CAPÍTULO 6 - DE VOLTA À VIDA
— Adessa. Acorda.
— Eu preciso saber.
— Do quê?
— O que aconteceu comigo?
— Algo de ruim.
— Muito vago. Fala logo.
— Vc se lembra. Nem tudo foi apagado.
— Apagado? — Retiro a chave da ignição, intrigada. Ele rosna:
— Me dá a chave, Adessa. Não quero ficar aqui por muito tempo.
— Não me diga… O que acha que vai acontecer?
— Mais do que imagina, porra! Me dá a chave!
— Eu fui violentada? Por quem!? — Pergunto, repulsa misturada à raiva.
— Por quem vc invocou na festa do seu pai, no cativeiro de Giulia, nas noites em sua cama…
— Verme!
— A verdade dói.
— O MEU CORPO DÓI, CACETE! VC ME CULPA POR ISSO?! — Ele recosta a cabeça no volante, calado. Eu, desnorteada, imploro: — Explica por que acha que sou culpada? Por ter ferimentos no corpo e no rosto? Por ter sido estuprada e espancada por Ga’al? Acha que gostei de tudo isso? Que desejo mais!? Quando vou poder voltar ao trabalho?!
— Vc ainda quer voltar a trabalhar com prostituição? Dançar nua, se entregar àqueles caras nojentos? Continuar com filmes em que se mostra sem o menor respeito por si mesma? Sério?!
Silêncio. Meu peito dói, mas não apenas por dentro. As palavras dele me atingem com a força de socos invisíveis. Antes, eu teria rido de mim mesma, da vida que eu levava para ganhar dinheiro. Agora, ouvindo aquilo saindo da boca dele, sinto-me menor do que qualquer outra pessoa. Um lixo humano. Imunda.
Ele percebe o efeito das palavras e pede desculpas. Eu não digo nada. Apenas encaro a janela do carona, refletindo minha própria imagem. Tento segurar o choro, meus olhos fixos no azul do céu, tão intenso quanto os dele.
— Vc sabe ser cruel quando quer. — Minha voz sai baixa, magoada. — Nunca mais fale assim comigo, por favor. Sou um ser humano. Mereço respeito. Nunca matei, nunca roubei, nunca machuquei ninguém. O que fiz… foi pela grana.
— Perdão. — Ele fala quase em um sussurro, mas a força na voz denuncia o quanto detesta me ver sofrendo nas mãos daqueles homens doentios.
— Uma vez puta, pra sempre puta. Preciso me sustentar. E pelo que sei, vc não vai fazer isso por mim.
— Por vc, faria qualquer coisa. — Seus olhos melancólicos me buscam, me seguram, me desarmam. Me sinto estranha, uma estranha que quase lhe deu um filho… e ainda assim, ele quer me proteger.
— Não é não. — Ele insiste, firme. — Melhor que pense assim.
— Vc tá me escondendo algo! — A raiva sobe. Dou um soco em seu braço, o que o faz rir de um jeito que me derrete. O jeito que seu Pomo-de-Adão sobe e desce, as covinhas… aaah, as covinhas! — Fala comigo, Vincenzo!
— Adessa, cala a boca. Por favor. — Eu obedeço, mas sinto meu mundo se perder. Eu era segura de mim mesma… e agora? Um turbilhão de medos e confusões.
Agarro minha mochila, os olhos grudados na estrada. Vejo um outdoor com uma modelo, deitada num sofá, blusa e calcinha, segurando uma caneca de café. Penso em ser modelo… mas meu rosto?
— Vc é linda! — ouço sua voz, e quase me engasgo com o calor que sobe ao rosto.
— Grrr… não adianta pedir pra vc parar de me ouvir, né!? — Reclamo, choramingando. — Eu não sou linda. Estou um monstro… um monstro criado por outro monstro.
Aperto o botão do vidro elétrico, que desce lentamente. Sinto o vento bater no meu rosto, libertador.
Não consigo mais me conter. Jogo metade do tronco para fora do carro, cabelos batendo na cara. Ele grita, puxa a barra do meu vestido, preocupado.
— Não vou pular, seu bobo! — Grito, rindo, ajoelhada, braços erguidos, sentindo o vento em cada poro. — Só quero respirar! Estive presa… tanto tempo… preciso sentir que ainda estou viva! Melhor: nunca fui normal! E NEM QUERO SER!
O olhar dele me atravessa. Sei que percebeu minhas coxas, o que se esconde sob a saia. Mas ele não solta. Precaução ou desejo? Medo ou cuidado? Ou vontade? Aposto que ouviu, seu idiota.
Por que ele ainda não larga a barra do meu vestido se sabe que não vou pular? Precaução ou desejo? Medo, cuidado ou vontade de me tocar?
APOSTO QUE OUVIU, SEU IDIOTA!
— Imbecil! — Grita ele de dentro do carro em movimento. — Volta! Vc pode cair! É PRE-CAU-ÇÃO! ENTENDEU!?
— SIIIM! NÃO SOU SURDAAAH! — Volto pro banco, satisfeita. Sei que ele olhou minha bunda. Isso é tão infantil, mas… me dá uma vontade imensa de viver. Ele está aqui, comigo, e vamos pra algum lugar onde, talvez, ele fique comigo.
— Enzo!? — Sussurro, olhando para ele que faz uma careta ao ouvir o apelido que dei. Era o nome do nosso filho. Será que ele se esqueceu? Como eu me lembrei!? Por que ainda sinto que devo me lembrar de algo?
— Uh-huh… — Responde, mordiscando o canto da boca. Linguagem não-verbal clara: ansiedade, desejo intenso. Tento ignorar, respirando fundo, sentindo o vento bater no meu rosto. É… isso me faz sentir viva de novo.
— Existe algum antídoto contra a porcaria do seu dom telepático ou vou ter que parar de pensar o tempo todo!? — Pergunto, fazendo um coque desajeitado no topo da cabeça.
— Liga o rádio, Adessa! Música alta! — Ele aponta sem olhar para mim, corando levemente. — Esse é o antídoto.
Rindo, bato palminhas feito uma foca feliz.
— Eu já sabia, idiota! — digo, ainda vibrando. — Eu sei que apanhei muito, mas não afetou a memória. Vc se lembra do nome que eu daria ao nosso… digo… meu filho?
— Não… — admite, num lamento. — Enzo. Seria o nosso Enzo.
— Nosso? — pergunto, assustada.
— Sim. Nosso. — Um silêncio quase fúnebre ameaça, mas eu não consigo conter a euforia: — AMO ESSA MÚSICA!
— Eu também. — Ele boquiaberto, eu sorrio.
— “Truly Madly Deeply”, Savage Garden!? — pergunto, arregalando os olhos.
— Sim. E gosto de outras coisas também, Adessa. Antes de ser padre, sou um homem.
— Um homem que não trepa. — Digo sem pensar, cobrindo a boca com a mão.
— Mas disse. Tudo bem. Eu não “trepo”, como você diz… mas…
— Fala! — Insisto, abaixando o volume do rádio. — Preciso ouvir algo que me dê esperança.
— Já tive uma noiva antes de me tornar padre.
— Trepou com ela!?
— NÃO! EU NÃO TREPEI!!! — Ele desvia de um carro na contramão, abalado. Bato a cabeça na janela, sem me importar. — Eu fiz amor com ela.
— Arrrgh! Que merda!
— O que foi? — Seu sorriso irônico me irrita. — Por que faz isso? Não sabe que eu…?
— O quê? — Ele olha pra mim com ardor. — Fala, Adessa. Vc o quê!?
— Olha pra frente, garoto!!! — Sorrio tentando apagar a imagem dele com outra mulher. — PUTA QUE PARIU!
Ele ergue uma sobrancelha, em silêncio, e eu continuo:
— Por que não se casou com ela!?
— Ela me traiu com outro. Ponto final. — Dando de ombros, ele volta a me encarar, especificamente para minha boca que umedeço com a língua. — O que diria seu especialista em “Linguagem Não Verbal” sobre isso?
Silêncio.
— O quê??? — Finjo não saber que ele se refere ao meu hábito de lamber os lábios, muito usado em filmes e em meu trabalho. — Não entendi.
— Vc lambeu os lábios. Isso quer dizer o que, especificamente?
— Que que que... — PORRA! MEU ROSTO ESTÁ QUEIMANDO! ESTOU CORANDO DIANTE DELE! — Que estou com sede! A gente pode parar em algum lugar pra tomar uma água?
— A gente toma em casa. — Manobrando o carro, ele estaciona diante de uma casa rústica revestida por pedras, o telhado colonial, a varanda em madeira e uma esteira num dos cantos da entrada. — Chegamos. — Anuncia ele meio que aguardando minha reação. — Gostou?
— Não quer água!? — Diz ele, animado com meu deslumbre. Pulo de um lado para o outro, rodopiando ao redor da sala. — “Terra chamando Adessa”!
— Uma lareira! Que máximo! — Agachada diante dela, toco no pó que restara das últimas achas de lenha. Meu peito dói. Caio para trás, apoiando-me em meus braços. Ele se ajoelha e ajuda a me sentar, perguntando-me se estou bem. — Sim. — Respondo, angustiada, olhando o pó em minhas mãos. — Não consigo me lembrar do que não me esqueci. Tá aqui dentro. — Levo a mão ao peito e choro. — As cinzas. Por que dói quando me lembro das cinzas? — Abraçada a ele, continuo a chorar e a me perguntar. — Por que dói tanto!? — Ouço-o engolir em seco. Sinto suas mãos em meus cabelos, seu beijo no topo de minha cabeça. — Faz parar. Faz parar. Tá doendo muito. Por que eu sinto que vivi isso em algum momento em minha vida? Eu não consigo me lembrar de nada e não consigo esquecer a dor.
FAZ PARAR!
— Tô ficando louca. — Olho em seus olhos e imploro. — Faz parar.
— Sim. Eu faço. Senta aqui e relaxa. — Vincenzo me observa atentamente.
Deitada sobre o sofá, relaxo meu corpo, embora a mente esteja trabalhando arduamente a fim de perfurar um muro de concreto que não me permite voltar no Tempo. Descobriria o motivo da dor relacionada ao fogo após alguns anos. — Inspira e expira profundamente e ouça, atentamente, a minha voz. — Entrego-me aos seus comandos sem jamais suspeitar de suas intenções. Afinal, ele é o melhor homem que já conhecera nessa vida. Seus olhos me fixam incisivamente e seu indicador toca em um ponto específico em minha testa quando ele, modulando a voz, pergunta. — Adessa, vc me ouve?
— Sim. — Respondo de olhos fechados. — Ouço algumas palavras que parecem pertencer a algum dialeto porque não as reconheço como qualquer outra que já tenha ouvido. Deveria estar em transe, mas arrisco. — Isso é gaélico?
— Vc precisa colaborar, Adessa. — Odeio quando ele me repreende. — Inspire e expire profundamente, relaxando todas as partes de seu corpo.
— Tá. — Estranhamente, relaxo quase que instantaneamente ao ouvir sua voz cantarolando em um dialeto tão antigo quanto minhas poucas lembranças. Sinto-me flutuar sobre o sofá, mas não tenho medo. Confio nele... tipo... completamente. Estou naquele estado entre a vigília e o sono quando murmuro. — Eu tô...
— Vou contar de dez a um e, quando vc acordar, não terá nenhuma lembrança de sua vida passada... comigo. Vc entende o que eu digo, Adessa?
— Sim.
— Vc vai se esquecer de tudo o que vivemos no século XVII. Das mortes, das cinzas de meu corpo e de Antoine. Morgana, vc me ouve?
— Sì! Ti sento bene. — Bocejo ao afirmar que o ouço perfeitamente. Antes mesmo de ouvir o número dez e apagar, eu o escuto ordenar que devo me esquecer de tudo o que vivera com Ga'al e os sentimentos que me mantêm presa a ele.
— Vc só vai se lembrar de todo o amor que eu te dei e do quanto foi feliz comigo. Só vai sentir a felicidade sem se lembrar do quanto sofreu e do porquê de ter sofrido tanto no final de nossas vidas no século XVII. Vc está me ouvindo, Morgana?
— Sì.
— Esqueça Ragnar ou Ga'al e da vida que tiveram juntos antes da Escuridão tomar conta de tudo. Lembre-se do nosso amor e de tudo o que eu significo para vc. De tudo o que vc significa para mim. Entendeu o que digo, Adessa? Seremos somente vc e eu...
— Sim.
— Ragnar nunca existiu. Esqueça a morte que tivera enquanto Morgana.
Acordo faminta.
Os lençóis ainda cheiram à lavanda. A janela aberta deixa o mar respirar dentro do quarto. Piscina. Churrasqueira. Estufa. Dinheiro. Paz aparente.
— Putz! Era disso que eu precisava! — Espreguiço-me, sorrindo para o teto. — Buongiorno, Vincenzo! Come va?
Ele já está na cozinha quando apareço, recostada no batente. Mesa posta. Café. Pães. Bolos. E ele. De moletom. Sem camisa.
Sem. Camisa.
Meu coração tropeça dentro do peito.
Ele puxa a cadeira para mim. Nossos corpos quase se encostam. Impulsiva, pouso a mão em seu peito. O coração dele bate acelerado. Igual ao meu.
Sorrio.
— Isso é fofo.
— Vc é tão boba. — Ele ri. — Boba e…
— Completa! — Belisco seu braço. — Boba e…?
— E chata! Boba e chata! Come o pão, tá fresquinho.
— Não se atreva a tirar o miolo! Eu amo pão com miolo!
Ele me observa.
— Sério?
— Ué!? Vc não sabe!?
— Deveria?
— Claro que sim! Vc parece saber tudo de mim.
Ele fica em silêncio.
E eu começo a falar demais. Quando fico nervosa, eu falo demais.
— Meus hábitos. Meu café com adoçante. Minhas roupas. Coisas que eu nem lembrava que fazia. A propósito… quem me vestiu ontem?
Silêncio.
— Fui eu, Adessa. — Ele rosna meu nome. — Algum problema?
— Não teria… se vc não tivesse que me despir antes, né? — Tomo um gole de café. — Vc me viu nua?
Os olhos dele escurecem.
— Lembro. E não quero falar disso. Pode ser!?
Algo muda.
— Claro. Tá zangado comigo?
— Não estou. — Ele passa a mão pelos cabelos. — Não estou.
Minto melhor do que ele.
Aproximo minha cadeira.
— Quer me perguntar mais alguma coisa?
— Nem um pouco. — Inclino-me na direção dele. — Só vou ficar satisfeita quando vc me disser como soube de tantos detalhes sobre o que faço depois do show. Sobre os meus vídeos. Sobre o que eu fazia antes de ser sequestrada.
Ele recua.
Eu não.
— Vc voltou a me assistir na boate, Vincenzo? Viu meus pornôs? Foi isso? Pra ver a mulher suja que eu sou? Pra depois jogar na minha cara que eu mereci ser estuprada por um demônio!?
— Para, Adessa!
— Vc me trouxe pra cá pra me lembrar que sou uma puta!? Que nunca vou ser suficiente pra um padre puro!?
— PARA!
— NÃO QUERO!
Levanto da cadeira com violência. Ela cai para trás.
— Por que vc se mete na minha vida!? Por que sumiu quando nosso filho morreu!? Por que eu fui parar nas mãos daquele verme!? Quem fez o pacto!? Eu!? Meu pai!? POR QUE EU SINTO QUE TE CONHEÇO HÁ SÉCULOS!?
Ele está de pé agora.
Imóvel.
Isso me enfurece ainda mais.
— Por que vc não move um músculo do rosto!? PORRA! Eu sei que vc viu meus vídeos! Eu sei! Só não me lembro como! Desde que vc entrou na minha vida, eu não sei mais quem eu sou!
Silêncio.
Ele se aproxima.
Os olhos marejados.
— Quer que eu saia dela? — A voz falha. — Quer que eu saia da sua vida?
Não respondo.
Saio.
Corro.
A chuva fina começa a cair. A grama molha meus pés. Árvores enfileiradas. O cheiro da terra molhada. E uma memória que não sei se é minha.
Homens urrando. Peles. Guerra. Fogo.
De onde vem isso!?
— Adessa! — Ele grita atrás de mim. — Volta! Vamos conversar!
— Não toca em mim! Quero sumir!
— Eu não quero isso! Quero que vc viva!
Vivo?
Eu paro.
A chuva escorre pelo meu rosto misturada às lágrimas.
Viro-me para ele.
E algo encaixa.
Algo que estava solto desde ontem.
— Me deixa em paz! Não vou enlouquecer!
Dramatizo.
O som das ondas contra as rochas, a pontada no peito, a areia fofa cedendo sob meus pés enquanto ele grita meu nome atrás de mim. Tenho ódio dele. Ódio por me fazer sentir pequena. Ódio de mim por concordar.
— Adessa!
Ele me alcança e puxa meu braço quando tento avançar mar adentro, como se o horizonte pudesse me engolir e resolver tudo.
— Sai da água. Por favor. Volta. Vamos conversar.
— Não quero!
Ele me arrasta de volta. A chuva açoita minhas costas. O vento ruge. Minha camisola gruda no corpo.
— Não toca em mim! Quero ir embora! Quero sumir!
Minhas lágrimas se misturam à chuva. Tremo. Empurro-o.
— Quero morrer e não te ver nunca mais!
— Eu não quero isso! — ele grita contra o vento. — Quero que viva. Que seja feliz!
— Não posso! Você estragou tudo!
— Deixa eu consertar! Volta pra casa! Você vai adoecer!
A camisola colada denuncia cada curva. Ele me percorre com os olhos e demora demais nos meus seios. Mordisca o canto da boca. Se entrega.
E eu vejo.
— EU SABIA! — gargalho, curvando o corpo. — PUTA QUE PARIU!
Pulo, erguendo os braços.
— Sou uma ótima atriz! Acha mesmo que eu ia me matar nessa praia? Nem onda tem!
Rio, apontando para ele, vibrando como se tivesse vencido um campeonato idiota.
— Filha da puta…
— Por San Juan Diego! Um palavrão? Que feio!
Não percebo quando ele avança e me joga sobre o ombro.
— Para! Não tem graça! — minto.
Estou adorando.
— Me tira daqui ou vai se arrepender!
— Que medo — ele devolve, atravessando a chuva de volta à casa. — Pode bater, menininha mimada.
Eu soco suas costas. Músculos firmes. Conheço aquela anatomia de livros. Ao vivo é infinitamente melhor.
— Para de me alisar, Adessa. É melhor parar.
— Por quê? Vai me bater?
Entramos na sala, molhando tudo.
Ele evita meus olhos. Eu sigo atrás, elétrica.
— Para! Fala comigo!
Ele revira um armário.
— Olha pra mim!
Num impulso, tiro a camisola pela cabeça. Fico nua.
— Para de remexer isso e olha pra mim… por favor. Eu preciso de você.
— Tô vendo!
Ele aponta com o queixo.
— Adessa, olha o que você fez. Tá sangrando. Rompeu algum ponto.
— Hein?
Olho para baixo.
Não é excitação.
É sangue.
Escorre pelas minhas coxas. Mancha o tecido branco que uso para me cobrir. Sangue de dentro. Ainda ferido.
Encaro meu reflexo.
Não sou a mulher desejada. Sou um corpo remendado. Um erro aberto. Um monstro por dentro e por fora.
— Eu vou cuidar de você, meu anjo.
Um beijo casto no rosto.
Ele me acomoda na banheira com cuidado, como se eu fosse porcelana trincada. Velas acesas pelo banheiro. Água morna. Toalha sobre minha cabeça.
— Você é boba, Adessa. Boba, burra… e linda.
Sopro a água que escorre pelo meu rosto. Ele ri.
— Como consegue?
— O quê?
— Ser tantas numa só. Me deixar tonto como criança.
EU?
— De tanto tentar, você consegue.
Repito mentalmente.
“De tanto tentar, você consegue.”
Sério?
Enrubesço.
Baixo a cabeça, guardando a euforia enquanto ele limpa meus ferimentos.
É estranho. Fui a mulher desejada por tantos homens e, diante do homem que amo, me sinto infantil.
Ele usa ervas da estufa para me tratar. Mistura unguentos sobre minha pele antes remendada. Faz-me beber poções que restauram o que estava ferido por dentro.
Agora estou inteira. Sem dor física. Sem dor aparente.
Estamos mais próximos do que nunca. Não o incomodo com minha obsessão silenciosa, mas basta olhar seus olhos azuis para algo latejar dentro de mim. Algo que nem a hipnose diante da lareira conseguiu apagar.
A mesma lareira que agora nos aquece enquanto falamos de músicas, livros e vinhos.
— Já é a terceira taça — ele alerta, servindo mais do vinho caro que me deixa deliciosamente tonta. — Vai acabar fazendo besteira.
Esvazio a quarta.
— Quer ir pra cama?
— Sério? Tipo… cama? Eu sozinha ou…
— Adessa. — A voz rouca não ajuda em nada. — Não posso.
Ergo as sobrancelhas, teatral.
— Eles não deixam. Entendi. Fazer o quê?
Estendo a taça.
— Só mais um pouco. E liga o som, porque estou prestes a pensar bobagens.
— Quero ouvir.
— NÃO!
Levanto rindo, cambaleando até o aparelho de som antigo.
— Para de rir de mim! Eu não sou uma criança!
Ele se aproxima.
— Deixa eu ouvir seus pensamentos.
Droga.
Preciso esquecer que já fui puta.
Preciso esquecer que já fui puta.
— Você não é puta. Nunca foi. Era uma profissional do sexo. Eu fui grosseiro no carro. E… eu vi seus filmes. Fui uma vez ao seu show no “California”.
— Tá brincando?
Tento sintonizar o rádio antes que eu mesma me atire nele.
— EU AMO ESSA MÚSICA!
— A mesma que tocou quando viemos pra cá.
— “Truly, Madly, Deeply”! O universo tá falando com a gente, não tá vendo?
— Você está muito bêbada. Vou te levar pra cama.
— Pode me chamar de “Dess”.
Ele franze a testa.
— Desde quando?
— Minha mãe me chamava assim… desde os quinze.
Faço contas que não fecham. Ele me olha daquele jeito. Empurro-o.
— Para de me olhar assim! Não consigo pensar com essa música e você desse jeito!
Respiro fundo.
— Faz sete anos que ninguém me chama de “Dess”.
Ele se aproxima devagar, como se soubesse o efeito que causa.
— Então você tem… vinte e dois?
— Tá me zoando ou perguntando sério?
— Preciso dançar.
— Você?
Ele revira os olhos.
— Antes de ser padre, eu sou homem. Já dancei. E ainda danço. Espiava você dançar na cozinha. No quarto. Na praia.
— Espiava?
— Você dança muito bem.
Meu coração dispara.
Eu estou enlouquecendo ou ele está flertando?
— Acho que vou cair se soltar o sofá.
— Deixa eu te guiar.
— Deixo.
Nossos corpos se encostam. A mão dele na minha cintura. A outra entre minhas escápulas. Envolvo seu pescoço.
Se ele me soltar, eu desabo.
A música preenche a sala. Pela primeira vez, eu me perco no ritmo. É ele quem conduz.
Nunca dancei essa música antes. Nem nos palcos. Só aqui. Só com ele.
O cheiro de maçã verde me envolve. Minha respiração falha.
Se eu estiver sonhando, não quero acordar.
— O gato comeu sua língua, Dess? — ele sussurra, encostando a ponta do nariz na minha nuca arrepiada.
Pode soar ridículo. Eu sei.
Mas o que sinto agora é medo.
Medo de falar.
Medo de fazer qualquer coisa que estrague isso.
Não consigo abrir a boca. Não quero desgrudar o rosto da camisa branca que cobre seus ombros. Meu queixo encaixa ali como se sempre tivesse pertencido.
Eu sabia. Eu sabia que você era para mim.
— Dess… fala comigo.
— N-não consigo.
Aperto seu pescoço com mais força. As lágrimas escapam sem que eu peça. Suas mãos percorrem minhas costas devagar, de cima a baixo, como se confirmassem que sou real.
Tudo o que imaginei desde o primeiro dia é verdade.
Ele me quer.
Ele gosta de mim.
— Não ri… — minha voz falha.
— Eu gosto de você. Te amo.
O mundo para.
Eu me afasto bruscamente, como se tivesse levado um choque. Ele me olha, confuso.
— Eu disse algo errado?
— Você nunca disse nada tão perfeito.
Passo as mãos pelo cabelo, prendo num coque desajeitado. Preciso fazer alguma coisa com as mãos antes que desmoronem.
Encaro seus olhos. Estou tremendo. Não de frio. De medo.
Se ele disser não, eu quebro.
— Me beija.














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