CAPÍTULO 12 - ANTOINE
Enfim, posso exercer a maternidade que me foi negada duas vezes.
Enfim, alguém de quem cuidar.
Alguém a quem doar amor sem esperar nada em troca.
Alguém com quem me preocupar a cada minuto do dia.
Alguém que devo sustentar até que possa caminhar sozinha.
Alguém em quem pensar pelo resto das minhas vidas.
E pelo resto das minhas vidas… eu vou te amar.
Antoine.
Minha Antoine.
Minha linda Antoine.
Ok.
Agora que divaguei, preciso ser prática.
Ser mãe não combina com paralisia.
Ser mãe exige dinheiro.
Não posso continuar me expondo no palco do “California”. Voltar à pornografia está fora de cogitação. Não quero regredir. Não quero mergulhar outra vez no mar imundo da ninfomania… ou melhor, do Transtorno de Desejo Sexual Hiperativo.
Vincenzo me corrigiria. Ele sempre corrige.
Sério mesmo? Um homem com Transtorno de Sadismo Sexual pode me corrigir em alguma coisa?
Patético.
Uma “TDSH” que ainda ama um “TSS”.
Esquece. Para de pensar. Isso cansa.
— Cala a boca.
Preciso pensar no futuro da minha filha.
Então olha para o espelho.
— Não quero.
Do que tem medo?
— De me ver.
De te ouvir.
Eu odeio espelhos. Odeio essa voz o tempo todo na minha cabeça.
Talvez eu não esteja na sua cabeça.
— O quê?
Já pensou nisso?
— NÃO! NÃO QUERO PENSAR EM BOBAGENS! AGORA EU SOU MÃE!
— Mãe? Brigando com a voz de novo?
— É… — admito, envergonhada. — Ela me deixa irritada.
— Não responde, ué.
Simples assim. Quatro anos e já mais sensata que eu.
— Vou tentar — prometo diante do portão do colégio. — Como foi seu primeiro dia?
— Bacana — responde ela, sorrindo no banco traseiro. Sozinha, ajeita o cinto da cadeirinha com precisão militar. — Amo borboletas, mãe.
— Eu sei… — suspiro ao volante.
Lembro de quando corria na orla e achava maternidade uma piada biológica.
Lembro dos sonhos com borboletas.
Lembro da primeira vez que o vi.
Tanta coisa aconteceu desde então.
— Pronta?
— Sim, chefe!
Acelero o carro e evito contato visual com uma das mães na calçada. Não posso ser reconhecida.
Meu passado me condena.
Os pais ali parecem ter muito dinheiro. Não poderia ser diferente. A mensalidade do colégio de Antoine equivale à parcela de um carro novo.
Por que não a coloca em escola pública? É bem mais barato.
— Porque não!
Ela merece o melhor. Merece tudo o que eu não tive.
E quando o dinheiro acabar?
— Nosso dinheiro, não é?
Ou agora você deixou de ser minha voz interior?
— Quem é você, afinal? Está dentro de mim… ou fora?
NÃO SEJA PATÉTICA. NÃO É HORA DE PERGUNTAS.
— O que foi agora?
Acorda e olha quem acabou de entrar no camarim.
Sweet.
Não quero falar com ela.
Não baixe a cabeça.
— Eu não vou.
Encare essa piranha que roubou o nosso homem.
— Nosso?
O dinheiro é meu e o homem é “nosso”? Decide-se.
— MERDA! MIL VEZES MERDA!
O batom borra no espelho iluminado do camarim.
Ela se aproxima. Sorrateira. Elegante. Calculada.
— Quer que eu te ajude?
Ignoro.
Os seios dela estão maiores… ou é impressão minha?
Os meus costumavam ser maiores que os dela. Agora parecem iguais.
Que merda.
Vincenzo adorava meus seios volumosos.
EU TE ODEIO, VINCENZO.
ODEIO ESSA VACA.
— TÁ ME OLHANDO POR QUÊ?
— Amiga… acorda.
— Não toca em mim. — Rosno. — Me deixa quieta.
— Eu só queria ajudar…
— Não queira! — Inspiro fundo, soltando o ar pela boca, os lábios vermelhos pelo atrito do papel toalha.
Devia esfregar na cara dela, não na sua.
Concordo.
— Eu me viro.
— Tá bom. Você que sabe. — Ela levanta as mãos, na defensiva.
O silêncio pesa entre as quatro paredes.
Pelo espelho, vejo Sweet sentar no sofá. Postura altiva. Incomodada. Como se o camarim fosse dela.
Não vai dar.
Não vai rolar.
Conviver com Sweet no “California” é quase insuportável. Saber que ela teve o melhor e o pior do homem que ainda amo desperta em mim pensamentos que nunca tive.
O Mal encontrou um canto confortável dentro de mim.
Imaginar que eles ainda se encontram. Que ele a abraça ao acordar. Que a beija como me beijava.
Isso me faz querer arrancar, com os dentes, os piercings dos mamilos dela.
Não de forma erótica.
Selvagem.
Lenta.
Dolorosa.
Meu Deus… eu não sou assim.
— Merda. Eu não vou conseguir.
— Seu batom está borrado. — observa Sweet.
— Assim como a tua cara vai ficar se continuar me olhando. — rosno. — Fica longe.
— Por que você tá com raiva de mim?
— Não sou cachorra pra ter raiva. — visto o figurino, de olhos fechados. — Eu tô com nojo de você. É diferente. Sai da minha frente.
— Amiga…
Reajo por impulso e a empurro com o quadril.
— Nunca mais me chama de amiga.
Calço as botas de cano alto tentando conter o pior que há em mim. Como ela consegue ser tão dissimulada?
Não posso tocar nela.
Não posso me conectar a ele através dela.
Ele lava o cabelo dela no chuveiro como fazia comigo? Enxágua com cuidado? Diz que a ama?
Porra.
— Me esquece. Eu não sou tua amiga. Nunca mais. Aquela idiota que te acolheu morreu.
Minto.
HÁ ALGUNS ANOS
Saio do set exausta.
O diretor pediu quatro repetições da mesma cena. Seis homens. Uma mesa de sinuca. Luzes fortes. Corpo sendo usado como cenário.
Minhas costas doem. Meu corpo parece emprestado. Por dentro, vazio.
O cachê é ótimo.
Quantas mulheres ganham em um mês o que eu ganho em um ano?
Quantas estão agora em casa, com filhos e marido, longe de ruas escuras e perigosas?
Por que não cala a boca e me deixa fingir que sou feliz?
Porque não é.
Não tem pai. Não tem mãe. Não tem homem.
— Não atrapalha meu raciocínio enquanto dirijo!
Sem filhos. Sem amigos.
— CALA A BOCA!
Pisa no freio.
— Cacete…
O carro para abruptamente. Encosto a testa no volante. A mão treme quando ligo o som do carro novo que acabei de quitar.
— Que saco.
Pego a bolsa no banco de trás.
— Cadê a porra do celular?
Atendo.
— Alô. Não. Não tenho vaga na agenda.
Inspiro. Baixo o tom.
— Claro. Quando eu chegar em casa, falo contigo. Sempre arrumo um tempinho pra você. Eu amo trepar contigo.
Minto.
Desligo.
— Seu monte de merda.
Arremesso o celular contra o vidro. Ele trinca.
— Onde estão meus óculos?
Não vá.
Não é da sua conta.
— É sim!
Abro a porta e corro na direção do tumulto, apertando o spray de pimenta na mão.
— SE DER MAIS UM CHUTE NELA, EU TE ARREBENTO!
— Outra vagabunda!?
— Oi? Falou comigo?
Não espero a resposta do homem baixo e brutal.
Sorrio.
Um sorriso torto.
O jato de pimenta explode nos olhos dele. Ele urra, leva as mãos ao rosto e cai ao lado da mulher que chutava segundos antes.
Cacete.
Ela vai precisar de pontos.
— Vem!
— Pra onde? Eu não posso ir! Ele vai me matar se eu não entregar o que ganhei hoje!
— Ele vai te matar de qualquer jeito! — puxo-a pelo pulso.
A avalanche volta.
Imagens desconexas. Ela se drogando. Ele contando notas de cem, rindo. O sangue. As filhas esperando.
— Idiota! Por que não revidou? Por que deixa ele te tratar assim? É teu cafetão?
— É. — Ela entra no carro tremendo. — Ele não é mau… só se descontrola quando eu não ganho muito.
— Não defende um verme desses!
Procuro a caixa de primeiros socorros.
Procure no porta-malas, idiota.
Você acabou de cometer um erro.
Maior do que o pau do seu amigo ator pornô.
Não seja ridícula. Ela está sangrando.
E você precisa de um analista.
Burra.
Ignoro.
Entrego a gaze.
— Limpa o rosto. Tá sangrando.
Ela obedece com mãos trêmulas.
— Tô com medo. Ele sabe onde moro. Sabe que tenho filhas.
Filhas.
— Quantas?
— Duas. — Ela sorri, mesmo inchada. — São a minha vida. Eu faço isso por elas.
O amor de mãe é um negócio assustador.
— Não coloca suas escolhas nas costas delas.
Eu não quero isso pra mim.
Não agora.
— Olha pra mim. Não chora.
— Ele vai te seguir.
— Melhor. Economizo tempo e acabo logo com ele.
Aquele verme.
— E minhas filhas?
Ela é loira. Bonita. Quebrada.
Você não conhece meus segredos?
Não invoque Ga’al.
Ele está morto.
Capisce?
Não faça isso.
Não se envolva com aquele demônio.
Não se envolva com ela.
Estaciono.
Desligo o carro.
Silêncio.
— Qual seu nome?
— Maria Odete.
Seguro o riso. Não por maldade. Pelo absurdo da vida.
— Escuta, Maria Odete. — Seguro o queixo dela. — Você não está sozinha. Você e suas filhas vão se livrar dele.
— Como?
— Não importa como.
Deixa que Ga’al resolva.
Cuidado.
— O que importa é que você não vai mais apanhar.
— Eu não sei sustentar minhas filhas sem isso…
— Você pode escolher melhor seus clientes. Pode ganhar dinheiro aqui também.
Aponto para os letreiros do “California”.
Luz neon. Promessa falsa.
— Sabe dançar?
— Não.
— Conhece barra de pole dance?
— Hein?
Reviro os olhos.
— Esquece.
— Consegue servir cerveja numa bandeja?
— Não sei…
Respira.
— Não precisa saber nada. Sobe no palco, tira a roupa e deixa rolar.
Ela me encara.
— Por que você tá fazendo isso por mim?
— Porque acredito que você mereça.
Minto.
Foi impulso. Foi raiva. Foi algo no olhar dela. Talvez pelas filhas.
Ela começa a chorar e me abraça. Eu correspondo.
— Você vai precisar mudar esse nome, meu bem. Uma stripper chamada Maria Odete é maldade. Não ri. Isso deve estar doendo.
No rádio começa a tocar Sweet Child o' Mine do Guns N' Roses.
E aí eu sei.
A música.
Sempre a música.
— Que tal “Sweet Child”?
— Quem?
— Você, criatura. É teu nome de guerra. Para de rir. Tá doendo?
— Tá. — ela ri mesmo assim. — Amei. O que significa?
— Doce criança. Algo assim.
— Você é um anjo.
— Não sou anjo nenhum.
Se fosse, não seria assombrada por demônio nenhum.
— Não me agradece.
Eu realmente acreditei no que disse naquela noite.
— Acho que seremos grandes amigas.
— Seremos. Pode acreditar.
E eu acreditei.
Eu me odeio.
Estou encantada com as filhas de Sweet Child.
Minha nova “amiga”.
Ela começou no “California” como garçonete. O administrador percebeu rápido o talento dela para se doar. Inclusive a ele. Pouco tempo depois, estava no palco.
Não sabe dançar.
Mas sabe tirar a roupa como se estivesse tirando culpa.
Termina o show nas mãos de homens que pagam bem para esquecer que são vazios.
Eu gosto de vê-la feliz.
Duas filhas não são pouca coisa.
Doc ainda não confia nela. Eu reconheço aquele olhar. Doc tem um coração enorme. Vai acolher Sweet. Assim como me acolheu quando cheguei no “California” perdida, anos atrás.
“Não se afeiçoe demais”, ele me disse.
Tarde demais.
Eu amo as meninas.
São inteligentes.
Doces.
Como jujuba.
— Devem ter puxado ao pai. — Comento enquanto esperamos a pizza. — Desde quando você é inteligente, Sweet? A beleza é sua. A inteligência é do pai.
Ela ri, indignada.
— Desde quando você começou a gostar de crianças? Você odeia crianças!
— As suas são diferentes… — Suspiro, observando as duas do outro lado da mesa.
Sweet está ao meu lado, elétrica. O garçom finalmente chega com a pizza gigante.
— Meia muçarela, meia calabresa?
— Como você pediu. — Ele sorri de canto e coloca o primeiro pedaço no meu prato.
Sweet percebe.
Ele a serve depois.
— Mais alguma coisa? — pergunta, olhando para mim com aquele ar lânguido que homem usa quando acha que está sendo irresistível.
— Pode cortar os pedaços das meninas em quadradinhos, por favor?
Ele sorri como se eu tivesse pedido a mão dele em casamento.
— Claro. O que você quiser.
Sweet me fuzila.
— Por enquanto é só, obrigada. — Evito encará-lo. — Sweet, quer pedir algo?
Inclino-me e cochicho:
— Pede. Eu pago.
Erro meu.
— Me traz uma garrafa do seu melhor vinho… e, se quiser, o número do seu celular.
Abusada.
Eu quase sorrio.
— Você é fraca pra beber.
— Você também!
— Justamente por isso eu não vou beber.
— Eu vou.
O garçom hesita.
— Pode ir! — ela ordena.
— Sweet… — sinto o calor subir no rosto.
— Ele não para de olhar pra você. Vai embora! Traz o vinho!
O garçom se afasta constrangido.
— Perdão, amiga. Eu não tô bem hoje.
— Eu tô vendo. Não se trata ninguém assim.
— A tia tem razão, mamãe. — diz a filha mais velha. — O moço ficou triste.
— Ficou triste porque é burro! — Sweet morde a pizza com agressividade.
— Burro por quê?
Ela me encara.
— Você sabe.
Não.
Você não sabe?
É inveja.
— Não me olha assim. Você é a culpada.
— Culpada de quê?
Sirvo mais pizza para a pequena que sorri para mim como se o mundo fosse simples.
— Ele te conhece dos teus vídeos. Tá babando por você. Assim é fácil conquistar homem.
Fico em silêncio.
Brinco com as meninas enquanto ela seca o garçom com os olhos.
Ele volta com o vinho.
Me olha primeiro.
Eu cubro minha taça com a mão.
— Vou dirigir.
— Responsabilidade é tudo. — ele diz.
Sweet esvazia a taça de uma vez.
— Por que você não olha pra mim? Não gosta de mulher?
— Sweet, olha suas filhas. Para de gritar.
Todos na cantina agora assistem.
— Ela não tá acostumada a beber. — justifico. — Pode trazer a conta?
— Ainda não! — Outro gole.
Ela se levanta.
Puxa o garçom pelo colarinho.
— Você não gosta de mulher? Por que não me olha como olha pra ela?
As meninas começam a chorar.
— Para, Sweet. Já passou dos limites.
Ela ignora.
— Ou você conhece minha amiga de algum filme mais… adulto?
Silêncio.
O garçom empalidece, mas mantém a postura.
— Eu não costumo me interessar pelo que meus clientes fazem fora daqui. Eu trato todos com respeito.
Ele respira fundo.
— Sua amiga é minha cliente há anos. Sempre educada. Me ajudou num momento difícil. Quase perdi meu casamento.
Meu estômago afunda.
— Graças a ela, minha esposa e eu estamos juntos. Estamos esperando um filho.
Ele me olha com gratidão genuína.
Eu engulo em seco.
— Eu nunca a vi em outro lugar além daqui. E, se vir, saberei respeitá-la como sempre a respeitei.
Ele se afasta.
Sweet volta para a cadeira branca como cera.
Eu abraço as meninas.
A cantina inteira nos observa.
Vergonha.
Silêncio.
Pego a mão da mais nova.
A mais velha vem atrás, de cabeça baixa.
Sweet chora.
Ou finge.
No estacionamento, esbarro em um homem de capuz.
Uma cruz dourada reluz sob a luz fraca. O vento traz um perfume cítrico.
Meu peito aperta.
— Ei!
Ele não olha para trás. Some na escuridão.
Sweet me puxa de volta à realidade.
— Perdão, amiga. Foi o vinho.
— Não foi. — Ligo o carro. — O álcool só mostra o que já mora dentro da gente.
Pelo retrovisor, vejo as meninas quietas demais.
— Que tal um sorvete?
Elas vibram.
Sweet enxuga as lágrimas.
— Isso nunca mais vai acontecer.
Eu acredito.
De novo.
Ela ganha minha confiança de vez no set.
Tudo acontece rápido.
A esposa de um dos atores invade a gravação. Quebra uma garrafa no balcão cenográfico. Avança com o gargalo na mão.
Eu não vejo.
Sweet vê.
Ela a empurra. Grita meu nome.
O diretor interrompe tudo. Sweet cobre meu corpo com um roupão.
E então o impossível.
A mulher olha para o marido.
Olha para mim.
E corta a própria garganta.
Sangue.
Gritos.
O marido cai de joelhos.
Eu recuo.
No fundo do estúdio, entre luzes e fumaça artificial, vejo Ga’al.
Sombrio.
Satisfeito.
Por que?
“Por você.”
Ele desaparece.
— Amiga, vem. — Sweet me conduz ao camarim. — Não foi culpa sua. Ela era louca.
— Louca por ele…
Até quando?
— Ele fez o mesmo com seu cafetão. — penso alto.
— Quem? Quem matou ele?
— Foi suicídio.
Minto.
Ela dá de ombros.
— Aquele desgraçado precisava morrer.
E você pediu.
Eu avisei.
Eu sei.
— Obrigada por me salvar lá dentro.
— Você fez o mesmo por mim. — Ela sorri para nosso reflexo no espelho. — Eu te amo.
— Também te amo.
Mentira.
— Homens não valem nada. — ela diz.
— Homens não valem nada. — repito, sem convicção.
Ela começa a trançar meu cabelo.
Um beijo no meu pescoço.
Meu corpo enrijece.
— Enquanto não encontra o homem certo, pode se divertir com uma mulher.
— “Não o encontra.” — corrijo automaticamente.
Ela ri.
As mãos deslizam até meus seios sob o roupão.
Brinca com os piercings.
— Você precisa relaxar.
— Para.
Ela continua.
— Nunca trepou com mulher de verdade?
— Raramente. E só em cena. Não é minha praia.
— É a minha.
Então é isso.
Eu fui cega.
— Eu sou tua amiga. Madrinha das tuas filhas. Não mistura as coisas. Tira a mão de mim.
Ela recua, mas sorri.
— Eu só queria te acalmar.
— Você me deixou pior.
Procuro meu vestido.
O corpo da mulher ainda está na sala ao lado.
Sangue fresco.
Culpa fresca.
— SWEET, VESTE A ROUPA.
Ela está nua.
— Você não me quer?
Eu avanço.
— Você enlouqueceu? Se veste agora ou eu sumo da sua vida.
Ela me encara. Avalia.
— Entendi… mas—
— Sem “mas”. Somos amigas. Só isso. Por suas filhas, não faz isso de novo.
Eu choro.
Preciso rezar.
Preciso pedir perdão.
Preciso que ele pare.
— Aonde você vai? — ela pergunta.
— Ficar sozinha.
— E você? — ela insiste.
Eu deveria ter prestado atenção naquele olhar.
Mas eu fui embora.
— Não. Eu preciso de paz, Sweet. De paz. — Esclareço, beijando sua testa antes de entrar no carro. — A gente se vê amanhã.
Despeço-me ao volante. Esquivo-me de seu toque porque não quero… não posso confiar no que vi quando esbarrei nela. Talvez eu não seja tão poderosa assim. Talvez nem tudo o que vejo ao tocar alguém seja verdade.
VOCÊ SABE O QUE VIU. E SABE O QUE SENTIU.
Sei.
Não quero pensar nisso.
É BOM QUE PENSE. NÃO CONFIE…
EM NINGUÉM.
— Padre?
— Pode falar, filha. — Incentiva do outro lado do confessionário.
A luz do fim de tarde invade pelas frestas da madeira. Vejo apenas fragmentos dele. A barba branca. A sombra do nariz. A respiração próxima demais.
— Do que tem medo?
— Fiz algo muito ruim, padre. — Confesso entre soluços. — Não temo o inferno. Sei que vou pra lá quando morrer. Só não quero que outros sofram pelo que fiz.
— Não tema o inferno. Ele está entre nós. Aqui mesmo. Não chore.
— Eu tô tão sozinha… — Minha voz falha. Engulo o choro. — Minha vida é inútil. Eu não quero mais viver assim.
— Não vai. — Ele afirma, calmo demais. — As coisas mudam. O tempo todo.
— Acho que matei duas pessoas.
Silêncio.
— Como?
— Eu fiz… eu pedi… — Assoo o nariz. Tento enxergá-lo pelas brechas. O perfume dele me atinge. Quente. Denso. Errado. — O senhor acredita em demônios?
Ele ri baixo.
— Sim. Eles nos cercam o tempo todo. Esperam uma brecha.
— Cercam o senhor também?
— Uh… huh.
Fecho os olhos.
— Me ajuda, padre. Existe um demônio na minha vida. Eu não o invoquei… eu acho. Não lembro. Lembro de um ritual com as bruxas pra afastá-lo. Não deu certo.
— Por que não? Você faz algo que o mantém por perto?
Ergo a cabeça, irritada.
— Tá me acusando de manter Ga’al ao meu lado porque ele me satisfaz na cama!?
— Eu não disse isso. Foi você quem disse.
— Por que vocês se escondem nessa caixa de madeira!? Eu preciso ver com quem estou falando!
— Não se exalte.
— Não sou sua filha! Eu não tenho pai! Ele me ferrou! Me ferrou pro resto da vida!
— O que ele fez?
Minha garganta queima.
— Ele me entregou a um demônio. Só isso.
— E por que você o mantém ao seu lado?
— Tá de sacanagem!? Eu tô buscando paz e o senhor me provoca!?
Ele ri.
— Você se satisfaz com esse demônio?
— Que tipo de pergunta é essa!?
— Sim ou não?
— Não! Eu odeio ter que fo… tre… — O ar falha. — Eu odeio ter que transar com ele todas as noites depois de trabalhar com isso o dia inteiro! Eu tô exausta!
CONTE A VERDADE. CONTE QUE VOCÊ GOZA ENQUANTO ELE TE POSSUI.
— Cala a boca. Cala a boca! Por que tá rindo!?
— Porque você discute com a própria voz. Engraçado. Talvez não seja uma voz interior. Talvez seja alguém que já existiu.
O chão some sob meus joelhos.
— Eu não vou sair da sua vida, Adessa. Não mesmo.
O sangue congela.
— Jesus…
— Errou, meu anjo.
— Ga… Ga…
— Uh… huh.
Corro. A porta da igreja se abre para a chuva pesada. Desço a escadaria quase escorregando. Meu carro. Só preciso do carro.
Antes de apertar o botão da chave, vejo o vulto.
Capuz. Mãos nos bolsos. Parado. Esperando.
Penso no spray de pimenta. Está no porta-luvas. Longe demais.
NÃO DEIXA ELE TOCAR EM VOCÊ.
— Como assim tocar em mim? Se tocar em mim, toca em você também!
NÃO É HORA. ABRA A PORTA.
— PARA DE GRITAR NA MINHA CABEÇA!
— Posso te ajudar? — A voz vem abafada pela chuva.
— FICA LONGE OU EU TE MATO!
Entro no carro, tremendo.
— NÃO OUVIU!? EU NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ!
— Mentira.
— SAI DA FRENTE!
— Fica. Por favor. Não fuja de mim de novo.
O mundo congela por um segundo.
Eu não fiquei.
E às vezes me pergunto se aquele foi o instante exato em que o destino decidiu não ter mais pena de mim.
— Não estou disposta, Sweet.
— Vamos! — Ela insiste ao telefone. — Vai ser divertido!
— Imagino… — Reviro os olhos, jogada na cama. — Você vai e depois me conta. Se quiser, fico com as crianças. Não trabalho amanhã.
— Vai sim… — responde, estranha.
— Não entendi.
— Deixa pra lá. Passo aí às dez.
— Sweet! — Rosno. — Qual parte do “você vai e me conta depois” você não entendeu?
Ela ri. Aquele riso. Acha que ninguém percebe quando ela ri por cima. Percebo. Sempre percebo. Ela é irritante. Mas é minha amiga.
— Fala logo.
— Ele vai à festa!
— Seu namorado? — Finjo entusiasmo. — Que ótimo. E por que eu deveria ir?
— Você precisa conhecer ele! Precisa me dizer se ele presta! Pelas minhas filhas!
Golpe baixo. Ela sabe onde apertar.
— Amiga… — ronrona.
Eu não sou seu homem, cacete.
— Onde mais eu estaria?
Silêncio.
Depois:
— Quem sabe você não encontra o homem de capuz na festa?
— Quem disse que eu quero encontrá-lo?
A voz dela muda.
— Eu vi nos seus olhos, Adessa.
Aquilo não era brincadeira.
— Esqueceu de tomar o Rivotril hoje?
Ela gargalha. Desliga na minha cara.
— Te pego às dez! Vai de vestido!
— Por que vestido? Sweet? Alô?
Silêncio.
A tela ilumina meu quarto escuro.
Palavras proféticas.
Eu nunca esqueceria aquela festa.
No espelho do closet, pareci patética no vestido curto e justo demais. Pensei no homem de capuz. Ridículo. Improvável.
Os copos de Coca-Cola vieram depois. Havia algo errado no gosto.
Então veio a dor.
Não foi só física. Foi o som da porta trancando.
Foi o olhar de Sweet.
Foi ela dizendo:
— “Divirta-se.”
E indo embora.
O resto virou um borrão de mãos e um linchamento sexual.
Não houve escolha.
Não houve consentimento.
Houve plateia.
Até que a porta se abriu outra vez.
E ele entrou.
Capuz. Fúria. Movimento.
Eu ouvi:
— Vem. Deixa eu te ajudar.
Depois disso, a música.
A mesma música tocando na minha cabeça enquanto tudo acontecia.
Nunca mais consegui ouvi-la sem sentir o coração disparar.
E, ao mesmo tempo, nunca consegui lembrar por quê.
As memórias ligadas àquela noite foram arrancadas de mim como se alguém tivesse passado uma borracha na parte mais suja da minha alma.
Mas não apagaram ele.
O cheiro de maçã verde.
A voz doce demais para aquele inferno.
Enquanto tento ser a garota de programa mais bem paga da cidade, falhando miseravelmente, é nele que penso.
Não no trauma.
Nele.
No homem de capuz.
Meu salvador.
No palco do “California”, danço sob luzes que não aquecem.
E a vejo sorrindo para mim.
— Sweet.
Minha melhor amiga.
DIAS ATUAIS
— E por que não quer, filha?
— Porque não. — Antoine cruza os bracinhos, emburrada.
Amo cada expressão daquele rosto. Cada biquinho dramático.
— Você disse que estava gostando da escola.
— Mas agora não gosto mais. — Ela ajeita a mochila das princesas nas costas. — Eu preciso ir, mãe?
Respiro fundo.
A simples ideia de alguém ter magoado minha filha enrijece meu corpo inteiro. Evito tocá-la. Não quero visões. Não quero sentir nada além do que ela escolher me contar.
Ajoelho diante dela.
— O que aconteceu?
Ela hesita.
— Do que ele te chamou?
— De “neguinha do cabelo duro”.
Silêncio.
Algo dentro de mim se parte.
— Meu cabelo não é duro, mãe.
— Não. — Minha voz sai baixa demais. — Seu cabelo é lindo. Cheiroso. Forte. Igual você.
Abraço Antoine e engulo o impulso de esmagar o crânio de um menino de sete anos.
— Amanhã eu resolvo isso. Está bem?
— E hoje? Eu preciso ir?
Faço uma careta exagerada. Ela ri.
— Você é engraçada, mãe.
— Sou?
— É sim. Por que a senhora conversa com a voz?
Meu estômago desce.
— Que voz?
FAÇA ALGUMA COISA. AGORA.
Não. É só uma criança.
COMECE PELA DIRETORA. E PELOS PAIS.
— Por que está rindo, filha?
— Meu tio diz que a senhora é engraçada.
Congelo.
— Que tio?
Sento-a no colo.
— Você tem tantos, né?
— Tenho! — Ela mostra os dedinhos. — Tio Lu, Tio Miguel e o tio sem nome.
Meu coração falha um compasso.
— Tio… sem nome?
— Uh huh.
— Esse Tio Lu fala com você?
— Quase sempre. Ele é super engraçado. Diz que eu sou a borboletinha dele.
Um arrepio percorre minha espinha.
— Ele já disse o nome completo?
— Tio Lu, ué!
— “Lu” é apelido, filha. Pode ser Luciano. Lucas. Ludmila—
Ela gargalha.
— Ludmila é nome de mulher, mãe! Meu tio é homem!
Sorrio. Forçado.
— Ele toca em você?
— Não! — Ela franze a testa. — Ele só fala comigo quando eu durmo.
O ar fica pesado.
— Jesus…
— Não, mãe. — Ela me corrige, simples. — O Tio Lu não gosta de Jesus.
Meu sangue esfria.
— Não gosta?
SE CONTROLE.
— Por quê?
— Porque o pai dele gosta mais de Jesus do que dele.
Demoro alguns segundos para processar.
— Então… o Tio Lu e Jesus são irmãos?
— São.
Ela diz isso como se estivesse explicando que o céu é azul.
Tiro os sapatos dela. Meias três quartos. Pernas balançando no sofá.
— Que pai é esse, Antoine?
— Sempre a verdade, mãe. — Ela levanta o bracinho, repetindo nosso lema. — Sempre a verdade.
Ela me encara.
— Por que você está com medo? Meu tio é legal.
— Legal.
— Claro.
— Um tio que aparece nos sonhos.
— Que não gosta de Jesus.
— Que sente ciúme do Pai.
— E me chama de engraçada.
Eu sorrio.
— Jesus é legal também, filha.
Ela inclina a cabeça.
— O Tio Lu diz que você ainda não lembra dele.
Meu coração para.
— Eu já disse. — Antoine revira os olhinhos. — Ele ficou triste porque o pai dele não quer mais falar com ele.
Meu cérebro começa a correr.
Um pai que não fala mais com o filho.
Um filho com raiva de Jesus.
Um “Lu”.
ORA BOLAS! ACORDA!
Que tio seria esse?
Um tio magoado com o Criador?
Com ciúme do Filho?
Ludovico.
Lúcio.
Louis.
Luc…
— NÃO OUSE TERMINAR ESSE NOME.
— Mãe! Olha pra mim! Tá doendo!
— Eu volto.
Minhas mãos estão apertando os bracinhos dela.
— Filha! Perdão! — Solto-a imediatamente. — Me desculpa. Eu tô nervosa.
Ela me encara, confusa.
— Você precisa me contar tudo. Existem pessoas muito ruins no mundo. Eu preciso te proteger. Que tio é esse?
— É o Tio Lu. — Ela suspira. — Ele não toca em mim. Só conversa quando eu tô com sono. Mas eu prefiro conversar com meu outro tio.
Meu coração dispara.
— Outro? O Miguel?
— Não. — Ela se espreguiça, tranquila demais. — Tio Miguel não conversa. Ele só sorri pra mim e me protege quando eu fico com medo.
Frio.
— Quem conversa comigo quando eu tô acordada é o outro… — Ela fecha os olhos, sorrindo. — Ele é tão lindo, mãe.
O ar some.
— Como ele fala com você?
— Eu escuto a voz dele aqui. — Ela aponta para a própria cabeça. — É bem legal.
Estou quase hiperventilando.
— Ele tem nome?
— Tem. Mas não quer falar.
— Por quê?!
— Pra não deixar a senhora nervosa.
Eu rio. Um riso quebrado.
— Mas eu já estou nervosa, Antoine! Quem é esse tio?!
— Não grita, mãe… — Os olhos dela se enchem d’água.
Eu a puxo para o colo, imediatamente arrependida.
Ela é só uma criança.
Mas está conversando com algo que sabe demais.
— Ele disse que é nosso segredo.
— Nós não temos segredos. Lembra?
— Tá me machucando de novo…
Solto-a como se tivesse encostado em fogo.
— Perdão. Perdão.
Eu a embalo. Tento não tremer.
Uma suspeita absurda cresce dentro de mim, tomando forma, criando nome.
Um nome que eu me recuso a pronunciar.
— Não esquece que eu te amo pra sempre. Está bem?
— Eu também, mãe.
— Somos só nós duas contra o mundo. Certo?
Ela ergue o dedo mínimo.
— A senhora e eu contra o mundo todo.
Eu sorrio.
Mas, pela primeira vez, não tenho certeza se o mundo é o que está do lado de fora da porta.
— Promete que nunca mais vai conversar com esse “tio sem nome”? — peço, deitada ao lado dela na minha cama king size. Grande demais pra uma só pessoa. Pequena demais pra perder minha filha.
— Prometo, mãe. — Ela boceja. — Mas ele vai ficar triste…
— Talvez mereça. Deixa ele sofrer.
Ela dorme rápido.
Eu não.
É a segunda vez que atravesso esse corredor.
Da primeira vez, eu vinha com esperança.
Hoje, venho armada.
Como não percebi antes o quanto ele é estreito? Comprido demais. Silencioso demais.
Os quadros nas paredes me encaram. Fundadores mortos. Professores mortos. Sorrisos inexistentes. Expressões rígidas.
Parecem vigiar.
— Posso ajudar?
Quase salto.
— Não. Obrigada. Preciso falar com o diretor. Onde fica a sala dele?
— Normalmente, ali no fim do corredor. — Ele aponta. — Mas hoje estará na sala próxima à escadaria. Reunião de pais.
Percorro o braço dele com os olhos até o rosto.
Negro. Elegante. Calmo demais.
— E por que ele muda justamente hoje? — resmungo.
— Porque hoje é o dia da reunião. A senhora não foi avisada?
— Fui.
Esqueci.
Eu não quero reunião.
Eu quero justiça.
— A senhora está se sentindo bem?
— Perfeitamente. Só preciso falar com o diretor. A sós.
— Creio que hoje será impossível.
— O grande coordenador dessa fábrica de pequenos racistas é inacessível agora?
Ele mantém a calma.
Isso me irrita mais.
— Minha filha foi chamada de “neguinha do cabelo duro”. Cinco anos. O senhor acha cedo demais para aprender ódio?
O maxilar dele tensiona.
— É inaceitável.
— Então onde está o diretor omisso?
Ele sorri. Pequeno. Quase divertido.
Estende a mão.
— Aqui estou eu. Fernando. O diretor… omisso. É um prazer inusitado conhecê-la, senhora…?
— Droga.
— Adessa Santoro. Mãe de Antoine Santoro.
Mentira.
A mentira pesa na língua.
Ele me observa como se visse além da pele.
— Queira me acompanhar.
A mão dele toca minhas costas.
Flash.
Um sorriso tranquilo.
Um ombro masculino.
Luz de televisão refletida em olhos serenos.
Dedos entrelaçados com outros dedos.
Amor.
Ele ama alguém.
O alívio me atravessa como água fria.
— Estarei ao seu lado. — Ele diz baixo. — Confie em mim.
Confiança. Palavra perigosa.
Entro na sala.
Olhares.
Sempre os olhares.
Sento no fundo. Endireito a postura. Engulo o inferno que mora atrás dos meus dentes.
— Não te conheço de algum lugar? — pergunta um pai ao lado.
— Não. — Seco. — Fique quieto.
Ele sorri. Eu afundo na cadeira.
Isso não vai dar certo.
E, pela primeira vez desde que pisei aqui, não sei se o perigo está nos pais, no diretor…
Ou dentro de mim.
Meu mundo ruiu ali, no meio daquelas cadeiras alinhadas e olhares tortos. A fantasia de mulher inabalável foi arrancada quando o desgraçado, berrando, disse de onde me conhecia. Num segundo eu era mãe dedicada; no outro, virei “puta arrogante” na boca de gente que se acha decente.
Até pouco tempo atrás eu respondia com punho fechado. Hoje não. Hoje eu sou mãe. E foi por Antoine que eu atravessei aquela porta. Por ela eu engoli o orgulho e sentei naquela sala cheia de gente vazia.
Levanto devagar. Puxo o ar como se ele pesasse uma tonelada.
— Eu não posso mudar o que fui, nem o que fiz. Mas estou aqui pela minha filha. E não saio enquanto não fizerem alguma coisa por ela.
— Desde quando puta tem filha?
O golpe vem seco.
— Desde que a tua te pariu. — A resposta sai antes do juízo. Baixo o queixo, sentindo o gosto amargo da própria impulsividade. — Façam o que quiserem comigo. Mas não encostem na minha filha. Ela não paga pelos meus erros.
— Que erros, senhora? — O diretor finalmente fala. A voz firme corta o burburinho. — A vida particular dela não está em pauta. Estamos aqui para falar dos alunos.
Um pai debocha:
— A diferença é que a gente não grava o que faz entre quatro paredes. Ela grava.
— E o senhor consome — rebate o diretor, frio. — Podemos agir como adultos ou encerrar a reunião?
Ergo o braço, a coragem tremendo na ponta dos dedos.
— Minha filha sofreu bullying aqui. Ela é pequena… doce… — a voz falha. — Por favor. Não machuquem minha filha.
— Vai puxar a mãe — rosna a mulher de roupa caríssima.
Estou prestes a voar no pescoço dela quando outro ataque me desmonta.
— E essa menina é sua legalmente? O Conselho Tutelar sabe que vive com uma puta?
O chão some. O medo entra gelado pelos ossos. Eu a tirei da rua. Não chamei ninguém. Fiz o que achei certo. Eles podem me denunciar.
Vai deixar que te esmaguem? Levanta.
O diretor sussurra para eu me acalmar.
— NÃO. — Fico de pé. A voz ecoa mais alta do que eu imaginava. Pego o lenço da mão dele, assoo o nariz sem cerimônia. — Ninguém vai mexer com a minha filha. Quem foi que chamou ela de “neguinha do cabelo duro”?
Silêncio. Um silêncio covarde.
— Como você sustenta essa criança? — alguém pergunta lá atrás.
— Não é da sua conta.
Eu olho para a mulher de grife. Tem algo ali. Mais que preconceito. Culpa.
Dou um passo.
— Só me diz quem fez minha filha chorar.
— Eu me recuso a ficar na mesma sala que essa mulher — ela dispara.
— A porta está aberta.
— Não vou sair.
— Então fica. E responde.
— Não me toca!
Eu nem toquei. Mas fecho os olhos no meio da confusão, porque algo em mim já sabe.
Vejo o refeitório. As mesas grandes. A mochila das princesas caída no chão. Antoine em pé, segurando o próprio lanche com as duas mãos pequenas.
— Por que você não gosta de mim?
Um menino loiro ri. Outros riem junto. Ele corre para o carro parado na frente da escola. A mãe elegante o recebe com um abraço orgulhoso.
— Do que você chamou ela? — pergunta.
— De neguinha do cabelo duro.
Ela não corrige. Não repreende. Sorri.
A cena se desfaz. Abro os olhos.
Do outro lado do portão de ferro, minha menina aparece na minha memória como um soco. Sozinha. Abraçada ao ursinho. Tentando ser forte.
Antoine, meu anjo.
E ali, naquela sala, eu deixo de ser ré. Viro trincheira.
— Foi o seu filho. — Eu volto para o meu corpo como quem cai de uma altura absurda. Os olhos ardem. — Foi ele que fez a minha filha chorar. Você sabia. E ficou quieta. Você sabia! Ela é só uma criança!
— Adessa, calma — o diretor tenta me alcançar, mas a sala já virou um borrão.
— Calma é o caralho. CRETINA!
Perco o freio. Perco o resto de razão que ainda me segurava na cadeira. Eu avanço. A mão encontra o rosto dela com um estalo seco. Outro. Gritos. Cadeiras raspando. Alguém me puxa pelos braços.
— Me solta! Ela sabia! Racista desgraçada!
Braços firmes me envolvem por trás. Um corpo sólido. Um cheiro que eu reconheceria no escuro.
— Ela vai pagar. Se acalma. — A voz grave escorre no meu ouvido. Um beijo rápido na minha bochecha. Os dedos dele passam pelos meus cabelos bagunçados como se eu fosse feita de vidro. — Vamos pra casa, amor. Nossa filha está esperando.
— Amor?
A sala inteira emudece.
— Quem é o senhor? — o diretor pergunta, desnorteado. — É parente da Antoine?
— Sou o pai dela. — Ele diz sem piscar. — Pai da Antoine. Marido da Adessa.
— Marido.
O silêncio agora é pesado.
Ele encara a multidão que, minutos antes, me apedrejava com palavras. O olhar dele não grita. Não precisa. Promete.
— Não vou esquecer o que fizeram com a minha família. — Depois, para o diretor: — Tomarei as providências.
Os olhos dele param na mulher elegante. Um sorriso lento, indecifrável. Ela encolhe na cadeira.
Eu, que ainda tremo, me sinto… protegida. É ridículo, mas é verdade.
Ele me conduz para fora. Um beijo na minha testa. O estacionamento parece outro mundo.
Encostada no carro, puxo o ar com força e olho para ele.
— Por que você fez isso? Como sabia que eu estaria aqui?
— Intuição.
— Você é algum tipo de mágico? — Eu observo aquele sorriso torto. — Por que eu não consigo ler o que você pensa?
— Porque eu não fico pensando. Eu faço.
Eu rio, mesmo querendo não rir.
Ele abre a porta do meu carro. Apoia o queixo na lataria, perto demais.
— Me deixa voltar pra sua vida, Adessa. Eu senti sua falta.
Meu peito aperta. Eu lembro de tudo. Das suspeitas. Da sombra que ainda paira sobre a morte do meu filho. Nada está esquecido.
— Eu não sei. Nada é como antes.
— Eu sei. É por isso que eu estou aqui. Pra ficar do seu lado.
— Você ameaçou aquela mulher.
— Ameacei. — Ele sustenta meu olhar. — E eu cumpro o que prometo.
Um arrepio sobe pela minha espinha.
— Quem é você, Aiden?
Ele chega um pouco mais perto. A resposta vem baixa, quase íntima demais.
— Alguém que te amou antes. E que nunca parou de amar. Me dá uma chance. Eu faço você feliz.
A brisa fria corta meu rosto. Eu sorrio, pequeno, inseguro.
— Deixa?
Eu entro no carro, as mãos no volante, o coração bagunçado.
— Talvez. Me liga à noite.
— Eu vou ligar. — Ele diz com uma certeza que parece destino.
Pelo retrovisor, vejo ele parado ali, me observando ir embora. Ele ergue a mão e repete, com os lábios:
— Eu vou ligar.
Talvez ele não seja tão mau quanto penso.
Talvez você precise de uma transfusão de cérebro.
Talvez você cale essa voz maldita e me deixe respirar.
TALVEZ VOCÊ PRECISE DAR A VOLTA AGORA, SUA IMBECIL!
— MEU DEUS! ANTOINE! — A mão no peito, o ar faltando. — Como eu pude esquecer dela?!
Eu corro. Ela corre. O portão de ferro parece maior do que nunca.
— Perdão, filha! Perdão! Eu nunca mais vou te deixar pra trás! — Eu me ajoelho, esmagando-a contra mim.
— Mãe, olha pra mim! Para de chorar!
— Eu fiquei nervosa na reunião, eu...
— Eu não tô triste! — ela insiste, aflita.
Eu paro.
— Então por que você tá assim?
— Meu tio falou uma coisa.
O mundo inclina.
— Que tio?
Silêncio.
— Não é o Tio Lu.
Meu estômago afunda.
— Antoine. Com quem você falou?
Ela engole seco.
— Com o tio sem nome.
Claro. Óbvio. O invisível que sempre esteve ali.
— O que ele disse?
— Que você não pode deixar o homem mau entrar na nossa casa.
O frio sobe pela minha coluna.
— Homem mau.
Eu tiro a chave da ignição antes que minhas mãos matem nós três. Abro a porta. Preciso de ar. Preciso de chão.
E então a mão no meu ombro.
— Dess. Me escuta.
A voz.
— Não se atreva a...
— Tio! — Antoine grita, iluminada.
Iluminada.
Ele passa por mim como se eu fosse névoa.
— Pirralha. Finalmente posso te abraçar.
Ela se joga nos braços dele como se o conhecesse há vidas.
— E conhecemos — ele murmura, quase para mim.
Meu sangue ferve.
— Entra no carro. Agora.
— Não fala assim com ela — ele diz, calmo demais.
Calmo é sempre perigoso.
— Você tá linda, Dess. Senti sua falta.
A mesma frase.
A mesma cadência.
A mesma promessa envenenada.
Antoine ri, abraçada ao pescoço dele.
— Ele é bacana, mãe! Ele gosta da senhora!
Claro que gosta. Predadores sempre gostam.
Ele te contou que dormiu com a minha melhor amiga? Que gosta de machucar enquanto finge carinho?
— Dess… — ele sussurra.
— Larga a minha filha.
Ele hesita um segundo. Um segundo longo demais.
— Eu não fiz nada disso. Nada.
Mentira dita olhando nos meus olhos.
Antoine volta para meus braços. Ele toca minha mão de leve. A pele queima.
— Tem medo que eu veja o que você é? — eu provoco.
— Tenho medo que você escolha outro.
Isso não é resposta. É posse.
— Você é cruel.
— Dess, quando o outro pedir pra entrar, você precisa dizer não.
Outro.
Eu congelo.
— Que outro?
Ele não responde. Só aquele meio sorriso indecifrável.
Ele beija minha bochecha. Antoine vibra no banco de trás como se fosse festa.
— Te amo. De verdade.
Claro que ama. Amor, na boca dele, soa como ameaça.
Fecho a porta. Minhas mãos tremem no volante.
— Ele é legal, né, mãe?
Eu olho pelo retrovisor. Ele parado. Observando. Esperando.
— É sim, filha. Muito.
Engulo em seco.
Minha voz falha quando ela fala de novo.
— Mãe?
— Oi, amor?
Ela me olha pelo retrovisor.
Séria demais para uma criança.
— Quando o outro pedir pra entrar…
Pausa.
— diga não.
Franzo a testa.
— Outro quem?
Antoine encolhe os ombros.
Como se fosse óbvio.
— O homem mau.
Meu coração trava.
— Que homem, Antoine?
Ela apoia o queixo no banco.
Tranquila.
Assustadoramente tranquila.
— O que vem depois.
Silêncio dentro do carro.
Então ela completa, quase num sussurro:
— Ele disse que você ia entender.

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