CAPÍTULO 15 - MORGANA - VOLUME I
SÉCULO XVII – ITÁLIA
Se eu soubesse que seria assim, não o teria aceitado.
Ao me arrancar das mãos imundas do padre Antonio, Ga’al prometera uma vida de prazeres.
Não há prazer algum em capinar, plantar e colher o que a terra decide dar. A terra é fértil. A casa parece encantadora por fora. Por dentro, é úmida e fria — o oposto das mãos quentes de Ga’al, que nunca se cansam de procurar meu corpo.
Sinto repulsa por seu toque… embora meu corpo ainda responda a ele na cama. Com Ga’al aprendi a gostar de sexo, a não vê-lo como imundície ou castigo.
Ga’al é um homem bom. Bruto, tosco… mas genuíno. Ao menos costumava ser, antes de conhecer meu temperamento impulsivo, reativo, ambicioso.
Exausta, observo a vida pacata que ele me oferece. Trabalho sem descanso enquanto festas e castelos de nobres permanecem além do alcance.
É lá que eu desejo estar… — murmuro, estirada na relva, o vento do mar tocando meu rosto.
O som das ondas me distrai. Só percebo sua presença quando ele já está ali, ofegante.
— Pensando em quê?
— No que devo cozinhar hoje. — Minto. — Tire suas mãos de mim.
— Não posso. — Ele sorri, deitado ao meu lado. Seu sorriso ingênuo e a boca carnuda me fazem arfar. — Não consigo ficar perto de você sem te tocar.
— Deverias tentar.
Tento erguer o tronco. Inútil. Sorrio amargamente enquanto ele se diverte puxando os cadarços do corpete puído.
— Eu não te quero agora, marido.
— Quer sim. Eu sinto.
Ele sussurra isso enquanto os dedos percorrem meu corpo.
— Diz que me ama, Morgana.
— Não posso. Eu não minto. — Minto de novo. — Gosto de você, mas não te amo.
— Eu não minto, amor.
Ele fala contra meus lábios. Seu cheiro másculo de floresta me desperta. Suas mãos aflitas apalpam meus seios. Mordo seus lábios antes de me deixar beijar por ele.
Algo dentro de mim treme.
Uma tremedeira gostosa.
Ainda sobre mim, ele pergunta:
— O que te falta? Por que eu te vejo sempre pensando em algo que não me diz? Eu te amo, Morgana. Jamais amei alguém assim.
— Isso é problema seu. Não meu.
Me mexo, chuto, empurro. Ele continua firme sobre mim.
— Saia de cima de mim. Eu não te quero agora.
Mentira.
Permito que me invada com fúria.
De olhos fechados, ouço seus gemidos. O urro longo quando seu calor se espalha pelo interior de minhas coxas, o queixo apoiado em meu ombro.
Ga’al foi o primeiro homem da minha vida.
Minto: o primeiro verdadeiro homem, depois do padre porco que me vendeu aos quinze anos.
Devo minha vida a Ga’al. Uma dívida que levaria séculos para pagar.
— Posso levantar agora ou ainda devo esperar que me uses mais?
Ele se afasta, ferido.
— Por que falas assim de meu amor? Por que nunca te satisfazes comigo? O que te falta?
— Tudo.
Ergo-me da grama fresca e inspiro o ar puro da floresta atrás de nossa casa.
Se eu soubesse o futuro, jamais o teria tratado com tanta indiferença. Teria aproveitado a chance de viver ao lado de quem sempre me tratou como princesa.
Mas ignoro os sinais.
— Tu me prometeste mais do que isso. Eu mereço mais do que isso.
Indignado, ele segura meus ombros.
— O que mais precisas além de uma boa casa, comida e um homem que te ama? Morgana! Eu te dei tudo o que possuo!
O vento atravessa a relva, frio. Nada apaga o calor de suas palavras.
Fico imóvel por um instante, sentindo o peso de tudo que nos uniu… e de tudo que empurrei para longe.
— Desejo mais.
Empurro seu corpo com o meu e sigo em direção à casa com o cesto de frutas.
— Muito mais do que colher legumes e vendê-los numa feira fétida.
— Tenha paciência, meu anjo. Nossa vida vai mudar.
— Quando? Quando eu estiver velha e cansada?
Ele tenta sorrir.
— Tu és jovem. A vida começa agora.
— Então por que não sinto isso? Parece que envelheço aqui sem provar os prazeres que mereço.
— Eu vou te levar a uma festa no vilarejo. Prometo. Vamos dançar.
Quero aceitar. Quero beijá-lo e acreditar.
Mas não consigo.
— Duvido.
— Vou te levar à festa dos aldeões! Gente como nós!
— Para quem isso é festa?
Ele abaixa o tom.
— Morgana… deixa-me te fazer feliz.
Subo os degraus da varanda e me viro de repente. A raiva arde em meus olhos.
— Eu quero mais, Ga’al! Sou jovem! Sou bonita! Mereço mais do que isso! Por que me tiraste das mãos daquele monstro se não podes me dar nada além disso?
— Por Deus! Ele te violentava!
— E o que fazes comigo?
Lágrimas escorrem.
— Amor, Morgana. Eu faço amor contigo. Se te machuco é por não saber de outro jeito. Me ensina.
— Não quero.
Dou-lhe as costas.
— Eu matei por tua causa!
— Ele merecia morrer.
— Para, mulher! Fala comigo! O que te falta?
— Dinheiro!
O mundo pulsa ao meu redor.
Tudo parece perfeito.
Nada me satisfaz.
— Preciso de dinheiro para comprar um vestido! Não vês como ando? Há mendigas vestidas melhor que eu!
— Trabalho o quanto posso! Sete dias por semana!
— Trabalhe mais!
Ele me encara, chocado.
— Venda tuas poções ao povo. Aos nobres.
— Não posso! Sabes o poder que elas têm!
— Exatamente por isso, seu tolo. Usa teu poder para conseguir poder.
— Nunca. Aquilo é sagrado.
O vilarejo fervilha sob o sol impiedoso da Toscana.
A praça pulsa como um coração doente.
Barracas tortas disputam espaço sobre pedras irregulares. Tecidos coloridos balançam ao vento como bandeiras de guerra. O cheiro de peixe salgado mistura-se ao de pão quente e suor humano.
Moedas tilintam. Mulheres discutem preços. Homens negociam como se vendessem a própria alma. Crianças correm entre as pernas dos adultos.
Caminho ereta, o cesto apoiado na cintura.
Sinto o peso das frutas.
E dos olhares.
Sei quando me observam.
Sei quando me julgam.
Jovem demais para falar alto. Orgulhosa demais para baixar a cabeça.
O sol queima minha nuca.
O vento levanta poeira.
Um cavalo relincha.
Alguém ri alto demais.
E então o choque.
Um corpo contra o meu.
O cesto cai.
As maçãs rolam pelas pedras sujas como pequenos corações arrancados.
— Cazzo! Onde está o pequeno demônio que me derrubou?
— Aqui.
A voz não é infantil.
Ergo os olhos.
Um homem elegante segura um menino pelo braço com firmeza calculada. Não é força bruta.
É domínio.
O tecido de suas roupas é fino demais para aquela praça. As mãos limpas demais para aquele chão.
O menino tenta se soltar.
Em sua mão, uma das minhas maçãs.
— Ele é um ladrão? — pergunta o homem, sem emoção.
— Nunca o vi antes.
— Eu só estava com fome, senhora. — diz o menino, erguendo o queixo com uma dignidade que não combina com suas roupas rasgadas.
Algo aperta meu peito.
Abraço-o antes mesmo de pensar.
— Por que não me pediste? Eu te daria.
Ele morde a maçã com barulho.
— Depois de ser tratado como ladrão, perdi a fé no ser humano.
O homem me observa com atenção renovada.
— Ele é seu filho?
— Ele se expressa bem, não é? Tão jovem e já sofre tanto…
— Senhorita. — A correção vem seca. — Ele é seu filho ou apenas um moleque aproveitador?
Ergo o queixo.
— Nem um dos dois. Acabo de conhecê-lo e sei que não é um aproveitador. Existem pessoas aqui passando fome enquanto vocês se refestelam em banquetes, indiferentes à nossa dor.
Silêncio.
Ele sorri.
Não é gentil.
É curioso.
— Perdão. Fui rude. Então não é seu filho. Vocês se parecem.
Gargalho.
— Seria humanamente impossível ter um filho desse tamanho.
Olho para o menino.
— Quantos anos tens?
— Treze.
Viu? Mesmo que quisesse, não poderia ser mãe dele.
O homem inclina levemente a cabeça.
— Não mesmo. A senhorita é muito nova.
— Senhora. — corrijo, firme. — Por favor.
Recolho as maçãs do chão sem pressa. Sinto o olhar dele sobre mim, avaliando, medindo. Ainda não sei quem ele é. Só sei que não pertence a este lugar.
— Vem comigo. — digo ao menino, puxando-o para perto.
Faço uma leve reverência ao homem elegante.
— Até breve.
Sigo adiante, sentindo que, naquele empurrão abrupto, algo muito maior que um cesto havia sido derrubado.
— Espere! Tu só vendes maçãs?
Estranho a pergunta.
— Não. Por quê?
— Porque tenho interesse em comprá-las.
— Por que as minhas, se estamos no meio de uma feira cheia delas?
Ele sustenta meu olhar como se escolhesse palavras raras.
— Porque as suas são, definitivamente, as mais belas.
Por dentro, coro.
Não pelas palavras.
Pelas moedas que imagino tilintando em minha mão.
Um vestido novo. Dois. Talvez três.
Que ele olhe meus remendos. Que conte meus rasgos. Não sabe que cada ponto foi costurado com raiva.
Por que me encara assim?
Como se pudesse ler meus pensamentos?
Como se eu fosse um livro aberto sobre a mesa de um homem rico?
— Quanto queres pelas maçãs? Duas moedas de ouro?
— Por um cesto de maçãs? Estais louco?
Alguns comerciantes se viram. Ele contém o riso.
— Não. Só desejo ajudá-la. E, talvez, a senhora possa me ajudar de volta.
Ajuda.
A palavra pesa.
— Como? É muito! Não posso aceitar! — minto sem piscar.
Com essa quantia compro o vestido dos meus sonhos e ainda me sobra orgulho.
— Sabes cozinhar?
— Sim. Muito bem.
Ele olha para o menino.
— E o seu novo amiguinho tem trabalho? Ou nome?
O menino se adianta, ereto como um pequeno soldado.
— Antoine, senhor. Às suas ordens.
O homem arqueia uma sobrancelha.
— Sabes lidar com cavalos?
— Sim. Gosto muito deles.
— Então esperem-me aqui amanhã, neste mesmo horário.
Meu sangue esquenta.
— Por que devo obedecer às ordens de um estranho?
Ele dá um passo. Aproxima-se sem pressa. Curva o tronco. Toma minha mão.
Seus lábios tocam o dorso da minha pele com formalidade estudada.
— Giovanni, senhora. Duque de Bourbon. Perdoe-me pela indelicadeza.
Duque.
A palavra vibra dentro de mim como um sino de igreja.
— Duque? — minha voz falha por um instante, mas me recomponho. — O que um duque poderia querer de mim ou de Antoine?
Ele sorri.
Não é bondade.
É jogo.
— Saberás amanhã.
Afasta-se com elegância calculada.
Leva algo que não é apenas minha cobiça.
Leva minha curiosidade.
Leva a promessa de algo maior que a feira, maior que as maçãs… maior que Ga’al.
— A bela jovem não me disse seu nome.
Sustento o sorriso, repetindo-lhe a própria provocação.
— Saberás amanhã.
Arrasto Antoine pela estrada de volta para casa. O sol já se inclina, mas minha mente arde.
Imploro a Ga’al que o deixe ficar.
No início, ele hesita. Seus olhos analisam o menino como quem avalia uma lâmina nova: útil ou perigosa.
Mas Antoine não se dobra, tampouco enfrenta.
Respeita.
Observa.
Aprende.
E Ga’al, que matou por mim, rende-se a ele como se o destino lhe entregasse um filho.
Antoine me conquistara no primeiro instante, defendendo-se com inteligência diante de Giovanni.
Tão jovem e já sabe ler homens.
Sabe quando calar.
Sabe quando falar.
Com Ga’al, é cuidadoso.
Comigo, é leal.
Aprende a plantar, a colher, a respeitar o ritmo da terra.
Ensina-me a cavalgar com paciência.
Rimos como se o mundo fosse simples.
Galopamos livres pela relva ao redor da casa. O vento corta meu rosto.
Sinto-me invencível.
Até que o penhasco surge.
Antoine puxa as rédeas e recua. Os olhos sombrios.
— Nunca mais cometa o mesmo erro, senhora.
O vento ruge abaixo de nós.
E por um instante, pergunto-me qual erro ele já viu que eu ainda não compreendi.
— Do que falas!? — grito, montada em Chiara, a égua que Ga’al me deu no dia de nosso casamento.
O vento invade meus cabelos, açoitando meu rosto, enquanto Antoine fita o horizonte como se enxergasse algo além das colinas.
— O mal tem muitas faces, já dizia minha mãe.
Reviro os olhos.
Sempre esse ar de presságio.
Salto de Chiara com leveza, ignorando o peso sombrio de suas palavras. Antoine desmonta logo depois. Puxamos os cavalos pelos cabrestos, afastando-os do vento mais forte.
Ele permanece inquieto.
— Não vou deixar que aconteça novamente — murmura.
— Acontecer o quê?
— Nada.
Ele parece despertar de um transe e segura meu braço, puxando-me para longe do abismo que se abre à nossa frente. As rochas lá embaixo parecem dentes prontos para devorar quem ousar cair.
— O que aconteceu à tua mãe?
Ele hesita. O olhar perde o brilho.
— Contraiu a peste… e me deixou sozinho neste mundo.
O peso da palavra me atravessa.
Peste.
Solidão.
Perda.
Aproximo-me e o abraço com força.
— Não chores. Já não estás só. Estarei sempre contigo.
Ele me envolve com os braços finos, mas firmes.
— Tenho medo de que algo de ruim lhe aconteça, senhora.
— Não me chame de senhora — sussurro, afastando-me para olhar em seus olhos. — Poderia ser tua irmã… mas, se te aprouver, podes me chamar de mãe.
Ele recua um passo.
Lágrimas nos olhos.
Lágrimas nos meus.
O silêncio se alonga, como se o mundo aguardasse.
— Fale algo!
A voz dele sai trêmula.
— Não sei o que dizer… mãe.
Algo se ajusta dentro de mim.
Um espaço que eu nem sabia que estava vazio.
Em mais uma manhã radiante em nossa pequena fazenda, acordo ansiosa pela festa do vinho na aldeia.
Visto meu melhor vestido.
Simples demais.
Sempre simples demais.
— Preciso de algo melhor — reclamo, mais uma vez.
Ga’al pede desculpas com aquele jeito resignado que me irrita e comove ao mesmo tempo. Antoine o chama de pai, e o sorriso tímido que nasce em seu rosto é quase infantil.
Quase.
Estamos na varanda quando, de repente, Ga’al salta a cerca de madeira com agilidade surpreendente e estende a mão.
— Dance comigo.
— Não há música, bobão! — retruco, contra minha própria vontade. — Deixe-me quieta! Ainda me deves um vestido!
Ele se aproxima, olhos faiscando.
— Há música sim. Ouça.
Paro. Aguço a audição.
Nada além do vento, das galinhas, do farfalhar das folhas.
— Parvo…
— Dance com ele, mamãe! — Antoine incentiva, rindo.
— Não há música! — insisto.
Ga’al segura minha cintura.
— Só feche os olhos, esposa. Não estragues nosso momento.
— Não existe “nosso momento”!
Ele me puxa para mais perto.
O vento passa entre nós como se fosse uma melodia invisível. Seu coração bate firme contra o meu.
E por um segundo…
só por um segundo…
quase acredito que isso basta.
Quase.
— Pare de pular feito um macaco ao meu redor. Eu não vou…
— Venha, esposa. Dança comigo e me faça feliz.
— Está chovendo!
Desço os degraus da varanda, como se a chuva fosse desculpa e não convite. Sigo até ele, enfeitiçada por aquele sorriso que me desmonta.
Debaixo da chuva, pergunto:
— Desde quando aprendeste a dançar, marido?
— Não sei. Bastou ver teu sorriso e…
— Cala a boca — suspiro. — E me beija.
Vencida, entrego-me.
As mãos dele são quentes e firmes em minhas costas. Ele me conduz como se realmente houvesse música.
Por um instante esqueço vestidos, moedas, ambições.
Esqueço o mundo.
Concentro-me no que tenho.
Após anos, estou feliz.
Danço com meu marido enquanto um filho amado nos aplaude, rindo sob a chuva.
Um grande presente do Criador… ainda que eu finja não acreditar nele.
— Amo teu jeito de ser, esposa — confessa Ga’al.
— Também te amo, marido — sussurro, finalmente.
Ga’al me ergue nos braços como se eu nada pesasse. Giro no ar, rindo, até perder o chão.
Quando volto, ele me beija com delicadeza inesperada.
Quase angelical.
Mais tarde, em nossa cama, ama-me com suavidade, como se temesse quebrar algo precioso.
E então…
o vestido.
Um dos mais lindos que já vi.
Tecido macio.
Corte delicado.
Impossível para alguém como nós.
Dou pulos de alegria, distribuindo beijinhos em seu rosto iluminado.
— Deve ter custado uma fortuna.
— Tu vales muito mais…
Enlevada, volto aos seus braços.
Esse era o tipo de momento que deveria durar para sempre.
Mas nada dura.
Naquela mesma festa, conheceria de perto o homem que me levaria ao fim.
Perco-me de Antoine e Ga’al entre risos embriagados e corpos dançando ao redor da fogueira. O vinho corre solto. A praça arde sob a luz das tochas.
Então esbarro nele.
O choque é seco.
Seus olhos não são mais curiosos.
São fúria… e desejo misturados.
Algo febril.
— Por que não vieste na manhã seguinte ao nosso encontro como te ordenei?
Ordenei.
A palavra me atravessa.
— Tire suas mãos de mim ou vais se arrepender, senhor duque. Sou mais forte do que imaginas.
Ele aperta meu braço.
— Não estou acostumado a ser contrariado.
— Pois deverias te acostumar.
Dou-lhe as costas e caminho pela praça iluminada pelas chamas inquietas.
— Deixe-me em paz. Meu marido está aqui. Se souber que me persegues, será teu fim.
Ele solta uma risada baixa.
— Confesso que estou morrendo de medo.
Diante da fogueira, volto-me, colérica.
— Fala logo o que desejas de mim e afasta-te.
— Preciso de tua ajuda — rosna, apertando meu braço. — Não te atrevas a me dar as costas.
— Eu me atrevo a fazer o que quiser. Não dependo do senhor e não pretendo depender. Tenho marido e filho. Uma família que me ama e à qual pretendo me dedicar até o fim dos meus dias.
Ele se aproxima.
Cheiro de vinho.
E algo mais forte.
Descontrole.
— E se eu puder te oferecer algo que ainda não tens… e desejas?
Recuo.
Seus cabelos estão desalinhados. A respiração irregular.
Há algo quebrado ali.
— Morgana, deixa-me te ajudar.
O sangue esfria.
— Como sabes meu nome? Eu não o mencionei.
— Tenho minhas fontes. — Ele solta meu braço. — Perdão. Exaltei-me. Tenho meus motivos. Isso não me dá o direito de te machucar.
Afasto-me.
Esbarro em Antoine.
Ele já entendeu.
Sempre entende.
Coloco-me à frente dele.
— Meu filho e eu devemos voltar agora.
— Fiquem. — A voz dele muda. Quase uma súplica. — Deixem que eu lhes fale de meus planos. Se não os apreciarem, nunca mais os importunarei.
Vejo desespero em seus olhos.
Não é apenas desejo.
É necessidade.
Algo maior está em jogo.
Após segundos que parecem eternos, respondo:
— Podes falar. Meu filho e eu o ouviremos.
E naquele instante, sem perceber, dou o primeiro passo em direção ao abismo.
— Agora tens um filho? Ele não era velho demais?
— Vá direto ao assunto. — Interrompo-o, aflita. — Temo que Ga’al nos veja juntos. Precisamos voltar ao nosso lar.
— Gostarias de outro trabalho que não esse de vender maçãs? De frequentar festas e chás entre as damas dos castelos mais abastados?
Meus olhos se fixam em seu rosto.
Por um instante, a ganância e o orgulho falam mais alto.
— Se quiserdes mudar de vida e dar luxo e conforto ao teu filho, tenho-lhe uma proposta.
Ele me observa com uma atenção inquietante.
— Gostarias de mudar a vida do pequenino que descansa em teu ventre?
Levo a mão ao abdômen, instintivamente.
— Co... como sabes que...?
— Não importa. — Diz ele, sombrio. — Encontre-me amanhã, nesta praça. Eu a levarei comigo ao meu castelo.
— E o que eu faria lá? — pergunto, entre assustada e interessada. — Não posso ser vista com outro homem. Meu marido é ciumento e...
— Ele não nos verá.
— Mamãe, não. — Pede Antoine, receoso. — Papai não haverá de gostar.
Abraço-o com firmeza, tentando convencer a mim mesma antes de convencê-lo.
— Tu vens comigo, filho. Talvez consigas trabalho. Dinheiro para o teu futuro.
— Prometo muito mais. Teu filho terá estudo, como os filhos dos nobres.
— Não zombes de mim — peço, incrédula. — Ele é apenas uma criança. Não prometas o que não podes cumprir.
— Amanhã, Morgana. Amanhã tua vida pode tomar um novo rumo. Não me deixes esperando.
Hesito por um segundo que parece eterno.
— Amanhã — prometo.
A carruagem é confortável demais para alguém como eu.
Antoine observa tudo em silêncio.
— Aonde vamos? — pergunto.
— Não te preocupes — responde Giovanni, sentado à minha frente.
Sorrindo para o menino, ele graceja:
— Tens uma mãe muito desconfiada.
— Ela tem seus motivos, senhor.
— E quais seriam?
— Meu pai a ama muito e tem ciúmes dela.
Giovanni volta o olhar para mim.
Há algo ali que me obriga a sustentar a postura.
— Não o culpo — murmura.
Finjo não compreender.
— Estamos longe?
— Acabamos de chegar.
Ele afasta a cortina da janela.
Antoine e eu arfamos.
O castelo ergue-se diante de nós como algo saído de um sonho proibido.
Desço da carruagem sem perceber os degraus.
Meu corpo inclina-se para frente.
Antes que eu toque o chão, Giovanni me segura nos braços.
— Cuidado, mocinha. Da próxima vez talvez eu não esteja aqui para te salvar.
O calor de seu corpo me envolve.
Seus lábios estão próximos demais dos meus.
Por um instante impróprio, imagino o gosto de seu beijo.
— Ponha-me no chão — ordeno, o coração acelerado. — Posso andar.
— Em teu estado, deves poupar esforços.
Ele sobe a escadaria comigo nos braços.
O perfume cítrico invade meus sentidos.
— É de maçã verde. Tenho meu próprio perfumista.
Ele hesita.
— E minha mãe ama flores. Ou melhor… amava.
— Eu nada disse sobre teu perfume — rebato. — E quanto às flores?
De volta ao chão, Antoine me abraça com força.
O temor em seus olhos claros pesa mais que a imponência do castelo.
O salão é vasto.
Luxuoso.
E vazio.
Lustres de cristal espalham uma luz fria pelo ambiente.
O luxo deveria me encantar.
Em vez disso, sinto medo.
— Por que sua mãe deixou de gostar de plantas? — pergunto.
Giovanni pousa a mão sobre uma maçaneta.
Seu semblante endurece.
— Melhor que tu mesma vejas.
O quarto é imenso.
Luxuoso.
E sufocante.
A luz do sol entra pela janela aberta, mas não dissipa a atmosfera pesada.
É como se o ar estivesse contaminado.
Respiro com dificuldade.
Antoine aperta minha mão.
— Mamãe… o que eles fazem aqui?
O sangue esfria em minhas veias.
— Tu os enxerga, filho?
Giovanni caminha até a mulher prostrada na cama.
— Eu sabia que não me enganaria quanto a vós dois.
Ele beija a testa da mulher pálida.
— Ambos têm um dom que ajudará minha mãe a se livrar de seus tormentos.
Então eu os vejo.
Um diabrete paira sobre a cabeceira, sussurrando crueldades.
Um demônio enorme repousa numa poltrona, observando como quem assiste a um espetáculo.
Das paredes surgem vultos.
Mãos translúcidas.
Almas presas murmurando dor e vingança.
Meu estômago se revira.
— Quem é o menino? — pergunta a mulher. — És um anjo?
— Não, senhora. Meu nome é Antoine.
Ele sorri.
— Escreve-se com “i”, mas o som é de “a”. E sou de carne e osso. Ah… e cabelo também.
Um riso fraco escapa dos lábios dela.
Enquanto Antoine fala, algo acontece.
As sombras recuam.
A luz que emana dele não é metáfora.
Ela se espalha pelo quarto como uma aurora discreta.
O diabrete sibila.
O demônio na poltrona estreita os olhos.
Se não fosse por meu filho, eu já teria cedido ao pavor.
— A senhora deveria cavalgar novamente — sugere Antoine.
— Achas que ainda posso?
— Claro que pode. Eu a ajudo.
Ela sorri.
— Gosto de ti, Antoine. Onde está tua mãe?
Meu instinto é fugir daquele quarto.
Mas Giovanni se move como um felino.
Ele segura meu braço.
Puxa-me para perto.
O toque é quente.
Intenso.
Deliberado.
Quando nossos olhos se encontram, algo se abre entre nós.
E eu me conecto a ele.
Não como luz.
Mas como sombra.
Fecho os olhos.
E o vejo.
Cercado por mulheres em vestidos magníficos. Velas espalhadas por todos os cantos. Música. Vinho. Risos leves demais para serem puros.
Então as asas surgem.
Imensas. Brancas… e negras.
Os risos viram urros. Gritos de dor. Gargalhadas macabras.
O rosto dele mergulha nas sombras. Dedos, longos e finos, terminam em unhas pontiagudas, imundas. O sorriso de sua mãe… um outro, perverso… inclinado diante da mulher na cama que geme sob chicotes.
Sangue.
Ódio.
Um livro imenso aberto ao meio. Gotas vermelhas mancham o papel amarelado.
O cheiro metálico invade minha mente.
— Morgana, acorde! Responda à pergunta!
Abro os olhos, atordoada.
— Não compreendo… — murmuro.
A dor me desperta por completo.
— Larga o meu braço! Que mania de machucar meu braço!
— Minha mãe te fez uma pergunta. Responda!
— Não me dê ordens! — rebato, indignada. — Não fale nesse tom comigo! Não sou uma de tuas admiradoras!
Ele ergue as sobrancelhas, divertindo-se.
— Ainda não…
Desvio o olhar dos olhos penetrantes dele antes que me perca outra vez. Sinto-me fraca, mas respondo à mulher.
— Sim. Eu sou a mãe de Antoine, senhora.
— Mas és ainda tão jovem…
— Comecei cedo. — retruco.
Giovanni gargalha. Alta. Despudorada. Nada nele é contido como em Ga’al, sempre tão reservado. O pomo-de-adão sobe e desce enquanto ele ri, e meu rosto arde.
Ele percebe.
Sempre percebe.
E a sensação incômoda retorna: ele lê o que penso.
— Desagradável… — rosno.
— O que te incomoda, Morgana?
— Nada, senhora. — minto.
Puxo Antoine para perto de mim.
— Precisamos partir. Foi um prazer conhecê-la.
Outra mentira.
Não há prazer algum naquele quarto sufocante, repleto de seres que vibram ódio, vingança e lascívia.
— Saia da minha frente, duque de Bourbon. Antoine e eu ainda temos um longo caminho a percorrer.
— Está chovendo muito.
— Percebi. — ironizo. — Não somos de papel. Ao contrário de vós, nobres, não tememos lama. Retire esse sorriso do rosto, Giovanni.
— Não é de superioridade. — Ele inclina a cabeça. — É de interesse.
Engulo em seco.
— Não vá. — suplica a mulher. — Eu gostei do menino. Ele me acalma.
— Existem remédios para isso, senhora. Meu marido tem alguns maravilhosos…
Giovanni permanece diante da porta.
Bloqueando a saída.
— Meu filho não pode permanecer aqui. É muito novo para certos ambientes.
— Fica, Morgana. Converse com ela.
Ele se ajoelha.
Eu realmente considero chutá-lo.
Então ele junta as mãos, quase em prece.
— Sei que tu podes salvá-la. Vós dois podeis salvar minha mãe.
— Eu não sou Jesus, Giovanni. Só Ele pode salvar tua mãe. Saia da minha frente.
— Fica até a chuva passar… — geme a mulher. — Ao lado de vós, as vozes se calam… Ai… meus cabelos…
Ela segura chumaços ralos entre os dedos.
— Estou morrendo. Tenho medo de ser levada por eles. Eles me odeiam.
Olho ao redor.
— Eles têm seus motivos, senhora.
Giovanni me encara. Atento. Tenso.
— Muitos estão aqui… — continuo.
— Continue. — pede ela, desesperada. — Por que estão aqui? Estou tão perdida! Filho, minha cabeça dói!
— Já tomaste o remédio, mamãe. Aguarda.
— Dói! — ela grita.
Vejo as mãos enormes do demônio comprimindo suas têmporas. Ele sorri enquanto a tortura.
Não assistirei sem agir.
Inspiro fundo.
Lembro-me dos ensinamentos de Ga’al. Da magia. Dos símbolos. Da intenção firme.
Com um pedaço de carvão próximo à lareira, traço no chão um sigilo antigo. Linhas firmes. Precisas.
O demônio recua, como se queimado.
A pressão cessa.
— Passou… — sussurra ela, aliviada. — O que fizeste?
O quarto inteiro parece prender a respiração.
E Giovanni me olha como se, naquele instante, tivesse encontrado exatamente o que procurava.
— Nada de definitivo. Talvez ele volte. Qual é o seu nome, senhora? — pergunto, enxugando o suor de sua testa com um pano úmido.
— Celeste.
Por Baco… um nome celestial para alguém devorado pelas trevas.
— Ajuda-me, Morgana. Seja minha dama de companhia. Sei que seremos grandes amigas.
Procuro Antoine com os olhos. Ele conversa com as almas como se falasse com vizinhos na praça.
— O que pensas disso, filho?
— Devemos fazer o bem sempre que possível, mamãe. Eu gostaria de ajudar.
Maldição.
Eu não quero ficar aqui.
— O que diz, mamãe?
— Tereis tudo aqui. — garante Giovanni. — Bom salário, ótimas acomodações, estudo, boas refeições…
Ele hesita um segundo e acrescenta:
— Lindos vestidos.
Meu coração vacila.
— Meu marido jamais permitiria… — murmuro.
O demônio que recuara com o sigilo agora me observa, furioso. Aproxima-se como uma sombra que aprende a esperar.
Seguro a mão de Antoine.
— Precisamos partir.
— Por favor! — Giovanni nos segue pela escadaria. A chuva já invade o salão pela porta aberta. — Ela precisa de ajuda! Fica!
— Por que eu?
— Porque tu os vês. E os domina.
— Como sabes disso?
Ele me encara como se estivesse cansado de esconder algo.
— Eu te conheço, Morgana.
— Desde quando?
O sorriso triste surge antes da resposta.
— Desde que eu caí.
O ar pesa outra vez.
Não fico para entender.
Corremos sob a chuva. Giovanni segura minha mão até o último instante.
“Eu sei que vais voltar.”
Ele diz isso como quem afirma o óbvio.
Chegamos em casa encharcados. Antoine me olha com expectativa.
– O que vamos fazer, mamãe? Aquela mulher precisa de ajuda.
Eu não penso em Celeste.
Penso em vestidos novos. Em olhares invejosos no vilarejo. Em deixar de ser apenas a esposa do boticário.
A porta se abre bruscamente.
– Por onde andastes, esposa!? Por que caminharam debaixo de chuva!?
– Não caminhamos, estúpido! Corremos! – rebato. – E isso é modo de falar comigo? Tu me assustaste!
– No que pensavas?
– Na chuva! – minto.
– Desculpa, papai. – intervém Antoine. – Fomos visitar uma enferma.
– Enferma? Quem?
– Uma de tuas possíveis clientes, se fosses esperto! – disparo antes de espirrar.
Ga’al me envolve nos braços, irritado e preocupado ao mesmo tempo.
– Vais adoecer e prejudicar nosso filho! Cazzo!
– Põe-me no chão! Não retires minha roupa diante de Antoine!
– Tolinha.
Ele afrouxa os cadarços do corset com habilidade e fala baixo:
– Só quero que fiques seca. E debaixo dos lençóis. Precisas descansar.
– Estou grávida, não doente. – ergo os braços enquanto ele puxa o vestido molhado por cima da minha cabeça.
Seus olhos percorrem meu corpo nu por um segundo a mais do que deveriam.
– Estás linda. Ainda mais linda… Nosso filho terá a mãe mais bela do vilarejo.
– Que consolo maravilhoso. – ironizo ao vestir a camisola velha. – Entre mulheres fedidas e cansadas, eu sou a mais bela. Agradeço.
Sento-me à mesa e pego uma maçã.
– Por que me olhas assim? Não posso comer?
Ele se senta à minha frente. O olhar não é comum. É aviso.
– Por que estás inquieta?
Mordo a fruta, fingindo indiferença.
– Nunca traias minha confiança, esposa. Sou irlandês. Meu sangue é quente como o teu. Mas meu povo carrega sombras. Tenho um lado que não gostarias de conhecer.
O silêncio se instala.
– Que lado? – pergunto, ainda mastigando.
Ele não sorri.
– Um maligno.
E, pela primeira vez naquela noite, não sei qual homem temo mais.
Ga’al não se opõe à ideia de que Antoine trabalhe no castelo do duque de Bourbon.
Desde que eu não vá.
– Se mamãe não for, eu não irei. – Antoine cruza os braços, entristecido. – Tenho medo.
– De quê? – pergunta Ga’al, suave, sentado à mesa enquanto sirvo a sopa rala em silêncio.
O vapor sobe do prato. Em minha mente, transforma-se em faisão dourado, regado a vinho encorpado. O cheiro imaginário quase me faz sorrir.
– O que há naquela casa que te angustia, filho?
– Demônios, papai. Demônios vingativos.
Sento-me ao lado de Antoine e giro a colher dentro da sopa, fingindo distração.
– Tenho medo que me façam mal se mamãe não estiver comigo. Aquela senhora me ofereceu uma pequena fortuna para ensiná-la a montar. Com esse dinheiro poderíamos comprar ovelhas. Vacas. Não pagaríamos mais pelo leite. Mamãe não precisaria se esforçar tanto na plantação.
A sopa esfria entre nós.
Observo o rosto de Ga’al mudar. Primeiro desconfiança. Depois cálculo. Por fim… esperança.
– Meu irmãozinho precisa de cuidados. – completa Antoine.
Xeque-mate.
Ga’al respira fundo.
– Entendo… – rosna, lançando-me um olhar sombrio. – Tens razão, filho. Prometes protegê-la do assédio do duque? Ele tem fama de conquistador.
– Tolices! – interrompo. – Sei me defender daquele homem. Conheces meu passado.
– Exatamente! – ele empurra o prato vazio sobre a mesa. – Sofreste nas mãos daquele padre. Se não fosse por mim, ainda estarias sofrendo!
– Não fales assim comigo! Sei cuidar de mim! – levanto-me abruptamente.
Antoine abaixa a cabeça. Percebe que a conversa desanda.
– Deixa-me ir! Precisamos do dinheiro! O que ganhas não é suficiente!
Isso o atinge.
Ga’al se ergue devagar. Aproxima-se. Seus dedos se fecham em meu braço.
– Tu já não estás sozinha. Carregas um filho meu.
– Solta-me! Isso dói!
Ele não solta de imediato.
– Morgana… não mintas para mim. Por que desejas esse trabalho?
– Pelo dinheiro. – rosno. – Não suporto mais esta vida sem graça. Quero mais. Eu mereço mais.
– Mamãe… – murmura Antoine.
– Mais do que o amor que tenho por ti? – pergunta Ga’al.
O silêncio pesa.
– Amor não põe comida na mesa, marido! – disparo, mesmo vendo a tristeza crescer em seus olhos. – Sopa rala. Vestido velho. Casa úmida. Estou farta! Nossos filhos merecem mais!
Ele finalmente solta meu braço. Mostra a mão aberta, como se também doesse nele.
Eu deveria parar.
Deveria pedir perdão.
Não peço.
– Preciso ajudar aquela pobre mulher. – minto.
A verdade vibra dentro de mim: quero lençóis de seda. Quero uma lareira imensa. Quero vestidos que façam as mulheres da aldeia engolirem o desprezo. Quero o perfume cítrico do duque misturado ao ar da manhã.
– Não me olhes assim. – sussurro, quase desafiando. – É pecado desejar uma vida melhor para aqueles que amo?
– Não. – ele responde, apoiando-se no ombro de Antoine.
A voz falha.
– Estou entre aqueles que amas?
A pergunta me atravessa.
– Sim.
E, pela primeira vez, a palavra soa mais frágil do que verdadeira.
– Por que nas costas? Não vou conseguir desamarrar sozinha!
– Essa é a intenção, meu bem. – responde Celeste, recostada à cabeceira, mais disposta do que nos dias anteriores. O sorriso é plácido. A pele, alvíssima demais. Os cabelos… um desastre permanente. – Para isso existem serviçais. Para amarrar e desamarrar espartilhos.
– Patético. – resmungo diante do espelho.
Não desvio os olhos da jovem ruiva que luta contra os cadarços com dedos trêmulos. Há algo nela que me incomoda.
Desprezo mal disfarçado.
Por que ela me olha como se eu fosse uma invasora?
– Por que eu precisaria de alguém para me vestir? Estou grávida, não inválida. – respiro com dificuldade. – Perdão… não quis ser rude, vossa excelência.
– Ora! – Celeste ri, cansada e divertida. – Não me chames assim. Gosto de ti. Chama-me de Celeste.
– Vossa Excelência! – interrompe a ruiva, ríspida. – Ela é sua dama de companhia, não alguém de sua família!
Ergo o queixo. Aliso o tecido fino do vestido novo, sentindo-o deslizar sobre a pele como promessa.
Celeste arqueia uma sobrancelha.
– Quem pensas que és para falar nesse tom comigo? – A voz dela muda. Fria. Cortante. – Sai imediatamente dos meus aposentos antes que eu perca o bom humor e te devolva ao lixo de onde te tirei. És uma serviçal. Não te esqueças disso.
A jovem empalidece.
– Perdão, vossa excelência.
Ela se curva diante de mim numa reverência forçada. Antes de sair, lança-me um olhar carregado de ódio.
Aquilo me faz tremer.
– Não fiques abalada, Morgana. – diz Celeste, quase maternal. – Meu netinho não pode sofrer em teu ventre. Isabella não tornará a te importunar.
Meu sangue esfria.
– Seu neto? Como assim?
Antes que eu respire novamente, sinto mãos firmes em minha cintura.
Giovanni.
– Não desmintas. – ele sussurra junto ao meu ouvido. – Não contes a verdade.
Seus dedos deslizam pelo meu pescoço. O perfume cítrico me envolve como névoa. Por um segundo longo demais… eu não o afasto.
Então ele fala alto, teatral:
– Nosso filho trará luz às trevas onde minha mãezinha habitava. Não é, mamãe?
Celeste leva a mão ao peito.
Uma luz começa a emergir dali. Literal. Radiante.
– Um herdeiro… – sussurra ela. – Um sonho realizado!
Os espíritos recuam. As sombras se dissipam como fumaça ao vento. A energia no quarto muda.
Eu deveria destruir aquilo.
– Não, senhora… – minha voz falha.
Se eu disser a verdade, a luz se apaga. As trevas voltam. Antoine perde a oportunidade de estudar.
E eu perco os vestidos.
A vida confortável.
A chance de nunca mais ser apontada na aldeia.
SEJA VOCÊ MESMA.
A voz ecoa dentro da minha cabeça.
Quem disse isso?
Sou eu?
Ou algo que se aproveita da minha ambição?
– Senhora, esse filho não…
– Giovanni! – grita Celeste. – Ampara Morgana!
Sinto algo tocar minha testa.
Um choque frio.
– O que fizestes…? – sussurro.
O sorriso enigmático de Giovanni é a última coisa que vejo.
A luz se apaga.
Como uma vela sufocada por dedos invisíveis.
– Ga’al… me perdoa…
E tudo se dissolve.
Antoine cavalga ao lado de Celeste em seu puro-sangue inglês. Ela ri. Revigorada. Viva. Nada resta da mulher espectral que encontrei naquele quarto sombrio.
O sol toca seus cabelos.
Ela parece outra pessoa.
Meu filho também mudou. Aulas de desenho. Canto. Linguagem. Educação moral e cívica. Religião.
O padre ficaria lívido se soubesse que a “cura” de Celeste envolveu símbolos atribuídos ao rei Salomão.
Santo?
Não exatamente.
– Melhor não dizer nada. A caça às bruxas ainda não terminou.
– Diabos! De onde surgiste? – reclamo. – Tu me assustas o tempo todo!
– Posso me sentar?
– O banco é teu. Assim como todo o resto, duque de Bourbon.
Ele sorri.
– Prefiro Giovanni.
– Eu não. Quanto maior a distância, melhor. E pare de rir de mim.
– Não estou rindo. Estou sorrindo. É diferente. – Ele contém o riso como um garoto travesso. – Tu és diferente das mulheres que conheço. Elas se escondem sob pó de arroz e sorrisos vazios.
– Problema delas. Não meu.
Ele gargalha.
– Vês? Sempre me faz rir.
O sol ilumina seus olhos absurdamente azuis. Seu pescoço. O movimento do pomo de Adão.
Engulo em seco.
Ele para de rir.
– Por que me odeias?
Meu coração falha um compasso.
– Tu me ouves? – aperto o livro contra o peito. – És bruxo? Como sabes que te odeio?
– Não me odeies. Eu não sou mau. Sou grato a ti e a teu filho. Minha mãe está curada. Vós a curastes.
– Não. – recuo quando ele desliza mais perto no banco de ferro. – Quem a curou foi Antoine. Ele é pura luz. Um anjo na Terra.
– Concordo. – ele se inclina. – E vós? O que sois?
O perfume cítrico me desarma.
– Um demônio. – respondo, quase num sussurro. – Sou da mesma laia que aqueles que a atormentavam. Meu marido tenta me fazer feliz, e eu nunca estou satisfeita. Ele é bom. Não merece a esposa que tem.
Os olhos dele endurecem.
– É ele quem não te merece.
– Tu não o conheces.
Ele ergue levemente a sobrancelha.
Meu estômago se contrai.
– Conheces?
Ele se levanta.
– Aonde vais? Fica. Responda-me.
Seguro seu colarinho antes que pense.
O sorriso que surge é lento. Perigoso.
– Não te atrevas a me deixar sem respostas.
– Acalma-te. Nosso filho não pode sofrer abalos.
– Ele é meu filho! – minha voz sobe. – Estou farta dessa mentira. Vou acabar com isso hoje.
– Tens certeza? – ele dá um passo atrás. – Vais abrir mão de tudo?
– Nada ganhei além de culpa!
– E vestidos. Comida farta. Salário. Estabilidade para Antoine.
As palavras me atingem porque são verdade.
Nosso rancho prosperou. O gado aumentou. A plantação triplicou.
Ga’al permitiu que eu ficasse aqui por quê?
Dinheiro?
Não.
Não posso pensar isso dele.
O erro sou eu.
Eu que desejo outro homem quando me deito com meu marido.
– Tu és tão boa que nem percebes. – ele toca minha bochecha com o dorso da mão.
O primeiro toque.
Minhas pernas fraquejam.
Recuo, furiosa.
– Que queda é essa de que tanto falas? De onde caíste?
– Por que carregas o livro?
– Para ler, obviamente! – rebato. – Fala-me da queda. Do céu?
– Receio que não.
– Então de onde?
Ele ignora a pergunta. Toca o livro.
– Sabes ler?
O calor sobe ao meu rosto.
Não respondo.
Aceno para Antoine, que cavalga feliz. Ele me sorri.
Giovanni permanece diante de mim, imóvel.
– Morgana…
– Não. – viro-lhe as costas. – Vá para o inferno.
Ele ri outra vez, caminhando ao meu lado.
– E como pretendes ler o livro?
— Antoine há de me ensinar… — respondo, mordendo o orgulho.
Nunca aprendera a ler ou escrever. Quando pequena, não houve tempo. Quando cresci, fui vendida ao padre porco, que de mim só queria o corpo.
— Não rias de mim. Não sabes da vida que já tive.
Giovanni se ajoelha diante de mim.
Ajoelha.
— Perdão. — Sua voz sai baixa, sincera demais para que eu sustente a raiva. — Eu vou te ensinar. A ler. A escrever. Eu juro.
Sorrio contra a minha vontade.
— Levanta… — sussurro, sentindo o estômago leve, como se tivesse asas. — Ou tua namorada vai morrer de ciúmes.
Ele olha para a ruiva atrás da árvore como quem observa uma cortina mal posicionada.
— Ela não é minha. Nunca foi. Tu és a única que eu desejo. Deixa-me entrar na tua vida.
Baixo os olhos. Ele não percebe o quanto já entrou.
— Amanhã começamos.
Engulo seco.
— Isabella ouviu algo… sobre o filho não ser teu?
— Ouvindo ou não, ela se calará.
O modo como diz isso não me tranquiliza. Finjo que sim.
Aprendi a ler. Aprendi a escrever. Não porque fui dócil, mas porque ele não desistiu quando o xinguei, quando o empurrei, quando lhe acertei o rosto num acesso de fúria.
Qualquer outro teria me punido.
Ele sorria.
— Estarei ao teu lado. Para sempre.
Palavras têm peso. Eu acreditei.
Mal sabia que o Universo tem o hábito cruel de cumprir promessas.
— Agora é minha vez de retribuir.
— Como assim, senhora?
Aproximo-me e sussurro:
— Retira esse sorriso do rosto. Não é o que pensas. Não me deitarei contigo. Sou casada. Há mulheres demais esperando por uma fração do teu olhar.
Ele não se abala.
— Nenhuma delas me tem. Meu amor já escolheu.
Fico muda, salva pelo riso de Celeste, rodopiando com Antoine no salão renovado.
— O que ela quer?
— Dançar — responde Giovanni, já indo até ela.
Ele a ama. Isso é claro. E homens que amam suas mães são perigosamente convincentes.
— Mamãe, concede-me essa dança?
— Não, filho. Hoje danças com Morgana.
— Não posso! — protesto.
— Não tens pernas? — Celeste ri e acena aos músicos.
A música começa.
Giovanni estende a mão.
— Vem. Ensina-me a dançar.
— Nunca estive em um baile.
— Então hoje é a primeira vez.
Ele me puxa para perto. Não com violência. Com certeza.
— Apenas me segue.
A música cresce. Eu erro. Piso em seu pé. Rio. Ele ri também.
E, pela primeira vez, não me sinto errada por existir.
— Amo essa canção — digo, ofegante.
— Descansa. — Ele me segura pela cintura. — Teu marido não entra aqui.
— Por que estou sem fôlego?
Ele sorri.
E eu sei a resposta.
— Esse estorvo de espartilho não me deixa respirar.
Minto. O que me falta é ar por estar colada a ele.
As mãos de Giovanni deslizam por minhas costas. Seus dedos se entrelaçam aos meus.
— Pare de me olhar assim, duque de Bourbon. Estamos próximos demais.
— Bobagem. — Ele me puxa ainda mais. — Isto é próximo demais.
A música embala. Um beijo leve em minha bochecha.
Fecho os olhos.
Confio nos passos dele.
Celeste e Antoine batem palmas, orgulhosos.
Quando torno a olhar ao redor, percebo que danço como uma dama da corte.
De repente, o mundo gira.
— Cansaste? — pergunta ele.
— Não… — levo a mão à boca. — Estou enjoada. Perdão.
Corro para o pátio e vomito ajoelhada sobre as pedras frias.
Vejo pés descalços diante de mim antes mesmo de ouvir os passos.
Então a voz.
— Vais pagar por ter me roubado o homem que amo.
Ergo o rosto.
Isabella emerge das sombras.
— Eu nada tenho com Giovanni — digo, limpando a boca com o dorso da mão. — Ele é teu.
— Não mais, vagabunda! — Ela avança, os olhos ardendo. — Ele já não me olha como antes. Vai te usar. E quando te descartar, eu estarei aqui para rir.
— Não digas isso… Eu não o quero.
— Mentira! Eu vi vocês dançando. Ele te beijou!
— No rosto!
— Tu o desejas. Eu reconheço aquele olhar.
Passos firmes se aproximam.
— Algum problema, Morgana? — A voz de Giovanni vem fria.
— Não. — Abraço Antoine contra mim. — Ela não fez nada.
Giovanni segura Isabella pelo braço e a arrasta alguns passos.
— Deixe-a — peço. — Não a machuque.
Eles discutem à distância. Celeste chama Antoine para longe.
Isabella cospe no rosto dele.
O silêncio se parte.
Giovanni ergue a mão.
Antoine prende o fôlego.
Eu corro.
Seguro o braço dele no ar.
— Não faças isso. É covardia.
Um sorriso torto surge no canto da boca dele.
— Não te preocupes. Ela gosta.
Isabella me encara como se já tivesse vencido.
— Teu príncipe não é o que parece.
E desaparece na noite.
Do homem doce que dançara comigo na varanda de nossa casa, quase nada restara.
Ga’al tornara-se silencioso. Recluso. Observa-me como se eu fosse um enigma que tentou decifrar… e desistiu.
E eu?
Eu me esforço.
Talvez por culpa.
Talvez por medo de que Giovanni seja mesmo capaz de violência.
Talvez por querer me afastar do castelo e não conseguir.
Talvez porque ainda ame meu marido.
Ainda o amo.
Não inteiro. Mas amo a parte dele que me observa agora enquanto preparo o guisado com carne e especiarias compradas com o meu salário.
— Gosto do teu sorriso, marido — digo, junto ao fogão à lenha, provando o caldo. — Sempre gostei. Da tua boca. Do teu jeito envergonhado de sorrir. Prova.
Ele sorve o caldo da colher. Umedece os lábios.
Por um instante, reconheço o homem com quem me casei.
— Gostaste?
— Sim. Muito.
Ele não desvia os olhos.
O sol do outono desenha ternura em seu rosto.
— Esposa…
— O quê?
Sem aviso, ele me puxa pela cintura.
— Vamos fugir daqui? Tu, eu e nossos filhos.
O chão parece inclinar.
— Fugir? — recuo até a mesa. — Do quê?
Ele me beija com urgência.
Não é desejo.
É desespero.
— Recomeçar longe daqui. Longe do mal.
— Que mal, Ga’al? Nunca estivemos tão bem.
— Eu sinto. Algo ruim vai acontecer.
Ele sussurra contra meus lábios.
Suas mãos repousam sobre minha cintura.
E então acontece.
Não sei se é memória, pressentimento ou castigo.
Vejo sombras ao redor dele enquanto trabalha na estufa.
Muitas.
Depois apenas uma.
Espessa.
Um salão escuro.
Tochas.
Grades.
Gritos.
Vejo Ga’al caminhando à noite. A sombra o acompanha.
Ele entra numa taberna vazia. Bebe.
A sombra se inclina e murmura ao seu ouvido.
Seu rosto endurece.
Ele devolve o caneco com força.
Então uma mão delicada toca a dele.
Ele olha de esguelha.
E eu reconheço a voz.
— Esposa! Acorda! Ouves o que te peço? Eu não quero te perder!
Recuo, ainda atordoada.
— Por que tens te encontrado com Isabella?
Ele empalidece.
— Como sabes disso?
— Não te importa! O que fazias com ela?
O ciúme me consome antes que eu perceba.
— Eu não admito que me traias. Não com ela!
— Nunca te traí! — ele também se exalta. — Jamais pensei em outra mulher!
— Então o que fazias na taberna ao lado dela? O que tens pensado para atrair aquela coisa? Eu não te reconheço mais!
Lanço a colher contra seu peito.
Ele quase sorri.
Quase.
Eu poderia ter parado ali.
Poderia ter beijado sua boca e encerrado a discussão.
Mas escolho a guerra.
— Se me traíres, eu te abandono. Levo meus filhos comigo!
A expressão dele muda.
Do espanto à fúria.
Ele segura meu braço.
— É isso o que desejas? Ir viver no castelo do duque por quem estás apaixonada?
Cubro o rosto.
— Mentira! Isabella disse isso? Aquela maldita?
— Eu nada tive com ela. — a voz dele amolece. — Penso em ti. Em nossa família. Em nosso filho em teu ventre.
Meu coração falha.
— Olha nos meus olhos. Usa teu dom. Vê se minto.
Eu olho.
E vejo.
Não mentira.
Mas sombra.
— O que sentes? — ele insiste. — Por que tanta raiva?
Um riso triste escapa dele.
— Não tens ciúme de mim. Tens dele.
— Não! Eu odeio aquela mulher!
— Por quê?
— Porque ela quer o que é meu!
— O duque?
— Não, idiota! Você!
Ele me encara.
— O que mais o duque te ensinou?
O tom mudou.
Grave.
Fundo demais.
— A dançar — respondo. — Por que ouves as palavras de um demônio? Onde está tua fé?
O sorriso que surge não é dele.
— Teu marido deixou de acreditar quando o traíste, puttana.
Meu sangue gela.
— Não! Ga’al, reage!
Eu o sacudo.
A mão dele me atinge antes que eu consiga me proteger.
O mundo gira.
Caio.
Antoine surge à porta.
— Papai, não!
A bota atinge meu ventre.
A dor rasga.
Algo quente escorre entre minhas pernas.
Antoine se joga sobre mim.
— Acorda, papai!
— Ga’al, retorna! — grito, cuspindo sangue. — Tu és mais forte!
O rosto dele se distorce.
— Ele me invocou — a entidade rosna. — Por tua culpa.
Arrasto-me pelo chão.
Com carvão, traço um hexagrama.
Sal ao redor.
O sangue escorre pelas minhas coxas.
— Eu te expulso! Ele é um bom homem!
— Já fui… — a voz de Ga’al surge por um instante. — Sou eu quem o comanda.
— Vamos fugir! — suplico. — Eu nunca te traí!
— Eu os vi juntos. Na cama.
— Mentira!
Agarro sua camisa.
— Eu só dancei.
— E o beijo?
— No rosto!
Ele ri.
Amargo.
— Então não devo me preocupar porque outro homem te beijou.
— Foi sem meu consentimento.
— Estamos tranquilos, então.
O sarcasmo dói mais que o tapa.
— Ga’al… tu me assustas.
— Talvez o duque te console.
— Eu não o quero. Quero meu esposo.
— Que lástima. Logo agora?
A voz já não é totalmente dele.
— Tu não és assim, esposo. Fala comigo.
— Não posso. Não mais. — o esforço para falar é visível. — Tu me deixaste sozinho tempo demais. Pensando no que fazias no castelo. Enquanto sorrias para ele. Enquanto permitias que te tocasse.
Cada palavra é uma lâmina.
— Ainda não é tarde! — seguro seu rosto entre as mãos. — Antoine e eu iremos contigo para onde quiseres. Afasta-te desse ser. Ele mente. Eu jamais te traí.
A mentira pesa.
Mas eu a digo.
— Vamos fugir.
Ele fecha os olhos.
— Somos um só agora.
Quando os abre, já não são iguais.
— Isso foi selado na noite em que Isabella me contou.
— Ela mente! Ela é amante de Giovanni! Tem ciúmes!
— Por quê? — ele rosna. — Foi só um beijo no rosto. Inocente. Entre amigos.
Ele se afasta como se eu fosse imunda.
— Não me toques, cobra.
O empurrão me lança ao chão.
— Perdão — suplico. — Dá-me outra chance. Pelos nossos filhos.
— Mamãe… — Antoine me ajuda a levantar.
Ga’al nos observa.
E então sorri.
Não é o sorriso que conheço.
— Agora vais conhecer… meu lado maligno.
Ele nos expulsou.
Sem malas.
Sem mantos.
Sem nada.
A porta foi fechada como se estivéssemos mortos.
Antoine o abraçou antes de partir.
Um abraço longo.
Desesperado.
Por um instante, vi hesitação nos olhos de Ga’al.
Por um instante, o demônio vacilou.
Quase.
Mas quase não salva ninguém.
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