CAPÍTULO 7 - UM SONHO BOM

 





A luz suave da sala se reflete nos vidros, espalhando tons quentes pelo chão. O aroma do vinho ainda paira no ar, misturado ao perfume doce e familiar dele.


— In vino veritas — ele sussurra antes de eu dar o primeiro gole naquela noite em que nos beijamos pela primeira vez.


Como se me avisasse: tudo poderia acontecer se eu cruzasse a linha que nos separava.


Eu cruzei.

Me entreguei inteira.

Ele não.


O frio da noite não importa. A tontura não vem do vinho. Vem do beijo dele. Das mãos que percorrem minhas costas. Da pressão firme e delicada. Do calor que me consome.


Ele tira o suéter pela cabeça, arqueando o corpo de um jeito que me deixa sem ar. Observo cada gesto, hipnotizada. Surge diante de mim com o sorriso mais iluminado e cafajeste que já vi.


Tremores percorrem meu corpo. Cada toque é fogo.


Ele desabotoa lentamente a parte de cima do meu pijama de flanela quadriculado, rosa e lilás. A música baixa preenche a sala, cada nota ecoando no meu coração acelerado.


— Por que tá rindo? — minha voz sai trêmula enquanto ele me observa de sutiã e calça larga. — É de mim ou é pra mim?


— Responde! — ele provoca.


Irritada e insegura, agarro um cinzeiro da mesinha. Ele segura meu braço antes que eu faça qualquer besteira e nos cola de novo. O cinzeiro cai no chão.


Eu não.


Estou nos braços dele.


Estamos mais próximos do que jamais estivemos, e ele ainda sorri como se eu fosse um enigma fascinante.


— Nada a ver — ronrona, encostando a ponta do nariz na minha nuca. — Não sei por onde começar. Você é tão linda que dá medo.


— Deixa de ser bobo — sussurro, enterrando o rosto no pescoço dele. — Sou eu que estou com medo aqui.


Ele inclina a cabeça, divertido.


— Damas primeiro?



— Me segura… você tá me deixando tonta. — Beijo o pescoço dele, aliso suas costas musculosas. — Quando treina? Antes ou depois de expulsar demônios?


— Depois. Pra descontrair.


Ele beija minha bochecha até o canto da boca.


A música termina. Encosto a testa na dele, quase sem fôlego. Estou a centímetros da boca delineada, das covinhas que surgem quando sorri.


— Por que ainda não nos beijamos?


— Porque não consigo parar de olhar pra você. Seus…


— Seios? Estão aqui. Todos seus.


Tento tirar o sutiã, mas ele prende meus punhos atrás das costas. O brilho de malícia nos olhos dele me incendeia. Na ponta dos pés, tento alcançar sua boca. Ele recua, sorrindo.


— Você não me quer? Esperei tanto por isso…


— Esperei mais do que você, Dess. Muito mais. Preciso congelar sua imagem na minha mente. Pra nunca esquecer.


— Falando assim… me assusta. Parece que, se nos beijarmos, você vai sumir da minha vida.


— Nunca mais vou sair da sua vida. Prometo.


— Promete?


— Prometo.


Meu impulso destrutivo desperta. Pego o cinzeiro do chão e quase o arremesso nele outra vez. Mas o peso dos braços dele me prende. Ele passa os polegares pelas minhas lágrimas.


E eu sinto que poderia me perder ali para sempre.


— Você acaba comigo com essas mudanças bruscas de humor — respiro, tentando recuperar o controle.

— Dess… você pensa demais. Colabora.

— Não me esconda nada.

— Não escondo. Perdão por ter agido como um babaca.

— Como deixar de te perdoar quando você me olha desse jeito?

— Vou tentar compensar, meu anjo.

— Não precisa. Já me esqueci.

— Sua alma é pura, Dess.

— Não é…

Fecho os olhos. Imagino minha vida sem ele. O pensamento me rasga por dentro. Choro baixo, pedindo desculpas por estragar o clima, mas incapaz de me afastar.

— Deixa eu sentir seu gosto… agora?



O cheiro dele. O calor. A firmeza das mãos. A malícia contida. Tudo converge.

Estou completamente entregue.
E ele sabe.

Quando sua boca invade a minha, não há delicadeza calculada. Há fome. Mordidas rápidas. Respiração entrecortada. Um domínio que não machuca, mas desarma.

— Tira… — escapa de mim, mais pedido que ordem.

Ele hesita um segundo.

— Quer parar?

— Nunca.

Ele me ergue com facilidade. Minhas pernas se cruzam nele. O mundo desaparece. Existe apenas a pressão do corpo dele contra o meu, a alternância entre controle e rendição.

— Chupa… — imploro, já sem vergonha do que quero.

Ele me segura pelos punhos acima da cabeça. Não com violência. Com certeza.

— Não se atreva a se mover, Adessa Rossi.

Meu corpo congela.

Rossi?

Meu sobrenome é Santoro.

O choque me atravessa como um relâmpago. Ele me envolve, me segura, e então tudo faz sentido naquele delírio apaixonado: o sobrenome não é erro. É promessa.

— Dess… acorda. Por que tá chorando, meu anjo?

Acordo.

— Você… disse que meu nome teria o mesmo sobrenome que o seu? Isso significa que…

— Que você é minha, e eu sou seu… per sempre. Casa comigo?

Sento sobre ele, ainda atordoada. Meu código de conduta grita dentro de mim.

— O dono dessa cama é casado?

Ele ri, estalando os dedos diante do meu rosto.

— Não. O dono desta cama não é casado. Ainda.

— Ainda?

— A cama e a casa são minhas. Mentira confessada. Agora você sabe.

Respiro fundo. Ainda nua entre os lençóis de lavanda.

— Então… podemos fazer amor? Mesmo sabendo que não trepo com homens casados?

— Exatamente. É por isso que te quero assim, Dess. Por inteiro.

Há algo diferente agora. Não é só desejo. É escolha.

Quando ele diz que não vamos “trepar”, mas fazer amor, não soa romântico demais. Soa sério.

E quando meu impulso explode em:

— Agora??? — quase gritando, entre medo e excitação,

ele apenas sorri.

No quarto, a cama enorme parece testemunha silenciosa.

— Dess, a cama é minha. E antes que pergunte, sim, tudo aqui é meu.

— Então podemos?

— Podemos.

O que acontece depois não precisa de repetição. Não é sobre partes do corpo. É sobre entrega. É sobre dois extremos se encontrando.

— Me fode gostoso — sussurro, arqueando o corpo, incapaz de fingir recato.

— Adessa, para de pensar — ele geme contra minha pele.

E pela primeira vez, eu paro.


— Espera!

Ele me deixa sozinha por um instante, sorrindo como um idiota satisfeito, e volta com um rádio portátil. Coloca-o na mesinha de cabeceira.

— MÚSICA!

Ajusta o volume no máximo. E então entendo. Não é trilha sonora. É para silenciar minha cabeça. Para que eu pare de pensar. Para que ele pare de disputar comigo e passe a disputar apenas com o meu corpo.

— Por quê? — pergunto, ainda tonta, encarando seu membro ereto.

— Perfetto! Pode pensar no que quiser agora porque, definitivamente, EU. NÃO. VOU. TE. OU.VIR!



Com aquele sotaque italiano que me desmonta, ele volta para mim. Beija minha boca com fome, desce pelo meu corpo, envolve meus seios, provoca, lambe. Um novo orgasmo me atravessa, inesperado, e eu rio, rendida.

Os dias seguintes viram delírio.

Café na cama. Beijos demorados. Mãos e bocas descobrindo caminhos que já conheciam de outras vidas. Cama, praia, mar. Nenhum limite. Cada toque reforça algo que parece antigo demais para ter começado agora.

Na praia, corremos como crianças até ele me capturar. No mar, quase submersos, meu gemido se mistura ao sal.



— Faz de novo! — imploro, presa ao seu pescoço. — Teu pau é tão gostoso! — berro em seu ouvido, sentindo a resposta feroz do seu corpo.

Ele me leva de volta à areia. Deita-me. As estocadas são firmes, intensas, quase violentas. Não há delicadeza. Há entrega.

— Me fode! Vai! Me rasga ao meio! — grito contra o vento.

Gosto disso. Amo isso. Sou dele.

Antes dele, só havia Escuridão. Agora acordo querendo viver. Ao lado dele. Para sempre.

O sexo fica mais rude a cada vez. Despudorado. Lascivo. Ele faz questão de me levar primeiro ao ápice. Repete que minha satisfação é prioridade. Quando goza, urra como um homem possuído, estranho e maravilhoso. Tenho certeza de que nunca foi assim com a ex-noiva.

A vaca que o traiu.


— PERDEU! AGORA ELE É MEU, VADIA!



E eu sou dele. Completamente. Não sei quem seria sem ele. Não penso nisso. Ele prometeu.

Ele vai cumprir.

Deitados, exaustos, falamos sobre o futuro. Pergunto o que faremos ao voltar para a cidade. Digo que talvez tente modelar. Juro que nunca mais vou trepar com ninguém além dele.

— Sério!?

Ele para de me acariciar e me olha entre minhas coxas, satisfeito. Passo a mão em seus cabelos crescidos.

— Como serão as coisas lá na igreja? — insisto. — Você pode continuar padre e se casar comigo?

Ele se senta na beira da cama, de costas.

— Não, meu bem. Não. Não sei o que fazer sobre isso, mas vou dar um jeito. Prometo. A única coisa que sei… — Ele se vira, deita ao meu lado, apoia a cabeça no cotovelo. — É que não vou ficar sem você.

— Promete?

— Prometo.

— Você é do tipo de padre que celebra missa? Batina, estola?

— Não. Nunca fui. Sou um tipo diferente.

— Do tipo que expulsa demônios. — concluo. — Do tipo que conquista mocinhas inocentes.

Ele gargalha.

— Inocente? Você?

— Uma parte minha é. Nunca amei ninguém. Não sei lidar com isso. Não me machuca, amor.

— Não vou. — Ele roça meus lábios. — Não vou te machucar nunca.

— Por que me trouxe pra cá? Como soube que Ga’al não me seguiria?

— Dess, para de falar um pouco. Tô tentando descansar, mulher.



— Diz! — belisco seu braço. — Como ele não entraria aqui? O que você fez?

Ele suspira.

— Magia. Lembra quando cuidei dos seus ferimentos com unguentos e poções?

— Sim!

— O mesmo vale para a casa. Abençoada pelos meus superiores. Protegida. Nada que não tenha o coração puro ultrapassa aquela porta.

— Superiores? Quem são eles?


— Não posso dizer.


— Por que não!? Isso é ridículo!


— Dess...


— Ok... — Fico olhando para o teto enquanto ele tenta dormir. — E quanto àquela pintura a óleo na parede? Só me diz isso. Só isso e eu paro de falar.


Ele resmunga, vencido pelo sono. Num movimento calculado, deixo meus seios à mostra. Ele desperta no mesmo instante. As mãos me tocam, mas o olhar já está aceso.


Se quer dormir, escolheu o pior caminho.


— Quem é aquele homem de pé, atrás daquela mulher belíssima? — insisto. — A expressão dele é triste. E ele parece com você.


— Que retrato, Dess? — Ele tenta me distrair, mas eu continuo.


Até que solta, casual:


— Sou eu.


Eu o empurro e me sento na cabeceira.


— O que foi?


— Como “o que foi”??? Aquela pintura é do século XVII ou antes! Ou você tem uns quatrocentos anos e está impecável, ou foi fantasia do pintor!


— Dess... fica quietinha, fica?


— Não fala comigo assim! Estou tentando entender algo que me atormenta desde que chegamos aqui! Agora que estamos tão próximos, posso perguntar! Ou não!?


— Sim! — Ele abre os olhos azuis, cheios de desejo e desconforto. A pintinha no canto da boca me desmonta. — Foi um amigo do mosteiro. Ele gosta de retratar histórias antigas. Disse que eu tive um amor naquela época e pintou aquilo como homenagem. Uma fantasia bonita. Satisfeita? Posso voltar aos seus… seios?


— Não são peitos! Não sou galinha! São seios!


Puxo-o pelos cabelos e o beijo com força. Sei que ele mentiu. Mas não quero rasgar o momento.


— Cara… você é um padre diabólico — penso alto, enquanto ele me cala com a boca e com o corpo.


Só saímos do quarto para banho, jantar, mercado. Sempre juntos.


Estou no paraíso.




Na última noite, preparo o jantar. Mesmo com as interrupções constantes dos braços dele ao redor da minha cintura, a lasanha fica perfeita.


Vou lavar as mãos. Ele aparece atrás de mim, encaixando-se. Seguro na pia. Meu corpo responde antes da razão. Sinto meus seios maiores, mais pesados, doloridos. Impressão minha?



— Vamos comer? — digo depois, tentando recuperar o fôlego.


— Você? — Ele ri, pedindo mais.


— Vá! Come! Agora! Um... dois... três!


Ele obedece, teatral.


— Além de linda e gostosa, você cozinha muito bem.


— Imagina. Você está faminto. Come mais um pedaço.


— Se você comer comigo, eu topo.


Sirvo o penúltimo pedaço para ele. O último, para mim. 

— Come, amor. Você não tem comido direito. Pensa que não reparei?


— Nada a ver!


Empurro comida garganta abaixo, fingindo naturalidade. 


— Para vocês é fácil. Eu olho para um doce e engordo dois quilos.


— Seu corpo é perfeito.


Ele segura minha mão, beija meus dedos.



Ao som de "Photograph", de Ed Sheeran, penso em silêncio. Mas sei que ele percebe algo. Sempre percebe.


Daqui a poucas horas voltaremos à cidade. Talvez tudo continue igual. Talvez não.


Talvez eu esteja evitando comida porque tenho medo de vomitar de novo. Medo de me esconder no banheiro. Medo de mentir.


Talvez haja outro ser dentro de mim.


Talvez eu os perca.


Talvez eu tenha tudo.


A música acaba. Corro para o quarto. Ele vem atrás.


— Por que está chorando, amor?


Ele se ajoelha à minha frente.


— Nada vai mudar. Eu juro. Voltaremos aqui logo.


Enxuga minhas lágrimas enquanto mancho a foto que tiramos na praia. Revelada às pressas num estúdio moderno demais para essa cidade pequena.


— Você está pálida. Quer deitar? Eu arrumo tudo e volto.


— Você é meu anjo. Sabia? — soluço. — Tenho medo. Nunca fui tão feliz. Não quero perder isso.


Ele me cobre com o edredom de cheiro doce.


— Fica comigo.


— Fico.


E fica. Até eu adormecer com os olhos presos na foto.


Não quero partir.


Algo vai mudar. Minha intuição nunca falha.



Tudo pronto. As malas no porta-malas. Eu evito o fusquinha herdado do pai. Padre. Rico. E agora?


O vento levanta areia. O mar anuncia chuva.


— Em que essa cabecinha de minhoca está pensando?


— Em nada. Você não ouviu?


— Não. Estava longe. Não sou tão poderoso quanto você pensa.


Ele se senta ao meu lado. A água toca nossos pés.




— Por que parou de pensar, Dess? Isso me assusta.


— Sabe o que descobri?


— Não.


— Que somos uma dupla dinâmica. Você ouve pensamentos. Eu sinto o que os outros pensam ou sentem. Podemos enriquecer com isso. Que tal?


Ele me encara, sério.


— Quando desenvolveu essa… faculdade?


— Minha maldição?


— Dess…


— Ué. É assim que sinto. — Sorrio, tentando desacelerar o coração.


— Você consegue sentir ao tocar objetos ou pessoas?


— Sim. Nunca parei para pensar. Sempre captei impressões de lugares, gente… até de móveis antigos. Estranho, né?


— Não. — Ele analisa. — Você seria valiosa em nossa equipe de exorcistas. Poderia…


Ele para de falar.


Minha cabeça se encolhe entre os joelhos. O vento cresce, chicoteando meu rosto.


Não. Não fala deles. Não fala dos padres que podem tirá-lo de mim.


— Dess, eu vou conversar com eles. Vão entender. Vão me liberar dos votos.


— Não vão…


— Vão! Eu garanto!


— Ele disse que não. E eu confio nele.


Silêncio.


— Ele quem??? — Vincenzo olha ao redor, tenso. — Ele quem, Dess???


— Ele disse que posso chamá-lo de Louis. Mas o nome é outro. Disse que você o conhece muito bem… e que não vamos ficar juntos porque ele te odeia.


A expressão dele muda.


— Que merda é essa, Dess!? — A voz sobe, misto de medo e raiva. — Quem está perto de você? É Ga’al!?


Ele se levanta, gira, invoca nomes contra o vento. Nada responde.


Então se ajoelha diante de mim.


— Fala o nome. Preciso do nome para expulsá-lo.


A chuva começa fina. O céu escurece de vez.



— Dess! O nome!


Um trovão rasga o céu.


— Louis Far…


Ele repete, testando, até encaixar as sílabas numa memória que o atravessa.


O rosto dele endurece.


— Lúcifer!!!


O nome explode junto com o trovão.


O mar se revolta. A chuva desaba.


Ele encara o céu como se esperasse um duelo.


E então eu o vejo.


Não como vejo Vincenzo. Não como vejo o mar.


Ele simplesmente está.



— Seu namorado é dramático — diz a voz, suave.


— Ele é meu homem. — Eu o encaro sem baixar os olhos. — Não pense em tocar nele ou eu acabo com você.


— Não duvido. Então está disposta a perdê-lo?


— Se for para o bem dele, sim.


Ele sorri.


— Confia nele?


— Confio.


— Que ingenuidade. Há tanto que você não sabe.


— Suma.


— Só por hoje. Estou cansado.


Antes de desaparecer, deixa o aviso:


— Ragnar está de volta. Vocês vão se encontrar. Você não o reconhecerá. Cuidado. Ele é absurdamente irresistível.


O mundo volta de uma vez.


Quando Vincenzo me encontra caída na areia, estou chorando.


— Ele voltou? Lúcifer voltou!?


— Não… — minto. — Só estou com saudades daqui.


Ele me envolve.


— Você está tremendo.


— Me abraça e não me solta nunca. Promete?


— Prometo.


Dentro do carro, enquanto cantarolo baixinho algo de Ed Sheeran, escondendo o choro, sinto o calor seguro dele ao volante.


— Dess, eu não vou te deixar. Acredita em mim.


— Acredito.


Mas uma parte de mim sussurra:


Odeio ser burra.









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