CAPÍTULO 11 - VALE DAS SOMBRAS




— Meu filho?!


— Está bem. Você teve sorte.


— Sorte? Eu?


— Sim. Não fale agora.


— Como não falar? O que aconteceu comigo?


— Se continuar, não consigo aferir sua pressão.


— Eu não me importo. — tento me sentar. O quarto gira. — Quero saber do meu filho.


O estetoscópio frio toca minhas costas.


— Inspire. Expire.


Obedeço. Contra vontade.


Toco minha barriga. Depois as mãos arranhadas.


— Como isso aconteceu?


— Você caiu.


— Caí onde?


— No asfalto.


O ar trava.


— Como fui parar no asfalto?


— Após ser empurrada.


Silêncio.


— Por quem?


— Pelo homem que a salvou.


Meu coração dispara.


— Ele me empurrou e me salvou?


— Você estava prestes a ser atropelada.


Ele fala como quem comenta previsão do tempo.


— Como sabe meu nome?


— Está no prontuário, Adessa.


Antes que eu pergunte mais, a porta se abre.


Aiden.


— Vim te ver, baby.


Meu estômago revira.


O médico se levanta.


— Ainda não a liberei para visitas.


— Ela parece ótima.


— Quem decide isso sou eu. Saia.


Os dois se encaram. O ar pesa. Não é a primeira vez que aqueles olhares se cruzam.


Aiden sai.


Silêncio.



— Vocês se conhecem?


— Não.


Mentira tranquila demais.


Ele segura minha mão. Pela primeira vez sinto algo sólido. Quente. Real.


— Seu filho está bem. Concussão leve. Cortes superficiais. O bebê não sofreu impacto direto.


Eu quase choro.


— Quem é você?


Ele me observa como se me conhecesse há muito tempo.


— Vigie seus pensamentos. E não aceite nada de estranhos.


— Do que está falando?


Ele se inclina. Beija minha testa.


— Basta lembrar.


Veste o jaleco.


— Estarei sempre contigo. Chame por meu nome.


— Qual é?


— Miguel.


A palavra explode dentro de mim.


O enterro.

O nome.

A promessa.


Miguel.



Quando a ficha começa a cair—


— Isso não importa, baby.


Aiden. De novo.


Ele surge atrás de mim como se nunca tivesse saído.


— Você e seu filho estão ótimos. Pra que se preocupar?


Minha memória encaixa de repente.


— Foi o Vincenzo. Ele me empurrou.


— Ele te salvou.


— Eu preciso vê-lo.


Tento levantar.


Aiden me segura.


— Pensa no teu filho.


A porta se abre.


Uma enfermeira jovem demais. Bonita demais.


— Vamos descansar.


— NÃO.


Algo frio entra na minha veia.


O mundo dissolve.


O último som que escuto é o riso de Aiden.


Triunfo.


Escuridão.



Até hoje nenhum funcionário lembra de um médico chamado Miguel.


Nem da enfermeira.


“Deve ter sonhado”, disseram.


Sonhado.




 

— Já fomos a vários hospitais, meu anjo. Você não pode se cansar.


— Doc, eu não estou doente. Estou grávida. Não vou parar até encontrar Vincenzo. Ele precisa de mim. Eu sei. Eu sinto.


— Para onde vamos agora? — pergunta Doc, exausto de tanto dirigir. — Não faço ideia de onde procurar. A não ser...


— Que cara é essa? Fala, Doc!


Ele fecha os olhos e balança a cabeça, como se espantasse um pensamento ruim.


— Doc! Nem pense nisso! Ele está vivo!


— Filha... já o procuramos em todos os hospitais da cidade.


— E voltamos ao ponto de partida — comento, desanimada. — Meu bairro.


— Não vamos desistir, Adessa.


— Valeu, Doc. — enxugo as lágrimas. — Sem você eu não conseguiria.

Por que está me olhando desse jeito?


— Porque talvez precisemos procurar em outros lugares além de hospitais.


— Não! — desespero-me. — Eu me recuso a procurar o pai do meu filho em lugar de gente morta, Doc! Ele está vivo! Ele está vivo!


— Me desculpa...


Choro sem controle e me deixo abraçar por ele até a respiração voltar ao normal.


Quando abro os olhos outra vez, algo chama minha atenção.


— O que houve, filha? — pergunta Doc.


— Olha ali!


Aponto para trás dele.


Doc abre a janela do carro, confuso.


— O que tem ali?


— O carro do João! O amigo do Vincenzo!


Meu coração dispara.


— Isso é um sinal!


Abro a porta do carro antes mesmo de pensar e corro até a casa de fachada de tijolinhos, ao lado do galpão de boxe.


— Vem!


Aceno para Doc, que tenta me alcançar.


— Espera, Adessa! Não grita!


— Por que não? — pergunto, agarrando o portão de ferro. — Ele deve estar aqui! João é o melhor amigo do Vincenzo! Se alguém está com ele, é o João!


— Adessa, não!


— JOÃO! SOU EU! ADESSA!


Aperto a campainha repetidas vezes.


Doc observa tudo com os olhos arregalados, incapaz de conter meu impulso.


Empurro o portão.


— Está aberto!


— Adessa, não! Fique aqui. Eu entro.


— Do que você tem medo? — retruco, tentando passar.


Ele me segura.


— Sai, Doc! O pai do meu filho está aqui. Eu sinto o cheiro dele.


Seguro a mão de Doc e a pressiono contra minha barriga.


— Sente isso! Nosso filho também sabe que ele está aqui!


Choro de alegria.


— Ainda tem dúvidas?


Doc olha ao redor, tenso.


— Não entra. Por favor. Pense no seu filho. Você não pode ter emoções fortes.


— Cacete, Doc!


Empurro-o de lado.


Antes de atravessar a sala da casa, percebo o olhar estranho dele para algo na calçada.


— Do que você tem medo? Ele está vivo!


Doc me puxa pelo braço.


— Fica aqui. Eu vou.


— Nunca! — respondo sem pensar. — Ele vai gostar de me ver. De ver o filho que ele salvou!


Entro.


A casa está silenciosa.


Mas no fundo do corredor escuto vozes.


Sigo o som, guiada por algo que não sei explicar.


Doc vem atrás de mim.


— Você nunca esteve aqui — ele diz.


— Não preciso — respondo, eletrizada. — Eu sinto o cheiro de maçã verde.


Meu coração dispara.


— Vincenzo! Sou eu!


Uma voz fraca responde do outro lado da porta.


— Dess...?


Abro a porta de uma vez.


— Como nos encontrou... amiga?



Eu pisquei várias vezes antes de acreditar no que via.


Uma mulher servia um prato de sopa ao pai do meu filho.


Vincenzo me encarava com uma mistura de espanto, medo e alegria.


Doc me segura para que eu não caia.


Não. Agora não é hora de desmaiar, sua idiota.


Você sabe exatamente o que fazer.


Sei.


Meu sangue ferve enquanto Vincenzo levanta a mão.


— Dess... calma.


— NÃO É O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO! — grita ele.


Tarde demais.


Eu já estou em cima dela.


Sweet Child cai da cadeira com o prato de sopa, mas ainda assim mantém aquele maldito olhar de triunfo.


Monto sobre sua barriga irritantemente definida — e o piercing me irrita ainda mais.


Agarro seus cabelos.


Puxo.


Ela grita.


Suas mãos prendem meus pulsos, mas eu já estou movendo a cabeça.


CRACK.


Minha testa acerta a dela.


Bingo.


O sangue começa a escorrer pela testa de Sweet.


Nem sei o que estou fazendo.


Só sei que, segundos antes, quando abri aquela porta, vi Vincenzo sorrindo para ela.


Sorrindo.


— ME SOLTA, SUA LOUCA!


— PIRANHA! — rosno. — DEIXA O PAI DO MEU FILHO EM PAZ!


— ELE ME QUIS, SUA PUTA BURRA! ELE ME QUIS!


Eu paro.


A frase me atravessa como uma faca.


Doc me puxa para trás.


Vincenzo chama meu nome, mas mal consigo enxergá-lo de tanta raiva.


— Dess, raciocina!


— Eu te procurei pela cidade inteira! — grito. — Eu e Doc achamos que você estava morrendo! E você está aqui... com essa puta!?


— RACIOCINA! — ele rebate. — OLHA MINHA PERNA!


Só então noto o gesso.


A cama.


A imobilidade.


— Está quebrada! — ele continua. — Eu estou preso nessa maldita cama! O que você acha que eu posso fazer nesse estado!?


— TUDO!!! — grito, histérica.


— Não, Dess...


Minhas forças falham.


Doc me segura antes que eu caia.


— Vamos voltar outro dia, Adessa — ele murmura.


Atrás de nós, Sweet se levanta, devastada. Mechas de cabelo espalhadas no chão, misturadas à sopa.


Vincenzo tenta se levantar.


— Dess... conversa comigo.


— Houve sim! — Sweet rosna. — Não minta!


— CALA A BOCA! — Vincenzo dispara.


Ele manca na minha direção.


— Dess, me escuta!


— Não chega perto. — minha voz sai baixa. — Não fala nada agora.


— Amor... eu te empurrei...


— Eu sei — respondo, olhando para ele. — Eu lembro de tudo. Você me salvou. Salvou nosso filho.


Minha garganta fecha.


— Então eu achei que isso significava alguma coisa pra você.


— E SIGNIFICA! — ele explode. — Eu estou aqui porque não queria que aquele cara chegasse até mim!


— Que cara? — pergunto.


Sweet ri com ódio.


— Aiden.


Silêncio.


— Aiden e o "seu" Vincenzo se conhecem — ela continua. — E se odeiam.


Eu olho para Vincenzo.


Depois para Sweet.


Minha voz sai quase sem som.


— Como ela sabe disso?


Ninguém responde.


Meu peito aperta.


— Desde quando essa mulher faz parte da sua vida, Vincenzo?


Ele tenta falar.


— Dess, não é o que você pensa.


— Não mesmo — ironiza Sweet, inflando as narinas. — Você não faz ideia do que rola aqui, amiga.


— Cala a boca! — grita Vincenzo, furioso. A perna engessada, o rosto cheio de escoriações. — Fica quieta ou eu mesmo vou te meter a porrada!



— Não foi o que você disse agora há pouco. — Ela ri, sarcástica. — Não foi isso o que me disse naquela noite, Vincenzo. Lembra? Você disse pra eu me mexer com força.


— Eu vou te fazer calar essa boca! — ameaça ele, transtornado.


Recuo, aterrorizada. Doc me abraça enquanto Sweet continua provocando.


— É disso que você gosta, não é? De bater em mulher. É por isso que me procura... porque eu deixo que faça o que quiser comigo.


Ela se inclina até quase tocar o rosto dele.


— É por isso que você fode comigo, né? Gostoso...


— CHEGA! — grito, engolindo o choro.


Com a voz embargada, aviso:


— Se me procurar outra vez, eu te mato. Eu juro. Fica com ela. Vocês dois se merecem.


— DESS, NÃO!


Corro até a porta da sala e esbarro em João.


— Adessa! Você está bem?


— Por quê, João!? — pergunto, aos prantos. — Por que deixou essa mulher entrar na sua casa e ficar com ele!?


— Que mulher, Adessa? Eu saí para comprar remédios pra ele e—


— NÃO!


Me desvencilho de sua mão. Na outra ele segura uma sacola de uma drogaria.


— Eu confiei em você, mas...


Olho em seus olhos e, entre soluços, concluo:


— Você não tem culpa. Talvez nem saiba quem é seu amigo. Ele é um monstro, João. Tome cuidado.


— Espera, Adessa! Não vai! Ele te esperou por tanto tempo!


Uma parte de mim quer desaparecer dali.


A outra quer ouvir o que João tem a dizer.


— Por que ele se escondeu aqui, João? — choramingo já dentro do carro de Doc.


Vincenzo surge à porta, arrastando-se com uma bengala.


Ele tenta se aproximar antes que Doc ligue o carro.


Quase consigo tocar sua mão estendida.


Pelo retrovisor, vejo quando ele se apoia em João e grita, desesperado:


— EU PRECISEI ME ESCONDER PRA NÃO MORRER!

— DESS, EU TE AMO! EU TE AMO, CARALHO! VOLTA!



Doc me leva até meu apartamento, apesar de insistir para que eu e meu filho passemos a noite na casa dele.


Estou encolhida no sofá.


— Vou ficar bem, Doc — digo num fio de voz. — Como você sabia que Sweet estaria lá?


— Vi o carro dela. Tentei te afastar de lá, mas você não me ouviu.


— Como sempre, não é?


Assoo o nariz.


— Eu preciso parar de ser impulsiva.


— Precisa, filha. Hoje você quase se machucou. Quase machucou meu netinho.


Sorrio para tranquilizá-lo.


Mentira.


— Vou ficar bem, amigo.


— Não vai não. Vai sofrer sozinha. E amigos existem justamente para esses momentos. Vamos lá pra casa. Adele e eu te amamos.


— Obrigada, Doc. Só quero me deitar e dormir...


Hesito.


— ...pra sempre.


— Não vá fazer besteira, Adessa!


Ele se assusta, os olhos úmidos.


Senta ao meu lado e me abraça com força.


— Me promete que não vai fazer besteira?


— Se matar?


— Nem brincando com isso.


Ele faz o sinal da cruz.


— No que está pensando?


— Em vingança — rosno. — Mas fique tranquilo. A última coisa que penso é em me matar. Meu filho não merece isso.


Respiro fundo.


— Estou pensando em vender o apartamento. Sair dessa cidade... talvez desse país.


— Concordo.


Ele beija minha testa.


— Vamos sentir sua falta, mas talvez seja o melhor.


— É sim.


— Durma em paz. Me liga pela manhã.


— Ligo.


Doc acena antes de entrar no elevador.


Um aceno triste.


E então fico sozinha.


Sozinha com meu filho.


E com um coração em pedaços.


Ainda ouvindo o eco da voz de Vincenzo gritando por mim, sento na varanda.


Choro convulsivamente.



Pergunto a mim mesma se existe alguém naquele prédio sofrendo tanto quanto eu.


A campainha toca.


Assusto-me.


Quem poderia ser?


Não pode ser Vincenzo. Ele mal consegue andar.


Doc esqueceu alguma coisa?


— Quem é?


— Sou eu, querida. Abra, por favor.


Reconheço a voz.


— Aiden? Como passou pelo porteiro? Por que não tocou o interfone?


— O porteiro me deixou subir. Eu precisava te ver.


— Pra quê? Eu não quero ver ninguém. Vá embora.


— Abra a porta...


A voz dele é baixa.


— Quero te ver.


Abro.


— Eu já ia dormir — minto. — O que quer?


— Que você fique bem.


— Por que não entra?


Ele permanece no corredor.


— Você precisa me convidar.


Reviro os olhos.


— Agora você virou vampiro?


Ele ri.


E, contra a minha vontade, eu também rio um pouco.


— Adessa, você é espetacular. Mesmo triste consegue me fazer rir.


— Não me toque... por favor.


Recuo.


— Eu não estou bem.


Suspiro.


— Vai entrar ou ficar aí no corredor?


— Me convide.


— Ai, meu Deus...


Reviro os olhos.


— Entre, Nosferatu. Quer uma xícara de chá?


— Aceito. Desde que eu prepare uma pra você.


Desconfiada, observo enquanto caminhamos até a cozinha.


— Então tá...


Como se conhecesse o lugar desde sempre, Aiden acende o fogão e coloca água no bule.


— Camomila ou erva-doce?


— Camomila.


Sentada à mesa, observo enquanto ele abre meus armários sem hesitar.


— Como você sabe onde guardo meus chás?


Ele sorri de leve.


— Intuição, darling.



— Está gostoso?


— Ai… por favor. Não repita essa palavra por uns mil anos — resmungo antes de experimentar o chá fumegante. — E não me pergunte o porquê. Eu não vou falar nada.


— Ok. — Ele assente e se senta no tapete felpudo da sala, de onde, há poucos dias, eu havia retirado a camisa suja de Vincenzo.


Por que tudo me faz lembrar dele?


Porque você ainda o ama.


NÃO DEVERIA. AQUELE PORCO.


— Adessa… volte à Terra.


— Nossa, perdão. Estou sendo grosseira com você… novamente.


— Don’t worry, baby. Estou aqui para ser útil.


— Seu sotaque é tão fofo…


— Somente o sotaque?



Dou um gole no chá e me engasgo.


Tossindo, pouso a xícara na mesinha de centro enquanto sinto seu olhar fixo em mim.


Que porra é essa?


Desde quando ele gosta de mulheres?


— Aiden! Você está esquisito.


— Estou? Como?


Desnorteada, corto o clima de sedução de uma vez.


— Desde quando você e Vincenzo se conhecem?


— Não me lembro. Faz tanto tempo…


— Como assim não se lembra? Que “tanto tempo” é esse?


Ele sorri de canto.


E, por algum motivo, eu me sinto nua.


— Porra! Não vem com esse papo de outras vidas ou outros séculos, não! O que você colocou nesse chá?


— O que havia na sua cozinha.


— Está estranho… mas…


Dou outro gole.


— Está gostoso. Putz! — faço uma careta. — Quero dizer… saboroso.


Esvazio a xícara.


Ela escorregaria da minha mão se Aiden não a segurasse junto com a dele.


Sua pele é fria.


Sempre fria.


— Você pode ficar um pouquinho mais afastado?


— Claro. O sofá é grande. Você está bem?


— Não. Qual é a cor dos seus olhos, Aiden? Por que eles mudam de cor?


— Não sei do que está falando, baby.


— Que história é essa de “baby”? Você nunca me chamou assim.


— Você costumava gostar.


— Quando?


— Quer mesmo saber?


— NÃO!


Uma dor aguda me atravessa.


Curvo o tronco para frente.


— Me ajuda, Aiden! Está doendo!


— Calma, querida. Estou aqui.


Olho para seus olhos escuros segundos antes de vomitar em sua blusa de linho.


Ele não parece se importar.


Sem dizer nada, me pega nos braços e me leva até o banheiro.


Abre a tampa do vaso.


Ajoelho-me.


Outro jato de vômito.


Suas mãos seguram meus cabelos enquanto sua voz entoa algo baixo.


Um cântico.


Estranho.


Sinistro.


De olhos fechados, revejo o homem do retrato na sala de exposições do teatro.



Outro espasmo.


Outro vômito.


Empurro Aiden com o cotovelo e me levanto, desorientada.


Encosto na parede, perto da pia.


— Quem… é você?


— Seu amigo. Seu grande amigo e protetor. Não vou deixar que nada te faça mal.


Ele se aproxima.


— Nada.


— O que colocou no meu chá?!


Mal termino a frase e vomito na pia.


Minhas pernas tremem.


No espelho, vejo seu reflexo atrás de mim.


Ele me segura pela cintura.


Sua mão desliza até minha barriga.


E então ele sorri.


Um sorriso sombrio.


— Vou te levar ao hospital.


Ele sussurra no meu ouvido:


— Você está perdendo seu filho.


— Não deixa…


Olho para baixo.


O piso branco do banheiro está coberto de sangue.



Uma cólica violenta atravessa meu ventre.


Expulso Aiden do banheiro.


Atordoada, sento no vaso sanitário.


Então sinto.


Meu filho escapando de mim.


Escorrego no chão viscoso.


Bato a cabeça.


Tento alcançar seu pequeno corpo na água.


Outra cólica.


Me afasto.


Meus cabelos estão sujos de sangue quando engatinho até a porta.


Consigo abri-la.


— Salva… meu filho…


Aiden observa.


Por um segundo, ele hesita.


— ELE AINDA ESTÁ VIVO! PEGA!


Um olhar estranho cruza seu rosto.


Então ele obedece.


Frio.


Ele tira meu filho da água e o envolve em uma toalha.


Consigo me levantar.


Mal consigo ficar em pé, mas tomo meu filho de seus braços.


— Ele já está morto — diz Aiden.


— NÃO ESTÁ!


Lavo seu rostinho na pia.


A água corre.


— Vou te salvar, meu amor…


Começo a caminhar.


Ou melhor.


A me arrastar até a porta da sala.


Deixando um rastro de sangue pelo chão.


Aiden vem atrás de mim.


— Ele está morto, Adessa.


— Não está!


Rosno.


— Por que diz isso? Quer que ele morra?


Os olhos dele brilham.


— Não quero que ele sofra.


— Fica longe dele!


Minhas forças acabam.


Desabo no corredor, diante do elevador.


A última coisa que vejo é Aiden parado.


Observando.


Depois tudo escurece.



Acordo com os gritos de Vincenzo.


Abro os olhos.


E sinto apenas um vazio imenso dentro de mim.


Ele não está mais ali.


Estou oca.


João ajuda Vincenzo a caminhar até mim.


Procuro Doc.


Ele segura minha mão.


Seus olhos estão vermelhos.


Doc chora por tudo.


Por todos.


Mas eu não choro.


Estou seca.


Vazia.


Oca.



Vincenzo beija o topo da minha cabeça e chora por nós dois.


E pelo filho que não soube amar.


O segundo filho que eu daria a esse homem que mal reconheço.


Ele implora meu perdão.


Mais uma vez.


Eu não respondo.


Eu apenas fecho os olhos.


E volto a dormir.







Agora não me resta mais nada além de tentar te encontrar do outro lado.


Você vai me reconhecer?


Eu sei que vou te achar, onde quer que esteja, filho. Vou te encontrar… e ser feliz pela primeira vez. Dessa vez ninguém vai me impedir.


Basta ter um pouco de paciência.

Fingir que estou bem.


— Tem certeza de que já pode ficar aqui, meu anjo?


— Já, Doc. Você retirou tudo do quarto?


— Como você pediu.


A voz dele treme.


— Não chora, Doc. Seja forte por mim. Vou precisar de você depois… para encontrar meu corpo e enterrá-lo ao lado do corpo de Antoine. Vou deixar tudo escrito.


Ele abaixa a cabeça.


— Ei. Olha pra mim.


— Filha… eu não quero te deixar sozinha.


— Por que não?


Doc respira fundo antes de responder.


— Você tem seu dom de ver as coisas quando toca nas pessoas… e eu sinto o que existe no coração delas. O que você está sentindo agora me assusta, Adessa.


Sorrio.


— Fica tranquilo. Eu vou ficar bem.


Minto.


— Vou tomar um chá e dormir. Já faz tempo que tudo aconteceu.


— Não, filha. Um choque como o seu não se esquece. Você vai carregar isso pelo resto da vida.


— Eu vou superar.


Outra mentira.


— Não é o primeiro filho que perco.


Doc me observa com tristeza.


— Você não pode ficar sozinha aqui… nesse apartamento… onde tudo aconteceu.


— Não vou. Juro.


Como explicar que estou me despedindo?


— Aiden vem me visitar hoje.


Mais uma mentira.


Doc franze o rosto.


— Eu não gosto dele.


— Ele não é mau. E, de certa forma… mantém Vincenzo afastado de mim.


— Dê uma chance a Vincenzo.


— Não, Doc. Esse homem não existe mais.


Minha voz falha.


— Está morto.


Doc me abraça antes de sair. O abraço de quem sente que algo está errado.


— Filha… não faça nenhuma bobagem. Você ainda vai ser feliz. Eu juro.


— Eu sei.


Do outro lado.

Com meu filho.


— Adeus, Doc.


Quando a porta do elevador se fecha, sorrio.


Então volto para o apartamento.


Tranco a porta.


O silêncio me recebe.


Caminho até o quarto do meu filho.


Vazio.


Tão vazio quanto eu.


Abro a gaveta e visto meu pijama — o mesmo tecido, a mesma estampa do pijaminha dele.


Ainda tem cheiro de lavanda.


Fecho os olhos.


— Me espera, filho.


Falta pouco.


Escrevo duas cartas.



Uma para Doc.

Outra para Vincenzo.


Por que não mandar mensagens no celular?


Porque cartas doem mais.


E eu quero que Vincenzo veja as letras borradas pelas minhas lágrimas.


Releio o que escrevi:


“Você me decepcionou de todas as maneiras possíveis.

E de todas as maneiras possíveis eu te odeio.


Eu não quero morrer.


Mas preciso encontrar nosso filho.


Ainda te amo.


Se existir outra vida… talvez a gente se encontre.


E talvez você aprenda a me amar.


Adeus.”


Fecho os envelopes e os deixo sobre a mesa de cabeceira.


Agora só falta decidir como morrer.


Cortar os pulsos?


Imagino Doc encontrando meu corpo sobre os lençóis ensanguentados.


Não.


Ele não merece limpar minha sujeira.


Ansiolíticos, talvez.


Mas… e se eu sobreviver? E acordar em um hospital? Com Vincenzo ou Aiden ao meu lado?


Não.


Cortar os pulsos de novo.


Horizontal ou vertical?


Abro o Google.


A primeira coisa que aparece é um aviso patético:


“Procure ajuda.”


Reviro os olhos.


Começo a abrir vários links. Um deles fala sobre “sangrar através da escrita”.


— Porra.


Fecho tudo.


— Desisto.


Não posso perguntar ao meu vizinho médico.


DIABOS. EU SÓ QUERO SABER SE O CORTE É HORIZONTAL OU VERTICAL.


— Você não quer se matar.


A voz surge.


— Se quisesse… já teria feito.


— Cala a boca.


Afogue-se na banheira.


Penso por um instante.


— Boa ideia.


Vou até a cozinha.


— Misturo vinho com calmantes.


Foi assim que Whitney Houston morreu.


— Não foi.


— Como você sabe!?


— Eu não sou só uma voz.


Reviro os olhos.


— Cala a boca.


Abro a garrafa de vinho.


A rolha estoura.



— Delicioso…


Mais tarde, o celular ilumina meu rosto.


Uma notícia aparece.


Um político tailandês que cortou os pulsos em protesto.


Anúncios cobrem metade da tela.


— Eu odeio anúncios!


— Você não vai aprender a morrer navegando na superfície da internet.


— O quê?


— É preciso mergulhar mais fundo.


— Não quero! Tenho pavor da Deep Web!


— Mesmo se quisesse… você nem tem navegador para isso.


— Como você sabe de tudo!?


— Porque sou você.


Silêncio.


— Tem certeza?


Não.


— VAI PRO INFERNO!


Abro as janelas da sala.


O ar frio entra.


Não quero que o cheiro do meu corpo em decomposição fique nas paredes.


Então sinto.


A presença.


— Não me toque.


— Seu filho partiu.


A voz sussurra.


— Agora você não tem tanto poder.


— Tenho sim.


Minha voz treme.


— Meu filho está vivo em algum lugar. E eu ainda sou mãe. Em nome desse amor… eu te expulso.


A sombra ri.


— Eu não vou te fazer mal.


— Quem é você?


— Seu anfitrião… do outro lado.


O nome ecoa dentro de mim.


Ga’al.


Na banheira, a água morna sobe até meu peito.


O vinho já fez efeito.


— Tome o último comprimido.


— Some daqui.


— Você vai morrer.


— Em nome do Criador… eu te expulso.


A voz ri.


— Você não tem força para isso.



Minha cabeça afunda na água.


A vida começa a escapar.


Então vejo.


Um sorriso.


Uma criança.


— Não é sua hora, mamãe.


Meu coração explode.


— Antoine?


— Você ainda precisa me encontrar.


— Onde!?


— Lá fora.


Acorda.


Algo me puxa para baixo.


Uma mão gigantesca pressiona meu diafragma.


Ga’al.


Eu engulo água.


Queima.


Os pulmões implodem.


EU QUERO VIVER.


Outra voz surge.


Pequena.


Calma.


— Finja que morreu.



Giulia.


— Pare de lutar.


De repente a pressão some.


Ga’al sorri.


— Mais um pouco… e estaremos juntos para sempre.


Então um grito corta o banheiro.


— Não se eu puder evitar!


Uma força me arranca da água.


O ar invade meus pulmões como fogo.


Vincenzo.




Ele me arrasta da água.


Massageia meu peito.


Eu volto.


Cuspo água.


E a primeira coisa que faço…


É dar um tapa na cara dele.


Ele sorri.


— Idiota. Por que você me dá tanto trabalho?


— Eu te odeio.


— Eu te amo.


— Como sabia?


— Graças a Deus, você voltou. Nunca mais faça isso! — Pressiona os olhos, expelindo o ar pela boca aberta. — Entendeu? Nunca mais!


— Como sabia que eu iria…?


— Com quem você acha que conversava, Dess?


— Era você!? Na cozinha!? Você me incitou a tomar o vinho com ansiolíticos!?


— NÃO! — Grita, carregando-me em seus braços até o quarto. — EU ESTAVA GANHANDO TEMPO. QUERIA CHEGAR ANTES DE VOCÊ FAZER BESTEIRA!


— Não faz sentido.


— Não mesmo! Me arrancar da cama e me fazer  mancar até a sua banheira não faz sentido!


Acabo de voltar do mundo dos mortos e ele se preocupa consigo mesmo. Típico de narcisista.


— Porra, Dess! Para de pensar merda! Minha perna ainda não tá curada! Dói!


— É bom que doa! NÃO TOCA EM MIM!


— Preciso trocar sua roupa molhada — rosna. — Nada além disso.


— Por que não me quer mais? — Uma pergunta que nem eu sei de onde veio. — Eu ainda… PORRA! NÃO ME TOCA!


— Palerma, eu te amo. Por que tentou se matar? Por que não acredita em mim? — Pergunta com lágrimas nos olhos. Azuis, intensos, perigosos. NÃO POSSO!


— Dess, você precisa ser forte.


— Pra quê? Por quem?


— Por ela.


— Quem!?


— Ninguém… — Ele evita meu olhar. Abotoa meu pijama seco, desconfortável. Talvez não queira que eu descubra o que aconteceu naquela noite. — Onde fica o cesto?


— Que pergunta imbecil! Estamos em uma conversa que decide nossas vidas e você me pergunta sobre o cesto de roupas sujas?!


— Dess, preciso me deitar. Onde fica o cesto? — Dor, insistência. Impulsiva, o guio até o pequeno sofá. Apoio suas pernas em almofadas, calada, sem encarar seus olhos. Pernas que me salvaram da morte. Que salvaram nosso filho. Pernas que acaricio, inconscientemente, sob o jeans.


— Por que nos afastou? Por que se juntou àquela mulher? — Questiono, ajoelhada.


— Não pude, Dess.


— Por que não? — Engulo em seco. — Por que se escondeu na casa do João?


— Não posso falar.


— Por que não? Você contou a Sweet e não pode contar pra mim?!


— Por que acredita em tudo que ela diz? Não vê que quer nos separar? — Um toque de sua mão na minha bochecha quase me faz esquecer tudo. Quase. — Se esqueça, Dess. Ela não é nada. Deixa eu voltar.


— Não posso. Você me faz mal.


— Aiden é o Mal.


Recuo, assustada, sento na beirada da cama. Observando seus olhos, exijo:


— Como se conhecem? Por que se odeiam? Não minta! — Engolindo em seco, ele responde:


— Eu o conheço. Fomos amigos durante um tempo.


— Quando!? Onde!?


— Na faculdade. Eu cursava Medicina. Ele… — Respira fundo. — Ele era um dos convidados a palestrar.


— Desde quando você é médico, Vincenzo!?


— Dess! Para ser psiquiatra, é obrigatório Medicina!


— Eu não tenho que saber disso! Não me olhe como se eu fosse burra!


— Deveria saber! Você cursa Psicologia!?


— Eu tranquei, porra!



— Você precisa sair dessa vida!


— Vá à merda!


— Você sempre me xinga quando se sente encurralada.


— E você se acha o máximo por ter se formado em Psiquiatria!


— Eu me graduei.


— Não ferra!


— Dess…


— Não me olha assim, estúpido!


— Para de brigar comigo…


— Para de mentir! Sobre o que Aiden palestrou!? Todo mundo nessa merda tem curso superior!? Eu sou formada em Educação Física!


— Você fica linda com raiva…


— Sobre o quê!? — Berro, irada, envergonhada. — Ele era tão jovem quanto você!?


— Sim. Não. Não sei.


— Sim ou não!?


— Que diferença faz, Dess!?


— Por que tá nervoso!?


— Porque estou com dor e preocupado com você!


— Não grita!


— Não estou gritando! — Grita ele. — Só não quero falar dele! Quero falar com você!


— Por que João não viu Sweet entrar em seu quarto!?


— Como???


— Eu tô enjoada… — Aviso, levando a mão à boca. — Não me olha agora.


— Dess, você precisa pôr pra fora o que ingeriu…


— Não enfia esse dedo imundo em minha boca! Eeca! — Protesto, vomitando…




Abro os olhos. A boca amarga. Confusa, lenta, procuro por ele.


— Eu tô aqui, amor.


— Não me chame de “amor”, bastardo. Por que tá sem camisa!?


— Você a sujou com seu vômito. — Um de seus sorrisos inocentes e eu arfando. — Segunda vez, né?


— Não ria de mim…


— Isso não é riso, idiota! — Ele aponta para o próprio rosto. — É um sorriso!


— Um sorriso cafajeste! — Refuto, encarando-me no espelho. Um outro pijama? — Você tirou minha roupa de novo? Quando???


— Enquanto você dormia…


— Isso é nome de filme. — Resmungo, mergulhando no silêncio. Por segundos. Mas obstinada, volto ao assunto. — Que tipo de relacionamento vocês têm!? Desde quando ela tem intimidade pra te alimentar com sopinha!?


— Quem???


— Não me faça de boba! — Grito, infernizada. — Maria Odete! Mais conhecida como SWEET CHILD!!!


— Você é patética — diz ele, rindo. — O nome dela é Maria Odete? — Mostra covinhas, caninos proeminentes. De súbito, a expressão muda, séria: — Ela apareceu lá, Dess. Não me pergunte como. João foi comprar analgésicos, não viu.


— Como ela entrou!?


— Do mesmo jeito que você e o Doc entraram. — Ele parece calmo, mas com dor. — Eu estou calmo, Dess. Só estou com dor.


— Espera!


Saltando da cama, cambaleante, apoio-me na cômoda. Inspiro e expiro, sentindo falta do meu ventre, do meu filho. A voz embargada escapa, baixa:


— Não se mova. Já volto.





Choro diante do reflexo no espelho do banheiro. Um choro baixo, dolorido. Acabo de tocar Vincenzo e ver o que ele e Sweet fizeram na noite do leilão no ‘Moulin Rouge’.


— Ele mentiu pra mim — digo a mim mesma. — Eles transaram.


Limpo o rosto. Pego o analgésico. Agora. Preciso.


— Não vou conseguir esconder a raiva…


Não escondo. Fecho o punho, acerto seu queixo perfeito com um soco.


Vincenzo urra. Seus olhos indignados giram nas órbitas. Prendo o riso. Demonstro raiva.


— Bebe. — Ofereço um copo com água e o analgésico. — E nunca mais minta pra mim.


— De que tá falando? Você é louca!


— Deveria ser. Ao menos não teria que lidar com o que vejo. Com sua traição, seu bosta.


— Eu… eu eu…


— Não fala nada. Toma logo isso. Sua dor vai passar. A minha… não.


— Dess…


— Bebe e dorme.


— Você ainda cuida de mim… Eu te amo.


— Eu também te amo. Mas isso vai acabar. Dorme.




Vincenzo dormiu aqui. Não poderia expulsá-lo, sabendo que se arriscou por minha causa. A perna esquerda ainda exige cuidados. Mais uma vez, ele me salvou da morte. Por quê? Para que eu soubesse de seus desregramentos morais? De sua traição? Narcisistas não se sacrificam por ninguém.


Isso é um fato. Logo, retiro Vincenzo da categoria “Narcisista” e o classifico com “Transtorno de Sadismo Sexual”, consentido por Sweet, outra transtornada vagabunda. E me lembro de Enrico, o professor que sorri com os olhos. Ele parecia conhecer Vincenzo, até defendê-lo. Talvez todos se conheçam nesse universo bizarro, talvez todos estejam rindo de mim agora. Fui estupidamente burra em ignorar o conselho de Miguel, o Arcanjo: “Não aceite nada de estranhos.” Mas Aiden não era um estranho… eu o conhecia. Tomei o chá, e perdi meu filho… para sempre. Maldito! Por que ele mataria meu filho? Não faz sentido!



— ESTÚPIDA!


O volante frio sob minhas mãos trêmulas.


Chuva batendo no vidro.


— Por que me salvou, Vincenzo? Eu devia estar com meu filho. Não aqui. Não assim.


Algo se move ao meu lado.


A janela do carro ao lado desce devagar.


— O que você quer? Cadê sua mãe?


— Sei lá. — Ela sorri, como se a pergunta não importasse. — Tá chorando, tia? Leva uma bala pra parar de chorar. Uma é dez. Duas são vinte.


Os cachos estão molhados. Os olhos, atentos demais para a idade.


Meu coração acelera sem motivo claro.


Estaciono perto da pequena praça.


— Ei, baixinha. Cadê meu desconto?


Ela inclina a cabeça, avaliando.


— Desconto tem. Só que nunca.


Fica me olhando, firme.


Eu quase rio.


— Como é?


— Uma é dez.



Eu me agacho.


Ela não hesita. Me abraça primeiro.


O beijo na minha bochecha é rápido, decidido.


— Duas são vinte.

 


Outras crianças.

Sujas.

Molhadas.

Esperando.


Ela gargalha.


— Uma é dez.


E, por alguns segundos,

o mundo para de doer tão alto.


— Compra, tia. — a voz dela baixa, tensa. — Se não comprar, meu pai vai me bater.


Algo em mim endurece.


— Onde ele está? Ele já te bateu?


— Não. Mas bate nos meus amigos.


Antes que eu responda, mãos enormes me empurram contra o asfalto molhado. O impacto rouba meu ar.


A menina é puxada pelo braço.


— Larga ela! — grito.


— Ela tem dono! Some daqui! — rosna o homem, a cicatriz na testa tremendo com a fúria.


— Você é o pai dela?


— Pai? Esses moleques não têm pai. Eu cuido deles.


— Ele bate na gente! — grita um menino ao fundo.


Outro se aproxima, olhos claros demais para tanta sujeira.


— Tira ela daqui. Ele é mau.



O homem avança. E, por um segundo, não vejo a praça.


Vejo um quarto escuro.

Vejo portas fechadas.

Vejo abandono.


Algo antigo se solta dentro de mim.


Quando percebo, estou atrás dele, braço firme em volta do pescoço.


O golpe encaixa.


Ele se debate.


— Corre! — grito para a menina.


— Não vou sem você, tia!


A chuva cai mais forte. O homem tenta se soltar. Aperto mais.


Não é só ele.

É tudo.


Sweet.

Vincenzo.

O leilão.

A mentira.

O chá.

Meu filho.


Eu largo quando meus braços falham.


Espero o chute.


Em vez disso, um uivo.


Uma pedra atinge a cabeça do homem.


— Leva ela! — grita o menino dos olhos claros.


Eu puxo Antoine pela mão e corro.



No carro, ele se aproxima outra vez.


Abro o porta-luvas.


Encontro o taser.


Desço o vidro só o suficiente.


O estalo elétrico o derruba.


Arranco com o carro.



— Tia! Não fala palavrão. É feio.


Ela já está mexendo no rádio como se nada tivesse acontecido.


Eu rio. Meio histérica. Meio viva.


— Qual é o seu nome?


— Antoine. Tenho quatro.


Mostra três dedos.


— Não é Antônia — ela corrige. — É Antoine. An-to-á-ne.


Meu coração falha uma batida.


— Sua mãe escolheu?


Ela assente.


— Ela tá com papai do céu.


Silêncio.


No rádio, começa uma música antiga.


Ela abre um sorriso.



— Minha mãe cantava essa pra mim.


Eu engulo seco.


— “You are my sunshine”?


Ela confirma com a cabeça.


O mundo gira devagar demais.


— Eu era o raio de sol dela… — ela tenta lembrar. Franze a testa. — Eu não se lembro.


— Eu não me lembro — corrijo, estacionando no acostamento antes que ela bata a própria cabeça de frustração.


Seguro suas mãos.


— Você era o raio de sol da sua mãe.


Os olhos dela brilham.


— Isso!


Minutos depois, já em casa, envolta numa toalha grande demais, ela se olha no espelho com uma das minhas camisolas.


— Agora sou princesa.



Eu me ajoelho para ajustar a barra.


— Sua mãe disse mais alguma coisa?


Ela pensa.


— Que eu ia encontrar uma mãe.


O ar some do meu peito.


— Não chora, tia — ela diz, tocando meu rosto. — Papai do céu cuida dos meus amigos.


— Como você sabe o que eu tô pensando?


Ela dá de ombros.


— Sei lá. Só sei que sei.


Eu fico em silêncio.


Vincenzo costuma dizer isso.


Na cozinha, comendo pizza pela primeira vez na vida, ela me observa.


— Quer ser minha mãe?


O mundo inteiro poderia desabar ali.


— Quero.


Ela bate palmas, como se tivesse vencido algo importante.


Meu celular vibra.


Mensagem.


“Posso conhecer nossa nova amiguinha?”


O sangue esfria.


Digito sem hesitar:


“Fique longe dela.”


Olho para Antoine.


Ela mastiga, tranquila.


Mas, por um segundo, seus olhos não parecem de quatro anos.


Parecem antigos.


Muito antigos.







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