CAPÍTULO 42 - A MAIS FORTE SOBREVIVERÁ
Corro, quase leve demais, pelo corredor.
Abraço o aniversariante com força e digo que o amo.
Ele franze o cenho, intrigado, enquanto eu já me afasto em direção à varanda.
— Aonde vai?
— Buscar seu presente!
— E o almoço!?
Recuo um passo, piscando para Enrico.
— Quando eu voltar… fazemos juntos. Como nos bons e velhos tempos.
— Tem certeza de que gostaria de ouvir meu relato? Pode ser… inconveniente.
— Por que, Celeste? Estamos em família.
Ela me olha. Ainda abatida. Ainda distante.
Toco o dorso de sua mão sobre a mesa.
— Agora estamos unidos. Nada… ninguém vai nos deter.
— Engraçado… — murmura Cassie, com um riso que não chega aos olhos. — Liam costumava dizer isso antes de…
— Antes de quê, Cassandra?
Ela se encolhe levemente.
— Nada, tia… esquece.
O silêncio que fica é curto… mas pesado.
— Nossa… faz tempo que você não me chama pelo meu nome.
— É… — respondo, sem sustentar o olhar. — Escapou.
— Esquisito — comenta Antoine. — Você sempre chama ela de “Cassie”.
Dou de ombros. Cassandra me sorri. Eu retribuo.
— Você tá esquisita.
— Eu?
— É, mamãe. Você.
Desvio o olhar.
— Seu fettuccine está fabuloso, tia — diz Cassandra, abatida.
— Simplesmente esplêndido! — Antoine vibra. Leo, de boca cheia, só confirma com a cabeça. — Você cozinha muito bem, mãe!
— Não posso levar o crédito dessa vez. Enrico me ajudou. Na verdade… ele fez quase tudo.
— Depois do seu presente, filha, era o mínimo — diz ele, emocionado, abraçando Celeste. — Como conseguiu convencer ela a entrar? Vincenzo e eu tentamos por dias…
— Talvez ela me ame mais do que vocês dois.
Evito o olhar de Vincenzo e enfio mais uma garfada na boca.
— Hm… isso aqui tá fantástico.
— Come devagar, Dess. Vai se engasgar.
Ele não tira os olhos de mim.
— Já alimentou nosso filho? Ele parece com fome.
— Quando eu terminar, eu dou comida pra ele. E, daqui, ele me parece bem satisfeito. Como sabe que ele tá com fome?
— Esqueceu? — o olhar dele pesa. — Foi você quem me ensinou.
— Ah… claro.
Forço um sorriso.
— Podemos continuar a história da Celeste? Tô curiosa.
Vincenzo se levanta, já impaciente.
— Eu cuido dele.
— Fica perto da gente, pai.
— Já volto.
Com Matteo no colo, ele ainda me encara antes de sair.
— Podem continuar sem mim!
— Então a senhora entrou pra “Legião” por ciúmes… e saiu porque aceitou o amor deles? — Antoine pergunta.
— Não é tão simples… — Celeste responde, confusa. — Eu e sua mãe brigávamos muito. E Enrico nunca ficava do meu lado…
— E isso justifica abandonar tudo? — Antoine dispara. — Um anjo como a senhora se envolver com aquilo?
— Calma — Leo tenta intervir, sem graça. — Assim ela não vai terminar a história…
— Tô ligada. Mais do que você imagina.
— Respeite sua avó, Antoine.
— Eu estou respeitando! — ela rebate, com um sorriso que irrita. — Só tô perguntando.
— Eu respondo — diz Celeste, tentando manter a calma. — Eu explico, meu amor.
— Você não me ama, vó.
— Antoine! Quer ficar de castigo!?
— Por falar o que pensa?
Vincenzo volta, Matteo no colo, e se senta.
— Bizarro? — ele diz, antes que eu abra a boca. — Foi você que me ensinou essa mistura de purê de batata com caldo de feijão.
Respiro fundo.
— Você pode parar de ler meus pensamentos e prestar atenção na história da minha…?
— Sua?
— Sogra.
A palavra pesa.
— Sua mãe sofreu muito. Foi humilhada, forçada… e você aí, distraído?
O silêncio cai pesado sobre a mesa.
Matteo, com o rosto sujo, ri.
— “Mamãe dodói”.
— Eu sei, filho… — murmura Vincenzo.
Ele volta o olhar para Celeste.
— Como você conseguiu sair de lá?
— Eu lutei — ela responde, cansada. — Lembrei de quem eu era… de vocês… da Irlanda…
Ela se interrompe.
— Perdão, filho. É a memória mais recente que tenho.
Depois olha para mim.
— Adessa… me perdoa. Não quis te ferir.
— Não feriu — respondo, firme. — Sua sobrinha te amava. Esse tipo de amor não acaba.
— Não mesmo… — sussurra Celeste.
O clima pesa.
— Certo. — Antoine ergue o queixo. — A senhora foi embora. Deixou meu irmão desprotegido. Destruiu meu avô. Me deixou aqui… quando a gente mais precisava.
Silêncio.
— Depois voltou… empurrou a Cassie… e provocou um aborto.
— Antoine, não… — Cassandra cobre o rosto, tremendo.
— Eu sei o que estou fazendo. — diz ela, fria. — Também tentou matar o vovô. E quase conseguiu.
Leo solta um “caraca” baixinho.
— E agora volta como se nada tivesse acontecido? Quer que a gente acredite?
Ninguém responde.
— O que você ganhou com isso, vó?
— ANTOINE! — perco o controle.
— Com quem, mãe?
— Com a sua avó!
Minha voz sai mais alta do que deveria.
— Todo mundo erra. Todo mundo merece uma segunda chance. Você não pode dar isso a ela?
Antoine sorri. Aquilo me irrita mais do que deveria.
— Rosnar faz mal pra garganta.
Vincenzo intervém:
— Chega.
Ela obedece… mas só na superfície.
Segura as mãos de Celeste, fecha os olhos.
Silêncio.
Quando abre, a voz muda.
— Eu vejo… — diz, suave. — Vejo o lugar onde te colocaram. Escuro. Fétido. Vejo você pedindo ajuda…
Celeste desaba.
— Foi Miguel… não foi?
— Foi… — ela chora. — Eu me arrependo de tudo.
— Eu sei.
Tudo parece calmo… por um segundo.
— Agora peça perdão à Cassie.
— Não precisa… — murmura Cassandra.
— Precisa sim.
Celeste respira fundo.
— Eu não queria… — sua voz falha. — Se eu não fizesse… eu seria punida de novo. Ele não queria…
Ela trava.
— Não queria aquilo.
Cassie endurece.
— Do que você tá falando?
— Cassie… — tenta Enrico.
— Ela precisa saber!
Enrico a puxa.
— Ele tem mais força do que vocês imaginam! — grita Celeste, sendo levada para fora.
O caos volta.
— É sobre meu filho? — Cassandra entra em pânico. — Sean tá sozinho com o Liam!
Vincenzo ajoelha ao lado dela.
— Olha pra mim.
Ela não consegue.
Ele toca sua nuca.
Sussurra.
Antoine encosta a mão na cabeça dela.
Leo observa, em choque.
— Ele vai apagar… — penso.
— Exatamente. — Vincenzo confirma depois, já de pé.
Cassie pisca, confusa.
— Eu dormi?
— Tá tudo bem. — Antoine responde rápido demais.
— Aquela mulher… lembra? — continua, me encarando. — Que te chamou de…
— Do quê mesmo?
— “Striapach”.
Cassie ri, sem graça.
— Nem sei o que significa.
— Eu sei. — Antoine mantém os olhos em mim. — E ela também. Vagabunda. Não é, mamãe?
O sangue ferve.
— Sai da mesa.
— Experimenta. — Vincenzo segura meu braço antes que eu levante. — Já deu.
Ele respira fundo.
— Vocês dois, saiam.
Antoine pega Matteo.
— Relaxa, pai. Eu cuido do meu irmão… já que a mamãe não fez isso.
Eles saem.
Silêncio.
— Solta. Tá doendo.
— Já soltei.
Ele recua.
— Não tô te reconhecendo, Dess.
Ele vai pra cozinha.
— Deixa que eu lavo tudo.
Aquilo me incomoda.
Eu o sigo.
— Me desculpa… — digo, juntando a louça. — Minha cabeça tá estranha. Dói aqui atrás…
Passo a mão na nuca.
— Não lembro de ter batido.
Ele sorri.
Um sorriso errado.
— Você lembraria, Dess.
Pausa.
— Não depois do que você fez.
— Pois eu me esqueci. Eu bati em algum lugar?
— Na quina da cama de hóspedes. — responde ele, sem desviar os olhos dos meus. — Eu estava dormindo lá…
Ele continua lavando a louça, mas olha pela janela, como se esperasse.
— E por que diabos você estaria dormindo na cama de hóspedes e não na nossa?
— Não se lembra?
— Porra, para com isso! Eu não me lembro! Isso acontece! Você sabe que eu tenho lapsos de memória!
— Tem?
— Não me olha assim, Vincenzo. Me dá medo.
— De quê? Eu nunca te faria mal, Dess…
Ele se aproxima um pouco.
— Dess?
— Porco imundo!
Recuo, tomada por uma raiva súbita. Nesse instante, Matteo se agarra à minha perna direita.
O movimento brusco o derruba.
O choro vem alto. Dolorido.
— Você viu! — Antoine surge, indignada. — Por que balançou a perna? Ele ainda não tem firmeza pra ficar de pé!
Vincenzo larga tudo na pia e pega Matteo no colo, desesperado, cobrindo-o de carinho.
— Dodói… — balbucia o menino, chorando.
Leo e Antoine se aproximam, tentando distraí-lo. Entre soluços, Matteo aponta pra mim.
— Mamãe não… Mamãe não…
Fico parada. Sozinha.
Invisível.
Na cozinha, pego uma das garrafas e bebo direto do gargalo. O vinho desce rasgando, mas não mais que a raiva.
Seguro o choro.
Engulo.
— Dessa vez… eu não vou errar.
— Filha… por que o choro?
O abraço vem pelas costas.
Familiar. Acolhedor. Errado.
Eu cedo.
Sem forças pra explicar o que nem eu entendo.
— Tenha paciência… — ela sussurra, acariciando meus cabelos. — Não vá com muita sede ao pote. Se quiser ficar… vai precisar de tempo. E astúcia, mo chuisle…
Um beijo leve na testa.
Frio.
— Seja mais amorosa com ele. Contenha-se… ou ele vai descobrir.
Em seu segundo dia de volta ao lar, tia Celeste volta a se aproximar das crianças. Matteo se torna seu novo mo chuisle. Antoine, sempre alerta, não a deixa sozinha por um segundo.
Tio Enrico, paciente, tenta acalmar a neta.
— Algum dia eu te decepcionei, meu anjo?
— Nunca, vovô… — responde Antoine, hesitante. — Mas eu tenho pensado umas coisas.
— Que coisas, filha? — pergunta Celeste, com um sorriso cauteloso. — Pode me contar.
Antoine respira fundo.
— Eu ainda não confio na senhora. Não totalmente.
O sorriso de Celeste vacila.
— Perdão… — Antoine se apressa. — Eu tô com medo. A senhora não estava aqui da última vez que fomos atacados pela…
Ela trava.
— Legião. — completa Celeste, tranquila demais. — Pode dizer o nome.
Silêncio.
— Eu sei do que eles são capazes. — continua. — Naquela noite… eu estava no portão. Muitos tentaram entrar.
Ela arregaça a manga.
Marcas profundas. Mordidas. Arranhões.
— Foi assim que eu consegui isso.
Antoine recua, afetada.
— A senhora… lutou pela gente?
— Eu tentei. — responde Celeste, com humildade. — Mas sou só uma… contra muitos.
Antoine não resiste.
Abraça.
E Celeste corresponde.
Bonito.
Quase sincero.
Se não fosse…
Trágico.
Porque Antoine sempre consegue.
Sempre ocupa espaço.
Sempre toma o que é meu.
O rostinho doce… e todos caem.
E eu?
Eu perdi tudo.
Meu marido.
Meu tio.
Minha tia.
Meu filho.
Por causa dela.
Não se atreva a falar assim da minha filha.
Cala a boca.
Agora quem manda sou eu.
— Adessa…
Fica quieta.
Sente.
Sente como é estar presa.
Dentro de um corpo que já foi seu.
Eu vou tirar você do controle se tocar nos meus filhos.
Veremos.
— Adessa! Você está bem?
O mundo volta.
Eles me encaram.
Eu sorrio.
— Eu? Perfeita.
Me viro para o casalzinho.
— Leo… não me leve a mal. Mas você tem vindo aqui com muita frequência, não acha?
Ele estranha.
— Não tá na hora de dar um tempo? — continuo, doce demais. — Antoine precisa estudar…
— Eu estudo com ele! Ele é meu melhor amigo! E você… se fosse você mesma… saberia o quanto eu gosto da companhia dele!
Aquilo bate torto.
— Como assim? — avanço um passo. — Desde quando você fala assim com a sua mãe, Antoine?
Ela entrelaça os dedos aos de Leo.
Passa por mim sem pedir licença.
— Desde que você chegou.
O ar muda.
— Volta aqui. Me escuta.
Do corredor, ela nem vira.
— Isso não termina aqui, striapach.
Pronto.
Perdi.
Eu vou atrás.
Erro número um.
— Você acha que conhece o Leo? — minha voz sai mais alta do que deveria. — Não conhece nada! Sabe de onde ele vem?
Eles param.
— De uma foda mal dada entre um anjo caído e uma humana qualquer! — continuo, sem freio. — Sua mãe nunca surtou, Leo? Nunca chamou por “Astaroth”?
Silêncio.
Leo pisca, perdido.
— Do que você tá falando, tia? Eu… eu nasci aqui. Só isso. Não gosto desse papo.
— A verdade dói.
— Hoje você tá muito estranha… — ele dá um passo atrás. — Pra mim já deu. Perdão. Eu vou embora.
— Não, Leo! Você fica! — Antoine segura o braço dele.
— Eu preciso ir. — Ele puxa de leve. — Você me leva até a calçada?
Ela olha pra mim.
Ódio puro.
— Claro. Tudo… menos ficar aqui com quem eu não conheço.
A porta bate.
Forte.
Eles somem.
Atrás de mim, a voz de Enrico vem pesada.
— Que discussão idiota foi essa? Deixa as crianças, filha! Você sempre gostou do Leo!
— Tudo muda, Enrico. — respondo, seca. — Ele não é uma boa influência.
— Para de criar confusão, Adessa! — Celeste corta, decepcionada. — Não era pra ser assim. Eu voltei pra ter uma família… e você tá destruindo isso com ciúmes.
Aquilo arde.
— Pro seu quarto. — continua ela. — E só saia quando quiser fazer algo de bom.
Eu travo.
— Tia… — minha voz falha. — Você nunca falou assim comigo.
Ela não hesita.
— Esse foi o meu erro.
Silêncio.
Aquilo… doeu mais do que devia.
— Tia…? — dou um passo atrás. — O que é isso?
Ninguém responde como eu queria.
Engulo seco e sigo pelo corredor.
Meu quarto.
Minha última tentativa de normalidade.
Antes de fechar a porta, ainda ouço:
— É uma longa história, meu amor… — diz Celeste, cansada.
— Então começa. — responde Enrico. — Eu tenho todo o tempo do mundo.
Fecho.
Mas já é tarde.
— Você não precisa vir, Enrico. Eu sei cuidar do meu filho.
— Eu só quero ajudar. — responde ele, empurrando o carrinho de Matteo pela calçada. — Por que não veio de carro? Parece que vai chover.
— Porque… — engulo a resposta. — Eu gosto de andar. Da brisa.
— Está frio, Adessa. Matteo pode se resfriar.
— Sempre Matteo… — resmungo, baixo. — Sempre Matteo.
— Olha pra mim.
Ele para no meio da calçada.
A mão firme no meu braço.
Os olhos… cansados.
— Eu sei de tudo, Eileen.
O mundo dá uma travada.
— Não precisa fingir comigo. — continua ele, mais baixo. — O que você pretende fazer… de volta a um corpo que não é seu?
Eu abaixo o rosto.
Tarde demais.
— Eu voltei pra resgatar minha tia. — minha voz falha. — Só eu podia fazer isso. Foi por vocês! Por você e por ela!
Levanto o olhar.
Raiva. Dor. Tudo junto.
— E vocês ficam do lado da outra!
A palavra sai amarga.
— Não é justo!
Me jogo contra ele.
Choro.
— Eu não quero ser assim… — sussurro. — Eu só queria paz. Queria viver com o homem que eu amo… que me amou.
Silêncio.
— Eu fui a mãe do filho dele. — continuo, apertando o casaco de Enrico. — Ele precisa me amar.
Ele suspira.
Triste.
— Amor não se cobra, filha. Ele existe… ou não.
— Mas ele me ama. — insisto, quase infantil. — Em algum lugar, ele me ama.
Olho para Matteo.
— Eu posso amar ele… como amei o nosso Enzo.
— Não é assim que funciona.
— Comigo vai ser.
Pego Matteo no colo.
Com cuidado.
Mas não com calma.
Sigo andando.
Procuro Vincenzo.
Procuro qualquer coisa que me devolva controle.
E esbarro em alguém.
— Ei! — o homem ri, me abraçando sem cerimônia. — Quando vai fazer aquela limpeza lá em casa de novo? Depois daquela fumaça, o lugar ficou leve!
Eu travo.
— O quê?
Ele percebe.
Solta.
Sem graça.
— Nada… esquece. — sorri, tentando aliviar. — Olha ele… como cresceu.
Ele toca o rosto de Matteo.
Eu recuo.
Frio.
— Não toque nele sem minha permissão.
O sorriso dele some.
— Eu fiz alguma coisa errada?
— Você é…
A frase morre.
Porque eu não sei.
E isso… me irrita.
— Não lembra de mim? — pergunta ele, magoado. — Nem da sua afilhada?
— Afilhada? — repito, confusa. — Eu… sou madrinha?
Silêncio pesado.
— João. — ele diz, direto. — Meu nome é João. Tenho dois filhos. Você é madrinha da minha filha mais nova.
Ele dá um passo atrás.
— Mas tudo bem. Já entendi.
Antes que o estrago aumente...
— João, meu amigo! — Enrico entra, salvando o que dá. — Ela não está bem. Bateu a cabeça. A memória… falhando. Algumas coisas vêm. Outras não.
João encara.
Ainda ferido.
— Foi grave?
— Sim. — mente Enrico, sem sustentar o olhar.
Ele se aproxima de João e fala baixo:
— Deram alguns dias… até ela voltar ao normal. Me desculpa por ela.
— Relaxa. — João responde, ainda magoado.
Eles se abraçam.
E é aí que a voz de Vincenzo corta o ar.
— Mais problemas, Dess?
Eu me viro rápido demais.
— Nenhum, amor! — sorrio, quase aliviada. — Eu e nosso filho viemos te ver.
Ele nem sorri.
— Vou começar uma aula agora. Não posso te dar atenção.
Aquilo bate seco.
— Nem um pouco? — dou um passo à frente. — Eu caminhei três quarteirões pra isso?
Ele ignora.
— O que você disse ao João?
— Nada. — Enrico responde por mim. — João é um excelente rapaz.
Vincenzo não compra.
— Por que Enrico veio junto? — ele me encara. — Você não sabe andar sozinha?
— Ele quis vir. — dou de ombros. — Eu disse que não precisava.
— Por que não veio de carro? Vai chover. — ele olha o céu, depois pra mim. — Você parou de raciocinar?
A frase entra como faca.
— Não fala assim comigo…
— Como você quer que eu fale?
Eu perco o freio.
— Por que você não me trata com carinho? Uma vez só! Precisa ser sempre assim?
— Filha… — Enrico tenta conter. — Tem gente olhando.
— Que olhem! — estalo. — Eu não atravessei a cidade pra ser ignorada pelo meu marido!
Erro.
Grave.
Vincenzo me puxa pelo braço.
Forte.
— Volta pra casa. — a voz baixa, perigosa. — Antes que comece a chover. Lá a gente resolve isso.
Um trovão corta o céu.
Eu sorrio.
Errado.
— Tarde demais. — olho pra Matteo. — Seu filho vai assistir à aula. A não ser que você queira que ele pegue uma pneumonia.
Enrico intervém, aflito:
— Filho, me perdoa. Eu não queria…
— O senhor nunca me causa problema. — Vincenzo corta, sem tirar os olhos de mim. — Na verdade, talvez me ajude agora.
Ele se inclina, pega Matteo com cuidado.
— Cuida dele pra mim?
— Com a minha vida. — responde Enrico.
Eu rio, curto.
— Vai fugir mesmo?
Ele se vira.
— Quem vai se ferrar aqui é você. — aponta direto pra mim. — Tá me ouvindo… Dess?
O nome pesa.
Errado.
Frio.
— Vincenzo… — Enrico tenta acalmar. — Se controla.
Vincenzo recua.
Mas o olhar fica.
Promessa.
Ameaça.
Quando ele some pelo corredor, Enrico segura meus ombros.
— Se você fizer mais uma cena… eu conto pra todos quem você é.
Silêncio.
Eu sorrio.
— Pode deixar. — beijo o rosto dele. — Vou me comportar.
Mentira.
Sento numa cadeira dura, perto do ringue.
Lá em cima, Vincenzo descarrega tudo em um aluno.
Soco após soco.
Um deles reclama da música alta ecoando na academia.
Mas ninguém ousa mandar ele parar.
Nem eu.
— Ninguém merece ouvir isso, ‘bro’. — um dos alunos reclama, rindo. — Isso não é música pra luta. É pra chorar depois que leva um fora.
Vincenzo não ri.
— Dor de cotovelo? — o cara provoca.
Vincenzo olha pra mim.
Direto.
Frio.
— Não. — pausa curta. — É pior. É saudade.
O soco vem logo depois.
Seco.
O aluno quase vai ao chão.
E eu…
eu queimo por dentro.
O sol não brilha quando ela vai embora?
Eu estou aqui.
Por você.
Idiota.
Até quando, Eileen?
A voz dela sussurra.
— Cala a boca.
— Dess, nosso filho tá chorando!
Reviro os olhos.
Entrego Matteo a Enrico sem nem olhar direito.
— Cuida.
E saio.
Rápido.
Antes que eu faça algo pior.
— Não vai! — Enrico vem atrás. — Não seja burra!
Eu paro.
— Tio… você nunca falou assim comigo.
— Então escuta agora. — ele chega perto, baixo, firme. — Se continuar assim, ele descobre. Já está desconfiando.
Silêncio.
— Eu não vou fazer parte disso. Não à custa das crianças. Entendeu?
Eu abaixo o olhar.
— Entendi…
— Vamos embora.
— Quero esperar por ele.
— Agora.
A ordem vem pesada.
Eu cedo.
Por enquanto.
— Tá bom…
Em casa.
A camisola dela.
Curta.
Ajustada.
O perfume.
Sempre o melhor.
Me olho no espelho.
E rio.
Do horror dela.
Do outro lado.
— Hoje eu vou ter o que é meu.
A porta abre.
— Falando sozinha, mãe?
— Devia bater.
— Eu bati.
Antoine encosta ao meu lado.
Observa o espelho.
— Eu gosto disso.
— Eu também.
— São portais, né?
Eu sorrio.
— Muito mais do que parecem.
Ela me abraça por trás.
Doce.
Quase demais.
— Desculpa por hoje… eu exagerei.
— Tudo bem…
— Você tava certa sobre o Leo.
Eu viro um pouco.
Interessada.
— Tava?
— Total.
Ela começa a secar meu cabelo.
Devagar.
Quase hipnótico.
— Deve ser incrível atravessar… — ela sussurra. — Ir pra outro lugar… voltar…
Eu fecho os olhos.
Erro.
— É simples… — digo, relaxando demais. — Você só precisa aceitar seu reflexo… tocar… e deixar acontecer.
— E se eu não confiar nele?
Silêncio curto.
— Aí muda tudo.
Abro um sorriso.
Confiante demais.
— Se quiser prender o outro lado… você encara… condena… e quebra o espelho.
— E funciona?
— Pra sempre.
Ela para.
Um segundo.
— Você é muito inteligente, mãe.
— Só não tente isso.
— Claro que não.
O beijo no rosto.
Doce.
Falso.
A porta fecha.
E eu escuto…
a risada dela no corredor.
Quando acordo, é o beijo dele.
Finalmente.
Eu respondo na mesma intensidade.
— Esperei tanto por isso…
— Imagino… — ele murmura.
Mas tem algo errado.
Frio.
Distante.
— Me beija…
— Tô cansado, Dess.
Aquilo cai como um balde de água.
— Não. Agora.
— Amanhã. — ele já virando. — Só nós dois. Eu prometo.
Promessa vazia.
Ele vira.
Finge dormir.
Eu fico olhando pro teto.
Imóvel.
— Você não vê… — sussurro. — O quanto eu ainda te amo.
Inconformada com o desprezo, eu não espero.
Deslizo por ele na escuridão.
O corpo responde antes da mente.
Confuso.
Instintivo.
Ele me segura pelos ombros, como se quisesse entender o que está acontecendo… mas não para.
Nunca para.
O ar muda.
Fica pesado.
Antigo.
Por um instante, somos nós dois outra vez.
Sem nomes errados.
Sem fantasmas.
Sem ela.
Irlanda.
A lembrança vem como um golpe.
E ele cede.
Me puxa com força.
Como antes.
Como se ainda fosse meu.
Mas não é.
Nunca mais foi.
Quando tudo termina, ele se afasta primeiro.
Sempre ele.
Sempre primeiro.
— Você não devia ter feito isso.
A frase corta mais que qualquer rejeição.
— Por quê? — minha voz sai baixa, ferida. — Você é meu marido.
Ele ri sem humor.
— Sou?
Silêncio.
Ele entra no banho como quem foge.
Eu sigo.
Claro que sigo.
Água quente, vapor, pele.
Eu me encosto.
— Fica comigo.
Ele fecha os olhos.
Cansado.
Ou fingindo.
— Agora não. Estou atrasado.
Sempre existe um “agora não”.
Sempre.
— Só mais uma vez… — encosto nele, sem espaço entre nós. — Eu preciso de você.
Ele hesita.
Eu sinto.
O corpo dele ainda me reconhece.
O coração… nem tanto.
— Não posso…
— Você já me amou. — minha testa na dele. — Faz isso de novo.
Erro.
Eu sei.
Mas digo mesmo assim.
E ele quebra.
Não por amor.
Por fraqueza.
Por memória.
Por hábito.
E, mesmo assim…
é o suficiente.
Dessa vez, ele não está inteiro.
Eu percebo.
Cada segundo.
Cada silêncio.
Cada ausência.
Quando ele termina, se afasta de novo.
Mais rápido.
Como se eu queimasse.
Um beijo na minha bochecha.
Frio.
Educado.
Quase piedoso.
— Eu preciso ir.
E vai.
Como sempre.
— Não vai trabalhar? Tem faltado muito às aulas.
— Aulas?
— Na Just Dance, mãe. Esqueceu? Deve ter sido por causa do tombo… né?
— Sim… o tombo.
— Se quiser, passo lá e aviso que você tá doente.
— Seria ótimo, filha. — lanço um olhar rápido pra Vincenzo. — Não quero ficar longe do Matteo. Nosso filho precisa de mim…
Pausa.
Um sorriso torto.
— Nosso pequeno filho irlandês…
O silêncio pesa.
— Pai, pode ficar com ele? — Vincenzo pede, firme.
Enrico assente.
— Não tiro os olhos dele.
Antoine beija sua testa, depois encosta os lábios na minha bochecha.
— É por pouco tempo, mãe. Daqui a alguns dias, você volta.
— Volto… de onde?
— Pra academia. — ela sorri. — Não fica nervosa.
— Não estou.
Dou um passo até Vincenzo.
Beijo sua boca.
Sem pedir.
— Vou te esperar.
— Eu sei. — seco.
Ele nem me olha direito.
— Vamos, Antoine. Estamos atrasados.
O carro já está ligando quando eu ainda estou no portão.
Ele não espera.
Nunca espera.
— Você precisa me amar, Vincenzo… — rosno baixo.
— Amor não se implora, filha.
Viro devagar.
— Ele é meu.
Caminho até o quarto.
O choro de Matteo corta o ar.
— Ele é meu! Só meu! — explodo. — Por que essa criança não para de chorar!?
— Não fala assim! — Celeste entra na frente, protegendo o menino. — Ele é só uma criança!
— Eu tinha amor pelo meu filho! — cuspo. — Não por esse!
— Não toque nele.
— Sai da frente!
Um passo.
Outro.
— Ou eu passo por cima dos dois.
— Você está perdendo o controle, Eileen. — a voz dela vem firme. — Se contenha.
— EU NÃO QUERO! — o grito rasga. — EU QUERO MINHA VIDA DE VOLTA!
O tapa vem seco.
Limpo.
Eu travo.
Por um segundo só.
O suficiente.
Levo a mão ao rosto.
E sorrio.
Errado.
— Se não me ajudar… — minha voz baixa, venenosa — Eu te devolvo pra Legião. Exatamente de onde eu te tirei.
Silêncio.
Pesado.
Enrico dá um passo à frente.
— Você não faria isso…
— Faria.
Olho direto pra ele.
Sem piscar.
— A escuridão ensina muita coisa, tio. Inclusive… a parar de perder.
Inclino a cabeça.
— Tomaram o que era meu.
Um passo pra trás.
— Agora eu vou tomar de volta.
— Aonde vai? — ele pergunta, tenso.
Eu sorrio.
— Sério que ainda pergunta?
Corro.
O espelho me espera.
Ela está lá.
Sempre esteve.
— Não… — a voz dela grita do outro lado.
— Cala a boca.
Ergo a mão.
— Agora.
Celeste segura meu braço.
Forte.
— Não.
— Por que não!?
— À noite. — ela diz, calma demais. — Quando todos estiverem dormindo… fazemos isso juntas.
Enrico explode:
— Celeste, não!
Ela nem olha pra ele.
Só pra mim.
— Confia em mim.
Uma pausa.
Curta.
Perigosa.
— É pelo bem de todos.
Preparo o jantar com cuidado exagerado.
Cada detalhe no lugar.
Cada prato perfeito.
Irlanda à mesa.
Tio Enrico segura Matteo no colo. O menino não me olha. Se encolhe sempre que me aproximo.
Melhor assim.
Não preciso fingir.
Eu queria um jantar a dois.
Mas tenho plateia.
Leo. Cassie. O filho dela no colo.
Antoine, bem na minha frente, me observa como quem assiste a um espetáculo.
— Está delicioso, mãe.
Eu sorrio.
— Obrigada. Deu trabalho… mas valeu a pena. Ver o Vincenzo comer minha comida… me deixa feliz.
— Não só ele. — Cassie limpa os lábios, delicada demais pra esse ambiente. — Eu estou adorando. Nem sabia que você conhecia tão bem a culinária irlandesa… lembra de quando estivemos lá?
Ela suspira.
— Foram dias tão felizes…
— Dias felizes com Aiden?
O ar pesa.
— Ai, tio… — Cassie ri, sem graça. — Perdão. Nem pensei nisso…
Vincenzo se levanta, tranquilo demais.
— Foi de propósito. — beija a testa dela. — Não tenho ciúmes. Vocês se divertiram.
— Deveria ter. — corto, suave. — Aiden ainda ronda essa casa.
— Isso não procede, Adessa. — Enrico não levanta a voz, mas pesa. — Sirva mais vinho. Não se fala disso à mesa.
— Uau… — Antoine inclina a cabeça. — Nunca vi o vovô falar assim com você.
— Sinistro… — Leo cochicha. — Ela tá diferente.
— Depois te explico. — Antoine sorri, animada demais. — Hoje é uma noite especial.
— Sério? — Leo se inclina.
— Muito.
— Especial como?
— Depois.
— Antoine. — minha voz sai mais afiada do que eu queria. — O que você está aprontando?
Ela nem me olha.
— Quero sobremesa.
— Pavlova. — Celeste fala baixo, emocionada. — Fizemos pra você, meu anjo.
— Valeu, vó.
— Fui eu que fiz. — corto.
O sorriso de Antoine vacila.
— Passei horas na cozinha.
— Então não teve tempo pro seu filho. — Vincenzo afasta o prato.
Seco.
Direto.
— Claro que tive… — eu travo por um segundo. — Enquanto a torta assava, eu cuidei dele.
— É mesmo?
Ele não precisa levantar a voz.
Só me olhar.
— E ele não chorou em nenhum momento?
— Não. — sorrio. — Ele adora ficar comigo.
Silêncio.
Pesado.
Todo mundo percebe.
Enrico abaixa o olhar.
Celeste aperta o guardanapo.
Antoine… vibra por dentro.
Cassie tenta alimentar o filho, mas o menino vira o rosto.
— Ele não vai comer. — digo, fria. — Não enquanto o pai dele continuar envenenando o sangue dele.
A cadeira raspa.
Cassie se levanta, pálida.
— Tia…?
A voz dela quebra.
— Por que você está dizendo isso?
— Porque é verdade. — encaro. — Acorda. O Liam não é quem você pensa.
— Chega. — Celeste se levanta. — Já passou dos limites.
— Eu tô tentando ajudar! — minha voz sobe.
— Não. — Celeste firme. — Você está destruindo.
— Vai me deixar de castigo?
— Deveria. — Celeste segura o olhar. — Mas já não tenho poder sobre você.
— Poder? Do que você está falando?
Cassie aperta o filho contra o peito.
— O que o Liam fez ao meu Sean?
Eu rio.
Curto.
Errado.
— Não me chama de tia. Temos a mesma idade, lembra? — inclino a cabeça. — Ou você nunca percebeu as marcas nas coxas do seu filho?
Silêncio.
— Cala a boca. — Cassie treme. — Cala a boca agora.
— Mãe exemplar… — murmuro.
— Chega. — Celeste avança um passo.
— Melhor não. — rosno baixo. — Você sabe o que pode acontecer.
— Pronto… — Leo recua meio rindo, meio tenso. — Agora deu ruim.
— Cala a boca, moleque. — avanço sobre a mesa. — Sai da minha casa.
— Ele fica. — Vincenzo não levanta a voz.
— Boa, pai…
— Você vai deixar isso? — encaro Vincenzo. — Vai deixar ela falar assim comigo?
Ele não responde.
Só me observa.
Frio.
Calculando.
Celeste começa a recolher os pratos, mãos trêmulas.
— Eu ajudo. — Enrico se aproxima. — Leo, vem.
— Sério? Agora?
— Vai. — Antoine sussurra. — Confia.
Cassie já está chorando.
— Alguém me explica o que está acontecendo?
Ninguém explica.
Claro que não.
Vincenzo tira o celular do bolso.
Vira a tela pra mim.
Meu sorriso morre.
— Reconhece?
Vídeo.
Matteo chorando.
Eu.
Fria.
Distante.
Perigosa.
— Temos câmeras pela casa inteira, mamãe. — Antoine inclina a cabeça. — Ou devo te chamar de Eileen?
Silêncio.
Agora é real.
— Você sabia… — minha voz falha, depois endurece. — Desde o começo.
— Sabia o suficiente. — ela sorri. — Só precisava de prova.
Eu avanço.
Erro.
Vincenzo é mais rápido.
O braço dele prende meu pescoço.
Força.
Controle.
— Me solta…
— Ainda não.
— Temos uma surpresa pra você. — Antoine vem atrás, leve demais pra quem está destruindo tudo.
Ele me arrasta pelo corredor.
Quarto.
Porta.
— Tranca.
— Já tranquei.
Ele me solta.
Eu caio sentada na cama, puxando o ar.
A porta vibra.
— Me deixa entrar! — Celeste. — Por favor!
— Me ajuda, tia! — eu grito. — Eles estão me machucando!
A maçaneta gira.
Ela entra.
Fecha.
Tranca.
E se encosta na porta.
— Não. — a voz dela sai baixa. — Isso… é o que você merece.
Silêncio.
— Você trouxe a Escuridão de volta. — ela continua. — E já não é mais a minha Eileen.
— Traidora… — eu sorrio, sem humor. — Todos vocês.
Eu avanço.
Antoine levanta a mão.
E eu bato contra algo invisível.
Um muro.
Não passo.
— Acabou. — ela diz, calma demais. — Ele não te ama.
Eu rio.
Agora de verdade.
— Não precisa. — encaro ela. — Ele ainda é meu.
— Não. — um passo à frente. — Ele ama a minha mãe.
Ela aponta.
— Aquela que você prendeu.
O espelho.
Eu sorrio.
Lento.
Doente.
— E lá ela vai ficar.
Inclino a cabeça.
— Pra sempre.
A janela se abre com violência.
A chuva invade o quarto, molhando o chão de madeira.
Frio.
Caos.
Eu penso em correr.
Erro.
O braço de Vincenzo volta ao meu pescoço.
Firme.
Irrecusável.
Ele me arrasta até o espelho.
— Não… — fecho os olhos. — Não é assim que funciona.
— Eu sei como funciona. — a voz de Antoine vem calma demais. — Você me ensinou.
Meu estômago afunda.
— Basta dizer as palavras… e quebrar.
Eu rio.
Alto.
Errado.
— Idiotas. — cuspo. — Ela está do lado errado. Sou eu quem vai quebrar esse espelho.
Forço o corpo.
Ele me segura.
Mais forte.
Olho pra ele.
Desespero calculado.
— Vincenzo… olha pra mim. — Minha voz suaviza. — Eu posso te fazer feliz. Vamos embora. Só nós dois…
O reflexo entrega tudo.
Ela está lá.
Do outro lado.
De joelhos.
Chorando.
Fraca.
Ele vacila.
Claro que vacila.
— Tira ela de lá… — a voz dele quebra. — Eu faço o que você quiser.
— NÃO! — Antoine corta. — Eu sei como trazer a mamãe de volta.
Ela encosta a mão no espelho.
O vidro reage.
Queima.
Ela recua com um grito.
Eu sorrio.
Agora sim.
— Esse não é o seu mundo. — digo baixo. — Você não atravessa escuridão.
— Mas eu atravesso.
A voz de Celeste.
Atrás.
— Não… — eu viro, furiosa. — Você não...
— Você se perdeu, filha. — ela diz, firme. — E eu não vou deixar isso continuar.
— Se você atravessar, eu te entrego pra Legião! — avanço. — Eles ainda te querem!
Vincenzo fecha os olhos.
— Mãe… não.
Celeste só olha pra mim.
Triste.
— Eu ainda te amo, Eileen.
Pior coisa que ela podia dizer.
Ela segura minha mão.
Antoine segura a outra.
E o mundo cede.
O espelho pulsa.
Abre.
Frio.
Escuridão.
Eu luto.
Tarde demais.
Somos puxadas.
Do outro lado, tudo respira errado.
Sombras.
Presenças.
A Legião observa.
Celeste fecha os olhos.
Aceita.
Mas Enrico não.
Ele surge.
Rápido.
Puxa ela de volta.
Um segundo.
Só um segundo.
Suficiente.
Vincenzo já está com ela.
Com a verdadeira.
Com a esposa.
Com a vida dele.
Meu peito queima.
— NÃO!
Do outro lado, eu fico.
Sozinha.
— Quebra! — Antoine grita.
— Filha! — eu avanço.
— Agora!
A outra hesita.
Um instante.
Então envolve a mão na toalha.
Olha direto pra mim.
E repete:
— Eu te condeno ao exílio eterno, Eileen.
Uma vez.
— Eu te condeno ao exílio eterno.
Duas.
— Eu te condeno ao exílio eterno.
Três.
O golpe vem seco.
O espelho estilhaça.
E o mundo…
se fecha.
O som ecoa como um fim.
Mesmo depois… ainda ouvimos.
Os gritos.
Longos.
Distorcidos.
Desaparecendo aos poucos, engolidos por algo que nenhum de nós ousa nomear.
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
Eu desabo.
Choro no peito de Vincenzo, sem força, sem defesa.
Ele me segura.
Dessa vez… de verdade.
Celeste grita.
Um som cru, rasgado, que não combina com nada humano.
Enrico a envolve, firme, tentando conter o que não tem contenção.
— Acabou… — ele sussurra, mais pra si do que pra ela.
Mas ninguém acredita nisso ainda.
No chão, os fragmentos do espelho refletem pedaços de nós.
Rostos quebrados.
Histórias quebradas.
Antoine não para.
O taco desce.
Uma vez.
Outra.
E outra.
Madeira contra vidro.
Raiva.
Controle.
Ela só para quando não sobra nada que possa refletir.
Nada que possa voltar.
Nada.
O silêncio volta.
Diferente agora.
Mais frio.
Antoine gira o taco na mão.
Respira fundo.
E então:
— Acabou.
Pausa.
Ela olha ao redor.
Pra mim.
Pro pai.
Pra avó destruída.
E dá de ombros.
— Tô com fome.
Mais uma pausa.
Curta.
Incômoda.
— Vou pegar a torta.
Ela sai.
Como se nada tivesse acontecido.
E é exatamente isso que torna tudo pior.
De volta à vida, ainda tentando costurar o que sobrou de mim, crio uma rotina.
Depois de cada aula na Just Dance, passo na creche.
Mesmo com Celeste e Enrico se oferecendo.
— Confio em vocês. Confio mesmo. — digo sempre. — Mas… espelhos ainda me assustam.
Não explico mais do que isso.
Não preciso.
Com Matteo no colo, eu respiro.
Beijo o rosto dele inteiro enquanto ele gargalha, como se nada no mundo pudesse quebrar aquilo.
No carro, preso na cadeirinha, ele me observa pelo retrovisor.
— Mamãe dodói?
Aquilo me atravessa.
— Não, filho… — engulo o nó na garganta enquanto estaciono em frente ao colégio de Antoine. — Nunca mais. Eu prometo.
A promessa pesa.
Sempre pesa.
Vejo Antoine saindo pelo portão.
Ela vem na minha direção como se o mundo fosse pequeno demais pra ela.
Linda.
Forte.
E… errada demais pra ser só humana.
Ela entra no carro sem pedir licença.
Joga a mochila no banco de trás.
Beija Matteo.
— Pra lá eu não volto.
Pronto.
Lá vem.
— Quem, filha? Os alunos? Voltaram com aquele papo idiota sobre seu cabelo?
— Não! — ela revira os olhos. — Agora é peito.
Silêncio.
— Merda!
— Merda! — Matteo repete, feliz da vida.
Eu quase rio.
Quase.
— Filha… calma. — respiro fundo. — A gente conversa.
Mentira.
Eu não faço a menor ideia do que dizer.
Ela cruza os braços.
— Eles me olham como se eu fosse… sei lá… um negócio estranho.
— Eles não te conhecem.
— Ainda bem. — ela rebate rápido. — Porque se conhecerem vão descobrir que eu sou uma aberração mesmo.
— Não fala assim.
— Então fala você. — ela me encara. — O que eu sou?
Eu travo.
Bonito.
Parabéns pra mim.
— Você é minha filha. — respondo, mais firme do que eu me sinto. — E isso já deveria bastar.
Ela desvia o olhar.
— Eu não quero ser especial. — a voz dela cai. — Quero ser normal. Quero gostar de alguém sem parecer… isso aqui.
Isso aqui.
Como se nem ela soubesse explicar.
Matteo aponta pra mim, rindo.
— Mamãe!
Eu encosto a testa no volante por um segundo.
Só um.
— Certo… — murmuro. — Querubim na puberdade.
Respiro.
— Perfeito.
— A porcaria do Leo não se decide! — Antoine dispara. — Ele ainda me vê como irmã mais nova! Eu cresci! Quero ficar com ele, brincar, lutar… sei lá! Eu não volto praquela escola!
— Seios. — corrijo, automática. — E o diretor? Encostou em você? Falou alguma coisa?
— Não, mãe! — ela bufa. — Eu ouvi seus pensamentos.
Silêncio.
— Que pensamentos, Antoine?
— Dess. — Vincenzo corta, baixo. — Menos.
— Menos é o inferno! — viro pra ela. — Que tipo de pensamento aquele cara teve?
— Relaxa. Ele é gay. Só achou… estranho. Pensou se era silicone.
Eu travo um segundo.
Ela ri, sem humor.
— Silicone? Eu? Pelo amor de Deus. — respira fundo. — Eu não piso mais naquela escola.
Matteo gargalha no carrinho.
— Merda!
— Não fala isso! — digo, mas sorrio sem querer.
— Eu não preciso estudar. — Antoine continua. — Eu gabarito tudo antes de ensinarem.
— Na sua idade eu não sabia nem por onde começar — murmuro.
— Ainda não sabe.
— Engraçadinho.
— Não foi piada. — Vincenzo comenta, seco.
Eu acerto um tapa leve no braço dele.
— Ajuda ou fica quieto.
Ele levanta as mãos.
— Só estou constatando.
Antoine cruza os braços.
— Tá vendo? Vocês brigam e continuam juntos. Eu quero isso.
O clima muda.
Eu olho pra Vincenzo.
Ele entende.
— Temos um problema — ele diz.
— Tem tempo pra tudo, filha — Enrico entra, calmo, escolhendo tomates. — Você ainda vai...
— Eu não tenho tempo! — Antoine corta.
Aquilo me atravessa.
— Nunca mais fala isso. — minha voz sai baixa demais.
— Mas é verdade...
— Nunca. Mais.
Ela desvia o olhar.
Celeste surge ao nosso lado, leve demais praquele lugar.
— Olha o que eu achei pra você.
— Um batom? — os olhos de Antoine brilham. — Vermelho?
— Da sessão de beleza — Celeste explica, orgulhosa. — Nossa menina está crescendo.
— E rápido demais — resmungo.
— Qual o problema de um batom? — Vincenzo murmura perto do meu ouvido. — Deixa ela viver.
“Viver.”
Palavra errada.
No momento errado.
— Tira isso — peço a Celeste.
— Mas ficou tão bonito…
Antoine já tenta se ver no espelho acima das frutas.
Eu observo.
E lembro.
Olhares.
Mãos.
Intenção.
Corpos à venda.
“California”
Não gosto.
— Pai… tô bonita?
Vincenzo respira antes de responder.
— Tá. Muito. Mas ainda é criança.
— Sou?
Ele hesita.
— Obedece sua mãe.
— Certo, chefe.
Ela gira, satisfeita… até travar.
— Cassie!
Sai correndo.
Rápido demais.
Nós seguimos.
Vincenzo segura meu braço por um segundo.
— Cautela. — ele sussurra. — Ela já sofreu o suficiente.
Eu assinto.
Mas o peito aperta.
— Cassie?
— Tia? Você melhorou?
— De quê?
— A “outra morreu”! — Antoine se joga nos braços de Cassie. — Essa é a minha mãe de verdade!
— Graças a Deus… — Cassie sorri, mas o sorriso não chega aos olhos. Disfarça os hematomas nos braços e no pescoço puxando o casaco. — Criatura bizarra aquela. Nunca vou esquecer o que ela disse.
— Quem disse o quê?
— Nada, Liam. — A voz dela falha. — Bobagem.
— Liam, você está bem? — Vincenzo observa, atento.
— Nunca estive melhor. E você? Ainda em cima do muro?
Nossos olhares vão de um para o outro, como se estivéssemos assistindo a uma partida prestes a explodir.
— Quando caí, não havia muros, irmão. Não havia lados. Meus pés estão firmes na terra úmida e fresca. — Vincenzo inclina levemente a cabeça. — Lamento que os seus estejam sujos de lama.
— Uau. Essa foi boa, papai.
O ar muda. Sinto antes de ver. Protejo Matteo contra o meu corpo quando faíscas dançam nos olhos de Liam.
— Esse batom cor de puta te cai bem, Antoine. Puxou à mãe.
— Liam! — Cassie arranca Sean dos braços dele, desesperada.
Tarde demais.
O soco de Vincenzo vem seco, direto. Um uppercut limpo. Liam vai ao chão.
E ri.
Limpa o sangue com a manga como se fosse nada.
Cassie se ajoelha ao lado dele, tremendo, pressionando a fralda contra o nariz dele. Me entrega Sean sem nem perceber.
O supermercado vira um ruído distante. Gente olhando. Cochichos. Medo.
Fecho os olhos.
E vejo.
Não o que está na frente de todos.
A verdade por baixo da pele.
Uma verdade feia. Irreversível.
Quando abro os olhos, já sei: aquilo não vai terminar ali.
Em casa, a tensão não evapora. Ela fermenta.
— Não é não, Antoine!
— Eu não preciso estudar! Você sabe disso! Eu não gosto da forma como me olham! Eu tenho o dobro do tamanho deles!
— São os hormônios, cacete!
— Não, mãe! Acorda! Eu sou uma aberração!
As sacolas caem no chão. Seguro os braços dela, firme.
— Nunca mais repete isso. Entendeu? Você é minha filha. Eu te encontrei na praça vendendo balas. Você é Antoine Rossi. Filha de Vincenzo Rossi e Adessa Rossi. Irmã de Matteo Rossi. Entendeu?
— Entendi. Haja saco pra tanto Rossi.
Celeste gargalha, meio solta demais.
— E ainda faltaram o meu e o do seu avô!
Ela ri, vinho na mão, leve demais para quem já viu o inferno. Isso me incomoda mais do que deveria.
— Você faz parte de uma família especial, meu anjo… — diz ela, ajoelhando diante de Antoine. — Não despreze isso. Você é muito mais do que imagina. Veio ao mundo com uma tarefa.
— Qual?
— Não sei!
Enrico a levanta, paciente, como sempre.
— Já não somos tão jovens.
— Mas ainda estamos no jogo.
— Sempre!
Eles se beijam.
Patético.
Fofo.
Perigoso, de um jeito que eles nem imaginam.
— Tá vendo? — Antoine explode. — Até eles têm o que eu não tenho! Dois velhos têm o que eu não tenho! Eles namoram! São amigos!
— Respeite seus avós! — Vincenzo tenta manter alguma ordem, o pobre iludido.
Eu quase rio.
Quase.
O celular toca.
— É O LEO!
A transformação é instantânea.
A menina em chamas vira seda.
— Oi… tudo bem?
— Sério isso? — Vincenzo arregala os olhos. — Cadê a revoltada?
— Aí vem coisa… — murmuro, já cansada.
E vem.
Arrumo as compras no armário. Matteo pede “nanana”. Celeste e Enrico vivem um comercial de margarina na bancada.
Então o grito corta tudo.
— É o quê???
— O Leo me chamou pra uma festa! Eu preciso de um vestido… tipo… de princesa!
— Oi???
— Um vestido de princesa! — Celeste bate palminhas. — Nossa neta vai ao baile!
— Não vai! — corto seco. — Ela tem prova amanhã!
— Mamãe, eu preciso ir! É o baile do ano! Ele me chamou pra dançar! Ele me escolheu!
— Eu ouvi! E a resposta continua sendo não!
— Por quê!?
— Porque não!
— Isso não é resposta!
— Então ouve melhor: não é não!
— Pai!
Vincenzo esfrega o rosto.
— Parem de gritar…
Matteo chora. Claro que chora. Sempre sobra pra ele.
Levo ele pra varanda, o coração apertado demais pra caber no peito.
— Mamãe dodói…
— Não, filho… — sussurro, beijando o cabelo dele. — É medo. Só isso.
Vincenzo vem atrás.
— De quê, Dess?
— Você esqueceu? Ela disse que não chegaria aos quinze.
Ele hesita. Péssima escolha.
— Ela está longe disso.
— Está? Olha pra ela! Ela não deveria nem estar assim! E se…
— Ela foi bem criada. Não é do tipo…
— Para! Não é sobre isso! — seguro o braço dele. — Ela muda perto do Leo. Cresce. Rápido demais.
Agora ele entende. Um pouco.
— Ele é um bom garoto.
— Não é sobre ele. É sobre ela. Eu não vou perder minha filha.
Ele me puxa, encosta a testa na minha.
— Você não vai.
A voz dele é firme.
Mas não é certeza.
Nunca é.
— O Leo tá chegando! — Antoine grita do portão, radiante.
Vincenzo solta um suspiro pesado.
— Puta merda…
Leo chega manso. Educado. Quase irritante de tão certo.
Com calma, ele puxa Antoine de volta pro eixo, sem confronto, sem drama. E funciona. Claro que funciona.
Ao lado dele, ela desacelera.
— Foi mal, mãe…
O abraço vem forte. Necessário. Eu a aperto como se pudesse impedir o tempo de avançar. Como se isso resolvesse alguma coisa.
Atrás de nós, Celeste e Enrico transformam a paz recém-conquistada numa festa improvisada.
— Alexa! Toca aquela outra! — Celeste ri, encantada com a “caixinha preta” que responde.
— Essa tecnologia é um milagre moderno! — ela declara, como se não tivesse atravessado o inferno semanas atrás.
Enrico acompanha, feliz demais. Simples demais.
Na varanda, tudo parece… normal.
O tipo de normal que precede tragédia.
Sentados no sofá, Vincenzo, Leo e Antoine conversam sobre o baile. Matteo, no meu colo, exige movimento constante na cadeira suspensa. Paro por um segundo.
Ele reclama.
Volto a balançar.
Obedeço.
Ouço.
— Se você não quiser, tia, tudo bem. Tô de boas. — Leo dá de ombros. — Não preciso ir à festa. Nem é muito a minha praia. Só pensei nela… — ele aponta com o queixo pra Antoine — Porque ela ama dançar. Ama música. E a galera lá também.
Direto. Sem pressão.
— Faixa etária da “galera”? — corto.
Ele nem pisca.
— Entre quinze e dezenove. Não conheço todo mundo, mas o meu amigo é tranquilo. Não se mete com droga, essas paradas…
— Tábua Ouija?
Ele ri.
— Nada disso. Já foi. Aprendi. — olha direto pra mim — Graças a você.
Não gosto de quando ele acerta.
— Antoine não tem quinze anos.
— Mãe!
— Não tem?
— Eu tenho! — ela dispara, rápido demais. — Tipo… quase isso, Leo!
Quase.
Quase é mentira com maquiagem.
— Tenho quatorze… faltam uns meses… né, mãe?
Silêncio.
Vincenzo entra.
— Isso não vem ao caso, Leo. — a voz firme, mas calma. — Nosso receio é outro. Ambiente estranho. Gente estranha. Você entende.
— Entendo. — Leo inclina a cabeça. — Por isso eu vim.
Eu travo.
— Como assim?
— Convite. — ele sorri, simples. — Da aniversariante.
— Convite? — repito, já sentindo o problema crescer.
— Ela conhece seu trabalho na Just Dance. A irmã dela faz aula com você. — pausa, estratégica — Queria saber quanto você cobra pra montar uma coreografia pro baile.
Silêncio.
— Aquela coisa meio cafona… príncipe, princesa… essas paradas.
— Eu?
— Quem mais, tia? — ele ri. — Você manda muito bem. E ainda ficaria lá… de olho nela. — aponta de novo pra Antoine — Caso ela resolva tacar fogo em alguém.
Risadas.
Todas.
Menos a minha.
Porque eu entendi.
Ele não veio pedir.
Veio resolver.
Veio abrir a porta com cuidado… e me fazer atravessar por vontade própria.
E o pior?
Funcionou.
Olho pra Antoine.
Olhos brilhando. Esperança crua.
Olho pra Matteo.
Seguro. Pequeno. Ainda meu.
E ali, no meio daquele cenário quase perfeito, uma certeza feia se instala:
Não é o baile.
Nunca foi.
É o começo da perda.
E eu tô vendo acontecer… sem conseguir impedir.
— Tô exausta. — desabafo ao lado de Vincenzo, afundando no colchão. — O dia foi longo demais.
— Suas emoções te consomem, Dess. — a voz dele vem baixa. — Você precisa ser mais fria.
— Fria? — solto um riso curto, sem humor. — Você é frio como gelo. E, só pra constar, não encare isso como um pedido… mas você nunca mais me tocou. Eu vi tudo naquele maldito espelho.
— Não começa, Dess… — ele suspira, cansado. — Se viu tudo, também viu como aquela coisa me provocou.
— Sei. Boca naquilo. Aquilo na boca. — cedo rápido demais. — Ok. Deixa pra lá.
Cubra o rosto com as mãos. Não quero mais uma guerra.
— Não quero pensar nisso. Só… no que importa agora.
Ele se aproxima. O braço me envolve, firme. O beijo na nuca vem como antes.
E, como antes, eu choro.
Quieta.
— Dess… perdão. — a voz dele falha. — Não fica assim por minha causa. Eu te amo e...
— Não é por você… — corto, entre soluços. — Foi pelo que eu vi hoje.
Silêncio.
— Quando você tava com o Sean?
Assinto.
— Você sumiu, amor. — ele continua. — Não viu nada. Segurança, gerente, gente filmando… Liam no chão. Se meu pai não tivesse pego o Matteo…
A culpa vem inteira.
— Perdão…
Minha voz quebra.
— Eu… eu não consegui voltar.
Ele se move rápido. Vira meu corpo, me prende ali, me obrigando a encarar.
— Vai me contar ou eu vou ter que arrancar isso da tua cabeça?
Encolho.
— É terrível. — sussurro. — Eu resolvo. Sozinha.
Erro clássico.
Ele trava o maxilar. A mão firme no meu queixo.
— Chega. — baixo, perigoso. — Chega de você querer salvar o mundo sozinha. Você ficou presa na porra de um espelho por causa da minha família. Nunca mais faz isso. Nunca mais sozinha.
Os olhos dele nos meus.
— Nós estamos juntos nisso. Entendeu?
Assinto.
Não confio na minha voz.
— Então fala. Agora.
Ele já sabe.
— Eu sei que a Cassie tá sofrendo com aquele desgraçado. — continua. — O que mais você viu?
Respiro.
Dói dizer.
— Sean…
— O que tem o menino?
Fecho os olhos.
— Ele não vai sobreviver… se eu fingir que não vi nada.
Silêncio.
Pesado.
— Ele tá doente, Dess. — Vincenzo tenta racionalizar. — A gente ajuda. Dá um jeito. Olha pra mim e diz que isso é exagero.
Olho.
E destruo.
— Não é.
As palavras saem secas.
— Sangue de bebê alimenta eles.
Ele congela.
— O quê?
Sento na cama, tentando não desmoronar.
— A Legião se alimenta de inocentes. — minha voz falha, mas não para. — E se multiplica.
Levanto o rosto.
— Aquele homem que pediu ajuda… não existe mais. — engulo seco. — Cassie tá presa com um monstro. E o Sean… ele tá sendo consumido. Aos poucos.
O quarto fica pequeno.
O ar some.
— Maldito… — Vincenzo rosna, levantando da cama, andando de um lado pro outro como um animal preso. — Como a gente tira eles de lá?
Agora ele tá dentro.
Sem volta.
— Você tá comigo? — pergunto, mesmo já sabendo.
Ele para.
Olha.
Decide.
— Como? E quando?
Boa.
Agora somos dois condenados.
Endireito a coluna. Limpo o rosto.
— Na noite do baile.
Silêncio.
E dessa vez…
não é medo.
É guerra.
Impressionantemente, os jovens de hoje se apegam às músicas que ouviram de seus pais que, por sua vez, as herdaram de seus próprios pais. Como se o amor, assim como a dor, fosse uma herança que ninguém consegue recusar.
Surpreendo-me — e, por um instante, até me permito gostar disso — quando a debutante me pede uma coreografia que nos leve de volta a um outro tempo.
— Elliot James é o meu “crush”, tia. Não conta pro meu namorado… eu amo essa música.
Confessa rindo, como se o mundo ainda fosse simples.
Ensaiamos até a exaustão. Um dia antes da grande noite.
Grande em todos os sentidos.
Para ela.
Para Antoine.
E, principalmente… para Cassie.
Apesar da devassidão disfarçada de liberdade, ainda existem aqueles que acreditam em amor de baile. Em mãos dadas sob luzes quentes. Em promessas que sobrevivem ao tempo.
Eu observo aquilo tudo como quem olha através de um vidro.
O que eu posso dizer a ela?
Que sonhos não sobrevivem ao mundo real?
Que amor… cobra caro?
— Todos em seus lugares! — minha voz corta o salão. — Esse é o último ensaio. Eu não estou lidando com crianças.
A imagem de Thor me atravessa sem aviso.
Engulo o choro.
Respiro.
Foco.
Leo e Antoine se movem com uma sintonia que me incomoda mais do que deveria.
Não é técnica.
É sentimento.
Ele finalmente a vê.
Não como a menina que corria atrás dele.
Mas como alguém que ele pode perder.
— Não! — explodo. — Eu não admito erros!
O silêncio que se segue pesa.
Pesado demais.
Olhares assustados. Jovens demais para entender de onde vem essa raiva.
Fecho os olhos.
— Desculpem… — minha voz sai mais baixa. — Vamos de novo. Antoine e Leo erraram.
Uma chuva de vaias. Algumas palmas irônicas.
E então, como um eco cruel, eles começam a cantar, debochados:
“Eles chamam isso de amor...?”
Aquilo me acerta em cheio.
Para tudo.
O ar trava nos meus pulmões.
Fecho os olhos.
Eu preciso terminar isso.
Não é só uma coreografia.
São duas.
A do baile…
e a do resgate.
Um passo errado… e eu perco tudo.
Eles.
Cassie.
Sean.
Saio do ginásio antes que alguém perceba o quanto estou prestes a quebrar.
Vincenzo está lá fora, com Matteo nos braços.
Seguro.
Presente.
Real.
E isso quase me destrói.
Enterro o rosto em seu ombro.
— Eu não sou tão forte assim… — confesso, finalmente. — Eles se amam. Eu vi… eu senti.
Minha voz falha.
— Nós vamos perder nossa garotinha.
Ele não responde de imediato.
Só me envolve.
Firme.
Como sempre faz quando o mundo desaba.
— Ela nunca foi nossa, Dess. — diz baixo. — Nunca.
Aquilo dói.
Mas é verdade.
— Tenha fé. O amor muda tudo.
Amor.
Essa palavra de novo.
Levanto o rosto.
E então eu vejo.
Leo e Antoine vêm caminhando em nossa direção, de mãos dadas.
E, pela primeira vez…
eu enxergo.
Não só eles.
Mas o que existe entre eles.
A aura dele.
Luz.
Pura.
Viva.
Perigosa.
Repito, quase sem perceber:
— O amor muda tudo.
E, pela primeira vez…
eu não sei se isso é uma esperança
ou uma ameaça.















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