CAPÍTULO 8 - UM SONHO RUIM
Ele me deixou no apartamento, me beijou como quem promete eternidade, fez amor comigo como se não fosse partir — e partiu.
Eu acreditei.
Por algumas horas.
Depois vieram as mensagens não respondidas. As ligações caindo na caixa postal. O silêncio crescendo dentro do peito até virar suspeita.
Até virar medo.
Até virar raiva.
Sweet o viu.
— Cara! O que tá fazendo aqui!? Adessa não para de te ligar!
— E por que diabos você faria isso por ela?
— Porque somos amigas, ué!
— Desde quando, Sweet!?
— Desde sempre, Doc!
— Amigas de verdade não desejam o homem da outra.
— Eu tentei ligar pra ela!
— Fala baixo.
— Para, gente! — eu interrompo. — Como ele estava? Onde?
— Estranho.
Meu estômago desce.
— Estranho como?
— Ele não se afastou de mim. Ele só… sumiu. Evaporou.
Doc me abraça.
— Ela não gosta de você. Não precisa pirar.
— Eu vi ele!
— Eu o vi — corrijo, sem perceber.
— Você viu ele também!? Ele te disse algo!?
— Eu não o vi.
Doc me puxa.
— Não confie nela.
Sweet me encara. Nervosa demais para ser natural.
Algo estava errado.
E não era só ciúme.
Estou grávida.
Ele não sabe.
Ele não atende.
E talvez esteja morto.
Se ele estiver morto, eu morro junto.
Eu queria tanto contar. Pensar nomes. Planejar futuro. Não largar o celular como uma adolescente obcecada.
Antoine.
Não sei de onde veio. Mas veio.
Nosso segundo filho.
Volta.
— É sua vez.
Sweet surge atrás de mim no camarim, suada, elétrica.
Eu não tenho mais estômago para palco. Não tenho mais vontade de ser a fantasia de ninguém.
— Não ouse chorar.
— Ele apareceria pra você e não pra mim?
Ela dá de ombros.
— Talvez ele tenha gostado do que viu.
— Cala a boca.
— Tô brincando.
Eu minto:
— Confio em você.
Não confio.
Subo ao palco.
Não quero abrir as cortinas. Não quero aplausos. Não quero ser chamada de gostosa enquanto carrego um segredo sob a pele.
Mas danço.
Doc observa como sempre. Protetor. Firme.
A música começa.
Wuthering Heights.
A mesma da casa de praia.
“Gosto dessa música. É bem a sua cara.”
Eu giro.
Não descrevo. Eu giro.
Agarro o pole.
Desço de cabeça para baixo.
A música não é performance. É convocação.
Vincenzo, me encontra.
Quando termina, os aplausos existem.
Mas eu não ouço.
Porque eu vejo.
Ele.
Na plateia.
— Vincenzo! É você!?
Desço correndo.
Doc me segura.
— PARA, DOC! É ELE!
Não era.
Era um estranho.
Sorrindo.
Sorriso errado.
Olhos que me conheciam.
— Me tira daqui.
Doc me carrega de volta. O homem continua batendo palmas.
Mesmo depois que eu desapareço.
No carro.
Chuva.
Motor não pega.
A rua vazia demais.
A chave cai.
Eu procuro no escuro.
Sinto antes de ver.
Uma mão.
No meu ombro.
Cheiro desconhecido.
— Tira a porra da mão de mim.
O taser acende.
Ele não recua.
Não sinto nada vindo dele.
Nenhuma intenção.
Nenhum pensamento.
Vazio.
Então a dor explode no seu pescoço.
E a voz.
Grave.
Lenta.
— Enfim, eu te encontrei.
O motor pega.
Eu arranco.
No retrovisor ele se levanta.
E acena.
Como se fôssemos velhos conhecidos.
Em casa.
Chá de camomila com gosto de sal.
Eu acaricio a barriga.
— Ele vai nascer.
Não é esperança.
É ordem.
Então o sonho.
Não é suave.
É pesado.
Grama fria sob meus pés.
Uma casa branca pequena demais.
Uma criança segura minha mão.
— Antoine?
Eu sei que é ele.
Não pergunte como.
Eu sei.
— Ele precisa falar com você.
Ele.
Sempre ele.
Entramos.
Corredor que cresce.
Porta vermelha que se afasta.
— Nós três moramos aqui.
Nós três.
— Vocês têm pouco tempo.
Meu peito aperta.
— Não vou te deixar sozinho.
— Não estou sozinho.
Ele sorri.
E desaparece.
Arrancado.
Eu corro.
E vejo.
Vincenzo.
Acorrentado.
Machucado.
Sem poesia.
Sem metáfora.
— O que fizeram com você?
Ele sorri daquele jeito que eu odeio.
— Não fala nada. Me escuta.
— Você viu o Antoine!?
Silêncio.
Eu puxo as correntes.
— Eu não estou morto — ele diz. — Mas não posso sair.
— Quem te prende?
— Ordens.
Eu toco suas costas.
Espinhos sob a pele.
Eu recuo.
Asas.
Reais.
— Fica longe de mim.
Ele rosna.
Meu Vincenzo não rosna.
— O que você é?
— O tempo está acabando.
Sempre o tempo.
— Ga'al vai te procurar.
O nome pesa.
— Ele voltou como homem.
Meu sangue gela.
Sweet.
O estranho.
O toque.
— Não deixe que ele te toque.
Tarde demais.
— Eles desconfiam de você.
Eles.
Eu também estou presa.
Ele me beija.
Não é romance.
É despedida.
— Vá embora.
O chão sobe pelas minhas pernas.
A poeira cresce.
O ódio não é dele.
Nem meu.
É maior.
— Dess… me perdoa.
Eu acordo com a garganta ardendo.
E uma certeza crua:
Vincenzo não é só o homem que eu amei.
Ga'al já me encontrou.
E Sweet sabe mais do que admite.
E eu estou dentro de algo que não é humano.
E ninguém está dizendo a verdade.
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