CAPITULO 5 - RAGNAR E VALKYRIA
Sou um corpo sem alma.
Um corpo funcional. Rentável. Bem treinado para render dinheiro para um futuro que provavelmente nunca existirá para mim. Não do jeito que tenho vivido.
A pureza que senti quando meu filho crescia dentro de mim morreu com ele. Escorreu pelo ralo da devassidão onde me afoguei depois de enterrar o único homem que poderia ter me curado dessa doença que me rói todos os dias. Um pouco mais. Sempre um pouco mais.
Saio com homens que, em outra vida, me causariam náusea. Quase sempre bêbada, quase sempre ausente, finjo ser uma versão borrada da mulher que já fui. Nada restou da amiga de Giulia. Da “tia” que fazia previsões bobas atrás do balcão da cafeteria, arrancando risadas e confiança da minha menina.
Às vezes agradeço por ela não estar aqui para me ver assim. Oca. Seca. Me entregando a qualquer estranho em qualquer festa, esperando que o mesmo homem que me destruiu atravesse a porta e me salve.
Qual é o prazer?
Qual é o tesão em se ajoelhar entre minhas pernas enquanto urino no seu rosto?
Queria perguntar ao cliente que acabou de sair, mas o gosto de vômito sobe antes das palavras. Lembro do homem que pagou uma pequena fortuna para que eu o sufocasse. Minhas mãos apertando seu pescoço. Usei cada grama da raiva que guardo de Vincenzo. Por pouco não o matei.
Degenerados.
Eu me tornei a rainha deles.
— Essa eu não esperava.
O convite de aniversário do meu pai quase escapa da minha mão. Não o vejo há séculos. O papel ainda pesa como naquele dia em que ele me expulsou de casa aos dezesseis, dizendo que eu já era grande o suficiente para pagar minhas próprias contas. Minha mãe assistiu em silêncio. Saí com uma mochila e nada além disso.
As últimas palavras dele foram uma profecia:
“Vai ser puta. Isso dá dinheiro.”
— Acertou, papai.
Zombo enquanto corro pela orla. Antes de atravessar a avenida, o cheiro de maçã verde me atinge. Um motociclista quase me atropela. Eu xingo, querendo que ele pare, querendo ser vista.
O capacete se vira na minha direção.
Meu coração dispara.
Um sopro de esperança toca meu rosto.
E morre quando ele acelera e desaparece entre os carros.
Pensei que fosse ele.
Era tão parecido.
Por que não era você, Vincenzo?
Volta. Me arranca dessa vida.
Mas não era ele.
Ele não voltou.
E eu continuei andando com a estranha sensação de estar sempre voltando para trás.
Entre os convidados da festa de aniversário do meu pai — que, de forma quase cínica, lembrara que eu existia — eu o vi.
O homem que roubou minha infância.
Eu tinha seis anos. Seis.
Ele levou minutos para destruir o que eu levaria décadas tentando reconstruir.
Meu pai circulava exibindo riqueza. O mesmo homem que um dia me expulsara de casa alegando não ter como me sustentar.
O mundo é mesmo uma piada mal contada.
— Que apodreça. — murmuro, encarando o rosto que eu reconheceria em qualquer multidão.
Por um segundo, imagino seu corpo se partindo. Não como fantasia infantil de vingança, mas como necessidade visceral de equilíbrio.
Então a voz.
‘Quer que a Justiça seja feita?’
Ga’al não surge diante de mim. Ele se insinua. Como sempre.
Não é luz. Não é sombra. É intenção.
— Sim.
Eu não pensei. Eu consenti.
Meses depois, o amigo do meu pai foi encontrado morto. Sozinho. No quarto escuro onde acumulava seus segredos. A polícia divulgou pouco. Lesões graves na coluna. A cabeça separada do corpo. Arquivos de vídeos ilícitos espalhados pelo computador ainda ligado.
No rosto, a expressão congelada de alguém que nunca acreditou que o mal pudesse voltar para cobrar a conta.
Eu não chorei.
Mas algo em mim foi marcado naquele dia.
Ga’al não age de graça. Ele cobra.
Doc percebe meu silêncio antes que eu diga qualquer coisa.
— Não faz isso. Você não precisa descer ao nível dela.
— Eu sei.
Mas eu já tinha descido. Só não tinha percebido a profundidade.
No banco do bar, no California, uso a camisa que Vincenzo esqueceu no meu apartamento. Meu corpo está ali. Minha alma, não.
Cerveja. Fumaça. Um riso amargo.
— Eu me perdi, Doc. Eu não me reconheço mais. Preciso voltar a estudar. Preciso sair disso.
Ele me olha como quem tenta segurar alguém na beira de um precipício.
— Você disse que tinha encontrado um anjo, Adessa. No dia do enterro do seu filho. Lembra?
Levo a mão ao ventre.
Miguel.
Prometi seguir outro caminho. E aqui estou, negociando com demônios.
— Por que não pede ajuda a ele? — Doc insiste. — Você não era assim. Eu só quero o seu bem.
Eu sei.
Mas saber não é ter força.
Choro sobre o balcão. Rejeito a cerveja. Sweet observa, suada, com os olhos atentos de quem aprendeu a sobreviver antes de confiar.
— Vou tirar um tempo — digo. — Preciso me limpar.
Ela sorri, calculando. Não a culpo. Cada um sobrevive como pode.
— O padre voltou? — pergunta ela.
O nome de Vincenzo me atravessa.
Eu amei um homem que vivia entre céu e culpa.
E agora eu vivo entre inferno e escolha.
— Não responda, meu anjo. — Doc corta, antes que eu abra a boca. — Ela não tem nada a ver com isso.
Sweet devolve a garrafa vazia com força no balcão. Um arroto. Um sorriso atravessado.
— Você não gosta de mim, né, Doc? Relaxa. Eu sei. Adessa sempre foi sua preferida. — Ele não responde. Só a encara. — Eu gosto é de dinheiro. Amigo não paga conta.
— Sweet, pega leve. — peço, cansada. — Ele gosta de você. Só… de outro jeito.
Doc sorri para mim. É um sorriso que segura minhas partes quebradas no lugar.
— Volto em um mês. Junta uma grana pras meninas.
Ela me abraça rápido.
— Manda um beijo pro seu padrezinho gostoso.
Ela ri.
Eu não.
Quem sabe um dia ele me enxergue de novo.
Abro a porta do apartamento.
Silêncio.
A mesinha do hall ainda parece esperar o som das chaves dele caindo descuidadas. O sofá ainda guarda o cheiro de maçã verde.
Deito encolhida. Aperto a camisa contra o rosto.
Choro baixo. Como se alguém ainda pudesse ouvir.
— Preciso voltar a estudar. — digo debaixo da água morna.
Repito como mantra. Como promessa que não sei se consigo cumprir.
Enrolo-me na toalha. A mesma que ele usava. Caminho pelo quarto. A cama parece grande demais agora. Vazia demais.
— Quem sou eu? — sussurro para o espelho embaçado. — No que eu me transformei?
A mulher que me encara parece mais velha do que eu sou.
Eu tinha luz.
Tinha futuro.
Tinha um filho.
— Vincenzo… você consegue me ouvir?
O silêncio responde.
Recolho fios do pente. Volto ao banheiro. Jogo-os no lixo. Levanto o rosto.
E congelo.
No vapor que ainda cobre o espelho, há letras desenhadas com precisão demais para serem acaso.
“Sentiu a minha falta?”
Meu estômago afunda.
Não há janela aberta.
Não há som.
Só o peso da frase.
O vapor começa a escorrer lentamente… mas as palavras permanecem visíveis por mais tempo do que deveriam.
Não é susto.
É anúncio.
Ele nunca foi embora.
— Por que faz isso comigo? Solta minhas mãos. Eu não vou fugir.
— Não vai mesmo.
A voz dele não vem de fora. Vem de dentro. Vibra no meu crânio como ferrugem raspando metal.
Perdi a noção do tempo. Dias? Horas? A janela está coberta. O quarto respira mofo. O ar não circula. Os lençóis estão manchados de sangue seco, suor, sujeira. Meu corpo dói de um jeito que não sei mais localizar.
— Vou usar você até não sobrar nada.
Ele não precisa repetir. Eu sinto.
— Você não pode mais ter filhos.
A frase me atravessa mais fundo do que qualquer agressão.
— Mentira… você não sabe disso…
As mãos dele fecham no meu pescoço. O teto gira. Penso em Vincenzo. No mesmo teto, noutra vida. Penso no meu filho.
— Me mata.
A palavra escapa antes que eu pense.
Ele ri.
O ar volta de repente, cruel. Eu engasgo, puxando oxigênio como se fosse ouro.
O quarto fede. Ele fede. Eu fedo. Fico ali, presa, atada, proibida até de ir ao banheiro. A degradação não é o que ele faz. É o que eu me torno aqui dentro.
Começo a me odiar por continuar respirando.
Doc não vai sentir minha falta. Eu avisei que me afastaria. Fui organizada até no desaparecimento.
— Por que tanto ódio? — pergunto quando ele recua para o canto escuro do quarto. — O que eu te fiz?
Ele demora.
— Tudo, Morgana. Tudo.
— Não sou tua Morgana.
O colchão está úmido. Meu corpo inteiro lateja. Quero água. Só água.
— Me dá um pouco… por favor.
Ele se aproxima. A humilhação vem antes da piedade. Sempre.
Quando finalmente sinto água tocar meus lábios, quase choro. Bebo como se estivesse voltando à vida. Talvez esteja.
Ele solta minhas mãos.
Não consigo mover os braços direito. Olho para a porta aberta. Não corro. Não conseguiria.
— Por que me mantém viva? — minha voz falha. — Por que não termina logo?
Ele se inclina. Eu reúno o resto de força que tenho.
— Se ainda quer esse corpo respirando… me deixa descansar.
Algo muda no rosto dele. Um ruído na respiração. Um conflito.
Ele recua.
— Eu já te amei, Valkyria…
A palavra ecoa.
Valkyria.
Mesmo com a visão turva, vejo algo diferente nele. Não é só ódio. É memória.
— Quem é Valkyria? — sussurro.
O quarto fica ainda mais silencioso.
E pela primeira vez, eu não vejo apenas um monstro.
Vejo um homem quebrado por algo que atravessou séculos.
RAGNAR E VALKYRIA
Século X
Escandinávia
Nasci livre.
Fui livre até meus quatorze anos.
Minha mãe era a alma da aldeia. Parteira. Curandeira. Mulher que falava com ervas e com o vento. Foi ela quem me ensinou a ouvir a terra antes de pisar nela.
Eu corria pelas relvas verdes, respirava o frio cortante dos penhascos e acreditava que o mundo era vasto demais para caber maldade.
Era.
Até a lua cheia daquela noite.
Os machados vieram antes dos gritos. Depois vieram os gritos que nunca mais saíram da minha cabeça.
Homens tombaram. Mulheres foram arrastadas. Crianças choravam com um som que não parecia humano.
Eu as escondi nos arbustos próximos à floresta. Deveria ter fugido. Minha mãe gritou para que eu fugisse.
Eu não consegui.
Assisti à morte dela entre galhos e sombras. Não houve magia que salvasse seu corpo.
Quando voltei, não foi por coragem.
Foi por troca.
Em troca da vida das crianças órfãs, entreguei a minha.
Ragnar Lodbrok.
Filho de Odin, diziam.
Eu só via um homem que cheirava a ferro e sangue.
Na noite do casamento, não houve celebração. Houve posse.
Eu aprendi a não chorar. Chorar era fraqueza. Fraqueza era castigo.
Quando ele dormia, roncando pesado, eu escapava da cabana e corria como a menina que ainda existia em mim.
No topo do penhasco, o mar gelado batia contra as rochas como um tambor fúnebre.
“Pule”, sussurrava o vento.
Eu quase obedecia.
As pequenas luzes da noite dançavam ao meu redor. Minha mente criava fadas, gnomos, qualquer coisa que me impedisse de dar o último passo.
“Você ainda será livre.”
Eu não acreditava.
Mas pelas crianças… eu voltava.
— Aonde foi? — Ragnar pergunta quando retorno à cabana.
Não olho nos olhos dele. Mantenho a fogueira acesa. Sirvo o ensopado em silêncio.
— Já é tarde. Você dorme demais.
Ele mastiga com descuido. Há algo brutal até na forma como segura o pão.
Eu observo de longe.
Ele poderia ser bonito. Há uma beleza selvagem em seus traços. Mas beleza não compensa violência.
— Quer mais? — pergunto.
Ele bebe o vinho num único gole.
Depois se levanta.
O ar da cabana muda.
— Quero você. Depois, como mais.
O medo sobe pela minha espinha.
Não há fuga.
Mas dentro de mim, algo começa a endurecer. Não é amor. Não é submissão.
É resistência.
Cada noite ao lado dele não me destrói apenas.
Me transforma.
Esquecer que fugir piora tudo foi meu erro.
Ragnar não tolera resistência.
Ele rasga a lã do meu vestido como quem rasga um pano velho. Sou empurrada contra a palha. O peso dele me imobiliza. Viro o rosto para não encarar seus olhos.
Não quero ver prazer onde só existe dor.
Meu corpo ainda não aprendeu a suportá-lo. Arde. Rasga por dentro. Engulo o choro porque chorar só piora.
— Olhe para mim.
Permaneço imóvel.
O golpe vem rápido. Meu rosto queima.
Eu obedeço.
Obedeço ao homem que cortou o pescoço da minha mãe como se colhesse trigo. Ainda vejo o olhar dela antes de cair. Não era medo. Era despedida.
Juro que um dia ele vai sangrar pelas minhas mãos.
Por enquanto, sou silêncio.
— No que está pensando? — ele rosna.
Você terá meu corpo, monstro. Minha alma jamais.
— Em nada — respondo, juntando os pratos do chão. — Vou buscar lenha.
— Não demore. Amanhã parto cedo. Quero você de novo antes disso.
A alegria por saber que ele irá embora por alguns dias supera o nojo que sinto.
Antes de sair, ele me atinge outra vez. Um lembrete.
— Para não esquecer a quem pertence.
Eu não pertenço.
Eu sobrevivo.
Quando Ragnar parte com seus homens barulhentos, o ar da aldeia muda.
Brinco com as crianças. As mulheres me olham com mistura de temor e desprezo. Meus cabelos claros demais sempre foram sinal. Minha mãe dizia que eu falaria com mortos. Que escolheria guerreiros para atravessar o Outro Mundo. Que me casaria com um homem de luz.
Ela errou sobre o homem.
Diante da minha árvore favorita, peço que ela me leve antes que Ragnar retorne. Meu corpo não suportará outra noite.
Subo no tronco. Como uma maçã. Conto as estrelas. O céu dança em cores que ainda não têm nome.
— Um dia darão nome a vocês.
A voz vem de baixo.
Olho com cautela. Um cavalo de pelos brilhantes. Um homem que observa o céu como se conversasse com ele.
Mordo a maçã. O som me denuncia.
— Tem alguém aí?
Jogo o resto da fruta. Ele ri.
— Isso não foi elegante, senhorita.
— Como sabe que sou mulher? Estou escondida!
— Pela ousadia. E pela risada.
Sinto algo estranho no peito. Um frio bom. Não conheço essa sensação.
Ele salta do cavalo e olha para cima.
— Vai ficar aí até escurecer? Esses caminhos são perigosos.
— Aqui é mais perigoso para você — respondo, embora não consiga me mover.
— Desça. Prometo não morder.
— Não posso.
Não é medo. É encantamento.
— Tenho comida — ele diz. — Algo doce. Chocolate.
— Chocolate? É de comer?
Inclino-me demais. Escorrego.
Ele me segura antes que eu toque o chão.
Seus braços são firmes, mas não brutais.
Seus olhos não carregam fome.
— Você cheira a maçã — murmuro, atordoada. — É magia?
Ele sorri.
E pela primeira vez desde a lua cheia da destruição, não sinto medo ao olhar para um homem.
Ele me segura antes que eu toque o chão.
Seus braços são firmes. Não esmagam. Sustentam.
Por um instante, ficamos assim. Eu presa no ar. Ele olhando para mim como se estivesse confirmando algo que já sabia.
Não é surpresa no olhar dele.
É reconhecimento.
— Eu te encontrei — ele diz baixo demais para que o vento leve.
— Encontrou o quê? — pergunto, ainda atordoada.
Ele toca meu rosto com cuidado, como se estivesse verificando se sou real.
— Você.
O jeito como ele diz não parece de um homem que acabou de conhecer uma menina numa árvore. Parece de alguém que cruzou mares para chegar ali.
— Já nos vimos antes? — sussurro.
O sorriso dele não é leve agora. É triste.
— Muitas vezes.
Meu coração acelera, mas não por medo. É outra coisa. Um chamado antigo que não sei nomear.
— Você está prometida a ele — continua, sem tirar os olhos dos meus. — Eu sei.
O mundo parece encolher.
— Então vá embora — respondo, firme. — Antes que ele volte.
— Eu sempre volto — ele diz. — Em qualquer tempo. Em qualquer nome.
Há algo errado nisso. Não é normal. Não é simples.
— Quem é você? — pergunto.
— Francesco — responde. — Mas já fui outros.
O vento muda.
Ele não é anjo. Não é salvador. Há sombra nele também. Uma determinação que beira o imprudente.
— Eu falhei com você antes — ele acrescenta, quase para si mesmo. — Não falharei de novo.
Falhou quando?
Por que meu peito dói ao ouvir isso?
Ele sabe quem eu sou.
Eu não sei quem fui.
E em algum lugar, muito além daquela aldeia, uma força antiga se move ao perceber que nos reencontramos.
— Chocolate!? O que é isso!? É de comer!?
Ao inclinar-me para espiar o que ele trazia no farnel, meu pé escorrega dos troncos úmidos. O mundo gira rápido demais. Antes que eu toque o chão, seus braços me seguram.
Fico suspensa por um instante, presa ao seu colo.
Ele ri baixo. O riso vibra no peito dele… e em mim.
— Como você consegue cheirar a maçã? — pergunto, confusa. — É magia?
— Não. — Ele ainda ri. — É banho… e um pouco de perfume. Conhece perfume? Você cheira a lavanda. Sabia?
Só então percebo meus braços enlaçados ao pescoço dele. Afasto-me depressa, ruborizada.
Diante dele, sinto-me torta. Feia. Um olho inchado. Manchas roxas espalhadas pela pele clara. Imagino o que ele deve estar pensando.
— Penso que você é a criatura mais bela que já vi em minha vida.
Meu coração falha.
— És uma fada ou um ser humano de verdade?
Recuo, assustada.
— Como consegue ler o que penso? És um mago?
— Não.
— Um curandeiro?
— Não! — gargalha, jogando a cabeça para trás.
Gosto da maneira como ele ri. O som não é pesado. Não é cruel. Quando volta a me olhar, o sorriso é aberto, limpo.
— Sou apenas um homem comum… viajando pelo mundo.
— O que procura?
Ele fica sério por um segundo.
— Uma mulher que me foi muito especial…
Dou um passo à frente.
— Ela morreu?
— Não. Está viva, pela graça de Deus.
Os olhos dele brilham ao falar dela. Um brilho que me irrita.
— Era sua esposa?
— Sim. E sempre será. Vidas e vidas se passam… e eu continuo a me casar com ela e a perdê-la para a morte.
O vento parece atravessar a clareira quando ele diz isso.
— Isso é triste… — murmuro. — Que tipo de Deus permite que duas pessoas que se amam se separem tantas vezes?
Ele não hesita.
— O mesmo Deus que permitiu que sua mãezinha morresse nas mãos daquele homem cruel.
O mundo desaparece.
O cheiro da madeira queimada. O grito preso na garganta. O sangue.
Recuo, horrorizada.
— Não se aproxime! Você não poderia saber disso! És algo demoníaco!
Apanho uma pedra.
— Afaste-se ou eu te mato!
Ele ergue as mãos, mas não recua.
— E vai perder a chance de provar o bolo de chocolate?
Quase rio. Quase.
— Posso te matar… e depois comer o bolo sentada sobre seu corpo morto.
Ele sorri.
Borboletas no estômago. Irritantes. Traiçoeiras.
— Não faça isso novamente!
— Isso o quê?
— Sorrir desse jeito!
Ele ri outra vez. E o riso me desmonta.
Meu coração dispara. Não é medo de Ragnar. É outra coisa. Um calor estranho. Esperança. Alegria. Apoio-me no tronco da árvore.
Não posso sucumbir ao Mal assim.
— Não sou o Mal — ele responde, enquanto atiro a pedra.
Ele desvia com agilidade. Há tristeza nos olhos dele agora.
— Tenho um bom coração. Por que tem medo de mim? Não vou te fazer mal. Prometo.
Ele se aproxima devagar. Estende a mão. O pedaço de bolo exala um aroma que nunca senti.
— Você seria a última pessoa que eu machucaria… neste ou em outro mundo. Come. Vai. Mangia che te fa bene.
— Que língua esquisita… — digo, mas sorrio. — Gosto dela. De onde você veio?
— De um lugar distante.
— Aqui é perigoso. Os homens da minha aldeia…
— Temo pela sua vida… se não provar o chocolate.
Rimos juntos.
E, pela primeira vez em anos, sinto-me leve.
Livre.
Mordo o bolo.
Fecho os olhos.
Ele se desfaz na língua como promessa.
— É delicioso… Lá de onde você vem, há muito disso? Parece coisa dos deuses.
— Coma mais.
— Não posso! Vou tirar de você quando partir…
Um aperto no peito.
— Aonde vai? Parte hoje?
— Não. Eu não vou partir.
Ele me encara. Os olhos azuis me prendem.
— Já encontrei o que procurava.
Engulo em seco.
— E o que procurava?
— Minha esposa. Minha amada companheira.
O ar fica pesado.
— Onde?
Por que sinto raiva de uma mulher que nem conheço?
— Talvez eu a conheça…
— Certamente.
Ele se recosta no tronco. Sento-me ao lado dele. Estranhamente segura.
— Preciso de sua mão — ele diz, estendendo a dele. — Em meu país, beijo a mão de uma dama antes de dizer meu nome.
Entrego-lhe a mão.
Os lábios dele tocam minha pele.
— Francesco. Francesco Rossi. E você, bela jovem?
— Valkyria.
— Seu nome é lindo. Tão lindo quanto você, Valkyria.
Meu nome, na voz dele, soa diferente. Suave. Nunca fora dito assim.
Ragnar sempre gritava meu nome. Como quem chama um animal.
O tempo se dissolve.
Falamos de seu povo. De minha mãe. Do que ela me ensinou.
Deitados na relva, olhando o céu em movimento, ele brinca:
— Então estou diante de uma poderosa guerreira e feiticeira?
— Quem me dera… Se fosse, já teria matado Ragnar.
O nome cai entre nós.
Ele se vira devagar.
— Quem é Ragnar?
Meu peito aperta.
Se eu disser, ele vai embora.
— Por que pensa tanto, meu anjo? — murmura ele. — Nada é para sempre.
— E o seu amor por sua esposa?
Um silêncio.
— Para sempre.
Há algo diferente no olhar dele agora. Não é leveza.
É certeza.
Ergo-me de súbito.
— Preciso ir.
Ele segura meu braço.
— Ainda não. Quem é Ragnar?
Respiro fundo.
— Meu marido.
O azul dos olhos dele não se apaga.
Mas algo, bem no fundo, se fecha.
As flores continuam dançando ao vento, alheias à prisão que acabo de confessar.
— Você o ama?
A pergunta me atravessa.
— Nunca! Eu o odeio! Tenho nojo! Asco!
O ar falta. Ele me segura quando meu corpo começa a tremer.
— Fique calma… — sussurra, envolvendo-me nos braços.
Ninguém jamais me perguntara sobre meu casamento. Ninguém quis saber.
É a ele que eu confesso.
— Prefiro morrer a ser tocada por ele outra vez! Não quero voltar! Não quero!
Desabo em seu ombro.
— Ele é um demônio, Francesco… Ele matou minha mãezinha diante de mim. Eu me escondi para salvar as crianças… mas vi nos olhos dele. Ele sabia que eu estava ali. Sabia que eu vi.
Minha voz quebra.
— Aquele porco sabia.
Francesco segura meu rosto.
— Valkyria… — os lábios dele quase tocam os meus. — Precisamos curar suas feridas.
— Você precisa ir embora! Ele vai te matar! Eu sinto!
Ele me encara como se a morte fosse detalhe.
— Que eu morra em teus braços, amor.
Eu me afasto.
— Amor? E a tua esposa?
Ele toca meu rosto com a ponta dos dedos.
— Está aqui. Diante de mim. Ela sempre esquece quem eu sou… até que eu a beije novamente. Tem sido assim por séculos.
O chão parece inclinar sob meus pés.
— Vá embora. Ragnar é cruel. Não quero te ver morrer…
Não termino.
Os lábios dele tocam os meus.
Suaves. Firmes. Calmos.
O mundo desaparece.
Quando ele se afasta, seus olhos me estudam.
— Você nunca foi beijada antes.
— Nunca. — Minha voz mal existe. — Ragnar usa meu corpo… mas nunca tocou minha alma.
As fadas cantam ao redor. Ou talvez seja meu sangue.
Ele me observa em silêncio.
— O que foi? — sussurro. — Sou uma vagabunda que beija um forasteiro?
A expressão dele se endurece.
— Não diga isso. Você é a mulher que procuro há vidas. Quando vai parar de me deixar sozinho?
As palavras me rasgam.
Eu o abraço com desespero.
— Nunca mais… Nunca mais quero me separar de você, Francesco.
“Nunca mais.”
Palavra grande demais para caber em uma vida só.
Cercados por velas acesas, ele me pede que feche os olhos.
— Tenha fé.
A voz dele muda. O idioma que murmura é antigo. Desconhecido. Sinto suas mãos pairando sobre meu rosto, sobre meus hematomas, sem me tocar.
Um calor suave percorre minha pele.
O peso some.
Quando abro os olhos, ele está sorrindo.
— O que fez comigo?
— Magia, amor.
Eu me movo. Não dói.
— Eu me sinto… inteira.
— O Senhor te curou.
— O teu Deus?
Ele me puxa para junto de si.
— O nosso Deus, Valkyria.
Repete como se fosse juramento.
— O nosso Deus.
— Dança comigo? — pergunta.
Ele ri.
— Sem música?
— Shhh… escuta.
Silêncio.
— Não ouço nada.
— Basta imaginar. O universo cria.
Ele gira, inclina-se e me oferece a mão.
Aceito.
Quero sentir seu corpo contra o meu outra vez.
— Nós já dançamos assim antes? — pergunto, fechando os olhos.
— Sempre.
Encosto a cabeça em seu ombro.
Nunca fui tratada com tanta delicadeza.
— Ouça a melodia, Valkyria… e se deixe levar.
— Eu deixo… Essa canção é linda.
— Fala de amor. E de um pedido que nunca se cumpre.
— Qual?
Ele encosta a testa na minha.
— Nunca me esqueça. Em qualquer vida, estarei com você.
Seguro seu rosto.
— Nunca me esquecerei.
A promessa parece eterna.
— Seremos felizes? — pergunto.
Ele sorri.
— Para sempre.
Per sempre.
Enquanto Ragnar não retorna de sua viagem, após meus afazeres, volto à floresta. Francesco se abriga em uma caverna mais acolhedora do que a cabana que deveria ser meu lar.
Ele me ajuda a montar em seu cavalo e seguimos até os riachos de água naturalmente aquecida, comuns em minha terra. Francesco se maravilha ao ver o vapor subir da superfície.
Ele entra primeiro na água morna, rindo como um menino. Eu o observo. Há liberdade em cada gesto dele.
— Pode entrar. Não vou olhar — diz ele, suave. — Sei que estás com vergonha.
Mergulho devagar. A água envolve meu corpo como abraço. Afundo o rosto para esconder o sorriso que insiste em nascer.
Estamos sozinhos.
Mas o vento sopra frio entre as árvores.
“Cuidado”, ele parece sussurrar.
Eu escolho não ouvir.
Nossos pés se tocam sob a água. Um choque leve percorre meu corpo.
— Quantos anos tens, Valkyria?
— Dezesseis. Tinha quatorze quando aquele monstro me levou.
O riso dele desaparece.
— Ei… — ele se aproxima. — Nós vamos dar um jeito nisso.
— Como? Ele é forte. E cruel.
— Com magia.
Ele toca meus cabelos molhados.
— Não estou diante de uma grande feiticeira?
Baixo o olhar.
— Não me lembro do que minha mãezinha me ensinou.
— Vai lembrar. E quando lembrar, não será mais vítima.
Ele segura meu rosto com cuidado.
— Ele nunca mais irá te espancar. Vamos fugir daqui. Casados.
Meu coração dispara.
— Casados? Você e eu?
A chuva começa a cair. Fria. O vento ruge.
Ele me abraça com firmeza.
— Você é minha, Valkyria. Em qualquer nome. Em qualquer século. Seu coração é meu como o meu é teu. Casa comigo?
Eu não hesito.
— Sim.
Não é só desejo.
É escolha.
É fuga.
É sobrevivência.
Nos aproximamos sob a chuva. Não há violência. Não há medo. Há calor. Pela primeira vez, meu corpo não é campo de batalha.
Ele encosta a testa na minha.
— Fica comigo.
E eu fico.
Quando volto para a margem, ele me envolve com sua capa.
— Você é tão jovem… — ele murmura. — E já carrega dor demais.
— Você não me quer mais? — pergunto, insegura.
Ele sorri.
— Quero você ainda mais. Amanhã estaremos longe daqui. Antes do amanhecer.
Meu coração explode em esperança.
— Será o dia mais feliz da minha vida.
— Te amo, Valkyria.
— Te amo.
Corro pela relva sob a chuva. Pela primeira vez, acredito em futuro.
Dizem que a esperança é a última a morrer.
Mentira.
Quem tem esperança morre primeiro.
Decepção e desespero se misturam dentro de mim. Agradeço à chuva por ter lavado o cheiro de Francesco de minha pele, embora eu o guarde inteiro na memória.
Ragnar me espera.
Há festa na aldeia. Amanhã os homens partirão outra vez em busca de ouro e escravos no Oeste. Estão exaltados. Bebem, cantam, reverenciam Odin. Clamam por morte gloriosa e entrada em Valhalla.
Eu sirvo em silêncio.
Eles elogiam minha comida.
Ragnar não.
Ele me observa.
Quando se levanta e caminha em minha direção, sinto o estômago afundar.
— O que aconteceu com seu rosto?
— Você me espancou. Não se recorda?
Ele franze o cenho.
— Estava desfigurado. Agora está… perfeito.
Levo os dedos ao rosto. Não dói. Não há inchaço.
— Isso é magia? Coisa da puta da sua mãe?
Ergo o queixo.
— É. E não ouse chamar minha mãe assim. Fale o que quiser de mim. Mas não toque no nome dela. Você não é digno.
O silêncio ao redor pesa.
Ele agarra meu braço com força.
— Desde quando fala comigo nesse tom?
Seus dentes afiados brilham à luz do fogo.
— No que está pensando? Fala!
Não respondo.
E isso o enfurece.
Sou lançada ao chão. O ar me falta. Chutes. Peso. O gosto metálico do sangue.
Eu poderia reagir.
Mas reagir só prolonga.
— Fala!
Ele rasga meu vestido. Morde meu pescoço. Marca. Ri.
— Vou te marcar para que saibam de quem você é. Infeliz do homem que te olhar. Eu o mato. Depois mato você.
Olho para ele.
Não com medo.
Com ódio.
E penso em Francesco.
— Entendeu?
— Sim.
A palavra sai baixa.
Mas dentro de mim, algo já decidiu.
Quando Ragnar adormece, pesado de vinho e brutalidade, levanto-me devagar. Recolho meus poucos pertences. Enrolo-os em pano. Escondo no canto escuro entre panelas e canecos.
Deito novamente.
Não durmo.
Amanhã.
Francesco me espera ao amanhecer.
Na clareira, há flores. Ele mesmo trançou uma coroa para meus cabelos. Um vestido branco cobre meu corpo. Simples. Longo. Puro.
— De onde veio? — pergunto, tocando o tecido.
Ele sorri.
— Magia.
Diante de uma cruz de madeira, ele lê palavras de seu livro sagrado. Fala de amor, perdão, promessa.
Um Deus diferente.
Não de guerra.
De entrega.
Quando digo “sim”, não é apenas a ele.
É à fuga.
É à esperança.
É à escolha.
Seu Deus torna-se o meu.
E nossas almas se unem sob o céu que ainda não sabe o que nos espera.
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