CAPÍTULO 47 - PRIMEIRAS GRANDES PERDAS
Após aquela noite, tivemos uma trégua.
Nada de “Legião”.
Nada de Cassie e Sean.
Nada de Lúcifer, Liam ou pactos.
Apenas nossa família tentando existir em paz.
Uma paz estranhamente frágil.
Antoine e Leo estavam mais grudados do que nunca, embora não se tocassem como namorados comuns. Ele beijava sua bochecha. Ela se aninhava em seu colo enquanto assistiam animes, ambos perfeitamente satisfeitos daquela maneira.
O que me fazia questionar por que diabos Antoine reclamara tanto de ser vista como irmã mais nova se, agora, finalmente poderiam namorar.
— É assim que eles namoram, Dess.
— Cacete! Não faz isso! — Assusto-me quando Vincenzo surge atrás de mim, rindo da minha reação.
— Fica espionando pela fresta da porta e ainda quer paz?
— Não estou espionando. Estou observando. É diferente.
Recostada à parede, solto o ar devagar.
— Eles parecem felizes.
— Estão.
Vincenzo apoia as mãos na parede, prendendo-me entre elas.
Finjo não sentir o cheiro cítrico de sua pele.
Finjo não perceber sua proximidade.
Finjo muitas coisas quando se trata dele.
— Eles são diferentes de nós, Dess.
— Diferentes como?
— Antoine não precisa de contato físico da mesma maneira que outras pessoas.
Sua voz baixa perto demais do meu ouvido.
— E o Leo...
— O que tem o Leo?
— Também voltou diferente.
Franzo a testa.
— Diferente como?
— Antoine me contou que, depois da tentativa de suicídio... quando ele morreu por alguns minutos...
Meu estômago se contrai.
— Vincenzo...
— ...ele retornou com certas aptidões.
— Aptidões?
— E, aparentemente, por amar Antoine, ele passou a ser protegido pelos “Iluminados”.
Fecho os olhos por um instante.
— Ah, claro. Perfeito. Temos “Superiores”, “Guardiões”, “Legião”, “Iluminados”...
Ergo as mãos, exasperada.
— Isso virou o quê? Um campeonato sobrenatural?
— Fala baixo. Eles vão ouvir.
— Já ouvimos, mãe! — grita Antoine da sala, a boca cheia de pipoca.
Endireito a postura imediatamente quando ela abre a porta.
— Eu estava só passando por aqui.
— E eu apareci do nada — completa Vincenzo, divertido.
— De boas, mãe. Tá tudo certo. — Antoine sorri antes de completar: — Por enquanto.
Meu sangue gela.
— Como assim “por enquanto”?
Invado a sala no mesmo instante.
— Vocês estão escondendo alguma coisa de mim?
— Nada, tia — responde Leo, sugando refrigerante pelo canudo. — Antoine gosta de criar suspense em tudo.
— Tô começando a perceber.
— Relaxa. — Antoine joga pipoca na boca. — Vocês dois é que estão precisando sair um pouco.
— Não entendi.
— Apoio totalmente — comenta Vincenzo.
Viro-me para ele imediatamente.
— Ninguém pediu seu apoio.
— Viu, mãe? Você tá surtando por nada. Vai passear um pouco.
Leo gargalha diante da insinuação de Antoine.
Observo os dois em silêncio.
Nada restara do garoto franzino, sombrio e revoltado que conheci na recepção do Round 666 meses atrás.
O amor realmente muda as pessoas.
— Vai por mim, mãe — insiste Antoine, aconchegada ao peito de Leo. — Vocês precisam de um tempo juntos. Longe daqui.
— Era só o que me faltava...
Resmungo, cruzando os braços.
— Uma adolescente dando conselhos amorosos.
— Tô tentando salvar esse casamento, querida — rebate ela, séria demais para alguém com pipoca na mão.
Leo ri alto.
— E ela tá certa.
— Sai da minha frente. Vocês dois viraram uma seita emocional.
Empurro Vincenzo com a lateral do corpo ao passar por ele.
Antes de sair da sala, porém, escuto Leo cochichar:
— Vai lá, tio.
Vincenzo obedece imediatamente.
Claro que obedece.
Fechando a passagem do quarto com o próprio corpo, ele ergue uma sobrancelha e pergunta:
— Quer jantar com seu marido, Dess?
— Quando encontrar meu marido, avisa que já faz três semanas desde a última vez que ele me tocou.
O sorriso de Vincenzo desaparece.
— Dess...
— Me solta.
Entro no quarto antes que ele veja meus olhos marejados.
Não tenho tempo de fechar a porta.
Ele me alcança.
O impacto do meu corpo contra o colchão faz meu coração disparar.
— Não me provoca desse jeito.
Há algo errado em sua voz.
Algo escuro.
Algo que não reconheço.
Ergo os olhos quando ele arranca a própria camisa pela cabeça.
— Vincenzo...
— Você faz ideia do que está fazendo comigo?
Tento me afastar.
Ele me impede.
O vestido rasga.
Minhas mãos tremem.
— Olha pra mim.
Por um instante, penso que ele vai parar.
Mas não para.
E é isso que me destrói.
Porque, pela primeira vez em anos...
eu sinto dor causada por ele.
Dor que não sentia desde a época do California e do contato com clientes repulsivos.
[...]
Debaixo da água quente do chuveiro, abraço meu próprio corpo enquanto choro em silêncio.
Fecho os olhos e volto ao apartamento pequeno.
Às brigas idiotas porque não havia água morna.
Aos dias comuns.
Dias normais em uma vida normal.
Dias em que Vincenzo jamais teria me tocado daquela maneira.
— Dess...
Sua voz atravessa o vapor do banheiro.
— Fica longe de mim.
O desespero em seus olhos quase me quebra.
— Eu te machuquei?
Engulo em seco.
— Sim.
— Onde?
Minha garganta arde.
— No corpo.
Ergo os olhos para ele.
— E na alma também.
O silêncio que nasce entre nós parece pior do que qualquer grito.
— Sai daqui.
Secando as lágrimas, aperto a toalha contra o corpo.
— Me espera lá fora. Por favor.
Vincenzo permanece imóvel por alguns segundos.
Perdido.
Como se também não reconhecesse a si mesmo.
— Ok...
Sua voz falha.
— Eu só... não sei o que tá acontecendo comigo, Dess.
Pela primeira vez naquela noite, ele parece assustado.
Não agressivo.
Assustado.
— Mas não me deixa. Por favor.
Fecho os olhos por um instante.
Mesmo destruída...
ainda o amo.
Talvez esse seja meu maior problema.
— Não vou.
Procuro outra camisola dentro do armário enquanto Vincenzo permanece parado perto da porta, silencioso.
Pequeno.
Quase culpado.
Então ele pega um dos meus vestidos.
O azul.
Seu preferido.
— Vamos sair daqui?
Ergo os olhos.
— Pra onde?
Vincenzo tenta sorrir, embora pareça à beira do abismo.
— Pra qualquer lugar.
Aproxima-se devagar.
— Bem longe disso tudo.
Seus dedos acariciam o tecido do vestido.
— Só você e eu.
Meu coração aperta.
Porque, apesar de tudo...
ainda somos nós.
— Vamos.
E sorrio.
Mesmo sem saber se ainda existe algum lugar no mundo capaz de nos salvar.
Jantamos numa pequena cantina, longe de tudo.
E de todos.
Éramos os únicos clientes naquela madrugada fria e chuvosa.
Ainda ressentida, observo a toalha quadriculada em vermelho e branco cobrindo nossa mesa enquanto tento não pensar na última vez em que estivemos na Itália.
Tento não pensar em Cassie.
Em sua alegria absurda durante a lua de mel.
Tento não pensar em Aiden dançando comigo sob a chuva da Toscana.
A música alta me consola.
Vincenzo não consegue ouvir meus pensamentos.
— Uma moeda pelos seus pensamentos, esposa.
Seus olhos tristes brilham sob a luz da vela.
— E, definitivamente, você não estava pensando em mim.
— Como pode saber? A música tá alta.
— Seu olhar mudou.
Solto uma risada breve.
— Não seja patético.
Seu sorriso desaparece.
— Eu mudei, Dess.
O peso daquela frase se acomoda entre nós.
— E nós dois sabemos disso.
Desvio os olhos.
— Eu te machuquei hoje.
— Não quero falar sobre isso.
— Mas eu preciso.
Vincenzo segura minhas mãos sobre a mesa.
— Sinto minha compulsão voltando.
Sua voz falha.
— Eu jamais teria feito aquilo com você antes.
Ergo lentamente a taça de vinho.
— Então me responde uma coisa.
O garçom despeja vinho em silêncio.
— Por que tá escondendo a verdade de mim?
Esvazio a taça num gole.
— Você não confia mais em mim?
Vincenzo permanece imóvel.
Então faço a pergunta que realmente o atinge.
— Essa violência veio de qual época, marido?
Inclino a cabeça.
— Antes ou depois de Cristo?
Seus olhos escurecem.
— Dess...
Ergo o braço antes que o garçom volte a encher minha taça.
— Vamos facilitar a vida um do outro, querido?
Sorrio para o rapaz.
— Deixa a garrafa aqui.
— Dess, ele está trabalhando.
— Exatamente.
Seguro a garrafa antes que o garçom a afaste.
— Quero poupá-lo do esforço.
Vincenzo ri baixo.
Um simples olhar dele faz o rapaz desistir imediatamente.
Espero o garçom se afastar antes de resmungar:
— Você é assustador.
Encho minha taça novamente.
— Manipula pessoas como se respirasse.
Inclino-me sobre a mesa.
— Foi assim quando caiu?
Vincenzo endurece.
— Você tá bêbada.
Ele toma a garrafa da minha mão e bebe diretamente da taça.
— E eu me recuso a discutir com bêbados.
— Nem com loucos?
O silêncio dele confirma mais do que qualquer resposta.
Ergo os olhos devagar.
— Em quem mais você bateu além de Sweet?
Vincenzo fecha os olhos.
— Para.
— Quem mais você machucou?
— Eu trouxe você aqui pra fugirmos disso tudo.
Dou de ombros.
— Então vamos fingir normalidade.
Ele me observa longamente.
Como se estivesse cansado de existir.
Então a música muda.
Vincenzo estende a mão.
— Dança comigo?
Solto uma risada desacreditada.
— Essa nem é a nossa música.
Seu olhar encontra o meu.
Triste.
Faminto.
Quase perdido.
— Nós temos músicas demais, Dess.
E, pela primeira vez naquela noite...
eu não sei qual delas ainda pertence a nós.
— Vem. — De pé, ele me oferece o braço enquanto a música ecoa pela cantina quase vazia. Seus olhos me observam com uma ternura cansada. — Eu sou e sempre vou ser o seu grande amor, Dess. Seu amante.
Afogo minhas suspeitas em mais um gole de vinho e permito que ele me conduza até a pequena pista de dança. Apoio a cabeça em seu peito e inspiro o perfume cítrico que sempre o acompanha.
Sorrio sem querer.
Lembro da primeira vez em que dançamos juntos, anos atrás, na casa de praia. Vincenzo dizia estar fugindo de Lúcifer. Dizia ter medo de um pacto.
Outra mentira.
Fecho os olhos.
Vincenzo… por que tantas mentiras?
— Para de pensar. — Sua boca encontra a minha num beijo lento. — Só dança comigo, esposa.
Arfo contra seus lábios.
— Me perdoa por hoje? — Sua voz sai baixa, quase vulnerável.
Ergo o rosto devagar.
— E se eu pedir pra repetir?
Os olhos azuis escurecem imediatamente.
— Dess…
— Como assim, mãe? Você caiu e bateu os olhos no chão?
— Exato. — Minto sem hesitar.
Como explicar à família reunida à mesa que fui usada de maneira brutal pelo pai dos meus filhos… e que, em algum momento confuso e doente daquilo tudo, eu deixei?
— Consentimento não. — A voz de Vincenzo roça meu ouvido. — Você pediu. Não eu.
— Pai! — Antoine quase engasga.
— O quê?
— Explica isso direito! Tem a ver com a Legião?
— Não, filho. — Minto outra vez. — Foi um tombo da moto. Só isso.
Leo, sentada ao lado de Antoine, intervém antes que ele continue.
— Relaxa. Eles estão bem. É isso que importa.
— Você tá me zoando?
— Não, bebê.
Antoine congela.
— “Bebê”???
— Para, mãe! — Gargalho imediatamente ao vê-lo esconder o rosto entre as mãos.
— Isso não tem graça, Leo. Eu te pedi pra não…
— Desculpa. — Ela ri também. — Foi mal.
— Dess! Para de rir!
— Enrico também riu e ninguém brigou com ele!
— Eu??? — As bochechas de Enrico ficam rosadas. — Eu não ri do “bebê”. Ri da sua gargalhada!
Isso piora tudo.
Dou risada junto com ele enquanto Antoine ameaça abandonar a mesa dramaticamente.
Aos poucos, porém, o riso vai morrendo dentro de mim.
Olho para Antoine.
Minha menina.
Minha menina que agora pertence ao mundo. Que ama. Que constrói algo longe da dor que eu conheci.
Minha voz falha antes mesmo de terminar a frase.
— É que… me pegou de surpresa. — Meus olhos ardem. — Você era o meu bebê.
Antoine suspira, já arrependida da reação exagerada.
Mas não consigo parar.
— E agora… — Rio chorando. — Agora você é o bebê do Leo.
Leo começa a rir.
Vincenzo abaixa a cabeça, escondendo um sorriso cansado atrás da taça de vinho.
E Antoine, completamente derrotada, apenas fecha os olhos.
— Isso não é justo.
— Caraca, mãe! A parada é comigo e você é quem chora!?
— Eu sou sensível, filha.
— Não, Dess. Você gosta de chorar. Admita.
— Vá à merda.
— Mamãe “dodói”. Papai feio.
— Eu??? Eu não fiz nada, filhão!!!
Com Matteo em meu colo, faço-o comer outra colherada de banana amassada enquanto, perdida em pensamentos, repito:
— Papai feio.
— Mãe, não chora. É só um apelido. Ele me chama de “bebê” porque me acha nova demais.
— E você é, filha.
Até hoje não sei quantos anos Antoine tem ao certo.
— Pode ter crescido, mas ainda é inocente como a minha menina. A menina que encontrei no parque.
— Essa história de novo, Dess? — Outra gargalhada de Enrico ecoa pela mesa antes de Vincenzo debochar: — “Já deu, burro. Já deu.” Não há ninguém daqui ao Japão que não conheça essa história.
— É bom que saibam mesmo. Foi a mim que ela procurou. Não foi por você, por Enrico, nem por Celeste. Foi por mim. Devo ter alguma importância.
— Tem muita, tia.
Leo termina o café às pressas enquanto se levanta da cadeira para trabalhar. Por um instante, quase consigo enxergar a vida que Antoine e ele poderiam ter se o mundo fosse menos cruel.
— Não chora, tia. — Ele beija o topo da minha cabeça antes de sussurrar: — Vou precisar da sua força. Fica forte.
— Quando!?
Um sorriso triste atravessa seu rosto antes que ele se despeça da mesa.
— Volta!
— Fica quieta, mulher. — ralha Vincenzo, espalhando manteiga no pão. — Você me confunde. Não sabe se ri ou se chora. Está sempre farejando alguma desgraça… alguma trama sórdida.
— Cala a boca, cretino. Ele é o namorado da nossa filha.
— Não é, mãe. Nós somos amigos. Amigos que se amam muito.
— Interessante. — comenta Enrico. — E por que não estão namorando?
— Porque esse tipo de amor me enfraqueceria, vovô. Leo pensa da mesma maneira. Nós dois precisamos permanecer atentos a qualquer sinal. Ninguém é confiável até que prove o contrário.
— Nossa. Isso me deu medo. — brinca Celeste, acuada.
— É bom mesmo. — replica Antoine num tom perigosamente calmo.
O silêncio que cai sobre a mesa poderia ser cortado com uma faca.
Então Matteo ergue o rostinho para mim e pergunta:
— Mamãe… neném “meguio”?
Abraço-o com força.
— Não, filho. Hoje não tem mergulho. Culpa daquela vaca. Semana que vem a gente volta pra natação, tá?
— Vaca faz “muuuh”!
As gargalhadas explodem pela mesa. Até Vincenzo ri.
Mas o riso morre nos meus lábios ao perceber Antoine observando Celeste com atenção demais.
O que aconteceu agora?
O jogo virou no segundo tempo?
— Menos, Dess. Menos.
— Vá pro inferno.
— Prefiro ir trabalhar. — Um beijo em minha boca e Matteo, enciumado, solta um:
— Eca! Que mojo!
Ajoelhado, rindo de felicidade, Vincenzo o beija na bochecha e, antes de partir, declara:
— Papai te ama, filho. Você é o presente mais valioso que eu poderia ter recebido de Deus. E eu nem mereço...
Emocionado, ele tenta não chorar quando Matteo volta a nos surpreender com seu crescente vocabulário.
— Neném ama papai feio.
Vincenzo engole em seco. Enrico deixa cair uma lágrima. Antoine e eu encaramos Celeste que, parecendo desconfortável, comenta:
— Nosso neto está cada vez mais parecido com o pai. Não é, Enrico?
— Discordo. Ele é lindo e espirituoso como a mãe.
Tocando em sua mão, agradeço:
— Te amo, Enrico, mas ele é a cara do pai.
Uma repentina visão me atravessa e retiro minha mão num gesto abrupto. Ainda assustada, ergo-me da cadeira e entrego Matteo a Antoine. Catando os cacos dos copos que derrubei da mesa, tento não acreditar no que vi.
— Não precisa, Enrico...
Seus olhos que riem me fazem chorar.
— Obrigada. Obrigada por tudo. Eu nunca mais vou te esquecer.
— Nem eu, meu anjo. Nem eu.
Entro no quarto de Antoine. Em frente ao computador, ela estuda Matemática, Física e História ao mesmo tempo.
— Como consegue, filha?
— Eu já sei de tudo, mãe. Só estou revendo.
— Onde aprendeu, antes?
Ela ergue uma sobrancelha.
— Quer mesmo saber?
Faço uma careta.
— Melhor não.
Matteo anda de um lado ao outro, chutando sua bola de futebol enquanto me sento ao lado de Antoine e a vejo assistir a um vídeo no celular. Antes mesmo de eu perguntar, ela responde:
— Linguagem não verbal, mãe. Porque preciso analisar exatamente o que algumas pessoas expressam através do corpo. Assim como você que, agora mesmo, está me olhando com espanto, pensando como eu saquei tudo isso.
— E como sacou?
— Fácil. Está tudo no seu corpo. Na forma como gesticula, olha, move os lábios...
— Credo! Melhor eu não ficar perto de você!
Rindo, ela concorda:
— Se não quiser que eu descubra como conseguiu esse olho roxo...
— Antoine! Para!
Movendo os braços aleatoriamente como um guarda de trânsito britânico na hora do rush, pergunto:
— O que viu em sua avó? Você suspeita de alguma coisa?
O sorriso desaparece lentamente do rosto dela.
— Ainda é cedo, mãe. Preciso estudar tudo sobre essa linguagem corporal antes de fechar o diagnóstico.
— Fechar o diagnóstico!? Uau. Você tá levando isso a sério mesmo.
— Mais do que imagina, mãe. — Diz ela sustentando meu olhar com seus olhos amendoados. — Eu não vim à Terra a passeio. Preciso terminar minha tarefa.
— Parou! — Protesto apontando o dedo para o próprio rosto. — Consegue ler minha linguagem não verbal agora? Não? Então eu explico! Não quero mais ouvir você falar de tarefa, Terra, Iluminados, Illuminatis, Superiores e o escambau!
— Escambau? — Antoine ri. — Essa é nova pra mim.
— Então anota no caderninho e continua comigo, ok? Não se atreva a me deixar.
Aviso enquanto corro atrás de Matteo. Com ele no colo, olho para Antoine antes de fechar a porta.
— Compreendeu?
Girando lentamente na cadeira, ela abre um sorriso iluminado.
— Compreendido, chefe.
Entre a fresta da porta, cochicho:
— Quando descobrir alguma coisa sobre o soldado C, me avisa. Tenho sérias suspeitas sobre ele. Copiou?
— Copiei. Câmbio. Desligo.
Recostada à parede do corredor, puxo o ar devagar enquanto deixo Matteo correr até a brinquedoteca. Por que sinto que estou perdendo, aos poucos, todos os que amo?
— Meu celular!
Grito andando de um cômodo ao outro.
— Eu odeio essa porcaria. — Sempre largo em qualquer lugar. Não quero notícia nenhuma do mundo lá fora. Não hoje.
Paro ao vê-lo sobre o sofá.
— Achei!
— Alô mamãe!?
Matteo imita animado.
— Achei o “alô mamãe”, filho.
Deito no chão da brinquedoteca encarando o teto estrelado enquanto espero Aninha atender. Matteo se joga ao meu lado como se soubesse que preciso de companhia.
— Aninha! Fala!
Do outro lado da linha, sua voz sai fraca.
— Adessa... fiz merda. Me ajuda?
Desligo o celular lentamente.
Com as mãos na cabeça, fecho os olhos.
— Porra. De novo não.
Matteo imediatamente me imita dramatizando:
— Porra de movo não.
Ainda rindo da nova fase de Matteo, dirijo até a casa de Aninha. Imagens da noite passada me vêm à mente. O prazer em sentir a dor causada por Vincenzo me faz morder os lábios. Antoine não poderia me ver assim. Certamente, fecharia meu diagnóstico como “pervertida” por arrastar seu pai ainda mais para longe do “Bom Caminho”.
Seus beijos, mordidas, chupões. Seu apetite voraz. Seus gestos bruscos seguidos de carinho. Nunca o vira tão selvagem, bruto, quase diabólico.
E eu gostei.
Estaciono o carro diante do prédio antigo. Subo os degraus até o quinto andar. Toco a campainha. Bato à porta.
Nada.
Encosto a orelha na madeira e ouço a voz fraca de Aninha, distante, quase apagada. Meu coração dispara. Dou alguns passos para trás e arrombo a porta com a perna.
O apartamento inteiro cheira a ferro e desespero.
Paralisada por um segundo, sigo a trilha de sangue respingado sobre o chão de tacos antigos. Corro até o corredor, mas, antes de alcançar o quarto, sou empurrada contra a parede.
— Não toca nela. Deixa a vadia morrer. — rosna um garoto de olhar carrancudo.
— Sai da minha frente. — rebato, empurrando-o com o ombro. — E encosta em mim de novo pra ver o que acontece.
Ele aponta para o banheiro pequeno, lavado de sangue.
— Não entra.
Ignoro o aviso.
Ao cruzar a porta do quarto, meu estômago revira.
Aninha está encolhida sobre a cama, coberta por um lençol manchado de vermelho.
— Meu Deus… — sussurro, arrancando o tecido de cima dela. — O que você fez, Aninha?
Ela começa a chorar.
— Eu disse que te ajudaria…
Com dificuldade, ergo seu corpo debilitado e passo seu braço sobre meus ombros.
— Vai ficar tudo bem. Tá me ouvindo? Vai ficar tudo bem.
Mentira.
A verdade está no banheiro.
No pequeno vaso sanitário coberto de sangue.
No corpinho minúsculo que não consigo parar de imaginar.
— Ela precisa ficar! — grita o garoto atrás de mim.
— Cala a boca! — rosno. — Isso não é hora de bancar o psicopata misterioso!
Uma vizinha abre a porta do apartamento ao lado, atraída pela movimentação.
— Moça! — peço, desesperada. — Liga pra emergência! O elevador tá quebrado! Eu não vou conseguir descer cinco andares sozinha com ela!
A mulher me encara com frieza.
— Isso não é problema meu.
E fecha a porta.
Fico alguns segundos olhando para a madeira diante de mim, incrédula.
— Filha da puta covarde… — murmuro.
Apoio Aninha com mais força enquanto começamos a descer os degraus lentamente. O sangue escorrendo por suas pernas deixa marcas nos degraus antigos.
Ela soluça baixo.
— Calma… calma… — peço, tentando não desmoronar junto. — Não chora. Eu vou te tirar daqui.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, nem eu acredito nas minhas próprias palavras.
— Não vai dar...tempo. Eu...fiz...
— Não fala. Você tá muito fraca.
Assusto-me com o garoto carrancudo assim que alcançamos o quarto andar.
— Porra! Como tu conseguiu!?
— Ela não pode ir. — Rosna ele com ódio. — Ela me deve isso.
— Deve o quê, garoto!?
Antes de chutá-lo com a perna esquerda, ele some. Olho ao redor e pergunto, intrigada:
— Pra onde ele foi!?
— Quem?
— Você não o viu!?
— Posso ajudar?
Sorrio ao jovem que se apressa em levar Aninha em seu colo. Sem perguntas ou julgamentos, ele parece não se importar com o sangue ensopando sua camiseta. Eu o sigo até meu carro, onde ele a deita no banco traseiro. Reparo em seu macacão sujo de graxa. Suponho que seja mecânico, talvez morador do mesmo prédio.
— Nossa. Muito obrigada. Não sei o que seria dela sem você.
Antes de entrar no carro, aperto sua mão. Ele sorri de maneira estranhamente serena ao responder:
— Não me agradeça. Estamos aqui para ajudar. Não desista de lutar pelo que é certo, Adessa.
— Você me conhece!?
Um gemido de Aninha corta o momento. Viro-me imediatamente para ela.
— Aguenta firme, amiga!
Sentada ao volante, ainda penso no homem do macacão que desapareceu em questão de segundos. Meu coração acelera quando vejo, pelo retrovisor interno, o menino carrancudo sentado ao lado de Aninha.
Um arrepio percorre minha espinha.
Ignoro sua presença e piso fundo no acelerador em direção ao hospital mais próximo.
Apesar de ser contra, o corpo é dela. Não meu.
Quieta ao lado de Aninha no leito do hospital, observo a frieza com que o médico a trata após a curetagem. Ela ainda sente cólicas, ainda treme, ainda sangra, mas o homem de jaleco branco parece mais interessado no relógio preso ao pulso do que na dor diante dele.
Seguro minha vontade de discutir.
Algo me incomoda mais do que a falta de empatia do médico.
O menino carrancudo continua ali.
Parado ao lado da cama de Aninha.
Observando tudo em silêncio.
— Por que não a deixa em paz?
— Porque ela não me deixa em paz! — Rosna ele, transtornado. — Eu só queria uma chance de voltar! É a terceira vez que tento e ela me mata! Isso é justo!?
— Não. — Lamento. — Não sei o que dizer.
— Não precisa. Agora eu vou ficar aqui...e me vingar.
— Por que não tenta seguir adiante?
— Porque eu não quero! Ela precisa sofrer o que eu sofri! Sentir a dor que eu senti!
Antes de correr pelo longo corredor do hospital, ele grita:
— Me deixa em paz!
Levo Aninha até a casa da namorada após sua alta hospitalar. Sem desconfiar da verdadeira causa da internação, a mulher a recebe com carinho e preocupação.
Observo as duas por alguns segundos antes de me despedir.
Então vejo o menino carrancudo sentado no sofá da sala.
Imóvel.
Me encarando.
Minha intuição grita para que eu fique longe dali.
Por enquanto.
— Aonde foi, Dess?
— Ajudar uma amiga. — Respondo com o olhar distante. — Por que chegou cedo em casa?
— Antoine me ligou. Disse que meu pai estava estranho.
— Enrico!?
— Espera, Dess!
Ignoro Vincenzo e caminho rapidamente até o quarto de Enrico.
Deitado ao lado do avô, Matteo faz carinho em seu rosto enquanto sussurra:
— Bobô dodói.
— Não, meu anjo. — Refuta Enrico, pálido, estirado sobre o colchão. — Vovô tá bem. Sem dodói.
Meu coração aperta.
Sento-me na beirada da cama e encosto o dorso da mão em sua testa.
Gelada.
Fria demais.
— O que houve, Enrico? — Pergunto já assustada. — Você tá frio. Muito frio.
Viro-me para Vincenzo.
— O que ele tem!?
— Não sei. — Responde ele, impotente. — Ele não quer dizer.
— Enrico! O que aconteceu!? — Insisto segurando sua mão. — Quem drenou sua energia!?
— Ninguém, querida. — Responde Enrico com um sorriso cansado. — De onde tirou essa coisa de drenar energia?
Ergo-me lentamente da cama ao perceber Celeste surgir no quarto. O simples som de sua voz me irrita.
— Você já fez isso uma vez. Não seria novidade se fizesse de novo.
— Dess! — Vincenzo protesta imediatamente. — Ela já pediu desculpas!
— E eu já disse que não confio na sua mãe!
Um silêncio pesado cai sobre o quarto.
Então Vincenzo rosna entre os dentes:
— Ela não é minha mãe. Você sabe disso.
— Não, Vincenzo! Eu não sei de mais nada! — Explodo. — Tá ficando impossível entender essa família! Enrico é seu pai, casado com Celeste, mas ela não é sua mãe? Explica isso!
— Porque meu pai reconhece a Escuridão quando a vê, mãe. Simples. Copiou?
Viro-me lentamente para Antoine.
— Não. Não copiei, filha.
Seguro seu braço e a puxo para fora do quarto antes que alguém tente me impedir. Fecho a porta atrás de nós e sussurro, nervosa:
— O que você quis dizer com isso!?
— Que suas suspeitas não são infundadas. — Responde ela calmamente. — Só ainda não são comprovadas.
Meu sangue gela.
— Cacete... — Levo a mão à boca. — Você quer dizer que Celeste pode ser nociva à nossa família?
Minha voz falha.
— Ela cuida do Matteo. Do seu irmão.
— Calma, mãe. — Cochicha Antoine olhando discretamente para a porta fechada. — Não é tão simples assim. Ainda não tenho certeza das intenções da vovó. Mas que ela esconde alguma coisa...esconde.
— Por que você acha isso!?
— Olha pro vovô. — Diz ela num sussurro triste. — Ele tá tenso. Tá assustado. Ele ama a Celeste e não quer que ela sofra.
— E eu amo o seu avô! — Rebato impulsivamente. — E também não quero vê-lo sofrer!
Dou um passo em direção à porta, mas Antoine segura meu braço.
— Espera.
— Me solta, filha.
— Não. Me deixa entender o que tá acontecendo primeiro. — Seus olhos encontram os meus. — Ninguém precisa desvendar isso mais do que eu. Eles me cobram isso o tempo inteiro.
Sinto um arrepio atravessar minha espinha.
Agarro seus braços e me ajoelho diante dela.
— Eles quem?
Antoine desvia o olhar.
— Você não quer ouvir sobre isso. Já deixou claro hoje de manhã.
— Agora eu quero! — Insisto quase desesperada. — Quem!?
Antes que ela responda, a voz de Vincenzo surge atrás de nós:
— Filha. Agora não.
— Mas pai...
— Que porra de domínio você tem sobre ela, Vincenzo!? — Explodo, levantando-me de uma vez.
Ele sustenta meu olhar sem hesitar.
Sombrio. Frio. Belo demais para parecer humano.
— Algo que você jamais será capaz de compreender...ou aceitar, Dess.
Prendo a respiração.
Antes que eu responda, Matteo se agarra à minha perna e murmura assustado:
— Papai dodói... Bobô dodói... bobó mau... ai ai ai... neném qué nanana... — Carregando-o em meu colo, insegura, sigo até a cozinha. Sem tempo para chorar, descasco duas bananas com Matteo preso a um de meus braços. Sua segurança é minha prioridade. Nunca acreditei naquela história absurda de que Celeste teria proposto a Liam sua rendição em troca da vida de meu filho ou na teoria insana de que a “Legião” teria inteligência e poder suficientes para criar um ser vivo, ou um vírus letal, usando o sangue de Sean e Matteo. Isso é patético. Parece enredo de algum filme de zumbi vagabundo que assisti há anos e já nem lembro o nome.
— Vagabunda. — Penso alto enquanto me sento na banqueta com Matteo em meu colo. — Eu acabo com ela, com Liam e com o resto dessa porra de “Legião” de merda.
— Merda. — Repete Matteo, ansioso pela banana com aveia. — Mamãe dodói?
— Não, filho. — Beijo sua bochecha macia e sorrio, cansada. — Você tá sempre preocupado comigo. Você é o único, filho. Ninguém...nada vai me separar de você. Eu juro.
— Eu tenho certeza.
— Sai, Vincenzo! Volta pra sua amiga, mãe, amante...sei lá! Volta pra vaca da Celeste enquanto ela suga a vida do teu pai! — Sentando-se na banqueta atrás de mim, ele nos abraça com força, demoradamente, como se tentasse impedir que nós dois escapássemos por entre seus braços. Matteo reclama com um “Nanana, papai”, irritado com a demora da comida, enquanto eu choro em silêncio, recostando minha testa no ombrinho de nosso filho.
— Quando vai me contar a verdade, marido?
— Tô tentando, Dess. Tô tentando. — Sussurra ele em meu ouvido com a voz embargada. — Não me deixa, por favor. Não me deixa na escuridão. Tenho medo de nunca mais ver vocês.
— Aninha ainda não retornou ao trabalho. Há uma recepcionista provisória em seu lugar. Enquanto tento seguir minha vida com certa estabilidade, envio mensagens a ela. Mensagens sem respostas.
Vincenzo pediu que eu me afastasse de Aninha, temendo pela minha saúde mental.
Mais uma vez, precisei ouvir que eu não sou a porra de uma heroína.
Disso eu já sei.
Eu não quero ser a heroína da história. Tudo o que desejo é viver em paz com a minha família. Já passei por coisas ruins demais até chegar onde estou.
Vincenzo deveria ter visto, com os próprios olhos, o que é ter o corpo usado por estranhos, dia após dia, sem esperança alguma de que a vida fosse mudar.
— Talvez tenha visto.
Paro abruptamente diante da sessão de hortifrúti.
— Quem falou!?
Assustada, olho ao redor. Pessoas escolhem frutas e verduras mergulhadas em seus próprios mundinhos secretos e obscuros. Assim como eu, todos parecem carregar alguma escuridão dentro de si.
Ninguém presta atenção em mim.
As vozes não voltaram.
Logo, só existe uma opção.
— É você, maldito? — Sussurro enquanto pego alguns iogurtes na geladeira próxima às frutas. — Eu sei que está aqui. Sinto o seu cheiro.
— Ao menos eu não me escondo atrás de aromas cítricos.
Fecho os olhos por um instante.
Ódio.
— Não posso ficar falando com os iogurtes, idiota. Vão pensar que sou louca.
— E não é? Louca...e cega por um amor fadado à tragédia.
Meu coração falha uma batida.
— Tragédia!?
Alguns clientes me encaram rapidamente.
Finjo brincar com Matteo no carrinho de compras enquanto ele faz “cara de mau” e aponta o dedinho para algum ponto atrás de mim.
Um arrepio percorre minha coluna.
Pego o celular e finjo estar numa ligação.
— Some das nossas vidas, maldito. Tudo o que você quer é semear discórdia entre nós. — Rosno baixinho. — Afasta-se do meu filho.
— Estou longe, meu bem. O que meu tatatatatataraneto vê atrás de você é algo bem menor e menos poderoso do que eu.
Uma risada baixa.
Sarcástica.
Cruel.
— Quer que eu o afaste ou pretende lutar sozinha contra um dos famosos e idiotas componentes da Legião?
Seguro o carrinho com mais força.
— Acabe com ele. — Ordeno tomada pelo ódio. — Não deixe que eles toquem na minha família.
Um grito abafado ecoa atrás de mim.
O ar se movimenta violentamente.
Os pelos da minha nuca se arrepiam.
Matteo sorri satisfeito.
— Dodói sumiu.
Engulo em seco.
— Não pense que vou agradecer por isso.
— Você me pediu. Eu matei um deles antes que tocasse na linda criança. Creio que me deve um favor.
— Não. Nunca. — Rosno para o celular desligado. — Você não vai me comprar. Não vou fazer pacto algum com você. Esqueça.
— Uma pena. — Zomba Lúcifer ao se materializar diante de mim.
Arranco Matteo do carrinho e o aperto contra meu peito enquanto escuto o Anjo Caído, dividida entre o medo e a raiva.
— Se ouvisse a minha versão dos fatos, pouparia muita dor em um futuro próximo.
— Que versão? Do que está falando!?
— De Vincenzo, Enrico, Celeste... — Tocando uma das maçãs na gôndola, ele a faz apodrecer em segundos. Observando-me de esguelha, comenta: — Eu poderia te contar uma história fascinante sobre como eles se conheceram há alguns séculos. Milhares de séculos. Você adoraria descobrir que seu príncipe é, na verdade, um sapo. E dos mais fedorentos.
Meu estômago revira.
— Mas agora não. Depois. — Outra risada baixa. — Neste momento, creio que você vai se meter em outra encrenca. Só pra variar. — Ele inclina a cabeça antes de avisar: — Estarei lá antes de tudo terminar, darling.
— Não entendi! Volta!
— Tia?
Viro-me abruptamente.
Meu coração afunda.
— Ai, meu Deus...
Cassie.
Pálida. Magra. Abatida.
Mesmo assim, ainda dona daquele sorriso doce demais para o mundo em que vive.
— Eu sei. — Diz ela abaixando a cabeça. — Estou feia.
— Eu te reconheceria entre milhões de pessoas numa noite escura, Cassie.
Seus olhos brilham.
— Você sumiu.
Penso em mil mentiras.
Escolho a verdade.
— Eu precisei sumir. Me perdoa. Se eu me aproximasse de você ou do Sean, a vida dos meus filhos e do Vincenzo estaria em risco.
Ela franze o cenho.
Confusa.
— Desde quando Sean e eu oferecemos riscos a vocês?
Ela não se lembra.
Não estrague tudo.
Ela estava drogada. Dominada por Liam. E, pelo visto, ainda está.
— Tia? Tá ouvindo as vozes?
— Não. — Minto rapidamente. — Elas sumiram.
— Tem tomado os remédios?
Por um instante, volto no tempo.
Vejo os dias em que ela cuidava de Antoine. De mim.
Dias bons.
Dias normais.
Dias mortos.
— Tia! Acorda!
— Você ainda usa o crucifixo... — Sorrio ao tocar o pingente em seu pescoço. — Nunca tire isso. Ele te protege de todo o mal.
— Tenho saudades. Posso visitar a pirralha?
Hesito.
— Pode.
Ela percebe.
Sempre percebe.
— Você tem medo de mim, tia?
— Nunca. — Respondo imediatamente. — Eu jamais teria medo de você. Eu te amo, Cassie. Você é como uma filha pra mim. Eu só...não consigo lidar com o homem que você escolheu.
Os olhos dela lacrimejam.
— Eu sei. — Sussurra. — Eu me lembro da briga, tia. Eu não consigo viver com ele...mas também não consigo viver sem ele. Não sei explicar.
Ela olha discretamente ao redor antes de cochichar:
— Ele não é bom como imaginei. Tenho medo de fugir de novo e ele matar meu filho. Sei que parece loucura, mas...
— Não parece loucura, Cassie.
Eu quase conto tudo.
Quase.
Mas alguma coisa dentro de mim trava.
Vincenzo.
Sempre Vincenzo.
O que diabos ele esconde?
— Liam não serve pra você, Cassie. Quando quiser se livrar dele de verdade, me liga.
— Se livrar de quem, Little Princess?
O cheiro dele invade o ar antes mesmo que eu me vire.
Liam.
Sorrindo.
Sempre sorrindo.
Minhas narinas inflam.
— Já vai? Tão cedo? Que tal um café?
— Liam, pega o café e enfia no teu cu. Verme.
— Nossa. — Ele ri, apoiando a mão pesada no ombro de Cassie, acuada como uma presa. — Você continua tão elegante quanto antes.
— E forte também, Liam da Irlanda. — Dou um passo em sua direção. — Algo me diz que, da próxima vez que nos encontrarmos, você não vai sorrir.
— Tia!
Num rompante inesperado, Cassie se solta dele e me abraça com força.
— Eu te amo! — Chora ela. — Nunca vou esquecer daqueles dias antes da escuridão!
Liam a puxa de volta.
Ela vai embora sem olhar pra trás.
E meu peito dói de um jeito insuportável.
Só então percebo que esqueci os remédios.
Chorando, me debruço sobre o carrinho enquanto procuro os comprimidos dentro da bolsa.
Matteo abre a mãozinha diante de mim.
— Neném chuta boia?
— Que papel é esse, filho?
Tomo a pequena bola de papel de sua mão e a desamasso apressadamente.
A letra é de Cassie.
Minhas mãos começam a tremer antes mesmo de terminar a leitura.
“Cuida do meu filho, tia?”
— Não vai.
— Tenta me impedir.
O maxilar de Vincenzo trava.
— Eu te pedi pra ficar longe deles, Dess.
— E você vai deixar a Cassie apodrecer daquele jeito porque tem medo do Liam!?
— Eu não tenho medo dele! — Rosna ele, controlando o tom de voz por estarmos cercados de alunos e lutadores. — Eu só não quero que eles voltem pras nossas vidas!
— Ela tá doente, Vincenzo! Esquálida! Deve fazer dias que não toma um banho! O que você quer que eu faça!? Que eu vire lutadora igual você!? Que eu coloque música alta e finja que nada acontece!?
Os olhos dele escurecem.
— O que aconteceu com o homem bondoso com quem eu me casei!?
— Isso não é hora pra discutir. — Retruca entre os dentes. — Estamos no meu trabalho. Vai pra casa.
— Não. — Insisto, encarando-o sobre o tatame. — Eu não vou deixar minha Cassie morrer daquele jeito. Você não estava lá. Você não viu ela.
Então acontece.
De repente.
Como uma lâmina atravessando meu crânio.
A música.
Meu estômago embrulha violentamente.
O ar parece pesado.
Quente.
Sujo.
Levo a mão à cabeça enquanto Vincenzo continua falando alguma coisa que já não consigo compreender.
A música cresce.
E alguma coisa dentro de mim começa a tremer.
— Ela voltou pra ele porque gosta do que ele faz com ela, Dess.
Avanço em sua direção.
Furiosa.
Desesperada.
— E o que ele faz!? — Grito. — Diz! Você sabe mais do que eu!? Tá escondendo o quê!? Seu passado!? A forma como me encontrou naquela festa!? Naquela maldita festa onde me machucaram!?
As luzes parecem fortes demais.
Os sons altos demais.
Meu coração dispara.
— Que música é essa!? — Comprimo a cabeça com as mãos. — EU ODEIO ESSA MÚSICA!
Flashes.
Rostos.
Risadas masculinas.
Perfume barato.
Corpos nus.
Mãos segurando meus braços.
Asfixia.
Dor.
Meu corpo inteiro endurece.
Caio de joelhos sobre o tatame.
— Faz parar... — Imploro em desespero. — Por favor...
Ouço passos correndo.
Vozes distantes.
João tentando se defender.
— Eu não mexi no som! Juro! Ela começou sozinha!
— Deixa pra lá. — Rosna Vincenzo.
Num instante, estou em seus braços.
Sinto seu peito acelerado contra o meu enquanto ele atravessa a academia comigo no colo.
A porta do carro destrava com o sinal sonoro.
O mundo gira.
Sento no banco do carona tentando respirar.
— Aonde vamos?
— Pra casa. Você não tá bem.
Fecho os olhos.
A náusea continua.
— Eu tava bem... — Sussurro. — Foi aquela música. Eu já ouvi aquilo antes. Em algum momento horrível da minha vida. Mas eu não lembro quando.
Minha garganta aperta.
— Por que eu sinto nojo? Por que parece que alguma coisa dentro de mim quer fugir?
Ele não responde imediatamente.
Só me observa.
Com medo.
Medo de verdade.
— Por que tá me olhando assim...?
Vincenzo ergue lentamente a mão.
Encosta o indicador entre minhas sobrancelhas.
E ordena num tom baixo.
Hipnótico.
Sombrio.
— Esquece, Dess.
Meu corpo arrepia inteiro.
— Esquece.
— Dói, Vincenzo. Para.
— Não. Você gosta. Eu vi.
— Não... por favor...
— Shhh. Deixa eu gozar.
Uma dor excruciante atravessa minha mandíbula.
Algo estala.
Penso ter quebrado um dente antes de apagar.
Abro os olhos devagar.
O teto de nosso quarto dança acima de mim enquanto tento respirar sem mover a mandíbula.
Ao meu lado, Vincenzo dorme profundamente.
Quem é o homem que dorme ao meu lado?
— Por que essa mesa farta?
— Porque você merece, Dess. — ele sussurra em meu ouvido. — Me perdoa?
— Perdoar o quê?
— Senta, mãe! — Matteo bate as mãozinhas na cadeira.
— Estamos te esperando, filha. — diz Enrico.
Puxo a cadeira devagar.
A dor lateja imediatamente.
— Enrico... você está pálido.
— Impressão sua. — responde ele rápido demais. — Estou melhor que ontem. Sente-se ao meu lado. Por favor.
Obedeço.
Celeste evita me olhar.
— Café? — pergunta ela.
Nego com a cabeça.
— Vai doer.
— O que dói, tia? — Leo pergunta.
Tento responder.
Minha mandíbula não acompanha.
— Mãe? — Antoine franze a testa.
— Acho que caí.
— De novo? — Ela murmura.
— Não me olha assim. — protesto, irritada. — Eu realmente não lembro.
Antoine encara o pai por tempo demais antes de voltar os olhos para mim.
— Mais um desses tombos e você dorme comigo. Entendeu?
Demoro alguns segundos para responder.
Confusa demais.
Vincenzo coloca Matteo em meu colo quase à força.
— Ele estava morrendo de saudades da mãe.
— Por quê? — pergunto, perdida. — Eu viajei?
Silêncio.
— Dess... — ele sorri. — Foi uma brincadeira. Relaxa.
Relaxa.
Minha mandíbula pulsa.
Meu corpo inteiro parece errado.
— Tô tentando.
Celeste estende um comprimido na minha direção.
— Tome.
— Não aceito nada vindo de você.
— Jesus Cristo. — ela revira os olhos. — Acabei de tirar da cartela. Não tem magia nenhuma aí dentro.
— Tome, filha. — Enrico pede num sussurro rouco. — Vai te fazer bem.
Recuso.
Então encaro Antoine.
— Quando eu voltar, quero falar com Enrico.
Ela se endireita imediatamente.
— Sim, chefe.
— Fica com seu irmão. Não deixa ninguém chegar perto dele. Copiou?
Antoine hesita.
Só por um segundo.
— Nem mesmo o papai?
— Ele pode. — Apontando o indicador para Celeste, alerto: — Ela não.
— Por que isso agora, Dess?
— Eu acordei, Vincenzo. — rosno. — Estou despertando, aos poucos. Não toca em mim.
— Tia, você tá bem?
— Tô, Leo. Fica com Antoine hoje? Preciso do seu apoio.
— Fico! Claro que fico!
— Dess... aonde vai?
Ergo-me da cadeira lentamente, ainda sentindo a mandíbula latejar.
Então o encaro.
— Fazer o que deveria ter feito ontem, antes de você me trazer pra casa e... sei lá o que fez comigo.
Lanço um rápido olhar a Antoine.
Me contenho.
— Não tenta me impedir. — aviso quando ele se aproxima. — Quando eu voltar, nós vamos conversar, marido.
Beijo Matteo na bochecha e cheiro seu pescocinho antes de entregá-lo à irmã.
— Cuida dele, filha. — cochicho. — Fica de olho no soldado “C”. Copiou?
— Copiei. Câmbio. — Ela sorri, mas os olhos permanecem atentos. — Aonde vai, mãe?
Já próxima à porta da sala, devastada por dentro, respondo sem desviar os olhos de Vincenzo.
— Evitar uma tragédia. Câmbio. Over.
Levo mais tempo do que o normal até chegar à mansão.
Encontrando os portões abertos, entro.
Ressabiada, observo tudo ao meu redor.
Nada.
Nenhuma criatura.
Nenhum sussurro demoníaco.
Nada de “Legião”.
Somente uma voz dentro de mim:
Não desista. Ela precisa de você.
Cubro minha cabeça com o capuz do casaco e invado a casa pela porta da frente.
Espero.
Um minuto.
Dois.
Silêncio.
Só então começo a subir os degraus que levam ao segundo andar.
Ainda me lembro do brilho daquele mármore no dia em que eles se casaram.
Cassie parecia pequena demais para tanta felicidade.
“Enfim tenho minha própria casa, tia. Minha família. Meu amor.”
Agora o mofo rasteja pelas paredes.
As luzes dos lustres de cristal morreram.
Resta apenas a penumbra da lareira acesa no andar de baixo.
A chuva açoita violentamente a fachada de vidro da sala enquanto avanço pelo corredor.
Esgueirando-me entre as sombras, sigo até o quarto de Sean.
Ele dorme no berço.
Atordoada, aproximo o dorso da mão de sua boquinha.
Ele respira.
Graças ao Criador.
Como cresceu...
— Não é incrível?
Meu sangue congela.
— Liam...
— Não. Papai Noel. — ele debocha, soltando um riso curto. — O que pensava encontrar aqui quando invadiu nossa casa, Adessa Love?
Recuo instintivamente.
Penso antes de responder.
— Quero ver a Cassie.
— Você não é bem-vinda aqui. Sabe disso.
— Sei. — engulo em seco. — Me deixa vê-la e eu desapareço da vida de vocês. Prometo.
O sorriso dele se abre devagar.
Doente.
— Vai desaparecer. De um jeito ou de outro.
— TIA!!!
O grito atravessa a casa.
Cassie.
Corro imediatamente para fora do quarto.
Liam tenta me segurar.
Acerto um soco violento em seu pescoço.
Por um segundo absurdo, tenho sorte.
Ele cai de joelhos, sufocando.
Aproveito.
Corro.
Sigo sua voz até o quarto de hóspedes.
E então a vejo.
Próxima à enorme janela.
Sorrindo.
O mesmo sorriso triste e puro do dia em que entrou em nossas vidas como babá.
A menina órfã.
Silenciosa.
Gentil.
Antoine me ensinara a amá-la como irmã.
Algo em seus olhos me destrói instantaneamente.
— Recebi seu bilhete. — estendo a mão. — Vem comigo. Você ainda pode ser feliz com seu filho. Longe desse verme.
— De mim?
Liam surge atrás de mim.
— Fica longe dela.
— Ela precisa sair daqui! — rebato, entre o medo e a raiva. — Você já conseguiu o que queria!
Ele ri.
— E o que eu quero, “grande pitonisa”?
Meu estômago afunda.
— Não posso dizer.
O sorriso desaparece do rosto dele.
— Graças a você, eu não tenho nada. Nada além de uma pequena parte do que me pertence.
Seus olhos queimam.
— O que eu desejo vai muito além da sua compreensão, humana medíocre.
Ergo lentamente as mãos.
— Eu não quero brigar. Só quero levar Cassie e Sean embora. Não vou interferir nos assuntos daquele grupo. Prometo.
— Quem disse que eu preciso da sua promessa?
— Ninguém, Coelhinho... — Cassie murmura, sentando-se no peitoril da janela. — Parem de brigar. Eu tô tão cansada...
O silêncio pesa.
Então ela olha para Liam.
Com amor.
Ainda com amor.
Meu Deus.
— Eu só queria rever o sorriso daquele menino do mercadinho da praia. — sua voz falha. — Queria que você fosse pobre... e bom.
Liam paralisa.
— Queria que amasse nosso filho como um pai normal. Queria que não trouxesse aqueles homens horríveis pra nossa casa. Queria que não machucasse nosso bebê...
As lágrimas descem lentamente.
— Ele é tão pequeno...
Começa a cantarolar a música que uniu os dois.
A mesma música.
A porra da mesma música.
— Queria não te amar tanto, Liam.
Ela sorri chorando.
— Isso dói.
— Cassie... — ele dá um passo.
Ela grita imediatamente:
— FICA ONDE ESTÁ!
Voltando-se para mim, tira lentamente o crucifixo bento de Vincenzo do pescoço.
E o lança em minhas mãos.
— Não maltrate nosso Sean. Metade dele é Luz.
— Cassie! — avanço. — Olha pra mim!
Ela fica de pé sobre o peitoril.
Sorri.
Abre os braços.
— Enfim eu vou ter paz, tia.
Meu coração para.
— Te amo.
Corro.
Mas segundos me separam dela.
O corpo atinge violentamente as pedras do jardim.
O som...
Meu Deus.
O som.
E eu a perco.
Para sempre.
Minha Cassie.
Minha pobre Cassie.
A primeira das minhas grandes perdas.
Em choque, debruço-me sobre a janela e permaneço ali, esperando que Cassie se levante e ria de mim, quando sinto o peso brutal da mão de Liam em minha nuca, forçando-me contra o peitoril de onde sua esposa acabara de se lançar.
Cedendo à pressão, agarro as laterais da janela com força. Meus dedos escorregam no mármore úmido enquanto flexiono as pernas e acerto um coice violento entre suas pernas.
Liam urra.
O som ecoa pelo quarto como algo animalesco.
Ele se afasta cambaleando, e eu recuo até a parede, tentando organizar os pensamentos que já não obedecem a lógica alguma. Meu cérebro insiste numa única possibilidade absurda:
Cassie ainda está viva.
Ela precisa de mim.
Levanto-me num impulso e caminho até a porta, mas Liam, ainda no chão, agarra meu tornozelo com brutalidade.
Caio de bruços.
Meu queixo bate contra o piso de madeira.
A dor explode outra vez em minha mandíbula já machucada. Um gosto metálico invade minha boca enquanto chuto seu braço repetidas vezes, ouvindo seus risos baixos e demoníacos.
— Sua amiga está morta, Adessa Love. Aceite. É melhor assim.
— Maldito!
Acerto um chute em seu abdômen e consigo me libertar.
Engatinho até o corredor.
Então ouço o choro de Sean.
Meu coração simplesmente despenca dentro do peito.
Tonta, apoio-me na parede enquanto caminho até o quarto do bebê. Entro quase tropeçando e volto a gritar ao enxergar, ao lado do berço, a mesma criatura horrenda que vi durante o ritual.
Alta.
Disforme.
Coberta por sombras que parecem pulsar.
Recuo imediatamente.
Assustada, aperto o crucifixo de Vincenzo contra o peito e fecho os olhos.
— Me ajuda... por favor...
A criatura avança.
Ainda consigo enxergar o brilho vermelho de seus olhos fendidos no meio, como carne rasgada.
Mas algo muda.
O ser para.
Recuando lentamente, desaparece diante de mim como fumaça engolida pela escuridão.
Desesperada, corro até o berço.
Sean chora.
Vivo.
Graças ao Criador.
Inclino-me para pegá-lo no colo quando a vejo.
A adaga.
Reluzindo ao lado do travesseiro infantil.
Pulsante.
Viva.
As veias em meu pescoço latejam no mesmo ritmo da lâmina.
Assim que meus dedos tocam o cabo, uma pressão brutal atravessa minha cabeça. Um desejo monstruoso percorre meu corpo inteiro até se concentrar em minha mão.
Vingança.
Pura.
Ardente.
— Eu não pedi sua ajuda.
— Não é hora de bancar a boa moça, meu bem. Termine o que já começou.
A voz de Lúcifer desliza atrás de mim como veneno morno.
— Não posso.
— Ele está vindo. Quer perder o pobre órfão também?
Fecho os olhos com força.
— Se afasta de mim, Lúcifer... — peço, quase sem ar. — Só me deixa sair daqui.
Erguendo os braços num falso gesto de inocência, ele sorri.
— Não estou impedindo você de nada, ingrata. Só apareci porque pediu ajuda.
Confusa, puxo o ar pela boca aberta.
— Não foi a você que eu pedi.
O sorriso dele aumenta.
Frio.
Cruel.
Antigo.
— O Crucificado não está disponível no momento, criança.
Ele inclina a cabeça, divertido.
— Não desperdice tempo.
Os olhos dourados recaem sobre a porta do quarto.
— O monstro está chegando.
Liam caminha em minha direção com os olhos inundados por uma fúria animalesca.
Sean continua a chorar no quarto ao lado.
O som atravessa minha cabeça como uma sirene.
Nas mãos dele, um taco de baseball longo, pesado, manchado pela penumbra avermelhada da lareira.
Agacho-me por instinto e o primeiro golpe corta o ar acima de minha cabeça. O deslocamento do taco bagunça meus cabelos enquanto me arrasto pelo piso.
Ele tenta outra vez.
Rolo sobre o tapete e escapo por centímetros.
Cambaleando, consigo me erguer.
Então o impacto vem.
O taco atinge minhas costas com violência brutal.
Perco o ar.
Perco a voz.
Caio de joelhos contra o piso frio enquanto uma dor lancinante explode em meu peito e se espalha até minhas costelas. Meu coração queima dentro de mim como se estivesse sendo esmagado por mãos invisíveis.
— Vai deixar ele vencer? — pergunta Lúcifer, de cócoras ao meu lado, observando tudo como um espectador privilegiado de um espetáculo grotesco.
A dor me impede de respirar.
Minha visão falha.
Ainda assim, consigo vê-lo sorrir.
— Não me decepcione agora.
Ele coloca a adaga diante de mim.
A lâmina pulsa.
Viva.
Respirando como um animal faminto.
— Um golpe no tornozelo e ele cai, meu bem.
Liam avança outra vez.
Instintivamente, rolo para a esquerda.
O taco destrói um dos brinquedos de Sean ao atingir o chão.
O barulho do plástico se partindo me atravessa pior do que a pancada.
De costas para mim, Liam gargalha.
Uma gargalhada histérica.
Doente.
Desumana.
E então...
Sem raciocinar.
Sem pensar.
Sem perceber quando peguei a arma.
Sinto a pulsação da adaga em minha mão direita antes mesmo de vê-la.
A lâmina corta profundamente o tornozelo esquerdo de Liam.
Precisa.
Cruel.
Ela atravessa o Tendão de Aquiles como se soubesse exatamente onde atingir.
O urro de dor dele ecoa pela casa.
Liam despenca de joelhos.
Arrastando-se, ainda tenta me acertar com o taco enquanto sangue escuro se espalha pelo tapete.
E alguma coisa dentro de mim… gosta daquilo.
Antes que eu consiga perceber, estou sorrindo.
Sorrindo.
Com prazer.
Cravo a adaga em suas costas, próxima aos pulmões, sentindo a resistência da carne ceder devagar sob minha mão.
Liam engasga.
O som é molhado.
Horrível.
Atrás de mim, ouço palmas lentas.
Lúcifer.
— Muito bem…
Retiro a lâmina de seu corpo com uma facilidade absurda.
Como um açougueiro experiente separando carne dos ossos.
O sangue respinga em meu rosto.
Quente.
Vivo.
— Termine o que começou. — A voz dele desliza por meus ouvidos como veneno. — Ele lidera aqueles seres. Ele ameaça sua família.
Exausta.
Sem ar.
Com o coração falhando dentro do peito.
Sento-me sobre as costas de Liam enquanto ele tenta rastejar pelo chão.
Seguro seus cabelos.
Ergo sua cabeça lentamente.
A navalha se aproxima de sua garganta.
E, por um instante miserável…
Eu quero fazer aquilo.
Quero sentir a lâmina deslizando.
Quero acabar com ele.
A voz dentro da minha cabeça grita.
“NÃO!”
O grito me atravessa como água gelada.
Horrorizada comigo mesma, largo a adaga sobre o tapete ensopado de sangue e recuo bruscamente.
Tropeçando.
Tremendo.
Ainda consigo ouvir Liam respirando atrás de mim.
Ainda vivo.
Cambaleio até o berço de Sean.
— Tola! — rosna Lúcifer, furioso agora. — Por que não terminou!?
— Porque era isso que você queria! — exalo entre dores. — Eu não sou assassina, maldito!
Os olhos dele escurecem.
Finalmente sem humor algum.
— Seu coração vai falhar a qualquer momento, idiota. Será que alguém virá te salvar?
Aperto Sean contra meu peito.
— Volta pro inferno…
Lúcifer sorri.
Devagar.
Terrivelmente calmo.
— Não agora. Não sem a alma da maluquinha lá embaixo.
Meu sangue congela.
— NÃO!
Lúcifer caminha ao meu redor enquanto eu me arrasto pelo jardim encharcado, com Sean apertado contra meu peito e o corpo de Cassie estendido sobre as pedras molhadas como uma boneca quebrada.
A chuva lava o sangue de seu vestido branco.
Mas não lava os olhos dela.
Os olhos continuam abertos.
Vidrados.
Mortos.
E aquilo me destrói por dentro porque, durante um segundo miserável, eu ainda espero que ela pisque. Que respire. Que ria da minha cara e diga que tudo não passou de um surto coletivo patrocinado pelo inferno. Porque o cérebro humano é ridículo assim. Ele se recusa a aceitar certas dores.
— Arcanjo Miguel… — minha voz falha enquanto acaricio seus cabelos molhados. — Leva ela daqui… por favor…
Sean chora contra meu peito.
O som corta minha alma.
Atrás de mim, escuto os passos lentos de Lúcifer esmagando a grama molhada. Sem pressa. Como alguém que sabe que já venceu.
— Tarde demais. — A voz dele soa divertida. — Ela me pertence agora.
— Cala a boca…
— Suicídio, lembra? Regras são regras, meu bem. Os humanos adoram brincar de livre-arbítrio até descobrirem que existem consequências.
Minha visão começa a escurecer nas bordas.
O mundo gira.
Meu coração falha dentro do peito como um animal cansado tentando continuar correndo mesmo depois de alvejado.
Lúcifer se agacha diante de mim.
Elegante. Limpo. Intocado.
Como se a morte de Cassie fosse apenas mais uma assinatura em um contrato antigo.
— Você quase fez algo extraordinário lá em cima. — Ele sorri. — Quase atravessou a linha sem ajuda.
— Eu não sou você.
— Não. Ainda não.
Seguro Sean com mais força.
Meu corpo inteiro treme.
Frio. Dor. Choque. Culpa.
Tudo junto.
— Olha pra você, Adessa Love… — Ele inclina a cabeça, quase fascinado. — Quebrada, sangrando, traumatizada… e ainda tentando salvar pessoas. Que desperdício maravilhoso.
Quero responder.
Não consigo.
Meu pulmão parece cheio de vidro.
A pancada nas costas pulsa junto do meu coração descompassado.
Então… algo muda.
O vento.
A temperatura.
A chuva desacelera.
Lúcifer para de sorrir.
Só por um segundo.
Mas eu vejo.
Eu vejo a irritação atravessar aquele rosto perfeito.
O jardim inteiro mergulha num silêncio impossível. Até Sean para de chorar por um instante.
E então eu sinto.
A presença.
Não vejo nada.
Não ainda.
Mas sinto.
Como luz atravessando água escura.
Como calor depois de décadas no inverno.
Lúcifer se ergue devagar.
Os olhos dourados agora queimam de ódio.
— Interessante… — ele sibila.
Minhas lágrimas se misturam à chuva enquanto abraço Cassie pela última vez.
— Não deixa ela sozinha… — imploro ao vazio. — Por favor… não deixa…
A última coisa que vejo antes de perder os sentidos é Lúcifer recuando um passo.
Apenas um.
E aquilo, estranhamente… me devolve esperança.
Porque o Diabo só recua quando alguma coisa maior acabou de chegar.
Cassie desceu ao túmulo… e eu não estava presente.
Internada às pressas, fui submetida a um cateterismo cardíaco de emergência.
Minha cardiopatia possui um nome pomposo: *Cardiomiopatia de Takotsubo*.
Ou, como preferem chamar, *Síndrome do Coração Partido*.
Facilmente confundida com um infarto.
Não poderiam escolher definição melhor.
Meu coração está partido em tantos pedaços que mal consigo respirar sem sentir dor.
Ainda assim, já estou cansada desse quarto claustrofóbico, dessas paredes pálidas demais, quase tão sem vida quanto meu rosto refletido no vidro da janela.
Com quatro costelas fraturadas, permaneço em observação.
— Não reclame. Tem gente morrendo nos corredores de hospitais públicos sem atendimento.
— Eu sei. — Resmungo. — Não estou reclamando. Só quero ir pra casa.
— Sério? — Vincenzo rebate, incrédulo. — Não pensou nisso quando invadiu a casa de Liam e resolveu lutar com ele!?
— Ele tentou me matar! — rosno, irritada. — Queria que eu não reagisse!?
— Calma, Dess.
— Lúcifer estava lá! — Minha voz falha. — Ele me incitou a matar Liam! Era isso que eu deveria ter feito e não fiz! Quem você acha que fraturou minhas costelas, Vincenzo!? Liam tentou me destruir!
— Se continuar se exaltando, vou chamar a enfermeira. Ela vai te sedar.
— Por que você não me escuta!? — explodo. — Ele tentou me matar… e riu da morte da Cassie! Eu tentei salvar Sean, mas havia um demônio ao lado do berço e… de repente… ele sumiu… então Lúcifer me entregou a adaga e eu…
A náusea sobe violentamente.
Viro o rosto a tempo de encontrar a cuba metálica nas mãos de Vincenzo.
Com a outra mão, ele segura meus cabelos enquanto espero vomitar.
Mas nada sai.
Só dor.
Só tremores.
Caio de volta contra o travesseiro e confesso num fio de voz:
— Eu enfiei uma faca nas costas dele, Vincenzo.
O silêncio pesa entre nós.
— Era duro… — continuo, encarando o vazio. — Eu senti a lâmina atravessar a pele… romper os músculos… bater nos ossos… Foi horrível… e, mesmo assim, eu continuei.
Fecho os olhos.
Ainda sinto o sangue quente em minhas mãos.
— Eu queria matar aquele verme. Queria arrancar de dentro de mim aquela sede horrível de vingança. Então ouvi uma voz gritando na minha cabeça. Não sei quem era… mas obedeci. Não cortei o pescoço dele.
— Jesus…
Dou uma risada amarga.
— Não. Ele não estava lá, marido. — As lágrimas escapam. — Lúcifer estava. E, por causa dele, eu quase matei um homem. Um homem monstruoso… um anjo falido… mas ainda assim um homem. Eu não quero me lembrar daquilo.
Vincenzo aproxima-se devagar.
— Então não lembra. Não toca mais em Liam. Por favor.
Abro os olhos imediatamente.
— Por quê?
Ele hesita.
Só por um segundo.
Mas eu vejo.
— O que acontece se ele morrer?
— Não sei. — Ele desvia o olhar. — Só… não quero que se aproxime dele novamente, Dess.
— E se eu o tivesse matado?
— Para com isso.
— Por quê? — insisto, observando-o atentamente. — Tá com medo?
— Não! — responde rápido demais. — Eu só não quero que você cometa algo contra Deus!
Sorrio sem humor algum.
— Você não sabe mentir, marido.
Ele abaixa a cabeça.
— Dess… acabou. Você está aqui. Isso é o que importa.
— Ok. — concordo, contrariada. — Tá tudo certo.
— Fala isso olhando pra mim.
Ergo os olhos até ele.
Vincenzo abre um sorriso cansado.
Dolorido.
Quase infantil.
E aquilo destrói o pouco que ainda resta inteiro dentro de mim.
— Ele riu dela… — murmuro. — Riu da Cassie.
— Isso é horrível, amor. Você viu tudo?
As lágrimas descem antes mesmo da resposta.
— Sim…
Vejo outra vez o sorriso triste dela próximo à janela.
A paz absurda em seus olhos segundos antes da queda.
Minha garganta fecha.
— Ela jamais deixaria o filho sozinho. Não a minha Cassie. Ele induziu ela à morte, Vincenzo.
— Não pensa nisso. Não chora. Você não pode se emocionar agora.
Ele senta na beira do leito e me abraça forte.
Forte demais.
Como alguém tentando impedir outro naufrágio.
— Por que não me contou a verdade? — pergunta contra meus cabelos. — Poderíamos ter ido juntos.
Enrijeço em seus braços.
— Você já não é mais o homem que eu conheço.
Ele se afasta lentamente.
Vejo culpa em seus olhos.
Culpa verdadeira.
— Não sei mais se posso confiar em você.
Aquilo o atinge em cheio.
— Eu sei que tenho feito coisas estranhas… — Sua voz enfraquece. — Mas eu jamais vou te machucar de novo. Prometo. Você precisa me ajudar, Dess. Sem você… eu fico perdido.
Aperto sua camisa entre meus dedos.
— Sem você eu também não vou suportar. — Choro. — Não me esconde mais nada. Por pior que seja… não me esconde nada.
Ele segura meu rosto entre as mãos.
Há algo sombrio em seu olhar agora.
Algo resignado.
— Quando voltarmos pra casa… eu vou te contar tudo.
— Tudo mesmo? Inclusive o que te prende ao Liam?
A pausa dele dura pouco.
Mas dura o suficiente.
— Tudo.
Mentira.
Eu reconheço a mentira imediatamente.
— Jura que não vai se meter em encrenca outra vez, Dess? Seu coração não suporta grandes emoções. Você ouviu o médico.
Dou um sorriso fraco.
Triste.
— Não são as grandes emoções que me destroem, Vincenzo. São as decepções.
O monitor cardíaco acelera.
— Eu posso enfrentar legiões… furacões… vulcões… — sussurro. — Mas não vou sobreviver a outra perda. Não deixa o mal tocar nossos filhos. Afasta Celeste das nossas vidas. Por favor. Eu não confio nela.
— Eu também não.
Ele olha rapidamente para o monitor antes de voltar a me encarar.
— Descansa, Dess. Amanhã eu levo você pra casa. Seu filho tá morrendo de saudades da mãe.
Volto a chorar imediatamente.
Patético como Matteo ainda consegue me salvar mesmo sem estar aqui.
— Eu também tô morrendo de saudades dele… Não deixa ninguém tocar no nosso filho, Vincenzo. Não deixa.
Ele me abraça outra vez.
Quase desesperadamente.
— Não vou permitir. Mesmo que custe minha vida… ninguém toca nele.
Fecho os olhos contra seu peito enquanto penso em Antoine.
Na força dela.
Na solidão dela.
— Ela sabe se defender — ele murmura, como se pudesse ouvir meus pensamentos. — Não se preocupa. Volta pra casa, Dess… aquele lugar não tem vida sem você.
Sorrio entre lágrimas antes de exalar devagar.
E, pela primeira vez desde a morte de Cassie…
Eu me permito descansar um pouco.
Demoro longos minutos abraçada a Matteo que, feliz em me ver de pé novamente, segura meu rosto entre as mãozinhas pequenas e faz sua pergunta clássica:
— Mamãe ‘dodói de movo’?
Meu peito aperta imediatamente.
— Não, filho… — respondo aos prantos, recostando minha testa na dele. — Não. Mamãe não tá ‘dodói’. Tá bem. Ok?
— Ok? — repete ele, desconfiado, franzindo o rostinho perfeito.
Solto uma risada chorosa.
— Ok.
Com Matteo no colo, olho ao redor e revejo minha família reunida na sala de jantar.
Talvez… pela última vez.
O pensamento me atravessa como gelo.
Vincenzo revira os olhos ao perceber minha expressão e, antes mesmo de reclamar, resmungo:
— Tá bom. Não vou pensar em coisa ruim. Prometo.
— É bom mesmo, Sra. Takotsubo. — Leo gargalha do outro lado da mesa.
Antoine, cuidadosamente, segura meu braço e me conduz até minha cadeira como se eu fosse feita de porcelana rachada.
— Hoje teremos uma noite especial! — anuncia ela, eufórica.
— Não me diga… — provoco. — O que tá passando nessa cabecinha de minhoca?
Ela arqueja, teatralmente ofendida.
— Surpresa! E se acalma porque é uma ótima surpresa! Simplesmente esplêndida!
Abraço-a sem pensar.
— Você é simplesmente esplêndida, meu anjo. Você.
Depois do jantar preparado por Enrico, Antoine e Leo, sinto um impulso quase doloroso de rezar.
Todos concordam imediatamente.
De mãos dadas ao redor da mesa, fecho os olhos e agradeço ao Criador por ainda estar viva… e por ainda ter os que amo ao meu redor.
— Eu não sou digna de tanta alegria… — confesso baixinho. — Tenho um passado pesado… cheio de pecados… e, ainda assim, estou aqui… com as pessoas que mais amo nesse mundo. O que mais eu poderia querer?
Meus lábios tremem.
Então Matteo toca meu rosto molhado e pergunta inocentemente:
— Meguio, mamãe? Neném meguio?
Mordo o canto da boca com força para não desmoronar outra vez.
— Não chora. — Vincenzo murmura ao meu lado.
— Cretino… — fungo. — Eu tô rezando.
As lágrimas escapam mesmo assim.
Antoine aperta minha mão sob a mesa e cochicha:
— Te amo, mãe. Pode chorar. Faz bem.
Escondo o rosto no guardanapo de pano enquanto começo a soluçar de verdade.
Matteo imediatamente arranca o tecido da minha cara e faz:
— Boo!
As gargalhadas explodem ao redor da mesa.
Todas… exceto a de Celeste.
Ela me observa com aquele olhar vazio e comenta friamente:
— Você chora à toa.
A frase atravessa meu peito como faca.
— Sou humana. — rebato, limpando o rosto com o dorso da mão. — Você não sabe o que é isso.
— Nem quero saber.
Inclino levemente a cabeça.
— Não pode, Celeste. — corrijo com calma venenosa. — Você não consegue mais ser humana… mas também não consegue voltar a ser anjo. Então o que diabos você é agora, meu bem?
— Dess. Agora não. — Vincenzo alerta imediatamente.
O sorriso puro de Matteo dissolve parte da minha raiva antes que eu continue atacando.
Enrico pigarreia, abatido, cada dia mais pálido.
— Vamos comemorar seu retorno ao nosso lar.
— Concordo.
— Woohoo! — Antoine vibra como nos velhos tempos. — Vem, mãe! Temos surpresas!
— Filha, devagar! — repreende Vincenzo, doce demais. — As costelas…
— Estou perfeita, marido. — mordo o canto da boca, encantada com sua preocupação exagerada. — Os médicos me liberaram para qualquer atividade física. ‘Copiou’?
Ele joga a cabeça para trás e ri como há muito tempo eu não via.
Meu coração dói bonito.
— ‘Copiei’. — responde ele, ruborizado. — Hoje à noite vamos testar isso aí. Câmbio?
Dou risada pela primeira vez sem culpa.
— ‘Câmbio. Over’.
— Vem, mãe! Para de safadeza! — reclama Antoine.
Imediatamente o rosto de Cassie atravessa minha mente.
*Minha Cassie. A safada.*
A saudade me golpeia tão forte que quase perco o equilíbrio.
Antoine segura meu braço sem perceber o que acabou de acontecer dentro de mim.
— Você chora demais. — resmunga ela, escondendo discretamente as próprias lágrimas.
Ela me conduz até o quarto onde costumo ensaiar minhas coreografias.
Ao abrir a porta…
Arquejo.
Balões coloridos cobrem o teto inteiro.
Alguns flutuam livres pelo chão.
No canto da sala, um painel de estrelinhas em neon ilumina um bolo enorme sobre a mesa decorada.
— Mas… meu aniversário tá longe.
— E daí!? — Antoine protesta, indignada. — Quem foi que disse que é proibido ter dois aniversários no mesmo ano!?
Leo ri atrás dela.
— Coisas de Antoine, tia.
— Você merece isso, meu anjo. — Enrico murmura emocionado. — Você nasceu de novo. Vamos comemorar.
Olho para ele demoradamente.
— Vamos… pai.
— Se chorar de novo vai desidratar. — Leo provoca.
Gargalho enquanto enxugo o rosto outra vez.
Vincenzo solta Matteo no meio dos balões brilhantes e gira o globo espelhado acima de nossas cabeças.
Pequenos reflexos dançam pelas paredes.
Matteo pula enlouquecido atrás das luzes.
Rindo tanto que quase perde o ar.
E, por um instante miserável e perfeito…
Minha família parece inteira novamente.
— Tem mais! — Antoine anuncia, quase explodindo de ansiedade.
Apagando a luz no interruptor, Antoine faz surgir corações em neon, de vários tamanhos, espalhados pelas paredes.
— Todos são seus, mãe. — Agora são os lábios dela que tremulam. — Todos os nossos corações pertencem a você. Pra sempre.
— Puta que pariu... — Resmungo, já chorando outra vez. — Como eu posso não chorar?
— Dançando. Vem, Dess...
— Putz... — Reviro os olhos inchados. — Você quer que eu me controle com uma música dessas?
— Vem, mulher. — Vincenzo me abraça com cuidado, como se eu pudesse quebrar dentro de seus braços. — Bem-vinda ao lar, meu grande e único amor. Minha Cathy.
— Heathcliff.
— Como você me fez jurar um dia... mesmo depois de morto, eu volto ao seu encontro.
— Digo o mesmo, amor. Deixe as janelas abertas...
Recosto minha cabeça em seu ombro enquanto ele me conduz lentamente pela sala. Observo Antoine e Leo dançando juntos, embalados pela canção tão sombria quanto a minha vida. Tão intensa quanto o amor que sinto por Vincenzo.
Num dos cantos do cômodo, Enrico permanece sentado na poltrona, brincando com Matteo, enquanto Celeste o observa de longe. Eles costumavam dançar juntos. Sempre dançavam.
O que restou entre os dois agora?
— Amor... posso dançar com seu pai?
Vincenzo sorri de canto antes de me conduzir até ele.
— Deve. — Deposita minha mão sobre a de Enrico. — Concedo-te minha dama, pai. Mas não se acostume. É só por hoje.
Algo se parte no olhar de Enrico.
Como se aquela frase doesse mais do que deveria.
— Só por hoje... — Repete ele, baixo demais.
Enquanto danço com ele sob as luzes coloridas, tento captar o que existe por trás de sua expressão cansada. Tento sentir algo além daquela tristeza silenciosa que o acompanha há dias.
Nada.
Arcanjos são muralhas.
Nem mesmo anjos conseguem atravessá-las.
— Enrico... você não tá bem. — Murmuro. — Por que não me conta? Eu quero te ajudar.
— Depois, meu anjo. Depois. — Ele fecha os olhos por um instante. — Por enquanto... deixa eu aproveitar esse momento de paz.
Engulo o nó em minha garganta.
— Não nos deixe, Enrico.
Ele sorri. Um sorriso pequeno. Frágil.
— Não pretendo, filha. Minha missão ainda não acabou.
— Te amo.
— Te amo ainda mais, meu anjo. — Sua mão aperta a minha com ternura. — Não deixe meu filho se perder.
A música termina.
E meu coração se comprime de um jeito estranho quando Enrico se afasta.
De cabeça baixa, ele caminha até a porta da sala. Para ali por alguns segundos, observando todos nós como se estivesse tentando memorizar aquela cena.
Como alguém prestes a partir.
Então acena, forçando um sorriso cansado.
Permaneço parada sob os corações em neon, tentando sufocar os pensamentos intrusivos que voltam a rastejar pela minha mente.
Leo e Antoine continuam dançando como se o amanhã não existisse.
E talvez não exista mesmo.
Parte de mim quer correr até elas e gritar:
— Selvagens!!!
Mas não acho prudente.
Não depois de tudo o que aconteceu.
Não depois de descobrir que a felicidade também assusta.
Principalmente quando ela parece boa demais para durar.
— Vincenzo! Me põe no chão!
— Chega de pensar em bobagens, Dess. Hora de descansar.
— E Antoine...?
— São jovens, Dess. Pra eles, “a noite é uma criança”.
— Mas... e o bolo?
— A gente come amanhã.
— Mas...
— Quer ficar aqui ou matar as minhas saudades em nosso quarto? Em nossa cama?
— Você não vai me...?
Ele para diante da porta do quarto. Seus olhos encontram os meus.
— Não. Nunca mais eu vou te machucar, esposa.
Algo dentro de mim relaxa pela primeira vez em semanas.
— Te amo, marido.
Faço amor com ele como quem tenta costurar o próprio coração com as mãos nuas. E, quando adormeço aninhada em seu peito, permito-me acreditar no impossível:
Enfim, meu Vincenzo voltou.
— Dorme, Dess. — murmura ele, sonolento, beijando meus cabelos. — Para de pensar.
Antes de apagar, repito mentalmente o refrão do maior poeta de todos os tempos.
“Não tenho medo do escuro.
Mas deixe as luzes acesas, agora.”
Porque, no fundo, eu tenho.
Muito.
Não sei quanto tempo passa até o grito me arrancar do sono.
Um som bruto.
Dilacerado.
Humano.
Vincenzo se ergue da cama num salto.
— Antoine...? — minha voz falha.
Ele já veste a calça do pijama quando outro grito ecoa pelo corredor.
— VOVÔ!!!
O sangue desaparece do meu corpo.
— Enrico...?
Corro atrás de Vincenzo ainda presa ao roupão, tropeçando na própria respiração. O corredor parece maior naquela madrugada. Longo demais. Frio demais. As luzes amareladas piscam enquanto outra voz surge.
Leo.
Chorando.
Meu coração dispara.
Não.
Não.
Não.
Vincenzo entra primeiro no quarto.
Então para.
Completamente imóvel.
Aquilo me apavora mais do que qualquer grito.
— Vincenzo...? — sussurro.
Ele tenta me impedir quando percebe que cheguei atrás dele.
Tarde demais.
Eu vejo.
E o mundo acaba.
Enrico está estirado sobre a cama.
Imóvel.
Os olhos semicerrados.
A pele acinzentada.
Fria.
Fria.
Fria.
— ENRICO!!!
Arremesso Vincenzo para longe como se ele não pesasse nada. Leo tenta me segurar. Também o empurro. Antoine está encostada na parede, destruída, tremendo inteira enquanto Matteo chora assustado no colo dela.
Mas eu só enxergo Enrico.
Meu Enrico.
Meu pai.
— Acorda! — grito, agarrando seu rosto entre minhas mãos. — Acorda, por favor! Isso não tem graça!
Estapeio seu rosto uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
— Sua missão não acabou! — berro, já sem voz. — Você prometeu!
— Mãe... — soluça Antoine.
— Cala a boca! — rosno sem perceber. — Me ajuda! Ele precisa de ajuda!
Subo na cama.
Meus dedos tremem enquanto procuro pulso.
Nada.
O vazio sob minha pele me enlouquece.
— Não... não... não...
Começo as compressões em seu peito.
Uma.
Duas.
Três.
Meu tórax explode de dor pelas costelas fraturadas, mas continuo.
— Respira! RESPIRA!
— Dess... — Vincenzo tenta se aproximar.
— NÃO TOCA EM MIM!!!
O monitor cardíaco inexistente dentro da minha cabeça enlouquece. Meu coração defeituoso bate rápido demais. Forte demais.
Eu sei que posso morrer ali.
Mas continuo.
Porque perder Enrico é pior.
Muito pior.
Inclino sua cabeça.
Tento respiração boca a boca.
Volto às compressões.
Sangro por dentro a cada movimento.
— Volta pra mim... — imploro. — Volta... por favor...
Então eu a ouço.
Aquela voz.
Doce.
Cruel.
Rindo perto do meu ouvido.
— Não adianta, querida. Ele já se foi.
Paro.
Meu corpo inteiro endurece.
Ergo lentamente os olhos.
Ela está ali.
Celeste.
Parada no canto escuro do quarto.
Sorrindo.
Não um sorriso humano.
Um sorriso antigo.
Faminto.
E, pela primeira vez desde que tudo começou...
eu compreendo que o horror ainda nem mostrou sua verdadeira face.
Porque a morte de Enrico não parece uma perda.
Parece um ritual.
E nós chegamos tarde demais.
— Tira ela daqui. — rosno entre os dentes. — Tira. Ela. Daqui.
São minhas últimas palavras antes de avançar.
Meu primeiro soco acerta sua boca.
O segundo, o nariz.
O terceiro vem carregado de luto.
De culpa.
De ódio.
Descarrego uma sequência de golpes sobre Celeste como um animal enlouquecido. Sem técnica. Sem controle. Apenas dor transformada em violência. Seus lábios se rompem. Sangue espirra pela parede clara do quarto de Enrico.
E ela ri.
Ela ri.
Recuando contra a parede salpicada de vermelho, mantém aquele sorriso impossível. Maquiavélico. Quase orgulhoso.
— Foi você a culpada. — cospe sangue no chão. — Eu não precisaria aniquilar meu amante se você não tivesse interferido no curso dos acontecimentos.
— Cala a boca!
Acerto outro soco.
Sua cabeça vira para o lado.
Ela volta sorrindo.
— Você enfureceu Liam. Ele me entregaria a Lúcifer. E eu me recuso a voltar para aquele inferno. — sua voz vacila entre ódio e desespero. — Eu me recuso a ser possuída pelo Anjo Caído novamente.
— PARA DE FALAR!
— Sem a Legião, eu seria alvo fácil nas mãos dele. — gargalha baixo. — Eu precisei escolher. E Enrico... ah, pobre Enrico... nunca enxergou nada além de vocês.
Meu punho volta a encontrar seu rosto.
Sinto os ossos da minha mão arderem.
Não me importo.
— Eu suguei suas energias por anos. — revela ela, limpando o sangue da boca com o polegar. — E ele continuava me oferecendo amor incondicional. Patético. Eu odeio homens fracos.
— CALA A BOCA!
Avanço outra vez, mas braços me agarram por trás.
Vincenzo.
— Dess! Chega!
— ME SOLTA!
Debato-me contra ele enquanto Celeste ajeita os cabelos ensanguentados diante do espelho do guarda-roupa como se estivéssemos numa conversa banal depois do jantar. Humanos são inacreditáveis. O fim do mundo acontecendo e alguém arrumando o cabelo. Clássico.
— Eu nunca gostei de você, “macaca”. — sibila ela, olhando diretamente para mim. — Você mesma me deu a resposta que eu precisava quando perguntou o que eu sou.
O quarto silencia.
Até Antoine prende a respiração.
— Se não sou humana... e não sou anjo... o que sobra?
Ela abre os braços lentamente.
— Um erro.
Arrepios sobem pela minha nuca.
— Você decretou a morte de Enrico. — continua ela. — Se eu não o matasse, Lúcifer me tomaria outra vez. Nem mesmo Vincenzo... — seus olhos deslizam lentamente até ele — ...meu filho, amigo e amante... poderia me salvar.
O mundo para.
Meu sangue congela.
— Amante...? — sussurro.
Celeste sorri.
Devagar.
Cruel.
— Sim. — responde ela, sem desviar os olhos de Vincenzo. — Nós, anjos falidos, temos um passado, querida.
— PODRE! — urro tentando me soltar.
Vincenzo me segura com força.
— Não escuta ela! Ela enlouqueceu!
— Que morra! — grito.
— Que morra. — repete Antoine.
Mas aquela não é mais a voz da minha filha.
O quarto inteiro estremece.
Leo recua imediatamente.
Matteo começa a chorar.
Antoine ergue lentamente o rosto.
E eu sinto o horror verdadeiro entrar no cômodo.
Seus olhos inflam.
Literalmente.
Fogo vivo pulsa dentro de suas pupilas.
Sua aura explode ao redor do corpo pequeno e trêmulo. Os cabelos escuros começam a flutuar como se houvesse vento apenas ao redor dela. A pele vibra. O ar pesa.
Muito.
O oxigênio desaparece.
Leo pega Matteo no colo, apavorado, mas o menino se debate chorando até escapar e correr para Vincenzo.
— Filha... não. — implora ele.
A criatura diante de nós inclina a cabeça de maneira antinatural.
— Quer que eu deixe esse ser imundo vivo? — pergunta Antoine com uma voz gutural. Antiga. Abissal.
Vincenzo olha para Celeste.
Pela primeira vez...
sem amor.
Sem culpa.
Sem passado.
Apenas ódio.
Então rosna:
— Não. Prossiga.
O quarto diminui.
As paredes parecem respirar.
As luzes piscam.
Algo monstruoso está prestes a nascer ali.
E eu...
eu simplesmente não consigo mais lutar.
Cambaleando, afasto-me daquela insanidade e volto até Enrico.
Meu pai.
Meu porto.
Meu anjo.
Deito minha cabeça sobre seu peito imóvel enquanto o inferno desperta atrás de mim.
Sem lágrimas.
Sem forças.
Sem alma.
Ao fundo, ouço Celeste rir.
Ouço Antoine rugir.
Ouço Matteo chorar desesperado.
E, pela primeira vez na vida...
eu fracasso em salvar alguém.
De súbito, uma espada reluz nas mãos de Antoine.
Não há hesitação.
Não há surpresa em seus movimentos.
Ela a empunha como alguém que nasceu para aquilo. Como uma guerreira antiga despertando depois de séculos adormecida. A lâmina risca o ar pesado do quarto numa velocidade brutal.
Celeste recua.
Pela primeira vez...
com medo.
— Antoine... espera... — implora ela, erguendo as mãos ensanguentadas. — Por favor...
Antoine não responde.
Os olhos ainda ardem.
O fogo ainda pulsa dentro dela.
E então...
a espada desce.
Rápida.
Violenta.
Precisa.
O som da carne sendo cortada ecoa pelo quarto.
A cabeça de Celeste se desprende do corpo e rola pelo piso de madeira, deixando um rastro espesso de sangue atrás de si. O corpo permanece de pé por um segundo impossível antes de tombar pesadamente ao lado da cama de Enrico.
Matteo grita.
Eu também.
Leo avança sem expressão alguma.
Frio.
Silencioso.
Ele interrompe a cabeça de Celeste com a ponta do pé antes que ela alcance o corredor. Então aceita a espada das mãos trêmulas de Antoine.
Ergue a lâmina diante do rosto.
E fogo surge.
Não um fogo comum.
Algo pior.
As chamas percorrem o metal de uma extremidade à outra como serpentes vivas. Azuis. Douradas. Famintas.
Em segundos, o corpo decapitado começa a arder.
A cabeça também.
O cheiro é insuportável.
Carne.
Sangue.
Algo antigo morrendo.
Recuando do corpo de Enrico, assisto à mulher desaparecer diante dos meus olhos até restarem apenas fuligens escuras espalhadas pelo chão.
Nada mais.
Nem ossos.
Nem pele.
Nem rosto.
Antoine pisca.
O fogo em seus olhos desaparece.
Seu corpo vacila.
Humana novamente.
Pequena novamente.
Dois passos em sua direção e eu paro.
Não consigo tocá-la.
Não consigo respirar.
Não consigo compreender o que acabou de acontecer.
Leo é mais rápido.
Segura Antoine antes que ela desabe no chão desacordada e, sem dizer palavra alguma, a toma nos braços e deixa o quarto.
O silêncio que fica é pior que os gritos.
Meu pé direito toca as cinzas do que restou da avó do meu filho.
Quentes.
Reais.
— Isso não é real... — murmuro para mim mesma, cambaleando. — Não é. Não é...
— Dess...
A voz de Vincenzo atravessa o quarto como uma faca.
Dou um passo para trás imediatamente.
— Não me toca. — puxo o ar pela boca aberta, desesperadamente. — Fica longe de mim.
Ele congela.
Matteo chora em seus braços.
— Dess, escuta...
— Verme imundo! — cuspo as palavras sentindo meu peito rasgar por dentro. — Você matou seu pai!
— Não foi assim! — sua voz falha. — Respira! Olha pra mim!
Mas eu só consigo enxergar vergonha em seu rosto.
Vergonha.
Culpa.
Segredos.
Mais segredos.
— Me dá meu filho...
Estendo os braços.
Mas eles não alcançam Matteo.
O quarto gira.
Um ruído agudo explode dentro dos meus ouvidos enquanto tento puxar ar para dentro dos pulmões esmagados.
Não consigo.
Não consigo.
Vincenzo vem em minha direção.
Recuo.
O monitor invisível dentro do meu peito parece enlouquecer.
Dor.
Pressão.
Escuridão.
A última coisa que vejo antes de apagar é Matteo tentando se jogar dos braços do pai para alcançar os meus.
Então tudo desaparece.
E, em algum lugar entre dois mundos...
eu ouço sua voz.
Doce.
Serena.
Impossível.
— Ainda não terminei minha missão.
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