CAPÍTULO 46 - INEVITÁVEL
— E o que eu faço agora, mãe?
— Nada. — Respondo, deitada ao seu lado sob as cobertas. Fixamos os olhos no teto de seu quarto enquanto ela tenta organizar os próprios sentimentos após o beijo de Leo. — “Deixa rolar”, como diria seu pai. — Sorrio, embora meu coração esteja apertado. — Ele disse alguma coisa? Te pediu em namoro?
Gargalhando, Antoine cobre o rosto com as mãos.
— Sim. Não é fofo? O que eu faço, mãe?
Nada. Fuja. Diga não. Você é tão nova.
— Mãe?
Volto os olhos a ela, afofo o travesseiro e expiro lentamente antes de perguntar:
— O que você sente por ele, de verdade?
— Não sei. Nunca senti isso por você, pelo papai, pelo vovô ou pelo maninho. Eu amo vocês… mas só conheço esse tipo de amor. O amor de família.
— Faz sentido. — Murmuro, afastando, mais uma vez, a ideia absurda de que Antoine talvez realmente seja um querubim. Todos os sinais apontam para isso. Ainda assim, continuo resistindo. — Você praticamente só viveu conosco, filha. Nunca teve experiências desse tipo. No máximo, duas ou três amiguinhas no colégio… o Thor… e mais ninguém. É normal estar confusa. O que sente quando ele está perto?
— Medo de que ele se afaste.
— Continua.
— Medo de que ele desapareça da minha vida por me achar esquisita. — Ela hesita antes de completar, mais baixo: — E vontade de ser abraçada por ele. Porque, quando estou com Leo… eu me sinto segura.
Engulo em seco.
— E isso você nunca sentiu comigo? Quando éramos só nós duas?
— Sentia, mãe. — Responde ela, enlaçando minha cintura. Sua cabeça repousa entre meus seios enquanto continua: — Mas eu sempre soube que você estaria comigo. Você é minha mãe. Você me ama. Com Leo é diferente. Não parece um amor eterno como o de mãe. Parece… algo que nem é meu. Algo que talvez eu possa perder antes mesmo de entender direito o que é.
— Tá complicado. — Brinco, tentando aliviar a própria angústia. — Fiquei tonta agora. É seu, mas não é. Você quer, mas tem medo.
— Não brinca, mãe. — Choraminga ela. — É sério.
— Eu sei. É por isso que estou brincando. — Beijo sua bochecha antes de declarar, contrariada: — Bem-vinda ao mundo dos adultos. Um lugar difícil de sobreviver. Mas eu ainda estou aqui… e sempre vou ficar ao seu lado.
— Não precisa ter medo, mãe. Eu não sinto nenhum tipo de desejo como o seu pelo papai.
— Eu nem pensei nisso. — Minto rápido demais. — Do que você está falando?
— Que eu não penso em ter mais do que um beijo do Leo.
Ergo o tronco imediatamente.
— Uma coisa leva à outra, filha. É por isso que me preocupo. Você ainda é muito nova…
— Mãe, eu não vim à Terra para ser fecundada. Muito menos para ser tocada de maneira impura. E Leo sabe disso.
— Sabe?! E aceita?! — Encaro-a, alarmada, enquanto a luz da lua invade o quarto pela janela aberta. — Vocês já conversaram sobre isso?!
— Relaxa, mãe. Leo e eu nos beijamos porque queríamos viver essa experiência. Ele sabe que eu não vou além. E ele também não deseja isso. Assim como eu, Leo é diferente. Nós só queremos permanecer juntos enquanto ainda houver tempo.
Volto lentamente ao travesseiro, tentando compreender o que acabei de ouvir.
— Então vocês não vão namorar? Não querem… nada além disso?
— Nada além de amor, mãe. — Ela sorri de maneira triste. — O que sinto por ele é muito maior do que qualquer coisa física. Leo só quer ficar ao meu lado até…
Ela se cala.
— Até quando, filha?
— Até quando Meu Pai me chamar.
Meu corpo inteiro endurece.
— O que Vincenzo tem a ver com essa história, Antoine?
— Não esse pai, mãe. O Outro. Todos nós temos um tempo na Terra. O meu…
— Antoine, eu não quero falar sobre isso! — Interrompo imediatamente, inquieta sob os lençóis. — Podemos voltar ao assunto do beijo?
Ela ri baixinho.
— Você é engraçada, mamãe. Tem medo das coisas erradas.
— Antoine… — Desconverso, respirando fundo. — O que vocês pretendem fazer daqui pra frente?
— Viver. E lutar. Nós vamos lutar juntos na Grande Batalha.
— Ai, Jesus… isso de novo?
— Calma, mãe. — Ela segura minha mão. — Leo disse que ninguém vai me machucar enquanto ele estiver vivo.
Fecho os olhos por um instante.
— Que lindo… — Suspiro, emocionada apesar do medo. — Ele disse que te ama?
— Não precisa. — Antoine sorri, serena. — Eu amo por nós dois.
Levo a mão ao peito, sentindo o coração apertar dolorosamente.
— Não fala assim, filha…
— Não sofre, mãe. Eu estou feliz. Leo é especial. Muito especial. Ele possui dons que nem eu compreendo completamente. É forte… e é meu melhor amigo. Eu nunca vou esquecer o tempo em que fui feliz aqui na…
Antes que termine, tapo sua boca com a mão.
— Chega desse papo de despedida. — Imploro, contendo as lágrimas. — Você ainda vai viver muito. Com Leo ou sem ele. E ele ainda pode ser seu príncipe no baile de quinze anos… desde que não use aquele terno vermelho horroroso ao estilo Astaroth.
Ela gargalha enquanto enxugo minhas próprias lágrimas.
Passei a noite inteira me preparando para conversar com uma adolescente assanhada, ansiosa pelos próprios desejos. Em vez disso, encontro uma menina estranhamente consciente daquilo que é… e do destino que a aguarda.
— Não quero que você sofra, filha.
— Isso é inevitável, mãe. — Sua voz perde a leveza. — Eu estou na Terra. Eles me avisaram que não seria fácil.
O medo volta a se espalhar dentro de mim.
— Eles quem?
Antoine ergue os olhos para o teto escuro.
— Meus Superiores…
Arrepio-me. Abraçando-a com força, aspiro o perfume de lavanda em seus cabelos e, reunindo uma coragem que não tenho, sussurro contra sua testa.
— Quem te deixou naquela praça no dia em que te vi pela primeira vez?
Antes que ela responda, Matteo invade o quarto vestindo seu pijaminha dos “Minions”. Logo atrás dele, Vincenzo surge à porta com aquele olhar atento e desconfiado de sempre. Com dificuldade, Matteo escala a cama de Antoine e se joga sobre a irmã.
Antoine ri.
Um riso leve. Infantil. Humano.
Ela o acolhe nos braços e faz cócegas em sua barriga enquanto ele gargalha sem controle. O som limpa o ar pesado do quarto como se afastasse, por alguns segundos, todas as sombras que insistem em rondar nossa casa.
Vincenzo senta-se na ponta da cama.
— Está tudo bem por aqui?
— E por que não estaria? — Provoco, cruzando os braços. — Achou que eu faria um escândalo ao descobrir que minha filha beijou um menino pela primeira vez?
— Eu só perguntei se vocês estão bem, Dess. Não quero briga.
— Nem eu.
Beijo a testa de Antoine e me afasto devagar da cama, tentando esconder o turbilhão dentro de mim. Quando alcanço a porta, sua voz suave me interrompe.
— Obrigada, mãe.
Paro imediatamente.
— Pelo quê?
Ela sorri.
Não como alguém feliz.
Como alguém que sabe.
— Porque você me ouviu. Não me julgou. Não tentou me mudar.
Minha garganta fecha.
Antoine aperta Matteo contra o peito antes de continuar:
— Eu sempre soube que seria você.
— O quê?
— Minha mãe. Eu acertei quando escolhi você.
O mundo inteiro parece parar.
Escondo o rosto para que ninguém veja minhas lágrimas.
Mas tarde demais.
Minha voz falha mesmo assim.
— Está na hora de dormir, filha.
Vincenzo pega Matteo no colo enquanto Antoine permanece deitada entre os lençóis claros, iluminada pela luz fria da lua que atravessa a janela.
Por um instante, ela não parece minha filha.
Parece algo muito mais antigo.
Muito mais distante.
Engulo o medo.
— Durma com os anjos, filha.
Ela fecha os olhos lentamente.
— E sonhe com o Leo.
Abro os olhos.
Reconheço a canção.
A mesma que dancei na audição antes de ser aceita como professora na “Just Dance”.
Deixo-me conduzir por ela enquanto observo meu reflexo no longo espelho retangular preso à parede.
Um salto.
Estaco diante dele.
Seu sorriso tímido insiste em permanecer em seu rosto, embora ele tente escondê-lo.
Sempre achei isso absurdamente fofo nele.
— Você não deveria estar livre.
— Saudades de você também, baby.
— Você fugiu do céu?
Recuo quando ele se aproxima.
Rindo baixo, ele nega com a cabeça.
— Eu nunca estive no céu, baby. De onde tirou isso?
— Então veio do inferno? — pergunto, entre curiosa e assustada.
Posso sentir daqui seu perfume de sândalo.
Odeio perceber isso.
— De onde você veio? Por que estou aqui? Eu estava dormindo...
De súbito, ergo a mão e o impeço de tocar meu rosto.
— Não encosta em mim.
Seu sorriso vacila.
— Nem do céu, nem do inferno. Vim de um lugar onde criaturas repulsivas como eu tentam aprender coisas boas.
Silêncio.
Então ele pergunta:
— Ainda sente nojo de mim?
— Não. — Baixo os olhos. — Desculpa. Eu nunca soube lidar com você.
— Tem medo?
— Tenho.
Sua mão alcança meu rosto mesmo assim.
Suave.
Quente.
Familiar.
Afasto-me imediatamente.
— Fica longe.
— Tudo bem, baby.
Ele dá um passo para trás.
— Não vim te assustar.
— Então por que veio? Onde estamos?
Olho ao redor.
O espelho desaparece lentamente atrás de uma fumaça branca e espessa.
Meu coração dispara.
— Vincenzo!
Aiden sorri.
Animado.
Quase orgulhoso.
— Estou em treinamento.
— Treinamento pra quê?
— Pra proteger.
— Quem?
— Adivinha.
— Aiden, isso não tem graça. Você não deveria chegar perto de mim depois de tudo.
— Não sou eu quem faz as regras, baby. São eles.
— “Eles” quem?
— Os Superiores.
— Todo mundo tem “Superiores” agora? Antoine tem. Vincenzo tem. Enrico tem. Você também. Menos eu!
Ele ri.
Uma gargalhada baixa e sincera.
— Os superiores de Antoine estão muito acima dos meus.
Estende a mão.
— Dança comigo.
— Eu sou fiel ao Vincenzo.
— Não quero trepar com você, baby. Só quero uma dança.
— Que merda de lugar é esse?
Mesmo contrariada, deixo que ele me conduza.
Uma de suas mãos repousa em minha cintura.
A outra segura minha mão acima de nossas cabeças.
Voltamos a dançar.
— Que lugar é esse? De onde vem essa música?
Ele aproxima o rosto do meu.
Sua voz sai baixa.
Quase triste.
— Estamos em um plano acima da Terra. Estou aqui em missão de paz.
Dou uma risada incrédula.
Ele sorri de canto.
— Eu sei. Também nunca imaginei dizer isso.
Fecha os olhos por um instante.
— Mas Ele me perdoou.
— Quem?
— O Deus de Vincenzo.
Arquejo.
— Mentira.
— Não posso mais mentir.
Ele me faz girar lentamente.
— Estou tentando mudar, baby. Por você. Você me libertou daquele inferno. Agora... eu só quero acertar.
Seu olhar escurece.
— Eles conseguem ver isso em mim.
Aproxima-se outra vez.
— Você não.
Meu peito aperta.
— Estou aqui pra dizer que você não ficará sozinha durante a Grande Batalha.
Reviro os olhos.
— Isso de novo? Essa história ridícula? Antoine inventou isso brincando.
— Não brincou.
Sua mão acaricia meu rosto com o dorso dos dedos.
— Vai acontecer.
— Para.
— Não sei quando. Mas vai.
— Para!
— E quando acontecer... eu estarei com você.
— Não preciso da sua ajuda.
— Vai precisar.
— Minha família estará comigo!
O silêncio dele me destrói antes mesmo da resposta.
Então ele diz:
— Não estarão.
— Cala a boca!
Fecho os olhos.
— Você mente! Você sempre mentiu!
— Não estou mentindo!
— Eu não quero lutar! Eu só quero paz!
Pela primeira vez, ele parece sofrer de verdade.
— Eu não posso mudar seu destino, baby. Se pudesse... eu mudaria.
Ele começa a desaparecer entre a fumaça.
— Aonde você vai?
Sua voz ecoa ao longe.
— Cuida do teu filho. Ele ainda tem cura.
— Não fala do meu filho!
Dou dois passos à frente.
— Volta!
Mas a fumaça o engole completamente.
Só sua voz permanece.
— Somos os Guardiões, baby. Não esquece esse nome.
— Guardiões?
— Estaremos por perto.
Caio.
O chão desaparece.
Meu corpo desperta num sobressalto.
— Um pesadelo, Dess?
Agarro Vincenzo imediatamente.
Escondo o rosto contra seu peito.
— Não me deixa.
Ele me abraça sonolento.
— Não vou.
Mente ele.
— Você anda distante desde a nossa viagem.
— Então você se achou no direito de se encontrar com o seu ex-marido?
— Eu não me encontrei com Aiden. Foi um sonho.
— Um sonho? — Vincenzo ri sem humor. — Pensei que tivesse sido um pesadelo.
— Vincenzo, não começa. Eu vim conversar.
— Então por que está gritando?
— Eu não estou gritando!
— Tá sim.
— Não estava até você começar a agir como um maluco!
— Se vocês quiserem que o pessoal da calçada escute essa briga, vão precisar falar um pouco mais alto.
Desconcertado, Vincenzo desce do tatame e encara João.
— Foi mal, irmão.
— Relaxa. Que casal não briga?
— Aposto que você não trata sua esposa assim, João.
Salto do ringue e abraço João antes que Vincenzo responda qualquer idiotice.
— Como estão as crianças? Minha afilhada tá bem? Já decidiram o nome do terceiro filho?
João arregala os olhos.
— Filho? Como você sabe disso?
— Ela tem um dom. — resmunga Vincenzo. — É sempre a mesma coisa.
— Não seja grosseiro.
Volto minha atenção a João.
— Não é exatamente um dom. É mais uma maldição. Às vezes eu toco nas pessoas e sinto coisas.
— Então você viu meu filho?
Assinto devagar.
— Ele está bem.
Mentira.
João passa a mão no rosto, aflito.
— Amanda não está. Ela sente muita dor. O bebê chuta a noite inteira. Ela come e depois vomita tudo. Já fomos em vários médicos e ninguém consegue ajudar.
Engulo seco.
— Vai dar tudo certo.
Outra mentira.
Seu olhar muda imediatamente.
— Você viu alguma coisa.
— Não funciona assim.
Dou um passo para trás.
— Você quer me pedir alguma coisa?
— Quero.
Ele hesita.
— Naquele dia da fumaça... eu vi os símbolos no escritório. Você poderia fazer aquilo lá em casa?
Antes que eu responda, Vincenzo surge atrás de mim.
— Nós iremos.
Olho para ele imediatamente.
— Ele falou comigo.
— E eu sou seu marido.
Seu sorriso cafajeste retorna.
Aquele maldito sorriso.
— Nós iremos juntos.
João parece aliviado.
— Obrigado, irmão.
Assim que ele se afasta, rosno baixo:
— Você contou pra ele sobre o meu dom. Por que não contou sobre o seu? Covarde.
— Porque ele é meu amigo. Não quero que saiba que ouço pensamentos.
Pressionando-me contra a parede, aproxima o rosto do meu.
— Inclusive os seus.
— Eu também não quero que ouça os meus.
Seus lábios quase encontram os meus.
— Então por que estamos brigando?
Sua mão desliza pela minha cintura.
— Sabe há quanto tempo a gente não transa?
— Depois dessa cena ridícula? Uns dez anos, talvez.
Antes que ele responda, Leo surge atrás de nós.
Claro.
Porque o universo odeia sexo marital.
— Eu... desculpa atrapalhar.
— Não atrapalhou nada. — minto descaradamente.
Vincenzo bufa ao meu lado.
Cruzo os braços.
— Por que você sumiu lá de casa? Tem alguém sentindo sua falta.
— Dess, deixa o garoto respirar. — diz Vincenzo.
Leo abaixa a cabeça, vermelho.
Dou um beijo em sua testa.
— Não desaparece, Leo. Antoine gosta muito de você.
Ele sorri sem graça.
— Eu também gosto muito dela.
Meu peito aperta.
— Posso ir lá hoje?
— Claro.
Evito tocar sua mão.
Não quero ver nada.
Não hoje.
— Vai com o Vincenzo. Preciso falar com Aninha.
— Tô ligado, tia.
Ele se afasta.
Assim que desaparece da recepção, Vincenzo volta a me encarar.
— Leo tem poderes?
— Ah, então a amnésia bateu forte hoje? Não lembra do lance do cabelo do Liam?
— O que aconteceu no sonho com Aiden?
— Puta que pariu. Isso de novo?
Dou as costas.
Ele segura meu braço.
— O que vocês fizeram?
— Dançamos! Só isso!
Seu maxilar trava.
— E ele falou sobre...
Franzo a testa.
— Como era o nome?
— Guardiões.
Paro imediatamente.
— Exato! Como você sabe?
— Você acordou falando isso.
Ele se aproxima mais.
A voz baixa.
Séria.
— Você sabe o que são Guardiões?
— Não.
— Habitantes do submundo. Ficam próximos dos humanos. Dos desejos deles.
— Aiden disse que mudou.
Vincenzo gargalha.
Uma gargalhada nervosa.
Ciúmes puros.
— E você acreditou?
— Ele disse que trabalha pro Bem.
— Ele era um demônio, Dess!
— E você já foi um anjo! Caiu, perdeu os poderes e a imortalidade! Então segura a tua onda!
Silêncio.
O olhar dele escurece.
— Você ainda deseja ele?
— Idiota. Eu tô falando de ajuda. Não de sexo.
— Eles são a escória.
— Não seja preconceituoso. Isso não combina com você.
Dou as costas novamente.
— Dess, volta aqui.
— Adessa! Você queria falar comigo?
Aninha surge na recepção.
— Sim. Só um minuto.
Volto-me para Vincenzo.
— O que é um Guardião?
Ele se inclina até meu ouvido.
— Depois eu explico.
Seu hálito arrepia minha nuca.
— E fica longe desse guardião babaca.
Recuando, ele consulta o celular.
Então sorri.
— Trezentos e trinta e seis, idiota.
Mordo o lábio sem querer.
— O que é isso?
— Duas semanas.
Aninha franze a testa.
— Duas semanas de quê?
Sem sexo.
Coisa boba.
Vincenzo gargalha enquanto sobe novamente no ringue.
Mas algo em mim percebe:
ele está com medo.
Muito medo.
— Adessa... por que vocês estão contando semanas?
Aninha empalidece.
— Você tá grávida?
— Não.
Seguro suas mãos.
— Mas você está.
Ela congela.
— Como você sabe?
— Tá escrito na sua testa.
Mentira número mil.
Ela está magra.
Pálida.
Triste.
— Quando você ia me contar?
Seus olhos se enchem de lágrimas.
— Eu tô grávida, Adessa.
— Eu percebi essa parte.
— Você não entendeu.
Sua voz falha.
— Como eu vou explicar isso pra minha namorada?
— Ah.
Pisco algumas vezes.
— Vocês duas não combinaram direito essa parte?
Ela cobre o rosto.
— Foi um acidente.
Claro.
O famoso acidente onde um pênis escorrega misteriosamente pra dentro de alguém.
— Eu tava bêbada... triste... brigamos feio... fui pra uma festa e...
— Já entendi o final da história.
Seguro suas mãos com mais força.
— O que eu posso fazer pra te ajudar?
Ela me encara.
Hesita.
Então abre a boca.
No mesmo instante, meu corpo inteiro arrepia.
Dou um passo para trás.
— Não.
Outro passo.
— Isso nunca.
Pensando em como evitar a morte injusta do filho de Aninha, procuro pelo lenço que roubei de Liam.
Decidida a descobrir mais sobre a Legião, deixo-o sobre a cômoda no instante em que ouço a voz de Leo vindo da sala.
Do corredor, vejo Antoine praticamente voar em sua direção.
Ela se joga sobre ele.
Leo a segura imediatamente.
Os olhos fechados.
Um sorriso involuntário.
Quando os abre, enrubesce ao perceber Enrico e Celeste observando a cena.
Celeste bate palmas, animada.
Há algo nela que ainda não consigo compreender.
O desejo doentio que sentia por Vincenzo desapareceu no instante em que abandonou a Legião?
Ou ela apenas aprendeu a esconder melhor?
Por que a vi conversando com Liam naquele abraço?
Não.
Celeste não nos trairia.
Não depois de tudo.
Não depois de ter voltado.
— Não pode.
— Por que, mãe?
— O quê?
— Ela não ouviu, filha. — comenta Vincenzo atrás de mim. — Estava ocupada arrumando novos problemas.
Lanço-lhe um olhar mortal.
— Para de ler meus pensamentos e vai cuidar da sua vida.
— Eu cuidaria... se você me deixasse em paz dentro da minha cabeça.
— Tenta mais.
Rosno ao passar por ele.
Abraço Leo rapidamente.
— Que bom que veio.
— Por que ele não pode dormir aqui, mãe? — insiste Antoine. — A gente não vai fazer nada errado.
— Mas eu nem disse nada!
— Nem ouviu também! — retruca Vincenzo. — Sua filha pediu duas vezes e você pensando em conspirações demoníacas.
— Não são conspirações!
— Ele pode dormir aqui ou não?
— O quê?
— Dormir aqui!
— Não precisa gritar!
— Mas você não escuta!
Leo acaricia o braço de Antoine.
— Calma. Sua mãe já entendeu. Se não der, tudo bem.
— Não tá tudo bem! — protesta ela. — Você não vai embora nessa chuva! O mundo tá acabando lá fora!
— Ele acabou de chegar.
— Mas vai sair!
Passo a mão no rosto.
Exausta.
— Leo pode dormir aqui, Antoine. Eu só não ouvi da primeira vez.
— Nem da segunda. Nem da terceira. — provoca Vincenzo.
Reviro os olhos.
— No dia em que você parar de invadir meus pensamentos, eu paro de pensar. Combinado?
— Não discutam por bobagens. — pede Enrico com suavidade. — Isso cria distância. E distância abre portas pro inimigo.
— Concordo.
Volto meus olhos para Vincenzo.
— Eu não quero brigar, Enrico. Seu filho parece gostar de me provocar até eu perder a paciência.
— Ele te ama.
Enrico me abraça com ternura.
— Não faz por mal.
Seu olhar é tão puro que meu peito dói.
Quase me desmonta.
Apoio a testa em seu ombro e sussurro:
— O inimigo tá mais perto do que a gente imagina.
— Dess... agora não.
Seu tom muda imediatamente.
Sutil.
Tenso.
Recuando devagar, encaro Celeste.
Ela sustenta meu olhar.
Sorrindo.
Isso me arrepia.
— Aonde você vai? — pergunta Enrico.
— Ficar longe de vocês por cinco minutos antes que eu enlouqueça.
Dou as costas.
— Não me segue.
— Dess!
— Leo! — grito do corredor. — Fica à vontade!
— Não vai lanchar com a gente, mãe?
Paro diante da porta do quarto.
Por um instante, quase volto.
Quase.
— Daqui a pouco, filha.
Entro no quarto e fecho a porta.
— Agora eu preciso de paz.
Sentada no tapete, de pernas cruzadas, fecho os olhos. Demoro a perceber qualquer coisa. Aos poucos, as imagens surgem, desconexas. Dentro da ampla sala de estar, reconheço-me diante do espelho. Atrás de mim, o reflexo de Liam parece não me enxergar enquanto cobre a cabeça com o capuz vermelho e ajeita o manto da mesma cor. Há um brilho sombrio em seus olhos.
Escondo-me num dos cantos da sala onde, meses atrás, bebemos e conversamos, juntos e felizes, diante da lareira. Cuidadosamente, aproximo-me do círculo formado por homens e mulheres cobertos pelo mesmo manto. Eles não me veem.
Estou dentro de minhas visões.
Novamente.
À minha frente, deitada sobre uma mesa gigantesca e circular de madeira, reconheço Cassie, completamente fora de si. Chamando por Liam, ela geme de prazer assim que ele a penetra. Quando volto meus olhos para ele, estremeço ao perceber o tom amarelado e animalesco de seus olhos lascivos.
Grito por Cassie, mas ela não me escuta.
Estou no passado.
Não há como despertá-la daquele torpor.
Impotente, assisto à criatura demoníaca dominar o corpo de Liam e fecundar Cassie enquanto os membros do círculo a reverenciam.
Abruptamente, sou lançada para um passado mais recente.
Cassie, grávida, reclama de dores no ventre. Liam a abraça e diz ser normal sentir dores durante a gravidez. Mais tarde, ela desmaia ao dar à luz. Ao redor dela, a equipe médica sorri, satisfeita, diante de Sean, chorando de cabeça para baixo, ainda ligado a Cassie pelo cordão umbilical.
Tento escutar o que cochicham entre si.
Dou um passo atrás, apavorada.
— Enfim, ele chegou. — celebra o obstetra, em êxtase, ao lado do anestesista.
Outro salto no tempo.
Agora, encontro Liam no quarto de Sean. O bebê chora no berço enquanto Liam, ensandecido, injeta uma fina seringa no corpo franzino do filho.
Horrorizada, sou surpreendida pela presença da mesma entidade demoníaca que vi no ritual.
Enfurecida, a criatura avança sobre Liam e o ergue do chão pelas garras presas em seu pescoço.
— Não ouse tocar no meu filho. — rosna a voz gutural antes de arremessá-lo à distância.
Desorientado, Liam se levanta e, prestando reverência à entidade, pede desculpas.
Confusa, retorno ao presente.
A imagem de Celeste entre os membros do manto vermelho permanece cravada em minha mente.
Assusto-me ao ouvir Vincenzo esmurrar a porta do quarto e ordenar que eu a abra.
— Por que ainda se desgasta com essa merda, Dess? Quer morrer mais cedo? Isso suga suas energias!
— Não grita. — imploro, levando as mãos à cabeça dolorida enquanto abro a porta. — Não sei o que pensar.
— Não há o que pensar, Dess. — diz ele, abraçando-me e beijando o topo da minha cabeça. — Esquece isso, por favor. Vamos lanchar com as crianças.
— Eu vou...
Com a mente conturbada, sigo ao seu lado. Sua mão prende-se à minha com força quase desesperada. Quase consigo ouvir seu pensamento. Seu clamor silencioso.
— Vincenzo...?
— Dess, pelo amor de Deus, para de pensar nisso. Para de imaginar teorias de conspiração. Tenta viver nossa vida. Eu te imploro.
— Do que você tem medo? — questiono antes de chegar à cozinha e fritar os ovos dos egg burgers de Leo e Antoine. — Eu não entendo. Preciso te contar o que vi.
— Não conta, amor. Vamos viver nossa vida. — De joelhos diante de mim, ele suplica. — Esquece o que viu ou pensa ter visto. Nada é mais forte que o nosso amor. Não remexa o passado. Eu quero... eu preciso da sua ajuda para continuar aqui.
— E o que você tem a ver com o que acabei de ver?
Um olhar sombrio cruza seu rosto enquanto ele monta os sanduíches.
— Não quero falar sobre isso, Dess. Chega. Pelo nosso amor... chega.
— Faça o que ele pediu, mãe. Ele precisa ficar entre nós. — Levando os egg burgers para a bancada, Antoine beija a bochecha de Leo e conclui: — Deixa o passado no passado, mãe.
— Vocês sabem de alguma coisa que eu não sei!
Exalto-me ao retirar o avental e arremessá-lo contra Vincenzo.
— Vai me contar ou não?
— Vamos comer em paz. — pede Celeste num murmúrio.
De cabeça baixa, ela permanece em silêncio ao lado de Enrico, com Matteo no colo.
Sentindo-me deslocada dentro da minha própria casa, reajo impulsivamente quando deveria me calar.
— Eu vi você, Celeste! — acuso, debruçando-me sobre a bancada diante dela. — Você estava no ritual em que fecundaram Cassie! Sean não é filho de Liam! Havia algo maligno ocupando o corpo dele naquele momento! Você viu! Você sabe de coisas e esconde tudo de nós! Por quê?
— Dess...
— Me solta, Vincenzo! Eu preciso saber! Ela mora na nossa casa! Nós a acolhemos com amor mesmo depois de tudo! Eu ainda não confio em você, Celeste!
Lágrimas escorrem pelo rosto dela.
Solidário, Enrico a abraça.
Constrangido, Leo morde o sanduíche em silêncio. Antoine move a cabeça lentamente, contrariada. Vincenzo, de braços cruzados, apenas me encara.
Contrariando minha própria intuição, prossigo:
— Por que se encontrou com Liam? Ele é nosso inimigo! Que tipo de sentimento sujo você tem pelo meu marido?
— Basta. — diz ela, erguendo os olhos para mim. — Isso nunca. Eu jamais senti nada além de amor de mãe por Vincenzo. Não me acuse disso.
— Eu senti seus ciúmes naquele dia do parque! Nunca mais esqueci!
— Dess, você está passando dos limites.
— E você, Vincenzo, parece estar ao lado dela! Contra mim!
— Eu estava no ritual. — confessa Celeste, abatida. — Não me orgulho disso.
Atônitos, todos nós a escutamos.
— Eu sempre soube que Sean não era filho de Liam. Não há sangue dele naquela criança. Nas veias de Sean corre o sangue da besta. Eles desejam poder. Mais poder do que o de Lúcifer. Eu precisava estar entre eles. Precisava conhecer seus segredos. Precisava proteger meu neto.
— Não fala mais nada, amor. — suplica Enrico.
— Eu preciso. — insiste ela. — Eu vi tudo. Sei o que eles desejam agora. Custei a entender, mas, quando finalmente compreendi, tentei fugir. Tentei proteger meu neto.
Matteo, como se entendesse a tensão daquela conversa absurda e maldita, balbucia um “bobó”.
Sorrindo entre lágrimas, Celeste beija sua testa.
— Não posso deixar que façam mal ao meu neto. Não posso permitir que façam com ele o mesmo que fizeram com o pobre Sean.
— Do que você está falando?
Avanço sobre ela.
Vincenzo me impede de alcançá-la, segurando minha cintura.
Imóvel na cadeira, Celeste ergue a cabeça e endireita a postura.
Há tristeza em seu semblante quando ela revela:
— Eles querem o sangue de Matteo. Acreditam que, unindo o sangue de Sean ao dele, criarão algo invencível. Um ser vivo... ou algum vírus letal. Eu não sei.
Recuo, entre perplexa e apavorada.
— Eu me encontrei com Liam para negociar minha rendição em troca da vida de Matteo. Mas fui estúpida. Ele riu de mim. Me chamou de medíocre. Foi isso que você viu, filha. Só isso.
Devastada, solto lentamente o ar dos pulmões e apoio a testa sobre o mármore frio da bancada.
— Satisfeita? — pergunta Vincenzo, num tom sarcástico. — Estragou a noite.
Uma dor violenta atravessa meu peito.
Permaneço calada.
Não vou chorar.
Não na frente dele.
— Perdão pelo que disse naquela noite. — Celeste toca minha cabeça com delicadeza. — Eu sei que você não gosta de mim. Já fiz coisas terríveis... mas agora eu quero ser melhor.
De súbito, beijo o dorso de sua mão.
— Eu devo estar enlouquecendo. Obrigada por cuidar dos meus filhos.
— Nossos. — corrige Vincenzo, sentando-se ao meu lado.
Ressentida, evito seu olhar.
— Não adianta me evitar. Vamos dormir na mesma cama.
— Não mesmo.
Rosno.
Leo gargalha.
Antoine, de boca cheia, o acompanha.
Matteo volta a perguntar:
— Mamãe dodói?
— Não, filho.
Ergo-me da cadeira, dou a volta na bancada e o retiro do colo de Enrico.
Abraço-o com força.
E penso que Matteo talvez seja o único que realmente me ame exatamente como eu sou.
— Tá errada. De novo.
— Vá à merda.
— Precisamos de paz, filha. — diz Enrico, entristecido. — Não estamos sozinhos.
— Como assim?
— Eles estão lá fora, mãe. Por isso pedi para Leo dormir aqui.
— Eles quem?
— A Legião, Dess. — esclarece Vincenzo, amargurado. — E tudo o que eles desejam é uma brecha para entrar aqui... e levar o que mais anseiam.
O medo me impede de perguntar o quê.
— Não adianta ter medo, Dess. Eles são muitos. E são fortes. Quando quiserem, vão invadir nossa casa.
— NUNCA!
Num acesso de fúria, mágoa e desespero, devolvo Matteo aos braços de Enrico e corro até a varanda.
— SE ESTIVEREM AÍ, SAIBAM QUE O MAL NÃO ENTRA NA MINHA CASA!
Debaixo da chuva violenta, caminho decidida até o jardim.
Da varanda, ouço os gritos de Vincenzo:
— VOLTA, DESS! POR FAVOR!
Por que tanto medo, Vincenzo?
Por que você deixou de me amar?
Por que tem me machucado tanto?
— DESS! VOLTA!
Um relâmpago atinge uma das árvores do quintal.
Por um breve segundo, a luz rasga a escuridão da rua.
E eu os vejo.
Rostos deformados.
Sorrisos sinistros.
Criaturas agarradas ao portão.
— DESS!
Antes que Vincenzo consiga me tocar, flexiono as pernas e pressiono as palmas contra a grama molhada.
— Dess...
— AGORA NÃO!
Concentro-me.
Chamo por ela.
Então, ela toma conta do meu corpo.
Ouço sua voz ecoando através de mim:
— RECUA, CASSIEL!
Não compreendo as palavras que ela repete incessantemente através das minhas cordas vocais.
Algo escapa de mim.
Ondas de uma luz azul percorrem a grama até atingirem o portão.
De olhos fechados, escuto os gritos de dor.
Ondas de luz azul se erguem da grama e envolvem nossa casa por inteiro.
Um muro de proteção.
Sim.
Aqui, eles não entram.
Hoje não.
Estou fraca.
Muito fraca.
Perdão.
Foi você quem me invocou.
Não faça isso com frequência.
Apenas em casos extremamente necessários.
Isso pode te matar.
SÉRIO?
E VOCÊ FALA ISSO AGORA?
Adeus, querida.
O perigo já passou.
— Anahita... — sussurro contra a grama molhada antes de fechar os olhos, exausta, tentando respirar. — Não toca...
— Dess, meu amor... você nunca muda.
— Te odeio.
Desmaio em seu colo.
— Por que não me contou o que aconteceu na escolinha de natação, Dess?
— Porque você já não conversa comigo. Dá pra soltar a porta? Eu tô atrasada.
— Aonde pensa que vai?
— Não te interessa.
Aumento o volume do som dentro do carro, impedindo-o de ouvir meus pensamentos.
Um sorriso cínico curva seus lábios.
— Gostou? — provoco. — Tenta ouvir o que estou pensando agora.
Puxando-me para fora do carro, Vincenzo ocupa o banco do motorista e desliga o som.
Então, encara-me novamente.
— Aonde pensa que vai?
— Eu não penso. Eu vou. — Massageio o pulso, choramingando: — Isso doeu.
Beijando o dorso da minha mão, ele fala com uma ternura que quase me desmonta:
— Dess, você não pode mais usar seu dom como antes. Eu preciso de você. Nós precisamos de você. Já tomou seus remédios hoje?
— Óbvio, idiota. Agora me dá a chave do carro.
— Não antes de saber aonde vai. E não adianta ligar o som. A porta está fechada.
Sorrindo, ele arregala os olhos azuis.
Esses olhos já brilharam por mim.
— E ainda brilham, Dess. — Sua voz suaviza. — Se você soubesse que tudo o que faço é por você e pelas crianças, não pensaria assim.
— O que você fez, Vincenzo? Mais um pacto idiota? Está me escondendo o quê?
O sorriso desaparece.
— Nada. É você quem não pode fazer besteiras. Se ficar quietinha, vivendo sua vida normal, permaneceremos unidos.
— Você está pensando em me deixar?
— Não. — Ele se aproxima imediatamente. — É exatamente isso que eu estou tentando evitar.
Seu olhar percorre meu rosto com desespero contido.
— Fica em casa hoje, Dess. Você não tem aula. Eu também não. Pensei em...
— Pena que tudo em você fique só no pensamento, Vincenzo! — explodo. — Faz tempo que eu não sinto o peso do seu corpo sobre o meu! Agora me dá a porra da chave! E para de me olhar desse jeito! Você me faz sentir pior do que eu já estou!
— Não diz isso.
Sua voz falha.
— Você é tudo o que eu tenho. A razão de tudo ao nosso redor. Nossos filhos. Nossa família.
— Para...
— Cretina. — ronrona ele em meu ouvido antes de roubar um beijo meu na garagem. — Não deixa completar três semanas, Dess. Tô com saudades.
— Eu também. — confesso.
Ele me prensa contra o carro e segura meu rosto entre as mãos. O segundo beijo vem mais intenso. Mais faminto. Mais desesperado.
Merda.
Se continuar assim, vou acabar desmarcando com João.
— Fica longe. — resmungo, sem convicção.
— O que vai fazer na casa do João, porra?
— Usando métodos sujos agora, Vincenzo?
— Não foi pra isso que te beijei. — rebate, irritado. — Tenho saudades da minha esposa. Você não pode continuar agindo como se fosse uma heroína, Dess. Para e pensa na nossa família. Você não é a porra da Feiticeira Escarlate.
— Não mesmo! — retruco, furiosa. — Se fosse, não teria deixado meu marido morrer! Teria voltado no tempo e evitado tudo! Ela é burra! Eu, não!
— A Feiticeira Escarlate perdeu os filhos, Dess! — explode ele, transtornado.
— Foda-se! Outra burrice! Me dá a porra da chave!
O semblante dele muda.
Como se alguma coisa atravessasse seus pensamentos.
Como se uma sombra antiga despertasse atrás de seus olhos.
— Dizem que ela existiu de verdade... — murmura ele, distante. — Que foi fecundada por uma entidade demoníaca. E que deu à luz um homem poderoso. Inteligente. Revolucionário.
— Qual é a graça disso, Vincenzo!? — rosno, inquieta. — Por que você insiste em tirar minha paz!?
— Mephisto... — continua ele, quase em transe. — Coincidência demais, não acha?
— Que se fodam todos eles! Inclusive você! As chaves!
Ele continua me encarando.
Ausente.
Assustadoramente ausente.
— Vincenzo! — Seguro seu rosto entre minhas mãos e o obrigo a me olhar. — Acorda!
O tapa ecoa pela garagem.
Ele pisca.
Respira fundo.
Volta.
— O que há com você!? — pergunto, agora assustada de verdade.
— Fica comigo, Dess.
Meu coração vacila.
Porque ele nunca pede.
Nunca.
— Seu amigo está precisando de ajuda! — rebato, tentando ignorar o medo em sua voz. — Não posso virar as costas!
— Eu vou junto.
— Não.
De repente, sua mão envolve meu pescoço.
Não forte o bastante para machucar.
Mas forte o suficiente para me assustar.
— Me espera aqui. — ordena entre os dentes. — Vou pegar minha carteira e já volto. Não se atreva a sair sem mim. Entendeu?
Consigo apenas mover a cabeça.
Ele me encara por mais alguns segundos antes de soltar meu pescoço abruptamente, como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo.
O horror em seus próprios olhos me paralisa.
— Desculpa. — sussurra.
Sua voz falha.
— Meus impulsos violentos estão voltando, Dess. Não me abandona. Eu tô com medo.
— Não tenha. Eu tô aqui. Nada de ruim vai acontecer com você.
Ele me abraça rapidamente ao chegarmos à varanda.
— Me espera.
— Ok. Merda... eu odeio celular.
Vincenzo retorna no mesmo instante, alarmado.
— Mensagem?
— Sim. — Arfo ao olhar a tela. — É do Liam.
— Não leia.
— Me solta, Vincenzo! É importante!
— Nada que venha daquele verme é importante, Dess! Lê depois!
Antes que eu reaja, ele arranca o celular da minha mão e o arremessa contra a grama molhada do jardim.
— Filho da puta! — rosno, tentando escapar de seu braço.
Ignorando meus protestos, ele me arrasta até o carro e praticamente me joga no banco do carona.
— Não vai quebrar, Dess. É de última geração. Foi o seu ex-maridinho que te deu. Lembra?
— Não seja ridículo! Esse celular é antigo! Vai molhar, porra!
Ele trava as portas antes que eu consiga sair.
Ofegante, olha pelo retrovisor e arranca com o carro da garagem depressa demais.
Os pneus deslizam pela rua molhada de paralelepípedos.
— Você nem olhou a calçada, Vincenzo! Que desespero é esse!?
— João precisa da gente, Dess! João precisa da gente!
Observo seu perfil enquanto ele dirige.
Tenso.
Pálido.
Assustado.
Mas, poucos segundos depois, ele sorri para mim como se nada tivesse acontecido.
— Tá tudo certo.
— Não tá. Eu sei. Eu sinto.
Ele ri pelo nariz.
— “Eu sei. Eu sinto.” Você sempre fala isso, Dess.
— Não ri de mim. Eu sofro com isso.
— Eu sei. E eu também. — Seus dedos apertam o volante. — Acha que gosto de te ver adoecer aos poucos?
O silêncio pesa entre nós.
Então, sem desviar os olhos da estrada, ele pergunta:
— O que aconteceu na escolinha de natação? Outro barraco?
Viro o rosto lentamente.
— Refaça essa pergunta com respeito e talvez eu responda.
Ele suspira.
— Certo. Desculpa.
Um rápido sorriso surge em meus lábios.
— Agora melhorou.
Acabo gargalhando ao lembrar da cena grotesca envolvendo a mãe de Fernando.
— Tá. Talvez eu tenha exagerado um pouco.
— Você lutou contra quatro mulheres ao mesmo tempo!?
— “Lutar” é uma palavra muito elegante pro que aconteceu ali. Aquilo foi um circo de horrores. Nenhuma delas sabia dar um soco direito. — Passo os dedos pelos cabelos. — Perdi centenas de fios. Um desperdício.
— E mesmo assim venceu.
— Fácil. Quando vão aprender a brigar direito?
Conto toda a confusão enquanto ele escuta em silêncio.
— Chamaram Matteo de assassino, Vincenzo! Um bebê! — exclamo indignada. — Assassino!?
— Besteira. — rebate ele imediatamente. — Como alguém pode afirmar a intenção de uma criança? Matteo queria brincar. Só isso. Ele puxou o garoto porque não queria sair da água.
— Será...?
O semáforo fecha.
Nós nos encaramos.
Os dois pensando a mesma coisa.
Os dois com medo da mesma coisa.
— Tenho medo dele às vezes. — admito num fio de voz. — Ele tem o sangue daquele maldito.
A expressão de Vincenzo suaviza.
— Sangue não define caráter, Dess.
Sua mão encontra a minha.
— Quando eu ainda era anjo, conheci dois irmãos nascidos da mesma mãe. Um era gentil. Pacífico. Cuidava de ovelhas. O outro era consumido pela inveja. Ambicioso. Violento.
Engulo em seco.
— Você tá me contando a história de Caim e Abel?
Ele dá de ombros.
— Eu tava lá. Vi tudo. Foi horrível.
Solto o ar lentamente.
— Cara... você me dá medo.
Ele sorri de canto.
Triste.
Cansado.
Antigo.
— Chegamos.
O carro estaciona diante da casa de João.
Antes que eu abra a porta, Vincenzo segura minha mão e a beija demoradamente.
— Por favor... não se desgaste hoje. Tá bem?
Sustento seu olhar por alguns segundos.
— Tá.
Minto.
Assim que chegamos ao apartamento de João, eu a vejo.
De pé.
Logo atrás de Amanda.
A entidade mantém as mãos espectrais sobre os ombros da irmã grávida enquanto lhe suga energia lentamente.
Amanda, sentada no sofá, acaricia a barriga arredondada antes de nos cumprimentar com um sorriso cansado.
Ela não percebe o que está atrás dela.
Ou talvez perceba.
Talvez já tenha se acostumado.
As emoções das duas se misturam tanto que quase não consigo separá-las.
A morta deseja continuar viva.
A viva já não sabe se deseja continuar existindo.
Quando Amanda se levanta para me abraçar, quase cai.
Seguro seu corpo antes que ela perca o equilíbrio.
Fraca.
Gelada.
Vazia.
A entidade ergue os olhos para mim.
Ela me vê.
Ótimo.
Que inferno maravilhoso.
— Dess? Você tá bem?
A voz de Vincenzo parece distante.
Estou ficando sem ar.
O apartamento inteiro fede a tristeza, remorso e morte.
— Tô. — minto rapidamente. — Você pode conversar com o João enquanto Amanda me mostra a casa? Quero ver o quarto do bebê. Ah... onde tá minha afilhada?
João e Amanda trocam um olhar aflito.
É João quem responde:
— As coisas andam estranhas aqui, Adessa. As crianças precisaram sair daqui por um tempo. Estão na casa da mãe da Amanda.
Ele passa a mão no rosto, exausto.
— Sua afilhada acordava chorando toda noite. Dizia que tinha alguém olhando pra ela no corredor.
Amanda abaixa a cabeça.
— Ela ainda é pequena demais pra entender o que vê.
— Eu não vejo nada. — lamenta João. — Não sinto nada. Sou uma porta.
Vincenzo gargalha imediatamente.
Idiota.
Dou um beijo rápido em sua bochecha antes de empurrá-lo em direção à porta.
— Leva o João pra rua, amor. Amanda e eu queremos privacidade. Coisas de mulher. Você entende, né?
O olhar que ele me lança deixa claro que entende exatamente o que pretendo fazer.
E odeia isso.
— Ah, claro. — resmunga. — Vamos tomar uma cerveja lá embaixo, João. Acho que vi um bar cheio de novinhas perigosíssimas perto daqui.
— Nossa. Que ameaça assustadora. — rebato. — Vai logo antes que uma delas te adote.
Antes de sair, ele segura meu rosto e me beija com força.
Forte demais.
Longo demais.
Como alguém tentando me prender ali.
Quando me solta, ainda mantém a testa colada à minha.
— Não faz merda.
— Tarde demais pra isso, marido.
— Eu vou descobrir. Mais cedo ou mais tarde.
— Então descobre sentado. Porque em pé você já tá me irritando.
Ele ri pelo nariz.
Mas os olhos continuam preocupados.
Muito preocupados.
Assim que a porta se fecha, Amanda suspira profundamente.
— Ele não tá bem.
— Somos duas. — corrige ela com tristeza. — Ou melhor... três.
Sua mão desliza pela barriga.
— Meu filho vai morrer, Adessa.
A entidade atrás dela aperta seus ombros.
Mais forte.
Mais possessiva.
— Se eu não me livrar dela... ele vai morrer.
Sinto um arrepio atravessar minha espinha.
— Dela?
Amanda move os olhos lentamente para trás.
Na direção da irmã morta.
— Você vê ela também?
— Vejo.
— Quem é ela?
Amanda fecha os olhos por alguns segundos antes de responder:
— Minha irmã.
Um silêncio pesado domina a sala.
Então ela completa, quase num sussurro:
— Minha irmã gêmea.
Pisco algumas vezes.
Processando a informação.
— Aaaah.
Cruzo os braços.
— Tá. Isso definitivamente piorou tudo.
Amanda me conta a complicada história envolvendo a irmã, nascida apenas minutos antes dela.
Amigas.
Rivais.
Inseparáveis.
Amanda diz ter sido a mais calma das duas. A mais racional. A mais madura.
Mas ainda existe ressentimento escondido em cada palavra que escolhe.
Ela se casou com João, antigo namorado da irmã, apenas duas semanas após o casamento da morta.
Uma punhalada limpa.
Cruel.
Definitiva.
Enquanto Amanda fala, escuto outra versão da história.
A da morta.
Sentada ao meu lado.
— Amanda roubou João de mim. — sussurra ela com tristeza. — Ela sempre soube ser a mais bonita. A mais desejada. Não o amava. Só queria provar que podia tirá-lo de mim.
Amanda continua falando, sem perceber a presença da irmã ao meu lado.
As duas vozes começam a se misturar dentro da minha cabeça.
— Depois disso, eu adoeci. — lamenta a morta. — Passei a odiar espelhos. Minha imagem parecia errada. Distorcida. Então comecei a vomitar tudo o que comia.
Ela abaixa os olhos.
— Ninguém percebeu.
Ou fingiram não perceber.
— Amanda era a favorita. A caçula. Mesmo que por poucos minutos.
Sinto a dor daquela mulher atravessar meu peito como gelo.
— Apesar de tudo... eu amava minha irmã. O sofrimento dela sempre foi meu também.
Amanda leva as mãos à barriga enquanto a morta continua:
— Eu não quero vingança. Juro. Só não consigo me desligar dela.
A temperatura da sala parece cair.
— Engravidei de um homem cruel. Narcisista. Violento. Ele destruiu o pouco que restava da minha autoestima.
Sua voz falha.
— Meu filho era indesejado por ele. Mas não por mim.
Fecho os olhos por um instante.
Consigo sentir.
A dor.
O medo.
O desespero daquela criança lutando dentro do ventre.
— Ele me envenenou antes do nascimento do bebê.
Minha respiração falha.
— Meu filho tentou sobreviver. Eu sentia os pezinhos chutando minha barriga até o fim.
Amanda começa a chorar sem entender por quê.
Talvez ela esteja sentindo tudo outra vez.
Talvez sempre tenha sentido.
— Meu bebê desceu ao túmulo sozinho. — lamenta a morta. — E eu continuo procurando por ele na escuridão.
Ela então encara a barriga da irmã.
Faminta.
Esperançosa.
Desesperada.
— Talvez ele tenha voltado através dela.
Meu estômago revira.
— É por isso que não consigo partir.
A entidade finalmente olha diretamente para mim.
— Você pode me ajudar?
Pisco algumas vezes.
— Eu?
Antes que ela responda, Amanda segura minhas mãos em desespero.
— Sim, Adessa! João disse que você tem um dom! Afasta ela daqui! Pelo amor de Deus, salva meu filho!
A morta observa a irmã em silêncio.
Esperando.
Sempre esperando.
— Ela quer meu bebê! — chora Amanda. — Não deixa ela levar meu filho!
Olho alternadamente para as duas.
A viva.
A morta.
As duas destruídas.
As duas culpadas.
As duas sofrendo.
Que maravilha. Mais um drama familiar sobrenatural pra minha coleção. Porque claramente eu não tenho problemas suficientes.
— Você se arrependeu? — pergunto calmamente.
Amanda empalidece.
— Do quê?
— De ter roubado João da sua irmã.
O silêncio que invade a sala é brutal.
A morta prende a respiração ao meu lado.
Esperando a resposta que talvez esteja aguardando há anos.
Amanda começa a chorar.
De verdade agora.
Sem máscaras.
— Eu não o amava quando me casei com ele.
A entidade fecha os olhos lentamente.
— Fiz aquilo pra machucá-la.
Uma lágrima escorre pelo rosto da morta.
— Mas hoje eu amo João. Amo muito. E me arrependo todos os dias pelo que fiz.
A entidade leva a mão gelada ao peito.
Como se aquela resposta finalmente tivesse alcançado algo dentro dela.
— Ela já sabe. — murmuro. — Ela ouviu tudo.
Amanda arregala os olhos.
Aproximo-me lentamente.
— Escuta. Precisamos agir rápido antes que o bebê enfraqueça ainda mais.
A morta continua ao meu lado.
Silenciosa.
Exausta.
— Você vai se afastar dela agora. Não vai?
A entidade me encara por longos segundos.
Então olha novamente para a barriga da irmã.
Com amor.
Com dor.
Com saudade.
E isso é o pior de tudo. Porque monstros são fáceis de odiar. Mães sofrendo não são.
— Sim. Você vai tentar encontrar meu filho?
Movendo lentamente a cabeça, assumo aquele compromisso.
A entidade sorri pela primeira vez.
Um sorriso cansado.
Maternal.
— Ela precisa ir também. — murmura ao olhar para Amanda. — Juntas na vida e na morte.
Amanda empalidece imediatamente.
— “Juntas na vida e na morte”...?
Ela leva a mão à boca.
— Quem te falou isso?
Permaneço em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Eu ouvi.
Amanda começa a chorar.
— Era o nosso lema desde crianças.
Olho para a irmã morta.
Ela apenas observa Amanda em silêncio.
Sem raiva.
Sem rancor.
Só tristeza.
— Vamos precisar contar tudo ao João. — aviso. — Não vou ao cemitério sozinha com você nesse estado. Você está quase entrando em trabalho de parto.
Amanda enxuga as lágrimas rapidamente.
— Sem problema. Ele vai comigo.
Sua voz falha.
— Eu sei onde enterraram meu sobrinho.
A entidade fecha os olhos.
— O marido dela separou os dois depois da morte.
Amanda abaixa a cabeça.
Culpada.
— Foi uma crueldade.
Então ergue os olhos para mim.
— Eu vou corrigir isso. Prometo.
Aproximo-me lentamente da irmã morta.
Ela parece menor agora.
Menos pesada.
Menos presa.
— Eu vou com vocês. — prometo. — Com vocês duas.
E fomos.
João.
Amanda.
Vincenzo.
A irmã morta.
E eu.
Que grupo absolutamente normal para uma terça-feira qualquer.
Ainda hoje me emociono ao lembrar daquela cena.
No colo de uma senhora negra de sorriso doce, tão acolhedor quanto o de Doc, um bebê chorava sem parar perto da entrada do cemitério.
Assim que a irmã morta o viu... tudo mudou.
Ela congelou.
Depois começou a tremer.
E então o reconheceu.
O filho.
Seu filho.
A entidade caiu de joelhos diante daquela criança enquanto chorava desesperadamente.
Mesmo morta... ainda era mãe.
Enquanto isso, o restante de nós tentava convencer o coveiro a abrir o túmulo e permitir que mãe e filho fossem enterrados juntos.
Dois dias depois, João me enviou uma mensagem no celular que consegui salvar da grama molhada.
Milagre moderno. Obrigada, tecnologia.
“Não sei como agradecer pelo que fez por nossa família. Amanda e o bebê estão ótimos. Minha filha voltou pra casa sem medo. Somos felizes outra vez graças a você.”
Sorrindo, respondo imediatamente:
“Se quiser fazer algo por mim, ore por Vincenzo e pela nossa família.”
Encosto a cabeça na parede da recepção da academia.
— Deus sabe que vamos precisar.
Então me lembro.
A mensagem de Liam.
Ainda não lida.
Meu coração falha.
Devagar, olho ao redor da sala vazia antes de abrir a conversa.
Leio.
O mundo parece inclinar sob meus pés.
Sento no chão antes mesmo de perceber.
Não.
Não.
Não.
Leio outra vez.
“Passando para agradecer por ter amamentado meu filho com seu leite.”
Minha visão embaça.
“Agora Sean, Matteo e você têm algo em comum.”
Sinto náusea.
“Não preciso dizer o que é. Certo?”
Meu peito aperta violentamente.
“Já que não posso tocar em Sean, penso em oferecer Cassie em seu lugar.”
Paro de respirar.
“O que acha?”
A assinatura me destrói por completo.
“Adessa Love.”
O celular escorrega de minhas mãos.
— Adessa?
Ergo os olhos lentamente.
Aninha está diante de mim.
Assustada.
— Você tá pálida.
Levanto com dificuldade, apoiando-me na bancada.
— Cancela a aula.
Minha voz sai falha.
Quase irreconhecível.
— Adessa, o que aconteceu?
— Cancela.
Puxo o ar pela boca enquanto caminho em direção à saída.
Aninha segura meu braço imediatamente.
— Você não pode dirigir assim! Vou ligar pro Vincenzo!
— NÃO.
Forte demais.
Rápido demais.
Ela se assusta.
Passo a mão no rosto.
— Não chama ele. Por favor.
Aninha toca minhas mãos.
Geladas.
— Meu Deus...
— Só... avisa às alunas.
Ela hesita antes de concordar.
— Seu carro tá do outro lado da rua, amiga.
Assinto sem olhar para trás.
E odeio meu dom.
Odeio.
Porque mesmo à beira de desabar, ainda consigo sentir o medo escondido dentro dela.
A culpa.
A dúvida.
O pensamento insistente sobre aborto.
Como se o sofrimento alheio nunca me deixasse em paz.
Como se eu tivesse nascido condenada a carregar dores que não são minhas.
— Eu sei... eu só preciso... de ar...
Com o celular escondido no bolso do casaco, puxo o gorro sobre a cabeça e calço as luvas às pressas antes de sair andando sem rumo.
O vento frio corta meu rosto.
Minha mente, porém, dói mais.
Por que Liam me enviaria aquilo?
Se quisesse matar Cassie, já teria feito.
Ele sabe que Sean não é seu filho.
Então por quê?
Meu peito aperta violentamente.
Seria possível...
Não.
Não.
Meu leite não fez mal a Sean.
Meu leite é bom.
Meu filho é bom.
Eu não sou uma pessoa ruim.
Vincenzo sempre diz que sangue não define caráter.
— E ele está certo.
Paro imediatamente.
Meu coração dispara.
Viro-me assustada ao encontrar um homem parado alguns metros atrás de mim.
Desconhecido.
Sorridente.
Bonito até demais pro meu gosto. O que normalmente significa problema.
— Quem é você? — rosno. — Não toca em mim.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Muitas perguntas.
Então estende a mão em minha direção.
Enfio imediatamente as duas mãos dentro do casaco.
Ele ri.
— Não tenha medo. Você não sentiria nada ao tocar em mim.
Recuo mais um passo.
— Como me ouviu?
— Eles apagam nossas memórias de vidas passadas. Melhor assim. Somos livros com páginas em branco.
Inclino discretamente o corpo, preparada pra acertar um chute bem dado entre as pernas dele caso avance mais um centímetro.
O desconhecido percebe.
E começa a rir ainda mais.
— Calma, mocinha. Isso vai doer.
— Quem é você, filho da puta?
— Ninguém.
Ele sorri com simplicidade irritante.
— E minha mãe não é puta.
Reviro os olhos.
Ele então inclina levemente a cabeça.
Seu semblante muda.
Fica sério.
— Só queria que soubesse que você não está sozinha.
O frio parece aumentar ao nosso redor.
— Quando a Escuridão chegar... estaremos ao seu lado.
Meu estômago afunda.
— “Nós” quem?
Ele já está desaparecendo.
Literalmente desaparecendo.
— OS GUARDIÕES! — sua voz ecoa pela rua vazia.
— Ah, pelo amor de Deus... — resmungo passando as mãos no rosto. — Essa merda de guardião de novo.
Olho ao redor.
Nada.
Só vento.
Só frio.
Só gente esquisita surgindo do além pra acabar com minha saúde mental.
— Dess?
Congelo.
Viro-me rapidamente.
— Vincenzo?
Ele me encara como se eu tivesse enlouquecido.
O que, sinceramente, começa a parecer uma possibilidade razoável.
— O que você tá fazendo aqui?
Ele franze a testa.
— Eu trabalho aqui, Dess.
Ah.
Verdade.
Aparentemente meu cérebro resolveu pedir demissão hoje.
Antes que eu responda qualquer coisa, Vincenzo me abraça forte.
Forte demais.
Como se tivesse medo de me perder em plena rua.
— O que aconteceu, amor? Seu coração tá acelerado.
Fecho os olhos ao sentir seu cheiro.
Casa.
Proteção.
Desespero.
— Culpa do guardião.
— Do quê?
— Aquele maluco. Filho da puta esquisito. Surgiu do nada querendo apertar minha mão, falou um monte de coisa apocalíptica e evaporou.
Vincenzo fica imóvel.
Literalmente imóvel.
— Que guardião, Dess?
— Não sei! Todo mundo fala dessa merda como se eu devesse entender!
Ele segura meu rosto entre as mãos.
Preocupado.
Tenso.
Quase assustado.
— Por que veio até aqui?
Engulo em seco.
— Eu precisava respirar.
Minha voz falha.
— Depois da mensagem do Liam... eu passei mal.
O semblante dele escurece imediatamente.
— Que mensagem?
No estacionamento da Round 666, eu me agarro a ele como se o chão pudesse desaparecer sob meus pés.
Ele olha rapidamente para o letreiro da academia.
— Eu nunca gostei desse nome.
— Não começa.
— “Round 666”. — ele resmunga. — Isso tinha que parecer uma ideia ruim pra alguém.
— Era só um nome, Vincenzo.
Ele acaricia meus cabelos por baixo do gorro.
— Com você nunca é só um nome, Dess.
Fecho os olhos.
Exausta.
— Me leva pra casa?
Minha voz sai pequena.
Frágil.
— Eu quero ver meus filhos.
O olhar dele suaviza imediatamente.
E ali está o Vincenzo verdadeiro outra vez.
O homem apavorado tentando salvar o pouco que ainda resta da própria família.
— Ok. — ele sussurra contra minha testa. — Eu vou te levar pra casa.
— É tudo o que ele quer, Dess!
— Não se exalte, filho. Ela não tem culpa. Não sabe de nada.
— Saber do quê, Enrico? O que vocês estão me escondendo?
— Não é justo que ela não saiba.
— Do quê, Celeste? Fala comigo! Todo mundo aqui sabe de alguma coisa que eu não sei!?
Transtornado, Vincenzo avança em minha direção.
— Eu te disse pra não ler nada que ele te envia! Nada! Por que não bloqueou aquele desgraçado!?
— Não fala assim comigo! Eu sou a mãe dos teus filhos! E não sou idiota! Por que ele quis me provocar, Vincenzo!? Fala!
— Mais brigas? — lamenta Antoine ao sair do quarto. — Vocês estão entregando munição ao adversário. Parabéns.
— Sua mãe tá dando ouvidos àquele verme!
— Mentira! Eu li uma mensagem que nem foi respondida! Eu sei que ele tá me provocando, só não sei por quê!
— Porque, se você fizer qualquer coisa pra salvar Cassie e Sean, meu pai se ferra.
— Antoine, não!
O grito de Vincenzo ecoa pela sala.
Andando de um lado para o outro, ele chuta as almofadas espalhadas pelo chão. O descontrole em seus olhos me faz recuar no sofá. Pela primeira vez em muito tempo, eu realmente acho que ele pode me machucar.
— NUNCA! — ele berra, apontando o dedo para meu rosto. — TUDO O QUE EU QUERO É TE PROTEGER E CONTINUAR AQUI!
No meu colo, Matteo começa a chorar.
— Papai mau... não podi... ai ai...
— Não pode. — sussurro em seu ouvido, abraçando-o forte enquanto meus próprios olhos se enchem de lágrimas.
Antoine, ajoelhada no tapete, encara o pai sem medo.
— Não vai contar pra ela? Porque, se você não contar, eu conto.
— Jesus... — lamenta Celeste. — Precisamos nos acalmar. Precisamos orar.
— Concordo, meu amor. — Enrico segura suas mãos. — Concordo.
Sentados à mesa de jantar, os dois fecham os olhos e começam a orar em silêncio enquanto Vincenzo despenca no chão da sala, cobrindo os olhos com o antebraço.
Devastado.
Derrotado.
Deixo Matteo no cercadinho e engatinho até ele.
Um beijo em sua testa.
Suas mãos afastam meu rosto imediatamente.
— Fica longe. Eu falhei. Fiz merda. Agora vou ter que pagar por isso.
Deito ao seu lado.
— Estamos juntos, amor. Nada pode nos separar se o Criador não quiser.
Ele ri sem humor.
Um som triste.
Quebrado.
— Eu burlei a lei do “Seu Criador”, Dess.
Erguendo o tronco, ele se recosta à parede. Enxuga as lágrimas com a barra da camisa antes que eu possa tocá-lo.
— Errei de novo. Por um bom motivo... mas errei.
Sento ao seu lado.
— E daí? “Seu Deus” é misericordioso. Você sempre me disse isso. Ele não julga como os homens julgam. O que você fez de tão terrível, Vincenzo? Por que tá ficando tão violento?
— Não quero falar sobre isso.
— Então eu falo.
— Antoine! — rosna ele. — Eu não quero falar sobre isso! Me respeita!
— Eu não tenho tempo, pai! Você sabe disso!
— Parem! Agora!
O grito escapa de mim junto com o choro.
— Você ainda vai viver muito, Antoine! Nunca mais fala isso!
— Ok. — ela murmura, aproximando-se de mim. — Fica calma, mãe. Seu coração...
— Meu coração tá doendo por vocês. — soluço. — E, se ninguém me contar a verdade, eu vou atrás do Liam. Tenho certeza de que ele vai me contar.
Outro acesso de fúria.
Antes que eu perceba, Vincenzo crava a mão em meu pescoço.
— NÃO SE ATREVA A CHEGAR PERTO DELE, DESS! EU FIZ O QUE FIZ PELA SEGURANÇA DE VOCÊS!
— Pai! — Antoine implora, ajoelhada diante dele. — Para! Esse não é você!
— Solte o pescoço dela, filho.
A voz firme de Enrico atravessa a sala.
Sua mão segura o pulso de Vincenzo.
— Solte agora. Ela precisa respirar.
Os dedos afrouxam.
Eu puxo o ar desesperadamente.
Vincenzo me encara horrorizado.
Como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo.
— Perdão... — sussurra ele, acariciando as marcas vermelhas em meu pescoço. — Dess... perdão... eu tô com medo de mim mesmo.
Seguro seu rosto entre minhas mãos.
— Não tenha. Eu não vou me aproximar de Liam. Não vou chegar perto de Sean nem de Cassie. Não vou te entregar nas mãos da Legião.
Ele fecha os olhos.
Vencido.
— Você viu.
Não é uma pergunta.
— Vi. Você uniu seu sangue ao dele. Selou um pacto pra impedir que a Legião invadisse nossa casa. Eu vi tudo.
Ele cobre o rosto com as mãos trêmulas.
— Não era pra você saber.
— Era sim. Você se arriscou por mim. Por nós.
Ele desaba outra vez.
— Eu tentei...
— Eu sei.
Ergo-me lentamente do chão.
Uma brisa morna atravessa a sala.
Até Matteo para de chorar.
— Escuta bem o que eu vou dizer, Vincenzo.
Todos me observam em silêncio.
— Não se entregue ao mal que existe dentro de você. Essa é a maior brecha que eles têm. Você me tirou da escuridão. Eu não vou deixar que você mergulhe em outra por minha causa.
Seus olhos encontram os meus.
Perdidos.
Assustados.
Apaixonados.
— Você não caiu pra se vender. Liam é um covarde. Um medíocre que teme Lúcifer, mas o deseja ao lado da Legião.
Dou um passo em sua direção.
— Um bando de anjos falidos que precisa de você porque só você possui influência sobre o Anjo Caído.
Silêncio.
Pesado.
Sagrado.
— Lúcifer te deseja, Vincenzo. Eu já tinha te dito isso. Você não quis ouvir.
Estendo minha mão.
— Mas chega de medo. A partir de agora, nós vamos viver em paz. Vamos mostrar a eles quem somos. De onde viemos. E do que somos capazes por nossa família.
Minha voz falha.
Mesmo assim, sorrio.
— Nossa família. Unida. Pra sempre.
Envergonhado, receoso, ele segura minha mão e se deixa erguer.
Quando me abraça, eu sinto.
O medo.
O verdadeiro medo.
Meu homem teme a Escuridão que se aproxima.
Eu não.
Eu já estive lá.
— Fica longe deles, Dess — sussurra ele contra meu cabelo. — Eu não quero te perder.
Fecho os olhos.
— Não vai.
Minto diante do inevitável.
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