CAPÍTULO 14 - OCULTO




Conto a verdade a Vincenzo.
A minha verdade.

Depois de anos vendendo o corpo e fingindo que era só trabalho, eu cansei. Meu corpo pede trégua. Minha alma implora silêncio.

Preciso parar.

Preciso ouvir Miguel, o Arcanjo, que já me arrancou do abismo mais de uma vez. Preciso proteger Antoine. Não posso falhar de novo. Não posso voltar para o vício. Para a compulsão que sempre pede mais.

E se eu cair outra vez?

O que seria dela?

Ouvi num podcast que o cérebro, quando se acostuma com o sexo trivial, começa a exigir extremos. Sempre mais. Sempre mais sujo. Sempre mais proibido.

Não sei se é verdade.
Não vou pagar para ver.

Talvez eu esteja exagerando. Talvez não. Só sei que não suporto mais viver num mundo onde nada nunca é suficiente. Onde eu nunca sou suficiente.

Estou nessa vida há anos.

Cansei.

Finalmente encontrei um motivo forte o bastante para me arrancar dessa lama. E não vou permitir que ninguém me desvie.

Talvez esse novo caminho me liberte da sombra de Ga’al.

Antoine não merece conhecer essa parte bizarra da minha vida.

Não merece.

— Bons motivos.

— Sério?

— Sério. — Ele engole seco. Os olhos azuis marejados. — Nunca te vi tão decidida a não se destruir.

— Nós nunca falamos sobre isso.

— Falamos sim, senhorita. No meu carro. A caminho da casa de praia. Você mencionou posar para outdoors.

— Aaah… — Reviro os olhos, lembrando. Exalo devagar. — Lembrei.

— Eu nunca esqueci daqueles dias. Nem dos anteriores.

— Que anteriores? A gente nunca teve nada antes. A gente nunca trepou antes.

— Fizemos amor. — corrige ele, firme.

Reviro os olhos.

— Claro. Fizemos amor. A gente não trepa, né?

— A gente não trepa, Dess.

— Ok. A gente fazia amor. — Dou de ombros. — Porque agora não faz mais.

Ele me observa em silêncio. Como se estivesse tentando gravar cada detalhe meu.

— Oi? Acorda!

— Não quero. Quero guardar esse momento.

— Para de drama.

— Eu fico feliz por você.

Tomo um gole grande demais de vinho.

— Não fica. Eu ainda não fiz nada.

Evito seu olhar.



— Vai ser difícil sem a grana.

— Eu posso te ajudar.

— Não quero. — Rosno baixo. — Posso me virar sozinha.

— Por que você fala assim?

— Porque você vai me deixar, Vincenzo.

O silêncio pesa.

— Não fala isso.

Ele toca minha mão. O calor me desmonta. A outra mão encosta na minha bochecha.

Eu quase cedo.

— Não me toca… — minha voz falha. — Ainda não sou forte o bastante.

Ele suspira. Depois arregala os olhos.

— Necrofilia? Não é exagero?

Estapeio o braço dele.

— Eu não sei! A mulher do podcast disse que o cérebro se acostuma. Que precisa de mais dopamina. Mais estímulo. Mais choque.

Gesticulo, nervosa.

— Quando o trivial não basta, ele procura o proibido.

— E você acha que ia chegar nisso?

— Eu não vou pagar pra descobrir! — tomo outro gole. — Chega de orgias. Chega de set maluco. Chega de diretor achando que meu limite é figurino.

Ele fica tenso.

— Eu me recuso a ser usada daquele jeito outra vez.

— Dess…

— Você não está me ouvindo! — minha voz sobe.

— Fala baixo. Antoine pode acordar.

— Odeio quando mandam eu falar baixo! Ela tem sono pesado!

— Eu não mandei. Eu pedi.

— Você está me irritando.

— Quem falou isso?

— A mulher do podcast, porra!

Ele respira fundo.

— Então fala.

— Não ria de mim.

— Eu tô sorrindo pra você, Dess. — Ele abre aquele sorriso que sempre me desmonta. — É de tristeza.

— Cala a boca e me ouve! Eu não quero…

Engulo seco. A voz embarga. 

Por que não aprende a ser independente? 

Por que não morre logo dentro de mim, voz imbecil?

— Vincenzo… eu não quero saber dos seus planos.

— Fala.

— O quê?

— Da mulher do podcast.

Exalo quando ele sorri de novo. Quando foi que eu virei essa idiota que derrete com covinhas?

— Vou ligar o som. Odeio esse silêncio cheio de coisa não dita. — Grito: — Alexa! Toca Bach! Volume oito!

— Bach?

— Qual o problema? Não posso ouvir música que não me faça querer transar?

Ele ri. Senta no tapete, ao meu lado. A sala simples. O tapete simples. Tão diferente do meu apartamento caro demais. Quanto tempo ainda consigo pagar aquela vida?

— No que você tá pensando?

— Em nada.

Mentira.

— A mulher disse que o cérebro do viciado se acostuma. Que depois de tudo, ele precisa de algo pior. Algo que choque. Que atravesse a linha.

Esvazio mais vinho.

— Eu não quero ser parte disso. Não quero ser o degrau que leva alguém pra um lugar doente.

Ele me olha como se eu fosse santa. Dá vontade de bater nele.

— Tipo virar um psicopata e sair matando gente?

— Uau… — ele sussurra no meu ouvido. — Que linha de raciocínio organizada.

— Não me zoa! Eu misturei um pouco, mas você entendeu!

— Um pouco?

— Dá pra ficar mais longe?

— Não. Preciso guardar teu cheiro.

Fecho os olhos.

— Não fala assim… eu não quero ficar sem você.

— Você não vai.

— Não minta.

— Não vou.

Olho pra ele. Fundo. Tentando ler o que ele não fala.

— Por que você vai partir?

Ele desvia.

— Você sempre me surpreende, Dess.

— Para de fugir! Fica. Antoine precisa de você.

— Eu sabia que você largaria essa vida. Eu esperei por isso.

— Eu preciso de você.

Silêncio.

— Eu te coloquei nisso. Eu sei que errei. Sempre tentei te tirar.

— Eu não consigo sozinha.

— Você consegue. Ele dizia que não. Que você era fraca demais pra desistir. Ele errou.

— Ele quem?!

— Eu lutei contra ele por você.

— Que papo é esse? Me escuta!

— Não grita.

— Vai pro inferno! Você fica divagando enquanto eu tô aqui implorando!

Ele respira fundo.

— Eu amo vocês.

A frase me quebra.

— Você nunca ficou tempo suficiente pra guardar lembranças comigo.

— Já tivemos lembranças. Casa de praia. Nossa cama.

— Foram dias! Não uma vida!

— Dias intensos às vezes valem mais que décadas vazias.

Engulo o choro.

— Você não precisa ir.

— Eu tô aqui.

— Mas não vai estar. Eu sinto.

— Seu problema é sentir demais. Nem tudo que você vê quando me toca é real.

Meu corpo arrepia.

— Eu toquei você e vi um aeroporto.

— Não pretendo pegar avião nenhum.

— Aí! Se entregou!

Ele sorri de canto.

— Quero me entregar a você.

— Você mexeu na minha cabeça. Achou que eu não lembraria.

O sorriso dele morre.

— Do que você lembra?

— De quase tudo. De você tentando me fazer esquecer uma vida passada que eu não reconheço. De você pedindo pra eu não esquecer da gente.

A voz falha.

— Que vida foi essa, Vincenzo?

— Amor. Luta. Dor. Superação.

— E erro?

— Alguns.

— Me conta tudo. Eu não aguento essas memórias quebradas.

Ele me observa com cuidado demais.

— Você quer se afastar de mim?

— Cacete! É você quem vai!

— Para. — Ele segura minha taça. — Você já tomou quase a garrafa inteira.

— E vou abrir outra.

Belisco a mão dele. Ele ri.

— Você escorrega de mim. Nunca diz tudo. Sempre aparece do nada pra me salvar.

— Eu não sou abutre.

Ele toca minha nuca.

O mundo pisca.

Asas. Gritos. Espadas.

Eu puxo o ar.

— Fico feliz pela sua decisão. Deixa eu te ajudar financeiramente até você se estabilizar.

— Eu ainda consigo manter Antoine na escola. E na dança. E se não der, eu ensino ela em casa. Ela leva jeito.

Sorrio. Orgulhosa.

— A gente não vai morrer de fome. Ainda tenho o dinheiro do California.

— Sem vídeos?

— Sem vídeos. Sem cama filmada. Sem porra nenhuma. — Bato a mão na mesa. — Adessa Love morreu.

O nome ecoa.

— Não quero aquele demônio na minha casa.

— Ele não vai voltar como demônio.

Meu estômago aperta.

— Você sabe quem ele é?

— Não.

— Tá mentindo.

Ele encosta a cabeça na mão. Sombra nos olhos.

— Ele tem objetivos. Até alcançá-los, não vai tocar em vocês. Ele quer paz.

— Você fala como se conhecesse ele.

— Desde que cruzei seu caminho. Desde que me apaixonei por você.

Meu peito trava.

— Eu não agi bem. Eu…

Ele para.

E eu sinto que o chão vai abrir.

— E…?



— Deixa pra lá. Não quero estragar a noite. Dança comigo?

— Putz! Você é louco! — Jogo minhas costas contra o sofá, cabeça tombando, rindo até suspirar. Ergo os olhos pra ele. — Me diz tudo. Vai sumir pra me proteger. Pra proteger Antoine. Mas quem é Ga’al? Por que não me afasta dele se ele está entre nós? Ele me feriu várias vezes e você o deixa livre!? Que porra de exorcista é você, Vincenzo!? Vai sumir agora!?

— Calma, Dess.

— Não! Eu não posso ficar calma! Você fala como se soubesse tudo da minha vida e ainda me pede pra dançar!?

— Não precisa fazer sentido. — Ele sorri. — A história é longa.

— Tenho tempo de sobra. Conta agora!

— Agora não.

— Tira esse sorriso estúpido do rosto! Se não for por mim, por Antoine…

— Dess, você tá com sono.

— Não me trate como criança! — Ergo a garrafa como arma. — Por Antoine, conta tudo!

— Escuta minha voz. Ele não vai machucar vocês. Estarei por perto.

Inspiro fundo. Pisca, pisca. Hipnose de novo…

— O quê?

— Hipnose.

— Não. Só quero te acalmar. Falei demais. Me perdoa.

— Não. — Sussurro, olhos fechados. — Não vou perdoar quando partir de novo. Com quem você lutou por mim, Vincenzo? Como sabia que eu largaria tudo?

— Não pensa tanto.

— Não me trate como burra!

— Você não é burra. Só fala demais.

— Você falou demais! Para de rir! Isso é irritante!

— Já parei. — Ele acaricia meus cabelos, sério.

— Você brinca comigo. Isso é feio. Mau.

— Eu sei, meu anjo.

— Eu ouvi você falar de alguém com quem brigou.

— Eu sei. Mas vai esquecer.

— Não se atreva a fazer de novo!

— O quê!?

— Filho da puta! Não me toca!

— Não vou. Escuta minha voz, Dess. — Fecho os olhos. — Estarei por perto… sempre.

— Sempre?

— Sim. Abra os olhos, pisque três vezes.

Obedeço, careta. Tento lembrar das asas escuras… dos gritos… Sweet…

— Oi.

— Tá bêbada.

— Não. — Engulo o que resta de vinho. — Eu tô arrasada. Irritada. Você precisa… me… — soluço — falar.

— O quê?

— Sei lá… do que estávamos falando?

— Do quanto gosta de dançar comigo.

— Mentira… — Exalo.

Ele me ergue do tapete, me deita no sofá. Ajoelhado, beija minha testa, toca minha orelha.

— Se eu me afastar, é pra poupar vocês de dores maiores. Ainda não estou livre dele.

— Dele quem? Lúcifer não é tão mau quanto parece. Achou que eu esqueceria o pacto?

— Não fala disso. Vou embora.

Puxo sua gola de malha.

— Não. Fica. Não vá sem me contar o que tá rolando. Ainda podemos ser felizes, amor.

— Amor? — Ele sorri. Eu me desmancho.

— Descobri que ainda te amo e não vou deixar de amar, apesar de você ser um crápula. E não sei de onde vem tanto amor.

— É por vocês que preciso ir. Ele disse que machucaria quem amo. Levou minha mãe, agora quer levar vocês.

— Pelo amor de Jesus! — Me ergo tonta. — Que tipo de padre é você!?

— Fui… — Ele começa. — Já não sou mais.

— Que tipo de padre não acredita que Deus é maior que tudo? Quem decide a hora e a forma é Deus! Tô errada?

— Não. — Assente, desnorteado.

Num impulso, salto sobre ele, joelhos no sofá, testa encostada na dele.

— Fica comigo. Não consigo ser nova sem tua força, sem tua ajuda.

— Ele vai te perseguir. Vai assustar Antoine, e eu não vou me perdoar se algo acontecer com vocês.

— Você não teve culpa da morte da sua mãe. Ela morreu em acidente de carro e, pelo que vi, está em paz.

— Você a viu?

— Agora. Ela é linda e sorri pra você.





— Ela… ela tá aqui!? Onde!? — Ele olha ao redor, lágrimas surgindo, procurando. Então me abraça com força, escondendo o rosto no meu ombro. — Como ela está?

— Feliz e linda. — Sinto o coração dele bater contra o meu. Não quero sair do abraço quando ela some. Mentalmente imploro: “Fique.” Ela responde: “Eu voltarei.” Antes de desaparecer, alerta: “Mantenha os olhos bem abertos.”

Vincenzo me sacode, e eu volto a mentir.

— Ela tá bem. Preocupada com você. Quer que fique comigo. Com Antoine.

— Sei… — Ronrona ele, distante. — Tem certeza de que não é conclusão sua? Ela sempre foi ciumenta.

— Pode ser. Mas não quer que eu desista de viver por causa de Lúcifer e desse pacto idiota. — Comprimo seu rosto com minhas mãos, ainda tonta e carente. — Fica comigo. Vamos enfrentar isso juntos?

Ele pensa, em silêncio.

— Fala alguma coisa!

— Dança comigo, Dess?

— Puta que pariu… — Suspiro, jogando-me no sofá. — Você não vai tentar.

Ele se senta ao meu lado, rosto escondido nas mãos.

— Só quero aproveitar esse momento de paz. É pedir demais?

— E eu quero saber quem é essa vaca, Morgana!

Ele recua, surpreso.

— De onde conhece esse nome?

— Você me disse. Aiden me disse. Todo mundo a conhece, menos eu. — Dou de ombros. — E por que Lúcifer disse que vou sofrer muito?

— Não sei, Dess. — Ele ainda recuado, incrédulo. — Quando ele te disse isso?

— Sei lá… sonho? — Ele suspira.

— Esquece.

— Não dá! — Agarrei seus braços. — Eu não serei motivo do seu sofrimento.

— Mas também não quer ficar aqui quando eu sofrer, sozinha, sem o homem da minha vida me apoiando. Covarde.

— Não, Dess. — Ele pensa, sério. — Ele não vai machucar vocês se eu estiver perto. Mas cuidado com Antoine… ele é astuto com crianças.

— Isso é papo de maluco! Eu não admito que você saia da minha vida por isso! Ridículo! Patético!

— Acredita em mim. Não é a primeira vez que ele age assim. Conheço-o bem… demais.

— Só uma pergunta. — Soluço, erguendo a garrafa vazia. — Psiquiatra e não tem acompanhamento psicológico?

— Dess, eu não tô surtando! — Revolta-se. — Você viu! Antoine tem um tio chamado ‘Lu’!

— Parou! — Levo as mãos aos ouvidos, aterrorizada. — Não quero ouvir isso!

— Quem acha que conversa com ela à noite!? Por que comecei a me intrometer!? Eu a ouvia! Ela é inocente… cheia de poderes! Do tipo que ele gosta! — Andando de um lado pro outro, choramingo.

— Não fala assim! Isso dá medo! ‘Nosso Deus’ não pode proteger?

— Protege, desde que não deixemos brechas pro Mal entrar.

Ajoelho-me entre suas pernas, tremendo.

— Eu tô tentando mudar por isso, Vincenzo!

— Não fica assim! Não te culpo! Não é sexo! É falta de temor por Lúcifer! Eu o conheço! Minha mãe o conhece! Meu pai mais ainda! — Olhar assustado ao redor. — Pergunte à minha mãe, Dess!

— Fica calmo, amor. — Abraço-o, tremendo. — Ela não tá aqui… não mais.

De súbito, ele se ergue. Eu também. Olho seus lábios:

— Eu preciso ver Antoine!

— Eu também!

Sigo-o até o quarto. Grito ao abrir a porta e a vejo sentada na cama, sorrindo pra parede.

— Filha? — Contendo o nervosismo. — Por que tá acordada?

— Não estamos a sós. — Vincenzo a toma nos braços. — Sente isso?

— Sim… o que faço?

— Tio, por que tá com medo?

— Porque eu te amo, pirralha. Vou proteger você de tudo. — Ele a abraça com tanto amor que quase não percebo a presença insidiosa no canto do quarto.

Agachado, como corvo, Lúcifer nos observa, terno preto alinhado, sorriso sarcástico.

— Fica com ela, Dess. Eu preciso… — Vincenzo engole seco, mãos frias traindo medo.

— Partir? — Insinuo.



— Eu te disse que ele ia te fazer sofrer. Só o começo, meu bem.

— Cala a boca!

— Vincenzo, se controla. Antoine tá ouvindo.

— Por que o tio Vincenzo e o tio Lu estão brigando, mamãe?

— Não estamos. — Vincenzo toma Antoine dos meus braços. — Que tal dormirmos juntos hoje?

— Você, a mamãe e eu!?

— Sim! — exulta Vincenzo, totalmente desnorteado, olhando ao redor com os olhos estatelados, sem ver ninguém. Ele só ouve Lúcifer se movendo pelo quarto, e isso o deixa ainda mais confuso e nervoso. Eu, no entanto, vejo cada gesto do ‘Anjo Caído’. Lúcifer esbarra nele de propósito, sorrindo com a confusão que provoca, e Vincenzo, assustado, murmura: — Nós três na mesma cama! Que tal!?

— Isso é medo, bonitão?

— Vá embora!

— Não até você dizer a verdade. — Lúcifer ironiza. — “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Não foi isso que um seguidor de J.C. disse?

— CALA A BOCA, LÚCIFER! — Vincenzo grita, descontrolado. Antoine se assusta. Tento pegá-la de volta, mas ele recua, implorando: — Deixe-as em paz!

— Assim como você me deixou?

— Para de provocar, ‘Tio Lu’. — Protejo os dois com meu corpo. — Você não é bem-vindo. Vá embora.

— Pelo que sei, essa casa não é sua. É do grandalhão que te protege porque seu homem some e reaparece de repente. Covarde. — Suspiro, encarando Vincenzo.

— Não escute. Ele quer te descontrolar. Não vale a pena.

— Hmmmmm. — Lúcifer exagera a ironia. — “Amor”? Só terão essa noite como lembrança… de como ele te usou e largou… de novo.

— ME DEIXA EM PAZ! — Vincenzo grita. Eu o empurro para fora do quarto com Antoine, tranco a porta. Ele chuta, tentando arrombá-la.

Caminho devagar até Lúcifer.

— Por favor, deixe ele em paz. Eu preciso dele. Antoine precisa dele. Leve a mim quando minha hora chegar, mas até lá, nos deixe em paz. Feito?

— Vou pensar, baby. Mas não é assim que a banda toca.

— Não entendi.

— Não é para entender.

— Seja direto!

— Já pensou por que o bonitão tem tanto medo de mim?

— Não. — Sinto-me insegura. — O que fez a ele?

— Segundo ele, matei a mãe dele. Mentira, você sabe.

— Sei. Não tem poderes pra isso.

— Ainda não… — Lúcifer circunda o quarto. — Até lá, me divirto assustando seu homem.

— Por quê!? Qual a graça!?

— Já foi traído por amigo, amiga? — Ele me encara, sorrindo. — Assim como você, odeio traidores.

— Vincenzo te traiu!?

— Não disse isso…

— Insinuou! — Afasto-me dele. — Você e Vincenzo já foram amigos!?

— Mais que isso, meu bem.

— Me conte!

— Não posso. — Olhos escuros se elevam ao teto. — Ele não deixa.

— Ele!? Deus!?

— Esperta… — Pisca. — É por isso que gosto de você. Astuta e safadinha.


Para de rodear! Tá me deixando tonta!

— Cuidado. Aqueles imensos olhos azuis têm poder.

— De que fala!?

— Anjos podem machucar corações.

— Pare de falar em metáforas! Vá direto ao ponto! Por que fala com minha filha!?

— Ela é um encanto… — Sussurra, aspirando minha nuca. — Assim como você já foi. Antes do ‘caminho’.

— Desde quando me conhece?

— Muitas perguntas, baby.

— Me dê uma resposta!

— Não. Mas não farei mal a Antoine. Ela é preciosa. Poderosa. A ‘queridinha’ de muitos.

— Como assim!? Fala tudo!

— Meu bem, essa é a minha função: deixar humanos nervosos, fracos, dispostos a tudo por fama, sucesso… amor.

— Deixa Vincenzo em paz!

— Ele ainda me deve desculpas. — Rosna. — Tenho meus direitos.

— Ele tem os dele!

— Bobinha. Ainda gosta dele, mesmo depois de tudo.

— Não vou ouvir! — Fecho os olhos. — Você é falso!

— Não ouça. — Dá de ombros. — Melhor assim. Continue sendo a palerma que sempre foi. Ele vai te usar e largar, usar outras e…

— Se afasta da minha filha! — Abro os olhos úmidos. — Chega de conversar com ela! Proibido!

— Com que direito?



— Com o direito de quem tem o maior amor da Terra: o amor de mãe. Eu te proíbo de falar com a minha filha, em sonhos ou aqui, no mundo dos vivos. Entendeu?

— Ok. Eu sei esperar. Tenho a Eternidade. Não lembra disso? Até lá, posso observar de longe o desenrolar dessa história interessante. Agora, abre essa porta antes que esse idiota te cause mais prejuízos. Odeio essa gritaria.

Olho rápido para a porta e Lúcifer se foi. Talvez para sempre. Talvez não.

— Dess! Você tá bem!? — pergunta Vincenzo, suado, atormentado. É bom vê-lo assim… por mim. Ele teme me perder?

— É claro que sim, sua boba — confessa, roçando o nariz em minha bochecha. Depois mente outra vez: — Nada do que ele diz é verdade. Eu não vou deixar que ele te faça mal.

— Ele quem, tio?

— Ninguém, meu anjo.

Antoine nos observa com a ingenuidade de sempre, e meu peito aperta.

— O “tio Lu” pode dormir com a gente também?

— Não, filha.

— Ele não é bacana, Antoine — assevera Vincenzo, ajoelhado, olhando-a nos olhos. Sinto-me uma péssima mãe de novo. Por que não percebi antes quem ele realmente era? Por que Vincenzo o teme tanto? Eles já foram amigos? Que porra é essa!?

— Você não pode mais conversar com ele. Promete?

— Por que tá tremendo, tio? Tá com frio?

— Sim — mente Vincenzo, tremendo de medo. — Promete, pirralha?

— Prometo, tio — diz ela em meu colo. Beijo sua bochecha e sinto a culpa arder. Ela me devolve o beijo, pedindo para eu não chorar.

— Eu tô com fome, mãe. — Sorrio, olhando seus olhos inocentes. Vincenzo nos envolve com seus braços, e sinto o calor do seu corpo. “Você é uma ótima mãe, Dess”, sussurra, antes de, com esforço, imprimir alegria na voz:

— Vamos tomar sorvete!?

— Agora!? — Antoine arregala os olhos. — Mamãe! A gente pode sair agora!?

— Po… po pode… — respondo, em dúvida. Devo temer Vincenzo? Ele está ouvindo meus pensamentos? Por que não se defende!? — Já passam das onze. Será que tem sorveteria aberta nesse vilarejo?

— Tem sim! — afirma Vincenzo, com Antoine em seu colo. — Pode apostar! Traga suas coisas!

— Que coisas!?

— Suas coisas, Dess. Suas coisas. — Resmunga, seguindo até a porta, carregando Antoine, que vibra nos braços dele. Talvez ele não nos deixe. Quem sabe? — Suas coisas, Dess! — grita ao volante do meu carro. Um beijo casto em meus lábios e eu me sento ao lado dele.

— E a sua moto? Vai deixar aqui?

— Quando eu voltar, eu a pego — afirma, diante do meu olhar incrédulo.

— Eu vou voltar, Dess. Juro.

— Sério?

— Sim.

Exalo, feliz, mas meu peito aperta.

Da janela do carro, exulto ao reconhecer o lugar onde fomos felizes… juntos… por uma semana.

— Vincenzo! O que a gente tá fazendo aqui!? É a sua casa!

— Mais conhecida como “Sorveteria do Tio Vincenzo”!

Antoine gargalha, uivando de contente no banco traseiro.

Meu coração se comprime ao lembrar: toda essa alegria pode acabar a qualquer momento. Antoine não merece sofrer.



Estamos deitados na mesma cama, Vincenzo e eu, mãos entrelaçadas acima da cabeça de Antoine. Ele se esforça em me fazer acreditar que estamos mais unidos do que nunca, mas… eu não consigo.

— Porque é boba — cochicha ele. — Estamos unidos como antes. Como sempre.

— Não — rebato, baixinho. — E não começa com esse papinho de “antes”, “sempre”!

— Fica quieta, Dess. Vai acordar nossa filha.

— Ela é minha — sinto as borboletas batendo suas estúpidas asinhas no meu estômago. — Para de me fazer acreditar no que não existe.

— Você sabe que existe, tanto, que acredita.

— Vincenzo!

— Mamãe, eu quero dormir — resmunga Antoine, olhos fechados. — Não briga com meu tio.

— Dormiu — constata Vincenzo, abrindo um sorriso cafajeste. Olho para a janela fechada e agradeço pela escuridão do quarto de hóspedes. Não quero que ele veja meu rosto corar. Desde quando uma puta se dá ao luxo de corar?

— Você não é mais uma pu… — interrompo com um ‘Shhh’ exasperado. — Foi mal!

Ele concorda, escondendo o riso debaixo do travesseiro que deve ter custado o olho do meu c…

— Shhh! Sem palavrões! Nossa filha quer dormir… Dess.

Jesus, Maria e José! É muita tentação encarar esses olhos devassos e não poder fazer nada!

— Não leia meus pensamentos! Não agora! Você leu meus pensamentos antes!?

— Do que tá falando?

— Da conversa que tive com…

— Shhh! — interrompe, rindo debaixo do travesseiro.

— Você sabe! — cochicho. — Ele me disse algumas coisas sobre…

— Shhh!!!

— Não faz “Shhh” pra mim! — irrito-me. — Vincenzo! Para de rir!

— Mamãe! — protesta Antoine, bocejando. — Amanhã eu quero correr na areia. Eu preciso descansar…

Rimos juntos. Antoine abraça Vincenzo, triunfante. De olhinhos fechados, balbucia: — Tio, dá um beijo nela. Só assim ela fica quieta.

— De onde ela tirou isso!? — ergui meu tronco, abismada e encantada. — Ela tem cinco anos mesmo!?

— Acho que não.

— Na verdade, não sei quantos anos ela tem. Como saber? Ela é tão inteligente pra ter cinco. Talvez seis.

— Você decide, Dess.

— Eu???

— É. Você é a mãe. Você a encontrou, então decide.

— Ah… é. Parece justo.

Ele se ergue da cama, contornando-a e vindo em minha direção. Finjo observar os pingos da chuva na janela quando ele ronrona: — Vem comigo, amor.

Deus! Isso está acontecendo ou é mais uma das minhas alucinações?

— Então é uma alucinação coletiva? — deixo-me levar por sua mão quente, depois de beijar a testa de minha filha. — Dess, aqui ela está protegida. Fica tranquila.

— Ela sim. Eu não. — fecho a porta do quarto atrás de nós.

— Não entendi — ele me puxa contra si, mãos nas minhas costas. Lábios absurdamente próximos. — Do que tem medo?

— De você, Vincenzo. Da dor que vai me causar e de tudo o que me esconde.

— Não pensa nisso. Vou dar um jeito em tudo.

— Posso resolver essa coisa entre você e aquela criatura?

— Caralho, Dess! O que você fez!? O que ficou fazendo do outro lado da porta!? Por que não abriu logo!?

— Não se exalte — peço, assustada. — Tive uma curta conversa com ele e algo me diz que ele não vai mais te importunar. Você não nos ouviu!?

— Não consegui!

— Por que não!?

— Não sei! Só sei que não consegui!

— Nada!? Nadinha!? — questiono, incrédula. — Não minta pra mim, Vincenzo!

— O que fez, Dess???

— Nada — minto. — Só pedi pra ele se afastar de todos nós.

— Ele não recebe ordens de humanos.

— Talvez eu seja uma humana especial — recuo, rodopiando pela sala de estar. Paro diante da lareira acesa. O fogo crepita, hipnotizante. Sinto a pele formigar, a respiração acelerar. Cada chama parece dançar na minha mente, refletindo em Vincenzo.



— Se afasta, amor.

— Por quê?

— Você tem medo do fogo. — Ele se aproxima, corpo colado ao meu, braço firme me afastando da lareira. Aquele calor não é só do fogo; é do corpo dele, do toque dele, e isso me deixa tonta, vulnerável, excitada. Curiosa, pergunto:

— Quem te disse isso?

— Você não se lembra, né? Ainda bem… — reviro os olhos, ironizando.

— Ai! Mais uma de minhas muitas vidas!? — resmungo, dando as costas. — Esquece. — Desculpo-me, com medo de quebrar o clima romântico. — Foi mal. — Deixa pra lá. — Dou de ombros enquanto ele caminha até a estante de discos de vinil. Escolhe um, exultando ao encontrar algo que o faz sorrir. — Eu amo essa canção. Aposto que você também.

— Mais uma de nossas inúmeras canções sem história de amor?

— Não. — Ele posiciona a agulha. O ruído sutil do vinil faz tudo parecer ainda mais especial. Vindo em minha direção, esbanja charme, a voz rouca: — Nossa história tem muitas canções. Pena que você se esqueceu de quase todas.

— Aaah… perdão por não lembrar de todas as minhas vidas desde o Período Paleolítico.

— Você é boba, Dess. — Ele atesta, tocando meu queixo com o polegar.



Ao fundo, Amy Winehouse canta Will You Still Love Me Tomorrow? e sinto meu choro patético se aproximar, porque sei que o momento da despedida também se aproxima.

— Vamos lutar juntos. — Insisto. — Não nos deixe por causa dele. Me conta a verdade, Vincenzo. Nada é tão terrível que me faça parar de te amar.

— Vem… — estende-me o braço direito.

Carinho, tristeza e desejo misturam-se em seu rosto, em seus olhos ainda mais claros.

— Não pensa em nada. Só dança… em silêncio.

— Tenho outra opção?

— Não.

— Essa música tem gosto de despedida. — Recosto meu rosto em seu peito. — Eu vou te odiar se você me largar, Vincenzo.

— Fica quieta, Dess. Dança comigo, amor. Meu único e eterno amor. — Resmunga enquanto dançamos.

— Odeio quando fala assim.

— Por quê?

— Vincenzo, você tem sérios problemas mentais. Parece que se esquece do passado com facilidade.

— O que mais guardo comigo é o nosso passado, Dess. Eu caí por você…

— “Caiu” de onde, Vincenzo!? — Ameaço olhar em seus olhos.

Com a mão na minha cabeça, ele me força a continuar recostada em seu peito.

— “Caiu” de onde!?

— Maneira de dizer… e… — Ele faz uma breve pausa, beijando minha testa. — Jamais esquecerei nosso passado, Dess.

— Estou falando do passado recente, idiota. De como foi cruel comigo desde aquela cafeteria.

— Nos conhecemos muito antes… — Seus olhos fixam o teto, distantes.

Como pude amar um homem louco assim? Melhor abstrair. Melhor abstrair tudo que me faz duvidar dele.

Shhh. Não estrague meu momento.

— Sinto saudades, Dess.

— Tenho saudades de Giulia. — Desconverso, a voz embargada.

Vincenzo me abraça forte.

— Ela poderia estar aqui se eu não tivesse sido tão arrogante com aquele monstro.

— Você mesma disse, Dess. Ele já era um monstro. A culpa nunca foi sua.

— Por que ela me aparece em sonhos?

— Talvez ela sinta sua falta também.

— Por que, pela primeira vez, estamos conversando como adultos equilibrados? — Minto. Ele é insano. — Por que está sorrindo?

— Porque você está crescendo. — Leve sarcasmo. — Antoine operou milagres em você.

— E você sempre irrepreensível, né?

— Esquece isso, Dess.

— Qual seria seu transtorno?

— NENHUM!

— Aham! Atingi seu ponto fraco! Um psiquiatra-exorcista com transtornos mentais? Ou seriam de personalidade?

— Nenhum. Sou normal.

— Super! — Continuamos a dançar até que, eufórica, digo o que me lembrei: — Você é um “TSS”! Transtorno de Sadismo Sexual!

— Já te espanquei alguma vez, Dess?

— A mim, não. Mas Sweet disse que…

— Sweet é mentirosa compulsiva. Capaz de tudo para atingir objetivos torpes.

— Nossa! Como conhece ela tão bem?

— Não conheço. Ela mentiu naquela noite, na casa do João!

— Por que se escondeu de Aiden?

— Porque ele iria me matar.

— Por que diabos Aiden te mataria!?

— Dess… — resmunga. — Fica caladinha, por favor.

— Vincenzo! — Protesto, mantendo-me junto ao seu corpo.

— Não fala nada. Só dança.

— Você e ela já…?

Revirando os olhos, ele bufa.

— Não há nada entre nós dois.

— Mas já rolou. Não minta.

De olhos fechados, ele cantarola a canção.

As imagens difusas de Sweet e Vincenzo vêm e vão como pesadelos. Quero mergulhar mais fundo, mas ele me desconecta de tudo e beija meu pescoço.

— Golpe baixo. — Sussurro. — Sei que se encontraram, Vincenzo. Lúcifer me disse algo sobre vocês…

— Não ouça o Pai das Mentiras. Ele semeia discórdia. Tudo que desejo agora é estar com você. De corpo e alma.

— Mais corpo do que alma? — Gracejo.

— Safada…

— Me fala a verdade, Vincenzo.

— Eu falo. Você ainda está bêbada.

— Não estou! Não depois do sorvete de chocolate!

— Você ama chocolate. Sempre amou. Foi assim que te conquistei da penúltima vez.

— Quando!? — Protesto, sarcástica. — Eu tomava cappuccino antes de você entrar na cafeteria!

— Não estava atrás de você. Eu entrei e te encontrei.

— Mentira! — Rimos. — Já confessou que me perseguia, panaca!

— Pois é. Esqueci…

— Fica parado. — Exalo. — Deixa eu guardar esse sorriso… pra mim.

— Dess… para com isso.

— Seu verme…

— Você é linda.



— Não desconversa. Você e a Sweet. Como vou saber se não treparam? — seguro o braço de Vincenzo, obrigando-o a parar de dançar. — Como vou saber se você diz a verdade, se sempre dá um jeito de me hipnotizar e apagar minha memória?

— Meu amor por você é real, Dess. — Ele inclina o rosto, procurando meus olhos. — Olha pra mim. O que eles dizem?

— Que você é louco. Perigoso.

— Dess… olha.

— Não. — desisto e recosto a cabeça em seu peito. — Eu me perco quando olho.

Ele ri baixo.

— Sempre foi assim.

Ergo o rosto.

— Sempre?

— Eu sempre te encontro.

— E a gente se casa?

— Sim. — o sorriso dele morre devagar. — E depois eu te perco.

— Como?

Algo passa por seu rosto. Amargura. Cansaço. Séculos de alguma coisa que não entendo. Mas então ele muda de humor de repente.

— Deixa pra lá. Hoje tô nostálgico. O que mais minha mãe te falou?

— Que você desconversa quando o assunto fica sério.

— Bem típico dela.

Ele me puxa de volta para a dança.

— Vocês duas se dariam bem.

— Eu sei. Ela parece inteligente. E gosta de dançar.

— Ela era linda. Como você. Geniosa… impulsiva.

— Ela era boa pessoa?

— Não exatamente.

— Má?

— Não. — ele encara o teto. — Possessiva. Ciumenta. Meu pai sofreu muito com ela.

— Seu pai era bom?

Ele suspira, quase sorrindo.

— Meu pai era o máximo.

— Queria conhecê-lo.

— Talvez um dia.

— Depois de morta?

Ele ri.

— Não precisa morrer pra isso.

— Não? Ele é o quê? Um anjo?

— Quase isso.

Franzo a testa.

— Por que o Aiden quer te matar?

Vincenzo solta um gemido teatral.

— Porra, Dess. Você destruiu o clima.

— Fala.

— Eu disse “matar” no sentido figurado, pateta. Você leva tudo a sério.

Ele sorri de novo.

— Você gosta quando eu sorrio, né?

Sinto o rosto esquentar.

— VINCENZO!

— Fala baixo. — ele ri, desviando dos meus tapas. — Nossa filha vai acordar.

Eu paro.

Completamente.

Meu coração dispara.

— Repete.

— Nossa filha?

— …é.

Ele me olha com paciência infinita.

— Nossa filha, Dess. Antoine é nossa filha.

Engulo em seco.

— Não faz isso comigo.

— Não vou. Eu amo vocês duas.

— Antoine não merece sofrer. Ela não tem pai. Se apegou a você… se você sumir de novo—

— Antoine tem pai e mãe. — ele diz baixo. — Nós dois.

Aperta meu corpo contra o dele.

— Nós a encontramos. Você a encontrou naquela praça. Depois de séculos… estamos juntos de novo.

— Não fala assim.

— Por quê?

— Porque é cruel.

Ele encosta a testa na minha.

— Amar você é cruel, Dess.

O abraço dele se fecha ao meu redor.

— Você não faz ideia do que eu atravessei pra chegar até aqui.

— Do que você está falando?

— De nada.

— Vincenzo…

— De nada.

Eu o empurro.

— De onde você caiu? Quem é você? Por que eu tenho medo de descobrir?

— Para. — ele murmura. — Vai estragar a nossa noite.

— Fala a verdade. — agarro sua camisa. — Como você sabia da festa onde eu fui violentada?

O rosto dele endurece.

— Não fala disso.

— Eu não lembro como fui parar lá.

— Talvez seja melhor assim.

Empurro ele com força.

— NÃO É! TEM UM BURACO NA MINHA MEMÓRIA!

Respiro tremendo.

— E PARA DE ME FAZER DANÇAR! EU QUERO A VERDADE!

Ele levanta as mãos.

— Eu vou contar.

— Quando?

— Depois.

— Depois do quê?

Ele sorri triste.

— Depois de te amar mais uma vez.

— Não me deixa.

— Eu sempre estou por perto.

— Quem é você?

— Shhh…

Os lábios dele encontram os meus.

— Fica quieta. Só um pouco.

— Eu não vou aguentar ficar longe de você.

— Quando precisar… me chama.

— Não vai embora.

— Eu não vou.

— Promete?

— Prometo.

Eu respiro fundo e beijo sua boca como se isso pudesse segurá-lo aqui.

Como se promessas tivessem algum poder sobre ele.



Mais tarde, trancada no banheiro da casa de Doc, encaro meu reflexo no espelho.

— Estúpida.

A palavra sai entre os dentes.

— Você acreditou nele de novo.

Abro a torneira e deixo a água correr enquanto choro.

Batidas na porta.

— Cadê o tio, mamãe?

Enxugo o rosto na toalha. Ainda tem o cheiro dele. Maçã verde.

Então ele realmente voltou à casa de Doc.

Só não ficou.

Ele nos trouxe até aqui… e foi embora.

Idiota.

Eu.

Abro a porta.

— Idiota. Você merece sofrer.

— Eu, mãe?

Desperto.

— Filha! Não… não foi com você.

Me ajoelho diante dela.

— Eu não estou triste.

— A senhora tá chorando.

— Não estou.

Mentira.

— O tio vai voltar, mamãe.

Lá fora, sentamos no balanço do quintal. A lua amarela paira enorme sobre o mar.

— O céu parece o teto do meu quarto.

— Parece sim.

As estrelas lembram as pequenas luzes coladas no teto dela.

Minha mão envolve sua cintura.

— Essas estrelinhas estão aqui e lá. Pra te proteger.

Ela continua olhando o céu.

— Nunca mais conversa com o tio Lu, tá?

— Ele é mau?

— Não sei.

Silêncio.



— Por que o tio Vincenzo tem medo dele?

Eu também queria saber.

Antoine sorri de lado.

— A Dayse disse que ele vai voltar quando tentar matar o dragão.

Meu corpo congela.

— Quem vai voltar?

— O dragão nunca morre.

Seguro seus ombros.

— Com quem você está falando, filha?

— Com a Dayse.

— Bonecas não falam.

— A Dayse fala.

— Quem fala através dela?

— Dayse.

Perco a paciência e a tiro do balanço.

— Ai, mãe…

Ela chora.

Respiro fundo. Tento recuperar o controle.

— Desculpa. Só me diz o nome da boneca.

Ela se inclina e cochicha no meu ouvido:

— Ela não quer que eu conte.

Um vento gelado atravessa o quintal.

As folhas secas começam a girar.

Primeiro devagar.

Depois mais rápido.

Um pequeno ciclone se forma diante de nós.





Eu seguro sua mão firme, olhando para o redemoinho de folhas que parece respirar.

— Ninguém, filha… só… o vento. — Minto, mas o nó no meu estômago me diz que não é só isso. Algo nos observa.

O ar parece carregado de sussurros que só Antoine e eu sentimos. O ciclone aumenta por um instante, e sinto o peso de olhos invisíveis fixos em nós. Um presságio, uma ameaça silenciosa, como se o “Tio Lu” ou outra presença estivesse testando minha coragem.

Abracei ainda mais forte minha filha, prometendo a mim mesma: ninguém vai machucá-la. Ninguém.

Não há nuvens no céu. Nenhum indício de chuva ou tempestade. Meus cabelos alvoroçados arrancam risos de Antoine, que não enxerga perigo algum ao nosso redor. Um arrepio percorre minha coluna quando, de súbito, com Antoine em meu colo, corro para a porta de entrada da casa de Doc e, ao chegarmos à sala, empurro-a, trancando-a à chave.

O rangido da madeira ecoa pelo cômodo. Arfando, recosto-me à porta ainda segurando minha filha, que reclama:

— A senhora tá me esmagando, mãe.

— Perdão. — Respiro fundo enquanto a libero no chão.

O ar parece mais denso, e um silêncio pesado nos envolve. Sinto uma presença estranha se movendo ao redor, algo que não posso ver, mas que meu corpo reconhece.

— O nome de quem fala através de Dayse.

— Mãe…

— O nome, Antoine!

Revirando os olhos, ela insiste, apesar do medo.

— Ela vai ficar zangada.

— E eu já estou zangada! O nome dessa criatura que não tem o direito de invadir nossas vidas e atormentar minha filha!

Grito, girando pela sala, o coração disparado.

— Qual é o seu nome?! O que quer de nós?! Deixa a gente em paz!

Antoine puxa a barra do meu vestido e, receosa, sussurra algo que me atinge em cheio:

— Giulia. O nome dela é Giulia, mãe.

Recostada à parede, escorrego até o chão. Sentada, encolhida, ouço minha filha explicar o que eu mais temia:

— Ela não vai embora até a senhora matar o monstro.

— Que monstro?! — Minha voz falha. — Qual é o nome do monstro?!

Antoine, inocente, responde:

— Ja… Je…

Ela se concentra e, finalmente, grita eufórica:

— Jack! Jack Te… Te… Ta…

— Tequila.

— Isso, mãe! Jack Tequila é o nome do monstro?

— Sim.

Volto mentalmente ao cativeiro, revendo o rosto sinistro de Jack. Sinto repulsa, e o ar parece gelar.

— Eu vou acabar com ele, Giulia! — grito para o vazio. — Por você e por Antoine! Eu prometo! Mas não machuque minha filha!

A voz me embarga. Engulo em seco, abraço Antoine e suplico, quase inaudível:

— Não machuca minha filha, por favor… Sei que fui culpada. Sei que você sofreu… poderia estar viva…

— Mãe, não chora. — Antoine enxuga minhas lágrimas. — Ela é legal, mãe.

— Ela não pode ficar aqui. — Penso alto enquanto o vento repentino faz rodopiar folhas secas pelo chão. — Precisa encontrar paz.

— Mãe…

Ignoro Antoine enquanto procuro por Giulia, olhos percorrendo cada sombra da sala.

— Eu te amo, Giulia. Eu te amava como filha. A filha que não consegui salvar.

Soluços escapam.

— Eu juro. Vou te vingar. Fala comigo. Aparece!

— Mãe…

— Não tenha medo. — Minto para mim mesma, tentando me convencer. — Mamãe tá aqui.

— Mãe! Ela já foi!

— Foi?!

— Já! — Antoine fala com a calma de quem transita entre mundos sem temer nenhum deles. — Mas ela disse que vai voltar.

— Vai?!

— Sim. Porque o monstro Jack fica atrás dela.

Rosno, sentindo o ar pesar ao meu redor.

— Eu vou acabar com ele.

Onde está Vincenzo quando mais preciso dele? Como vou encontrar Jack? Como exorcizar algo assim? Padre Pietro? Ga’al?

Não. Não vou pedir nada a ele. Nunca mais.

— Por que tá rindo, filha?

— Ele é engraçado.

Um jato de adrenalina percorre meu corpo. Histérica, sinto o vento girar pelo cômodo, folhas secas rodopiando como se uma presença invisível estivesse brincando conosco.

— Quem?! Jack, o monstro, fala com você também?!

— Não, mãe! — Rindo, ela se estica no piso frio. — É meu outro tio.

Fecho os olhos e solto o ar pelos pulmões, tentando não surtar.

— Antoine… que tio é esse? Miguel? Me diz que é Miguel!

— Não é, mãe. — Ela sorri travessa. — Ele vai ser uma surpresa.

— Surpresa?!

Meu coração quase explode. Não quero me preocupar com mais um dos milhares de tios que rondam minha filha.

Hoje não.

HOJE NÃO.





Mais uma fatia, filha?

— Posso? É a terceira! — Sorrio diante da sua inocência. Cercada por lobos, ela sabe que pode vencer a todos porque eu estarei aqui, sempre. Sentadas à mesa da cozinha, ela mastiga com determinação. — Come, mãe! A senhora precisa ficar forte!

— Pra quê?

Engasgo com um pedaço da pizza de calabresa ao ouvir a resposta.

— Pra lutar contra o monstro. Ué.

— Aaah... tá.

Exausta física e emocionalmente, deito-me ao lado de Antoine na cama de casal de Doc, naquela última noite de férias. Ao lado da cama, a mesinha de cabeceira guarda o envelope ainda fechado e, sobre ele, as chaves da casa de praia de Vincenzo.

Fecho os olhos por um instante e peço ajuda ao Arcanjo Miguel, respirando fundo antes de abrir o bilhete que, tenho certeza, vai rasgar o pouco que resta do meu coração.

Sento-me na beirada da cama, certificando-me de que Antoine dorme profundamente.

— Coragem, Adessa — sussurro a mim mesma, mãos trêmulas, enquanto desdobro o papel em quatro partes e inicio a leitura.

*"Amada Dess,

Sei que deve estar sentindo medo ao ler o que escrevo, mas não sinta, amor. Eu nunca mais serei o estúpido que te afastou de mim por insegurança. Eu te quero ainda mais. Mais do que sempre te quis.

Eu não estou te abandonando. Não mesmo, pateta. Só estou me ausentando para resolver uns problemas burocráticos na cidade. Fique com as chaves da minha casa. Ela é sua também.

Em breve, estarei de volta e vou me casar com você antes que algum idiota apareça e te conte mentiras sobre mim.

Eu te amo e sempre te amei. Agora que reencontramos Antoine, seremos uma família novamente.

Ainda sinto o gosto dos seus beijos, do seu corpo junto ao meu.

Se puder, me espera, Dess.

Volto logo. Vai escolhendo o seu vestido de noiva, panaca! O mais lindo e caro que puder! Você merece tudo!

Te amo pra sempre.

Explique tudo a Antoine. Não quis te acordar. Você precisa de muitos dias para se recuperar da “surra de pau” que te dei ontem...

Minha linda e amada, Dess.

Me espera.

Beijo na boca,

De seu homem,

Vincenzo.

P.S.: NÃO RECEBA VISITAS EM SUA CASA. SOMENTE O DOC E MAIS NINGUÉM. OK? VIGIE ANTOINE.

Te amo... “per sempre”."*

Rindo e chorando ao mesmo tempo, levo o bilhete manchado por minhas lágrimas de alegria ao coração. O peso da felicidade é intenso, quase sufocante.

Ainda que eu esteja extasiada com o que acabei de ler, não posso deixar de pensar: Vincenzo é um predador.

E eu...

Sou a sua presa.





No caminho de volta à cidade, uma canção desperta lembranças de Vincenzo e da promessa contida em seu bilhete. Sob a luz da lua cheia, murmuro para mim mesma:

— Eu vou te esperar. Mas o vestido... nós vamos comprar juntos.

Um estúpido sorriso surge no meu rosto enquanto procuro por algum motociclista que me faça perder o controle ao volante.

Pelo retrovisor, vejo Antoine no banco traseiro, dormindo, e pergunto:

— Onde está a Dayse, filha?

— Dormindo — responde ela, bocejando. — Mamãe, a gente vai voltar pra casa de praia do tio Vincenzo? Eu gostei de lá.

— Vamos sim.

Minto, sem saber como ou quando vou reencontrá-lo.

Com os olhos fixos na estrada, pergunto:

— Gostou do passeio, filha? Da casa do tio Doc?

— Uh-huh. Gostei mais da casa do tio Vincenzo.

— Por quê?

— É mais bonita. Ainda bem, né?

Olho para Antoine antes de questionar:

— Por que “ainda bem”?

— Porque vou poder chegar no mar mais rápido.

Sinto um arrepio.

Talvez demore para voltarmos. Talvez eu precise trabalhar, ganhar dinheiro e viajar de novo.

— Mas... filha, você gosta do nosso apartamento?

— Gosto sim — ela boceja e se deita no assento. — Ainda bem que o tio deixou a chave pra gente entrar.

Estaciono bruscamente no acostamento, olhos arregalados.

— Como sabe da chave?

— Porque é lá que a gente vai morar. Ué.

Ela adormece, e eu choro silenciosamente, cabeça recostada ao volante.

"Há alguém aí em cima?"


— Doc, você leu tudo? Desde o começo?

— Li, filha. — responde ele, calmo. — Tudinho. E ele vai voltar. Se escreveu no bilhete que volta, ele volta.

— Ah, Doc… — resmungo, girando no banquinho de madeira do California. — Você sempre passa pano quando o assunto é Vincenzo. Ele não é o santo que você imagina.

— Eu confio nele.

— Você não faz ideia do que ele me disse. Coisas estranhas… sem sentido. E eu estou preocupada com a Antoine. Por que o Vincenzo some sempre que eu mais preciso dele?

— Quem sumiu?

Sweet surge atrás de mim, suada do show, cabelo colado na pele.

— Ninguém. — respondo rápido.

— Vincenzo sumiu?

— Eu não disse isso.

— Disse sim. Eu ouvi.

Ela apoia o cotovelo no balcão, divertida.

— Desde quando ele sumiu?

Dou de ombros.

— Não sumiu.

Sweet sorri.

— Engraçado… porque ontem eu vi ele correndo na orla.

Meu corpo endurece.

— A gente até conversou um pouco — continua ela. — Rolou um certo clima…

Levanto do banco num salto.

— Mas o quê!?

Doc me segura antes que eu avance.

Eu odeio Sweet.

O corpo perfeito.
O cabelo perfeito.
Aquele jeito livre, insolente.

Ela se entrega a quem quiser.

Eu não.

Você a inveja.

Nunca.

Inveja sim. Porque sabe que Vincenzo a deseja.

Cala a boca.

— E depois que ele se despediu de você — Sweet continua, olhando diretamente nos meus olhos — ele arranjou um tempinho pra mim.

Sorriso lento.

— Não é suspeito?

Ela dá um passo para perto.

— Ele fode muito bem.

— MISERÁVEL!

Eu a derrubo no chão antes que Doc consiga me segurar.

Minhas mãos tocam o espaço entre os seios dela e imagens me atravessam como facas.

A orla.
Vincenzo.
Sweet rindo.

Eu solto ela como se queimasse.

— CHEGA! — berra Doc.

Sweet levanta gargalhando.

— Pedindo assim com tanta doçura…

Ela ajeita o cabelo.

— Tenho coisa melhor pra fazer. Tipo foder gostoso com o dono dessa espelunca.

E vai embora.

Minhas lembranças da casa de praia se partem como vidro.

— Não dê ouvidos a essa mulher — diz Doc. — Ela mente.

— Não mente. — murmuro. — Eu vi os dois na orla.

— Isso não prova nada.

— Prova que ele mentiu pra mim.

Doc suspira.

— Adessa, ele disse que viria resolver assuntos na cidade. Não que iria se esconder num bunker pós-apocalíptico.

Apesar de tudo, eu rio.

Abraço Doc.

— Obrigada por sempre me lembrar de respirar.

— Também te amo, filha.

Ele beija minha cabeça.

— Agora vai pro camarim. E fique longe daquela mulher.

— Vou tentar.



Ainda tremendo, sigo pelo corredor.

Quero ficar sozinha.

Mas quando passo pela porta do escritório do dono da boate, ouço vozes.

Sweet.

E ele.

Paro.

Encosto o ouvido na porta.

Silêncio.

Então Sweet fala… alto demais.

Como se quisesse ser ouvida.

— Não! Isso não é justo!

O homem ri.

— O que mais você quer que eu faça, benzinho?

Pausa.

E então Sweet fala ainda mais alto.

— O que deve ser feito! O que é justo! Se você não fizer o que eu pedi, nunca mais encosta em mim! Entendeu?

Meu estômago revira.

A cadeira dele range.

— Sweet… meu docinho… vem cá. Senta aqui.

— Vai fazer o que eu pedi?

Ela se aproxima da porta.

Por um segundo eu tenho a impressão absurda de que ela sabe que estou ali.

— Tudo que você quiser — diz ele.

— Então escuta bem.

Silêncio.

— Eu quero ela fora disso.

Meu coração dispara.

— Entendeu?

— Entendi… — responde ele, rindo.

Outro rangido de cadeira.

Sweet ri baixo.

— Agora mostra que entendeu.

— Como?

Ela fala devagar.

Quase sussurrando.

Quase… para mim.

— Agora chupa.



Tento me convencer de que Sweet não nos prejudicaria. Nunca faria mal a Antoine… ao menos, não deveria.

Abro a porta do elevador no meu andar e corro direto para o quarto de Antoine. A calma que sinto ao ver Cassandra lendo A Bela e a Fera some assim que lembro de Sweet e da conversa com o dono do California.

Se eu perder o emprego… não consigo sequer pagar o condomínio, nem a babysitter.

E minha promessa a Vincenzo… perdida.

A voz interna me acusa, grita:

Você perdeu tudo. Deu seus clientes para quem te apunhalou pelas costas.

Tento ignorar, mas o desespero aperta o peito.

Arremesso mentalmente minhas botas contra o vidro.

Então a campainha toca.

Tremendo, abro a porta.

Aiden está ali. Firme.

E o sorriso singelo dele me corta.





— O que deseja? — pergunto, ríspida.

— Boa noite pra você também. — Ele responde simples, sem acusação.

— Eu não estou bem. O que quer?

— Nada. Vou embora.

— Fica, tio. — Antoine pede, entrelaçando os dedos à minha mão.

Ele se ajoelha diante dela, tocando seus cachinhos. Sorri, desarmado.

— Você é linda, Antoine.

— Obrigada, tio. Mamãe também acha. Cassandra tá lendo meu livro favorito. Quer ouvir?

— Não. — digo por ele, tentando não notar os olhos úmidos de Aiden.

Agacho-me e cochicho:

— Volta pro quarto, filha. Já tá tarde. Daqui a pouco eu vou passar lá e roubar meu beijo.

Ela se afasta. Aiden a observa.

Antes de entrar no quarto, Antoine solta espontaneamente:

— Tio! Você é a Fera e a mamãe é a Bela!

— Sou mesmo? — pergunta ele, inseguro.

— Gosta dela, tio?

A pequena voz observa cada reação dele.

— Gosto sim… mas ela tem medo.

— Medo da Fera?

— Chega! — interrompo. — Antoine, já pra cama!

— Não… — lamenta Aiden, olhando-me nos olhos. — Eu gosto tanto dela.

— Desde quando? — pergunto.

— Desde sempre.

Reviro os olhos.

— Porra… você também? Aiden, vá embora. Minha cabeça não aguenta mais. Amanhã a gente conversa.

Antes que eu consiga inventar qualquer desculpa para afastá-lo, Antoine nos surpreende.

Ela corre pelo corredor e abraça as pernas de Aiden.

Ele segura as lágrimas.

Ergue-a nos braços e murmura:

— Meu anjo… senti sua falta.

— OI??? — explodo. — SOLTA ELA!!!

Eles permanecem abraçados.

Antoine cochicha no ouvido dele:

— A Fera no final da história conquista a Bela.

— Eu sei. — Aiden responde, olhos fechados. — Eles vão dançar juntos de novo?

— Se meu tio deixar… — ela responde.

Corre para o quarto e grita antes de fechar a porta:

— VOCÊ PRECISA PEDIR PRO MEU TIO!



O silêncio entre nós dura segundos demais.

— Que porra de conversa foi essa!? Que merda de tio é esse!?

— Eu não sei… — mente Aiden, sorrindo. — Me diz você.

— Vá pro inferno, Aiden! Vá embora!

— Me deixa ficar.

Empurro a porta contra ele tentando fechá-la. Ele ri.

Se eu não estivesse tão fora de mim, acharia… fofo.

O perfume dele — selvagem, amadeirado — me faz arfar.

Desisto.

— Entra.

Go raibh maith agat.

— Hein!?

— Obrigado em irlandês.

Ele entra observando tudo.

A fonte de água no hall. As pedras. As plantas.

Como se tocasse algo sagrado.

— Isso é lindo.

— Já viu, Aiden. Não é a primeira vez que vem aqui.

Ele ignora.

— Hoje estou inspirado. Gosto de plantas. Árvores. Troncos.

— Hoje não é um bom dia pra visitas. Tô com dor de cabeça.

— Seu coração dói.

Recuo.

— Não entendi.

Ele me encara profundamente.

— De amor. Dor. Traição. Música… dança.

— Aiden…

Tento expulsá-lo, mas sinto sua mão no meu ombro.

— Ele te fez sofrer de novo.

Engulo em seco.

— Sim.

— Isso sempre se repete.

— Para de falar e vai embora!

— Quer conhecer o início de tudo? Se livrar dessa dor?

— Sim… — confesso. — É tudo que eu quero.

Ele se aproxima.

— Diga o que quer.

— Quero descansar. Nunca ter conhecido Vincenzo.

— Talvez você possa.

— Como?

— Voltando ao passado.

— Isso é impossível.

— E se não for?

— Vou achar que você tem algum transtorno mental.

Ele sorri.

— Qual seria o seu?

— Não te interessa.

— Ninfomania?


Arregalo os olhos, assustada, e caminho até a cozinha. Aiden me segue. Abro a geladeira.

Preciso ir às compras.

Um receio estranho me atravessa: talvez, num futuro próximo, eu não consiga mais manter a despensa cheia de guloseimas.

Pego um litro de água gelada e bebo no gargalo.

Quase sinto a respiração de Aiden na minha nuca.

Empurro seu corpo com o meu enquanto ele ri.

— Você sempre fez isso.

— O quê?

— Me empurrar quando estava com raiva.

— Puta que pariu.

Apoio-me na pia, abro a torneira e molho a nuca.

— Pelo amor de Deus, não começa com esse papo de outras vidas.

— Ok. Não vou. — Ele levanta as mãos. — Está com fome?

— Como sabe!?

— Foi um palpite! Não me olhe como se eu fosse um demônio.

— Não ria. Minha vida está virando um filme de terror onde eu não quero ser a protagonista. Anjos, demônios, exorcistas, bonecas que falam, monstros que voltam dos mortos... Lúcifer...

— Demônios?

— Na verdade, só um. Mas deu trabalho.

— Deu? Não dá mais?

— Sumiu. — Lavo a garrafa vazia, pensativa. — Ele simplesmente sumiu.

— Entendo.

Ergo os olhos.

— Por que está sorrindo assim?

— Assim como?

— Com ternura.

— Não é só ternura.

Ergo uma sobrancelha enquanto observo seu rosto.

A boca carnuda é um convite ao pecado.

— Adessa.

— Está quente aqui!

Prendo o cabelo num coque desajeitado e sigo para o quarto.

Paro na porta quando percebo Aiden atrás de mim.

— É sério? Você pretende entrar no meu quarto?

— Não! — Ele recua, constrangido. — Eu não sabia que viria para cá.

— Nossa...

Respiro fundo e me arrependo.

— Perdão. Fui estúpida com você. De novo.

— Não tem problema.

— Você é legal.

Ele sorri.

— Você sempre foi assim. Impulsiva. Um pouco desequilibrada.

— Eu!? Desequilibrada!?

Rio.

Mas a risada morre quando mergulho no olhar dele.

— O que você quer, Aiden?

Ele abre a porta do meu quarto e faz uma reverência elegante.

— Primeiro você.

Passo por ele.

O cheiro.

Floresta.

Fecho os olhos.

Vejo machados cravados em troncos.
Fumaça saindo do teto de uma casa de madeira.
Risos.
Gritos.
Gemidos.

Corpos nus.

— Aiden!



— Quero água. — Ele está no meu closet, com as mãos em concha sob a torneira.

— Tem filtrada na cozinha!

— Prefiro essa. Natural. Livre.

A água escorre por seus dedos enquanto ele molha o rosto.

Um sorriso lento surge em sua face úmida.

— Adessa. Acorda.

Solto o ar que estava preso.

Ele passa os dedos pelos cabelos curtos.

Meu olhar desce para o pescoço forte, o colar de prata, as tatuagens que surgem pelo decote da camiseta.

Sem perceber, umedeço os lábios.

Como nos filmes que deixei no passado.

— Algum problema?

— Não.

Dou uma risada idiota.

Talvez ele tenha ouvido meus pensamentos.

Ou talvez eu esteja surtando.

— Essas tatuagens têm algum significado especial?

— Todas têm.

— Eu sei. — Reviro os olhos. — Ninguém tatua a pele por nada.

Reformulo:

— Alguma é... extremamente especial?

— Tem.

Ele tira a camisa.

Meu queixo cai.



Tatuagens nos braços, no peito, nas costas.

Ele aponta para perto da virilha.

— Gosto muito dessa aqui. Pena que você não consegue ler.

— Daqui é difícil.

Aperto os olhos.

— É “Morte”?

— Errou. — Ele pisca. — É um nome.

— Morena? Monique?

Ele ri.

— Você não vai acertar.

— Morgana?

Ele empalidece.

— Como você sabe?

— Não sei. Eu chutei.

Ele baixa a cabeça.

— Nada. Está tudo bem.

Mas não parece.

Quando levanta os olhos de novo, há algo estranho ali.

Então, num gesto infantil, faz menção de abrir a calça.

— Se quiser ler mais...

— Nem pense nisso! Antoine e Cassandra estão aqui!

Ele ri enquanto veste a camisa.

— Eu nunca faria isso. Eu te respeito.

— Ainda bem.

Aponto para o peito dele.

— Quem é a mulher tatuada aí?

A respiração dele muda.

— É por ela que eu vivo.
Por ela que eu morro todos os dias.
Por ela que eu retorno.
Por ela eu mataria.

Engulo em seco.

— Que lindo.

Suspiro.

— Mulher de sorte.

Ele segura meu rosto com mãos frias.

— Você é, Adessa. Você será.

A vontade de beijá-lo quase vence.

Quase.

— Antoine não quer dormir, tia!

Cassandra surge na porta.

O feitiço quebra.

 Por quê!? - Pergunto, enfim, livrando-me do estranho fascínio que Aiden exerce sobre mim. Caminho até o quarto, resmungando. - O que ela tem!? Algum novo tio quer falar com ela!?
 Não sei! - Responde-me Cassandra que é seguida por Aiden. 
 Por San Juan Diego! Outro tio não! Filha! Já passou da hora de dormir! - Agarrada à sua boneca macabra, ela sorri para Aiden quando me faz tremer de medo ao declarar.
 A Giulia disse que o tio Aiden pode matar o monstro, mãe! Não é legal!?
 Muito. - Resmungo, despencando contra a cama de Cassandra.   Desisto.


Mais tarde, Aiden acaba jantando conosco. Foi ele quem trouxe a comida.

Massas.

Eu amo massas.

— Eu lembro de como você devorou aquele macarrão — comenta ele.

Levo a mão à barriga.

— Eu estava grávida.

— Ele quem, mãe? — pergunta Antoine.

— Seu irmãozinho.

Sorrio, triste.

— Agora ele é um anjo.

— Igual ao tio Miguel?

Reviro os olhos.

— Não sei, filha. Acho que seu tio Miguel é tipo... o chefe.

— Então meu irmãozinho trabalha pra ele?

Bebo mais vinho.

Beijo a testa dela.

— Ela não é uma graça?

Aiden me observa.

Há fogo em seus olhos.

— Eu bebi demais ou seus olhos estão pegando fogo?

— Você bebeu demais.

Ele aponta para os castiçais.

— São as velas.

— Vou vender esses castiçais.

— Não vai não.



— Meu tio Miguel conhece você, tio? — pergunta Antoine.

Aiden ri.

— Não, querida.

— Conhece sim.

Os talheres dele tilintam no prato.

O ar na sala fica pesado.

Ele olha fixamente para Antoine.

— Eu definitivamente não o conheço.

— Mas ele disse que conhece.

Meu coração dispara.

Esvazio outra taça.

— Chega de tios por hoje!

Minha voz sai embolada.

— Seu irmãozinho não trabalha para o tio Miguel porque ele ainda é bebê! Seria trabalho infantil!

Escondo o rosto nas mãos.

— Come a sobremesa, filha. Eu não sei até quando...

— Calma, Adessa.

Olho para ele.

— Seus olhos...

— O que têm?

— Estão mais claros.

— Impressão sua.

Ele me encara através das chamas das velas.

Pisca.

E então vejo.

Olhos azuis.

Os olhos de Vincenzo.

— Eu te amo — ele diz.

Minha respiração falha.

— Vincenzo? Como entrou aqui?

— Dança comigo.

— Agora? Não tem música.

— Tem sim, mamãe.

Antoine sorri.

— Não fica com medo.

A música começa a tocar pela casa.

Antoine bate palmas.

— Você só tem uma hora, tio!




Ele me guia.

Passo a passo.

— Eu vou te guiar, Morgana. Vou te mostrar o caminho de volta.

Fecho os olhos.

— Dessa vez… eu serei mais suave.

A sala parece respirar conosco.

Cada passo é uma lembrança.

Cada toque, uma promessa.

E a tensão entre nós é tão densa que parece ter peso.

Passado.
Desejo.
Destino.

— Dessa vez… eu serei mais suave.

Sussurro.





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