CAPÍTULO 13 - TENSO



Antoine já não estuda no mesmo colégio.

Eu a tirei de lá.


Não por medo dos pais fofoqueiros que espalharam que sou stripper e atriz pornô — isso eu aguento. Mas porque Aiden se declarou meu marido. Pai da minha filha. Diante de todos.


Uma mentira pesada demais para uma criança sustentar.

Ela é pequena.

Pequena demais para explicar genética, melanina, herança. Pequena demais para responder por que a pele dela não tem a minha cor. Pequena demais para ouvir cochichos.

Eu sofria vendo. Então mudei.

Um colégio mais perto. Mais diverso. Mais caro do que posso pagar por muito tempo.


Mas eu pago.

Nem que para isso eu precise voltar ao que me destruiu.

Hábitos que me levam de volta ao mundo do sexo…

…da ninfomania.



— São só fotos.

— Fotos sem roupa.

— Fotos artísticas. — Aiden sustenta. — Eu não vou deixar que ele encoste em você.

— Eu não preciso de você pra me proteger.


Subo os degraus. Ele vem ao meu lado, sorrindo.


— Do que tá rindo?

— De você.


Por que eu odeio esse sorriso? É bonito. Hipnótico. Mas não é limpo. Não é como o de Vincenzo.

Vincenzo.

Para.

— Não sorri.

— Tudo bem. — Ele enfia as mãos nos bolsos. — Como está a pequena?

— Bem.

— Quando eu vou conhecer minha filha?

Eu paro.

— Isso não tem graça.

— Não estou brincando.

— Você se declarou meu marido na frente de uma escola inteira. Minha filha passou dias respondendo perguntas que não entendia. Isso é culpa sua.


A mão dele fecha no meu braço.


— Eu só queria te ajudar.

— Me solta.


Ele solta.

— Quando eu posso vê-la?

— Desde quando você gosta de crianças?

— Antoine não é qualquer criança.


Meu coração falha um segundo.


— Como você sabe?

— Eu sinto.

Mentira? Intuição? Algo mais?

— Esquece.


Ele sobe mais um degrau. Fica perto demais.


— Quero fazer parte da vida de vocês.

— Pra quê?

— Porque eu gosto de você, idiota

Meu coração falha. Traidor.


Eu quase rio.

— Não sou seu tipo.

— Quem disse?

— Estamos falando demais e ainda tem degrau pra subir.

— Não foge.


Os lábios dele quase tocam os meus. Eu odeio que meu corpo responda.

— Quando eu vou ver a Antoine? — ele insiste.

— Nunca.

— Por quê?

— Porque ela não quer.

Mentira.

Vincenzo não quer.

Somos peças.

— Somos — eu murmuro sem perceber. Droga. — Nada.


Eu olho pra ele.

— Você também é um brinquedo. Só ainda não percebeu.


Silêncio.


Um espanca mulheres.

O outro diz que me quer.

Idiota. Você nunca aprende.



Eu o encaro.

— Somos brinquedos. Só que alguns ainda não perceberam.

— Não! — Irritada, subo os degraus de dois em dois.

Ele vem atrás.

— Por que eu sinto que te aborreço?

— Porque talvez esteja certo.


Talvez seja outra coisa. Ódio? Rancor? Desejo? Eu não sei.

— Onde fica essa maldita sala?

— Só mais alguns lances.

— Que inferno.

— Cansada?

— O elevador tinha que quebrar hoje?

— Quer que eu te leve no colo?

— Não seja ridículo.


Ele observa meu gesto automático de encolher a barriga.

— Você tem praticado esportes?

— Pareço não praticar?

— Você continua linda, Adessa. O fotógrafo vai adorar o resultado.

— Adorar como? Não fala assim comigo. Eu não estou aqui pra ser “apreciada”.

— Tira o dedo do meu nariz.

Eu recuo, envergonhada.


— Eu tô cansada de pedir desculpa por ser impulsiva.

— Eu gosto da sua impulsividade, meu anjo.

— E eu não gosto quando você chega tão perto assim.


Ele pisca.

E por que um homem tão absurdamente sexy está sozinho?

— De que tipo de homem você gosta?


Ele gargalha, joga a cabeça pra trás.

— Homem? Eu?


As veias do pescoço saltam quando ele volta a me olhar.

— Você me diverte.


O silêncio pesa.

Ele me despe com os olhos.

Eu repito a pergunta. Ele não responde. Só sorri.

Está me testando?

— Em que andar?

— Décimo.

Minha respiração pesa.


— Quer que eu te leve no colo? Faltam dois.

— Não me toca.

Encostada à parede, o medo cresce.

— E se ele não gostar do que vir?

— For God's sake. Seu corpo é lindo.


O polegar dele ergue meu queixo. O toque me atravessa.

— Nada vai acontecer que você não queira. Você precisa da grana. E precisa ficar calma.


Não vai dar certo. Você não sabe o que eu sou.

— Não tenha medo de ser quem você é — ele diz, como se tivesse ouvido.


Eu fecho os olhos.

De repente, estou no ombro dele.


— Me coloca no chão!


Ele me solta no décimo andar.

Diante da placa “Fotógrafo Profissional”, meu estômago se contrai.

E se eu perder o controle? E se eu gostar demais?

— É melhor voltar.

— Você precisa.


Ele me prensa contra a parede.

— Fica calma.

— Eu arrumo outra coisa.

— Não arruma. Ele paga bem.

— Eu não preciso.

— Precisa.

— Não preciso!

— Você não aceitou minha ajuda!

— Não grita!

— Eu não tô gritando. Eu tô puto.

— Por quê?

— Porque eu quero te ajudar.

— Eu não quero!


Silêncio pesado.


— Eu posso te emprestar o dinheiro.

— Eu não confio em você.

— Por quê?


A palavra sai antes que eu consiga conter.

— Você tentou matar meu filho.


Ele recua.


— Oh my gosh. De onde você tirou isso?

— Você estava no banheiro quando eu quase o perdi. Eu senti que você não queria salvá-lo. Eu senti.


Minhas mãos tremem.


— Eu tenho medo de você.


Ele segura meu rosto com cuidado inesperado.



— Eu nunca faria mal a você ou aos seus filhos. Jamais. De onde eu venho, as pessoas são frias. Eu não sabia como reagir. Mas eu estava lá.


A voz dele não falha.


— De onde você vem?

— Terras frias. Sombrias. Países nórdicos.


Um arrepio.

— Entendi.

Ele insiste:


— Me deixa ajudar. Eu te empresto.

— Não. Eu trabalho.

— Eu sei.

O olhar dele desce pelo meu corpo.


— Não me olha assim.

— Assim como?

— Como se eu fosse só aquilo que você já viu.

— Eu vi você dançar. Vi você atuar. Mas isso não é tudo que você é.

— Sou mais que um corpo.

— Eu sei.

— Você não me conhece.

— Tem certeza?


O olhar dele muda.


— Você não olha mulheres desse jeito.


Ele arqueia a sobrancelha.


— Beg your pardon?

— Você sabe do que eu tô falando.


Ele fecha os olhos, respira fundo.


— Eu posso te emprestar o dinheiro. Você paga depois. Não precisa fazer nada se não quiser.

— Eu quero.


Ele se aproxima.

— Quer?


A pergunta tem peso.

— Eu não sei.

Eu sei.

— Não vou discutir isso nesse corredor sufocante.

— Não vai.

Ele aperta a campainha.

— Idiota!

A porta começa a abrir.



Eu puxo o gorro até cobrir o rosto e deslizo pela parede até o chão.


Minhas mãos geladas se escondem nos bolsos do moletom quando Aiden se agacha diante de mim e promete que vai ficar comigo o tempo todo.

Sério. Ele acha que isso me acalma?


— Eu sei. Mas eu…

— Vem. — Ele ordena, sereno demais.


Estende o braço e me puxa. De pé, cumprimento o jovem que nos espera na sala ampla e arejada. Respiro fundo. Uma vez. Duas.


— Esse é meu amigo, Gael.


O nome me atinge como um tropeço invisível. Sufoco um soluço. Ele sorri e oferece a mão. Aperto. Me concentro.


Nada.

Nenhuma visão. Nenhum lampejo. Nenhuma lembrança rasgando a pele da memória.

Nada.


— Adessa? Você está bem?

— Seu nome… — Abro os olhos. Não posso surtar aqui. Dois homens. Um estúdio. Foco. — De onde vem?

— Irlanda. — Aiden responde por ele. — Filho de amigos meus. Algum problema?


Algum problema? 

GA’AL é o problema. 

Não é a mesma coisa. 

Não é igual. 

Você está confundindo tudo. 

Fala alguma coisa antes que pareça louca.


— Nenhum. — Forço um sorriso e puxo minha mão suada de volta. — Como vai?

— Bem. E você? Parece nervosa.

— Um pouco…

— Não fique. — Ele já caminha em direção ao fundo cinza do estúdio. — Aos poucos você se solta. E, se não rolar, não rolou.



Simples assim.

Mordo o canto da boca. Olho ao redor. É só um estúdio. Câmeras. Luz. Um letreiro na parede.

“Sexo é Arte.”



Claro. Evidente.

Por que alguém pagaria tanto por mim?


— Espera. — O toque de Aiden no meu braço me faz estremecer. Ele indica o banquinho. — Aqui. Melhor ângulo.

— Desculpa. — Rio, nervosa demais. — Nunca fiz isso.

Mentira.

— Digo… nunca posei. Já fiquei nua diante de câmeras, mas… — Cale a boca. Ele pode não saber. — Não exatamente nua, mas…

— Eu entendo. — Gael diz, suave. — Deixa rolar.


Deixar rolar.

Eu normalmente me movo diante da câmera. Movia. Ficar parada me deixa… exposta demais. Vai que ele captura uma falha. Uma dobra. Um detalhe que eu não posso apagar.


Eles vão perceber. 

Eles sempre percebem.


— É aqui que eu sento?

— Você nunca fez isso, fez? — Gael pergunta.


Assinto.

Então o sussurro.

Quente. Lento. No meu pescoço.


— Sempre existe uma primeira vez. Deixa eu te ajudar… meu anjo.


Meu anjo.

Eu deixo.

Ele retira o gorro. 

Meus cabelos caem. 

Os dedos dele ajeitam cada fio com uma precisão quase íntima. Suas mãos descem para meus ombros tensos. 

Pressionam. 

Massageiam.

Eu fecho os olhos.

Relaxo.

Um pouco mais do que deveria.

Deixe fluir.

Eu não posso deixar fluir.

Shhh.


— Está pronta? — pergunta Gael enquanto os holofotes se acendem e me cegam por segundos.


Uma brisa morna me envolve.


— Pode tirar a roupa.

— Agora?

— O que acha? — Aiden arqueia as sobrancelhas. — Quer ajuda?

— Não. — Levanto e empurro o peito dele com as palmas abertas. Ele sorri. Malicioso. Seguro demais. — Sei me despir sozinha.

— Eu sei. Já vi antes.


Eu encaro o vazio onde imagino estar o fotógrafo.


— Ele precisa ficar aqui?

— Eu saio! — Aiden diz, afastando-se.


Melhor.

Não vejo nada além da luz. Imagino estar sozinha quando tiro o moletom. Meu corpo está rígido.


— Pode colocar uma música? Ajuda.

— Claro.

Os flashes começam.

De lingerie, cruzo os braços sobre os seios. A sala mergulha numa penumbra calculada. Reconheço a música antes mesmo do refrão.



Madonna canta “Erotica”.

Perfeito.

Só eu. A luz. Minha vergonha pendurada na pele.


— Fique assim. — Gael diz. — Está perfeito.

— Ok. — Concordo, meio paralisada. — O que eu faço?

— O que você quiser, querida.

— Posso dançar?

— Deve! — Aiden grita do fundo da sala. — Você fica ainda mais sexy quando dança, baby.

— Não me chama de “baby”. Eu odeio isso.

— Dance, Adessa. — Ele sussurra.

Eu me viro.


— Como você chegou aqui tão rápido? Não me toca…

Meu protesto morre num gemido traidor.

— Aiden…


Ele desliza os dedos pelas alças do meu sutiã e o retira com uma lentidão calculada. Seus lábios tocam meu pescoço. Eu puxo o ar entre os dentes. Ainda sou mulher. Ainda sinto.


Deitada no divã, minhas pernas se movem sem ritmo definido. Ele me observa como se já soubesse o final da história. Quando remove a última peça de roupa, seu sorriso é puro pecado.


— Fica longe de mim… — murmuro, fraca demais para sustentar a ordem.

— Fico.


Mas não fica.

Ele tira a própria camisa. A lembrança da chuva, do primeiro encontro, invade minha mente. O corpo dele molhado. Meu desejo escondido, trancado, negado. Tento pensar em Antoine. Tento me salvar.

O polegar dele roça meus lábios.

Eu o puxo para dentro da boca.

O som do obturador ecoa pela sala. A sombra do fotógrafo gira ao nosso redor.

Aiden inclina a cabeça. Seus olhos escurecem.


— Se quiser, eu paro.

— Continua.



Minha voz não parece minha.

Minhas mãos se perdem em seus cabelos. Meu corpo responde antes que minha consciência consiga impedir. Quando ele me toca, íntimo, profundo, eu me agarro a ele como se estivesse me afogando.



— Você me quer, Adessa?

— Sim…

— Diz.

— Eu te quero.


A palavra sai como confissão e condenação.

O mundo encolhe. Só existe calor. Pele. Respiração. Meu corpo arqueia. A música pulsa. Eu me entrego.


— Agora… — imploro, de olhos fechados. — Não para…


Espero o peso dele sobre mim.

Espero.

Espero.


— Aiden?


Silêncio.

Abro os olhos.

Eles estão sentados. Longe. Vestidos. 

Intocados.

Aiden cruza as pernas na poltrona, relaxado demais.


— Parei o quê, meu anjo? — Ele sorri. — Não saí daqui. Estamos esperando você decidir quando vai começar.


Meu estômago despenca.

Olho para mim.

Estou vestida. 

Inteira. 

Intocada.

Mas eu senti.

Eu não inventei.


— Eu… nós… — Minha voz falha. — Você não…


Gael desvia o olhar. Aiden suspira, entediado.


— Quando estiver pronta, avisa.


O chão parece inclinar.

Engulo o pânico. Tiro a roupa em silêncio. Deixo que me fotografem como uma boneca vazia. Não olho para ele. Não olho para ninguém.


— Acabou? — pergunto, sem reconhecer minha própria voz.

— Perfeito. O cachê já está na sua conta.

— Obrigada.

— Não vai conferir?

— Confio em você.


Mentira.

Eu só preciso sair.

Desço as escadas rápido demais.

— Pode ficar. Eu vou sozinha.

— Eu te levo.

— Não! Eu não te quero perto de mim!


A chuva começa antes que eu alcance a rua. Sempre a chuva. Como se o céu tivesse mania de me acompanhar.


— Fica longe! — Empurro o peito dele com o dedo indicador. — Eu não sei o que aconteceu lá dentro, mas você está metido nisso, Aiden!

— Eu?

— Sim!


A água escorre pelo meu rosto. Piscando sob a tempestade, percebo o prédio diante de mim.



Antigo. Descascado. Abandonado.

Eu olho para trás.

A fachada do estúdio não existe.

O ar some dos meus pulmões num grito cru.

Eu acabei de sair de um prédio que está caindo aos pedaços.


— Que porra é essa? Não foi nesse prédio que eu entrei!


— O que houve lá dentro, Aiden? Que lugar é esse?

— Você está tremendo. — Ele me envolve antes que eu consiga recuar.


Eu deveria empurrá-lo.

Mas me agarro.

Olho ao redor. Nada é familiar. Nada parece vivo. O ar é pesado, cinza, quebrado. Como se o mundo tivesse sido usado demais e descartado.


— Não tenha medo. Estou com você.


Ele tira o casaco de couro e me cobre. Eu choro contra o peito dele, odiando o conforto que encontro ali.


— Vamos sair daqui. Não era para ter acontecido agora.

— Como assim “agora”? Ia acontecer quando?


Ele hesita.


— Ainda é cedo para explicar, baby.

— Onde estamos?

— Do outro lado. O avesso da Terra. Alguns chamam de Sete Além.

— Nunca ouvi falar nisso!

— Melhor assim.


Caminhamos entre escombros. Não estamos sozinhos. Eu sinto. Olhos amarelados piscam no escuro. Um rosnado ecoa.

O cão surge das sombras. Esquelético. Cabeça grande demais para o corpo. Dentes podres raspam no meu moletom.

Eu grito.

Aiden me puxa para trás e chuta o animal. O bicho recua, rangendo, e desaparece.


— Isso não é a Terra. — Minha voz falha. — Me leva pra casa.

— Fica comigo.


Ele atravessa uma porta antiga.

Só uma porta.

Fecho os olhos.

O ranger da madeira.

Silêncio.

Abro.



Estou diante do prédio onde moro.

O porteiro nos observa como se fôssemos apenas mais um casal brigando sob a chuva.

Como atravessamos o inferno por uma porta?

Eu solto a mão dele.


— Não quero falar do lugar de onde a gente saiu. Só me responde uma coisa. O que você fez comigo dentro da sala?

— Eu?

— Não se faz de idiota. Você e eu quase…

— Quase?


O rosto dele é uma máscara perfeita.


— Nós atravessamos um portal para um pesadelo e você quer saber por que eu estou nervosa?

— Eu não sei o que aconteceu. Entramos e saímos. Só isso.

— Simples assim?

— Just like that.


Ele seca minhas lágrimas com o polegar. O gesto é íntimo demais.

Uma voz explode dentro de mim

É PRECISO AGIR COM CAUTELA.

Eu engulo.


— Obrigada pelo dinheiro. Pelo menos isso.

— Você não conferiu.


Meu estômago afunda.

Abro o aplicativo do banco. O valor está lá.

— Tá vendo?


O sorriso dele congela.


— Olhe de novo.

Os números começam a desaparecer. Um por um. Como se nunca tivessem existido.

Minhas pernas cedem.


— O que aconteceu hoje? Eu estive lá! Ele tirou as fotos!

— Você não está bem.


O olhar dele é profundo demais. Antigo demais.

A lembrança do meu filho morto atravessa minha mente como um raio. Aiden estava lá. Observando. Quase… esperando.

Por quê?

Percebo que estou segurando meu crucifixo.


— Não toca em mim. Eu te odeio.

— Você fez o que quis fazer, meu anjo. Mas não é hora disso.


Meu coração dispara.


— Vai desmaiar — ele murmura.


A escuridão me engole.

Quando abro os olhos, estou nos braços dele. O elevador. A campainha. A porta abrindo.

— Mamãe?


A voz de Antoine me devolve à vida.

Eu me debato, caio no chão, aponto para Aiden.


— Não fala com ele! Não olha pra ele!

— Ele quem, mamãe?


O sorriso inocente.

O quarto.

Meu tapete.

Minha cama.

Eu estou sozinha.


— Mãe, eu tô com medo… A senhora tá bem?

— Tô. — Sorrio ofegante demais para parecer normal. — Eu tô bem, filha.


Abraço Antoine com força. Olho para a porta aberta. Para o corredor vazio.


— Você viu mais alguém aqui?

Ela franze a testa.

— Quem?

— Ninguém. Esquece.


Com ela no colo, percorro o apartamento. Sala. Cozinha. Banheiro. Nada fora do lugar. Nenhum vestígio. Nenhum homem. Nenhum portal.


— Eu não tô louca — murmuro.


Antoine beija minha bochecha.

— Você não é louca, mamãe. Quem disse isso?

— Ninguém… eu só tô cansada.


Sento no sofá. A TV desligada reflete nós duas. Quase consigo convencer a mim mesma de que foi só um surto.

— De quem é esse casaco, mamãe? É do tio Vincenzo?


Meu sangue gela.

O casaco de couro ainda está em mim.


— Não.


Arranco a peça do corpo e arremesso contra a parede. O celular vibra no bolso e cai perto da estante.


— Atende, mãe!

— Não quero!


O nome dele ilumina a tela.

Jogo o aparelho no tapete. Ele quica, acende, apaga.


— Isso é caro, mãe! — Antoine pega o celular, indignada. — Se quebrar, não tem outro.


Eu a puxo para perto, tentando recuperar o controle.

— Tem duas mensagens! — ela anuncia.


Meu coração dispara.

— Quer que eu leia?

— Eu leio mais rápido, filha.


Ela entrega o telefone.

Primeira mensagem.

O nome de Vincenzo.

Antoine vibra.


— Ele vai vir aqui?

— Talvez.


Mentira automática.

Coloco-a na cama. Borboletas no edredom. O abajur giratório espalha estrelas no teto.



— Amanhã é sábado, mãe! A gente vai pra praia!

Sábado.

Eu tinha esquecido.

Como se alguém tivesse arrancado um pedaço do meu dia.


— A praia… claro.


Ela me observa. Eu rio alto demais. Pareço estranha até para mim.

— Pode chamar o tio Vincenzo?

— Não.


Seco demais. Rápido demais.


— Ele tá ocupado.


Antoine suspira e se aninha em mim.


— Já leu a segunda mensagem?

Meu corpo inteiro trava.

Eu me levanto num salto.

Beijo a testa dela.


— Dorme com os anjos.



Fecho a porta e só então respiro.

Abro a mensagem.

“Já verificou seu saldo hoje?”

Meu estômago revira.

Digito:

“Aiden, me deixa em paz.”

A resposta vem quase instantânea.

“É tudo o que desejo a você, meu anjo. Paz. Durma tranquila.”

Mãos trêmulas. Abro o aplicativo do banco.

O dinheiro está lá.

Inteiro.

— Eu não acredito…

Rio sozinha no corredor.


— A grana voltou.


Nova mensagem.

“Já verificou seu saldo?”

Eu respondo:

“Como você fez isso?”

Ele demora alguns segundos.

“Quem fez o quê, baby? Eu vi que você precisava e fiz um depósito. Não devolve. Só quero o bem de vocês duas.”

Meu peito aperta.

Mas a próxima linha é a que me atravessa.

“A propósito… seu corpo é bastante instigante. Eu quase cheguei ao fim.”

A foto chega junto.

O sorriso dele.

Seguro. Confiante. Como se soubesse exatamente o que fez comigo.

Eu deslizo pelo sofá, sem ar.

— Cretino…


E o pior não é a mensagem.

É que eu ainda sinto o toque que talvez nunca tenha acontecido.



— Já estamos chegando!?

— Filha… de novo?

— Diz, mamãe!

— Quase lá.


Pelo retrovisor, vejo Antoine praticamente colada à janela, os olhos enormes refletindo o azul do mar. Eu dirijo devagar de propósito. Quero que ela veja tudo. O oceano, a areia branca, as casinhas espalhadas como se o mundo ainda fosse simples.

— Fica longe do vidro.


Ela ignora.

— É pra lá que eu quero ir, mãe!

— Eu também.


E por alguns segundos, eu consigo não pensar em nada. Nem em Aiden. Nem em Vincenzo. Nem em dinheiro que aparece e desaparece. Só no mar e na minha filha.


— Quem ganha a corrida até a água amanhã?

— Eu! Vou mergulhar beeeeem fundo!

— Nem tão fundo. Seu tio Doc disse que o mar aqui é traiçoeiro.

— Tem uma parte rasa. O tio Lu falou.


Meu pescoço trava.


— Que tio?

— O tio Lu.


Eu engulo seco.


— E por que ele não pode nadar?

— Porque o fogo dele apaga, ué.


O mundo parece dar uma inclinada sutil.

Antes que eu consiga responder, ela grita:


— Olha a moto!


Um motociclista surge do nada e corta a frente do carro.


— Idiota!


Eu viro o volante com força. O homem acelera, serpenteando pela estrada. Antoine ri e bate palmas.

E eu não gosto disso.

Não gosto da forma como ele acena para ela.

Piso no acelerador.


— Filho da—

Eu me controlo tarde demais.

Emparelho com a moto.

— Eu tô com a minha filha aqui!


Ele vira o capacete na nossa direção. Lento. Calmo demais.

Antoine acena de volta.

Algo quente explode dentro de mim.

Eu jogo o carro levemente para o lado.

Ele desvia por centímetros.


— Cuidado com o tio! — Antoine grita, chorando.


Um caminhão buzina ao ultrapassar.

O que eu fiz?

Reduzo a velocidade bruscamente. O motociclista desaparece numa curva, deixando poeira e um cheiro estranho no ar.

Eu paro no acostamento.

Minhas mãos tremem no volante.

— Isso não vai acontecer de novo.

— Você falou palavrão…

— Eu sei.


Eu me viro e seco as lágrimas dela. E as minhas também.

— De dedinho?


Enroscamos os dedos mínimos.


— Eu vou me controlar.


Ela sorri. Confia.

E essa confiança pesa mais que qualquer culpa.

Seguimos viagem.

A ponte surge à frente. Familiar demais. Como se eu já tivesse atravessado algo parecido em outra vida.

— Chegamos!

Antoine praticamente explode de alegria, soltando o cinto antes de eu terminar de estacionar.

— Espera por mim!


Ela corre até a casa de Doc. Eu vou atrás com as bolsas.

A cadeira pendurada no alpendre balança enquanto ela se senta e ri.

Eu abro a porta.

O cheiro me atinge

— Estranho, né?

— Casa fechada. Amanhã a gente resolve.


A casa é aconchegante. Quase demais. Perigoso o quanto me lembra outra casa. Outro homem.

Eu fecho os olhos com força.

Chega.


— Por que você tá chorando?


Eu nem percebi.


— Poeira.


Mentira frágil.

Ela liga o rádio. Música antiga invade a cozinha.



— Por que você gosta dessas músicas velhas?

— Porque você gosta.


Eu a pego no colo e giro pela sala. Ela gargalha, cabeça para trás, braços abertos.

“Boogie Shoes” preenche o ar.

Por alguns minutos, eu quase acredito que a vida pode ser só isso.

Mas quase nunca é suficiente.

Essa canção me faz pensar em alguém que me leva à segunda pergunta.

— Filha! Por que chamou o cara da moto de “tio”?

— Sei lá! — responde, dando de ombros. Enquanto retira os pães da embalagem, abre aquele sorriso maroto. — Que tal dois sanduíches? Tô varada de fome!

Solto um “Aaah, tá” pouco convincente.

— Vamos matar essa fome. Amanhã é dia de praia!

— Wooohooooo!!!

Uiva meu pequeno lobinho.




Tento me desconectar do mundo, mas falho. Sou puxada de volta como quem prende o tornozelo de alguém prestes a fugir. Ligo o celular e aviso a Doc que chegamos bem. Ele responde com recomendações sobre o mar agitado e os cuidados com Antoine, a quem chama, com ternura desmedida, de “minha neta”.

Sorrio para a tela. Não estou sozinha. Doc é o pai que nunca tive. O amor nas palavras dele me desarma. Quase me esqueço de perguntar sobre Sweet e Vincenzo.

“Eles não estão juntos. Pare de se torturar.”

Seco. Direto. Como ele sabe exatamente onde dói.

Penso em insistir, mas desisto quando vejo Antoine, sob a barraca, erguendo seu império de areia. O mar azul à frente. O céu igualmente azul. O sol de outono morno sobre a pele.

Por que me importar com dois traidores?

Por que gastar energia imaginando-a linda, loira, rindo para ele, enquanto ele brinca com filhas que não são a minha?

— Porra!

— Mãe!

— Desculpa. Escapou.

Ela ri de mim.

— Não deixa escapar mais não. Meu tio não gosta de palavrão.

Reviro os olhos.

— Que tio é esse, Antoine?

— O Miguel.

Natural. Como se dissesse o nome de um colega de escola.

Meu estômago afunda.

— Tá pensando em quê, mãe? Por que tá me olhando assim?

Forço um sorriso.

— Porque eu te amo. E me preocupo.

— Não precisa. A Dayse cuida de mim também.

O sangue esfria.

— Antoine. Como assim?

— Não grita, mãe.

Ela me abraça com o corpinho coberto de areia. O coração dela bate no ritmo do meu.

— Eu tô brincando. A Dayse é só uma boneca.

Fecho os olhos.

— Que bom.

— Uma boneca que fala.

— Jesus…

— Ela só fala coisa boa!

Os olhos dela marejam. Pequenos, sinceros. Não posso quebrar o mundo dela só porque o meu está rachado.

É só imaginação. É só isso.

“Antoine me assusta, Doc”, digito.

Antes de desligar, outra mensagem surge.

“Suas fotos ficaram fantásticas. Simplesmente esplêndidas.”

O ar falta.

— É o tio Doc, mãe?

— Não. É do trabalho.

Minto.

As fotos surgem na tela. 

Eu. 

Nua. 

Inteira. 

Vulnerável. 

A lembrança que eu não tinha.

Levanto abruptamente.

— Merda… Por que tá fazendo isso?

“Que porra é essa? Você me fez acreditar que eu não tinha posado.”

“Parece que posou. Ficaram ótimas. Instigantes.”

Um calafrio lento percorre minha espinha.

“Cuidado com o mar. Parece agitado hoje.”

Meu coração erra o compasso.

Olho ao redor. 

Apenas areia. 

Apenas mar. 

Apenas céu.

Abraço Antoine.

— Como ele sabe?

— Ele quem? O tio Vincenzo?

Seguro o rosto dela.

— Vincenzo não é seu tio. Entendeu?

— Mas ele disse que era.

— Não é! E eu não quero que você fale com ele. Não sei como vocês se falam, mas não quero que continue!

Minha voz sobe. Pela primeira vez.

E pela primeira vez, ela chora por minha causa.

Sou uma mãe miserável.

— Desculpa…

Ela enxuga minhas lágrimas antes das próprias.

— Vamos apostar corrida até a água?

— Siiim!

— Quem chegar por último é a mulher do padre!

Corremos.

Antes de alcançar a água, uma voz grave, terna, absurda, corta o vento:

— E padre tem mulher?

Paro.

Não.

Não pode ser.



— Você?

— Tio!!!

— Pirralha!!!

Vincenzo sorri como se o mundo fosse dele. Cabelos maiores, barba por fazer, vento brincando com os fios. Desleixado. Perigoso.

Cruzo os braços sobre o peito.

— O quê? Eu, hein!

O olhar dele pesa.

— Ah… claro. Continua lendo meus pensamentos.

O sorriso dele não nega.

E eu odeio o quanto isso ainda me desarma.

Agachado, ele abre os braços.

Antoine salta como se estivesse voltando para casa.

O impacto do abraço me atravessa.

Confusa. Enciumada. Ridiculamente enciumada.

Ele a gira no ar como um carrossel desgovernado. A gargalhada dele explode livre, quente, viva.

— Você continua a mesma, Dess.

— Engano seu. — Esfrego a areia das pernas, evitando encará-lo. — Mudei muito.


Uma olhada rápida para o próprio corpo e quase praguejo em voz alta.

O mesmo biquíni.

O mesmo maldito biquíni daquele último dia na casa dele.

E eu não me depilei direito.

Perfeito. Espetáculo completo.

Recuo até o mar. A água fria me abraça. Submersa, ajeito a calcinha, verifico cada centímetro como se estivesse prestes a desfilar. Quando volto, sinto o olhar dele sobre mim. Não consigo decifrar. E isso me irrita.

Eu não sou atriz pornô.
Não sou stripper.
Sou mãe numa praia quase deserta.

Por que estou tentando caber num ângulo de sol perfeito?

— Não. Ele não pode. — Me encolho sob a barraca.

— Por que não, mãe? Tem espaço!

— Filha, não…

— Deixa ele ficar!

Antoine esfrega o nariz na minha bochecha. Golpe baixo.

Ele permanece em pé, nos observando. Tento olhar para o mar, mas meus olhos traem e descem pelas pernas dele. E sobem.

Maldito.

— Mãe!!!

— Não! Esse é nosso dia!

— Posso sentar na areia. — Ele dá de ombros. — Tá quente, mas eu aguento.

— Vai queimar a bunda do tio!

Eu rio, apesar de tudo.

— Ele não é seu tio.

A brisa traz o perfume de maçã verde. Fecho os olhos um segundo.

Erro.

— Ele não é da nossa família. E provavelmente nunca será.

— Poderia ser… — ele diz baixo.

— Em outro universo.

— No perfeito.

— Universos paralelos não existem.

— Como sabe?

Não respondo.

Antoine o puxa para a toalha. Ele se senta. Ela se instala no colo dele como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo.

Meu estômago queima.

Tento puxá-la.

— Para, Dess. Vai machucar.

— Ela tem nome! Larga minha filha!

— O que eu te ensinei sobre colo de estranhos?

— Ele não é estranho! — Antoine protesta, agarrada ao pescoço dele. — É o tio que conversa comigo à noite!

O mundo fica silencioso por um segundo.

— Ah, claro. Agora tá tudo ótimo. Minha filha conversa com qualquer um que tenha o péssimo hábito de invadir mentes.

— Demônios? — ele franze a testa. — Do que você está falando?

— Nada que te interesse. Não tem que espancar ninguém hoje?

Ele ri. A cabeça para trás. O pomo-de-adão se move. Antoine o observa fascinada.

Eu também.

Que ódio.

— Vai pastar com a tua vaca loira!

— Não existe vaca loira.

— Não olha assim pra mim.

— Assim como?

O sorriso cafajeste. O mesmo que me desmontava.

Atiro o chinelo.

Ele se esquiva e protege Antoine no mesmo movimento.

Isso me desmonta mais do que o sorriso.

— Dess, isso não tem graça.

Cubra o rosto. 

Respira. 

Engole.

— Filha, senta aqui.

Ela obedece depois de um beijo na testa dele.

Eles trocam um olhar cúmplice.

Eu odeio isso.

— Ela te ama muito — ele diz.

— Eu sou a mãe. O mínimo.

Silêncio.

Então o silêncio vira guerra interna.

POR QUE VOLTOU?
POR QUE ACHA?
Para de falar na minha cabeça.
Você nunca soube viver sem mim.
Estou tentando!

— De onde você saiu? De um portal mal-assombrado? Nem mala trouxe.

Ele se senta ao meu lado.

— Deixei em casa. Aquela onde você se hospedou e…

— Não termina essa frase.

— Ainda lembra.

— Não seja ridículo.

Antoine vibra.

— Ela deixou você sentar, tio!

— Shhh — ele cochicha.

Antoine volta aos castelos.

Meu castelo racha.

— Isso não é legal.

— O que?

— Encher a cabeça dela e depois sumir.

Ele cruza as pernas, imitando meu gesto.

— Eu não invadi nada. Nós conversamos às vezes.

— Com telepatia?

— Sim.

— Invadir a mente de uma criança de cinco anos é normal pra você?

— Eu me preocupo com ela.

— Não faz sentido!

— Fala baixo.

— Não!

Antoine nos observa. Ele sorri para ela. Ela sorri de volta.

Eu estou fora desse código.

— Não vou falar baixo quando é sobre minha filha. Você já fez o que quis comigo. Com ela, não.

— Não posso ficar longe dela.

— Cuida das filhas da Sweet!

— Não as conheço. Eu amo Antoine.

Isso dói mais do que deveria.

— Eu cuido dela!

— Não parece.

— Como assim?

— Por que deixou aquele verme entrar na sua vida?

— Do Aiden?

Ele não responde. Não precisa.

— Como sabe?

— Eu estava na reunião da escola.

Meu corpo gela.

— Por que não entrou?

Ele hesita.

— Ele chegou primeiro.

Resposta errada.

— Você sempre falha.

O mar me chama.

Levanto de repente.

— Aonde vai?

— Me afogar. Depois eu volto.

Corro.

O vento cobre o sorriso que insiste em nascer.

Ele ainda mexe comigo.

E isso é o verdadeiro perigo.



— Você ainda gosta dele, Dess?

— Como “ainda”? Eu conheci o Aiden bem depois de você. Não gostava dele “antes”.

Faço aspas com os dedos. Antoine ri. Repito o gesto só para ouvi-la gargalhar de novo. Sentada ali, à mesa, entre minha filha e o homem que nunca soube ficar, me pego imaginando o absurdo: nós três. Uma família de verdade. Mãe, pai, filha, cachorro, papagaio… ridículo.

— Para de ler meus pensamentos e me responde, Vincenzo. Que papo é esse de “ainda”?

Ele revira os olhos absurdamente azuis.

— Esquece. Me expressei mal.

— Mentira.

Corto a pizza com força demais. Por um segundo, Sweet e Vincenzo surgem na minha cabeça. Na mesma cama. Ela gemendo, ele sussurrando. Minha mente é um inferno criativo.

— Oi? Fala!

— Cuidado, mãe!

A faca escorrega.

A mão dele segura meu pulso.

— Vai se cortar pensando bobagem, Dess. Senta.

Eu obedeço antes de perceber. Ele tira a faca da minha mão e termina de cortar a pizza como se tivesse esse direito.

Inclina-se até meu ouvido.

— Eu não tenho e nunca tive nada com ela.

Antoine nos observa por dois segundos, mas a segunda fatia vence qualquer curiosidade.

Eu sorrio para ele. Um sorriso bonito. Falso.

— Verme mentiroso. Quando vai embora?

— Ele vai ficar, mãe — Antoine fala de boca cheia. — Ele pode ficar?

Eu olho para Vincenzo.

Ele não fala nada. Não precisa.

— Não.

Minto.

Ele sabe que pode.

Sabe que deve.

Me deve ao menos uma noite tranquila fingindo que somos uma família que nunca fomos.



— Não pode.

— Eu parto amanhã, Dess.

Ele fala como quem comenta a previsão do tempo. Estou na cadeira de balanço onde Antoine me esperou quando chegamos. Me estico, confortável demais.

— Você mudou, Dess.

Balanço devagar.

Antoine dorme. Melhor assim. Não quero que ela sinta o cheiro da erva. Vincenzo, o puritano, certamente já sentiu.

— Como assim? Fala aí.

— Isso provoca ansiedade, acelera os batimentos, mata neurônios…

Começo a rir antes que ele termine.

— Digo… os poucos que você tem.

Minha gargalhada ecoa pela varanda.

— Desenvolve…

— Desenvolve?

— Continua, criatura. Conclui o sermão.

Ele segura as correntes da cadeira e me faz parar de repente.

— Ei! Dá pra sair da frente? Eu quero relaxar!

— Depois de me responder uma coisa.

Minhas mãos pousam sobre as dele. Fecho os olhos. Fragmentos da vida dele atravessam minha mente. Momentos soltos. Nenhum com Sweet.

Meu coração dispara.

Talvez…

— Você se enganou, Dess. Eu nunca estive com ela.

Abro os olhos.

— Isso já não me interessa.

Minto e piso no pé dele. Ele reclama. Eu me levanto, dou a última tragada e sopro a fumaça para longe.

— Vocês dois podem fazer o que quiserem. Eu já fiz minhas escolhas.

Ele surge atrás de mim, mãos na minha cintura.

Não me afasto.

— Que escolhas?

Eu rio.

— Tô tentando lembrar…

— Viu? Mais um neurônio morto.

— Pior que é verdade. Espera… lembrei!

Arremesso a guimba pela janela. Viro de frente para ele. A boca dele está perto demais.

Não implora por um beijo. Não implora.

— Dess. Suas escolhas.

Respiro.

— Por que você perguntou se eu ainda gosto do Aiden? Eu nunca o vi antes.

O rosto dele escurece.

— Já sim. Você só não lembra.

As mãos dele deslizam pelas minhas costas. Arrepios.

— Você não pode se ligar a ele. É perigoso.

— Mesmo que eu quisesse, não poderia.

— Por quê?

— Ele é gay, idiota.

Eu rio. Ele não.

— Desde quando?

— Você é cego? Eu saquei na hora. Embora…

Eu giro, leve demais.

— Ele tenha agido estranho naquela sessão…

Silêncio.

— Que sessão?

— Espírita.

Ele me segura pelos braços, firme demais.

— O que vocês fizeram?

— Nada! Eu acho. Sei lá…

— Você não pode cair de novo, Dess. É isso que ele quer.

— Cair de onde? Que papo paranoico é esse?

Ele solta minhas mãos.

— Eu me recuso a discutir isso com você chapada.

Ele se afasta. Depois volta.

— Olha pra mim.

— Tô olhando…

— É sério.

Eu solto a última fumaça.

— Eu tô ótima. Fala.

— Não se liga a ele.

— Eu não quero me ligar a ninguém.

— Nem a mim?

O nariz dele roça meu pescoço. Golpe baixo.

— Bom saber. Eu nunca deixei de te amar.

Eu rio, nervosa.

— Eu rejeito seu amor. Olha só. Evoluí.

Ele vai até os discos do Doc.

— O que você tá fazendo? Ele mata quem mexe nisso.

— Procurando algo que você goste. A Flashback Girl é exigente.

O apelido aperta meu peito.

— O que escolheu?

— A música que você ouviu ontem. No carro. Quando quase me atropelou.

Eu congelo.

— Você era o cara da moto?

— Sim, Dess. Eu era o cara da moto.

Ele me envolve de novo.

— Não se deve xingar ao volante. Tem muita gente ruim por aí.

Encosto o rosto no peito dele. O coração dele bate firme. Seguro.

— Eu preciso deixar de ser reativa. Agora eu tenho a Antoine.

Ele inclina a cabeça.

— Por que você não pensou em sexo até agora?

— Que pergunta idiota.

— Responde.

— Porque eu fiz escolhas. Por ela.

Ele segura minha mão.

— Dança comigo?

— Já estamos dançando.

Ele abandona o vinil, conecta o celular ao Bluetooth. A música começa.

Nós nos movemos devagar.



— Não é um flashback — eu digo.

— Você precisa aprender a gostar do que é novo.

Eu sorrio.

Estou leve. Estou rindo. Estou provocando.

Mas por baixo da erva, do riso e da música, tem uma coisa errada.

Ele tem medo do Aiden.

E Vincenzo não tem medo de quase nada.

Ele ri.

— Que bom que gosta. Porque, de um jeito ou de outro… você é muito doce.

Reviro os olhos.

— Nossa. Que frase sofrível. Você ensaiou isso?

— Foi péssima, eu sei.

— Essa música tem significado.

— Tem?

— Eu sou doce demais pra você. Açúcar puro. E você não gosta mais disso. Agora combina mais com mulher que aguenta pancada e acha que isso é amor.

Ele fica sério.

— Não viaja.

— Deveria viajar. Talvez eu entendesse você melhor.

— Desde quando você é doce assim? Você já me bateu na frente dos meus alunos.

Eu rio alto ao lembrar dele rolando no chão.

— Você mereceu.

— Eu sei. — Ele aproxima a testa da minha. — Me conta uma coisa.

— O quê?

— Por que você não pensou em sexo até agora? Já não gosta de mim?

A pergunta corta a névoa.

— Eu te amo. Isso não muda. Infelizmente.

Ele engole seco.

— Então?

— Eu não gosto de quem eu era quando estava com você. Eu me diminuía. Eu aceitava coisa demais. Depois da Antoine… eu entendi que não posso voltar pra aquela versão.

Ele me observa como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça.

— Explica melhor.

— É longo.

— Eu tenho tempo.

Eu me solto dele e me jogo no sofá. Ele faz o mesmo, mas fica virado pra mim.

— Me conta tudo.

Eu olho para nossas mãos.

— Você vai sumir de novo, né?

Ele entrelaça os dedos nos meus.

— Conta, Dess.

Forço um sorriso.

— Ok.

Meus olhos ardem.

— Eu sei que você vai embora. Você sempre vai. Você nunca fica. Nunca.

Silêncio.

Eu encaro o teto.

Vou te odiar amanhã.

Mas hoje ainda dói como se você fosse ficar.



















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