.
— Com prazer. — Um riso infantil e ele pergunta. — Por que tá me olhando como se me visse pela primeira vez?
— Eu tô?
— Tá.
— Não me lembro de nada, ao certo. Só tô confusa. — Esclareço caminhando lentamente. — Antoine tá no colégio?
— Sim.
— Você se lembra de mim, né? De que me ama e de que eu sou o homem da sua vida?
— Não...
— Dess!
— Tô brincando, idiota. Eu odeio te amar tanto...
— Sentada em minha cadeira de amamentação, recebo Matteo dos braços de Vincenzo que me observa, curioso. — O que é? Não posso mais demonstrar amor por meu filho?
— Pode. — Beijando a boquinha de Matteo, volto à realidade. Sinto que não estou sonhando. Estou onde sempre quis estar. — Ele te ama, Dess. Nós te amamos. Você não precisa tentar resolver tudo sozinha. Aliás, você não tem que resolver nada. Aprenda a deixar fluir.
— Se eu tivesse “deixado fluir”, você não teria seu recepcionista de volta, Vincenzo.
— Meu assistente, Dess. — Corrige-me ele.
— Sério??? Que máximo!!!
— Ele tá super animado ensinando alguns golpes aos novos alunos. Acho que ele pensa ser uma daquelas personagens dos “animes” malucos que ele assiste com Antoine. Aliás, ele tem me dado muita força nesses dias em que eu não trabalhei.
— Por que não!?
— Dess... — Revirando os lindos olhos, ele elucida. — Você esteve “apagada” por dois dias. Lembra do que eu te falei?
— Ah tá. Lembro. Ele tá maior, né? Nosso filho é lindo. Eu faria de tudo por ele.
— Até matar?
— Sim. Sem dúvida. — Encarando-o, afirmo. — Por meus filhos, eu estou disposta a tudo.
— O que pretende fazer com a adaga, Dess? — Pergunta-me ele, sentando-se sobre o tapete de estrelinhas, abraçando os joelhos flexionados. — Não tenho o seu dom, mas eu tenho certeza de que aquela adaga não vem de um bom lugar.
— Vou guardar... — Ergo-me, cautelosamente, com Matteo em meu colo. — Ele tá com fome. — Caminho até a cozinha. Vincenzo, mais uma vez, me segue.
— Eu não te sigo, idiota! Eu estava conversando com você e você me deixou no “vácuo”!
— Onde estão as bananas? — Desconverso, passeando pela ampla cozinha. — Acho que mamão é melhor. — Agarrando-me pelo braço, ele avisa.
— Não precisa tentar não pensar. Eu não sei onde esteve durante seu longo sono ou com quem conversou. Sinto muito que vc não confie em mim.
— Não é isso, amor...
— Não se pode servir a dois senhores, Dess. Isso eu ouvi da boca de um dos apóstolos, pessoalmente. Escolha de qual lado vai ficar.
— Vincenzo! Fica!
— Preciso trabalhar.
— Nossos ensaios!
— Sempre, Dess. — Responde-me ele, ao volante. — Sempre.
— Te vejo à noite no ringue?
— Sempre, Dess. Sempre.
— As palavras de Lúcifer sobre a adaga ecoam na minha mente aflita enquanto protejo meu filho do frio cortante.
“Você vai precisar dele. Mais cedo ou mais tarde”.
Em nosso último ensaio, fazemos as pazes. Vincenzo me faz rir ao reclamar que não passa de um boneco no meio do palco, sentado em um banco. Eu o convenço de que ele é a alma da nossa coreografia.
— É por você que eu danço. Perdida, solitária, em busca de salvação. Como diz a letra da música, é você quem me guia. É de você que eu preciso, logo, você é a personagem principal da coreografia.
— Idiota. Você não precisa disso. Eu tô aqui por você. Eu não vou te deixar perdida ou solitária.
— Eu sei, Vincenzo! — Bufando, explico. — Isso é Arte! Encenação!
— Ah tá... — Lamenta ele. — Isso é falso.
— Não. — Afirmo, saltando em seu colo, agarrando-me em seu pescoço, cruzando minhas pernas em suas costas. — Nunca. — Sussurro contra seus lábios. — Você é a minha salvação. Sem você, eu não existo. Eu fico perdida. Sem rumo.
— Isso é bom... — Alega ele antes de me beijar e me fazer girar em seus braços. Deixo escapar um grito eufórico e ele avisa. — Espero que continue assim. Eu sou seu macho.
— Disso ninguém duvida, imbecil.
Ouço aplausos ao redor do ringue. Pelos olhos assustados de Vincenzo, já posso imaginar quem seja. Giro meu pescoço lentamente e, então, eu a vejo sorrir e caminhar em nossa direção.
Ágil, pulo do ringue antes de Vincenzo e, inflando as narinas, pergunto.
— O que faz aqui? A academia tá fechada.
— A porta estava aberta e...
— Pensou que poderia entrar?
— Dess...
— Vincenzo! — Exulta a ruiva siliconada antes de abraçá-lo efusivamente. Ele recua e, meio que sem graça, se desculpa.
— Eu tô suado. — Um ligeiro olhar para mim e ele me apoia. — Não deveria ter entrado. Perdão, mas, após o horário de funcionamento, não permitimos a entrada de estranhos.
— Não sou estranha! Sou sua aluna!
— Já foi. — Refuta ele, resoluto. — Seu professor é o João e, minha esposa e eu estávamos ensaiando. — Sorrio, triunfante. — Se nos der licença, ainda não terminamos. — Dess. Vc tá bem? — Piscando excessivamente, tento enxergar a imagem embaçada da ruiva. — Caiu algum cisco em seu olho?
— Não. — Apoio-me em seu braço ao mentir. — Tá tudo certo. — Ainda tentando focar na imagem distorcida da ruiva, peço, incomodada. — Você poderia nos deixar a sós? Como o meu marido disse, ainda não terminamos.
— Sem problema. Eu só queria dar meus parabéns ao casal. Certamente irão vencer o concurso. — Recuando, ela me faz uma ameaça velada ao tocar em meu braço. — Aproveite enquanto pode.
Um forte arrepio e recuo, sobressaltada. Assim que ela pisa na calçada, tranco a porta da academia, à chave e, ainda tremendo, tento entender o que vi.
— Dess, não se deixa abater. Isso é coisa de gente pequena que gosta de intriga.
— Não é isso, Vincenzo. Eu vi alguma coisa. Ela não parece ela. Não é a mesma com quem conversei naquele dia.
— O que viu quando ela te tocou?
— Nada. Esse é o problema. Eu só vi escuridão e...
— E?
Pensando em Matteo, desconverso.
— Deixa pra lá! Vamos pra casa! Pobre Enrico! Além de cuidar de Matteo, agora tem que aturar Antoine e sua fixação por Leo!
Longe de Vincenzo, pergunto-me qual seria o significado das fagulhas de fogo que enxerguei enquanto ela me tocou.
Vencemos o concurso!
Fomos aplaudidos de pé pela plateia, que me pareceu ter se emocionado mais com a atuação de Vincenzo do que com a minha. Ele se deixou levar pela canção, pela orquestra sinfônica, pela letra do autor que sofre por um amor complicado. Eu amei ver seus olhos fixos em mim enquanto eu me esforçava em não cometer erros nos passos arriscados, cheios de paixão. Ele se movia na cadeira, acompanhando cada salto, cada gesto meu. Embevecido, contrariando o que havíamos ensaiado, ele se empolgou, chutou a cadeira e, num repentino ato de amor, ao final da apresentação, com seus braços fortes, me elevou acima de sua cabeça e me fez girar.
Erguendo meus braços sob o brilho dos holofotes, um déjà vu me incomodou por frações de segundos.
Deixo rolar.
Estou tão feliz por ele ter se envolvido com tanto fervor em meu sonho que o beijo diante de todos. Enrico, Antoine, Cassie e Leo, dos assentos, nos arremessam flores. Liam me encara com uma expressão indecifrável. Um súbito pavor me faz procurar por Matteo. No colo de Enrico, ele se encontra distante de Liam. Sean, no colo de Cassie, chora sem parar.
— Dess, agradeça. — Cochicha-me Vincenzo antes de fecharem as cortinas.
De volta ao corpo, presto reverências ao público num plié. De mãos dadas a Vincenzo, sorrio, super feliz. Enfim, estou no palco que sempre quis estar, ao lado do homem que amo e que demonstrou me amar.
— Te amo. — Declara ele, arfando, atrás das cortinas. — Acho que me empolguei.
— Por mim, você pode se empolgar sempre...
Jogo o buquê de flores para o alto e o beijo na boca, com ardor. Suas mãos envolvem minha cintura enquanto elevo minha perna direita como nos filmes de romance.
Seria um ótimo final para nossa história...
Mas quem disse que eu nasci para ser feliz?
Comemoramos nossa vitória em nossa casa. Entre nossos amigos, bebemos, comemos e dançamos juntos. Sem tirar os olhos de Vincenzo, um tanto embriagado pelo vinho, encantado por ter sido aplaudido de pé e estar contando todos os detalhes de nossa apresentação pela segunda vez, não deixo de me sentir insegura.
Cassie e Sean estão juntos, encolhidos num dos sofás da varanda. Enrico aplaude Vincenzo a cada passo que ele pensa ter dançado. Antoine e Leo ainda maratonam Death Note na sala de vídeo, comendo pipoca do mesmo pote. Ela o observa, encantada, enquanto ele não tira os olhos da tela de cem polegadas, sugando, pelo canudinho, refrigerante com gelo.
Ainda sentindo um aperto no peito, sigo até o quarto de Matteo, onde o deixei dormindo há cerca de uma hora. Assim que abro a porta, o assusto com meu grito de pavor.
— O que faz aqui!? Solta meu filho!
— Ele estava chorando. Eu só queria ajudar.
— Já ajudou. — Tomo Matteo de seu colo e recuo, desconfiada. — Não faz sentido algum, Liam. Por que você estaria aqui enquanto todos estão lá fora!?
— Eu já disse.
— Eu não acredito em você. — Rosno, afastando-o de Matteo ainda mais. — Desde quando tem amigos? Desde quando tem feito minha Cassie infeliz!? Acha que não percebo o quão triste ela está!? Por que me pediu para tirá-la da depressão se você a está jogando no fundo do poço novamente!?
— Não seja estúpida. Você não conhece nada de nossa vida. Estamos felizes. Isso te incomoda?
— Não. Seu olhar me incomoda, Liam. Não é mais o mesmo.
Uma risada curta. Sem humor.
— Ok. E todos devemos acreditar na vidente, paranormal, bruxa, santa, parteira, curandeira e bailarina do ano. Você não faz ideia de quem eu sou.
— É verdade. E isso me dá medo, Liam. Eu não te conheço mais. Eu nunca te conheci. Eu deixei que você entrasse na vida da minha Cassie imaginando que você fosse um anjo como o meu Vincenzo...
— Ainda sou. — Um sorriso no canto da boca. — Com algumas diferenças.
— O que quer dizer com isso!?
Bloqueio a saída dele com o corpo, apertando Matteo contra mim.
— Quem é você!? De verdade!?
— Saia da minha frente. Seu filho está chorando.
O olhar dele desce rápido para Matteo. Frio. Técnico. Errado.
— Ele é especial e isso pode ser perigoso. Tome conta dele e deixe a vida dos outros em paz.
— O que quer dizer com isso!?
A voz já não sai firme. Sai quebrada.
— O que eu disse...
Ele passa por mim como se eu fosse só um móvel no caminho.
Antes de sair, joga por cima do ombro, num tom baixo demais pra ser humano:
— Seu sangue fede. Alguém já te disse isso?
O quarto gira.
Cambaleio, caio na cadeira de balanço e abraço Matteo como se o mundo tivesse ficado instável demais pra sustentar qualquer outra coisa. Choro em silêncio até conseguir respirar de novo.
Levanto.
Volto para a sala.
— Fique com ele e não o solte de maneira alguma, Enrico. Proteja seu neto.
— Vc está me assustando, filha. Algum problema?
— Sim. Eu só não sei o que é ainda. Proteja meu filho, Enrico, por favor.
— Com todo meu corpo e alma. — promete ele.
Nervosa, sussurro no ouvido de Vincenzo.
— Precisamos conversar agora.
— Amor! — Exulta ele, abraçando-me pela cintura. Um de seus sorrisos puros e ele chama a atenção de todos. — É por essa mulher que eu vivo! Uma bailarina brilhante e uma parceira fiel, forte e lutadora!
— Amor. Vem comigo.
Insisto sob os aplausos de Cassie, Enrico e Liam, que pisca discretamente para mim. Trêmula, arrasto Vincenzo, que não compreende minha apreensão. Vendo Liam se aproximar de Matteo no colo de Enrico, perco o controle e grito.
— Vincenzo! Eu preciso falar com você! Agora!
Todos se calam e me encaram, surpresos. Cassie, tentando fazer Sean parar de chorar em seu colo, pergunta:
— Algum problema, tia? Posso ajudar?
— Não, Little Princess. Você não pode ajudar. A heroína aqui é e sempre será a bailarina.
— Você nunca mais me chamou assim. — Revela Cassie, fragilizada. — Desde que seus amigos começaram a frequentar nossa casa.
— Que amigos, Liam? — Provoco, posicionando-me entre Enrico, com Matteo em seu colo, e ele. — Por que não nos explica de onde eles surgiram?
— Dess, o que você quer falar comigo? Por que tá nervosa, amor?
De costas para Vincenzo, pergunto:
— Não consegue ver? Não consegue ler os pensamentos dele, Vincenzo? Ele já não é aquele a quem você chamava de “irmão”.
— Dess, se acalma. Por favor. Essa noite tá sendo tão bacana...
Livrando-me dos braços de Vincenzo, pergunto num tom alto:
— Por que Sean não para de chorar, Cassie!?
— Não sei, tia. — Responde ela, confusa. — O que tá rolando aqui? Por que eu sinto que você e o Liam não estão se entendendo?
— Porque ela é desequilibrada. — Responde Liam, abrindo um sorriso malicioso. — Ela sempre enxerga problemas onde não existem. Sempre quer ser o alvo das atenções.
— Liam, não fala assim da minha esposa. Somos amigos, cara.
— Não somos, Vincenzo! — Refuto, encarando-o nos olhos serenos e avermelhados de cansaço e vinho. — Ele mudou! Você não vê isso!? Ele estava no quarto do nosso filho enquanto todos estávamos aqui!
— Ele estava chorando! Eu já me expliquei! — Diz ele, alterando o tom da voz. — Por que você sempre vê maldade em tudo!?
— Por que não tenta fazer o seu filho parar de chorar!? Do meu filho, cuido eu!
— Tia!
— Cassie...
Aproximo-me dela.
— Deixa eu segurar o Sean. Ele precisa parar de chorar.
— Não encosta nele! — Protesta Liam, tomando Sean dos braços de Cassie.
— Por que não!? — Pergunta Cassie, assustada. — Ela só quer o bem dele! Liam, me dá o meu filho de volta!
— Não! — Rosna ele, furioso. — Vamos embora!
— Porra! Alguém pode me explicar o que tá rolando aqui!? Dess! Que briga boba é essa!?
— Não é boba, Vincenzo! Se não estivesse bêbado já teria enxergado os sinais!
— Eu não tô bêbado! — Defende-se ele, indignado. — Eu tô feliz! Nós vencemos o concurso! Não era isso o que você queria!? Por que não tá feliz!?
— Porque ela não estava sendo o centro das atenções até agora, Vincenzo! — Assevera Liam. — Você ainda não conhece a esposa que tem!?
— Irmão, eu não tô gostando do rumo dessa conversa.
— Ele não é teu irmão, Vincenzo! Acorda!
— Dess...
Sinto mágoa na voz dele. Engulo seco.
— Precisamos conversar. Eu senti algo.
Batendo palmas lentas e espaçadas, Liam ironiza enquanto Sean continua a chorar:
— Eis que o show vai começar. A vidente mais poderosa desse planeta tem algo a revelar.
— Ainda não. Mas vou descobrir.
— Tenta.
— Liam! Para! — Pede Cassie, aos prantos. — Me dá meu filho. Ele não tá bem.
Enrico se afasta com Matteo assim que tento roubar Sean dos braços de Liam. Cassie, descontrolada, me empurra. O que vejo me faz arquear de pavor. Vincenzo me segura com força, impedindo-me de tocar em Sean e completar a conexão.
— O que você tem, Dess!? Tá me assustando, porra!
— Para, tia! Por que essa raiva toda!?
Presa por Vincenzo, entre irritada e amedrontada, pergunto:
— Há quanto tempo o Sean tá assim, Cassie!? Não minta!
— Não fala nada, Cassie. — Ordena Liam. — Vamos pra casa. Agora.
— Pra casa!? Casa!? Que casa!? — Cassie gargalha histericamente. — Desde quando aquele lugar voltou a ser a nossa casa, “coelhinho”!? Há quanto tempo eu não falo essa palavra! Como eu poderia!? Seus amigos não saem daquela casa!
— Cala a boca, Cassie. — Rosna Liam. — A gente conversa em casa.
— Não! — Revolta-se Cassie, tomando Sean dos braços de Liam. — Pra lá eu não volto até que seus mais novos amigos de infância nos deixem em paz!
— Ela fica aqui! — apoio Cassie, firme. — Você não pode obrigá-la a voltar pra lá se ela não quiser! Alguma coisa aconteceu. E você sabe.
— Fica, então. — Liam dá de ombros, quase entediado. — Mas o Sean vai comigo.
— Não! — Cassie grita, quebrando. — Não toca no meu filho!
Liam avança.
— Parem! Pelo amor de Deus! — Enrico intervém, já sem voz.
Vincenzo entra na frente, protegendo Cassie e o bebê.
— Liam, para. Pensa no que você tá fazendo.
O soco vem seco. Vincenzo nem vê. A cabeça gira. O silêncio pesa um segundo inteiro.
Ele devolve. Instinto. O impacto joga Liam no chão.
— Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui? — Vincenzo pergunta, perdido, ferido mais por dentro do que por fora. — Como a gente chegou nisso?
Liam ri baixo enquanto se levanta, limpando o canto da boca com o polegar.
— Sua esposa.
Um passo. Só um.
— Ela acredita em si mesma demais. Já reparou? — o olhar dele pousa em mim, calmo demais. — Heroína. Santa. Bruxa. Conselheira de arcanjos… e, ainda assim, tão íntima do Anjo Caído.
Sinto o ar mudar.
— Por causa desse “dom”, ela acha que pode resolver a vida de todo mundo. — inclina levemente a cabeça. — Menos a própria. As vozes ainda estão aí dentro, não estão… Dess.
O jeito como ele diz meu nome… arranha.
Vincenzo respira fundo, tentando não explodir.
— Ela te ajudou.
— Ajudou? — um quase sorriso. — Eu ainda me pergunto como. Magia? Sugestão? Ou só colocou minhocas na cabeça da minha esposa?
— Cuidado com o que fala. — rosno.
Ele ignora. Aponta pra Cassie.
— Faz essa criança parar de chorar.
Cassie congela.
Eu avanço. Ele segura meu braço.
Vincenzo o empurra.
— Não toca nela. Nunca mais.
Agora tem ódio nos olhos dele. De verdade.
— Você não é mais bem-vindo aqui.
Liam ajeita a camisa como se nada tivesse acontecido.
— Eu não voltaria mesmo. — pausa mínima — Não a um lugar onde uma prostituta de sangue impuro dita as regras.
Vincenzo parte.
Eu seguro.
— Para! Chega!
— Eu não quero ir, tia! — Cassie implora, sendo puxada. — Me ajuda!
Engulo seco. Dou um passo até Liam. Toco o braço dele.
Errado.
Sempre errado.
— Deixa eles ficarem. Só hoje. — baixo, direto. — Por favor.
Retiro a mão.
E, de propósito, toco em Sean.
O mundo falha.
Frio. Sangue drenado. Presença… antiga. Faminta. Não é só dor. É uso.
Recuo.
— Em nome de quem você já foi… — minha voz quase falha — Deixa eles ficarem.
Liam sorri. Pequeno. Sem pressa.
— Não.
Cassie luta. Sean chora mais alto, como se alguém estivesse apertando algo dentro dele.
E então Antoine passa por mim.
Silêncio.
Ela não corre. Não hesita.
Simplesmente chega.
Separa Liam de Cassie como se ele pesasse nada. Toma Sean no colo.
Beija a testa dele.
O choro para.
Na hora.
Arrepio.
— Vai. — ela diz, sem olhar pra Liam.
Ele não se move.
Pela primeira vez… ele mede alguém.
As mãos dele sobem. Quase alcançam o pescoço dela.
Antoine ergue o olhar.
Não é criança.
Não é humana.
— Quis ut Deus?
O ar estala.
Algo recua.
E Liam… recua junto.
Com os olhos tomados pela fúria, Liam obedece. Em silêncio.
Assim que ele sai de nossa casa, eu me lembro de respirar. Solto o ar pela boca, como se estivesse submersa há minutos.
Leo ampara Antoine que, sem forças, desmaia em seus braços.
— Ei… ei… — ele murmura, deitando-a no sofá.
Beija sua testa. Chama por ela como se chamasse de volta.
Nós assistimos.
Sem som. Sem reação.
Como se qualquer movimento pudesse quebrar algo maior.
Então, como num truque cruel, Antoine abre os olhos.
Sorri.
— Quer que eu faça mais pipoca?
A gente ri.
Não porque é engraçado.
Porque ninguém aguenta mais.
A tristeza chega devagar. E fica.
Enrico envolve Cassie com aquela calma que dói de tão gentil. Sean dorme, finalmente, no colo dele.
Vincenzo, com os olhos úmidos, brinca com Matteo até ele apagar.
Leo… Leo segura Antoine na cadeira suspensa, na varanda. O jeito que ele olha pra ela já não é de criança.
— Posso te ajudar, tia?
— Já ajudou. — beijo a testa dele. Depois a dela. — Trouxe ela de volta. Eu te abençoo por isso.
Ele baixa os olhos. Sente o peso, mesmo sem entender tudo.
Eu caminho.
Sem rumo.
Com um buraco no peito.
Cassie me espera no quarto de hóspedes. Sean nos braços, apertado contra ela como se alguém pudesse arrancá-lo dali.
— Eu não posso ficar longe dele, tia… — a voz falha. — Eu amo ele. Ele é o pai do meu filho… e…
— Continua. — digo baixo. — Eu não vou te julgar.
Eu já fiz isso demais hoje.
— Eu estraguei tudo. — respiro fundo. — Talvez ele tenha razão. Talvez eu seja só uma velha problemática caçando confusão.
— Nunca mais fala isso.
Vincenzo.
A voz embargada. Um olho roxo.
Mas firme.
— Você é a mãe dos meus filhos. Minha esposa. Minha parceira. Seu dom é real. — ele engole seco. — E não tem nada de errado em querer salvar quem você ama.
Eu desvio o olhar.
Porque dói acreditar nisso agora.
— Sean tem chorado muito… — Cassie sussurra. — Tenho medo de ser alguma doença. Já levei no médico… ninguém acha nada.
— Você precisa comer. — digo, prática. — Tá fraca.
Aponto com o queixo.
— Vincenzo faz o melhor omelete do mundo.
Ele me olha.
Entende.
— Eu cuido do Sean. Confia em mim?
— Claro, tia…
Mas ela já não acredita nem nas próprias palavras.
— Vai dar tudo certo… — ela insiste, sorrindo errado. — Ele vai voltar ao normal… meu Liam…
Abraço ela.
E minto.
— Vai sim.
Quando eles saem, fecho a porta devagar.
Agora é só eu e o silêncio.
E o Sean.
Coloco ele na cama. Com cuidado.
Respiro.
Olho.
Procuro.
Sem saber o quê.
— Deve ser nada… — murmuro. — Talvez picada de mosquito…
NÃO É.
Minha mão treme.
— Para com isso. Você tá paranoica.
OLHA DIREITO.
Engulo seco.
— Se eu acender a lanterna, ele acorda…
ACENDE.
AGORA.
Meu peito aperta.
Eu cedo.
A luz revela.
Pequenos pontos.
Alinhados.
Precisos demais.
— Não… não… não…
Toco de leve.
A pele cede.
Marcada.
Usada.
Meu estômago vira.
— Podem ser insetos… — tento insistir.
MENTIRA.
Eu sei.
Eu sei.
Fecho os olhos.
Aperto o crucifixo.
— Me ajuda…
E vejo.
Coisas que não deveriam ser vistas.
Nunca.
Sean em seu berço.
Liam sorri para ele.
Não é um sorriso de pai.
É cálculo.
Rostos se aproximam. Estranhos. Quietos demais.
Observam.
Esperam.
O choro vem de repente.
Agudo.
Cortante.
A seringa se enche devagar.
Sangue.
Demais para um corpo tão pequeno.
— É o suficiente.
— Por enquanto.
A visão se rompe.
Cubro Sean com o lençol como se isso pudesse esconder o mundo dele.
Me deito ao lado.
Encolho o corpo.
Pequena.
Inútil.
— Ela não vai suportar isso… — minha voz falha. — Ela não vai acreditar…
— Não vai mesmo.
Meu corpo trava.
— Quem tá aqui!? — puxo o lençol até a cabeça, protegendo Sean contra mim. — Chega… por favor… eu não quero ver mais nada…
— Nem um velho amigo?
Eu conheço essa voz.
Meu peito desaba.
Tiro o lençol devagar.
Ele está ali.
Sorriso limpo.
Olhos molhados.
Como sempre.
— Doc…
Eu não consigo levantar.
Não consigo tocar.
Só existir ali, quebrada.
— Não posso ficar muito, meu anjo. — a voz dele é leve, mas urgente. — Vim agradecer. Você salvou mais do que imagina.
Eu estendo a mão.
Instinto.
Desespero.
— Não… — ele balança a cabeça, gentil. — Não posso ser tocado.
Engulo o choro.
— Eu tô com medo… — minha voz sai pequena. — Eu não sei o que fazer. Eu não valho nada.
MENTIRA.
A palavra não vem da minha boca.
Vem de dentro.
Ou de fora.
Nem sei mais.
Ele se aproxima.
A mão dele não toca.
Mas eu sinto.
Calma.
Um tipo de paz que não é minha.
— Você é luz. Sempre foi. — ele diz baixo. — Nunca duvide disso. Nunca pare de lutar.
Eu fecho os olhos.
Quero ficar ali.
Parada.
Segura.
— Cassie vai sofrer… — ele continua. — E talvez não acredite. Mesmo assim… confie no Criador.
Meu coração aperta.
— Eu não vou dar conta…
— Vai.
Silêncio.
Então:
— A escuridão está chegando.
Meu estômago vira.
— Eu estarei com você.
— Doc, não vai…
Mas ele já está indo.
— Volta!
— Dess!?
Vincenzo.
Real.
Pesado.
Quente.
— Você tá bem!?
Eu ainda olho para o lugar onde ele estava.
A luz ainda ali.
Fraca.
Sumindo.
— Sonhou com o Doc?
— Sim. — minto fácil demais. — Ele tá bem.
Ele me abraça.
Forte.
Como se sentisse que eu tô escorregando.
— Cassie quer voltar pra casa… — ele diz baixo.
Claro que quer.
Claro.
— Perdão, tia… — Cassie segura Sean como se fosse a única coisa que ainda faz sentido. — Ele me ligou… pediu desculpas… ele chorou…
Eu fecho os olhos por um segundo.
Não resolve nada.
— Eu não quero desistir da minha família…
Você já desistiu.
Só não sabe ainda.
— Eu entendo.
Mentira necessária.
Entrego Sean.
Minhas mãos demoram meio segundo a mais.
Quase não soltam.
Quase.
Tiro o crucifixo do meu pescoço.
Coloco no dela.
— Não, tia…
— Aceita. — minha mão pressiona o peito dela. — Quando tiver medo… pede ajuda.
Porque você vai ter.
Muito.
Na calçada, sob a chuva fina, eu assisto.
Eles indo embora.
Como quem assiste um acidente em câmera lenta.
E não pode fazer nada.
A adaga volta à minha mente.
Latejando.
A voz dele também.
“Você vai precisar.”
Ótimo.
Claro que vou.
Porque nada nunca vem fácil nessa porcaria de vida.
Vincenzo chega depois.
Destruído.
— Ela não confia nele… — ele passa a mão no rosto. — Por quê?
Eu sei o porquê.
Eu vi.
Eu senti.
— Você sabe o que tá acontecendo?
Eu olho pra ele.
Meu porto.
Meu erro.
Meu tudo.
— Não sei.
Mentira.
Pesada.
Suja.
Gruda na língua.
No dia seguinte, indo pra academia, a verdade finalmente me alcança.
Tarde demais.
— Ele é o único em quem posso confiar…
Idiota.
— Por que eu não falei ontem?
Porque você teve medo.
Porque você quis proteger.
Porque você errou.
E agora paga.
Eu deveria ter escutado.
Sempre deveria.
Minha intuição nunca mente.
Eu que finjo não ouvir.
E o preço vem.
Sempre vem.
Uma dor que rasga.
Que separa.
Que cobra.
Tempo.
Tempo de escuridão.
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