CAPÍTULO 10 - IMPIEDOSAMENTE INESQUECÍVEL




Hoje é o primeiro dia.


O primeiro de muitos sem ele.

Sem pensar nele.

Sem esperar por ele.

Sem precisar do sorriso dele para continuar respirando.


Hoje eu decido me curar.


Ainda que ele tenha ligado vinte e duas vezes.


Abraço o celular como se fosse o corpo dele.



Ridícula.


— Vinte e duas ligações em um dia… — murmuro. — Acho que estamos fazendo falta na vida do papai, filho.


Trinta dias.


Trinta dias sem vê-lo.


Desintoxicação.


Ele é droga pesada.


O celular vibra de novo.


Eu atendo.


— Vincenzo, eu preciso dormir. Para de ligar.


— Não posso. — A voz arrastada. — Preciso saber como você está. Por que não atende? Por que não abre a porta?


Fecho os olhos.


Ele está lá fora.


Claro que está.


— Porque eu preciso me livrar de você.


Silêncio.


Respiração.


— Dess… deixa eu ouvir sua voz.


— Você está bêbado?


— Não.


— Desde quando você bebe?


Hesitação.


— Foi só hoje.


Meu estômago afunda.


— Você nunca bebeu.


— Estou com saudade, idiota.


Ele soluça.


E isso me desmonta mais do que qualquer grito.


Olho a foto na mesa de cabeceira.



Bonito.


Doente.


— Me deixa em paz. Eu não sou mais a mesma.


— Mentira. Você ainda me ama.


— Não mesmo, seu narcisista filho da puta.


Aumento o volume da TV.


Não quero que ele ouça meus pensamentos.


— Tenho outros planos. Você não está neles.


— Não desliga.


— Você me pagou, Vincenzo. — Minha voz falha. — Me deixou dinheiro como se eu fosse…


Não consigo terminar.


— Me perdoa.


— Você nunca está bem. Você não quer ficar bem.


Silêncio longo.


— Fica longe de mim.


— Eu não posso.


— Por quê?


Demora.


— Um dia você vai entender.


Frio na espinha.


— Você está bêbado.


— Só hoje.


— Não me chama de amor!


— Não grita. Eu tô bêbado, não surdo.


Eu rio.


Riso de quem está quebrando.


— Eu não gosto de mim quando estou com você.


Ele cala.


E, pela primeira vez, parece ter entendido.


— Agora mais do que nunca eu preciso ser adulta.


— Por quê, Dess?


Olho para minha barriga.


— Suma da minha vida.


— Dess…


— Durma com os anjos.


Desligo.


O silêncio é violento.


A dor também.


Encosto o celular na testa.


— Eu não posso ceder.


Minha mão desliza até o ventre.


— Eu preciso cuidar do nosso filho.

 



Substituo o vinho por chá de camomila.


Seguro a xícara quente como se ela pudesse me impedir de quebrar. O gosto é amargo. Justo.


A música começa.



Justamente aquela.


O cantor implora para que ela não desligue o telefone. Diz que ela é bonita. Que é suficiente. Que ele só precisa que ela continue na linha.


Ela desliga.


— Não desliga, idiota! — grito para ninguém. — Ele só quer que você saiba que é bonita!


Mas nunca é sobre a música.


— Ele não me quis. Não me disse que tinha largado o sacerdócio. Ele não me quis!


O choro vem feio. Desorganizado.


Grávida. Sozinha. Patética.


— Por quê, filho? Seu pai é um monstro?


Deito na cama onde Antoine foi concebido. Lembro da segunda vez. Amor. Ou algo que eu chamei de amor.


Aliso a barriga.


— Narcisistas não amam… Será que ele vai te amar?


Silêncio.


O celular vibra.


“Creio que isso possa te interessar, meu anjo. Durma com Jesus. Conte comigo… sempre.”


É do Doc.


Abro o link. Audições. Companhia de dança.


Rio sem humor.


— Seu tio é fofo, mas eu estou grávida.


Respondo negando.


Ele responde impondo.


“Esteja pronta. Eu te levo.”


Não se nega uma ordem de Doc.


Respiro fundo.


Impulsiva, abro o site onde eu postava vídeos. Mais de vinte mil seguidores. Validação barata. Poder falso.


Meu dedo paira.


Deleto.


Sem despedida.


— Chega. Agora é diferente.



— Doc! Eles não são uma companhia de dança! Eles são “A Companhia de Dança”!


— E você é a melhor bailarina que conheço! Não tenha medo, filha. — Doc segura minha mão gelada. — Basta entrar no teatro e ver o que eles querem. Se der, deu. Se não der, não deu. Ok?


— Eles são da Juilliard, Doc! Olha aqui! No cartaz!


— E você é do California! E daí!?


Gargalho de olhos fechados diante da inocência do meu amigo. Ele claramente não faz ideia do que significa Juilliard. A melhor escola de dança, música e dramaturgia do mundo.


O que alunos da Juilliard estariam fazendo aqui… tão longe de Nova York?


Dou meia-volta e encaro a fachada iluminada do teatro.


O mesmo teatro que, segundo os moradores do bairro, nunca abriu as portas ao público.


“Um teatro fantasma.”



— Meu anjo. Acorda. No que está pensando?


— Um frio estranho…


— É medo, boba. Você consegue. Vai!


— Parece fácil pra você, Doc! Eu nunca fiz uma audição na vida! Meu sonho sempre foi esse e, agora que está tão perto… perto demais… eu não sei se consigo.


— Se você não for, eu te empurro.


— Não se atreva, Doc. Estão olhando pra gente.


— Vou contar até dez. Um, dois…


— Doc! Não tem graça!


Estou de costas para o teatro quando sinto mãos em meus ombros.


Um arrepio percorre minha espinha.


Eu me viro.


E o vejo pela primeira vez.


Silêncio.


Forço a visão, tentando captar alguma coisa vinda dele.


Uma memória. Uma sensação.


Nada.


— Oi.


— Olá. Seja bem-vinda.


— Não. Eu não vou entrar. — Procuro por Doc ao redor. Ele sumiu. — Eu vim…


— Veio? — As sobrancelhas arqueadas lhe dão um ar curioso. — Você está bem, querida? Parece cansada.


— Não. — Minto. Estou exausta. Vomito todas as manhãs e passo o resto do dia enjoada. — Estou ótima.


— Venha. Precisa conhecer o teatro. É fabuloso.


— Eu nunca o vi antes aqui… no bairro.


— For God’s sake! O que quer dizer com isso?


— Seu sotaque não é americano. De onde você é?


— Irlanda. — Ele sorri. — Você tem bom ouvido. Um ponto pra você, Adessa.


Ele se inclina levemente.


— O berço da magia.


— O quê?


— A Irlanda.


Cruzo os braços.


— Eu não lembro de ter dito meu nome.


— Não disse. Seu amigo te chamou e eu ouvi. Vai rosnar para mim de novo ou podemos ser amigos?


Uma gargalhada escapa de mim, alta demais.


Alguns alunos no palco olham na nossa direção.


Perfeito. Justo o que eu não queria.



— Perdão. Eu não estou muito bem nos últimos dias. Por que está me olhando assim? — pergunto.


— Assim como, querida?


— Como se eu fosse louca.


Ele ri.


E, de algum jeito irritante, fica ainda mais bonito rindo.


Por que estou reparando nisso?


— Adessa, você pensa demais.


Ele segura minha mão e me puxa em direção ao palco.


— Eis nossa companhia de dança.


Os alunos me encaram.


Olhos atentos. Agudos. Estranhamente penetrantes.


— Essa é minha amiga Adessa. — diz ele. — Espero que a tratem bem.


— Pelo amor de Deus! Pra que isso? Eu nem te conheço! Agora eles vão me odiar!


Ele gargalha.


— Você é esplêndida.


— Já ouvi isso em algum lugar. É de algum filme?


— Pode ser. Mas você é real.


— Você é estranho.


— E você é esquisita.


— Então empatamos.



Cruzo os braços.


— E quem é você?


Ele hesita.


— Sou o coreógrafo.


— E o coreógrafo tem nome?


— Tem.


— E…?


— Quem sabe eu diga se perguntar com carinho?


Solto o ar, derrotada.


— Perdão. Vamos recomeçar?


— Perfeito.


Ele se endireita.


— Sou Aiden. Prazer em conhecê-la, senhorita…


Ele beija o dorso da minha mão.


— Adessa.


— Então… eu passei aqui por acaso e vi… o… outdoor…


— Não há outdoors.


— Ah. Então…


— O que você viu, Adessa?


Desvio o olhar.


— Meu amigo foi embora e nem se despediu.


— Ele deve estar lá fora esperando por você.


Ele ergue meu queixo.


— Olhe para mim.


Obedeço sem perceber.


— Nossa… esse teatro é lindo.


— E você veio até ele para…?


— Tentar dançar.


— Tenho certeza de que vai.


A música começa.


Uma pontada atravessa meu ventre.


Levo as mãos à boca.


Meu filho se mexe.


Pela primeira vez.


Meu Deus.


Ele está vivo.


— Perdão… — murmuro, enxugando as lágrimas. — Não sei por que estou chorando.


— Deve ser a melodia do tango.


Ele me entrega um lenço.


— Ponto para você, Adessa.


Rimos.


Mas o riso morre quando percebo como ele me observa.


— Você poderia parar de me olhar assim?


— Assim como?


— Desse jeito.





Ele ergue as mãos, rendido.


— Me diga o que estou fazendo de errado e eu conserto.


Mas já é tarde.


Lágrimas escorrem.


— Foi um erro ter vindo.


— Aonde vai, Adessa?


— Eu preciso respirar.


Ele segura meus cotovelos.


Encosta a testa na minha.


— Desculpa.


— Não. Fui eu.


— Não vá embora. Fica.


Ele se vira para os alunos.


— Saiam. Agora.


Quando o teatro esvazia, o silêncio parece respirar.


— Estou procurando uma bailarina principal — diz ele. — E acho que o universo conspirou hoje.


Ele toca meu rosto.


— Quer ver a galeria de fotos antes de me mostrar como dança?


— Eu não vou dançar pra você.


— Vai sim.


Ele me oferece o braço.


Caminhamos para a galeria.


Fotos. Quadros. Luz baixa.


Até que paro diante de uma imagem perturbadora.


Uma bailarina.


E um bode desenhado atrás dela.



— Bizarro… — murmuro.


— Um aluno fez isso. Humor macabro.


— Já vi coisa pior.


— Interessante.


Continuamos andando.


E então eu vejo outro quadro.


Um homem.


Pintura a óleo.


Algo dentro de mim explode.



— Me tira daqui! Eu não quero ver esse homem!


— Calma. É só uma pintura.


— Eu conheço ele! Não sei de onde… mas eu o conheço!


Ele me leva de volta ao palco.


Silêncio.


— Não vá embora antes de fazer o que veio fazer aqui.


— Eu não sou ninguém.


— Não se subestime.


Ele aponta para o centro do palco.


— Me mostra.


Subo.


— Eu não sei o que você quer que eu dance!


Aiden já está na cabine de som.


— Apenas dance.


A música começa.


Eu reconheço a canção.


Passo a mão na barriga.


— Me ajuda a dançar, filho…



 

Um leve movimento de seu corpinho dentro de mim e eu sorrio, encantada.

 


E começo.




Ergo os braços curvados diante do peito. O queixo aponta para a cabine de som. Os olhos percorrem as cadeiras vazias da plateia quando os holofotes se acendem.


A luz forte me cega.


Fecho os olhos.


E me entrego à música.


Deslizo pelo piso liso, saltito, giro. Meu corpo se move leve, quase sem peso, como se cada passo fosse guiado por algo maior do que eu.


A canção é linda. Triste. Tema do filme baseado no livro “Um Dia”, a história de dois amantes que se encontram e se perdem ao longo da vida.


Misturo piruetas a saltos vibrantes, rápidos, alegres. Allegros.


O corpo vibra, mas o coração carrega outra coisa.


Ao final da sequência, abraço-me com força, como se tentasse conter uma dor que insiste em escapar.


Evito pensar em Vincenzo.


Arrisco um penché.


A perna esquerda sobe para trás enquanto todo o peso do meu corpo se equilibra sobre a direita. Inclino o tronco até tocar o chão com a ponta dos dedos.


Por um segundo, temo cair.


Estragar tudo.


Permaneço imóvel nessa posição até que o silêncio se rompe.



Palmas.


Fortes. Entusiasmadas.


Levanto o rosto.


Os alunos me observam extasiados.


Recuo, envergonhada.


Mas não tenho tempo de dizer nada.


Braços fortes me erguem do chão.


— Eu sabia! — grita Aiden, me levantando pela cintura. — Eu sabia que você seria perfeita desde que te vi pela primeira vez!


— Me ponha no chão! — peço, ruborizando.


Ele me gira no ar.


Por um instante, levanto os braços e simplesmente deixo acontecer.


Uma alegria pura me invade.


Uma alegria que eu nunca tive quando era criança, quando meus pais proibiram as aulas de balé porque aquilo era “luxo para meninas pobres”.


Talvez, se eu tivesse seguido aquele caminho…


Talvez minha vida fosse outra.


— ME PONHA NO CHÃO, POR FAVOR!


— Claro… — responde ele, desanimando um pouco.


De volta ao chão, ajeito o cabelo molhado de suor.


— Desculpa. Eu tenho me descontrolado ultimamente. Perdão por ser grosseira quando você tenta me ajudar.


— Não peça perdão, meu anjo. Eu te compreendo.


Sério?



Ele sabe que estou grávida de um homem que me abandonou?

Que trabalho numa boate de quinta categoria?


Que sou tudo… menos uma bailarina?


— Adessa — diz ele, como se tivesse ouvido meus pensamentos. — Quando digo que te entendo, é porque te entendo. Não me pergunte como.


— Desculpa.


— Se me pedir desculpas mais uma vez, eu vou te fazer girar até você vomitar.


— Não me olha assim! — aviso. — Não gosto.


Mentira.


O problema não é gostar.


É que me sinto completamente nua quando ele me olha desse jeito.


— Merda… para.


Ele pisca.



E isso é o suficiente para me desmontar.


Atordoada, pego minha mochila no palco e corro em direção à saída.


— Adessa! Espera!


— Não tenho tempo, Aiden! — respondo sem olhar para trás. — Eu preciso trabalhar. Preciso pagar minhas contas.


Paro por um segundo.


Deixo que ele me alcance.


— Sou grata por me fazer sonhar.


Olho em seus olhos.


— Obrigada por esse momento que acabo de viver. Foi incrível, Aiden. Devo isso a você.


Respiro fundo.


— Adeus.


— Não vai! — ele grita, segurando meu braço.


— Eu não volto mais aqui. Meu tempo acabou. A época de sonhar passou.


— Do que você está falando? Você é uma ótima bailarina! Fica com a gente! Junta-se a nós!


— E quem são vocês?


O olhar dele escurece.


— Somos quem você quiser que sejamos.


— Que porra de resposta é essa, Aiden?


— Calma.


— Sai da frente. Eu estou atrasada.


— Pra quê? O que é mais importante do que sua carreira?


Dou uma gargalhada amarga.


— Carreira? Eu não tenho carreira, Aiden. Não como bailarina.


Puxo o braço.


— Meu mundo é outro. E eu não quero que você o conheça.


— Tá doendo? — pergunta ele.


— Tá.


— Então fica.


A noite caiu sem que eu percebesse.


O teatro agora parece outro lugar. Escuro. Silencioso. Irreal.


— Não vá, Adessa — diz ele, a voz mais baixa. — Você foi feliz enquanto dançava.


Ele se aproxima.


— Junte-se a nós. Você pode mudar de vida. Ser quem sempre quis ser.


— Chance de quê?


Ele pigarreia, recompondo-se.


— Me dê uma chance de te ajudar.


Aponto para a escadaria.


— Eu só preciso… descer sem cair.


— Então deixa eu ajudar.


Aceito.


Ele segura minha mão e me conduz degrau por degrau, com uma paciência quase absurda.


— Vem, querida. Eu não vou te deixar cair.


Quando finalmente piso na calçada, solto o ar.


— Obrigada. Você é um cara legal, Aiden.


Um trovão corta o céu.


A chuva desaba.


— Putz… eu não contava com isso!


— Se cubra!


Ele tira a camisa e cobre minha cabeça com ela.


A chuva encharca seu torso nu.


— Adessa! Entra e espera a chuva passar!


— NÃO!


Minha voz sai alta demais.


Dou alguns passos para trás.


— Se afasta! Eu preciso trabalhar! Cadê o Doc?


— Ele deve ter ido embora! — grita Aiden sob a chuva.


— ENTRA!


— NÃO! EU VOU EMBORA!


Continuo recuando pela rua molhada.


— OBRIGADA POR TUDO! FOI UMA TARDE INESQUECÍVEL!


Ele não se move.


Fica parado na entrada do teatro, completamente encharcado.


— VOCÊ É INESQUECÍVEL! — grita.


Levo as mãos à boca para amplificar minha voz.


— BOM ENSAIO!


— EU VOU TE ESPERAR! — ele responde. — COMEÇAMOS A ENSAIAR AMANHÃ!


Aceno de longe.


— SE DER, EU PASSO POR AQUI! OBRIGADA! FOI INESQUECÍVEL!


Ele sorri.


Um sorriso estranho.


Quase perigoso.


— VOCÊ É INESQUECÍEL, ADESSA.


Uma pausa.


— IMPIEDOSAMENTE INESQUECÍVEL.


Inesquecível mesmo…


seria o final daquela semana.


Absolutamente inesquecível.




— “Impiedosamente inesquecível”? — murmuro, passando a mão pelo ventre. — O que ele quis dizer com isso, filho? Aquela coisa de ficar parado debaixo da chuva… me assustou. Te assustou também?


Espero um movimento.


Nada.


— Filho… mexe de novo. Vai… — bocejo, cansada. — Não quer, filho? Já sei. Você puxou a mamãe. Só se move com música, né?


Depois de um banho morno, caminho pela sala ainda com os cabelos úmidos. O frio da chuva parece ter grudado na minha pele. Também não consigo parar de pensar em Doc, que continua sem atender minhas ligações.


Pego o celular.


“Amigo! Fala comigo, por favor. Por que sumiu sem avisar? Você está bem?”


Envio a mensagem e deixo o aparelho sobre a mesa.


A sala está silenciosa demais.


Ligo o som para espantar o presságio ruim. Sob a luz suave do abajur, começo a me mover devagar, embalando meu bebê.


— Dança com a mamãe, filho… dança…


Cacete. Deixa a criança em paz. Ela está dormindo.


Abro os olhos, irritada comigo mesma.


— Estou com medo. Ele não se mexe desde o teatro.


Ridícula. Nem cinco meses e você quer que ele dê cambalhota aí dentro?


— Ele se mexeu hoje! Eu senti! Eu não sou louca!


Fecho os olhos outra vez. Um sorriso escapa quando minha mente volta ao palco, ao momento em que brilhei por alguns instantes.


— Foi incrível…


“Foi.”


A voz sussurra no meu ouvido.


Tropeço na mesinha da sala e caio de costas no tapete.


O ar muda.


A temperatura despenca. Um sopro gelado escapa da minha boca como se eu estivesse no inverno de Washington. Levanto devagar, o coração martelando na garganta.


— Não… não vou passar por isso de novo. Não é justo.


Agarro o crucifixo pendendo da gargantilha e o deixo à mostra sobre o pijama.


— Não toca em mim.


O silêncio pesa.


Então a voz volta, quase um murmúrio.


“Sinto sua falta, Adessa.”


O grito sai antes que eu perceba.


Corro até a porta, lutando com o trinco enquanto repito, em voz alta, a única oração que consigo lembrar.


— Pelo poder da cruz sagrada...


Passos atrás de mim.


Presença.


Estou prestes a enlouquecer quando outra voz explode do lado de fora:


— Afasta da porta, Dess!


A porta se abre num solavanco.


E lá está ele.


Sempre ele.


— Me ajuda! Ele tá aqui!


Vincenzo atravessa a porta como um furacão.


— Onde!?


— Não sei!


— Ele apareceu pra você!?


— Não… eu só… ouvi…


— Ouviu o quê, Dess!?


— Ele disse que sentia minha falta.


Os olhos de Vincenzo endurecem.


— Você o chamou!? Você o invocou!?


— Eu odeio quando me olha assim! É óbvio que não, seu estúpido!


Ele respira fundo, tentando se recompor, e olha ao redor da sala.


— Fica calma, por favor. Onde ele está!?


— NÃO SEI!


Desabo num canto da sala, encolhida, chorando sem dignidade nenhuma.


— EU NÃO SEI, DROGA! EU NÃO SEI! ELE ESTAVA AQUI! AGORA NÃO ESTÁ! SEI LÁ!


Vincenzo se aproxima devagar.


— Fica calma, amor...


— Não me chama assim… por favor… — choramingo. — Isso é passado.


— Não é não.


— Procura por ele, Vincenzo! — aponto para o corredor. — Ele deve estar aqui!


Ele segura meus braços.


— Me espera aqui. Ok? Dess, me espera aqui! Entendeu!?


— Uh-huh…


Vincenzo vasculha o apartamento inteiro. Ouço portas abrindo, passos pesados, xingamentos murmurados enquanto ele procura por Ga'al.


Depois de alguns minutos, ele volta.


— Você não o achou? — pergunto, entre desolada e aliviada. — Ele estava aqui.


— Não está mais, Dess.



Ele afaga meu rosto.


— Ele não está aqui. Fica tranquila.


— Como sabe?


— Eu sinto.


— Foi?


— Como sabe!?


Ele suspira.


— Não sei. Só sei que sei.


— Aaaah… tá. Ele se foi.


— Sim.


Fragilizada, permito que ele me abrace. Choro contra seu peito enquanto ele beija o topo da minha cabeça.


Desvio meus lábios dos dele antes que ele tente algo.


— Eu tô com medo, Vincenzo. Ele não pode me tocar. Não é justo. Eu nunca mais fiz coisas erradas. Nunca mais dei brechas.


— Não é justo mesmo, amor. — Ele beija minha testa. — Eu não vou deixar que nada de mau aconteça com você.


Sua mão pousa na minha barriga.


— Nada de mau vai acontecer com você… nem com o nosso filho.


Eu congelo.


— Nosso filho!? Como sabe!?


— Eu te ouvi, amor. Eu sempre te ouço.


— Odeio isso em você.


Ele abre aquele sorriso cafajeste de sempre.


E eu vomito na camisa branca dele.



— Você não o conhece, Dess — ele insiste.


— Irritante — retruco. — E você conhece muito!? Foram amigos na infância!?


— Não, palerma! Mas é óbvio que ele quer mais do que uma nova bailarina!


Cuspo a água depois de enxaguar a boca.


— Então nenhum homem pode se aproximar de mim sem querer que eu trepe com ele!? É isso!? Porque eu sou… ou fui… puta!?


Fecho a torneira com força.


— Existe alguma placa no meu rosto dizendo “mantenha distância, puta perigosa e disponível”!?


Do sofá, Vincenzo observa.


— Fica calma, Dess. Cuidado com o bebê.


Cruzo os braços.


— Não parece que você está preocupado.


— Eu não estou vitorioso em nada — ele responde. — Estou sem saber lidar com você. Só isso.


— Não parece!


Aponto para a porta.


— Eu não sei como você entrou aqui e nem quero saber! Pode, por favor, sair da minha vida de novo!?


Ele hesita.


— Você não quer isso. Quer?


Silêncio.


— Você ainda me ama, Dess. Eu ainda te amo. Temos um filho pra cuidar e—


— Eu tenho um filho pra cuidar!


Jogo a camisa suja de vômito no chão.


— Vincenzo, sai daqui!


Aponto para a porta aberta.


A percepção me acerta como um soco.


— Espera… como você abriu a minha porta?


A resposta surge antes dele falar.


Com a chave que você deu, imbecil.


— Que merda, Vincenzo! Me dá as chaves e vaza!


Ele se levanta rápido e toca minha cabeça.


— Com quem você anda falando nessa cabecinha de melão, Dess? Eu ouço mais do que sua voz.


— Não te interessa.


Empurro a porta.


— Tira o pé daí e me deixa em paz!


— Eu não vou embora!


Ele grita do corredor.


— Você precisa de ajuda! Precisa de mim!


— Cacete!


Empurro a porta com as costas enquanto ele tenta entrar.


— Isso é típico de um narcisista perdendo a presa! Vai embora! Tá me machucando!


— Onde!?


As mãos dele pressionam a porta.


E eu sinto.


A dor dele.


— Dess! Onde dói!? Eu não saio daqui até você ficar bem!


Minhas costas deslizam pela porta até eu sentar no chão frio.


— Eu estava bem…


Minha voz quase some.


— Eu estava bem até ver você de novo.


Ele se senta do outro lado da porta.


Silêncio.


— O que você tem — murmuro — que me faz ser fraca?


A resposta vem baixa.


— Amor, Dess.


Ele encosta a testa na minha.


— Eu tenho amor por você.


Sinto seus lábios na minha bochecha.


— Eu nunca deixei de pensar em você.


Respiro fundo.


— Você me irrita com essas frases patéticas. “Eu sempre”. “Eu nunca”.


Pausa.


— Me poupa.


A mão dele pousa na minha barriga.


— Qual vai ser o nome do nosso filho?


— Não te interessa.


Ele ri.


O mesmo riso infantil de antes.


— E para de fingir que não está ouvindo meus pensamentos.


— Então não briga, amor.


— Não me olha assim.


— Assim como?


— Como se nunca fosse me abandonar.


Silêncio.


— Porque eu sei que vai.


Ele responde baixo.


— Não vou. — O que ela te lembra, Dess? De quem você se lembra?



— Por que está modulando o tom da voz? Acha que sou estúpida? Você não pode me hipnotizar se eu não quiser.


— Eu nunca te hipnotizei — afirma ele, guiando meus passos ao som da música lenta.


Se eu me concentrar… talvez consiga voltar. A um tempo… um tempo em que…


— Quando? Onde, Dess? Você se lembra dessa música?


— Sim… mas não posso…


— Pode, Dess. Deve se lembrar de mim… de você… de nós dois. Juntos. Lembra? Ouça a música, meu amor. Ouça.


Memórias de um tempo em que fomos felizes emergem à superfície da minha mente confusa. Eu me calo e me deixo conduzir.


Vincenzo acompanha a canção dos Beatles em uníssono com o cantor.


Sinto o vento frio tocar meu rosto. O perfume de lavanda paira no ar. Acima de nós, um lustre enorme espalha luz dourada. Candeeiros iluminam as paredes. Uma mulher elegante sorri enquanto o tecido de seu vestido desenha a cintura com perfeição.


— Onde estamos? — sussurro, assombrada.


— Em algum lugar do passado. Ouça a canção, Dess. Apenas ouça.


— Vincenzo? Francesco?


— Sou eu. Giovanni.


— Giovanni?


— Não se esqueça de mim, Dess. Não se esqueça, minha Morgana. Eu te amo. Sempre vou te amar.


— Isso não faz sentido. Por que dói tanto, Giovanni?


— Porque sofremos juntos. E por isso devemos permanecer juntos.


— Isso… não faz sentido…


— Eu sei. Você vai se esquecer de tudo.


— Vou?


— Sim. Exceto do seu amor por mim.


— Sim. Eu te amo, Giovanni.



— Eu te amo, minha Morgana. Agora acorde. Continue vivendo… e me amando.


— Eu…


— Acorde, Dess. A música acabou.


O estalo de seus dedos explode entre meus olhos.


Estou de volta ao meu corpo.


Recuo até a parede ao lado da janela, desconfiada. Abro-a de uma vez, procurando ar.


— O que você fez comigo, Vincenzo? Por que estou me sentindo esquisita?


— Esquisita como?


— Não me olha assim! Você fez alguma coisa! — prendo o cabelo num coque desalinhado. — Você fez alguma coisa comigo, Vincenzo? Não me olha como se eu fosse louca!


— Não estou olhando, amor. Você só está grávida. São os hormônios. Cadê meu chá?


— Chá? Que chá?


— Você me ofereceu uma xícara de chá.


O sorriso inocente ainda me faz suspirar. Patético.


— Não é patético. Você ainda me ama.


— Eu não te amo, Vincenzo. Isso é uma doença. E eu vou me curar.


— Desde que continue me amando.


Ele dá de ombros e segue para a cozinha.


— Dess!


— O quê?


— O chá!


— Ah… tá.


Observo com os olhos semicerrados enquanto ele bebe o chá de camomila como se estivesse em casa.


Um beijo leve no meu rosto. Depois ele vai embora, confiante.


Por que tenho a sensação de que jamais vou me desconectar dele?


Porque você é otária.


— Não — murmuro, acariciando minha barriga. — É porque temos algo em comum. Não é, filho?





Apesar de todas as tentativas de me seduzir novamente, Vincenzo não voltará a fazer parte da minha vida sem rumo.


Ainda o amo. Muito.


E ele sabe disso.


A verdade é simples e cruel: talvez eu nunca me liberte dele. Do meu vício.


Penso nele metade do dia. Na outra metade, penso em como sustentar nosso filho sem voltar a fazer o que eu fazia antes de ser mãe… de novo.


Tenho dançado no California, mas sem me exibir nua. O dinheiro já não é suficiente. Em breve, com a barriga crescendo, nem isso poderei fazer.


Tenho uma reserva, mas se continuar gastando mais do que ganho, ela vai desaparecer.


Às vezes penso em voltar aos vídeos caseiros. Mas isso me arrastaria de volta à doença da qual tento escapar.


A ninfomania praticamente desapareceu desde que Antoine voltou à minha vida.


Desde que descobri que ele existia.


A fome por sexo simplesmente morreu.


Nem mesmo com Vincenzo sinto desejo. Penso nele de outra forma agora. Como o pai do meu filho. Como o homem da minha vida.


Um homem que nunca será meu.


Um homem com um transtorno de personalidade sem cura.


— Eu! — levanto a mão de repente.


Arrependimento imediato.


Os olhares ao meu redor se voltam para mim como serpentes despertando em seus ninhos.


— Eu conheço um — digo ao professor que espera pacientemente.


Gosto do jeito que ele sorri com os olhos. Da maneira delicada como move as mãos. E, principalmente, da humildade com que trata todos ali. Até mesmo a mim.


— Eu conheço um narcisista, professor.


— Interessante — responde ele, aproximando-se da cadeira onde estou sentada. — Ele te ouve? Ele te ouve sem competir com você? Sem tentar ser maior que você… até mesmo na dor?


— Sim — respondo em voz baixa. — Por que essas perguntas?


— Porque narcisistas não costumam ouvir, Adessa. Narcisistas só escutam a si mesmos. Sempre dirão que são melhores do que você… ou que sofrem mais. Se você disser a um deles que está doente, ele vai responder que já está morto.



Risos ecoam pelas paredes do amplo auditório.


Enrico, o professor de Psiquiatria convidado para palestrar sobre Transtornos de Personalidade na faculdade para a qual desejo retornar, parece conhecer algo que vive dentro de mim.


Quase como se estivesse defendendo Vincenzo do meu diagnóstico improvisado de “puta metida a psicóloga”.


Ele sorri diante de mim e, inclinando-se um pouco, cochicha:


— Tem certeza de que conhece um narcisista? Talvez ele tenha algum transtorno mental, meu anjo. O que, acredite, é melhor. Mesmo que pareça terrível… ainda é melhor do que um transtorno de personalidade. Já pensou nisso?


Ainda presa às palavras dele, corro atrás dele pelo estacionamento do campus.


Resfolegando feito uma égua prestes a parir, finalmente o alcanço.


Ele não se assusta com minha chegada abrupta. Apenas me observa com mansidão nos olhos azuis… tão azuis quanto os de Vincenzo.


Eu o conheço de algum lugar.


Tenho certeza disso.


— Me perdoa, professor. Eu preciso saber uma coisa.


Toco seu antebraço, por cima da manga do paletó.


E então minha mente explode em lembranças.



Um riso jovem no banco traseiro de um carro.


O olhar apaixonado de uma bela mulher madura sentada ao lado dele.


Suas mãos firmes no volante…


E então a luz.


Uma luz brutal.


O impacto.


— Meu Deus! — exclamo, aturdida.


Minhas pernas fraquejam. Meu corpo inteiro se eletrifica.


— O que aconteceu com o senhor?


Com delicadeza, ele afasta minha mão de seu braço, quebrando a conexão.


Antes que eu caia, ele me segura.


Guia-me até um banco de cimento próximo ao carro e fala com calma:


— Você está tendo uma crise de ansiedade, querida. Não se preocupe. Isso é normal no seu estado.


— Que estado!? — retruco, incrédula. — Como sabe que eu estou…?


— Grávida?


Ele dá de ombros.


— Sei lá. Não sei. Só sei que sei. Você está, não está?


— Credo! É a mesma frase do Vincenzo!


— E quem seria esse Vincenzo?


— Por que está fingindo que não o conhece!?


— Por que você não volta a respirar como eu te ensinei? Vai causar danos ao bebê.


— Por que está tão calmo!?


— Porque você está nervosa. Alguém aqui precisa manter o controle da situação. Concorda?


Ele inclina levemente a cabeça.


— Você está grávida?


— Estou! — respondo. — Eu te conheço de algum lugar?


— Creio que não, filha — diz ele, quase com tristeza. — Moro bem longe daqui. Em outro país.


— Onde? E por que veio palestrar aqui se mora tão longe?


— Porque precisava. Estou de férias. O reitor me convidou.


Seus olhos sorriem.


— Por que eu não viria?


— Porque isso aqui nem é uma faculdade importante! Nem federal é! Estamos longe de onde as coisas acontecem!


— Engano seu, meu anjo.


Ele olha ao redor.


— Tudo acontece aqui. Basta observar. Enquanto conversamos… o tempo para.


— O senhor é estranho, professor Enrico.


— Pessoas são estranhas, Adessa… até que a gente as entenda.


— Você conhece Vincenzo?


— Por que eu o conheceria?


— Porque eu sinto que conhece.


Ele sorri.


— Será? Talvez.


— Isso está parecendo conversa de bêbado.


Ele tira um lenço de algodão do bolso do paletó.


— Pra quem é o lenço? — pergunto, desconfiada. — Não vai me fazer cheirar clorofórmio, vai?


Ele ri.


— Não mesmo. Você é simplesmente esplêndida.


— Putz… segunda vez que dizem isso pra mim em menos de uma semana. Isso dá medo.


Lágrimas surgem sem aviso.


Aceito o lenço.


— Obrigada.


Assoo o nariz.


— Estou chorando feito uma idiota. Tenho medo de tudo. Eu não era assim, professor.


— Não se preocupe com isso. É natural. Seus hormônios estão em ebulição.


Ele suspira.


— Me perdoe se te assustei. É que você é especial, Adessa. Não se deixe enganar pelas aparências, filha.


— Não entendi.


— Nem tudo que reluz é ouro.


Reviro os olhos.


Isso o faz rir.


— Será que o senhor poderia ser um pouco mais direto? Ir logo ao ponto?


— Nem todos que se aproximam de você querem o seu bem.


Ele me encara com seriedade.


— E nem todos os que parecem perdidos… são maus.


— Ai, cacete! Isso não me ajuda em nada! Você e Jesus falam em parábolas e eu estou precisando de conselhos mais diretos!


— Eu não posso aconselhá-la, meu anjo. Eu não a conheço.


Ele faz uma pausa.


— Só sei que você tem um amigo que classifica como narcisista.


— E que o senhor já absolveu sem sequer conhecê-lo — rebato. — Você o conhece? Conhece Vincenzo Rossi?


Ele solta o ar.


— Não.


— Então por que eu sinto que vocês se conhecem?


— Porque você tem uma imaginação fértil.


Ele se levanta do banco.


Inclina-se e beija o topo da minha cabeça.


— Adessa, aprenda a conter seus impulsos. Só então você verá a verdade.


— Putz… outra parábola?

— Ok. Algo direto? — diz ele, já em pé ao lado do carro.



O vento frio bagunça seus cabelos curtos enquanto inspiro fundo, esperando o tal conselho.


— Seja o mais racional possível quando estiver com seu amigo. Seja uma pedra. Uma pedra cinza. Não reaja ao que ele disser ou demonstrar. Se ele for realmente um narcisista, provavelmente vai surtar. E, se surtar… afaste-se dele, filha. Tente ser feliz sem ele.


Ele faz uma breve pausa.


— Embora eu acredite que vocês tenham nascido um para o outro.


Estranho suas últimas palavras.


Levanto-me do banco no mesmo instante em que meu bebê se move novamente em meu ventre.


Extasiada, esqueço Enrico por um momento e acaricio minha barriga.


— Você sentiu isso? — sussurro, rindo sozinha.


Ergo a cabeça.


Meus olhos procuram o professor ao redor.


Nada.


Enrico desapareceu.


Como fumaça levada pelo vento, que agora ruge, espalhando meus cabelos.


— Eu não suporto mais essa coisa de falar com fantasmas! — resmungo. — Não é possível! Ele palestrou para outros alunos!


Palestrou mesmo… ou você imaginou tudo isso?


— Você é louca! Eu estava lá! Ele estava aqui! Eu toquei nele e vi tudo!


Viu até o final? Até o final do acidente de carro?


— Cala a boca — ordeno à voz na minha cabeça. — Eu não vou permitir que você me enlouqueça.


— Falando sozinha?


— Aiden!? O que faz por aqui!?


— Eu te segui.


— Mentira!


Ele tenta esconder o riso. O que, infelizmente, o deixa ainda mais atraente.



Uma pena ele não gostar de mulheres.


Sweet adoraria fo… trepar com ele.


Somente Sweet?


Cala a boca.


— Me fala a verdade. Por que você está aqui?


— Calma, Adessa. Tenho amigos aqui. Ou você acha que sou uma alma solitária e demoníaca vagando pelo tempo e espaço à procura de alguém que amo?


— Que ideia esquisita.


— Concordo.


Ele inclina a cabeça.


— Está com fome?


— Muita!


Arrependo-me no segundo seguinte.


Ótimo. Agora ele vai achar que sou completamente desequilibrada.


— Não… obrigada. Acho melhor comer em casa.


— Faço questão de te mostrar os prazeres da vida.


— Não entendi… de novo.


— Comida, querida. Comida. Você gosta de massas?


— Amo!


Dou um pequeno pulo de animação.


— Amo tudo que me faz lembrar da Itália!


— Perfetto. Venga con me.


— Dove andremo?


Ele sorri.


— Parabéns. Além de linda e talentosa bailarina… parla italiano.



Já sentados diante de dois pratos fumegantes de macarrão ao molho branco, tento manter algum tipo de dignidade.


— Quase nada — digo. — Meu italiano é digno de pena. Mas quando eu estiver lá…


Ergo um dedo pedindo um segundo enquanto sugo um fio de macarrão longo demais.


Ele me observa como se estivesse lidando com uma paciente psiquiátrica perigosa.


Eu odeio esse olhar.


— Então… — engulo a massa. — Quando eu estiver na Itália, aperfeiçoo meu italiano.


Evito encará-lo.


— Você poderia parar de me olhar assim?


— Mio Dio.


Ele revira os olhos.


— Isso de novo? Como você acha que eu te olhei?


Não posso dizer que ele me olhou com luxúria.


Ele é gay. Provavelmente riria na minha cara.


— Como se eu fosse louca. E eu não sou.


— Está parecendo.


Ele ri da minha cara fechada e toca minhas mãos.


— Você tem passado bem?


— Como assim?


— O bebê está bem?


— Diabos!


Puxo minhas mãos.


— Agora todo mundo sabe que estou grávida!? Minha barriga está enorme assim!? Eu vomito todo dia! Não é possível que eu tenha engordado tanto!


— Não está.


Ele se recosta na cadeira.


— Você está perfeita. Não dá para perceber. Ainda não.


Seus olhos descem discretamente.


— Talvez… sem roupa, fosse mais fácil notar.


Solto uma gargalhada estridente.


— Você detestaria me ver nua. Pode acreditar. Não faz seu tipo.


Uma sobrancelha dele se ergue.


— Você que disse isso. Não eu.


Ele limpa os dedos no guardanapo.


— Mas vamos falar de negócios.


— Negócios!?


— Gostaria de vê-la no ensaio de amanhã.


— Não posso. Preciso trabalhar.


Ele se inclina.


— Em quê você trabalha, querida? Talvez eu possa ajudar.


— Não. Nem pensar.


— Pode falar. Não tenho preconceito.


— Como você sabia que eu estava grávida?


— Intuição.


Ele inspira profundamente, como se analisasse algo no ar.


— Mulheres grávidas têm um cheiro diferente.


Fecha os olhos.


— Você tem esse cheiro, Adessa. Lavanda… com algo cítrico.


— Nunca ouvi isso…


Dou outra garfada na massa.


— Você é mais do que estranho. É bizarro.



Dou de ombros.


— Mas eu gosto disso em você.


— Que bom.


— Não vai comer?


— Não. Quer o meu?


— Aceito!


Trocamos os pratos.


Devoro o segundo macarrão diante de um coreógrafo de Juilliard.


Provavelmente já perdi o título de bailarina do ano.


Mas meu filho e eu estamos famintos.


— Negócios? — repito com a boca cheia. — Fala de negócios enquanto eu como. Isso aqui está maravilhoso.


— Você tem alguém que te sustente?


— Nem pensar. Eu pago minhas contas com meu dinheiro.


Sorrio.


— Dinheiro suado. Muito suado.


— Então talvez goste da minha proposta.


— Qual?


— Coma devagar.


Ele cruza os braços.


— O mundo não vai acabar hoje.


— Ok, chefe. Fala logo. Eu preciso de dinheiro.


Seus olhos brilham.


— Tenho um amigo fotógrafo que gosta de modelos grávidas.


— Sei. Continue.


Ele estala o pescoço.


— Ele paga bem…


— E?


— Sem roupa.


Empurro o prato.


Levanto na mesma hora.


— Tá de sacanagem comigo!?


— Você poderia se sentar?


— Não!


Pego um guardanapo e limpo a boca com força.


— Você nem me conhece e quer que eu pose nua pra um cara estranho!?


— Não é assim.


— E quanto ao fato de eu ser uma ótima bailarina!? Já desistiu de mim!?


— Adessa…


— Quero ir embora.


Ele segura meu braço.


— Espera.


— Solta.


Minha voz sai baixa.


— Eu preciso descansar antes do trabalho.


Respiro fundo.


— Talvez um dia eu te conte minha história. Por enquanto… saiba que ela não tem nada da magia que foi dançar naquele palco.


— Não há nada de errado em posar para um fotógrafo profissional. Ele paga bem.


— Estamos atrapalhando os garçons. Larga meu braço.


Saio esbarrando nas mesas.


A escada da cantina surge diante de mim.


Coloco a mão na barriga.


Respira.


Ninguém vai morrer hoje, filho.


Seguro o corrimão e começo a descer.


De repente, sou erguida do chão.


— Me põe no chão, Aiden! Isso é patético!


— Patético é ver você descendo escadas como uma senhora de cem anos.


— Me põe no chão!


— Cala a boca, Adessa — ele sussurra perto do meu ouvido.


Pela primeira vez sinto seu perfume.


Amadeirado.


Exótico.


Quase afrodisíaco.


Ainda assim… muito inferior ao cheiro de maçã verde do pai do meu filho.


Onde está Vincenzo quando eu preciso ser salva de mim mesma?


— Já chegamos — diz Aiden. — Quer que eu te leve até sua casa no colo? Para mim seria um prazer.


Salto dos braços dele.


— Não seja ridículo! Eu só… me perco nos meus pensamentos às vezes.


— Você sempre se perde nos seus pensamentos.


Ele suspira.


— Me perdoa se te ofendi.


Diante do sorriso dele, minha raiva desarma.


— Eu que peço desculpa. Eu me altero demais com você. E você não merece.


Minto um pouco.


— Você quer me ajudar. Eu sinto.


Faço uma pausa.


— Mas não posso aceitar essa proposta. Tenho uma doença que preciso curar.


— Doença?


— Não quero falar disso agora.


— São só fotos. Ele não vai te tocar. Eu estarei lá.


Uma crise de riso me faz curvar o corpo para frente. Apoio o braço no ombro de Aiden enquanto choro de tanto rir.


O riso vai morrendo aos poucos.


Endireito a postura, tentando me recompor.


Aiden não se move.


Só me observa.


Quando finalmente o encaro, murmuro:


— Desculpa…


— O que eu disse de tão engraçado?


— Nada. Perdão.


Esfrego os olhos.


— Eu não quero ficar aqui. Quero ir pra casa. Está frio… preciso me deitar.


— Eu entendo. Eu te levo.


— Não precisa. É aqui perto.


— Melhor ainda. Eu te acompanho. Não quero te ver sozinha por aí, gargalhando feito louca.


— Eu não sou louca — afirmo, ainda rindo. — Só pareço.


Olho para ele.


— Você vai mesmo continuar andando do meu lado?


— Se você permitir.


Suspiro.


— Tá. Estou cansada demais pra brigar com você. Faz o que quiser. Mas não vou te convidar pra subir. Você fica na portaria do prédio. Entendeu?


— Em alto e bom som, chefe.



— Você é fofinho…


— Só mais uma tragada e chega, Adessa.


— Me passa aí…


— Você está grávida, mulher. Se controla.


— Se controla… se controla…


Dou uma gargalhada enquanto solto um círculo perfeito de fumaça.


— Isso é absolutamente fantááástico.


— Meu anjo, chega.


— Devolve meu cigarrinho. Estou super bem.


Aponto para o som que invade o apartamento.


— Já percebeu que essa música é fantástica?



— Já. E você está muito chapada. Isso não deve fazer bem ao bebê.


— Eu só dei duas tragadas. Não faz sentido…


Fecho os olhos por um segundo.


— Ouve a música… sente o som…


— Para de fumar e dança pra mim.


— Não.


— Por favor…


Ele me observa com uma expressão divertida.


— Se você não fosse gay, eu te apresentaria a Sweet Child. Ela ama homens como você.


— Adessa…


Ele ri.


— Quem te disse que sou gay?


— Você!


Deitados no tapete felpudo da sala, começamos a rir.


Embora, sinceramente, eu já não saiba exatamente do quê.


Minha cabeça está leve demais.


E eu continuo pensando naquele idiota que não quis fumar um baseado comigo.


Preconceituoso da porra.


— Por que está me olhando assim, Aiden?


— Porque você é linda.


Ele fala baixo.


— E fica ainda mais atraente quando está relaxada.


Aproximo o rosto.


— Qual é a cor dos seus olhos?


Franzo a testa.


— Eles mudam de cor… ou eu não estou enxergando direito?


— Olhe bem nos meus olhos e diga o que vê.


— Não quero.


Fecho os meus imediatamente.


Porque juro que vi faíscas ali dentro.


Que porra é essa?


Para de fumar maconha e levanta daí. Agora.


— Para de me olhar assim!


— Diga o que vê, Adessa.


Sua voz soa quase desesperada.


— Olhe para mim. Eu imploro. Você consegue me ver?


Tento me levantar.


Meu corpo falha.


Caio para o lado.


Aiden me segura e me faz sentar diante dele.


Ele pega o baseado da minha mão e o apaga no cinzeiro da mesa.


— Me olha — ele pede, quase num lamento. — Você consegue me ver. Você se lembra de mim?


— Que papo é esse?


Minha cabeça gira.


— Não estou gostando. Sai da minha casa.


Ele solta um suspiro.


— Me desculpa. A erva e a música… eu me deixei levar.


Ele se levanta.


Pigarreia, tentando recuperar a compostura.


Estende a mão e me puxa para ficar de pé.


Seus dedos ágeis prendem meu cabelo em um coque no topo da cabeça.


Como um cabeleireiro experiente.


— Assim fica melhor, meu anjo.


Ele beija minha testa.


— Perdão pela oferta de trabalho. Eu te ofendi.


— Não…


— Te vejo amanhã no teatro?


Ele se vira para sair.


— Espera!


— Te vejo amanhã no teatro.


A porta do elevador se fecha.


E ele desaparece.


Fico parada no corredor, sem saber o que pensar.


Corro para o banheiro.


Vomito no vaso.


Depois tiro as roupas e fico longos minutos debaixo do chuveiro.


A água morna relaxa meus músculos.


Saio.


Me enrolo na toalha.


Deixo-a cair no chão.


Visto uma camisa de Vincenzo.


Seu cheiro de maçã verde me envolve.


Olho para o espelho embaçado.


Dou um passo para trás.


E então grito.


No vapor do vidro, mãos invisíveis escrevem lentamente:


"Não se esqueça de mim, Adessa."


Cambaleio até a cama.


Exausta.


Me jogo contra o colchão.


Os olhos dele surgem entre uma fumaça densa antes de eu perder os sentidos.


E dormir.


Profundamente.



— Não se aproxime de mim. Você não tem o direito de me tocar.


— Eu não vou te tocar, Adessa. Só quero te ver de perto.


— Já viu. Me deixa voltar! Eu quero voltar!


— Você se sente inatingível agora.


Ga'al sorri com desprezo.


— Desde quando acha que tem o poder de me repelir?


— Desde que meu filho e eu fomos abençoados por Miguel, o Arcanjo!


Minha voz ecoa.


— Peça às cobras que saiam do meu caminho! Eu quero voltar!


— Peça você mesma.


Ele abre os braços.


— Você é tão poderosa…


Ergo o braço.


Um chicote surge em minha mão.


Materializado diante dos meus olhos.


Estalo o couro no chão de terra.


As serpentes recuam, deslizando para longe.


"Serpentes enroscadas em seus ninhos."


Ga'al ri.


— Parabéns, querida. Aproveite seus dias de poder. Eles irão terminar.


— Não!


Minha voz treme de fúria.


— Você não tem mais acesso à minha vida! Estou livre de você e da sua devassidão nojenta!


— Se você diz…


— Fica longe de mim e do meu filho!


Eu grito.


— Longe! Longe!


Acordo sentada na cama.


Minha camisa está encharcada de suor.


— Fica longe de mim e do meu filho, verme — sussurro.


Olho ao redor.


O quarto está vazio.


— Graças ao Criador, filho. Nada de ruim vai acontecer com você.


E eu acreditei nas minhas próprias crenças.




— Você me pediu para ir embora, Adessa. E eu fui.


— Quando, Doc? Eu nunca te pediria isso. Eu estava com medo. Você simplesmente sumiu… antes mesmo de eu entrar no teatro.


Ele me observa com cuidado.


— Tem certeza de que não se lembra?


— De quê, Doc!? — minha voz sobe. — Você está me assustando.


— Você estava estranha naquele momento. Falou… de um jeito estranho.


— Como assim?


— Calma, meu anjo. Cuidado com o bebê.


A exaustão me quebra no meio.


— Eu não aguento mais todo mundo me mandando ficar calma por causa do meu filho! — explodo. — Eu não sou uma criança e não estou louca!


Doc suspira, amuado.


— Você mandou eu vazar. Disse para te deixar em paz… com aquele homem.


O arrependimento me atinge na mesma hora. Abraço-o com força.


— Doc… eu nunca falaria assim com você. — minha voz falha contra sua camisa. — Me perdoa. Tem certeza de que fui eu quem disse isso?


— Não tem importância, filha. Já passou. — ele sorri, tentando aliviar o peso. — Vocês dois estão bem. É o que importa.


— Eu nunca diria isso a você.


— Dizer o quê a quem?



A voz de Sweet Child corta o ar antes mesmo que eu consiga responder.


Doc endurece.


— Não é da sua conta.


— Se ela quiser contar, ela conta. Você não é o pai dela.


— E você não é amiga dela também.


— Parem! — imploro. — Não discutam por minha causa.


— Eu gosto dela e ela sabe! — rosna Sweet.


— Você a inveja e ela sabe! — rebate Doc.


— Doc! Chega!


— Foi ele quem começou! — Sweet bufa.


— E você termina — ordeno. — Depois a gente conversa, Doc.


Ele se inclina e sussurra no meu ouvido:


— Cuidado com ela. Ela quer o que é seu.


Sorrio cansada.


— Eu não tenho nada, Doc. Então ela escolheu a pessoa errada para invejar.


Doc beija minha testa. Ao levantar os olhos, encontro o rosto de Sweet duro de raiva.


E eu não entendo por quê.


Ela pode ter qualquer homem que quiser. Está ganhando dinheiro com meus antigos clientes e com o trabalho no California.


Então por que, diabos, o Moulin Rouge atravessa minha cabeça de repente?


— NÃO! Ainda não!


— Responde direito, amiga! Eu só perguntei…


— Você perguntou se eu dormi com o coreógrafo da companhia e se fui aceita entre eles! — respondo, irritada. — Não. Ainda não.


Sweet abre um sorriso curioso.


— Ele é bonitão?


Sorrio com sarcasmo e continuo andando.


— Faz seu tipo… eu diria.


— Mas?


— Não me empurra! Quer que eu caia e machuque meu filho?


Por um segundo… só um segundo… vejo algo sombrio no rosto dela.


Mudo de assunto.


— Ele é gay. Uma pena, porque é um espetáculo.


— Me apresenta ele.


— Eu disse que ele é gay — rosno.


— Vamos ver se continua depois de me conhecer.


Reviro os olhos e me sento diante do espelho iluminado do camarim.


— Não seja patética. Orientação sexual não muda porque você quer.


— Veremos.


Olho seu reflexo no espelho.


— Você se acha, né?


Sweet sorri.


— Não. Eu me encontro. Eu sei quem sou… e sei o que quero. E quando eu quero algo… eu consigo.


— Mesmo machucando outras pessoas?


O leilão me invade como um relâmpago. Vincenzo. Ela. O quarto fechado.



Ódio.


— Mesmo machucando suas amigas?


— Sim.


Ela hesita um segundo.


— Mas não você. Nunca machucaria você… amiga.


— Aham.


Ela sai. Fico sozinha com minhas suspeitas.


Ou pior.


Com lembranças que eu não consigo lembrar.


— Entra!


— Falando sozinha de novo? Isso está ficando assustador.


Levanto num pulo.


— Aiden! O que você está fazendo aqui?



— O que você acha? Por que eu te convidei para dançar comigo?


— Eu não acredito... — Exalo, voltando a cair na cadeira. Uma sensação desagradável de vergonha e raiva me silencia por alguns segundos. Não sei o que pensar. — Sai daqui... por favor.


— Adessa... — diz ele serenamente, puxando outra cadeira e sentando-se diante de mim. — Eu não me importo com o que você faz ou por que faz. Eu desejo a bailarina.


— Deseja? — questiono, de cabeça baixa. — Como?


— Como você quiser, meu anjo. Como...


— Amiga!!! — interrompe Sweet, suada e assanhada, invadindo o camarim. — Esse seria o famoso coreógrafo???


Cerro os olhos e enfio a cabeça entre as pernas abertas. Inspiro e expiro devagar, contendo a ânsia de vômito. Há um peso absurdo sobre meus ombros. Tudo o que desejo é sair daqui, voltar para o meu apartamento e chorar... em paz.


— Fala, amiga!


— Não consegue enxergar que ela não está bem? — Ergo a cabeça, francamente surpresa com a atitude de Aiden. — Que tipo de amiga é você?


— Do tipo que gosta de conhecer os amigos da minha amiga.


Encolho-me novamente enquanto Sweet — ainda exalando feromônios após seu ritual de acasalamento no palco do California — estende a mão para Aiden.


— Meu nome é Sweet Child. É um prazer quase que sexual.


— Sou Aiden.


Prendo um riso quando ele simplesmente ignora a mão dela, deixando-a suspensa no ar. Desde quando eu me tornei má?


— Vamos sair daqui, Adessa? Você precisa de ar puro.


— E eu preciso te conhecer melhor, Aiden. Seu nome é italiano?


Baixo a cabeça quando Aiden solta uma gargalhada mais do que sonora. Uma afronta auditiva.


— Não, querida. É do Alasca.


— Por que tá rindo, amiga??? Ele tá me zoando???


— Desculpa, Sweet. — Inspiro fundo e volto à seriedade, sem compreender a estranha animosidade entre os dois. — O nome dele é irlandês. Não me puxa, Aiden!


— Espera um pouco! — pede Sweet, irritada. — Por que não quer falar comigo!? Eu não faço o seu tipo!?


— Sweet!!! — Eu a repreendo. — Que desagradável!!! Eu já te disse...!!!


— Que ele é gay!? — Meneando a cabeça, ela abre um sorriso irônico. — Ele é tão gay quanto o seu padreco, amiga.


— Não dê ouvidos a ela, Adessa!


Aiden me arrasta para fora do camarim, mas meu sangue ferve. Eu me solto e volto para encarar Sweet.


— O que quer dizer com isso!? O que rolou no quarto naquela noite do leilão!? FALA, SWEET!


— Adessa, vamos!


— Me solta, Aiden!


Com as mãos no pescoço de Sweet, rosno entre os dentes.


— Fala tudo!


Quase sem ar, ela ainda consegue sorrir antes de sussurrar:


— De tudo... um pouco.


— Filha da puta!


— Chega! — grita Doc, surgindo entre nós. — Deixa ela comigo, Aiden. Obrigado por sua preocupação.


— Ela...


— Obrigado por sua preocupação. — insiste Doc, inflando o peito enquanto me impede de avançar sobre Sweet. — Quando ela estiver mais calma, ela fala com você.


— Adessa, querida...


— Aiden... — choramingo já no colo de Doc, enquanto ele me leva para fora do California.


Dentro do carro, eu choro convulsivamente. Choro de raiva, de ódio, de tristeza, de vergonha... de inferioridade.


— Eles transaram, Doc. Aquela vaca e o pai do meu filho transaram... e ele disse que não.


— Não acredite no que aquela mulher diz, filha. Ela não quer o seu bem. Quando vai acreditar em mim?


— Você acha que ela mentiu?


Agarro-me a um fio de esperança, embora meus instintos gritem o contrário.


— Ela mentiu, Doc?


— Claro que sim, meu anjo. — Ele acaricia meus cabelos em desalinho. — Você precisa descansar. Amanhã será um novo dia. Acredite.


— Eu acredito.


Minha voz sai fraca.


— Eu preciso acreditar.





No dia seguinte, escancaro a porta do auditório.


Reconheço Aiden no palco com seus alunos e grito, sem pensar:


— Ainda posso ensaiar com vocês?


Ele sorri daquele jeito enigmático irritante e começa a descer as escadas.


— Claro que pode. Nós estávamos esperando por você, meu anjo. Venha. Esqueça o mundo lá fora.


Ele para diante de mim.


— Aceite minha proposta… e eu mudo a sua vida.


Estou devastada demais para pensar.


— Eu aceito.



Assisto, fascinada, ao ensaio da adaptação dramática de Roxanne.


Moulin Rouge.



Sempre Moulin Rouge.


A lembrança daquela noite volta como um soco.


Traição.


Humilhação.


Talvez essa raiva sirva para alguma coisa.


Afinal, estou prestes a interpretar uma prostituta que vende a própria alma… enquanto ainda ama o homem que a perdeu.


Perfeito.


Sob o comando de Aiden, tento os primeiros passos.


O tango pulsa como um coração ferido.


A música respira dor.


Aiden se aproxima por trás de mim.


— Deixe sair — sussurra em meu ouvido. — Tudo.


Suas mãos seguram meus punhos. Seus olhos prendem os meus.


O ambiente escuro do teatro parece engolir a luz.


Por um momento, sinto que estou afundando em algo profundo… algo sem retorno.


Mesmo assim continuo.


Talvez porque eu seja burra.


Burra o suficiente para confiar em Vincenzo.


Burra o suficiente para acreditar em fidelidade.


ELE TRANSOU COM SWEET.


E depois comigo.


Sinto náusea.


— Adessa! De novo! Você errou o passo!


— Eu estou cansada, Aiden…


Enxugo as lágrimas com o dorso da mão.


— Não podemos parar um pouco?


— É assim que pretende mudar de vida? Chorando por um homem que te traiu?


— De onde você tirou isso?


— Você ainda pensa nele!


Ele aperta meu pulso.


— Você ainda acredita nele!


— Larga meu braço, Aiden!


— Dance! Tire esse homem do seu coração!


— Aiden, para!


Ele me puxa contra o peito.


Seu rosto fica perigosamente perto do meu.


— Quantas vezes ele precisa te trair até você entender que não te ama?


— Você é louco.


Cuspo em seu rosto.


— Me solta!


Minha voz treme.


— Você está machucando o meu bebê.


Então acontece.


Seus olhos mudam.


Ao redor de nós, os alunos parecem se mover como serpentes.


Risos ecoam nas sombras do teatro.


— Me solta… — sussurro. — Eu estou com medo.


— Não tenha medo de mim, meu anjo. Eu nunca te machucaria como ele fez.


— Você não sabe nada da minha vida.


A sala gira.


— Por favor… me solta.


Então uma voz explode na porta do auditório.


— NÃO OUVIU O QUE ELA DISSE?


Reconheço imediatamente.


— Larga ela agora, caralho!


Aiden me solta.


Vincenzo caminha até nós.


Os dois se encaram como animais prontos para atacar.


— Eu te reconheço — diz Aiden.


— O sentimento é mútuo — responde Vincenzo.


O ar entre eles poderia ser cortado com uma faca.


Desde quando eles se conhecem?


— Pra onde você está indo, Dess? — grita Vincenzo. — Me espera!


— VÃO PRO INFERNO! — berro. — ODEIO VOCÊS DOIS!


Arranco as sapatilhas e corro para fora do teatro.


A chuva me atinge como agulhas.



Desço as escadas quase escorregando.


Carros passam pela rua molhada enquanto minhas lágrimas se misturam à água da tempestade.


— Idiota! — grito para mim mesma.


Dou um passo na faixa de pedestres.


Vincenzo me alcança e me puxa de volta.


— Eu te salvei daquele surtado!


— Eu não preciso de você!


— Do que está falando?


— Você transou com Sweet!


— Vamos sair da chuva!


— CONFESSA!


— EU NÃO TE TRAÍ!


— NÃO ENCOSTA EM MIM!


— DESS! VOCÊ VAI ESCORREGAR!


— FODA-SE!


Começo a atravessar a rua.


Então olho para trás.


No topo da escadaria do teatro, Aiden observa tudo.


Sorrindo.


Como se estivesse assistindo a um espetáculo.


— Dess… — diz Vincenzo com cuidado. — Fica parada aí. Eu vou até você.


— Não chega perto de mim.


Dou um passo.


Meu pé prende num buraco.


Caio.


Quando me levanto, vejo Sweet ao lado de Vincenzo.


A luz de um carro explode diante dos meus olhos.


Freios gritam.


Ouço o grito de Vincenzo.


O impacto vem como um trovão.


Meu corpo se torna leve.


Como uma borboleta quebrada no ar.


Dor.


Escuridão.


A última coisa que penso é:


Meu filho.


Luzes fluorescentes passam sobre mim.


Uma mão segura a minha.


Uma voz sussurra:


— Eu não vou te abandonar, meu anjo.


E, como Aiden prometera quando nos conhecemos…


Minha semana realmente terminaria impiedosamente inesquecível.















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