CAPÍTULO 16 - MORGANA - VOLUME II
Chegamos ao castelo ao anoitecer.
Celeste nos recebe de braços abertos e olhos aflitos. Antoine narra o que restou do meu casamento como quem descreve uma tragédia distante. Eu apenas escuto.
No quarto, tiro o vestido que Ga’al me deu no dia em que dançamos sob a chuva.
— Ela mente… — murmuro, esfregando inutilmente a mancha de sangue no tecido branco dentro da banheira. — Isabella vai pagar.
— Cuidado. Palavras têm força.
Viro-me, furiosa.
— Não entras assim em meus aposentos!
Giovanni desvia o olhar ao perceber que estou nua, coberta apenas pelo vestido encharcado.
— Perdão. Estou preocupado contigo… e com o bebê.
Ele aponta, constrangido, para o sangue seco em minhas coxas.
— Nosso filho ainda vive?
— Não existe “nosso”. — Minha voz falha. — Ele é de Ga’al. Sempre será.
Respiro fundo.
— E vive. Mas eu… não sei se ainda vivo por dentro.
— Vais viver. — Ele se aproxima. — Estarei contigo.
— Afasta-te. — Dou um passo atrás. — Por tua causa perdi meu marido.
Uma contração me dobra ao meio. O líquido quente escorre.
Ele me segura antes que eu caia.
— Se não me deixares ajudar, vais perder o filho dele.
Fecho os olhos.
— Salva-o…
Antes de desmaiar, ouço sua promessa:
— Salvarei.
Giovanni cuidou de mim como Ga’al faria.
Ervas. Água morna. Velas acesas. Nenhum olhar indevido. Nenhuma lascívia.
Eu estava nua, frágil — e ele não me tocou como homem.
Isso me irrita mais do que deveria.
Ga’al me expulsou por nada.
E Giovanni… não me quer.
Ou finge não querer.
Penso em meu marido sozinho. A culpa me rasga. Obrigo-me a parar de desejar o que não posso ter.
Ele ri no corredor. Sempre ri. Para ele, cada dia é recomeço.
Para mim, contagem regressiva.
— De onde vêm esses pensamentos? — pergunta ele.
— De uma vida radiante e perfeita, obviamente.
— Não uses ironia como escudo. Tua vida começa agora.
— Que reconfortante. Meu marido não me quer. Que sorte a minha.
Deixo a bandeja sobre sua cama desalinhada.
Com quem dormiu ontem?
Abro as cortinas com violência. A luz invade o quarto.
Ele já está atrás de mim.
— Mais um susto desses e eu parirei aqui mesmo.
— Será um prazer trazer nosso filho à vida.
— Não é teu filho.
Ele toca meu rosto.
Eu perco o ar.
— Estás sem camisa.
— Eu durmo assim.
— Sem nada?
— Nada.
Santo Deus.
Afasto-me.
— Deverias ter pudor.
— E tu deverias admitir o que sentes. — Ele bloqueia a porta. — Há meses não toco mulher alguma.
Meu coração dispara.
— Não são essas covinhas que me convencem — murmuro, antes de perceber o que disse.
Ele sorri.
— Eu não disse nada.
Meu sangue gela.
— Tu ouves meus pensamentos?
— Do mesmo jeito que sentes quando tocas em algo… ou em alguém.
— Como sabes que carrego essa maldição?
— Não é maldição. É dom. Eu a ouvi quando tocaste em minha cama.
— Inferno! Agora tenho que vigiar até meus pensamentos perto de ti? Sai da minha frente, Giovanni. Quero sair desse quarto. Ele me…
— Atrai?
— Sufoca! Sai!
Ele ri. Devagar. Afasta-se da porta.
Eu a escancaro — e dou de cara com Isabella. Pálida. Quase translúcida.
— Estavas me espionando? Fala!
Empurro-a contra a parede. Meu antebraço em seu pescoço. Vejo medo. E algo pior: satisfação escondida na boca entreaberta.
— Vagabunda! Não bastou destruir meu casamento? Fica com teu amante idiota e mantém distância de mim, ou eu te mato!
— Eu não sou idiota… — Giovanni me puxa pela cintura. Isabella escorrega para o chão como fruta podre. — Nem amante dela. Não a desejo.
— Problema teu! Não meu! Me solta, verme!
— Vais permitir que ela te trate assim? — Isabella sibila do chão. — Sou eu quem deveria ser respeitada. Ela é tua criada!
Encaro Giovanni. Ele sequer a olha.
— Sou mesmo. Sou todo teu.
O calor sobe pelo meu rosto.
Maldito.
Corro pelo corredor da ala norte. Fugindo dele. De mim. Do que cresce.
— INFERNO! PARA DE LER O QUE PENSO E FICA COM ESSA PUTTANA SEM VALOR!
A gargalhada dele ecoa atrás de mim.
E, contra toda lógica, penso:
talvez eu seja feliz ao lado desse homem.
Stupida.
Os dias passam. Estranhamente calmos. Antoine e Celeste estão inseparáveis, e isso me tranquiliza mais do que deveria. Talvez eu tema não sobreviver ao parto. Talvez eu só queira saber que meu filho não ficará sozinho.
Afastei-me de Giovanni desde a madrugada em que vi Isabella sair do quarto dele como um rato fugindo da luz.
Ele nega.
Eu não acredito.
Ainda assim, quando troco seus lençóis, evito tocar demais… mas não resisto a aspirar o cheiro cítrico que ele deixa nos tecidos.
Eu amo seu cheiro.
Sua gargalhada.
Seus sorrisos.
O jeito delicado com que trata Antoine.
Eu o amo.
— Eu o amo… — deixo escapar, distraída.
— Ainda bem, meu anjo. Porque ficarás comprimida dentro dele até o fim do baile.
— Isso não fará mal ao bebê, Celeste?
Estou diante do espelho, presa ao vestido mais belo que já usei. Minha barriga já denuncia tudo.
— Estás mais bonita do que nunca, filha. Se não te sentires bem, saias.
— Não antes de dançar comigo, mamãe…
Giovanni beija o rosto dela. Eu prendo o ar.
Ele está radiante. Como o sol.
Maldição. Estou corando. Não fales comigo. Não.
Ele se aproxima. Eu não me mexo. O beijo dele é casto. O efeito, não.
Ele me ergue nos braços.
— Mocinha, estás luminosa.
Ele ouviu. Ele ouviu.
— Põe-me no chão, Giovanni. Estou grávida, não inválida.
Ele ignora.
— Hoje seria uma ótima noite para oficializar essa união, filho — diz Celeste, divertida.
— Que união? — protesto, ainda em seus braços. — Sou casada. Meu marido não morreu!
— Para mim, morreu — responde Celeste, ajeitando o coque. — Homem que bate em mulher não merece viver.
Olho para Giovanni.
— E tu? O que dizes?
— Concordo, mamãe.
Ele se inclina ao meu ouvido.
— Eu não bato em mulheres. Eu as ensino a me obedecer. Contigo será diferente. Prometo.
O calor sobe rápido demais. Eu beijo o pescoço dele antes de pensar.
— Solta-me ou arranco tua orelha agora mesmo.
Ele ri, baixo.
— Antes a orelha do que outra parte do meu corpo.
E eu odeio o quanto isso me faz sorrir.
Dancei a noite inteira com Giovanni.
Entre todas as damas da nobreza, foi a mim que ele escolheu. A mim que exibiu pelo salão como se eu pertencesse àquele mundo de seda e ouro.
A luz dos lustres cintilava acima de nós. As tochas ardiam nas paredes. O vinho corria nas taças de cristal. A prataria refletia nossos giros. Os vestidos farfalhavam como asas.
Eu rodopiava guiada por ele, sorrindo como uma adolescente em seu primeiro baile.
Nunca estive em um.
Seria isso a felicidade?
Giovanni não desviava os olhos de mim.
E eu… eu estava perdida.
Perdida e absolutamente apaixonada.
Antoine e Celeste deslizavam pelo salão ao som da orquestra. Os músicos, em trajes luxuosos, faziam seus instrumentos dourados brilharem como o próprio sol.
Giovanni é o meu sol.
Meu sol de verão na Toscana.
— Preciso respirar — digo, ofegante e embriagada de música. — Volto já.
— Espera. Vou contigo.
— Não.
Beijo seu rosto, impetuosa. Aproximo-me de seu ouvido.
— Dança com tua mãe. Logo irão dizer que somos um casal.
— E somos.
Ele diz com tanta convicção que quase me faz acreditar que o mundo inteiro já concordou.
Corro para a imensa varanda. Apoio-me na sacada de mármore e ergo os olhos ao céu. As estrelas parecem próximas o suficiente para tocar.
Agradeço por estar viva.
E então percebo que não estou sozinha.
Havia três presenças no jardim naquela noite.
Com duas delas eu já tivera contato.
A terceira ainda se ocultava.
Por pouco tempo.
Isabella espreitava atrás dos arbustos. Não me incomodava. Fora ela, afinal, quem me empurrara para os braços de Giovanni ao destruir meu casamento com Ga’al.
A segunda presença aproximou-se leve como uma gazela.
— Bela noite, não?
— Sim. Belíssima. — Não desvio os olhos do céu. — Que nunca termine.
— Vai terminar, meu bem. E é sobre isso que precisamos falar.
Um arrepio percorre minha nuca. Viro o rosto devagar.
O sorriso dele é errado. Cínico. Antigo.
— Eu te conheço?
— Tenho muitos nomes. Prefiro ser breve antes que teu príncipe retorne.
— Eu te conheço — repito, recuando. — Eu sinto.
— Ótimo. Então facilitarás meu trabalho. Tens uma escolha: um trato comigo… ou um mergulho na Escuridão.
— Do que estás falando?
Ele revira os olhos claros, impaciente.
— Humanos são exaustivos. Estou tentando te salvar. Abandona Giovanni e vem comigo. Estes tempos não são gentis com mulheres que possuem… teus dons.
— Não grites comigo. Não sei quem és.
— Sabes. Apenas esqueceste.
Ele inclina a cabeça, analisando-me.
— Dizes que amas o fogo?
— O que queres dizer com isso?
— Desiste dele. Giovanni não é o que parece. É falso. Desleal. Vai te abandonar no pior momento. Assim como fez comigo.
— Nunca! Ele é um bom homem! Tu não o conheces!
— Não. Ele jamais me convidaria.
Ele ri. Um som que não combina com nada vivo.
— Digamos que somos próximos… desde o princípio dos tempos.
— Não compreendo.
O ar parece mais pesado.
— Tempo esgotado, Morgana. Assina o papel… ou aceita as consequências.
— Que papel é esse, seu louco?!
Num gesto impossível, ele faz surgir um pergaminho entre os dedos longos e delicados. A outra mão desliza pelos cabelos lisos, impecáveis, como se estivesse diante de um espelho, não de mim.
— Como fizeste isso? De onde tu viestes?!
— Pergunta ao teu príncipe. Ele conhece o lugar.
Ele agita o pergaminho diante do meu rosto. Tira do bolso uma caneta-tinteiro com uma impaciência irritante.
— Assina e te livras do pior.
— Não! Sai daqui! Eu tenho medo! — recuo, o coração disparado. — Afasta-te do meu filho!
Ele inclina levemente a cabeça.
— O bebê… que pena.
— SUMA DAQUI, VERME! VÁ PARA O INFERNO!
Ele apenas sorri. Um sorriso que não alcança os olhos.
— Eu irei. Mas depois não digas que não tentei ser útil.
— GIOVANNI!
— Ciao, bella. Mande lembranças ao meu amigo… ou melhor, ao príncipe. Diga que estarei com ele no fim. Vou gargalhar por ter caído por ti, Morgana. Péssima escolha. Vocês nunca chegam vivos e unidos ao final do jogo. Ah… cuidado com a moça.
— Que jogo? Que moça?!
— Morgana! — a voz de Giovanni rompe o ar.
Ergo os braços, desesperada. Quando ele me alcança, eu me atiro contra seu peito.
— O que tens? Estás tremendo!
— Aquele homem… — aponto para o vazio. — Ele disse…
— Que homem, meu anjo? Não há ninguém ali.
O chão parece ceder sob meus pés.
— Ele estava aqui! Ele te conhece!
Giovanni toca minha testa. Sua expressão muda.
— Estás ardendo em febre.
— NÃO! — empurro-o com o corpo. — Eu preciso encontrá-lo!
Desço as escadas quase tropeçando.
— ELE DISSE QUE TE CONHECIA!
— Morgana, volta!
Ele me alcança e segura meus braços com firmeza. Seus olhos são ternos demais.
— Quem procuras, amor?
— Amor? — repito, perdida.
— Amor?! — A voz surge da escuridão.
Isabella.
O brilho da lua reflete no punhal antes que eu compreenda. A lâmina repousa contra a pele fina do pescoço de Giovanni.
— Tu a amas?!
Ela treme. Não de medo.
De ciúme.
— Tu a amas?!
Depois disso, tudo vira ruído.
Minhas mãos contra o corpo dela.
O empurrão.
O som seco da cabeça batendo contra a pedra.
Sangue.
Os olhos de Giovanni fixos nos meus.
— Foi um acidente, amor. Um acidente.
Eu tremo.
— Não… eu a matei. Eu matei Isabella.
Ele ergue o corpo sem vida e o lança sobre o ombro. Sua voz se torna metálica.
— Tu ficarás calada. A correnteza a levará. Dirão que bebeu demais. Que escorregou. Uma fatalidade.
Ele segura meu rosto com força.
— Olha para mim. Tu salvastes a minha vida.
Salvei.
Ou condenei?
Ele joga o corpo à relva próxima ao rio. A água começa a puxá-la, lenta, indiferente.
— Morgana… eu sempre te amei. Sempre te perdi. Não suportarei perder-te outra vez. Vamos nos casar. Criar nossos filhos. Viver como deve ser.
— Casar? Prometes?
Minha mente escolhe ignorar o sangue e se apegar ao baile. À música. À esperança.
— Prometo.
— Ela não merecia morrer…
— Não. Mas escolheu caminhos obscuros. Agora escuta-me. Confia em mim.
Eu descanso contra seu peito.
— Confio.
As palavras têm peso.
Tanto quanto o corpo de Isabella sendo arrastado pela correnteza sob a escuridão da noite.
Mas o rio leva apenas o cadáver.
Não leva os olhos que nos observam.
Alguém está ali.
Alguém que sabe.
Giovanni e eu nos casamos dias depois.
Cerimônia simples. Silenciosa demais.
Padre Pietro celebrou a união com voz segura. Celeste queria festa, nobreza, celebração pública. Mas aceitou.
— Melhor assim — disse o padre. — Não devemos afrontar o homem com quem Morgana fora casada. Em breve, celebraremos o herdeiro.
Celeste sorriu.
Antoine segurou minha mão.
— Tu estás bem, mamãe?
— Estou, filho.
Ele me observou por longos segundos.
— Não está, não.
— Filho…
Eu o puxo para perto, beijo o topo de sua cabeça e ajeito seus cabelos desalinhados.
— Estou bem. Só cansada. Essa barriga pesa, sabias? Estamos todos juntos… e isso me faz feliz.
Minto.
O medo tem nome, mas se recusa a se apresentar.
À noite, Isabella caminha pelos corredores. Não me olha. Não me vê. Procura por Giovanni. Sempre por ele.
E eu a observo como quem paga uma dívida invisível.
Giovanni aproxima-se por trás. Sua voz roça meu ouvido.
— De hoje não me escapas, esposa. Chega de me expulsar do teu quarto. Sei o que vês. Eu te ouço chorar.
Fecho os olhos.
— Vamos vencer isso juntos. Os mortos partiram. Deixa-me te fazer feliz.
— Eu já sou feliz.
Sorrio e lanço o buquê ao alto. As serviçais se atropelam. Celeste, surpreendentemente ágil, o segura antes das demais.
— Serás a próxima, Celeste!
— Duvido muito — ela murmura ao meu ouvido. — O homem que amei morreu há muito tempo.
Afasto-me com ela para um canto mais silencioso.
— O pai de Giovanni?
Ela esvazia a taça. Outra.
— Sim. Éramos jovens. Ele cuidava dos jardins. Sorria com os olhos… como Giovanni.
Há uma sombra antiga em sua voz.
— O que aconteceu?
— Meu pai descobriu. Separou-nos. Depois… mandou matá-lo. Enrico nunca soube que tinha um filho.
O nome paira entre nós.
— As almas que libertaste… tiveram o mesmo fim. Meu pai morreu antes de conhecer o neto.
Eu a abraço. Não sei se consolo ou se peço perdão por algo que nem entendo.
— Sinto muito.
Ela toca minha barriga.
— Cuidarás do meu neto. Tu e Giovanni.
— E se eu não puder?
Ela sorri triste.
— Não digas bobagens. Estás viva. Estás casada. Estás amada. Por que choras?
— Por nada.
Minto de novo.
— Posso roubar minha esposa, mamãe? — Giovanni surge.
— Certamente, meu filho amado.
Dessa vez, não reclamo quando ele me ergue nos braços. As escadas parecem mais longas. O salão aplaude.
— A partir de hoje seremos uma família feliz! — ele anuncia. — Minha esposa, nossos filhos, mamãe e eu!
Família feliz.
Repito isso na cabeça como se fosse uma oração.
No corredor, ele me beija com urgência contida.
— Nosso quarto — corrige, ao me levar para dentro. — Nosso, Duquesa de Bourbon.
— Duquesa? Eu?
— Esposa de um duque.
Ele me deita na cama como se me reivindicasse. Não há violência. Há posse. Há promessa.
Rimos quando seus dedos se embaraçam no espartilho. Dançamos antes que o tecido ceda. Minha camisola escorre aos pés.
O olhar dele me percorre como se eu fosse milagre.
— És perfeita.
Abro os olhos. Ele está sério agora.
— Te amo, Morgana. Sempre amei. Nunca esqueças.
— Na saúde e na doença?
— Na riqueza e na pobreza…
Sua boca encontra minha pele como se selasse voto antigo.
— Até o fim? — sussurro.
Ele me envolve com força suficiente para que eu sinta que existo.
— Até o fim.
Mas, no fundo da minha mente, a pergunta ecoa diferente.
Até qual fim?
Cerro os olhos quando ele me toma nos braços outra vez.
Não por pudor.
Porque, no canto do quarto, Isabella me observa.
Não inteira.
Não viva.
A pele escurecida, os olhos vazios, a boca torta.
Procuro me agarrar ao calor de Giovanni, às mãos que me percorrem como promessa. Tento abafar o sussurro que me corta a espinha.
“Aproveitas, puttana. É a única noite que terão juntos.”
Enterro o rosto no peito do homem que amo e finjo não ouvir.
Finjo não ver.
Na manhã seguinte, sentamo-nos à mesa farta. Pães, queijos, bolos, frutas. A luz invade o salão como se a noite não tivesse existido.
Celeste sorri demais.
— Dormiram bem?
Sinto o calor subir ao rosto antes que Giovanni responda.
— Não, mamãe. Não pregamos os olhos a noite toda. A noite toda.
Antoine pisca, confuso.
Rimos.
Pela última vez.
Levanto-me da cadeira e atravesso o salão com a camisola branca ainda sobre o corpo. Giovanni continua a comer como se precisasse se fortalecer para uma guerra invisível.
— Precisas te alimentar, esposa. Tiveste muito trabalho.
— Por que, tio? — pergunta Antoine.
Inclino-me e sussurro:
— Teu tio perdeu a caixola. Não ligues.
— É a felicidade — Celeste ri, já na terceira taça. — Por que essa sombra no teu rosto, filha?
— Minha mãe dizia que rir demais atrai desgraça.
— Bobagem! — Giovanni me ergue do chão com facilidade. — Tua mãe era triste. E triste atrai tristeza. Eu estou feliz. Nada vai estragar nossos dias.
Ele me gira pelo salão. Eu rio, tonta.
— Põe-me no chão ou mancharei tua blusa nova!
— Manchas? — ele provoca. — Já estou prestes a tirá-la…
O riso de Celeste ecoa alto.
É o último som feliz que guardo.
Depois, o grito.
Antoine corre para mim antes que eu entenda. Abraço-o com força quando homens invadem o salão como uma enxurrada de ódio.
Giovanni berra.
Os empregados são os primeiros a cair.
Toras de madeira.
Lâminas curtas.
Sangue.
O piso branco torna-se vermelho e escorregadio.
Solto Antoine.
Corro atrás de Giovanni.
Ele não é mais o homem que rodopiava comigo.
É fúria.
É guerra.
E eu sinto, com a mesma certeza com que ouvi Isabella na noite anterior:
Ela não mentiu.
— Ficas! — imploro, agarrando a camisa rasgada de Giovanni. — Eles não querem a ti. Querem a mim!
Ele recua um passo, os olhos incendiados.
— Cala a boca.
Percebendo o que pretendo fazer, ele me prende nos braços.
— Jamais menciones aquele incidente. Compreendeste?
— Que incidente, Duque de Bourbon?
A voz surge atrás de mim como uma lâmina fria.
Viro-me.
Ga’al.
Os homens abrem espaço para ele passar.
— O que fazes em minha casa?
— Uma visita.
Seu olhar percorre meu corpo com desprezo estudado.
A criatura ao seu lado murmura algo em seu ouvido. Ele sorri.
— Queria conhecer a nova duquesa. Dizem que é belíssima. Não mentiram.
Giovanni se coloca à minha frente.
— Sai da minha propriedade. Não és bem-vindo.
— Estúpido — Ga’al ri baixo. — Sou eu quem mandará prender-vos por assassinato.
O ar some dos meus pulmões.
Instintivamente, coloco-me diante de Giovanni.
— Não aguardaram sequer o reconhecimento do corpo antes de se unirem em pecado — ele inclina a cabeça. — Não te reconheço, esposa.
— Não sou tua esposa desde que me expulsaste. Até aquele dia, fui fiel.
— Papai…
Antoine corre e abraça a cintura de Ga’al.
Por um segundo, o rosto dele vacila.
— Filho… quanta falta me fizeste.
— Leva-me contigo, papai. Vamos viver juntos.
Eu sinto o chão fugir.
— Nunca! — puxo Antoine para mim. — Ele é meu filho! Não viverá ao lado de um homem tomado pela loucura!
Algo muda no olhar de Ga’al.
O demônio inclina-se outra vez.
Os olhos dele ardem.
— Tens razão. Deixei de ser um homem de paz por tua causa. Agora quero vingança.
— Não… — caio de joelhos.
O tapa explode em meu rosto.
Antes que eu reaja, Giovanni salta sobre ele.
Os dois rolam pelo chão.
Giovanni golpeia. Golpeia de novo.
Ga’al, no entanto, sorri.
— Homens! — ergue o braço. — Cumpram o dever.
Sou arrancada dali aos gritos.
Vejo Giovanni ser contido, espancado, ainda tentando alcançar-me.
Ga’al me lança sobre o ombro como um objeto.
Não toca minha barriga com cuidado.
Não toca nada com cuidado.
Pela janela, vejo Antoine chorando agarrado a Celeste.
Giovanni luta.
Grita meu nome.
A distância cresce.
Ga’al permanece em silêncio ao meu lado.
— Deixa Giovanni livre. Não machuques Antoine. Leva-me. Fui eu quem empurrou Isabella.
Ele me encara.
— Eu sei. Eu vi.
O mundo para.
— Então viste que Giovanni tentou me proteger!
Eu seguro sua mão, beijo-lhe o dorso.
— Por nosso filho, Ga’al…
Ele puxa a mão com nojo.
— Não tenho filhos contigo.
A criatura ri baixo.
— Ga’al jamais faria isso — cuspo, encarando o ser ao seu lado. — Tu o corrompeste.
Eu soco o peito dele.
— Acorda! Olha para mim! Antoine sofre!
— Antoine não pagará por teus pecados. Dou minha palavra.
A carruagem para.
A porta é aberta com violência.
Sou empurrada.
O chão pedregoso rasga minha pele.
Homens de túnicas negras me cercam.
Tochas iluminam seus rostos famintos.
— Ergue-te, bruxa.
Tento levantar.
O chute atinge minha barriga.
A dor me parte ao meio.
O gosto de ferro invade minha boca.
Caio de joelhos.
O sangue escorre para a terra.
Com o dedo trêmulo, desenho uma cruz.
Silenciosamente, imploro ao Crucificado.
Os homens recuam.
Gritos.
— Bruxa!
O fogo se aproxima do meu rosto.
E eu entendo:
Ga’al não veio buscar a esposa.
Veio entregar um sacrifício.
— A cruz está invertida!
A voz ecoa como sentença.
Cambaleio. Mãos sujas me empurram de um lado a outro. Caio de joelhos.
— Serva de Satã!
— Não… — o ar não entra nos meus pulmões.
Sou arrastada pelos braços. Vejo o sangue manchando minha camisola branca. A mesma que ele desatara com dedos trêmulos. A mesma que caiu aos meus pés naquela única noite.
Não é justo.
Nós teremos outra.
— Não sou bruxa… — sussurro.
Minhas costas queimam nos degraus enquanto me puxam. O salão é frio, escuro.
Sou lançada ao chão.
— Ga’al… me ajuda…
Lampiões se acendem. Vultos me cercam. Gritos ecoam ao longe.
— Onde estou?
— No inferno.
O chute me atinge as costas.
A dor explode.
E tudo apaga.
Caminho.
Chove fino.
A grama fria toca meus pés descalços. A floresta respira. A barra da minha camisola desliza entre raízes antigas.
Aqui não dói.
A chuva esconde minhas lágrimas.
— Giovanni?
— Sim.
A voz é calma. Antiga. Familiar.
— Tu o conheces?
— Conheço.
— Como?
— Não importa, filha. Não há tempo. Precisas voltar.
— Não quero. Lá é feio. Frio. Os homens são maus.
— Eu sei.
Ele sorri com os olhos.
Meu coração aperta.
— Por que choras?
— Porque não quero que sofras.
— Como conheces Giovanni? Ele é meu marido… nós nos casamos… eu… eu não me lembro…
— Eu o amo como tu o amas.
Ele toca meus cabelos molhados.
— Um pai deve amar seu filho.
O mundo silencia.
— Enrico? És o Enrico de Celeste?
Ele confirma com um leve aceno.
— Eu preciso contar a ela! Ela te espera! Giovanni precisa saber que estás vivo!
— Escuta-me.
— Não posso! Antoine… Celeste…
Ele me envolve num abraço que não pesa.
— Tempos difíceis virão. Sê forte. Antoine estará a salvo. Celeste cuidará dele.
Meu peito treme.
— Não sucumbas ao Mal. Ele te tentará.
— Quem?
— O Anjo Caído.
Um frio atravessa minha espinha.
— Acorda, Morgana.
— Não quero!
— Não posso salvar-te. Apenas acompanhar.
Ele segura minha mão.
— És um anjo?
— Não. Sou teu amigo. Descansa um pouco antes de voltar.
Ele me oferece uma maçã.
Eu a devoro como quem retorna à vida.
— Giovanni e eu estamos casados.
— Eu sei.
— Aqui é tão calmo…
— Estamos em casa. Mas teu lugar não é aqui.
Ele beija minha testa.
— Seja forte. Giovanni te encontrará.
— Vai?
— Sim.
— Quando?
— Em breve.
A floresta começa a desaparecer.
A chuva cessa.
A dor retorna como lembrança distante.
E eu acordo.
— Acorda, vagabunda!
— Enrico!?
— Outro homem? És uma puttana!
— Deixa-me te olhar, Ga’al… — peço, ainda cega pela escuridão.
Os dedos dele tremem nos meus cabelos antes de desatar o pano. Há medo ali. Amargura. Quase culpa.
Quando finalmente o encaro, o coração dele dispara como se eu fosse o monstro da história.
— Onde estamos?
— Numa cela.
Pisco. O ar pesa. O cheiro me corta.
E então eu entendo.
— Eu já vi esse lugar… nos teus pensamentos. No dia do guisado. Lembras? Tu pensaste nisso. Já estiveste aqui antes? — minha voz falha. — Tu planejavas me trancar aqui? Quando eu ainda era tua esposa? Fiel a ti? Por quê? Que mal eu te fiz?
Ele recua, arrastando-se pelo chão sujo, encostando-se à parede como um réu.
Não sustenta meu olhar.
E tudo se encaixa.
— Por que, Ga’al? Eu não te fazia feliz? Eu tentei. Eu juro que tentei. — ergo os pulsos presos. — Solta-me. Está doendo.
— Não posso.
Os olhos dele se enchem d’água.
— És prisioneira da Igreja. Por que desenhaste a cruz, Morgana? Eu não queria aquilo aqui.
— Tu mentes. Vieste antes.
— Vim. Num impulso… quis te punir. Mas desisti. Só que desenhaste a cruz invertida e agora…
— Eu não via o que desenhava!
— Estavas fazendo um feitiço!
— Uma oração ao teu Deus!
Ele cobre o rosto e chora.
— Eu não queria…
Meu peito se aperta.
Mesmo presa, ainda sinto pena dele.
Ele se aproxima e, vencido, solta minhas mãos.
Eu enxugo seu rosto.
Ele enxuga o meu.
Choramos como dois condenados que ainda fingem escolha.
Então eu vejo.
— As sombras voltaram. Resiste, Ga’al. Tira-me daqui. Salva nosso filho.
Ele sorri.
Não é o sorriso dele.
— Não posso.
A voz sai estranha. Fria.
— Ele está chegando.
— Quem?
A porta se abre.
Um homem enorme ocupa o vão.
Grande demais. Pesado demais.
Os olhos queimam com algo que não é humano.
— Não me deixes aqui, Ga’al!
— Sinto muito.
Um breve silêncio.
— Ga’al está dormindo.
A porta se fecha.
O que acontece depois não precisa de palavras bonitas.
Fico jogada no chão da cela.
Corpo rasgado.
Rosto ardendo.
Alma em pedaços.
Por segundos — apenas segundos — eu fujo.
Volto para nosso quarto.
Para os braços quentes de Giovanni.
Ali eu respiro.
— Desde quando tu me amas?
— Desde sempre.
Eu rio e o beijo.
— Mentiroso. Tu me viste na praça, vendendo maçãs.
— Eu te procuro há séculos. Te reencontrei ali. E o que dormia acordou. Eu caí por tua casa, Morgana. E não me arrependo.
— De onde caíste, marido? — acaricio seus cabelos, beijo seu pescoço. — Do céu?
— Não. Mas não sou mau. Mantém os olhos abertos. Ele pode te procurar. Pode mentir.
— Ele quem?
— O homem que me odeia por ter caído.
— Quem?
Ele me cala com um beijo longo.
E eu deixo.
Porque amar também é escolher esquecer.
Volto.
Estou suja. Sangrando. Sozinha.
Uma voz sussurra.
— Podes evitar o que ainda virá. Basta assinar o papel.
— Quem está aqui? Não consigo abrir os olhos… Estou morta?
— Ainda não. — a voz quase lamenta. — O que fizeram contigo… Estás destruída. Abra os olhos.
Um sopro toca meu rosto.
Meu corpo treme.
— Eu te conheço… Estavas na festa.
— Eu tentei te ajudar e tu negaste. Não precisarias estar sangrando assim.
O queixo delicado aponta para entre minhas pernas.
Sinto o sangue quente escorrer.
Não preciso olhar.
— Tira-me daqui antes que ele volte. Salva a vida do meu filho.
Ele agacha diante de mim.
O terno preto impecável contrasta com o chão imundo.
— Assina o papel e terás isso e muito mais. És poderosa, Morgana. Por que te deixas esmagar por vermes?
O papel está em branco.
— Como entraste? Eles trancam a porta.
Ele sorri.
— Eu não preciso de portas. Esqueceste quem eu sou?
A mão dele quase toca meu cabelo sujo.
— Tu queres o mal de Giovanni.
O sorriso cresce.
— Quero que a verdade aconteça.
— Disseste que ririas no fim.
— E estou rindo por dentro.
Ele se inclina.
— Assina antes que eu não possa mais te tirar daqui. Eles estão voltando.
— Por que eu?
Os olhos dele brilham.
— Porque tens potencial. Porque és rara. Porque odeio desperdício.
— Ga’al vai me tirar daqui.
O rosto dele muda.
Irritação pura.
— Ga’al e o demônio são um só. Acorda. Ele escolheu. Eles são a mesma coisa.
— Salva meu filho…
— Ele está morto.
— Não.
Minha mão aperta a barriga ensanguentada.
— Ele ainda está em mim.
Silêncio.
Então ele se levanta.
— Beba isto antes que te levem. Não me obrigues a assistir mais uma colaboradora virar cinzas.
Uma pequena garrafa cai ao meu lado.
— Giovanni não vale teu esforço.
Meu coração dispara.
— Ele está vivo? Diz que está!
Uma gargalhada baixa.
— Digamos que ainda não sofreu o suficiente.
Ele desaparece.
A porta abre.
O monstro volta.
O peso.
O cheiro.
O corpo que já não reage.
Eu saio.
— Fica comigo — sussurro no quarto iluminado por velas.
Giovanni segura meu rosto.
— Eu nunca te deixei.
— Eles querem nos separar.
— Não podem.
— Prometes?
— Prometo.
Volto.
O silêncio é pior.
Abro os olhos devagar. O gosto é ferro e sujeira.
Arrasto-me.
Ratos fogem.
Com o que resta da camisola, limpo o pequeno corpo entre minhas pernas.
Pequeno demais.
Quieto demais.
Eu sorrio.
— Eu o salvei, Giovanni. Eu o salvei.
Abraço-o contra o peito.
Ele não chora.
Correntes me puxam pelo corredor. O cheiro de excremento sobe pelas paredes. Mãos saem das celas tentando tocar meu filho.
— Malditos.
A luz do dia me cega.
Homens de túnicas vermelhas formam um semicírculo. Entre eles, um que ainda parece humano.
— Podes lavar meu filho? Ele está sujo.
O homem cobre o rosto.
Por quê?
— Entrega-o ao pai dele. O Duque de Bourbon. Tu o conheces?
Ele apenas chora.
Risos ecoam atrás de mim.
Eu sigo os dedos apontando.
E vejo.
— Giovanni!
Ele está acorrentado.
Magro.
Quebrado.
Ainda lindo.
Eu sorrio e toco seu rosto.
— Nosso filho nasceu.
Ele cai de joelhos.
— Perdão.
— Ele não quer se alimentar. Ajuda-me.
— Morgana…
— Levanta!
Sou arrancada dele.
— Libertem Giovanni! Ele precisa cuidar do nosso filho!
— Teu filho está morto.
Ga’al está ao meu lado.
Os olhos vermelhos, mas agora molhados.
— Deixa que eu cuide dele. Ele não sofre mais.
Eu olho para o pequeno corpo.
Tão leve.
Tão frio.
— Prometes enterrá-lo em solo sagrado?
— Prometo.
Entrego.
Ga’al sai.
Um trovão explode lá fora.
Corro até Giovanni.
— Tenho medo.
— Não tenhas. Eu vou te libertar.
Ele assume a culpa.
Grita que foi ele.
Eu grito que não.
Eles o espancam.
Eu quebro a voz tentando salvá-lo.
— Sou bruxa! Eu fiz tudo!
— Ela mente! — Ga’al retorna, desesperado. — Eu retiro as acusações!
O bispo se ergue.
— Tarde demais. Encontramos prova. Uma cruz invertida. Que sejam queimados.
— Ela não enxergava! — Ga’al ainda tenta.
Inútil.
Sou arrastada.
— Cuida de Antoine — eu começo.
— Cuidarei. Não deixarei que sofras na fogueira.
Promessas.
Sempre promessas.
De volta à cela, eu a vejo.
Isabella.
Ao lado do corpo inconsciente de Giovanni.
Ela sorri.
Ela gargalha.
Ela cumpriu o que prometeu.
Eu devia ter deixado Giovanni beber o veneno.
Devia ter sido rápida.
Misericordiosa.
Agora é tarde.
Abro os olhos.
Tudo é luz demais.
Céu branco.
Som distorcido.
A multidão se move como um único corpo doente.
Estou presa ao tronco.
As cordas cortam meus pulsos.
Minha cabeça pesa.
Algo quente escorre pelas têmporas.
Giovanni está ao meu lado.
Amarrado ao seu próprio poste.
Palha aos pés.
— É sangue — ele diz, baixo. — Eles te machucaram.
O vento levanta meus cabelos sujos e joga contra meu rosto.
Eu o encaro através dos fios.
Ele ainda é o homem que me olhou na praça.
— Tu me trouxeste a luz — sussurro. — Antes de ti, eu só existia.
Ele fecha os olhos por um segundo, como quem guarda aquilo.
— Eu vou te reencontrar.
A multidão começa a gritar.
“Queimem a bruxa!”
Vozes que já me pediram maçãs.
Vozes que já me chamaram de bela.
Agora pedem fogo.
— Tenho medo — confesso. A palavra sai pequena. — Tenho medo do fogo.
Tochas se aproximam.
Giovanni é o primeiro a ser tocado.
As chamas sobem lentas pela palha molhada, como se saboreassem o momento.
— Olha para mim! — ele ordena.
Eu não quero.
— Vai doer! Faz parar! Somos inocentes!
A fumaça invade meus pulmões.
Meus olhos ardem.
Procuro Antoine na multidão.
Não está.
Graças a Deus.
— Mata-nos de uma vez! — eu grito para o céu.
Um trovão responde.
Seco.
Próximo demais.
O fogo alcança os pés de Giovanni.
Sobe pelos tornozelos.
Ele não grita.
Ele me olha.
Só me olha.
A cabeça dele pende para frente.
Silêncio estranho.
Não há reação.
O fogo continua subindo.
Então eu vejo.
Sangue.
Uma linha vermelha descendo da testa dele.
Ele não morreu queimado.
Ele morreu antes.
O estampido ecoa na minha memória.
Entre o barulho da multidão, uma voz rasga o ar:
— Perdão, esposa! Eu jamais desejei isso! Te amo!
Ga’al.
Ele surge entre a fumaça, segurando o mosquete.
Os olhos dele não são vermelhos agora.
São humanos.
Desesperados.
A arma se ergue.
Por um segundo, tudo fica lento.
A multidão congela.
O fogo dança ao redor.
Eu não fecho os olhos.
O disparo corta o mundo ao meio.
Impacto no peito.
Nenhuma dor imediata.
Só um vazio profundo.
O céu fica maior.
O barulho desaparece.
O fogo já não queima.
Eu caio antes de sentir o chão.
Escuridão.
Silêncio.
DIAS ATUAIS
— Adessa…
A voz chega distante.
Como se atravessasse água.
— O que houve, Aiden?
Estou deitada.
Não no chão de terra.
Não presa a um tronco.
No tapete da sala.
A música ainda toca, baixa, esquecida no fundo.
— Você dormiu? — ele pergunta, inclinando-se sobre mim. — A gente estava dançando e…
Meu peito dispara.
O cheiro.
Não é fumaça de fogueira.
É lenha queimando.
A lareira.
As chamas dançam atrás dele.
Muito vivas.
Muito próximas.
Eu me agarro ao pescoço de Aiden com força demais.
— Apaga o fogo da lareira, por favor!
Minha voz sai quebrada.
— Agora!
Ele me encara, assustado.
Eu ainda estou tremendo.
Ainda sinto o calor subindo pelos pés.
Mas não há multidão.
Não há tronco.
Não há cordas.
Só a sala.
Só o fogo contido.
Só o presente.
E, mesmo assim,
meu corpo não sabe a diferença.
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