CAPÍTULO 4 - MINHA LUZ SE APAGOU

 





— Há quanto tempo não o vê?


— Sei lá — Uns dois meses.


— Ele sabe?


— Não! — Respondo, seca — E se for da minha vontade, nunca vai saber. O filho é meu. Só meu, doutora.


— Não seria interessante que ele soubesse, Adessa?


— Quando estivemos juntos pela última vez, ele me ofendeu demais. Não quero passar por isso de novo. E, convenhamos, ele jamais vai acreditar que o meu filho é dele! Mesmo que eu use 'camisinha' com os clientes, ele vai me humilhar outra vez. Não vou aguentar — Seco duas lágrimas que escorrem pelo rosto e olho para o teto — Ainda não pensei no nome do pai. Talvez... Vincenzo. Abestado. Ele não merece, mas eu amo o nome dele. É italiano...


— Você suspira quando fala nele...


— De abestada que sou. Me odeio por ainda gostar dele.



— Querida, seus exames estão ótimos. O bebê cresce forte e saudável, mas...


— Mas...?


— Preciso saber como tem lidado com seu trabalho. Entende?


— Claro. Super entendo. Não sou irresponsável. Nenhum desconhecido vai me... — Pigarreio, corrijo a tempo — ...vai ter relações comigo. Ganho bem com vídeos e filmes onde todo mundo mostra exames e camisinha é regra. Trabalho mais com mulheres, doutora.


— Ah... melhor assim. Sem penetração.


— Sim. E o cachê é maior. Não é incrível que, nesse setor, as mulheres ganhem mais que os homens? Queria que fosse assim em todas as áreas.


— Seríamos invencíveis — O sorriso triste dela me deixa desconfiada.


— Algum problema, doutora? — Toco sua mão. De repente, sua imagem com outra mulher invade minha mente.


Um leito de hospital. O 'bip' do monitor. Os olhos tristes da mulher deitada. Um último beijo. A linha dos batimentos para. Médicos afastam a outra. Ela chama por seu nome.


— Alice!? Quem é Alice!?


— Como sabe!?


— Perdão — Cubro o rosto — Perdão. Eu não deveria...


— Adessa, você a viu!? Me diga! — Suas mãos pressionam as minhas. Sinto seu desespero — Ela está bem!? Sem dor!?


— Sim — Respondo sem encará-la. Alice, sua companheira em vida, está ali, assentindo — Ela ainda te ama e vai te amar pelo resto de suas vidas.


— Como sabe!? Preciso saber se sofreu ao morrer! — Chora, se culpando — Não pude salvá-la...


— Ela sabe. E agradece por tudo que você deu: amor, companheirismo, alegria — Repito as palavras da morta que me sorri e some como TV desligada — Fique tranquila, doutora. Ela está em um lugar de luz.


— Um dia, vou me encontrar com ela — Brinco, enxugando lágrimas.


— Não antes do meu bebê nascer!


— Ok — Ela sorri, aliviada.



Caminho pelas ruas do bairro, entrando e saindo de lojas de artigos infantis. Já encomendei o berço, a cômoda, o armário do meu filho — ou melhor, do Enzo. Vincenzo… prefiro não pensar nele. Ele não merece. Um telefonema sequer. Nem para saber se sobrevivi ao sequestro. Eu o repudio. Meu ranço por ele está fincado, firme.


Carrego bolsas e mais bolsas cheias de roupinhas. Todas as cores, mas lilás é meu amor. Lilás vai ficar perfeito nele. Esbarro em um rapaz que sai apressado de uma academia. Minhas bolsas caem no chão. Ele pede desculpas. Eu também.


— Estava distraída. Foi culpa minha — Sorrio enquanto ele recolhe os embrulhos e ajeita nas bolsas que mantenho abertas — Treina aqui? Nunca vi essa academia.


— É nova. Não é exatamente uma academia. É um galpão de boxe.


— Uau! Já lutei Kickboxing! Amo lutar! Meter a porrada nos outros… libertador!


— Sério? Agora fiquei com medo! — Rimos.


— Só nos que merecem. Fica tranquilo. Você foi gentil em me ajudar.


— Desculpa, mas não deu pra não notar. São para seu bebê?


— Sim! — Sorriso largo — Nasce em uns seis meses!


— Menino ou menina?


— Ainda não sei, mas quase certeza que é menino. Vai ter o nome do pai.


— Qual?


— Vincenzo… — Meu sorriso cai. Olhos no chão — É o pai dele.


— Belo nome. Posso perguntar por que ficou triste? Ele morreu?


— Não sei. O irresponsável sumiu. Espero nunca mais vê-lo — Ele faz careta, tipo “me meti onde não devia”. Peço desculpas — Não devia falar assim, mas gostei de você. Parece um bom homem. Você vai ser feliz… aaah… e seu nome é?


— João — Estende a mão firme — Sou amigo do dono do galpão, que, por acaso, tem o mesmo nome do seu filhinho.


— Como sabe que vai ser lindo?


— Você é linda, e o pai… provavelmente não é feio. Acertei?


— Sim… — Meu olhar se perde — Ele tem os olhos azuis do Caribe. Pena ser tão…


— Tão?


— Imbecil!


Rimos juntos. Meu peito aperta quando ele revela algo que me faz arfar.


— Pode ser coincidência… ou destino. O dono do galpão tem olhos azuis e se chama Vincenzo. Nome estranho por aqui. Será que…?


Nossos olhos se encontram, incrédulos. Larguei as bolsas, e cada passo até a porta parece pesado demais. Meu coração quer saltar da garganta. João me olha, baixinho:


— É ele?


De costas, encostada no vidro, assinto. Mal consigo respirar. Mão no peito, puxo o ar como asmática em crise.


— Ei, mocinha. Respira. Devagar. Inspira… segura… solta. Mais uma vez. Assim. Melhor?


— Sim…


— Novamente. Devagar. Aliás, não sei seu nome.


— Adessa.


— Tá de sacanagem!?


— Por quê? Me conhece de algum lugar?


— Não. Por favor, não diga que me conhece como a puta. Quero ser só uma mulher comum… uma gestante sem passado.


— Fala, João! Por que tá me olhando assim!?


— Porque eu acho que acabo de encontrar a ‘Adessa’ do meu amigo Vincenzo que está lutando ali dentro — Um riso eufórico, quase patético, e eu me desmancho ao perguntar:


— Aquele Vincenzo lá dentro fala de mim???


— Muito… — Extremamente emocionada, com o tom da voz dele e a ternura no olhar, choro copiosamente. Ele me abraça, pede calma.


— Por mais estranho que tudo pareça, vai dar certo no final, Adessa. Confia em ‘Algo Maior’?


Puxo-o pela gola da camisa, quase arrancando o fôlego:


— Não sei. Minha vida é complicada, João. Só quero sair daqui antes que ele…


— QUE PORRA É ESSA FORA???



O galpão explode de vozes. Ele atrai os alunos para fora, e eles se aglomeram na calçada enquanto Vincenzo fere minha paciência de novo.


— Ela tá te cobrando quanto pelo programa!?


— Para, Vincenzo. Não sabe o que tá rolando aqui. Fica calado — João me segura, mas eu decido: cato minhas compras ou esmurro o rosto dele.


— João! Porra! Tu não precisa disso! Não precisa pagar pra foder com mulher nenhuma! Tem a tua em casa!


Recolho as bolsas, ainda chorando, e me preparo para ignorar Vincenzo. Mas ele ultrapassa todos os limites:


— Não vai falar comigo!? Não vai contar pro João com o que trabalha, Adessa Love?


— Agora já deu.


— Como você sabe disso, seu padre de merda!? Assiste meus vídeos!? Nunca te contei nada!


— Ridícula! Não gastaria meu tempo com uma mulherzinha como você!


— Para, cara! Não tô te reconhecendo!


— João — Explico, de costas para ele — Você não o conhece. Ele tem várias faces: o lutador de boxe, o padre, o exorcista… e o babaca que surgiu do nada. O falso moralista que pisou em mim quando fui sequestrada.


— Olha pra mim, vagabunda!


— VINCENZO! PARA! ELA ESTÁ GRÁVIDA! — Fecho os olhos, aperto as alças das bolsas, quase perdendo o controle — O QUE TÁ HAVENDO HOJE, MEU IRMÃO!? ESSE NÃO É VOCÊ!


— Grávida!? — Gargalha — Uma puta grávida!? Vai ser difícil saber quem é o pai!


Os alunos riem. As buzinas tocam. O apito do guarda corta o ar. E a voz dele continua, irônica:


— Quem é o pai, Adessa!? Ou será que tem mais de um!?


— Escroto — Rosno, me virando devagar. Nossos olhos se encontram. Raiva, desespero, angústia. Larguei as bolsas, cerro os punhos, me preparo. Um chute certeiro nas costelas. Ele geme. João tenta me conter; empurro-o com o corpo. Troco a perna, outro chute atinge seu corpo. Ele cai, rolando. Os alunos não sabem se riem de mim ou dele, que apanha de uma mulher… grávida.


— Perdão, João. Não queria te machucar — Minha voz trêmula. Ele segura minhas mãos úmidas.


— Deixa eu te levar pra casa. Você não tá bem.


— Estou sim — Sorrio triste, ignorando o caos — Obrigada por ser bom comigo. Nunca vou esquecer.


— Espera, Adessa…


— Quem é o pai!? — Grita Vincenzo, correndo atrás de mim — Me diz! — Olhos azuis arregalados, medo e arrependimento.


— Ele morreu no dia em que meu filho foi concebido. Dormia no sofá pra me proteger, me deu um beijo de ‘bom-dia’, trouxe café. Seríamos felizes. Mas o “Seu Deus” o levou de mim. Agora somos só eu e meu filho. Que ele descanse em paz — Dando-lhe as costas, sigo até a esquina. Sua mão toca meu braço. Sinto confusão nos pensamentos dele, mas não importa — Me larga. Quero ir embora e ser feliz com meu filho… sem pai.


— Ele… ele… ele… é… ele…?


— João, pede pro seu amigo me deixar ir — Imploro. Ele me solta e me abraça outra vez, murmurando:


— Perdão por tudo, Adessa. Esse não é o Vincenzo que conheço. Ele é bom. Só não sabe o que fazer agora. Quando se acalmar, dê uma chance. Ele já se arrependeu.


— João, um favor? — Olhos cheios d’água, vejo Vincenzo recostado à parede. Queria abraçá-lo, beijar sua cabeça, perdoá-lo. Mas o fuzilo com o olhar — Se não for demais… aceita ser o padrinho do meu filho? Ninguém melhor no mundo.


— Adessa — Sussurra Vincenzo, abatido.


— Aceito — João responde, olhos úmidos — Será um prazer fazer parte da vida de uma criança tão especial. Aperto suas mãos. Sinto franqueza e pureza. Fiz a coisa certa — Agora, me leva pra casa. Preciso cuidar do afilhado.


— Faz sentido.


João segura as bolsas, oferece o braço. Apoio-me. Meu coração sangra quando Vincenzo pergunta:


— Quando vou poder ver meu filho?


— Ele não é seu, bastardo!


— Quando, Adessa!?


— Nunca.


E, infelizmente, ele nunca veria. Nem eu.





O quarto está pronto. Sweet Child dizia que montar o berço antes do nascimento dava azar, mas eu não acreditei. “Superstição”, pensei, ajeitando o mobile de borboletas sobre o berço. Qual a relação entre montar um berço e azar? Não importava. Você vai ser minha borboletinha, meu amor.


— Vai me levar pra longe deste mundo, com suas asas, me fazer feliz como nunca fui. Só você e eu… pra sempre — sussurro para meu bebê.


Desço a escada devagar. Minha barriga ainda é discreta, mas acaricio-a instintivamente. Sento-me na poltrona de amamentação, balanço-me, olhos fechados, imaginando seu dedinho tateando meu rosto. Estou tão absorta que não percebo sua presença. Um sopro violento fecha a porta do quarto do bebê com força. Corro para um canto, agachada, protegendo meu ventre. A chuva forte invade o quarto pela janela aberta. A luz pisca e se apaga. Um cheiro de enxofre me envolve, o hálito dele na minha nuca. Trepido, apavorada pelo meu filho. Nosso filho.


— Eu disse que queria um filho. Não me importo com quem seja o pai. Não toca em mim, por favor — a voz gutural de Ga’al corta o ar.


— Imploro — as gotas molham meus cabelos. Relâmpagos iluminam o centro do quarto, onde ele se mostra. Grito de horror, mas agarro a medalhinha do Crucificado no pescoço, presente de Vincenzo no dia em que me resgatou de Jack. Beijo-a, tremendo, pedindo ajuda ao Alto. Sou puxada pelas pernas, arrastada até meu quarto. Meus gritos desaparecem sob o estrondo da chuva e dos trovões. Outro relâmpago ilumina a cruz. Ga’al se afasta, furioso.


— Você tem medo… — murmuro, quase sem acreditar.


A campainha toca. Um fio de esperança me dá coragem. Me arrasto até a porta da sala, tentando alcançar a campainha. Berro por socorro. Sou jogada contra a parede; bato a cabeça. Caio sentada no tapete felpudo. Ga’al rasga minha camisa de pijama, furioso. A campainha não para. Soco no rosto, sangue na boca, cubro a barriga. Chuto com força, mas ele gargalha, imenso sobre mim, apertando meus seios, sufocando-me. O medo e o asco se transformam em força pelo meu filho.


— Proteja meu filho! — grito, voz firme.


Ga’al ergue os punhos, pronto para me golpear, quando ouço a voz de Vincenzo:


— ME AJUDA, VINCENZO!


A porta da sala é arrombada. Ele se choca com a cena: um demônio segurando-me pelo pescoço. Debato-me, pernas no ar. Vincenzo mostra seu lado exorcista, que eu desconhecia até então. Cruzo a madeira da cruz em sua frente. Ele se aproxima, encarando Ga’al, gritando palavras em latim. O monstro me solta. Caio no chão, puxando ar. Arrasto-me até Vincenzo, que me protege com seu corpo. Juntas, mãos unidas, recitamos em latim:


— Crux Sacra Sit Mihi Lux. Non Draco Sit Mihi Dux. Vade Retro Satana! Nunquam Suade Mihi Vana. Sunt Mala Quae Libas. Ipse Venena Bibas.


Ga’al urrando, contorcendo-se, recua. Vincenzo, estarrecido, repete comigo. Avançamos, a oração firme, passo a passo. Ele se desfaz num grito que estilhaça a janela. A chuva invade a sala, molhando nossos rostos. Exausta, desmaio nos braços dele.



— Onde aprendeu Latim? Como sabia que aquilo o afastaria? — dou de ombros, rindo como criança.


— Sei lá — ele sorri, cuidando do meu rosto, beijo no olho inchado, delicado, quase impossível de acreditar depois do que aconteceu.


— Por que ele faz isso? Não tem nada a ver com o homem que me humilhou naquele dia. Como soube que precisava de ajuda? — penso.


— Eu te ouvi… — ele murmura.


— Como assim??? — fico sem fôlego.


— Fica quieta. Deixa o gelo agir no seu olho — Vincenzo responde.


— Quem me vestiu? — exijo, deitada na minha cama, vestida com outro pijama.


— Quem você acha que foi? Tem mais alguém aqui além de mim? — ele ergue uma sobrancelha, meio brincando, meio sério. — Você me viu nua? Deveria ter esperado eu acordar. E deixar você molhada!? Podia fazer mal ao bebê!


— Desde quando você se importa com meu filho!? Desde que descobri que ele é meu também. — minto, com raiva.


— Mentira! Não tem como saber! João não sabia! — grito.


— Quem te contou isso!? Você, idiota. Nunca! Mesmo que fosse seu, nunca te contaria nada! Me chamou de vagabunda na frente dos amigos! — choro, soluçando, enquanto ele segura o gelo.


— Nunca fizeram isso comigo. Eu não merecia, Vincenzo! Eu nunca te fiz mal! Nunca te obriguei a nada! Aquilo… aconteceu e eu não sei como! — digo.


— Eu sei… — ele baixa a cabeça, sério. — Sei que vai ser difícil, mas se puder, algum dia… me perdoa. Eu perdi o controle. Eu te vi com João, sorrindo e…


— E? — apoio os cotovelos nos joelhos, cruzo as mãos, encaro seus olhos lívidos.


— Fala. Você sorriu assim pra mim, no dia em que nos conhecemos na cafeteria. Um sorriso puro, entusiasmado. E daí? João foi legal comigo, enquanto você… — enxugo as lágrimas com o dorso da mão, ressentida. — Vincenzo, eu nunca fui tão humilhada na vida… Nem mesmo com meus…


Ele parece estar voltando a ser o homem por quem me apaixonei.


— Ah… deixa pra lá. Completa — exige, com o gelo sobre meu olho fechado.


— Não quero — respondo.


— Responde! O quê? Meu filho! Quem te disse que ele é seu também!? João prometeu que nunca contaria! Idiota. Eu leio mentes. Isso é sério??? Telepatia. Ouvi quase tudo que você queria esconder. Inclusive seu pedido de socorro. Porra! — empurro seu tórax.


Ele larga o gelo na mesinha, olhos arregalados, sorriso de triunfo.


— Tá de sacanagem??? Desde o início??? Desde sempre… Sempre? Não entendi. Desde que te doparam naquela festa e te… — soca o colchão, punhos cerrados. — E fizeram aquilo com você. Aquela covardia. Putz…


Fico paralisada, olhando incrédula para ele.


— Então foi você quem me salvou naquela noite? Na noite do estupro coletivo? Você é minha ‘Voz sem Rosto’!? Puta que pariu! O carinha da moto e a ‘Voz sem Rosto’ são a mesma pessoa!? O pai do meu filho!? Caramba… não acredito… Sério?


— Sim. Sou eu. Sou todos aqueles que você pensou… e, principalmente, o pai do seu filho — ele confirma.


— Não é! Você não pode afirmar! Você acabou de pensar, pateta! Mas… você leu meus pensamentos!? Caralho! Deve ter sido a porrada na cabeça! — resmungo.


— Eu disse que sou telepata! — ele aumenta o tom. — Para de ler meus pensamentos! Isso é um saco!


— Então para de pensar… — levo as mãos ao rosto, rindo, e grito: — EU NÃO CONSIGO!



Rimos. Sinto a dor no rosto e me queixo. Ele me ajuda a deitar, se deita ao meu lado, ainda com o gelo pressionado sob o olho. Não sei como me portar. Lembro da última vez que estivemos assim… como tudo terminou… ou começou. Meu filho foi concebido naquele dia. Sorrio, soltando um gemido de dor.


— Tem um jeito de você evitar que eu te ouça como acabei de ouvir. Merda! O que ouviu!? O que já sabia? — pergunto.


— Qual o nome do nosso filho? — Engulo em seco, olhos no teto, respondo:


— Enzo. Enzo… de ‘Vincenzo’. Bem original. Não ferra! Você sumiu! Eu queria te…


— Você queria se lembrar de mim… pra sempre — ele completa.


E deu meu nome ao nosso filho. Imbecil.


— Como faço pra você não me ouvir? Música alta. Bem alta. Alexa! — grito quase no ouvido dele.


— “How long will I love you”, Ellie Goulding! Volume sete! — ele gargalha da minha atitude impulsiva… até a música começar, e entender a letra.



Será que pensa que eu o amo e amarei para sempre? Patético.


— Você não tá me ouvindo, né? — pergunto.


— Eu não estou me ouvindo, Adessa! — grita ele, rindo.


— Mas a música é bonita… Gostei. Até quando? O quê? Você vai me amar? — gargalho, histérica, esperando que ele não perceba o quanto meu coração explode por ele.


— Não seja patético. Tô com fome — diz.


— Adessa… só você teria fome depois de um exorcismo que quase quebrou todos os ossos do seu corpo — ele sorri. — Graças a você, estou bem… digo… estamos bem. Meu filho e eu. Nosso.


— Gosta de lasanha!? — pergunto, eletrizada, enquanto ele me pega no colo e me leva até a cozinha.


Ele abre armários sem cerimônia, enfia a cabeça na geladeira e me lança um olhar que diz “Adessa, não viaja”.


— Cala a boca e cozinha logo! Estamos famintos! — ordeno, sentada à mesa, desafiadora e irritada.


Ele move o canto da boca, olha-me com ternura. Tento não sorrir. Não consigo.




— Eu me odeio. Eu te amo — penso. Ele voltou à minha vida, preenchendo cada buraco que eu nem sabia que existia. Todos os dias aparece em casa, me faz companhia quando não estou trabalhando. Acaricia minha barriga, conversa com nosso bebê… sem me tocar como mulher. Mas basta eu pensar algo mais picante, e lá está aquele olhar dele, sério, proibitivo. EU ODEIO AQUELE OLHAR! Como não desejar seus beijos estando tão perto dele?



— Como não falar do meu ‘trampo’. Como assim, amiga!? — lanço meu olhar de desprezo para Sweet.


— Ele sabe que tu é puta!? — intromete-se ela, sorrateira.


— Eu não sou puta. Sou stripper, atriz… De filme pornô! — corrijo, indignada.


— Filmes adultos! — insiste ela, firme, querendo me deixar louca de raiva. Continua falando assim e eu me afasto de você. Pego meus clientes e adeus lista de contatos!


— Não, amiga… — suaviza a voz, tentando acalmar. — Não faz isso. Eles pagam minhas contas, e você vai ver, daqui a pouco, quanto custa criar um filho… Imagine dois!


Reviro os olhos, divertida com seu desespero.


— Só não quero que Vincenzo te magoe de novo — digo, sorrindo, confiante. — Não vai. Sinto que não vai. Talvez, com a nossa proximidade, ele até desista de ser padre e… É a sua vez, meu anjo.


— Tenha cuidado pra não cair! ‘Tô de boas’, Doc! — grito, sorrindo, atravessando a cortina de miçangas, vendo apenas as luzes dos holofotes.


Freddie, o DJ, anuncia-me como “The Flashback Girl”, mas hoje danço uma música atual, famosa por estar na trilha de um filme sobre um dominador e sua submissa apaixonados. Inocente perto da minha vida, mas não consigo deixar de assistir toda vez que reprisam. Eles são tão fofinhos juntos… Termino o show. Apesar da plateia implorar, me nego a retirar o biquíni e me exibir como uma gata no cio. Alguns clientes do ‘California’ sobem no palco, prontos pra arrancar meu sutiã ou rasgar minha calcinha. Xingo, chuto com minhas botas de cano alto, e, de repente, ele surge:


— Vincenzo, meu escudo, meu limite, meu caos. Vamos sair daqui! — puxa-me pelo braço, cobrindo-me com seu casaco, exatamente como imaginei tantas vezes antes de seu retorno.


Na calçada:


— Vai ficar aí me olhando ou vai sentar na garupa!? Preciso pegar minhas coisas! Vem logo! Não vou apanhar por sua causa! 

- Minha mochila com meus documentos está lá dentro! — grito, eufórica, abraçando sua cintura enquanto ele acelera a moto.


— Eu só estou de calcinha e sutiã! — digo, tentando não rir.


— E o meu casaco! — grita, contra o vento.


— Cala a boca e não pense em nada! Caralho, nem sei o que tô fazendo! — sorrio, pateticamente, e encosto a cabeça em sua camisa de malha, cheirando maçã verde.


Se tudo isso for um sonho… não me deixa acordar.



De volta ao meu apartamento, ele joga as chaves na mesinha do hall e segue direto pra cozinha.

— O que quer comer? — pergunta, casual.

Quase caio pra trás. Juro que já vivi essa cena. Ele jogou as chaves no mesmo lugar, fez a mesma pergunta. Déjà-vu.

— Como assim? — respiro fundo, assustada. — Foi real demais… mas no futuro.

Ele ri, debochado, amarra meu avental na cintura dele.

— Se fosse no passado, até explicaria. Mas no futuro… nem a ciência dá conta.


Piso no pé dele com meu salto.

— Coturnos, porra. Nem doeu — diz, com aquele olhar que me deixa sem ação.


Percebo que estou só de calcinha e sutiã com bojo e lantejoulas.

— Gostou das minhas botas também?

— Ah, não ferra! — irritado, se afasta, mas não perco a chance: — Gostou de ouvir os outros pensando, Sr. Telepata?

— Eu não consigo controlar isso… e não gostei das botas! — ele se vira, ciúme quase transparente.

— NÃO! NÃO É CIÚME! EU PRECISO CUIDAR DO NOSSO FILHO!

— Não precisa gritar! — rolo até o quarto, rindo de nervoso, o prato se espatifando no chão. — Estou grávida, não surda!


Antes de fechar a porta, provoquei:

— Tem não! Quer porque nunca te pedi nada, Mon Amour…

Ele passa a mão pelos cabelos, nervoso.

— Vai tomar banho e se veste, já! Eu detesto comida requentada!

— OK! OK! JÁ FUI! — grito, eufórica, correndo pro quarto.





— Vc é virgem? — ele se engasga com o bife à parmegiana, transtornado.

— Ué! Resposta simples: sim ou não?

— Não tenho que responder nada. Ridícula e íntima demais.

— Te peguei! — seguro o guardanapo na boca, rindo. — Porra nenhuma, eu corto tudo antes. Facilita a vida.


Ele ri de novo.

— Do que estávamos falando? Vc pensa tanto que se enrola toda…

Um sorriso dele me faz arfar.

— Quantos sorrisos vc tem, idiota?

— Sei lá. Esse! — levanto a mão e capto com o celular: o sorriso de cafajeste.

— Se nosso filho tiver um desses, vou me lembrar de vc.

— Vc é maluquinha… — resmunga, mas por você, idiota.


Quando o olhar volta pra mim, surge outro sorriso: o de compaixão, repetindo que “não rola”.

— Vc é ridícula! O que aconteceu foi sem meu consentimento. E nem se lembra! Minha pergunta tá respondida: oficialmente, vc não é mais virgem!

— Parabéns! — estendo a mão, ele aperta, mostrando covinhas num sorriso encabulado.


— Até o fim dos nossos dias, vou descobrir quantos sorrisos vc tem, ‘coisa fofa’.

— Aonde vai!? — grito, confusa.

— Desculpa! Não controlo meus pensamentos! — ele ri nervoso, caminhando pra sala.


— Alexa! “Wild, Love”, Jonathan Pleviak!



— É nova? — sigo, curiosa.

— É. Mas tem pegada antiga, do jeito que vc gosta. Lembra vc.

— Vc se lembra de mim durante o dia? — quase salto de alegria.

— Sim. Mais do que gostaria.


Um silêncio cai. Ele tenta não mostrar a alegria.

— Essa telepatia é um saco… invasão de privacidade!

— Eu sei. Desculpa.

— Tô bem. — Ele eleva o olhar, nostálgico. — Essa música lembra meus pais…

— Há quanto tempo eles se foram?

— Eu era adolescente… Não lembro direito.

— Como sabe que morreram?

— Sei lá. Palpite. Sua mãe era tão linda…

— Como sabe!?

— Para de me olhar como se eu fosse aberração! Nunca a viu!

— Eu imagino, porra. Você é lindo! Deve puxar dela. Satisfeito?

Ele amolece.

— Desculpa. Senti… presença. Pensei que…

— O quê? — envolvo os braços no pescoço dele.


A música ecoa baixa. Puxo, ele cede, devagar. Mãos na minha cintura, testas quase coladas.

— Saudades dela?

— Sim. E do meu pai também. Mais dele.

— Por quê?

— Mais fácil de amar. Aquilo pesa.


— O dom pra dança vc herdou dele — provoco ao pisar no pé dele.

— Te ensino — sorri, quase envergonhado.

— Não gosto de te ver dançando naquele lugar.

— Você não precisa daquilo.

— Ah, claro. E o aluguel se paga com oração?

— Eu disse que… quero dizer… — ele joga a cabeça pra trás.

— Deixa pra lá.

Corpos colados, coração dele disparado contra o meu peito. Ele nunca se entrega. Será que o altar é mais importante que eu?

— Como seus pais morreram?

— Acidente de carro. Da primeira vez…

— Da primeira vez?

— Bobagem, falei errado. Bebi demais.


O silêncio invade a sala como intruso. Ele se afasta, chora. Choro junto.

— Não foi sua culpa.

Ele congela.

— Como sabe que me culpo?

— Eu também tenho um superpoder.

Ele solta um riso triste.

— Você é tão boba… e linda.

— Não posso pensar. Não posso.

— Para de rir de mim.

— Pensa no que quiser. Seja livre.

— Alguém bebeu demais.

— Eu tentei, Adessa. Eu tentei… salvar eles.


Levanta abrupto, vai à cozinha, bebe água direto da garrafa.

— Não sei beber.

— Seja livre — penso.


— ADESSA! PARA! — grita. — Não assuste meu bebê!

Ele volta, próximo demais.

— Qual é a porra do seu poder?

— Você não faz nada. Você pensa. E eu escuto.

— Dá pra responder?

— Você está bêbado e estúpido. Não merece saber.



A lembrança vem: quarto úmido, cheiro de mofo, mãe dele no colchão, gritos, risadas que não eram humanas, crucifixo tremendo nas mãos de Vincenzo adolescente, padre jogando água benta.

— Merda… — empurro. — O que aconteceu com sua mãe antes de morrer?

— Nunca!

— Como sabe disso, caralho? Você é bruxa?

— Não, idiota! — grito. — Tenho o dom de tocar nas pessoas e ver o que sentem!

— Bruxa!

— ISSO NÃO É DOM. É MALDIÇÃO. NÃO SOU BRUXA! SUA MÃE NÃO ERA BRUXA! Que pacto você fez com Lúcifer?



Ele se joga no sofá, embriagado. Começa a confessar.

— Ela ia morrer se não fizéssemos nada. A Igreja fez tudo. Nada funcionou. Ele apareceu no meu quarto. Disse que traria minha mãe de volta…

— Lúcifer apareceu?

— Sim. Mais normal do que parece. Ele mente. Engana. Depois destrói.

— Não salvou sua mãe?

— Só o Mestre salva. Troquei a liberdade dela pela minha alma.


— Isso não se faz com criança…

— Você não precisa se preocupar. Seu Deus não permitiria.


Ele me prende entre as pernas.

— Tá me zoando?

— Não!

— Me solta!


O ar muda. Algo estranho paira. Inspiro. O cheiro é conhecido. Foco nele. Nada de ruim pode acontecer comigo com Vincenzo aqui.

— Você tá estranho.

— Minha mãe não merecia.

— Os santos são os mais tentados e os que mais sofrem! Não leu a bíblia?

— Me deixa sair!


Afrouxa. Levanto e vou ao banheiro. Lavo o rosto, escondo as lágrimas. Ele aparece.

— Por que chora?

Olho no reflexo. Está embaçado. Pisco, foco volta.

— Que porra tá acontecendo?

— Não me olha assim.

— Assim como?

— Como se tivesse carinho.

— Eu tenho — rio sem humor.

— Você acabou de me ofender.


Sua mãe não merecia ser possuída… mas eu, puta, mereço? Enxugo o rosto, arremesso a toalha no peito dele.

— Sai da frente. Preciso dormir.

Passo. Ele continua.

— Pra quê? Trabalhar no California? Filmar educativos pornôs?

— Sai da minha casa. Você não é bem-vindo.

— Não vou. — à beira do desespero.

— Preciso ficar. Não quero largar tudo. Prometi à minha mãe, não deixar outros sofrerem como ela.

— Idiota! Ela morreu num acidente! Não por exorcismo!

— Não importa! — segura minhas têmporas. — Prometi depois do exorcismo do “Anjo Caído”. Estou ferrado de qualquer jeito. Não vou te perder. Não quero perder nosso filho.


Meu estômago afunda.

— Do que fala? Que filho?

— Você. — voz quebrada. — Quero você. Você e nosso filho.

— Eu tô aqui, Vincenzo. Sabe o que sinto.

— Posso te sustentar, meu anjo. Fecho os olhos. Mãos frias no meu rosto. Lábios na testa.

— Você não precisa mais fazer o que fazia.

— Eu largaria tudo por você… amor.


Silêncio.

— Precisa esquecer tudo sobre o exorcismo da minha mãe.

— Por quê? — rio.

— Dez… nove… oito…

Meu corpo amolece.

— Três… dois… um.

Ele estala os dedos.

— Do que lembra sobre minha mãe?

— Oi? Pergunta idiota.

— Acidente de carro, idiota. Ela morreu dançando muito bem.

— Ao contrário de você — observa.

— Perfeito. — Apenas verificação, sem alívio.


— Vai pro inferno.

— Relaxa.

— Não ferra! — corta o clima. — Você não é bom da cabeça!

— Shhh — hálito de vinho. Lábios tocam os meus. Pernas cedem. Ele segura a cintura. Beijo suave, curto. Se afasta.

— Para.

— O que foi agora? — Foi você quem começou!

Ele passa a mão no rosto. Atravesso o corredor xingando. Ele vem pedindo perdão. Tento fechar a porta do quarto, o pé dele impede.

— Me deixa em paz! Tá prejudicando meu filho!

— Nosso.


Solto a porta, sento no colchão, abro a gaveta. Ele senta ao meu lado.

— Dá pra me deixar respirar?

— Não.

Reviro os olhos, tiro o baseado da gaveta. Acendo, trago devagar.



— Isso é maconha?

— Não… relaxante natural.

Ele bate na minha mão.

— Idiota! Isso mata neurônios!

Piso com o coturno. Levanto, acerto o joelho entre as pernas dele. Ele cai com urro.

— Sabe quanto custa cada um desses? Mais do que você ganha como padre!

— Isso vai fazer mal ao nosso filho. Você vai parar.

— Sem chance.


Ele se levanta. Muda. Não é brusco. É quieto.

— O que você faz comigo?

— Por que preciso te procurar… e quando encontro… você já não é você?

Ele segura meus braços.

— Tá me machucando. Me solta.

— Tenho medo de você, Adessa.


Os olhos dele não estão embaçados. Estão fundos. Antigos. Tento encontrar Vincenzo ali.

— Vincenzo… olha pra mim. Fica comigo. Fica aqui.

Ele para. Inclina a cabeça levemente. Sorriso lento.

— Vincenzo?

Voz calma demais.

— Você ainda acha que é ele?

Meu estômago despenca. A imagem nunca esteve fora de foco. Eu é que me recusei a enxergar.


Ele se aproxima. Hálito seco. Mais velho.

— Ou devo chamar outro nome?

Dedos tocam meu queixo.

— Morgana…

— Valkyria…

— Ou prefere que eu use o nome que esconde até de si?

— Eu sou Adessa…

— Não sei de quem fala, Vincenzo.

Inclina a cabeça.

— Vincenzo? Não está disponível. Quer deixar recado?

Meu estômago despenca.

— Sei que está aí! Vincenzo! Reage!

Ga’al não é mais forte que você.

Riso baixo. Antigo.

— Não é mesmo. Mas a culpa… — aperta meus punhos — …deixa o seu Vincenzo maleável. Fácil conduzir. Dor sobe pelos braços.

— Ga’al… deixa ele. Faz o que quiser comigo. Mas solta. Por favor.


Olhos escurecem.

— Ele disse que te ama. Vai cuidar do filho que deveria ser meu.

Ar pesado.

— Que vá pro inferno encontrar Lúcifer. Merece. Você ainda não o conhece.

— NÃO! — grito. — VINCENZO! PENSA NO SEU DEUS! PENSA NO NOSSO FILHO!

Mãos me soltam. Corro pro elevador. Aperto botão. Uma. Duas. Três.

Atrás de mim:

— Adessa! É a voz dele. A dele.


Eu viro. Os olhos dele estão claros. Perdidos.

— O que houve? Por que está assim?


A porta do elevador abre.

— Ele tá aqui! Ga’al estava em você! Foge! — grito, segurando a porta com o corpo.


Ele se aproxima, sorrindo. O sorriso não alcança os olhos. Me puxa. A porta fecha.

Os braços dele me comprimem contra o peito até faltar ar.

— Em nome do teu Criador… reage — sussurro no ouvido dele. — Você tem luz, Vincenzo.

— A luz dele se apagou, Morgana — responde, frio.


Meu sangue congela.

— E a sua vai se apagar também. Se eu não posso ter meu filho… você também não terá.

— NUNCA! — bato a testa contra a dele. Estalo seco. Sangue escorre entre as sobrancelhas dele.


Ele vacila. Corro para a escada. Olho para trás. Vincenzo me encara. Agora é ele. Pavor puro.

— Amor, luta! — grito. — Me ajuda!

Ele estende a mão.

— Onde ele está?


“Amor.” Ele me chamou de amor.


— ADESSA! ONDE ELE ESTÁ?


Olho acima da cabeça dele. Fumaça cinza, densa, viva, pairando, esperando. Seguro as mãos dele.

— Fica comigo.


Por um segundo, ele me puxa de volta. Por um segundo, vence.

Então algo atravessa o corpo dele como sombra violenta. As mãos que me seguravam mudam. Não são dele.


Sou empurrada. Forte. Escada abaixo. Corpo bate nos degraus. Ombro, costas, cabeça. O ar some. Rolo até a parede.


Ouço a voz, já fora do corpo dele:

— Se não for meu… não será de ninguém.


Silêncio. Passos descendo dois degraus por vez.


Vincenzo cai de joelhos ao meu lado, me puxa pelos braços. Minha cabeça repousa no colo dele. Ele chora. Eu ergo a mão. Vermelha. Não é só meu sangue. É o do nosso filho.

— Eu vou salvar… — ele treme. — Eu vou salvar nosso filho.


Fecho os olhos.

— Não vai. Ele partiu.


O sangue escorre pelos degraus. O rosto de Vincenzo marcado de vermelho. Vazio.

— Minha luz se apagou — soluça.

— Me perdoa.


Encontro força para uma última lâmina:

— Nunca. Você não lutou.


Ele me sacode.

— Adessa! Fica comigo! Olha pra mim! Fica comigo, amor!


Mas o amor já não alcança. A escuridão se faz.



Doc e Sweet me sustentam na cerimônia. Simples. Rápida. Pequena demais para o tamanho da perda.

— Era só um feto — diriam. Mas ele estava vivo. Presente. Luz dentro da escuridão do meu corpo.


Meu pequeno Enzo… é um anjo agora.


A terra ainda fofa, úmida. Arrumo a coroa de violetas. Passo os dedos pela lápide. Leio baixo:

“Eu sempre te amei. Eu te amo e sempre vou te amar. Nesta e nas próximas vidas. Vou te encontrar. Espera por mim.”


A voz de Doc me chama ao longe. Aceno sem olhar. Preciso ficar sozinha.


— Por que ele não veio? — minha voz seca.

— Era filho dele também.

— Porque ele se sente culpado.


Fecho os olhos.

— Culpa não traz meu filho de volta.

— Vai precisar encontrar uma forma de perdoá-lo. A história de vocês não começa aqui.


Viro-me. O homem diante de mim é alto. Negro. Belo. Os olhos… não há nada humano neles.

— Quem é você?

— Desde sempre, Adessa.



Minha respiração falha.

— Não se perca novamente. Dê uma chance a ele. Não deixe que ele se perca de novo.

— Quem?

— Vocês dois.


Ele sorri. A luz ao redor dele parece abrir espaço.

— Seu nome?


Um raio de sol atravessa nuvens e toca o rosto dele.

— Miguel. Alguns me chamam de Arcanjo. — dá de ombros. — Mas pode me chamar de Miguel. Meu amigo.


Sinto algo que não sentia desde a queda na escada. Calor.

— Leva meu filho, Miguel.

Aponta para o céu.

— Ele já está com o Criador. Descansa.


Levo a mão ao peito. Por um segundo… acredito.


— Adessa, posso falar com você? — a voz que eu conheço. Vincenzo.

Deveria tentar. Miguel pediu. Mas quando olho para ele, só vejo fraqueza. O homem que não venceu.



Entro no carro de Doc. No retrovisor, Vincenzo fica menor. Parado. Imóvel.

Por que não correu atrás de mim? Por que não gritou? Por que não implorou?


Meus olhos secos. Não há mais lágrimas. Não há mais vida dentro de mim.



— Ele nunca vai largar a Igreja — diz Sweet, minutos antes do show no palco do California. — Não se iluda. Não é homem pra mulher complicada. Esquece ele. Pensa na grana.


Tem razão. Não olho para ela. Não quero sentir o que sinto ao tocar sua mão: inveja, desejo mal escondido.


Como nunca percebi? Como ela pode falar do meu filho como se fosse obstáculo?


EU PERDI MEU FILHO.


Mas eu sorrio. Porque o show precisa continuar. No palco, volto a ser “The Flashback Girl”. Fria. Ousada. Intocável. Por dentro? Vazia.






Comentários