CAPÍTULO 1 - QUANDO TUDO COMEÇOU



Se agora, ao final, eu soubesse quanto sofreria tanto por você, teria feito tudo de novo.

Te amar me arrancou do fundo do poço, meu Heathcliff.


Meus pais diziam que eu lhes custava caro. Nunca entendi exatamente como.

Estudei a vida inteira em escola pública. Quando passei em uma federal, em outro estado, quase não voltava para casa. Não dava trabalho. Não engravidei na adolescência. Não usei drogas. Não bati porta. 

Não gritei. Eu só existia.

Sempre tentei ser a boa filha. A que tira notas altas. A que não reclama. A que agradece. Boas filhas são invisíveis. As ruins, não. Elas ocupam o tempo, o discurso, o afeto..

Eu tinha dezoito anos. Ainda era inteira. Ainda intacta. Nunca tinha transado. Nem com homens. Nem com mulheres. Minha inexperiência era quase uma religião.

Anos depois, eu me tornaria um corpo caro nas mãos de estranhos. Ironia divina, suponho.

A clareira surgiu no meio da escuridão como um segredo mal guardado. Uma fogueira enorme ardia no centro. Mulheres nuas dançavam ao redor, embriagadas, uivando para a lua cheia.


Meu primeiro pensamento foi prático: “Vão cair e se queimar.”

O segundo, honesto: “Que merda eu estou fazendo aqui?”

O vinho passava de boca em boca. Eu jamais dividiria uma garrafa com desconhecidos. Dividi. O mundo começou a girar devagar.

Quando percebi, estava só de lingerie diante de Beverly. Calcinha preta simples. Sutiã quadriculado. Nada sensual. Nada planejado.

— Tá gata. Relaxa. — ela sussurrou, tentando abrir meu sutiã com dedos impacientes.

O hálito de menta. A proximidade. O calor da fogueira nas minhas costas.

Ela me puxou para longe da roda. Deitamos numa toalha sobre a grama úmida. Eu estava bêbada demais para pensar direito. Não bêbada o suficiente para não sentir.

Sua boca encontrou a minha. O piercing tocou minha língua. Curioso. Frio. Elétrico.

Por alguns segundos, me deixei levar. Porque queria sentir alguma coisa que não fosse vazio. Mas parei. Não era medo dela. Era medo de mim. Empurrei-a com delicadeza.

— Não.

Beverly desapareceu na multidão como se nunca tivesse estado ali. Então o vento mudou. Forte. Morno. A fogueira se apagou de uma vez. Silêncio. O cheiro de enxofre se espalhou pela clareira.

— Ele chegou! — gritou uma das mulheres.

Uma senhora me segurou pelos ombros com força.

— Deixe que ele te toque. Deixe que ele te possua.

O álcool evaporou do meu corpo.

— Me solta, sua louca!

Meu coração batia tão alto que eu mal ouvia os próprios passos.

— Fica! — ela gritou atrás de mim. — Você não vai se arrepender!

Eu corri. Se soubesse o quanto aquele momento me custaria, jamais teria saído do meu quarto.


— Não quero ficar. — rosno. — Me solta, porra.

A fumaça densa ganha forma. Primeiro contorno, depois braços. Imensos. Sólidos. Irreais.

Mãos fortes me agarram pelo braço. Luto. É inútil. Ele me sustenta com facilidade absurda. Não vejo o rosto. Só sinto intenção. Posse.

Agarro o crucifixo de ouro que minha mãe me deu antes de morrer e repito, três vezes, a única oração que restou da minha infância estranha:

“A Cruz Sagrada seja minha Luz.”

Ele me lança contra a relva úmida. Ar some dos meus pulmões. Engatinho. Levanto. Corro.

Ainda escuto sua voz gutural:

“Vou te tocar, Adessa. Você é minha.”


Ele não veio por todas.
Veio por mim.

Eu poderia ter parado ali. Voltado para o quarto. Fingido que nada aconteceu. Não parei. Queria me formar. Queria provar aos meus pais que eu não era a puta que eles imaginavam que eu seria. Minha mãe morreu antes de me ver “vencer”.

Vencer o quê?

Um diploma na mão. Um capelo na cabeça. E um sonho antigo de ser bailarina. A bailarina que eles não deixaram nascer.

Engraçado como a vida ri da gente.

Estudei tanto e acabei me sustentando através do meu próprio corpo. Ele havia mudado. Pela primeira vez, gostei do que via no espelho. Seios fartos. Quadris desenhados. Cabelos longos e negros. Boca que chamava atenção. Beijada e usada por um. Um professor medíocre de uma academia barata.

Ele me apresentou a um amigo, dono de uma boate na área nobre da cidade. Homens ricos. Luz baixa. Dinheiro fácil. Aceitei por curiosidade. Nunca imaginei que pisaria naquele palco. Nua.

Eu já disse que amo dançar?

Anos depois, na “Hotel California”, eu entenderia o preço da curiosidade.

— Aonde vai?
— Ao banheiro.
— E me deixar sozinha com esse bêbado?
— Calma, Adessa. Ele é meu amigo.
— Não é meu.

Um beijo forçado. Aperto no pulso. 

— Seja boazinha.

Ele some na multidão. Eu fico. O estranho me observa. Pupilas dilatadas. Bebida. Luxúria. Tentei cobrir os seios com o tecido fino do vestido. Ele desliza a mão pela minha coxa. Estapeio.

— Eu tenho namorado!
— Foi ele quem disse que eu podia ficar à vontade.

O mundo inclina.

— À vontade onde?
— Você não é profissional?
— Não. Sou formada em Educação Física. Quero dar aula. Quero dançar! Não sou o que pensa.
— Não foi o que ele disse.

Claro que não. Ele ri.

— Quanto?

Minha garganta seca. Penso no aluguel atrasado, na TV de cinquenta polegadas que namorava na vitrine, na sensação de ser escolhida.

— Quanto pra quê?
— Pra te foder.

Eu deveria ter ido embora. Sentei de novo.

Erro crasso.

— Eu não sou prostituta.
— Gostei de você. Eu sempre consigo o que quero.

Olho para a pista. Meu “namorado” beija outra garota. Algo dentro de mim desaba. Não é amor. É humilhação.

— Três mil por duas noites. — ele diz.
Três mil. Duas noites. — Noites de quê?
— Sexo.

Silêncio. 

Não pensei que valesse tanto.


— Pagamento adiantado.
— Feito.

Sério?!

O celular vibra. Pix. Tão simples. Eu me vendi em menos de quinze minutos. Ele me puxa pela mão. Olho para o personal. Ele sorri de volta. Ergo o dedo médio.

— Vai ter volta.

Nunca teve. Nunca mais o veria.

Saio do salão.

Entro no inferno.



Dentro do carro dele, maior que meu quarto, ele se anima. Minha mãe costumava dizer: “Quem está na chuva é pra se molhar.” Estranho lembrar dela agora.

Finjo brincar, sorrio, provoco. Mas estou lutando. Contra ele. Contra o toque insistente. Ele é forte. Muito mais forte do que eu.

Enlouquecido, me puxa para o colo no banco do motorista. Sinto o desejo dele pressionando meu corpo. Não quero beijá-lo. Não quero nada disso. Quero a grana. Preciso dela. Então me movo como ele espera. Faço o papel. Sobrevivo.

— Não. Não. — sussurro quando ele se expõe.

O que estou fazendo aqui? Deveríamos estar comemorando dois meses de namoro. Por que aquele verme fez isso comigo? Por que aceitei a proposta? Eu não quero isso. Não saí de casa pra isso. Não tenho casa.

EU JÁ NÃO TENHO CASA.

Vão me expulsar do “apê” se eu não pagar o aluguel. Como vou quitar o CREF atrasado? Como continuo existindo? Preciso respirar. Por que as janelas estão fechadas? Preciso respirar! ABRA A PORRA DAS JANELAS!

— NÃO! EU NÃO QUERO!

Ele ri. O estalo da mão dele no meu rosto me faz perder o ar. Tento reagir. Recebo outro golpe. Meu queixo lateja. Aprenderia a lutar anos mais tarde. Naquele momento, só aprendi a suportar.

Bem-vinda à sua futura vida, Adessa.



Por dois dias e duas noites, fui usada. Não foi fantasia. Não foi cena de filme da "Sessão da Tarde". Nada de música. Nada de mergulho em banheira com espumas. Nada além de violência física e moral. 

Não foi escolha livre. Foi necessidade vestida de silêncio.

Foi humilhação. Vergonha. 

Quando tudo termina, confiro a transferência bancária. Deitada na minha nova cama box, diante da TV que sempre sonhei, vestindo meu pijama de flanela quadriculada, tento me convencer:

Valeu a pena.

Repito. Valeu a pena.

Mas o nojo não sai.


Não vou romantizar a prostituição. Não há glamour. Não há prazer constante. Há dinheiro. Dinheiro paga portas, compra tempo, constrói fuga.

Poderia ter parado?

Sim.

Teria conseguido um trampo mais digno?

Sim.

Eu consegui parar?

Não.

Em uma única noite, ganho o que levaria meses como professora ou personal. Rápido. Nunca fácil.

Não é a vida que sonhei. É a vida que encontrei para sair do lugar onde me quebraram.

Meu nome começa a circular entre homens casados, ricos, entediados. Sou convidada para festas privadas, encontros secretos, lugares onde ninguém usa o próprio nome. Eu topo. Cada depósito me aproxima de ir embora.

Há coisas que fiz e não pretendo repetir. Outras finjo que não me afetaram.

Em uma dessas festas, fui imobilizada por quatro homens. Durante horas, meu corpo foi conduzido, moldado, usado. Em algum momento, algo dentro de mim desligou.

Não foi o toque. Não foi a violência. Foi perceber que, por alguns instantes, não senti nada.

Ou pior. Senti controle no meio do caos. Poder onde antes só havia medo.

Não era prazer. Era anestesia. E anestesia vicia tanto quanto dinheiro.

A doença que me acompanharia anos já mostrava o rosto. Eu ainda não sabia reconhecer.

Voltei para casa. Um banho longo. A água quente ardendo nos hematomas que eu fingia não ver. Diante do espelho, meu corpo parecia de outra pessoa.

Tonta de tequila e cansaço, deitei. Quase adormecendo, senti. Uma presença. Um calor entre minhas pernas. Uma língua.

Assustada, arremesso o lençol. Não há ninguém. Apenas o quarto escuro. O ventilador girando. A porta fechada. Mas a sensação continua. Meu corpo reage. Traidor.

Fecho os olhos. Talvez efeito da bebida. Talvez culpa. Talvez carência. Talvez a parte de mim que aprendeu a transformar medo em excitação para sobreviver.



Deito novamente. Deixo acontecer. Não porque quero. Porque é mais fácil não lutar.

De repente, um peso sobre mim. Um cheiro estranho. Enxofre misturado a algo doce.

— Quem é você? Quero te ver.
— Sou quem você quiser que eu seja.

A voz não vem de fora. Vem de dentro.

— Vá embora.
— Eu sou seu. Posso te dar o mundo.

Sinto mãos que não existem. Uma presença que me invade sem tocar.

— Não farei pactos com ninguém.
Ele ri.

Tento tocar um rosto que não vejo. O ar fica denso. A sombra recua até a porta e se desfaz.

— Basta pedir.
— Seu nome.
— Ga’al.
— Eu te conheço?
— Você esqueceu.

O quarto volta ao normal. Ainda excitada, ainda confusa, pego o celular. Gravo meu próprio corpo como se ele fosse produto. Como se eu fosse espectadora de mim mesma. Comentários chegam rápido. Dinheiro virá depois.

Talvez eu tenha nascido para isso. Ou talvez só tenha aprendido cedo demais que meu corpo é moeda.

Exausta, durmo.

E sonho.

Do Outro Lado, ele me espera.


— Onde estou?

— Não importa.

O lugar parece uma caverna. Terra, pedra, sombras.
— Tenho medo.
— Não te machuco. Eu te fortaleço.
— Você mente.
— Eu te dei tudo.
— Não acredito.

Ele se aproxima. O medo me paralisa. Há algo humano em seus olhos. Algo conhecido demais.

— Ajoelhe-se — ele diz.
Não ajoelho.

Mas acordo suando, coração disparado, como se tivesse feito algo do qual me envergonho.

Naquela noite, começou.

Não um pacto com o demônio.

Mas um pacto comigo mesma.

Se o mundo queria me usar, eu aprenderia a usar o mundo primeiro.

Minha mãe falava do Crucificado. Eu não pedi ajuda. Ainda não.

A Luz viria anos depois, nos braços de uma menina. Até lá, viveria nas sombras.


Viveria nas mãos de dois homens peculiares que me amariam de um jeito doentio.






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