CAPÍTULO 17 - O MUNDO GIRA
— Você está com febre.
— Bobagem. Não sou de adoecer. — Me deixo cair no colchão, ignorando o calor que pulsa sob a pele. — Nem gripe eu pego.
— Gosto disso. — Ele sorri, tímido demais para alguém tão atento. — Uma mulher forte… guerreira. Me lembra alguém.
— Quem?
— Valkyria… — Ele apoia os braços nos joelhos, pensativo. — Lembra do sonho?
Franze-se algo dentro de mim.
— Que sonho?
— Quando paramos de dançar. Você disse alguns nomes…
— Que nomes?
— Enrico. Antoine… — Ele observa meu rosto, esperando algo. — Giovanni.
O vazio responde por mim.
— Não faço ideia.
Ele não parece surpreso. Isso me irrita mais do que deveria.
— E Valkyria?
— Uma amiga.
— Só isso?
— Ciúmes? — ele solta um riso curto.
— Eu? — bufo. — Nem somos amigos direito, Aiden.
O arrependimento vem rápido demais.
Ele abaixa o olhar.
— Perdão. Não quis te constranger.
— Eu que… — passo a mão no rosto — não tô bem. Nada disso faz sentido.
O calor sobe outra vez.
— A louça… eu não tirei da mesa.
— Eu cuidei disso.
Isso me desmonta por um segundo.
— Você não parece o tipo.
— Não sou. — Ele se aproxima um pouco. — Mas gosto de ajudar você.
O jeito que ele diz “você” me deixa desconfortável.
— Eu só quero… amizade.
— Também quero.
Ele sorri.
E por algum motivo, isso pesa no meu peito.
— Do que ri? — pergunta.
— De nada. — Cubro o rosto. — Eu sou patética.
— Patética, linda… e ainda dança bem.
Fecho os olhos.
— O homem que eu quero me deixou. De novo.
— Ele não te merece.
— Você não o conhece!
Minha voz sai mais alta do que deveria.
Minha cabeça pulsa.
Algo sussurra.
Não agora.
— Você ouviu isso? — encaro Aiden.
— O quê, meu anjo?
— A voz.
— Não se preocupa. É normal.
— Normal pra quem!? — rosno. — Você ouve vozes?
Ele inclina a cabeça, analisando.
— Talvez seja sua. Talvez não.
Isso não ajuda.
Nada nele ajuda.
— Desde quando você ouve? — ele pergunta.
— Desde adolescente. Mas piorou.
— O que ela diz?
Hesito.
— Varia.
Ele me observa como se estivesse montando um quebra-cabeça.
— Já pensou em um psiquiatra?
— Não sou louca.
— Isso é preconceito.
— Eu tenho uma filha. Não posso me dopar.
— Ela é incrível.
Sorrio sem querer.
— Eu não posso decepcioná-la.
— Não vai.
A firmeza dele deveria acalmar.
Não acalma.
— Eu vou te ajudar.
O jeito que ele diz isso…
não soa como promessa.
soa como decisão.
— Não quero remédios, Aiden. Desiste.
— Tenho um grande amigo psiquiatra. Pode ser útil.
— Útil é pix na minha conta.
Ele solta um riso baixo.
— Você é engraçada.
— Sei.
O silêncio pesa um segundo.
— E a voz? O que ela disse agora?
— Quem?
— A voz.
Desvio o olhar.
— Não quero falar.
— Você está corando.
Levanto a cabeça na hora.
— Não seja ridículo!
— Calma…
— Não me pede calma! — a irritação explode antes de eu segurar. — E para de me olhar como se eu fosse louca trancada num manicômio! Eu não sou louca! E você não é meu psiquiatra! — levo a mão à cabeça, pressionando as têmporas — Por que isso dói tanto?
Ele não se abala.
Nunca se abala.
— Vai passar. Você vivenciou muita coisa…
— Que coisas?
— Não se lembra?
Solto um riso curto, sem humor.
— Porra… — balanço a cabeça, confusa — Você tá me deixando tonta, Aiden.
Tento levantar.
Ele impede.
As mãos pousam nas minhas coxas antes que eu consiga dar um passo.
— Sai da frente. Tem louça na pia.
— Eu lavo com você.
— Obrigada, mas não quero.
Olho para as mãos dele.
Frias.
Firmes.
— Dá pra tirar elas das minhas pernas?
Ele recua na hora, como se tivesse levado um choque.
— Perdão. Não quis ser invasivo.
— Não foi. — suspiro, passando a mão no rosto — Tô de boas… eu acho. Mas por que tô tonta?
— Vinho. Você bebeu muito.
— E você não?
Ele hesita.
Só um segundo.
— Eu esperei por esse momento. Não ia estragar por taças de vinho.
Reviro os olhos, mas o canto da boca trai.
— Que momento?
— O nosso momento.
— Que porra de momento, Aiden? Seja específico.
— A nossa dança.
— Nós não temos “a nossa dança”.
— Temos, sim… — ele sorri, baixo — Acabamos de criar. De novo.
Congelo.
— De novo?
Solto um riso curto, meio infantil, meio nervoso.
— Nós dançamos antes?
— No teatro, bobinha.
Respiro, aliviada demais.
— Ah, tá. Pensei que vinha com papo de outras vidas. Vincenzo que gosta dessas maluquices. Aquele cara tem problema…
Fecho os olhos, cansada.
— Uns transtornos bizarros.
— Além de burro.
Abro um sorriso.
— Muito burro. Um idiota, filho da—
Ele se aproxima.
Rápido.
— Não me toca!
— Calma. — a mão dele para a centímetros da minha testa — Só quero ver se a febre passou. Posso?
Hesito.
Depois cedo.
— Claro… perdão.
A mão dele encosta.
Quente?
Não.
Sou eu.
— Eu entendo você — ele diz, mais baixo.
Abro os olhos devagar.
— Entende?
A mão desliza da testa até minha bochecha.
Não me afasto.
— Tem medo de mim. E não é sem motivo.
Meu peito aperta.
— Como sabe?
Seguro o olhar dele.
— Como sabe que eu tenho medo… e por que isso faria sentido?
Ele recua.
Devagar.
Como se estivesse voltando pra um lugar seguro.
— My Irish angel… — murmura, mais pra si do que pra mim — Sou um estranho. Um irlandês maluco que não te deixa em paz.
Inclino a cabeça.
— Viu? Isso dá medo, né?
— Dá.
Pausa.
— Mas eu gosto de você.
Ele levanta os olhos.
— Seu sotaque é encantador.
O sorriso dele muda.
Mais contido.
Mais perigoso.
— Muito… ou pouco?
— O quê?
— O quanto gosta de mim?
Prendo o ar.
— Pouco.
Mentira feia.
Ele sabe.
Eu sei.
O silêncio se alonga até ele quebrar.
— Você dormiu, Adessa.
Franzo a testa.
— Dormi?
— Enquanto dançávamos. Nos meus braços.
Meu rosto esquenta.
— Não lembra?
— Disso eu lembro…
Droga.
— Para, Aiden.
— Com o quê?
— De me olhar assim.
— Assim como?
— Como se eu fosse…
Paro.
Nem eu sei.
Ele muda o tom.
— Estou preocupado. Você está febril.
— Deixa rolar. Eu tô bem. — desvio — Cadê Antoine?
— No quarto ao lado. Não é lá que ela dorme?
Levanto rápido demais.
O mundo inclina.
Ele me segura por trás.
Forte.
O cheiro de sândalo me atinge e minha respiração falha por um segundo.
— Você não está bem. Precisa descansar.
— Me solta, Aiden. — rosno, empurrando — Eu não tô doente.
Consigo me afastar.
Caminho até a porta.
Sinto ele atrás.
Sempre perto demais.
— Você gosta de ser empurrado, né? — olho por cima do ombro — Que esquisito.
— Gosto quando é você.
Reviro os olhos.
— Você costumava…
— Já sei. — abro a porta — Outra vida, né? Claro.
Solto um suspiro cansado.
— Por que só conheço homem estranho?
— Adessa...
— Shhh.
Levo o dedo aos lábios.
— Fala baixo. Ela tá dormindo.
Entro no quarto.
— Tira os sapatos.
— Mas eu...
— Agora.
Ele obedece.
Milagre.
Caminho descalça pelo quarto.
Cassandra está ali, olhos grudados no celular.
Paro por um segundo.
Queria dizer tanta coisa.
Não digo nada.
— Há quanto tempo ela dormiu?
— Faz tempo. Desde que vocês começaram a dançar.
— Impossível!
— Fala baixo. — ele me puxa para fora do quarto — Ela vai acordar.
— Me solta, Aiden. — estapeio o braço dele — Não quero sair daqui. Tem algo errado.
— Não tem. — a voz baixa, firme — A gente ficou junto bastante tempo. Você só… não lembra.
— Isso é pior ainda!
— Cala a boca. — ele corta, seco — Vai acordar sua filha. Vem.
— Não! — travo no lugar — Por que não quer falar com ela? Tá com medo?
Ele me segura pelo braço, mais forte agora.
— Medo de quê? De uma criança? — o maxilar trava — Vamos sair antes que ela acorde. Amanhã tem aula.
— Não me diz o que fazer com a minha filha. — rosno, em sussurro — Você tá com medo. Eu sinto.
Ele me observa por um segundo.
— E sua febre aumentou.
Antes que eu reaja, o mundo vira.
Ele me joga sobre o ombro como se eu não pesasse nada.
— Aiden!
Bato, reclamo, xingo.
Ele ri.
E continua andando.
A porta se fecha atrás da gente. Por um segundo, vejo Cassandra sorrindo.
Aquilo me irrita mais do que devia.
— Me solta!
— Se acalma, baby. Onde ficam seus remédios?
Congelo.
— Desde quando me chama assim?
Ele não responde de imediato.
— Faz tempo… — murmura, estranho. Distante.
— Me coloca no chão.
— Onde estão os remédios?
— De cabeça pra baixo eu vou piorar, idiota!
Ele me segura pela cintura e me desliza devagar.
Meus pés mal tocam o chão.
Por um segundo, fico suspensa.
O corpo leve.
A cabeça girando.
E ele… me olhando.
— Para de me encarar assim.
— Assim como?
A voz dele sai baixa.
Séria.
— Desse jeito.
Ele não responde.
Mas não desvia.
Meu olhar cai nos lábios dele.
Erro.
Grave erro.
— Porra. Você não gosta de mulheres… gosta?
Ele se levanta completamente agora.
— Você fala muito palavrão, mocinha.
— Não sou “moça” faz tempo.
Viro pra pia, abrindo a torneira só pra ter algo pra fazer.
— E ninguém liga.
— Eu ligo.
Silêncio.
Pesado.
— No que você tá pensando?
— Em detergente. — minto, na cara dura
Sinto a mão dele roçar meu braço.
Calor sobe instantâneo.
— Que droga eu tava procurando mesmo?
— Alguém que te faça feliz.
Paro.
— Alguém que não vá embora.
Engulo seco.
— É… — apoio na pia — Mas aquele idiota não gosta de mim. Não de verdade.
— Ele tem outra.
— Não tem! — viro, irritada — Ele disse que não teve nada com a Sweet.
— E você acredita?
— Pode se afastar? Tá quente.
— É a febre.
— Não é só isso.
Ele não se afasta.
Claro que não.
— Onde estão os remédios?
— Eu não sei! — passo água no rosto, tentando me recompor
Erro número dois.
Sinto as mãos dele na minha cintura.
Fecho os olhos por um segundo.
Quando me viro, ele já tá perto demais.
O corpo encosta.
A bancada fria nas minhas costas.
E ele… quente.
— O que tá acontecendo aqui? — minha voz falha — Você é gay e...
— Quem disse isso?
Pisco.
— Eu… achei.
Genial. Muito convincente.
Ele segura meu queixo, obrigando meu olhar a subir.
— Olha pra mim.
Obedeço.
Claro que obedeço.
— Sou homem. — a voz baixa, firme — O teu homem.
Meu coração tropeça.
— Aiden…
— Não precisa lembrar agora.
A respiração dele toca minha pele.
— Você só precisa...
Ele para.
Se afasta um centímetro.
O suficiente pra me deixar… faltando.
— tomar um antitérmico.
Eu travo.
— Você tá de sacanagem.
Ele quase sorri.
Quase.
— Eu preciso de outra coisa.
Ele me ergue e me coloca sentada na pia.
Frio.
Choque.
Minhas mãos agarram a borda.
Ele se encaixa entre minhas pernas.
Natural demais.
Perigoso demais.
— Por que tá fazendo isso? — minha voz sai mais baixa agora — Se não quer… não faz.
O olhar dele muda.
Sério.
Pesado.
— Eu quero.
Minha respiração falha.
A mão dele sobe, prendendo meus cabelos com cuidado.
Não dói.
Mas prende.
— Então para de brincar comigo…
— Eu não tô brincando.
A voz dele rouca encosta no meu ouvido.
Meu corpo inteiro responde.
Traidor.
— Diz que me quer.
Fecho os olhos.
— Eu quero.
— Diz que eu posso voltar.
— Voltar de onde?
— Diz.
Abro os olhos.
Perdida.
Confusa.
E ainda assim…
— Pode.
Ele encosta a testa na minha.
Respiração misturada.
— My Irish angel… — quase um sussurro — Eu não quero te perder.
Engulo seco.
— Não vai…
— Diga com todas as letras. Ele precisa ouvir.
— Ele quem, Aiden!? — minha voz falha — Ouvir o quê!?
— Que você me quer na sua vida.
Dou um riso nervoso.
— Eu não te entendo… — a garganta aperta — Você me deseja ou tá brincando comigo? Quer me beijar ou não?
Ele se aproxima.
Perto demais.
— É tudo o que mais desejo… há séculos.
O ar entre nós pesa.
— Então por que complica!?
— Porque não é simples.
— Para de falar em código! — minha paciência estoura — Eu tô aqui. Não precisa de nada além disso. É só um beijo.
Ele fecha os olhos por um segundo.
Como se estivesse lutando.
— Se ele não permitir… — a voz sai baixa, perigosa — eu não sei o que posso fazer.
Meu estômago afunda.
— Quem!?
Silêncio.
— De quem você precisa de autorização?
Ele me encara.
Profundo.
Cansado.
— Preciso de permissão pra…
As mãos frias seguram meu rosto.
Eu deveria me afastar.
Não me afasto.
— Me perdoa.
Minhas mãos sobem, forçando ele a me olhar.
— Fala comigo, Aiden!
Os olhos dele… carregados demais.
— Diz que posso entrar na sua vida. — quase um sussurro — Ser o seu homem… de carne e osso.
Meu coração dispara.
— Quebre a maldição.
Dou um riso sem humor.
— Maldição? Sério isso?
— Diz… — ele insiste, mais baixo — Eu não quero voltar a ser o que fui.
Tem algo ali.
Algo quebrado.
E mesmo assim…
Errado.
— Quero ser melhor.
Isso me assusta.
Muito mais do que a palavra “maldição”.
Num impulso, me afasto.
Corro até a porta.
— Sai da minha casa, Aiden.
Minha mão treme na maçaneta.
— Eu tenho medo de você.
Ele não recua.
Claro que não.
— Eu sei.
Um passo à frente.
— E deveria mesmo.
Meu coração dispara.
— Eu já fui brutal com você. Ciumento. Vingativo…
— Para! — pego a garrafa de vinho, erguendo — Não chega mais perto!
Ele inclina a cabeça.
Quase curioso.
— Vai me matar?
— Se precisar!
Silêncio.
Pesado.
— Como eu chego na porta sem andar? — ele murmura — Posso voar.
Meu sangue gela.
Corro.
Abro a porta da sala com força.
— SAI!
A respiração falha.
— Por que eu tenho tanto medo de você!? De onde você me conhece!?
Ele para no meio do caminho.
— Eu só quero cuidar de você… de vocês.
Pausa.
— De novo.
Aquilo atravessa.
— Sai! — minha voz quebra — Você estragou tudo!
— Não fui eu.
Os olhos dele escurecem.
— Foi ele.
— Não fala do Vincenzo!
— Se ele não tivesse caído… — a voz endurece — você teria sido feliz.
— Que porra é essa de “queda”!? — avanço um passo — Todo mundo sabe de tudo, menos eu!?
— Pergunta pra ele.
Silêncio.
Respiração pesada.
— Ele tem obrigação de te contar.
Engulo seco.
— Aiden… vai embora.
A voz sai mais baixa agora.
— Fica longe até eu entender o que tá acontecendo.
Ele me encara.
E então…
— Se você disser que posso voltar… — quase um pedido — eu fico livre.
Meu coração aperta.
— Me liberta.
E eu quase digo.
Quase.
— Ainda não, mamãe.
Congelo.
Viro devagar.
— Antoine?
Ela está ali.
Pequena.
Calma demais.
— Por que acordou, meu amor?
— Você gritou.
Ela me observa.
Depois olha pra ele.
— Tem que ser espontâneo.
Pisco.
— O quê?
— Espontâneo. — ela sorri, orgulhosa — O tio Miguel falou.
Meu sangue esfria.
— Pra que a garrafa?
— A gente tava brincando.
Aiden responde por mim.
Se aproxima.
Beija o topo da cabeça dela.
Depois meu rosto.
Rápido demais.
Íntimo demais.
— Você não precisa disso.
Meu corpo trava.
— Eu nunca mais vou te machucar.
Promessa.
Ou mentira?
Ele se afasta.
Caminha até o corredor.
Eu devia fechar a porta.
Não fecho.
Corro atrás.
O elevador se abre.
Ele entra.
E me olha.
Aquele sorriso…
triste.
Errado.
Os espelhos da cabine refletem.
Não só ele.
Algo atrás.
Dentro.
Mais antigo.
Mais frio.
Minha respiração falha.
— Aiden… quem é você?
A voz sai quase sem som.
Ele ergue o rosto.
— Alguém que precisa do seu amor… pra voltar a viver.
As portas começam a se fechar.
E pela primeira vez…
eu tenho certeza.
De que deixar ele entrar…
vai destruir tudo.
— Eu só queria ter uma vida normal! — a voz sai mais alta do que deveria — É pedir demais!?
Ando de um lado pro outro, arrancando as botas do chão com raiva.
— Sem fantasmas, sem demônios, sem boneca bizarra… sem gente caindo do nada! — rio, sem humor — E sem a porra de um homem perfeito que não me beija porque precisa de autorização!
Paro.
Passo a mão no rosto.
— Que inferno é esse!?
Doc segura o riso, mas não ironiza.
— Eu sei, filha… é muita coisa.
— Muita coisa!? — viro pra ele, rindo — Eu tô sozinha! Sozinha! E quando eu mais preciso daquele desgraçado, ele some!
Puxo a bota com força.
— Tomara que tenha caído mesmo! Num buraco negro! Que suma de vez! — aponto o dedo no ar — “Caiu”, “caiu”… eu tô de saco cheio dessa palavra!
O silêncio cai.
Pesado.
Doc se aproxima devagar.
— Eu tô aqui. Dias melhores virão.
E isso…
quebra alguma coisa.
O choro vem antes de eu conseguir segurar.
— Mas não resolve! — bato no peito — Eu preciso de resposta! De data! Eu só tomo porrada, Doc… uma atrás da outra!
Ele me puxa pra perto.
Quente.
Firme.
— Vai passar.
— Não passa! — rio, nervosa — Nunca passa!
Respiro fundo.
Mal.
— Eu larguei tudo por ela… — a voz falha — E agora eu não sei se fiz a coisa certa.
Olho pra janela.
A cidade parece fria demais.
— O dinheiro tá acabando. As contas tão chegando. — engulo seco — Como eu vou dar pra Antoine o que ela merece?
Doc não hesita.
— Amor.
Fecho os olhos.
— Amor não paga conta.
— Mas sustenta.
Eu rio.
Fraco.
— Queria que sustentasse aluguel também.
Ele segura meu rosto.
— Você vai dar um jeito.
— Não vou. — seco, direta — E o Vincenzo não vai voltar.
Pego a mochila.
— Ele não volta.
Doc não responde.
E isso já diz tudo.
Saio.
O administrador tá lá fora.
Envelope na mão.
Meu estômago afunda.
— Algum problema?
Ele não olha nos meus olhos.
Pronto.
Já sei.
Doc me segura antes mesmo de eu cair.
O envelope chega.
Frio.
Leve demais pra destruir alguém.
— Isso é uma piada, né?
Silêncio.
— Hoje foi seu último dia.
O mundo para.
— Não… — dou um passo pra trás — Você não pode fazer isso.
A voz quebra.
— Eu tenho uma filha.
Doc me segura mais forte.
— Adessa, não!
— EU TENHO UMA FILHA!
Mas já acabou.
Eu sei.
Ele sabe.
Todo mundo sabe.
E mesmo assim dói igual.
O chão me encontra.
Ou eu encontro ele.
Difícil dizer.
— Isso é um pesadelo…
A placa de saída pisca.
Quase debochando.
Doc me leva dali.
Eu deixo.
Não tenho força pra mais nada.
A chuva bate no rosto como tapa.
Fria.
Incômoda.
Perfeita.
Porque combina.
— Eu te levo — Doc diz
— Não precisa!
— Precisa sim.
— Você mora longe!
— Eu disse que te levo.
Paro.
Olho pra ele.
Algo tá errado.
— Doc… você tá estranho.
Ele não responde.
Claro.
Olho ao redor.
E vejo.
O carro.
Meu sangue ferve na hora.
— Filha da puta…
Saio antes dele me segurar.
Cada passo escorrega.
Mas eu vou.
Soco o vidro.
Uma vez.
Duas.
— ABRE!
Mais forte.
— ABRE ESSA PORRA!
Ela tá lá dentro.
Parada.
Calma.
Como se nada tivesse acontecido.
Isso me enlouquece.
— FOI VOCÊ!
Doc me segura.
Tarde demais.
Eu já peguei a pedra.
O vidro racha.
Pequeno.
Mas suficiente.
Ela sai.
Devagar.
Como se tivesse tempo.
Como se tivesse controle.
— Que merda você fez no meu carro?
Dou um riso seco.
— Eu?
Aponto.
— Você acabou com a minha vida!
— Do que você tá falando!?
— Não se faz de burra!
Minha voz falha.
Mas não paro.
— Eu ouvi você! Você pediu! Você exigiu!
O peito dói.
Arde.
— Eu te ajudei…
A frase sai quebrada.
Fraca.
— Tirei você de lá…
Silêncio.
Pesado.
Feio.
— E você fez isso comigo?
Doc intervém.
— Amigas não fazem isso.
Ela nega.
Claro que nega.
Sempre negam.
— Eu não faria isso, amiga. — defende-se Sweet. — Eu amo Antoine.
— Cala a boca! — avanço — Não fala da minha filha!
Aponto o dedo na cara dela.
Tremendo.
— Nem pensa em falar o nome dela!
O ódio sobe.
Queima.
— Esse carro… — olho de cima a baixo — Comprou com o quê? Com o dinheiro da minha queda?
— Cala a boca, sua idiota! — ela explode, tremendo — Eu pedi aumento pra você!
Pisco.
O mundo dá uma travada.
— Um salário justo! — ela insiste, avançando um passo — Foi isso que você ouviu!
Silêncio.
Só a chuva.
Pela primeira vez…
eu olho de verdade pra ela.
E vejo.
Não tem malícia.
Não tem deboche.
Só desespero.
Algo dentro de mim… cede.
Doc solta meus braços devagar.
— Foi isso? — minha voz sai baixa, quase infantil — Você fez isso por mim?
Ela assente, já chorando.
— Eu disse que se você saísse, eu saía também. — engole seco — Eu nunca ia te trair.
A culpa vem como soco.
Quente.
Pesada.
— Você me ajudou… — ela continua — quando ninguém mais ajudou.
Merda.
Eu dei tudo errado.
Dou um passo à frente.
Quase abraço.
Quase.
A porta do carona abre.
Devagar.
— Puta merda… — Doc murmura.
Meu corpo inteiro trava.
Não.
Não pode ser.
Mas é.
Antes que qualquer palavra venha…
antes que qualquer explicação estrague tudo…
eu ajo.
Meu punho encontra o ponto exato.
Seco.
Preciso.
O impacto sobe pelo braço.
Ele cai.
Sem defesa.
Sem tempo.
A chuva cobre o rosto dele.
Como se limpasse o que eu acabei de fazer.
Doc e Sweet se abaixam, desesperados.
Eu não.
Eu não consigo.
Só fico ali.
Respirando errado.
Sentindo tudo desmoronar.
— Foi você quem me ensinou… — murmuro, a voz quebrada, morta — Vincenzo.
E vou embora.
Não lembro do caminho.
Só da chuva.
Do frio.
Do vazio.
Quando percebo, tô na porta de casa.
Errando a chave três vezes.
Quatro.
Cinco.
A porta abre.
— O que aconteceu, tia!?
Cassandra.
Assustada.
Eu não respondo.
— Antoine… — minha voz falha — Onde tá minha filha?
— Aqui!
E pronto.
Acabou.
Eu caio de joelhos.
Ela vem.
Pequena.
Quente.
Viva.
Me abraça como se eu fosse o mundo inteiro.
E talvez eu seja.
Choro.
Sem freio.
Sem vergonha.
— Mamãe, não chora… vai dar tudo certo…
Claro que vai.
Criança sempre acha isso.
— Quem te disse isso?
— Meu tio.
Congelo.
— Que tio?
— Tio Aiden, ué.
Perfeito.
Porque a vida não cansa de me dar plot twist.
A água morna me envolve devagar.
Pela primeira vez no dia…
meu corpo para.
Mas minha cabeça não.
Nunca para.
Antoine ensaboa meu cabelo com cuidado, concentrada, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.
E talvez seja.
Inclino o rosto, beijo a bochecha dela.
Um segundo de paz.
Só um.
O celular vibra.
Insistente.
Irritante.
— Não atende — murmuro, cobrindo os olhos com a toalha.
Claro que ela atende.
— Ela não quer falar com ninguém, tio. Tá dodói… — pausa — Tá bom. Eu aviso.
Silêncio.
Então:
— Ele morreu?
Meu corpo reage antes da minha mente.
— Quem morreu!? — arranco a toalha, braço esticado — Me dá isso!
Ela puxa o celular pra trás.
— Aaah! Tá! Não morreu! — ela ri, tranquila.
Eu afundo de novo na banheira.
Respiração voltando aos poucos.
Quase normal.
Quase.
— Morreu ou não morreu, tio Doc!? Assim fica difícil!
Levanto num impulso, enrolando a toalha no corpo.
— Antoine, me dá o telefone.
— Calma, mãe! — ela rebate, irritada — Eu tô falando com ele!
Respiro fundo.
Não grita.
Não grita.
— Me dá o telefone, filha.
— Não! Continua, tio!
Fecho os olhos.
Conto até três.
Não adianta.
— Aaah tá… entendi! — ela continua, animada — Seu amigo tá vivo e o golpe não foi mortal!
Meu estômago afunda.
— Que golpe, tio?
Silêncio.
— E o que é “mortal”? Tipo Mortal Kombat? Não gosto.
— Antoine! — minha voz falha entre raiva e medo — Me dá isso agora!
Ela ignora.
Completamente.
Impressionante.
— Sim, tio… eu falo pra ela… deixa comigo… — pausa — Eu também te amo.
Isso dói.
Mais do que devia.
— Não desliga...
Tarde.
Ela encerra.
Sorrindo.
Orgulhosa.
— Eu queria falar com ele…
— Não precisa, mãe. — ela joga o celular no cesto — Seu cabelo vai ficar duro sem condicionador.
Fico olhando.
Sem reação.
— Volta pra banheira.
E eu volto.
Porque, aparentemente, minha filha de sete anos manda em mim.
A água me cobre de novo.
Quente.
Pesada.
Antoine massageia meu couro cabeludo, paciente.
Cuidadosa.
Engulo seco.
— Fala o que ele disse.
— Uma coisa estranha… — ela pensa — “Seu golpe não foi mortal. Ele ainda vive… e ainda te ama.”
Silêncio.
— Quem, mãe?
Fecho os olhos.
Cansada demais pra mentir direito.
— Ninguém, filha.
A água balança devagar.
A chuva continua lá fora.
E eu…
continuo aqui.
Esperando.
Mesmo sabendo que não devia.
Diante do espelho, visto o pijama de borboletinhas.
Ridículo.
Igual ao da Antoine.
Calço as pantufas de ursinho, o tecido fofo arrastando no tapete.
Dinheiro jogado fora.
Como quase tudo na minha vida.
A campainha toca.
Antoine grita.
Rindo.
Animada demais.
Meu estômago afunda.
Aiden.
A imagem do elevador volta inteira.
Errada.
Fria.
Não humana.
— ANTOINE! — grito, saindo do quarto — NÃO DEIXA ELE ENTRAR!
— JÁ ERA! — ela responde — ELE TROUXE PIZZA!!!
Claro.
Porque a vida adora timing perfeito.
Corro pelo corredor.
Ele parece maior.
Mais longo.
Errado.
Chego na sala.
Paro.
Não é Aiden.
É ele.
De costas.
Trancando a porta.
Cada movimento preciso demais.
Controlado demais.
— Isso é pra garantir que ninguém estrague a festa.
O clique da fechadura ecoa.
Algo em mim responde.
Raiva.
Alívio.
Os dois misturados, como sempre.
— E o tio Aiden!? — Antoine pergunta.
— Sério? — ele responde, leve — E quem vai carregar tanta pizza?
— EU!!!
Ela some pra cozinha.
E pronto.
Ficamos só nós dois.
O ar muda.
Fica pesado.
Elétrico.
— O que você faz aqui?
Ele aponta pro pescoço.
— Retribuindo sua gentileza. Ainda dói.
— Devia ter morrido. — seco — Sai da minha casa.
— Eu não tenho nada a ver com a Sweet.
— Mentira.
— Quase me matou.
— Pouco.
Ele ri.
Baixo.
Rouco.
— Você nasceu pra lutar.
— E vou continuar se você não sair daqui.
Ele se aproxima.
Devagar.
Perigoso.
— É isso que você quer?
Não responde.
Porque eu sei que não é.
— Para… — minha voz falha — Não me olha assim.
Antoine aparece.
Salva.
Ou atrapalha.
Nunca sei.
— Tio! Eu tô com fome!
Ela puxa a blusa dele.
— Eca! Tá sujo!
— Uma louca me atacou na rua. — ele me encara — Linda, inclusive.
Seguro o riso.
Maldita memória.
— Mamãe!
— A culpa é sua — ele diz, passando por mim.
A camisa vem junto.
Bate no meu peito.
Cheiro.
Maçã verde.
Droga.
— Você ainda tem roupa minha aqui?
— Tenho.
Erro.
Grande erro.
— Eu sei onde fica.
Claro que sabe.
Nunca esqueceu.
De nada.
Só de mim.
— Nunca.
Ele entra no quarto.
Como se fosse dele.
Como se sempre tivesse sido.
E talvez tenha sido.
Por tempo demais.
A porta bate.
Não fecha.
Fica entreaberta.
Como a gente.
— Não consigo… — ele murmura, perto demais — Saudades.
Isso devia me afastar.
Não afasta.
— Eu também.
Pronto.
Acabou.
Ele me beija.
Forte.
Errado.
Familiar.
Minhas mãos vão antes da minha razão.
Corpo reconhece.
Sempre reconhece.
— Você merece sofrer… — murmuro contra a boca dele — Idiota.
— Eu não te deixei.
— Mentiroso.
Ele me beija de novo.
E eu deixo.
De novo.
Erro recorrente.
A campainha toca.
Corta tudo.
Brusco.
— Puta que pariu…
— É o Doc? — pergunto, ainda sem ar.
— Não.
E o jeito que ele diz isso…
muda tudo.
— Não abre.
— Quem?
— Só… não abre.
Tarde.
Antoine já tá na porta.
— Tio Aiden!!!
Merda.
Corro.
Pego ela no colo.
— Não!
Do outro lado:
— Eu preciso falar com você. Abre.
A voz dele…
não é normal.
De novo.
— Não dê permissão. — Vincenzo atrás de mim, tenso — Não deixa ele entrar.
— Permissão? — olho pra ele — Você enlouqueceu?
— Não ouve ele, meu anjo… — a voz do outro lado suaviza — Me deixa entrar.
Cassandra ri.
— Isso tá parecendo filme de terror…
— Vampiros pedem permissão, né?
Silêncio.
— Vampiros… — Vincenzo responde — demônios…
E então:
— …e anjos caídos. — a voz de fora corta.
Pronto.
Agora sim.
A merda ficou completa.
— Deixa ele entrar, mãe… — Antoine pede, inocente.
Vincenzo a pega no colo antes que eu responda.
Rápido demais.
— Hoje não, pirralha. — a voz dele falha um pouco — Outro dia.
— Por que você tá com pena dele?
Ele hesita.
Erro.
Pequeno.
Mas eu vejo
— É uma longa história… — recua — Só não abre a porta.
O impacto vem de fora.
As caixas de pizza caem.
Eu recuo, batendo a cabeça na parede.
Antes que a porta ceda, giro a chave.
Tranca.
Respiração presa.
Do outro lado, a voz vem baixa.
Arrastada.
— Eu nunca mais vou te machucar… eu juro.
Fecho os olhos.
Cansada.
— Vai embora, Aiden…
Silêncio.
Então:
— Eu vou… — pausa — mas volto.
Um arrepio sobe pela espinha.
— Quando você souber quem ele é de verdade… vai precisar de mim, baby.
Passos.
Sumindo.
Mas não aliviam nada.
Cassandra leva Antoine pro banheiro.
Eu não reajo.
Vincenzo me ergue do chão.
Com cuidado.
Quase… demais.
Gelo na minha cabeça.
Mão firme.
Controlada.
Como se ele soubesse exatamente o que fazer.
Sempre.
Antoine volta logo depois.
Faminta.
A vida não espera trauma nenhum.
Observo as duas comerem.
Sem tocar em nada.
Sem sentir gosto de nada.
Só ele.
Ali.
Na minha frente.
— Escova os dentes, filha… — digo, automático.
— E as pizzas do tio Aiden!?
— Não! — rápido demais.
Ela faz cara de choro.
Droga.
Vou até a porta.
Ele bloqueia meu caminho.
— Eu pego.
— Como você sabe que ele não tá aí?
Ele sustenta meu olhar.
Um segundo a mais do que deveria.
— Eu sinto.
Mentira?
Talvez não inteira.
Ele abre.
Pega as caixas.
Fecha.
Simples.
Limpo demais.
Antoine corre até ele.
— Valeu, tio! Te amo!
Beija o rosto dele.
Sem medo.
Sem dúvida.
Então:
— Posso te chamar de pai?
Silêncio.
Curto.
Mas pesado.
— Po… pode.
A voz dele falha.
De novo.
Ele abraça a menina.
Forte.
Forte demais.
— Te amo, filha… — murmura — Não vou deixar nada te machucar.
Observo.
Algo ali não encaixa.
Mas estou cansada demais pra montar o quebra-cabeça.
Quando o quarto se fecha, sobra o silêncio.
E ele.
Sempre ele.
— O que o Aiden quis dizer com “quem você é de verdade”?
Ele passa a mão no rosto.
Demora.
— Eu vou te contar.
— Agora.
— Dess…
— Agora ou some da minha vida.
Silêncio.
Respiração pesada.
— Eu… caí por você.
Eu rio.
Sem humor.
— Isso não explica nada.
Ele desvia o olhar.
Erro.
— Eu não devia estar aqui… nunca devia ter descido.
— Descido de onde?
Ele pensa.
Demais.
— De um lugar onde… a gente não escolhe.
Cruzo os braços.
— Continua.
— Eu fui criado pra obedecer. — a voz baixa — Pra guiar… não pra sentir.
Pausa.
— Aí vocês apareceram.
— “Vocês”?
— Humanos.
Um riso seco.
— Fracos… confusos… livres.
Ele me encara.
— Preferidos.
Aquilo incomoda.
Sem eu saber por quê.
— E aí?
— Tinha… alguém. — ele hesita — Um dos primeiros.
Outro erro.
Pequeno.
Mas tá lá.
— Ele começou a falar coisas… a plantar ideias.
— Tipo?
— Que vocês não mereciam existir.
Silêncio.
— E você acreditou?
— Não. — rápido demais — Eu só… não impedi.
— Covarde, então.
Ele aceita.
Sem brigar.
— Talvez.
Eu me aproximo.
— E a mulher?
Ele trava.
Por meio segundo.
— Que mulher?
Eu sustento o olhar.
Ele perde.
— Eu conheci alguém… na Terra.
— E?
— Eu prometi que ia proteger ela.
A voz falha.
Dessa vez… de verdade.
— Não consegui.
Silêncio.
— E o filho?
Ele fecha os olhos.
— Não nasceu.
Curto.
Seco.
Sem detalhe.
— E você caiu por causa disso?
— Eu fiquei. — corrige — Quando não devia.
— E virou o quê?
Ele abre os olhos.
Cansados.
Antigos.
— Algo que não devia existir.
Silêncio.
— Foi por você que eu caí, Dess. Fala alguma coisa…
Eu não consigo.
Porque alguma coisa ali…
faz sentido.
Mesmo não fazendo.
Em choque, aos prantos, eu não consigo.
Não consigo…
O silêncio pesa entre nós. Entre meu choro e a história de um amor que atravessou eras, sinto o mundo desabar, mas também a estranha sensação de que nada será como antes.
Levo um tempo pra parar de chorar, tentando juntar meus pedaços.
Vincenzo não diz nada.
Só me observa.
Como se cada respiração minha fosse culpa dele.
— Digamos que eu acredite nessa história absurda… — minha voz sai rouca — Por que teu Deus não te ajuda a se livrar do tal Anjo Mau? Ele não é justo?
— Ele é justo, Dess. — firme — Se eu tô aqui… é por causa disso. Ele sabe o quanto eu te amo.
Eu solto um riso seco.
— Para de palhaçada. Eu sou ruim pra cacete. Você sabe disso.
— Sei o que você fez. — ele não recua — Nunca vi maldade. Só falta de escolha.
Aquilo me irrita mais do que qualquer acusação.
— Onde você tava quando eu me prostituí? Quando eu adoeci? Onde tava esse Deus perfeito?
— Com você. — sem hesitar — Você que não ouviu. E eu… eu tava te procurando.
— Entre bilhões de pessoas? Coitadinho de você.
— Não faz isso. — baixo — Você já não me olha como antes.
— Porque você já não é o mesmo.
Ele se inclina, aquele olhar antigo… perigoso.
— Eu sou o mesmo que sempre te amou.
Reviro os olhos.
— O narcisista de sempre.
Um sorriso torto.
— Não é narcisismo.
— Ah, claro. Seu transtorno é gostar de espancar mulher.
Num segundo, ele já tá perto demais.
Mãos firmes nas minhas têmporas.
— Eu já te machuquei?
— Fisicamente, não… — engulo seco — Mas você me destrói. E sempre destruiu.
Silêncio.
— A mulher que pulou do penhasco… — encaro — sentiu tua mão?
— Nunca. — duro — Ela carregava um filho meu.
— EU NÃO QUERO SABER!
— Boba… — ele sorri, quase gentil — Era você.
Eu o empurro.
— Então eu era o quê? Vidente?
Ele ri.
E por um segundo… é ele.
O de sempre.
— Como você apareceu naquela noite? — corto — Naquele lugar imundo? Na noite do estupro coletivo?
O sorriso morre.
— Eu ouvi.
— Ouviu o quê?
— Seus gritos. — simples — Gritos… e preces.
Silêncio.
— Eu não cumpri minha promessa.
— Que promessa?
— Eu disse que jamais acreditaria em algo maior… — passo a mão no rosto — Antoine me ensinou a amar o Crucificado.
— Jesus?
— Não, Noé. — reviro os olhos — Me poupa.
Ele quase sorri.
Quase.
— Ainda não acredito em você. — continuo — Qualquer um inventa essa história. Basta ler a Bíblia. Só… a parte de nós dois… isso você criou.
— Eu tô te contando a verdade.
— E o que isso tem a ver com agora? — avanço — Por que você sempre me abandona?
Ele trava.
Pequeno.
Mas trava.
— Eu preciso despistá-lo.
— Quem?
— Meu inimigo.
— Aiden?
— Não. — rápido — Ele… tem motivos.
— Quais?
— Não posso dizer.
— Claro que não pode! — explodo — Nunca pode!
Ele perde a paciência.
— O Tio Lu, Dess! Esse é o problema!
— Meu problema é você no meu sofá! — aponto pra porta — Some daqui!
— Dess… — a voz quebra — Você precisa acreditar. Ele não vai parar.
— Parar com o quê!?
— Você ouviu o que ele fazia com filhos de humanas!
— Eu não acredito em nada disso! — empurro o peito dele — Matar crianças inocentes!? Onde tá o Teu Deus!?
E então...
Asas.
Gigantes.
Brancas.
Queimam na minha mente.
Eu recuo.
— Sai… — sussurro — Sai daqui, Vincenzo…
— Eu não devia ter contado…
— Se você é anjo… é eterno, não é?
— Até que…
— FALA!
— Até gerar um filho humano.
Silêncio.
— Traduzindo… — cruzo os braços — Se nosso filho nascer...
— Sim.
— Tipo morrer do nada?
— Não. — impaciente — Mas viro… vulnerável.
Eu rio.
— Que conveniente.
— É assim que funciona!
— Então alguém vai aparecer com uma faca bem na hora em que nosso filho nascer vc morre?
— Hipoteticamente, idiota.
E ele sorri.
Idiota.
— Gostei do “nosso filho”.
— Bastardo.
— Você é linda…
Reviro os olhos, mas… não tanto quanto queria.
— Então… — penso alto — Se nossos filhos tivessem vivido…
— Para. — duro — Não pensa nisso.
— Você teria algo a perder.
— Eu nunca machucaria nosso filho! Eu te amo!
— Que amor, Vincenzo!? — a voz falha — Você sempre vai embora!
— PRA ELE NÃO TE ENCONTRAR! — explode — Você não entende!?
Silêncio.
Pesado.
— Se ele souber… — mais baixo — ele vai destruir tudo.
— Ele é imortal… você não.
— Ele foi o primeiro. — olhar distante — Não é como os outros.
— Mais forte que você?
— Eu perdi quase tudo quando caí.
— Caiu feio.
— Não ri de mim.
— Você me ferra toda vez que aparece!
— Eu sei… — baixo — E mesmo assim… te amo.
— Então para de amar! — seco — Amor que dói não serve.
Silêncio.
Eu mudo de assunto.
— De onde vem tua grana?
Ele pisca.
— Sério?
— Casa na praia não cai do céu.
— Eu trabalho. — meio irritado — E herdei dinheiro de alguém que morreu nos meus braços.
— E não salvou?
— Eu não sou Deus!
— Pra mim nunca foi misericordioso.
— Eu sou!
Eu rio.
— Levou a Sweet pra um quarto e me deixou pra trás.
Ele fecha a cara.
— Eu tenho sentimentos! Eu fiquei com raiva! Ciúmes! Você tava com outros homens!
— Eu trabalhava!
— Eu sei! — passa a mão no rosto — Eu errei.
Silêncio.
— E agora? — encaro — Por que ainda tá com ela?
— Não tô. — direto — Ela pediu ajuda com o carro.
— Nossa. Convincente.
— Não fizemos nada.
Ele sustenta meu olhar.
Tempo demais.
E eu… cedo.
Droga.
— Só compaixão.
— Que dívida é essa?
— Eu matei ela… em outra vida.
Congelo.
— Acidentalmente.
— Você morreu também?
— Mais ou menos.
— Sempre no mesmo corpo?
— Ao que parece.
— Não faz sentido.
— Eu sei.
Silêncio.
— Você tem mais dinheiro do que finge.
Ele ignora.
— Anjos têm mãe? — ataco
Ele trava.
De verdade, agora.
— Vincenzo. — baixo — Tua mãe morreu. Eu vi.
Ele respira fundo.
— Somos muitos aqui… — lento — Alguns caíram. Como eu.
— E ela?
— Também.
— E o pai?
— O amor dela.
Silêncio.
Pesado.
Inacabado.
Como tudo entre nós.
— Então você teve infância? — passo a mão no rosto — Isso… tá fodendo com a minha cabeça. Para.
Silêncio.
Eu me afasto.
O homem diante de mim… desmonta a cada pergunta.
— Eu não confio mais em você. — baixo — Como eu continuo te amando assim?
Ele não responde.
— Você tá estragando uma das únicas coisas boas que eu tinha. — engulo seco — Por que me contou?
— PORQUE VOCÊ INSISTIU! — explode — DISSE QUE IA SUMIR COM ANTOINE!
— NÃO GRITA!
O silêncio volta.
Pesado.
— Qual é o lance do Aiden?
— Já disse… — tenso — não posso falar.
— Então por que não deixou ele entrar!?
— Porque se ele voltar… — encara — sua vida vira um inferno.
Frio na espinha.
— O que tem de errado com ele?
— Ele… — hesita — E aquele a quem ele se uniu.
— Fala direito!
— Você e ele têm algo pra resolver. — duro — E eu não posso me meter.
— QUE PORRA É ESSA!?
— Você precisa libertar ele.
Congelo.
— Libertar… do quê?
— Não posso dizer.
— Claro que não pode… — a voz quebra — Nunca pode.
Ele passa a mão no rosto, irritado.
— Só escuta uma coisa: não deixa ele voltar.
— Por quê?
— Lembra do dia que a gente expulsou aquele demônio daqui?
Meu estômago revira.
— O que isso tem a ver com ele?
— Pensa, Dess.
— Não quero pensar! — a voz falha — Eu não quero mais saber de nada disso!
Silêncio.
Denso.
Ele me encara.
E, pela primeira vez…
com pena.
— Esquece. — baixo — Eu vou resolver.
— Como?
— Não te interessa.
— Imbecil.
— Idiota.
— Qual é o nome do teu inimigo? — avanço — O que me empurrou do abismo?
— Ele não te empurrou. — firme — Você pulou.
Aquilo me acerta.
— FALA O NOME!
Ele hesita.
Erro.
— Lúcifer.
O ar some.
— Não fala mais nada… — recuo — Melhor você ir embora.
— Não posso.
— Por quê!?
— Porque ele vai querer o que é nosso.
Meu coração dispara.
— Do que você tá falando!?
Eu corro.
Corredor.
Quarto.
Antoine.
Antes que eu grite, ele me segura.
Forte.
Meu corpo contra a parede.
Sem ar.
— Dess. — sussurra, perto demais — Me escuta.
Tento me soltar.
Não consigo.
— Não conta nada pra ela. — urgente — Não deixa ela se conectar a ele.
Minhas lágrimas escorrem.
— Ele faz qualquer coisa pra me atingir. — mais baixo — Inclusive tirar nossa filha.
Meu mundo para.
— Por ela… — encosta a testa na minha — Fica quieta.
Ele tapa minha boca.
— Não vai gritar se eu soltar?
Assinto.
Ele acredita.
Erro.
Assim que solta...
— ANTO...
A mão volta.
Mais forte.
— Eu fiz merda… — a voz quebra — Eu errei. Você não devia saber disso.
Meu peito aperta.
— Me perdoa… — sussurra — Eu vou consertar.
Ele tenta sorrir.
Mas...
algo quebra.
O corpo dele trava.
Cai.
No chão.
Convulsiona. Urra de dor.
Nada como um bom chute entre as pernas de um homem.
Um grito rasga o corredor.
Eu desperto.
Abro a porta.
Antoine.
Nos meus braços.
— Ela tá dormindo, tia… — Cassandra observa, desconfiada — Tá tudo bem?
— Tá. — minto — Tá tudo bem.
Não tá.
Nada tá.
— Vai dar tudo certo… — sussurro pra Antoine — Tudo certo, filha…
— Dess…
— Fica longe de mim. — rosno.
Ele se aproxima mesmo assim.
Senta ao lado da cama.
Toca o cabelo dela.
Com cuidado.
Demais.
— Ninguém vai levar minha filha. — minha voz treme — Ninguém.
Ele engole seco.
— Ninguém vai levar Antoine. Eu juro.
Eu rio.
Quebrada.
— Suas promessas não valem mais nada! Nem aqui, nem no céu!
Ele fecha os olhos.
Aquilo acerta.
— Some daqui! — minha voz falha — Eu vou surtar!
— Se acalma… ela vai acordar.
— NÃO TOCA NELA!
Silêncio.
Pequeno.
Frágil.
— Mamãe…?
Antoine abre os olhos.
Meu coração quebra.
— Por que você tá chorando?
Olha pra ele.
— Você brigou com ela, pai?
Ele engole.
— Não, filha… — a voz falha — Eu vou… sumir.
— Não some, pai…
Aquilo destrói ele.
Eu vejo.
Na cara.
No jeito que ele para de respirar por um segundo.
Ele se levanta.
Devagar.
Vem até mim.
— Vocês duas… são minha vida. — baixo — Eu faria tudo de novo.
Minha raiva vacila.
Por um segundo.
Maldito.
— Eu errei em te contar. — continua — Mas eu posso consertar isso.
Frio percorre minha espinha.
— Do que você tá falando?
Ele não responde.
Só me olha.
Como quem se despede.
— Você vai esquecer… — sussurra — Mas não do que eu sinto por você.
— Não toca em mim!
Tarde demais.
Os dedos dele encostam na minha testa.
— Shhh…
Tudo apaga.
Abro os olhos e encontro o sorriso dela. Lá fora, trovões rasgam o céu, e o cheiro de chuva invade o quarto. De pijama, sinto frio.
Ele se senta na beira da cama e me cobre com o edredom, com um cuidado que dói mais do que qualquer ausência.
— Tá melhor?
— Melhor de quê?
— Você ficou tonta depois do lanche. Fiz um chá. Você apagou. — Um meio sorriso. — Antoine e eu ficamos por aqui enquanto você descansava.
Olho ao redor, ainda meio perdida.
— Quem acendeu a lareira?
O fogo crepita baixo. O calor me abraça devagar.
— Eu. — Ele me observa. — Você gosta de fogo?
— Gosto. — Dou de ombros. — Por que não gostaria?
— Por nada. — Ele baixa o olhar, como se tivesse pensado alto demais.
Inclina-se, beija o topo da minha cabeça… e se levanta.
Na porta, hesita.
— A gente se vê amanhã.
Algo no jeito que ele diz aquilo me atravessa.
— Tem certeza? Vai voltar mesmo?
— Vou. — Responde rápido demais. Sem alma.
Mentira.
— Você lembra de alguma coisa depois do jantar?
Ele me encara por um segundo longo demais.
— Lembro… que você não comeu pizza.
Franzo a testa.
— Tem mais na geladeira.
Ele assente, mas não se move.
E eu não aguento.
Corro até ele.
— Volta, Vincenzo. — Me jogo no abraço, apertando como se isso fosse impedir o mundo de levar ele embora. — Não me abandona. Não de novo.
Ele me segura. Forte. Quase como despedida.
— Eu volto, Dess. Para de pensar besteira.
Minto pra mim mesma que acredito.
— Você prometeu meu vestido de noiva.
Um sopro de sorriso.
— Eu vou comprar.
O beijo vem pesado, urgente… cheio de algo que parece fim.
Quando ele vai embora, o silêncio ocupa o quarto inteiro.
Volto pra cama, tentando remontar o dia.
Tudo intenso demais.
Tudo… incompleto.
Existe um buraco na minha memória. Um vazio entre o jantar e agora.
E isso me irrita mais do que deveria.
Viro de lado, puxo o edredom.
Antoine e eu precisamos sobreviver.
De algum jeito.
O celular toca.
Reviro os olhos antes de atender.
— Alô.
— Que bom ouvir você assim.
Fecho os olhos.
— Fala, Aiden. O que quer?
— Preciso te ver. É urgente.
— Urgente tipo o quê?
— Seu apartamento. E outras coisas. Se tem que ser feito, melhor logo.
Sento na cama.
— Você tá maluco? Quem disse que vou vender meu apartamento?
— Eu disse que precisava te ver.
— Vai cuidar da tua vida, Aiden. Você quase arrebentou minha porta!
— Fiquei com ciúmes, baby.
Reviro os olhos com força.
— “Baby” é o caralho. Eu quase implorei por um beijo e você travado esperando autorização. Tenha uma péssima noite.
Ele ri.
Baixo. Satisfeito.
— Você só tem a mim…
— Para com essa voz de novela. Você me dá arrepios.
Silêncio.
— Tô tentando mudar… por você.
O peito aperta. Odeio isso.
— Tô cansada, Aiden. Dia foi um inferno. Amanhã eu resolvo tudo. Eu e o Vincenzo vamos dar um jeito.
— Você ainda confia nele… — a decepção vem limpa, sem esforço. — Quando acordar, me procura.
— Vai pro inferno.
— Espera.
Respiro fundo.
— O que é agora?
— Antoine merece uma festa.
Congelo.
— Como você sabe disso?
— Eu sei. — A voz dele baixa. — Me deixa fazer isso por ela.
Um arrepio sobe pela minha espinha.
— Vou pensar.
— Sonha comigo.
A ligação cai.
Fico olhando pro celular aceso no escuro.
Observada.
Apago.
Ou quase.
Entre sono e vigília, o quarto parece respirar diferente.
O cheiro muda. Mais denso. Mais quente.
Mãos.
Lentas.
Como se soubessem exatamente onde tocar.
— Posso matar a tua fome?
A voz não deveria soar assim dentro da minha cabeça.
Mas soa.
E meu corpo… responde.
— Pode.
O resto é sensação.
Calor.
Pressão.
Entrega.
Sem rosto. Sem lógica. Só necessidade.
Acordo com uma cólica.
Respiro fundo, irritada.
Menstruação.
Claro.
Me viro na cama, puxando o lençol.
O corpo ainda carrega ecos do sonho.
Ignoro.
Preciso focar.
Festa da Antoine. Contas. Sobreviver.
Vender roupa. Sapato. O que der.
Olho pras minhas botas encostadas no canto.
Essas não.
Nunca.
Passo os dedos pelo couro.
Memórias grudadas ali.
A fuga. A moto. O corpo dele contra o meu.
O coração batendo no meu ouvido.
Fecho os olhos.
— Filho da puta…
— Tia! — a voz de Jujuba me desperta. — Palavrão é feio!
Enfio um punhado de batata frita na boca.
— Eu sei.
E continuo mastigando mesmo assim.
— Feio mesmo. Escapou… — Rio, e Antoine e as meninas me imitam.
Sugo o refrigerante pelo canudo, observando o lugar. Shopping caro, luz demais, gente demais.
Por que eu tô aqui com ela?
— Desembucha. O que você quer?
— Nada, amiga. — Sweet surge impecável. Sempre impecável. Maquiagem perfeita, cabelo alinhado, unhas que parecem armas. — Só agradecer e…
— E o quê?
Puxo o capuz do moletom, me escondendo.
Espelho é inimigo. Sempre foi.
— O que você vai fazer no aniversário da Antoine?
— Não sei. — Minto fácil.
Já tá tudo planejado. Simples. Do meu jeito.
Mas não vou dividir isso agora.
— Posso ajudar?
— Com que dinheiro, Sweet? — baixo a voz. — Aquele carro não bate com o que você ganha.
As crianças olham. Engulo o resto.
— É assim que ela fala comigo, tia. — Juju reclama.
Suspiro, tiro o capuz.
— Sua mãe te ama. Só… erra o tom.
— Não precisa me defender. — Sweet segura minha mão. — Eu sei quem eu sou.
Silêncio.
— Deixa eu ajudar. — insiste, mais baixa.
Olho Antoine correndo. Rindo.
— Ela vai ter uma festa. Do jeito que eu puder pagar.
— Eu sou madrinha. — Sweet puxa um envelope. — Pega.
Meu estômago trava.
— De onde veio isso?
— Rescisão.
— Rescisão?
— Saí do California. — Dá de ombros. — Depois que te mandaram embora… eu também saí.
Pisco.
— Você fez isso por mim?
— Antes disso… — um sorriso torto — Dei um presente pro chefe. Ele não vai usar o pau tão cedo.
A gente ri.
E aí eu começo a chorar.
— Adessa… — ela aperta minha mão. — Tá tudo bem?
— Por que você fez isso?
— Porque você faria.
Simples assim.
Abraço ela com força. Derrubo refrigerante. Não ligo.
— Eu te amo, amiga.
— Eu sei.
O envelope volta pra minha mão.
— Pega.
Mas aí vem a imagem.
Vincenzo. O carro. Ela.
Recuo.
— O que foi?
— Nada.
Mentira feia.
— Essa grana é minha, amiga. — ela ri. — Não fiz nada com ele.
Engulo seco.
— Não vou aceitar.
Empurro o envelope.
E vejo.
Um homem ajoelhado na frente da Antoine.
Elegante demais. Calmo demais.
Errado demais.
— Se afasta da minha filha!
Corro.
O soco pega em cheio no nariz dele.
Ele não reage.
Só sorri.
Limpa o sangue com um lenço, como se fosse rotina.
— Vem, filha. — puxo Antoine.
— Ele só perguntou minha idade, mamãe…
— Sete anos… — ele diz, olhando direto pra mim. — Número interessante. Sagrado, para alguns.
— Foda-se. Chega perto dela de novo que eu te mato.
Ele se inclina.
Muito perto.
— Difícil matar imortais. — sussurra no meu ouvido. — Mas você pode tentar.
Meu corpo trava.
— Tem mais força do que imagina.
Ele recua, desprezando o ambiente com um olhar.
— Odeio humanos.
Os olhos dele voltam pra Antoine.
— Até breve.
Antoine começa a chorar. Aperto ela contra mim.
Não sinto o chão.
— Me tira daqui… — sussurro pra Sweet.
No carro, ainda tremo.
— Você conhece ele? — Sweet pergunta.
— Não.
E, pela primeira vez…
eu queria estar mentindo.
Depois do banho, o vapor ainda cobre o espelho.
O envelope me espera na cômoda.
Não toco.
Ainda não.
Antoine e eu estamos sozinhas.
Silêncio raro.
No sofá, dividimos pipoca assistindo qualquer comédia idiota. Rimos. De verdade.
Por alguns minutos… esqueço.
Esqueço o homem.
Esqueço Aiden.
Esqueço tudo.
Beijo a testa dela quando adormece.
Levo pra cama.
Deito ao lado.
Não quero ela sozinha.
Não hoje.
Talvez nunca mais.
Fecho os olhos.
E, mesmo assim…
a sensação não passa.
A gente não tá segura.
Caminho descalça até a cômoda.
O envelope me encara.
Hesito.
As palavras daquele homem ainda ecoam na minha cabeça. A forma como ele falou de Vincenzo… como se conhecesse. Como se soubesse mais do que eu.
Respiro fundo.
Abro.
Notas de cem.
Muitas.
Demais.
Um gosto amargo sobe pela garganta.
Encontro o bilhete, amassado entre o dinheiro.
“Vc merece mais, amiga. Te amo.”
A letra torta da Sweet.
Seguro por alguns segundos.
E desabo.
As notas escapam da minha mão, espalhando pelo tapete.
Corro pro banheiro, fechando a porta com cuidado. Antoine não pode ouvir.
Não agora.
Apoio as mãos na pia. Encaro o espelho.
E paro de fugir.
Eu vi.
Vincenzo.
Dentro do carro.
O envelope.
O jeito que ele olhava pra ela.
O depois.
Fecho os olhos, tentando apagar.
Não apaga.
Nunca apaga.
Um som preso rasga minha garganta.
— Que merda…
Ele quis ajudar.
Ou quis pagar.
Ou quis… continuar.
Rio sem humor.
— Um anjo…
Balanço a cabeça.
— Um anjo não faz isso.
Silêncio.
Pesado.
Final.
— Eu odeio você.
Engulo seco.
— E odeio mais ainda ter acreditado.
Respiro fundo.
Lavo o rosto.
Quando levanto a cabeça, não tem mais dúvida nenhuma ali.
Só decisão.
Antoine é uma criança.
Normal.
Não tem nada de especial.
Não tem risco.
Não tem nada.
Repito isso até quase acreditar.
Volto pro quarto, pego o celular.
Bloqueio.
Número.
Nome.
Tudo.
Simples assim.
Como se resolvesse.
Como se apagasse.
O ar muda.
Não devia, mas muda.
Mais pesado.
Mais denso.
Como se a casa respirasse diferente.
Levanto o olhar.
Ele já está ali.
Não ouvi porta.
Não ouvi passos.
Nada.
Só… presença.
Um sorriso frio desenha o rosto dele.
Não é humano.
Não finge ser.
Ele não precisa.
Fico imóvel.
Antoine encostada em mim, tranquila demais.
Errado.
Tudo errado.
— Posso entrar?
A voz é baixa.
Mas não pede.
Nunca pediu.
Meu corpo inteiro trava.
Minha cabeça grita.
Minha boca responde.
— Pode.
Idiota.
Ele avança.
Devagar.
Seguro.
Cada passo parece ocupar mais espaço do que deveria.
O ar pesa nos meus pulmões.
Ele para perto demais.
Os olhos cravam nos meus.
Sem pressa.
Sem culpa.
— Finalmente… — inclina a cabeça, quase curioso — My Irish Angel.
Um arrepio violento desce pela minha espinha.
— Agora ele ouviu.
Meu coração falha um batimento.
Porque eu entendo.
Tarde demais.
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