CAPÍTULO 2 - O PACTO
Ga’al me deu tudo o que prometeu.
Festas caras. Gente rica. Gente “bacana” que paga caro por companhia e silêncio. Não é só pela grana. São os contatos. Os contatos trazem mais dinheiro. Mais portas abertas. Mais poder.
Aprendi rápido a não ser burra. Não jogo dinheiro fora. Invisto. Multiplico. Ouço conselhos de homens que me usam à noite e me ensinam sobre mercado financeiro de manhã.
Hoje, eu poderia comprar uma casa na praia e sumir. Ficar de boas. Sem ninguém me tocando. Sem ninguém me pedindo nada.
Meu sonho? Uma cidade pequena na Itália ou na Irlanda. Escrever sobre essa vida estranha que parece roteiro mal escrito.
Talvez eu consiga.
Se Ga’al não me destruir antes.
A fome dele não é normal. Não é humana. Nunca se satisfaz.
Por que eu?
Há bilhões de mulheres no mundo.
— Porque você gosta de ser puta.
Ele diz isso com convicção. Como se me conhecesse melhor do que eu mesma.
Eu pedi tempo. Preciso trabalhar. Estudar. Dormir. Coisas humanas. Coisas que exigem pausa.
Mas pausa não existe quando se faz pacto com o inferno.
Ele invade minhas noites. Meu corpo responde antes que minha cabeça consiga protestar. E isso me enfurece mais do que qualquer coisa.
O pior não é ele me tocar.
É eu sentir prazer.
Talvez venha da infância. Do amigo do meu pai. Aquele desgraçado que me encostou na parede enquanto a música tocava na sala.
COMO MINHA MÃE ME DEIXOU SOZINHA?
Respiro.
Pobre mãe. Amava demais. Amou errado. Pagou caro.
Convenci Ga’al a me dar folga. Negociei como negocio cachê. Ele pode me ter quando eu voltar para casa. Mas não durante o trabalho. Não na frente de clientes.
Ele aceitou… do jeito dele.
Às vezes sinto sua presença quando estou com outro homem. Ele gosta de marcar território. Eu odeio admitir que, em certos momentos, meu corpo gosta da disputa.
Isso é doença.
Ou pacto.
Não sei mais.
Às vezes queria uma amiga de verdade. Alguém para dividir essa loucura. Trabalho com uma garota na boate. Bebemos juntas. Ela tem duas filhas lindas. Luta por elas.
Eu luto por dinheiro.
Ela olha para mim de um jeito diferente. Finjo não perceber. Não me atraio por mulheres. Em vídeo, por dinheiro, tudo bem. Na vida real, não.
Nada me atrai além da sensação de acumular.
Mais.
Sempre mais.
Ela nunca foi minha amiga.
Mas isso eu ainda não sabia.
Ter um demônio na sua vida não tem glamour. Não tem erotismo constante. Tem vigilância. Tem invasão. Tem uma sensação permanente de dívida.
Eu fui burra naquela noite na lareira.
Eu aceitei.
Agora ele está em todos os lugares. Às vezes sinto que vai atacar qualquer um que chegue perto demais.
Queria voltar no tempo.
Mentira.
Sofri demais para juntar o que tenho.
Ainda não é suficiente.
Nunca é.
É assim que ele pensa.
É assim que eu estou começando a pensar.
Isso vai acabar um dia.
Ou eu acabo antes.
Ergo-me do sofá e entro no clima.
Caminho nua pelo set. Mãos me tocam enquanto passo. Não estava no roteiro, mas o diretor gosta da espontaneidade. “Realismo vende”, ele diz.
Cena clichê: mulher atacada num bar.
Eu queria gravar algo diferente. Dançar sob luz suave. Ser aplaudida. Conversar com alguém antes de ir para a cama.
ACORDA, ADESSA.
Sou empurrada da mesa de sinuca. O vestido rasga. Eu grito, xingo, me debato. Eles riem. A câmera adora.
Repetição. Corpos. Movimento. Gemidos ensaiados.
Tudo coreografado.
Tudo vazio.
Dinheiro na conta. Nenhuma emoção.
Passei de garota de programa a “Rainha do Pornô” rápido demais.
Ou talvez eu já fosse isso e só não sabia.
Ga’al despertou algo em mim que eu não queria conhecer.
— Ninfomania — diz a ginecologista com delicadeza clínica.
Transtorno do Desejo Sexual Hiperativo.
Soa bonito. Científico.
— E tem cura?
— Internação. Psiquiatra. Psicólogo. Disciplina.
Disciplina.
Volto para o apartamento luxuoso. Silencioso demais. Grande demais. Vazio como meu peito.
Doente?
Que viciado assume o vício antes de quebrar?
O cérebro pede mais. Sempre mais. Mais estímulo. Mais descarga. Mais dopamina.
Se eu ficasse trinta dias longe disso tudo, talvez o cérebro desaprendesse.
Talvez eu voltasse a ser a garota que se formou em Educação Física e queria trabalhar com crianças.
No espelho, não reconheço ninguém.
— Me deixa dormir.
Ele vem.
Não preciso vê-lo. Sinto.
A presença. O calor. A invasão da minha paz.
— De onde eu te conheço?
— Não importa. Tu és minha.
Eu falto à faculdade de Psicologia. Falto a mim mesma. A cama virou trincheira.
Preciso entender. Preciso quebrar isso.
Como começou? Por que ele?
Eu ainda não sabia, mas descobriria.
Decido limitar o acesso dele.
Leio sobre magia, feitiços, rituais. Entro em grupos. Converso com mulheres que dizem saber libertar almas presas.
“Nós vamos te ajudar.”
Ga’al percebe.
O olhar dele muda.
Há raiva.
Naquela noite, ele não é desejo. É fúria. É domínio.
Eu imploro que pare.
Ele ri.
E quando me machuca de verdade, algo em mim endurece.
Se antes eu estava presa por culpa, agora estou presa por revolta.
Ele acha que me controla.
Mal sabe ele que quando eu decido sair de algo, eu saio.
Mesmo que precise atravessar o inferno para isso.
Para sempre.
Por vezes, penso que ele quer se vingar de algo ou alguém.
Por vezes, há algo quase humano em seus olhos.
O que me assusta mais.
Estou em uma clareira. A fogueira estala alto demais, como se quisesse falar comigo. Minha intuição grita para eu ir embora.
Eu fico.
Ainda tenho muito a aprender.
As bruxas me recebem com abraços e olhares famintos. Dizem que vão me libertar. Eu mal consigo estudar. Mal como. Quando ele me deixa sozinha, a compulsão me engole. Gravo vídeos. Posto. Recebo. Me odeio.
O que está acontecendo comigo?
Eu costumava achar que controlava isso.
— Confia em mim? — pergunta a sacerdotisa.
Tenho escolha?
— Sim.
Mentira.
Bebo. Danço. Me deixo levar. As mulheres se tocam, riem, gemem ao redor do fogo. Tudo parece liberdade.
Não é.
Há magia ali. Mas não é a magia que eu sonhava quando via a menina de asas púrpuras nos meus sonhos de infância.
Essa é suja. Pegajosa. Antiga.
Deito perto da fogueira. Tonta. Perdida. Pergunto como matar Ga’al.
A mais velha me observa como quem aguarda o momento certo de colher fruta madura demais.
Eu sinto prazer, mas não é prazer. É torpor. É anestesia.
Ela recolhe algo de mim. Guarda num cálice dourado entalhado com caveiras.
Meu estômago revira.
Quando tento me afastar para o lago, ela me puxa.
— É preciso ter o cheiro certo para atraí-lo.
Cheiro.
Não libertação.
— Ele está chegando.
Meu coração dispara.
— O que eu faço?
— Entregue-se.
Claro.
Sempre isso.
Ga’al surge com a tempestade. Trovão. Chuva. Pedra fria sob minhas costas.
Ele me toma com brutalidade ritualística. Não é desejo. É afirmação de poder.
Eu sinto a magia circular. Não é para me libertar.
É para invocar.
A velha recolhe também o que é dele. Mistura no cálice. As mulheres cantam “Dessumiis Luge” num dialeto antigo demais para ser humano.
Eu reconheço a vibração.
Maldição.
Não estão quebrando vínculo.
Estão selando outro.
Vomito.
E no meio do caos, algo desperta dentro de mim.
Não medo.
Raiva.
E pela primeira vez, a fogueira não parece querer me avisar.
Parece estar respondendo.
A histeria explode quando a mais velha grita:
— Está acabando!
O vento muda de direção. A fogueira se inclina como se reverenciasse algo invisível.
Ela invoca Hécate. A deusa dos caminhos cruzados. Dos mortos. Dos que vagam entre mundos.
Eu encaro os olhos de Ga’al. Pela primeira vez, vejo algo diferente ali.
Não é fome.
É surpresa.
— Que Ga’al seja amarrado por este talismã! — a sacerdotisa clama. — Que seja banido da Terra e da vida de Adessa!
O ar se rasga acima de nós.
Não é metáfora.
É uma fenda escura, pulsante, que engole a forma dele enquanto ele tenta se manter inteiro. A pele dele se desfaz em sombra. O corpo perde contorno. Ele tenta me alcançar.
Tarde demais.
O vazio o suga.
Silêncio.
A fenda se fecha como uma boca satisfeita.
— Acabou? — eu sussurro.
A velha sorri. Os olhos dela brilham demais.
— Está livre… até que o outro tome o lugar.
Outro?
Não consigo formular a pergunta.
Apago.
Ga’al desaparece.
E eu espero melhorar.
Não melhora.
Continuo dançando no California. Continuo tirando a roupa. Continuo buscando algo que não tem nome.
O desejo não foi embora com ele.
Então talvez ele nunca tenha sido a origem.
Talvez eu seja.
Sou minha doença.
Sou meu vício.
Na festa de Sweet, o garçom insiste em me entregar bebidas já abertas. Eu deveria perceber. Não percebo.
Eu queria estar dormindo.
O cansaço me toma de repente. O chão inclina.
Quando abro os olhos, estou em outro lugar.
Sujo. Fechado. Corpos ao redor. Risos que não são risos.
Demora para eu entender.
— NÃO!
Eles não param.
E dessa vez não é encenação.
Eu luto. Cuspo. Vomito. Sangro. Grito.
Nada interrompe.
Até que uma voz corta o ar.
— Bando de covardes!
A presença dele não é sombra.
É luz.
Uma luz que dói nos meus olhos inchados.
— Me ajuda… — estendo a mão.
Ele me pega no colo como se eu não pesasse nada.
— Eu sei. Você foi dopada.
A voz dele não é possessiva.
É firme.
Ele beija minha testa.
— Nunca mais vou deixar que te machuquem.
E eu acredito.
Porque quando se está quebrada no chão, qualquer promessa de proteção soa como salvação.
Eu o procuro por toda parte, embora nunca tenha visto seu rosto com clareza.
Lembro do perfume cítrico. Da voz grave. Da forma como me chamou de “anjo” como se eu ainda merecesse esse nome.
Por que eu não abri os olhos?
Porque eu estava bêbada. Drogada. Arrebentada por dentro e por fora.
Semanas se passam. Volto ao local da festa. Recebo outro convite.
“Pagam quanto?”
Aceito.
Dessa vez não me drogam. Me amarram. Eu consinto. Pelo dinheiro. Pela esperança absurda de que ele apareça de novo.
Tenho medo de perder o controle.
Tenho mais medo de admitir que talvez ninguém venha me salvar outra vez.
Me deixo usar.
Me deixo tocar.
Enquanto tiro a roupa, penso nele. Talvez esteja ali. Talvez esteja me observando.
Talvez seja um erro procurar por alguém que parece santo demais para me tocar outra vez.
Talvez eu esteja suja demais.
Talvez morrer fosse mais simples.
Olho para os ansiolíticos ao lado da garrafa de vinho.
Seis comprimidos.
Um gole.
E então —
“Não faça isso.”
A voz não vem do quarto.
Vem de dentro da minha cabeça.
“Cuspa agora.”
O susto me faz reagir. Vomito antes que o corpo decida o contrário.
— Quem tá aí, porra?!
Silêncio.
Mas ele continua.
“Eu nunca mais vou deixar que te machuquem.”
Não há ninguém no quarto.
Só eu.
E a promessa.
Durmo sorrindo como uma idiota que encontrou motivo para existir numa frase.
Ao acordar, Ga’al ainda é uma sombra na minha memória.
Não houve pacto.
Ele invadiu.
E algo me diz que ainda não acabou.
Algo me diz que vou sofrer muito.
Algo me diz que posso ser feliz se reencontrar o homem da voz.
Algo me chama de estúpida.
“Volte a dormir.”
E eu obedeço.
Acordo bem disposta depois de meses arrastando meu próprio cadáver pela vida. O sol entra pelas frestas da persiana e, pela primeira vez, não penso no California nem nos clientes que já lotaram minha caixa de mensagens.
Pulo da cama. Banho gelado. Tênis de corrida.
Estou feliz.
E sei exatamente por quê.
A voz dele ontem à noite foi real demais para ser sonho.
Corro oito quilômetros na orla. Sorrio para crianças. Penso na borboletinha de asas púrpuras.
Uma ideia absurda atravessa minha mente.
Ser mãe?
Eu?
Nunca.
Uma puta não vira mãe.
Eu acho.
Talvez…
Sou empurrada por alguém vindo na direção contrária.
— Olha por onde anda, caralho!
Ele ri sem olhar para trás.
Arremesso um chinelo velho da calçada. Acerto em cheio.
— NÃO DOEU! — ele grita. — Da próxima, você acerta!
Fico parada vendo ele sumir entre os corredores da ciclovia.
— Filho da puta.
Perdi a vontade de correr.
— Mas você tá suada!
Reviro os olhos para Giulia, atrás do balcão da cafeteria.
— Eu estava correndo. Até um babaca me empurrar.
— E por isso você parou?
Boa pergunta.
— Perdi o interesse.
Tomo um gole do cappuccino.
— Giulia, você ainda vai ter uma rede de cafeterias espalhadas pela cidade. Esse croissant é obscenamente bom.
Ela ri e beija minha bochecha.
— Que Deus te ouça.
— Ele ouve — diz uma voz atrás de mim.
Meu corpo reconhece antes da mente.
— Ele sempre ouve as almas puras.
Eu rio sem virar.
— Então manda Ele ouvir a Giulia, porque a mim Ele ignora faz tempo.
— E por que ignoraria?
— Porque deixei de ser inocente.
Silêncio.
— Você não precisa acreditar n’Ele. Ele acredita em você.
Giro a cadeira.
E o mundo dá uma leve inclinada.
Olhos azuis demais para serem normais.
— Tá rindo de mim?
— Só não quero levar outra chinelada.
— Cacete. Era você?!
— O babaca da corrida. Em carne e osso.
Cubro o rosto.
— Eu sou um pouco impulsiva...
— Um pouco?
— Muito! — avisa Giulia, servindo um cappuccino ao desconhecido que me encanta.
Ele leva a xícara aos lábios. O Pomo-de-Adão se move a cada gole. Nuss. Por você, eu não cobriria nada.
— Acorda, tia!
— Oi!? — Os olhos de Giulia giram nas órbitas. A mensagem é clara: “Tá dando muito mole.”
— Ah! Tá! Vou pagar a conta! Tenho... tô... tem... cacete! Quanto te devo!?
— Eu pago. — O estranho se adianta, mostrando o cartão. — Crédito ou débito?
— Débito. — Arquejo, arregalando os olhos.
Ele sorri. Lento.
— Inclua o dela, por favor — pede a Giulia.
— Nunca!
Afoita e estranhamente irritada, arranco o cartão da mão dele e o atiro contra seu lindo rosto. Giulia resmunga um “caraca, tia”, enquanto ele me observa com curiosidade. Aquele olhar puro me incomoda.
— O quê!? Acha que não tenho grana pra pagar por brioches e café!?
— Minha intenção não foi a de te ofender.
— Tia, ele só queria ser gentil.
— Conheço esse tipo de homem. — Rosno, encarando-o.
Ele sustenta meus olhos. Há algo ali. Fascinante. Errado. Familiar demais.
— Talvez não.
— Porra! Tu leu meu pensamento!
O sorriso dele é quase infantil. E eu sinto um negócio na boca do estômago.
— Tia! — repreende Giulia. — Ele é meu cliente!
— Que cliente, Giulia!? Ele sequer comeu um brioche!
Ele se inclina sobre o balcão, tranquilo.
— Não seja por isso... Um brioche, por favor.
Sem tirar os olhos de mim.
Perco o controle.
— Eu sei o que ele queria, meu anjo! É desse tipo de homem que você deve se manter afastada, entendeu???
Meus olhos encontram os de Giulia. Toco sua mão.
E vejo.
Ela gritando por socorro em algum lugar imundo.
Retiro a mão num reflexo. Meu tronco recua. A cadeira cede. Caio de bunda no chão.
— PORRA! QUE PORRA FOI ISSO? NÃO! NÃO ME TOCA!
— Deixa eu te ajudar... — Ele se aproxima, intrigado.
— Não. Perdão. Não toca em mim. Eu tenho um...
— Ela tem um poder — interrompe Giulia. — Vê coisas quando toca nas pessoas.
— Giulia... — resmungo, me levantando. — Não é um poder. É uma faculdade. Qualquer um pode desenvolver.
— Eu não tenho, ué!
— Cala a boca, coisinha fofa. Depois eu te ensino. Quem sabe você não compra a primeira de muitas padarias? Porra, cadê minha carteira!?
Esparramo o conteúdo da mochila sobre o balcão. Ele observa tudo. Inclusive o pacote de camisinhas.
Empurro discretamente na direção de Giulia.
— Não é o que você imagina.
— Eu não pensei em nada — diz ele, paciente.
— Pensou sim. Eu sei.
— Além da psicometria, você também domina a telepatia?
— Aaaah, não ferra!
Tiro uma nota de cem e a colo no balcão com as mãos espalmadas.
— Fica com o troco e... por favor... — Respiro fundo. — Não sai de casa hoje. Fica com sua mãe. Ok?
— Não vou sair, tia. Fica de boas.
— Confio em você.
Beijo sua bochecha. Jogo a mochila nas costas e caminho até a saída. Ele abre a porta para mim.
— Obrigada. Não precisava.
— Mas eu quis. Algum problema?
— Nenhum.
Mas se me olhar assim de novo eu pulo no seu pescoço e —
— Porra...
— O que houve?
— Eu esqueci...
— Do quê?
— Da bike.
— Onde estacionou?
— Não sei se vim pedalando ou andando.
Culpa sua, idiota. Não sorri assim pra mim.
— Ah, vou andando mesmo. É perto.
— Quer carona? Tô de moto.
Moto.
Agarrar você por trás.
Solto uma gargalhada involuntária. Ele sorri de volta.
Tá rindo de mim ou pra mim?
— Pra você. Você é engraçada. Isso me surpreendeu.
— Você ouviu o que eu...?
— O que você o quê?
Dou outro riso histérico, mexendo as mãos como se pudesse espantar meus próprios pensamentos.
— Ih, deixa pra lá. Eu não tenho estado muito bem da cabeça. Você vai me seguir? Não me diga que é um psicopata.
Ele inclina levemente a cabeça.
— Não sou. Mas, se fosse, eu não diria. Né?
Paro.
Mergulho nos olhos azuis dele.
— Acho que não…
— Você não pode me tocar! — recuo, apavorada. — As bruxas me libertaram de você! Eu quero voltar! Quero voltar pro meu quarto!
Ele não se levanta. Apenas me observa do trono, como se tudo aquilo fosse previsível.
— Aqui quem manda sou eu, Adessa. Você iniciou o ritual. Você me invocou, ainda que inconscientemente. Veio até mim. Eu não a chamei.
— Mentira! Traidor! Eu não te suporto! Onde estão minhas roupas?
Ele se ergue.
Não caminha. Domina o espaço.
Eu recuo. Meu corpo sabe o que vai acontecer antes de mim.
— Isso não é justo! — minha voz falha. — Você não pode ter tanto poder sobre mim!
Ele se aproxima até que o ar entre nós desaparece.
— Você ainda reage a mim, Adessa — a voz dele é baixa, quase carinhosa. — Não negue o que existe.
Eu tento resistir.
Mas a fronteira entre desejo e domínio se dissolve.
O tempo deixa de existir.
A sensação é vertigem.
Quando a escuridão me engole, a última coisa que ouço é a respiração dele, satisfeita demais.
Acordo na minha cama.
Exausta.
Choro.
Não estou livre.
Não estou curada.
Se eu me curar… ele desaparece?
Ou ele sempre esteve em mim?
Depois de correr dez quilômetros numa tentativa patética de encontrá-lo, paro na cafeteria.
Guardo flashes da noite passada.
Tenho nojo.
Talvez isso seja progresso.
— Talvez.
— Vo vo vo…
Dou risada antes mesmo de entender a piada.
— Seu avô deve chegar daqui a pouco. Por enquanto, só eu mesmo.
A gargalhada me faz quase cair da cadeira. Ele apoia a mão nas minhas costas para me equilibrar.
O toque é firme. Controlado.
— Você não me parece bem.
— Tô sim. Agora que você chegou.
Merda.
— Digo… agora que eu corri… digo… eu te vi… ah, deixa pra lá.
Ele me observa como quem lê entre linhas.
— Eu estou melhor agora que te reencontrei.
Ruborizo. Sugo o milk-shake pelo canudo.
— Tá me seguindo? Nunca te vi aqui antes.
— E agora?
— Não pode voltar no mesmo horário que eu frequento.
— O lugar é público.
— Mas eu vi primeiro!
— Vocês dois vão brigar feito adolescentes? — Giulia interfere.
— Ok — cedo. — Venha quando quiser. Desde que gaste muito. Ela ganha comissão.
— Tia!!!
— Vocês são parentes? — ele pergunta.
— Somos sim — corto Giulia. — Eu a vi crescer. Amo essa menina.
Beijo sua bochecha.
— Você fica uma gracinha envergonhada.
— Você não muda nunca, tia. Não sou mais uma criança. Já tenho 21. Quase a sua idade.
— Não importa. Pra mim, vc sempre será o meu 'chuchuzinho'. - Outro beijo em sua bochecha rosada e ela revira os olhos. - Eu te vi nascer. Me respeita. Eu preciso cuidar de você.
— Eu sei, tia. Eu sei. Te amo também. Não se preocupa não. Eu sei me defender. Vc me ensinou a lutar. Lembra?
— Você luta? - ele pergunta.
— Não. Eu meto a porrada. É diferente.
— Agora fiquei com medo.
Exalo. Meus dedos tamborilam sobre o balcão. O som suave do riso de Giulia me faz relaxar e parar de pensar em como seria seu beijo.
— Giulia! - Repreendo-a sem o menor sentido. Olhando fixamente para o deus grego à minha frente, observo. - Mantenha-se longe de tipos como este.
— Tia! Que mico! - Contrariando minhas expectativas, ele sorri.
O chão inclina.
— Concordo, Giulia. Em um mundo como o nosso, é sempre bom ter alguém mais velho com quem contar e, principalmente, não confiar em qualquer um. O Mal tem muitas faces.
Seu rosto endurece.
Engulo em seco.
Há algo antigo em seu olhar.
Algo sombrio.
Qual o seu nome, 'coisinha fofa'?
Ele gira a cadeira lentamente em minha direção.
— Vincenzo.
Eu congelo.
— Que porra…?
Ele sustenta meu olhar.
— Meu nome. Você queria saber.
Cruzes.
— Cruzes! Como faz isso!?
— Isso o quê?
— Como leu meu pensamento??? Não ria! Responda! Não é a primeira vez!
Ele ri.
E não é um riso debochado. É quase… satisfeito.
— Eu não fiz nada.
Meu celular começa a berrar dentro da mochila.
Droga.
Ele inclina levemente a cabeça.
— Não vai atender?
Não posso atender. Deve ser cliente.
“Ok, daqui a duas horas você me pega, mas antes deposita na minha conta.”
Ele pigarreia, segurando o sorriso.
Ele ouviu.
Ele definitivamente ouviu.
— Não vai atender? Pode ser importante.
Importante é.
Mas não é tão bom quanto estar aqui com você, idiota.
— Atende. Vai.
Ele fala baixo. Como quem provoca.
— NÃO! Eu não quero!
Pego o celular e desligo na frente dele.
— Pronto. Acabou. Finito. It’s over! Cacete! Tá satisfeito!?
Ele não parece ofendido.
Ele parece… intrigado.
— Você precisa dominar sua impulsividade. Isso pode te trazer prejuízos.
— Desde quando você é habilitado pra falar da minha vida?
Ele inclina o corpo para frente.
— Desde que me formei em Psiquiatria.
Silêncio.
Giulia para de limpar o balcão.
Eu encaro Vincenzo.
— Você é psiquiatra?
— Sou.
Ele observa minha reação com atenção clínica. E algo mais.
Eu sugo o resto do milk-shake com força. O canudo faz barulho.
— Desculpa. Eu não queria soar invasivo.
— Não. — baixo a voz. — Você tem razão. Eu preciso segurar minha onda. Preciso voltar pra terapia.
Encosto a testa no balcão.
Ele se levanta.
A mão dele toca meus cabelos com cuidado.
Eu fecho os olhos.
Paz.
Mas ele não é só paz.
Ele gosta de me ver assim. Desarmada.
— Não fica assim — ele diz. — Tudo tem jeito. Se acha que deve voltar à terapia, volte. Vai te ajudar a se controlar em outros aspectos.
Ergo a cabeça rápido.
— Que outros aspectos???
Ele sorri.
— Eu não disse nada demais.
— Eu tenho cara de quem não tem controle sobre a própria vida???
— Eu só quero que você fique bem.
— Por quê???
Ele me olha.
E dessa vez não há brincadeira.
— Porque eu quero.
Eu sinto.
Ele fala sério.
Mas há algo ali. Algo que mede. Que calcula. Que observa minhas reações como se estivesse aprendendo cada botão que pode apertar.
Ele me ama?
Talvez.
Mas do jeito certo?
Ainda não.
De onde tira essas conclusões idiotas???
Cala a boca!!!
— Você não sabe como eu vivo! O que eu faço pra pagar as contas!
— Tia, calma…
— Tem coisas que eu odeio fazer! Mas eu faço! Porque paga bem!
Levanto da cadeira.
Chuto a jukebox.
A máquina escolhe a música sozinha.
A mesma de ontem.
— De novo…
— Fala de um casal que sempre se encontra numa cafeteria — comenta Giulia. — Será destino?
— Para com isso.
Vincenzo me observa.
— Você dançou essa música ontem? Onde?
Antes que eu responda, uma voz corta o ar.
— No “California”. Conhece?
Meu estômago despenca.
— Jack. Não.
Ele se senta onde eu estava.
Sorriso sujo.
— Adessa. Impressionante como você não cansa. Ainda hoje estava no palco… e agora já aqui, linda como sempre.
O silêncio pesa.
— Palco? Você é atriz? — Vincenzo pergunta, imóvel.
Jack inclina a cabeça.
— Você não sabia? Ela é a estrela da casa.
— Jack, sai daqui.
— É sua a cafeteria agora? Comprou com o suor do seu trabalho digno?
Ele ri.
— Seu amigo não sabe onde você trabalha?
Vincenzo não fala.
Mas o azul dos olhos dele escurece.
E, pela primeira vez, eu vejo.
Luz não é tudo o que existe ali.
— Adessa, você tá bem? Você tá tremendo.
— Eu já disse pra ela usar mais roupa durante o trabalho, mas ela não me ouve…
Finalmente me movo.
Punhos cerrados. Mandíbula travada. Vou direto em direção a Jack.
Ele gargalha.
Ele quer isso. Quer me ver perder o controle.
Antes que eu acerte o rosto desprezível dele, Vincenzo salta da cadeira e me segura. Seus braços envolvem minha cintura com firmeza.
— Não liga pra ele — cochicha no meu ouvido. — Tudo o que ele quer é te ver descontrolada. Se acalma.
Inesperadamente, ele me abraça.
Eu fico.
Fico ali tempo demais, sentindo a respiração dele, deixando a paz voltar devagar ao meu peito.
— Passou? — ele pergunta baixo.
— Sim. — cochicho. — Obrigada.
— Quer ir embora daqui?
— Não posso! Não com ele aqui perto da Giulia! Ele é perigoso. Eu sinto!
— Bobagem… — Jack diz, lançando o olhar repugnante para a minha menina. — Que mal eu faria a um docinho desses?
O indicador dele ergue o queixo de Giulia.
Algo explode dentro de mim.
Empurro Vincenzo com o corpo e salto sobre Jack. Jogo-o contra o chão da cafeteria. Giulia grita. Vincenzo tenta me puxar, mas eu já estou sentada sobre a barriga dele, distribuindo socos no rosto que continua sorrindo.
Ele continua sorrindo.
Isso me enlouquece.
Vincenzo me segura pela cintura e me arrasta para trás. Exausta, deixo que ele me leve de volta à cadeira.
Meus dedos ardem. Estão doloridos. Ensanguentados.
Vou até a pia atrás do balcão e lavo as mãos. A água escorre vermelha.
Meus pelos da nuca se eriçam quando ouço, antes da porta bater com violência:
— Isso não morre aqui, Adessa. Vai ter volta. Em breve a gente se encontra. Você, eu… e essa gracinha de jovem com gosto de tutti-frutti.
— Maldito!!!
— Eu preciso trabalhar. Obrigada por tudo. Você tem sido bem legal comigo.
— Porque você merece. Merece que pessoas legais estejam ao seu lado.
Estamos diante do prédio onde moro. O vento frio bagunça meu cabelo. Ele afasta os fios do meu rosto com os dedos.
Eu tento parecer firme. Não consigo.
— Não. Eu não mereço.
— Por que não?
— Não sou digna do seu Deus.
Ele suspira.
— Para de falar “meu Deus” como se Ele não fosse o seu também.
— Ok.
Ele ergue meu queixo com o indicador.
— Eu não sou o tipo de mulher com quem você está acostumado a lidar. Sou meio que…
Puta? Stripper? Perseguida por um demônio?
— …meio esquisita.
Ele sorri de um jeito quase triste.
— Mesmo que você fosse uma psicopata, eu ainda gostaria de ser seu amigo.
Amigo?
Só isso?
Amizade? É sério?
— Amizade é mais importante do que qualquer outro tipo de relacionamento — ele continua, com uma doçura que me dilacera. — Ainda que eu me apaixonasse por você, eu teria que abdicar dos meus sentimentos.
Meu coração despenca.
— Po-por quê?!
Improviso um coque no topo da cabeça com uma caneta da bolsa. Minha mente dispara.
Você é gay? Casado? Morto?
Ele ri. Um riso triste.
— Eu sou padre.
Silêncio.
— Eu posso te ajudar a se livrar…
Não deixo terminar.
Empurro-o com força.
— Fica longe de mim! Eu não preciso da sua piedade!
— Espera — ele pede, na defensiva. — Eu não quero me afastar de você.
— Mas eu quero! — grito, reativa. — Eu não preciso de amigos!
— Todos precisam.
— Não eu! Engole esse seu sorriso complacente, Vincenzo, e sai da minha vida!
Antes que eu me apaixone por você.

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