CAPÍTULO 3 - O INCONCEBÍVEL
Volto à cafeteria. Nada.
À noite, no “California”:
— Amiga, acorda! — Sweet surge suada, brilhando sob a luz neon. O sorriso dela é perfeito demais. — Vai perder aquele gato misterioso?
Ela me observa como quem mede território.
— Vai, bicha! A casa tá cheia!
— NÃO ME EMPURRA, VACA!
Ela ri.
— Tá sentimental agora? Cuidado. Homem sente cheiro de carência.
Não é conselho. É provocação.
Entro no palco.
Freddie solta a música que pedi. A canção fala de dois corações que se encontram numa cafeteria.
Giro. Botas pretas até o joelho. No corpo, só um biquíni cavado de lantejoulas.
Procuro por ele entre os homens que me desejam.
Mas não me terão.
Não hoje.
"You don’t know my name", cantarolo.
Nem eu sei o dele.
Livre de Ga’al. Livre daquela voz dizendo:
“Você gosta de ser vista, baby.”
O jeito como ele falava “baby”.
Como se eu fosse objeto.
Como se tivesse me escolhido antes de eu entender o jogo.
Eu poderia largar tudo.
— NÃO ME TOCA, SEU IMBECIL!
Chuto o braço de um cliente que tenta puxar minha calcinha.
— ME LARGA!
Outro tenta me segurar. Acerto o queixo dele.
— Calma, meu anjo — Doc segura os dois com facilidade. — Eu resolvo. Vai pro camarim.
— Obrigada.
No corredor, Sweet me encara.
— Por que você faz isso? — ela diz baixo. — Você sabe que quando você vai até o fim, a casa explode. Não estraga o que funciona.
Não estraga.
O que funciona pra quem?
— O que você tem hoje?
— Uma tristeza profunda. Só isso. Quero ir pra casa.
Ela cruza os braços.
— Tristeza não paga boleto, gata.
Sorriso perfeito. Olhos frios.
— Atendo amanhã. Hoje eu vou embora.
Faz tempo que não o vejo.
Melhor assim.
“O que os olhos não veem, o coração não sente”, dizia minha mãe.
Mentira.
Eu sinto.
Um vazio que parece antigo. Como se eu o conhecesse há séculos. Um buraco dentro do peito que tento preencher com trabalho. Trabalho demais. Corpo demais. Excesso demais.
A raiva de saber que ele poderia me curar se me amasse vira lascívia.
E eu volto a gravar.
— Me fode com força! — grito, repetindo uma das poucas falas do roteiro.
É mecânico. Coreografado. Frio.
— Demonstra mais tesão! — o diretor berra.
— Não é você que está sendo usada aqui! — retruco, irritada.
— Você é paga pra isso, Adessa. E muito bem paga.
Pago. Sempre pago.
Faço a cara que ele quer.
Desligo a mente.
Esqueço Vincenzo.
Gravo filmes. Vídeos. Programas. Minha conta cresce. Eu encolho.
Depois dele, nada é igual.
Sexo e culpa dançam juntos enquanto me apresento no palco do California. Tiro o sutiã imaginando que ele pode estar ali. Que vai surgir, jogar a jaqueta sobre meus ombros e dizer que eu sou dele.
Mas ele não vem.
Nunca vem.
— Tem visto aquela coisinha linda da cafeteria, Adessa Love? Ou devo dizer… The Flashbackgirl?
O calafrio é imediato.
Sem encarar Jack:
— Um Sex on the Beach.
O riso dele me atravessa.
Não voltei à cafeteria. Não sei nada de Giulia. E ele ri como se soubesse algo que eu não sei.
Viro-me.
— Tá pronto? Não quero ficar aqui. Sua presença me faz mal.
Dou um gole e rio quando ele sugere que poderíamos “nos entender”.
— Você e eu? Nunca.
— Eu pago bem.
Cuspo no rosto dele.
— Meu corpo não é pra você. Tenho nojo de você.
O copo cai. O vidro estilhaça.
As sombras parecem mais densas.
— Chama o Doc… por favor.
Seguro o balcão. O chão balança.
— O Doc saiu — ele diz, calmo demais. — Mas eu fiquei.
Minha visão falha.
— Estamos… sozinhos?
Os braços dele me sustentam. Não consigo reagir.
— O que você fez…?
A voz dele roça minha boca.
— Alguns chamariam de vingança. Eu prefiro justiça.
Escuridão.
— Onde eu estou?
O cheiro me atinge primeiro.
Fétido.
— Bem-vinda ao meu lar, Adessa Love.
Abro os olhos. Lembranças vêm em flashes. O palco. O gosto amargo da bebida. O sorriso dele.
Respiro com dificuldade.
Tateio o chão.
Está molhado.
Levo a mão ao nariz. O cheiro é insuportável. Urina. Fezes. Ar parado.
Engatinho até a parede. Ainda estou com as botas. De biquíni. Vulnerável.
Ouço ruídos.
Ratos.
— Jack! Me tira daqui!
Silêncio.
Não.
Não é silêncio.
Uma respiração.
Fraca.
— Tem alguém aí?
Um gemido responde.
Meu estômago revira.
Sigo o som. Minhas mãos encontram um corpo.
Pequeno.
Mão fina.
Pulso fraco.
Cabelos longos, sujos.
O corpo é leve demais.
Frio demais.
Não estou sozinha.
E o que quer que seja isso… é pior do que eu imaginei.
A luz da lua invade o quarto fétido em feixes quebrados, atravessando frestas na madeira podre da janela. O cheiro de urina e sangue me ataca antes mesmo de eu conseguir perceber o chão. Engatinho, o coração batendo no pescoço, mãos tremendo, até encontrá-la.
- Vc pode me ouvir? Qual o seu nome, meu anjo? – Sussurro, tentando que minha voz corte o horror ao redor. Sua cabeça se acomoda no meu colo, o cheiro impossível de suportar denunciando quanto tempo ela ficou ali.
Seus olhos inchados não conseguem formar palavras. Apenas balança a cabeça, negativa. Fraca demais para lutar. Aperto-a contra mim. Sua pele fina, quase translúcida, craquelada pelo sangue seco. Meu pânico explode:
Eu vou te salvar.
Ela chora, abraçando minha cintura com braços frágeis. Cada soluço, cada respiração curta, ecoa no quarto úmido. Cerro os olhos e as memórias me atingem como um filme intercalado em flash: pessoas sorrindo, música na Juke Box, mãos pequenas segurando balões, risos, ruas desertas, a sombra do capuz, o grito pela mãe… e Jack, sempre Jack, no furgão, triunfante.
Sorrio, inconscientemente, lembrando-me de Vincenzo. Mas não há tempo para lembranças suaves.
- Não… não… Giulia???
O choro me consome. Beijo sua cabeça enquanto ela se segura em mim. O som sai da garganta dela, mas palavras não existem. Não ainda.
Arrasto-a para um canto iluminado pelos raios da lua, tentando ver seus olhos. Inchados, úmidos, desesperados. A boca aberta revela a atrocidade: ele cortou sua língua. Um grito mudo explode dentro de mim, mas não sai. Sinto o ódio se formar em lâminas afiadas dentro do peito:
Ele cortou sua língua. Miserável. Eu vou matar esse monstro.
Sua roupa rasgada, o sangue, o frio que penetra nos ossos. Ergo-me, esmurrando a porta, lascas de madeira voando. Rasgo minhas mãos tentando alcançar a maçaneta. E então… um impacto me arremessa contra a parede. A porta se abre violentamente e Jack deixa entrar uma luz que quase cega.
Demoro segundos, talvez minutos, para perceber o que meus olhos não deveriam ver. Arrasto-me até ela. Rosno para ele, protegendo-a em meu colo. Ela está magra, quase sem vida.
- MALDITO! EU VOU TE MATAR!
- Mesmo? Difícil acreditar – diz ele, sarcasticamente. – Tudo isso por sua arrogância, Adessa.
- NÃO! NÃO SE APROXIMA!
- Não é vc que eu desejo. É a jovem ‘tutti-frutti’.
Chuto-o entre as pernas, antes que toque nela. Seus olhos castanhos, inocentes, me perfuram o coração, mas não posso falhar.
- NÃO TOQUE NELA! EU TE IMPLORO! FAÇA O QUE QUISER COMIGO! ELA JÁ SOFREU DEMAIS!
- Que nada! Ela até gostou! – Chute certeiro, sangue na testa. Ela grita. – Mentira! Queria sim! Odeio mulheres escandalosas! A língua dela… serviu de alimento aos ratos.
O ódio me consome. Lanço-me sobre ele. Socos, golpes, a raiva transformada em pura ação física. Ele me empurra, me sufoca, mas não cedo. Quando finalmente me solta, engulo o ar, tremendo. Ele abre um sorriso repugnante:
- Não vou perder meu tempo agora. Ainda não terminei de conversar com aquela gracinha ali atrás.
- NÃO, JACK! POR FAVOR! NÃO! NÃO! – Arrasto-me sobre o chão sujo até alcançar seu tornozelo. – Faça comigo! – Imploro, vendo no rosto dela um pedido silencioso.
Chuto, bato minha cabeça contra o chão, enquanto ele a arrasta pelos cabelos para outro cômodo.
- POR FAVOR! NÃO! ME LEVA! ME LEVA!
O vento da madrugada entra pelas frestas, misturando cheiro de sangue, urina, e umidade podre. Cada respiração parece lenta demais. Cada segundo se alonga em terror puro. Eu estou armada apenas com minha fúria e a promessa de vingança que vibra em minhas veias.
Com o sangue de Giulia ainda em minhas mãos, engatinho até a porta que se fecha bruscamente. A voz de Jack atravessa as frestas, fria e cruel.
- Tenho outros planos pra você, Adessa.
Surtando com os gritos abafados de Giulia, bato contra a porta, desesperada, ignorando a dor e os cortes que a madeira me provoca.
- ABRA A PORTA! ABRA! ELA NÃO TEM CULPA! ELA NÃO TEM CULPA!
A porta se abre de repente, e Jack me encara, olhos frios e sorriso cruel. Ele me faz ajoelhar e me prende com cordas. O coração acelera, mas penso que Giulia está segura. Que ela se livrou dele.
Mas eu estava enganada.
O que vem a seguir me congela de horror. Jack amarrou Giulia, e eu posso apenas assistir. Meu corpo treme, minha garganta seca. O desespero me paralisa enquanto ele faz coisas terríveis, sombrias, que não posso descrever em palavras. O grito preso na minha garganta é tudo que posso emitir. Quando baixo a cabeça, um soco me derruba, e sinto minha mandíbula latejar de dor.
E então… o irreparável.
E eu nada fiz para salvá-la. A culpa era minha. Minha soberba quase matou a ‘minha Giulia’.
- MONSTRO! - Urro, o som rasgando minha garganta. Cada músculo queimando de ódio ao vê-lo devorar seu coração, mantendo os olhos frios fixos em mim. - EU VOU TE MATAR!
- Vai mesmo? - Ele avança, sangue de Giulia ainda em seu rosto, rindo com uma calma repugnante. Arrasto-me pelo chão, rastejando, sem saber como reagir. Não posso morrer agora. Não antes de vê-lo cair. - Vc não vai a lugar algum, Adessa Love.
Com frieza, ele arremessa o corpo de Giulia. Toquei seu pequeno ombro, murmurando, implorando para que sua alma se libertasse, esquecesse cada horror. Antes que a oração termine, sou lançada contra a mesa, sobre o sangue puro do meu anjo.
- Sua vez chegou. - Lambendo meu rosto, ele fala com um sorriso diabólico. - Ainda não decidi seu destino. Te matar é pouco. - Prende-me às cordas, igual fizera com Giulia. Cuspo em seu rosto. Recebo um soco. Meu pescoço gira violentamente. E lá está ela, Giulia, deitada no chão, silenciosa, imunda, como se fosse lixo. - Por que se negou a sair comigo? Eu pagaria bem pelo que vou fazer agora, de graça.
- Vc não sabe com quem está lidando, Jack. - Rosno surge, firme e calmo. - Faça o que quiser comigo, mas daqui, vc não sai vivo.
Ajoelhada ao lado de Giulia, não grito. Ele chicoteia-me, rindo. Ver Giulia assim, por minha culpa, anestesia a dor nas minhas costas.
- VC MERECE MAIS! MUITO MAIS, ADESSA!
Olho ao redor. Vejo-os, lado a lado, insuflando Jack, encorajando suas barbaridades. O verme é uma marionete nas mãos de seres bestiais, famintos de sangue.
Outro corpo próximo à porta. Uma menina, tão jovem quanto Giulia. Giulia não foi a primeira vítima. Jack me chuta nas costelas. Caio ao lado de Giulia, rindo histericamente, incitando sua fúria. Em posição fetal, protejo o rosto. Um brilho metálico corta a escuridão. Os seres ao redor da mesa se agitam, frenéticos.
- Últimas palavras, Adessa? - Ele ergue o punhal. Ajoelhada, de costas, risco o chão com o sangue de Giulia. Um dialeto antigo e profundo escapa da minha boca, alimentado pelo ódio. Repito, rápido, até gritar seu nome. Sei que posso perder minha liberdade. Sei que posso voltar a ser dele. Mas não vou. Não posso. Não admito que Jack permaneça vivo.
- O que é isso que vc tá fazendo!?
- Com medo, Jack Tequilla!? - Meus olhos rasgam o espaço acima de sua cabeça.
- Destroce-o, Ga’al! Acabe com esse verme agora e serei sua novamente!
Ga’al aparece. O mundo parece congelar. Ele sorri, triunfante, e, num movimento rápido, ergue Jack pela gola da blusa. O desespero dele se espalha, tenso, cada músculo em alerta. Olhos procurando uma saída que não existe.
Ga’al segura seu pescoço com garras firmes. Sua voz gutural atravessa a sala, gelando o ar:
- Agora é a sua vez!
O chão parece tremer. Cada respiração de Jack se torna um grito contido. Ga’al inclina a cabeça, um sorriso frio de predador. Eu assisto, coração batendo descompassado, e pela primeira vez sinto: a justiça tem forma, tem poder, tem nome.
Jack Tequilla implora por clemência, a voz fraca e trêmula, antes mesmo de Ga’al erguê-lo acima da cabeça e quebrar sua coluna como um graveto. Fecho os olhos, aterrorizada. Nunca vira Ga’al tão feroz.
Abro os olhos e vejo: Ga’al retira o coração de Jack, ainda pulsando, e o morde como um cão raivoso. Escorrego no sangue de Giulia, tentando fugir, o coração acelerado, mãos trêmulas. Meu Deus… o que eu fiz?
- Vc me invocou, e agora será minha novamente. - Ga’al sussurra contra minha boca. Sorriso frio. Aos poucos, ele se desfaz, enquanto ouço chutes na porta de entrada. - Ele novamente. Seu padrezinho veio te salvar. - Arremessando o corpo de Jack contra a porta, faz meu corpo tremer de medo. - Estarei contigo hoje à noite… Adessa.
- Como me achou? - Pergunto, a voz embargada, incapaz de conter o alívio e o pavor.
- Não importa. - Responde Vincenzo, desorientado, mas firme. Ele me cobre com seu moletom, empurrando-me para o banco do carona.
De onde estou, escuto seu urro de raiva e choro de impotência. Ele surge do carro trazendo, em seu colo, o corpo de Giulia. Sem uma palavra, lança-me um olhar onde fúria e compaixão se entrelaçam. Cuidadosamente, acomoda Giulia no banco traseiro, como se ela estivesse apenas dormindo. Recosta a testa no volante, demorando antes de perguntar, soltando o ar com peso:
- Quem fez isso com Jack?
Um arrepio me percorre quando evito seu olhar. Volto-me para meu reflexo na janela fechada e respondo:
- É melhor não saber.
- Adessa!
- Me leva pra casa, pelo amor de Deus… ainda preciso me encontrar com a mãe… - Minha voz falha, afogada em lágrimas. Choro copiosamente nos braços de Vincenzo, que me envolve, sussurrando:
- Eu vou te livrar dele. Prometo.
Chegando ao funeral, abraço a mãe de Giulia, inconsolável, mas não conto a verdade surreal. Invento algo mais sutil: um acidente de moto, uma amiga envolvida. Ela não verá o corpo; o caixão permanece fechado durante toda a cerimônia. Fraca e horrorizada, lembro-me do fim de Giulia. Vincenzo me segura para que eu não desabe sobre o túmulo.
A terra úmida e escura cobre a madeira maciça.
- Não recuse minha ajuda, por favor. É o mínimo que posso fazer. - Digo à mãe de Giulia, os olhos distantes, já sozinha diante da vida. Deposito uma quantia em sua conta, pedindo-lhe que realize o sonho da filha.
- É o mínimo que posso fazer já que não consegui salvar a vida de um anjo.
- Eu não consegui. - Repito, deixando uma rosa sobre o túmulo de Giulia.
Tento dormir, tomada por ansiolíticos. Vincenzo insiste para que eu vá para o sofá da sala, preocupado.
Eu não sou tão boba quanto pensa. Eu fui a culpada por tudo. Mereço um castigo.
- Não fala assim. - Ele cuida de meus ferimentos, após me lavar debaixo da ducha morna. - Deus não castiga.
- Pois deveria. Como seu Deus pôde deixar que aquele verme tocasse um ser tão puro?
- Não sei te dizer. Mas onde quer que ela esteja agora, estará em paz. Dormindo um sono profundo… e, quando acordar, vai encontrar o Mestre.
- Quando eu dormir, vou encontrar com um demônio… - Bocejo, enquanto ele me cobre com o edredom. - Não me olhe assim. Eu precisei invocá-lo. Deveria ter feito antes de Giulia morrer, mas eu… eu não… não raciocinei. Deveria…
- Durma, meu anjo. Eu estarei aqui quando ele chegar. Espero por esse encontro há muito tempo.
- Vocês se conhecem? - Pergunto, de olhos fechados, sentindo algo estranho na resposta dele.
- Todos nós nos conhecemos.
Caminho sem medo. Ele me aguarda em seu trono, em sua forma diabólica. O corpo imponente, o sorriso lascivo, os lábios carnudos se movendo enquanto fala:
- Bem-vinda, Adessa.
- Onde estou?
- Onde quiser estar. Aproxime-se. Não tenha medo. Não vou te ferir.
- Vai sim.
- Só um pouquinho… mas você vai gostar.
Mais uma vez, vejo-me em minha camisola branca de mangas bufantes, rasgada por suas garras. Garras que me arranham, deixando marcas na pele. De olhos fechados, envolvo meus braços em seu grosso pescoço e me deixo levar por quem me salvou da morte.
- Quero um filho teu. - Sua voz gutural sussurra em meu ouvido.
Reajo, empurrando seu tórax extenso para trás.
- Eu mereço.
- Nunca!!! Que tipo de ser humano acha que sou??? Dar um ser inocente a um demônio??? Já basta o que fizeram comigo!!!
- Seu pai ou sua mãe?
- Não sei… - Respondo, emitindo um gemido longo de prazer. - Sabe quem fez o pacto comigo? Quem te entregou a mim?
- Não… - Ele aumenta a velocidade das estocadas dentro de mim. - Quem?
- Sua mãe pensou. Seu pai realizou o ritual. Ela o queria para si. Ele desejava sair da pobreza e aproveitar os prazeres de uma vida mundana… sem compromissos e com muito dinheiro. Sua mãe partiu dessa vida sem o amor de seu pai, que ainda vaga pela Terra à procura de mais prazeres. E quanto ao padre deitado em seu sofá? Você o ama?
- Não. - Minto, embora saiba que o amo e nem saiba quando isso aconteceu. - Ele é um bom amigo.
- Com sua mão imensa comprimindo meu pescoço, ele me ameaça silenciosamente.
- Não minta para mim, Adessa. Aqui, eu ouço seus pensamentos.
- Ele também… - Suspiro, arrepiando-me ao encarar seus olhos pulsando ódio. Largando-me sobre o chão de terra batida, ele rosna.
- Basta.
- Posso voltar? Estou livre?
- De mim, sim. Volte e continue a dormir.
- O que pretende fazer???
- Volte, Adessa! Agora!
Ainda atordoada, observo-o sobre mim, com olhos azuis mais escuros do que o normal. Meu corpo chacoalha, e então sinto seu líquido quente escorrer entre minhas coxas.
Sem ter certeza do que acabou de acontecer, adormeço.
A manhã invade o quarto em fendas de luz fria, atravessando a cortina. Abro os olhos e ele está ali, nu, deitado ao meu lado. Por um instante, o mundo congela. Cada batida do coração parece ecoar nas paredes silenciosas.
Ele desperta de súbito, olhos arregalados. Instintivamente cobre-se com meu lençol. A voz sai trêmula, quase um sussurro de pânico:
- Que que porra eu tô fazendo aqui!?
- Era exatamente isso que eu ia te perguntar! – respondo, a voz cortando o silêncio como uma lâmina.
Ele gagueja, ergue-se, e examina o próprio corpo com horror e confusão. Close nos seus olhos azuis, reflexos da luz que entra pela janela:
- Caralho! Eu tô... eu tive um... vc... vc e eu!?
Recostada à cabeceira, abraço os joelhos, coração disparado. Tudo parece em câmera lenta. Cada palavra dele corta meu peito.
- O que você fez!? Por que eu tô sujo!?
- Não sei! – ele recua, pânico absoluto. – Talvez você tenha se deitado aqui e tido um sonho devasso que te fez ejacular! Eu não toquei em você!
- Vc me usou, cretina! – Minha voz ecoa, vibrante de raiva.
- EU NÃO FIZ ISSO! – Ele se defende, desesperado.
- FEZ SIM! COVARDE! – minhas palavras ricocheteiam nas paredes. – ACHA QUE EU TE FIZ DEITAR SOBRE MIM, DORMINDO???
Ele enrola o lençol na cintura e acusa:
- Você se sentou em mim e fez tudo acontecer!
Sinto cada batida do meu sangue como tambores de guerra. Um punhal no peito não me faria mais mal do que ouvi-lo me chamar de “piranha”.
- Aaah tá! – lanço-me sobre ele. O dedo indicador cravando-se no nariz dele. Ele recua, olhares furtivos percorrendo meu corpo.
- Então eu te estuprei, idiota!?
- Com certeza! – seus olhos grudados nos meus seios. – Eu jamais tocaria em você por vontade própria! Como fez isso, bruxa!?
Gargalho, sarcástica, e minhas palavras caem como tiros:
- Leia minha mente, padre. Veja se há algum resquício do seu suposto estupro.
Ele recua, desnorteado. Confusão, culpa, talvez medo. Tudo flutua em câmera lenta enquanto tento encaixar fragmentos do que aconteceu, lembrando apenas Ga’al sobre mim, dominando cada instante.
- Por que esses olhos arregalados!? – grito, a raiva queimando cada músculo. – Você me viu chupando seu “membro de ouro” e me sentando nele!? Saiba que eu ganho pra fazer isso em outros homens! Eu simplesmente conquisto! POR QUE TÁ ME OLHANDO ASSIM???
- Eu sabia... – diz ele, distante, olhos fixos no nada.
- DO QUÊ??? FALA LOGO E SAI DA MINHA CASA!!!
Ele se veste com movimentos bruscos. Lava o rosto no meu closet. Eu corro até ele, parando ao ver o terror em seus olhos. Um close em cada gesto, cada respiração, cada linha de tensão no corpo dele.
- Preciso me afastar de você. Ele é mais forte do que imaginei.
- Ele quem!? Do que tá falando!?
Cubro-me com o lençol, sentindo a frieza dele atravessar o quarto.
- O demônio que te possui. Eu fui designado a afastá-lo e falhei.
- Tá de sacanagem!? Você se aproximou de mim por causa de um demônio!? Não foi por mim!?
Ele avança, tenta tocar meu rosto. Eu recuo, a câmera acompanha cada passo, cada segundo de distância entre nós, tensão palpável.
- Perdão. Eu falhei, e ele possivelmente me usou pra fazer algo que eu jamais faria. Eu jamais me deitaria com você. Eu falhei. Preciso me afastar...
- SAI DAQUI! EU NÃO PRECISO DE VOCÊ! – grito. – Guarde sua piedade! Some da minha vida! Eu não quero nada de você! – Além de amor. – Seu merda! Você tá me machucando mais do que qualquer homem com quem eu já estive!
- Adessa...
- TIRA A MÃO DE MIM, VINCENZO! VAI EXORCIZAR O PAPA! EU SEI ME VIRAR SOZINHA!
Abro a porta. O lençol escorrega, revelando meu corpo. Close em seus olhos: confusão, desejo, medo, tudo misturado.
- PARA DE PENSAR E ME DEIXA FALAR, PORRA! – grito. - SAI DA MINHA CASA E DA MINHA VIDA! QUAL PARTE VOCÊ NÃO ENTENDEU!? – ele devolve, exasperado.
- Não... – sua respiração cheira a maçã verde, talvez pela última vez. – Eu queria...
Sua mão se aproxima. Eu a seguro. Por um instante, tudo congela: reflexos no vidro da vitrine do California, asas enormes no céu cinza, seu corpo nu na minha cama, sua mão no meu pescoço. Ele mentiu. Ele me tocou de modo que não era dele.
- Você tá louca! – Afasta-se, desprezo estampado. – Eu jamais trairia meus votos com uma vagabunda! Nem tudo que você vê ou sente quando toca alguém é real!
- Vagabunda é tua mãe! Eu trabalho pra me sustentar! Sai da minha frente antes que eu te ‘estanque na porrada’, padrezinho de bosta!
O elevador se abre. Close final no olhar dele, mistura de tristeza e despedida. Antes que a porta se feche, grito:
- ESPERO NUNCA MAIS TE VER! VOCÊ ME MACHUCOU, VINCENZO! EU TE ODEIO POR ISSO!
- Perdão. Eu errei novamente. Não era pra ser assim.
A porta se fecha, levando meu coração junto.
- Isso não acaba aqui, Vincenzo. Eu sinto. Sinto sua semente dentro de mim.
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